06 de Março de 2008

A Batalha de Guararapes

Ilustração

Agora sim, as duas xilogravuras digitais que fiz para uma matéria da revista Aventuras na História sobre a(s) Batalha(s) de Guararapes. Esta são as versões de que mais gosto; na revista devem sair as versões coloridas das mesmas gravuras (sim, alguns cordelistas, incluindo o grande Jota Borges, fazem xilogravuras coloridas).

O número 57 da revista deve estar nas bancas em meados de março. Clique para ampliar.

20 de Julho de 2007

O executivo que defecava dinheiro

Ilustração

Estrogonoficamente sensível homenagem a O cavalo que defecava dinheiro, o inoxidável cordel de Leandro Gomes de Barros.

28 de Setembro de 2006

The Great Fire Of London

The Net

Meu genial parceiro inglês, o produtor de teatro/cenógrafo/ilustrador Julian Crouch, que vasculhou comigo o sertão do nordeste durante a célebre Expedição Cordel, escreveu-me esta semana.

. . . Paulo,

Fiz semana passada um trabalho em conjunto com um amigo meu, o ator Toby Jones, que também escreve um pouco.

Um homem chamado David Jubb havia me pedido para produzir alguma coisa para o seu teatro, The Battersea Arts Centre, a fim de celebrar os seus 25 anos de produções. David estava organizando uma noite com uma série de peças de cinco minutos sobre o tema O INCÊNDIO DE LONDRES.

Eu estava ocupado demais para preparar um espetáculo, mas ofereci algumas xilogravuras para fazerem parte de um impresso que ele poderia distribuir aos espectadores. Eu não tinha tempo para escrever o texto por isso por isso ofereci a tarefa a meu velho amigo Toby Jones, que eu sabia ter uma especial apreciação por histórias forjadas. Ele está sempre viajando pelo mundo, desta vez promovendo um filme nos Estados Unidos, e entre uma coisa e outra filmando outro na Polônia e na Alemanha. Concordamos por telefone que ele contaria a história de uma companhia de teatro fictícia, a respeito da qual muito pouco se sabia ao certo. Decidimos que não nos esforçaríamos demais para casar o texto com as ilustrações. Ficou também decidido que David Jobb serviria de editor e escolheria o leiaute do livro (no final decidimos fazer três livrinhos). A única coisa que pedi é que os livros fossem do tamanho de um folheto de cordel.

“A única coisa que pedi é que os livros fossem do tamanho de um folheto de cordel”.

A noite foi formidável. . . uma noite divertida e empolgante, com espetáculos espalhados por todo o edifício. Nossos livros foram distribuídos por um homem queimado que trazia nas mãos um balde, e não parava de tossir. O interessado tinha de persuadi-lo a lhe entregar um livro. O ator fez bem o seu trabalho. Os livros acabaram tornando-se como que itens de colecionador: gente trocando, tentando obter o segundo volume antes do final da noite, aquela coisa. Não tenho certeza de que alguém tenha conseguido lê-los propriamente naquele ambiente, mas nem uma cópia foi deixada no chão, e imagino que tenham sido todos lidos nos ônibus noturnos até encontrarem seu destino nas privadas do banheiro de cada um.

De qualquer modo, como você sabe, esses livrinhos nunca teriam sido feitos sem nossas aventuras de um ano atrás. . . Naturalmente que reaproveitei todas as minhas velhas xilogravuras. Sinto enorme prazer em reusar imagens antigas, em recortar e colar. Há muito da nossa história nessas imagens.

Clique para ver mais

Clique para ver mais

Clique para ver mais

23 de Agosto de 2006

Os primeiros blogueiros

História

É costumeiro associar historicamente os folhetos de cordel à tradição dos trovadores medievais, que coloriam com versos e improvisações as feiras locais e religiosas da Europa. De fato, o cordel é em grande parte instrumento de transição – materialização escrita de uma cultura fundamentalmente oral, de cantorias, de repentes, de epopéias que os filhos capturavam nas vozes dos pais.

A imprensa chegou ao Brasil via Dom João VI, mas era brinquedo de uso exclusivo da Corte no Rio. O imaginativo cantador oral parece ter existido desde sempre nos caminhos do sertão nordestino, mas foi necessário esperar até meados do século XIX (segundo Câmara Cascudo, o primeiro folheto de cordel foi impresso em cerca de 1840) para que a imprensa, aportada em Recife, desse voz escrita ao que já corria célere e sem arreio pelas feiras e festas do interior. Foi porém nas duas primeiras décadas do século XX – com a emigração impulsionada pelo ciclo da borracha e com a republicação de folhetos clássicos pelo Padre Cícero em seu jornal O Rebate – que o cordel alcançou consagração definitiva no nordeste (que naquela época chamava-se simplesmente Norte). A década de 1920 foi também testemunha do rico e complexo ciclo do cangaço, que acabou contribuindo com indispensáveis arquétipos para a vasta mitologia da literatura de cordel.

Conta-se que o próprio Lampião era totalmente avesso à invasão do sertão pela cidade, e tomou medidas violentas para evitar a construção de estradas. Nesse cenário, o imponderável intrumento de conexão entre o sertão e a cidade era precisamente o folheto de cordel. Para a isolada população rural, os folhetos faziam as vezes de jornal, revista, novela e livro. Eram comprados por distribuidores na cidade grande (primeiro Recife, depois Juazeiro do Norte), carregados em malas abarrotadas e vendidos onde quer que houvesse gente, sendo oferecidos no chão sobre esteiras ou panos (e nunca pendurados em cordões, como exige a mitologia posterior).

