17 de Dezembro de 2011

Sobre manipular antônimos

Manuscritos, Política

As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.

A narração inicial de Árvore da vida, de Terrence Malick

 

É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo.

Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. “Qual é o contrário de [determinada coisa]” é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.

Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia1? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. “Qual é o contrário disso?” pode também significar “existirá uma alternativa a isso?”, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.

Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, “o contrário de capitalismo é socialismo” é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.

Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência – aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.

Leia também:
O lado esquerdo de Hitler
Sobre dar nome a primatas
Sobre o costume de agrupar livros

NOTAS
  1. Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido “homoafetivo”, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos – no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres. []
14 de Setembro de 2011

Ready for that day [2]

História, Sociedade

Are you prepared to run this Christian race?

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Welcome

Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é que alguns de nós chegam ao poder. Nota para mim mesmo: Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.

O líder bem intencionado só quer a perpetuação da instituição, e isso com o objetivo de proteger você.

O líder mal intencionado só quer o seu dinheiro, e afirmará que a causa mais sentida das coletas que faz é patrocinar os seus sonhos.

O líder de uma seita lhe estenderá na última ceia um copo com cianeto, irá convidar você e seus filhos a morrer com ele, e você aceitará de bom grado.

E até ser tarde demais você pode não ter como perceber com qual dos três está lidando.

A congregação de que estou falando foi fundada na década de 1950 em Indianápolis, como ramo da denominação Discípulos de Cristo, e mudou-se em 1965 para a Califórnia, onde formou uma comunidade vibrante e engajada, comprometida com justiça social e integração racial. Em 1974 essa comunidade decidiu que era hora de abandonar os Estados Unidos, cuja postura fascista, corporativista e racista seus membros tomavam (com acerto) por anticristãs; em 1977 a maior parte do grupo transferiu-se para a Guiana, onde fundaram a colônia rural que ficaria conhecida como Jonestown, um “paraíso socialista” modelado para contrastar com a vida alienada e consumista que haviam abandonado nos Estados Unidos.

Porém a essa altura o líder e fundador original já dava há anos indicações de enraizados distúrbios mentais1, e lapidara à excelência o dom psicopata de promulgar perversidades sem perder a doçura do tom de voz.

Em 18 de novembro de 1978, horas depois de uma complexa escaramuça envolvendo dissidentes e que resultou no assassinato de um deputado norte-americano que viera visitar a colônia, o líder da congregação reuniu a comunidade e conduziu um suicídio em massa no qual morreram mais de 900 pessoas, entre homens, mulheres e crianças – inclusive o próprio líder, Jim Jones. Pelo que se sabe, e conforme testemunha uma gravação feita na ocasião, o suicídio em si aconteceu calmamente, entre aleluias e choros de bebês, mas sem grandes manifestações de repúdio, de tristeza ou de horror. “Não estamos cometendo suicídio”, explica Jones; “este é um ato revolucionário”. E mais tarde: “Elas [as crianças] não estão chorando de dor; [o veneno] é que é um pouco amargo”.

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As últimas deliberações em Jonestown
Transcrição dos diálogos aqui

A congregação chamava-se Peoples Temple e em 1973, ainda na Califórnia, seu coro gravou o disco He’s Able/Ele é capaz, da qual subtraí a canção Walking With You, Father/Caminhando contigo, Pai, que arquivei aqui, bem com as outras canções que ilustram este documento.

***

Acima do altar na casa de reuniões da congregação do Peoples Temple na Guiana havia uma placa com o lema da comunidade: Those who don’t remember the past are condemned to repeat it – os que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.

 

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Walking with you, Father

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Set them free

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Walk a mile in my shows

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Hold on, Brother

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Down from his glory

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He’s Able

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Something got a hold of me

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Because of Him

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Black baby

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Will you

Album via wfmu.org

Leia também:
Os que menos são
Jonestown (abundante material primário sobre o assunto, em inglês)

NOTAS
  1. Famosamente, o líder de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser “o único heterossexual” do planeta. []
25 de Julho de 2011

Jorge Bertolaso Stella: o humanismo de um pastor protestante

Goiabas Roubadas

Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade.

São mestres na arte de demonizar o diferente. Fundamentalistas supostamente mais refinados, através de uma rigorosa análise teológica, qualificam irmãos da mesma tradição religiosa com rótulos absolutamente ultrapassados. Tal estratégia visa apenas aniquilar os supostos heterodoxos, alijando-os da instituição que tanto amam.

O outro grupo de fundamentalistas, mais popular e com forte penetração nas massas religiosas, não possui um discurso teológico tão “sofisticado” quanto o primeiro, mas através de uma forte presença midiática,
Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do Bhagavad Gita.
aliada às inegáveis qualidades retóricas, arrebanha para si a opinião do vasto público religioso.