Fiéis à sua origem oral, os folhetos de cordel sempre foram (e permanecem sendo) feitos para serem lidos em voz alta. Na feira rural, o que o vendedor basicamente fazia era apregoar em poderosa entonação o conteúdo dos folhetos que tinha para vender. Os melhores vendedores eram os de melhor oratória; os folhetos mais vendidos os que tinham para contar melhor história ou mais inusitada notícia. O comprador, por sua vez, voltava da feira levando para sua comunidade o indispensável: café, tabaco, roupa e cordel. E naquela mesma noite reuniam-se todos ao redor do afortunado que sabia ler, a fim de – via cordel – inteirarem-se das notícias, ouvirem crítica social, derramarem lágrimas, recordarem epopéias antigas e maravilharem-se diante das novas. O caráter escrito do folheto de cordel era sempre contingente e temporário: o livrinho nascia e vivia para ser cantado, declamado, pronunciado; ouvido muitas vezes mais do que lido, e por mais gente.

Abraçando um espectro tremendamente amplo de assuntos e abordagens, os autores de cordel foram efetivamente os primeiros blogueiros do nordeste brasileiro – tendo usado seu instrumento tanto para recontar histórias novas ou velhas quanto para popularizar idéias que lhes interessavam. Embora tenham brotado fundamentalmente ao redor dos êxitos e dramas do cangaço e de uma visão épica da vida do boiadeiro, houve desde o começo cordéis sobre tudo: literatura, política, ciência, sátira, religião comparada, crítica social, moralidade, medicina popular, morte, sexo, filosofia, drama e humor.

Essa vocação universal permaneceu mesmo diante do choque da década de 1950, quando a migração para o sudeste e a competição do rádio submeteram o cordel a novas pressões e influências. Em São Paulo nasceria, sem qualquer trauma maior, o cordel de temas urbanos; no nordeste, a literatura de cordel acabaria apostando sua singularidade em temas que por sua natureza eram considerados impróprios para o rádio.

Sublimado, o cordel sobrevive à era da televisão e da internet. Em termos recentes, sua encarnação/assimilação mais bem sucedida está na obra de Ariano Suassuna, cujo Auto da Compadecida (adaptação declarada de três folhetos clássicos de cordel) conquistou o Brasil inteiro com sua graça singular – em versões para o teatro, a televisão e o cinema.

Por três semanas entre setembro e outubro de 2005 empreendi (na companhia de um amigo britânico, o teatrólogo Julian Crouch) uma expedição pelo sertão e pelo agreste nordestino em busca das fontes perdidas da literatura de cordel. Conversamos com inumeros cordelistas, gravuristas, repentistas e aficcionados, de gerações passadas e cabelos brancos (vêem-me à mente Jota Borges, de Bezerros, e Manuel Monteiro, de Campina Grande) e recentes e de cabeça cheias de sonhos (Willian Brito, do Crato, e Arievaldo Viana, de Fortaleza). Visitamos feiras e festas religiosas e estações rodoviárias; buscamos numa nave de igreja, entre peregrinos, abrigo para o calor da bem-aventurada Canindé; vimos mais de um artista gravando “tacos” com facas e goivas e estiletes; conversamos com um entusiástico Willian Brito num restaurante de Juazeiro, e um docílimo João Pedro gravou-nos e imprimiu-nos uma xilo em sua oficina de Fortaleza; fomos cordialmente abraçados em todo lugar, e dançamos Jackson do Pandeiro bebendo cerveja na arejada sala de Arievaldo; testemunhamos milagres, dormimos em rede, comemos bolo e queijo de coalho e baião de dois e tapioca e açaí e buchada de bode.

Voltamos com a mala cheia de panfletos e xilogravuras e matrizes de madeira. Voltamos com a cabeça cheia de histórias, de piadas, de declamações apaixonadas e cadenciadas de noites e fogueiras e fogos de artifício. Voltamos com a convicção de que o cordel permanece vivo de tantas formas que é impossível contar. Hoje creio que aqueles que apostam na singularidade do cordel não são, como eu imaginava, visionários: são gente que conhece bem a história que ainda tem para contar.

26 de Dezembro de 2005

Como dormir numa rede

Brasil

Eu e o Julian passamos duas noites da Expedição Cordel na arejada mansão do engenhoso Arievaldo Viana em Caucaia, cidade tão próxima a Fortaleza que chega a ser indistinguível dela. Foi no seu escritório, transformado em dormitório para nosso benefício, que o Ari introduziu-nos no segredo milenar de como se dormir numa rede – ou baladeira, que é o inevitável nome pitoresco que ele usa.

Eu adoraria, para benefício dos leitores da Bacia, ter filmado a impagável demonstração que o Arievaldo (como em tudo mais) tão entusiasticamente nos fez. Posso no entanto repetir o essencial: numa baladeira não se dorme de comprido (A), como um defunto, nem perpendicularmente (B), na posição de crucifixo. Ambas as posições podem ser fatais para a sua coluna e para o dia seguinte.

A recomendação do especialista é deitar na rede transversalmente©, com os membros espraiados. Nessa posição a rede fica mais aberta e mais nivelada e a sua espinha mais reta: com alguma sorte você e sua coluna poderão sobreviver a uma noite inteira desse abuso, fato do qual eu mesmo sou evidência palpável.