Tal realidade se faz presente em todos os grupos cristãos, do catolicismo-romano até a mais recente igreja neopentecostal.

Assim, nos dizeres do padre e sociólogo católico Pedro Ivo Oro, reproduzem o conhecido discurso de que “o outro seja o demônio”. O outro, no caso, é todo aquele que não se enquadra na suposta ortodoxia dominante, a saber: o seguidor de uma crença não cristã, o ateu, o agnóstico, o ecumênico, o simpatizante da teologia da libertação, o liberal, o neo-ortodoxo e etc.

Sabemos que a divergência no mundo das ideias não é apenas aceitável, mas é ferramenta fundamental para o desenvolvimento humano. Como bem dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. No entanto, os fundamentalistas não encerram suas divergências no âmbito do pensamento, mas levam essas diferenças naturais ao ponto mais extremo, acabando, literalmente, com a vida de seus oponentes.

Diante deste triste quadro, é interessante trazer à memória a biografia de modernos líderes cristãos que trilharam um caminho visceralmente oposto ao citado acima. Este é o caso do saudoso Jorge Bertolaso Stella.

Italiano de Abadia, cidade localizada na província de Parma, nasceu em 1888, chegando ao Brasil com apenas três anos de idade. Junto com seus familiares, estabeleceu-se no interior de São Paulo. De origem católico-romana, abraçou o protestantismo de orientação reformada, «Eu defendo a ordenação da mulher.»tornando-se pastor evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, comunidade mãe de todo o presbiterianismo paulista.

Sua formação intelectual é digna de nota. Teólogo formado, adquiriu real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico. Tornou-se especialista em línguas absolutamente complexas, como o basco e o etrusco. Não obstante seu apurado conhecimento nessas línguas, sua principal contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual brasileiro a dominar o sânscrito, milenar língua indiana.

Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do Bhagavad Gita, principal livro sagrado do hinduísmo. O trabalho de Stella foi além da tradução, contendo comentários históricos, lingüísticos e teológicos a respeito do clássico indiano. Seguindo esta linha, publicou vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Detinha, ainda, um amplo conhecimento sobre budismo e jainismo. Defensor de um verdadeiro diálogo interreligioso, Stella distinguia-se do evangélico padrão brasileiro. «Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo são intérpretes de Deus.»Sua visão das crenças não cristãs não era marcada pela tradicional apologética. Além de considerá-las como manifestações naturais da religiosidade humana, analisava as mesmas com o rigor acadêmico de um verdadeiro historiador da religião.

Mesmo não concordando com o ateísmo, respeitava-o como forma de pensamento, ressaltando que o caráter de uma pessoa independia de suas convicções religiosas.

Foi professor emérito da cadeira de História das Religiões do antigo Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, localizado em São Paulo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Também participou de inúmeras comissões tradutoras da Sociedade Bíblica do Brasil. Como especialista em assuntos bíblicos, sua opinião a respeito da formação do cânon demonstra seu espírito científico e progressista. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo Palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos provenientes de outras culturas foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram inspiradas no conhecido Código de Hammurabi. Em suma, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. «Como fruto nutritivo do cristianismo apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista.»Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.

Além de importantes obras de teor teológico, filológico e historiográfico, Bertolaso Stella tinha como máxima divulgar seus pensamentos em breves opúsculos, quase todos publicados pela saudosa Imprensa Metodista. O importante não era manter-se restrito ao seleto círculo de teólogos, acadêmicos ou intelectuais, mas divulgar seu conhecimento para o verdadeiro público alvo de um ministro religioso, a igreja. Abordaremos, brevemente, alguns temas debatidos por Jorge Bertolaso Stella.

1 – Direitos da Mulher

A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, denominação a qual Bertolaso Stella esteve ligado até o final de sua vida, apenas admitiu mulheres ao oficialato pleno, isto é, presbiterato e pastorado, em 1999. No entanto, desde o início de sua vida pastoral, sua defesa em prol do ministério feminino foi uma marca distintiva. Sobre este assunto escreveu no livreto “A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação”, datado de 1974, os seguintes dizeres:

Eu defendo a ordenação da mulher para o santo ministério, sim, mulheres pastoras. Deus chama as mulheres para o ministério ou pastorado. Esse Ser Eterno escolhe a quem quer e quando quer para sua obra santa. É um erro pensar que Deus somente escolhe homens para o pastorado. Nós nunca demos à mulher o lugar que ela realmente merece. Preconceitos, estreiteza de mente e ignorância, muitas vezes têm impedido que ela exerça a tarefa de que é digna e capaz. A mulher em coisa alguma é inferior ao homem. A mulher é a natureza para significar que ela é tudo. No código indiano das Leis de Manu, encontramos esta expressão: a mulher é imagem da terra. Aquela gente, bastante antiga, já conhecia o valor da mulher.

2 – Transitoriedade de doutrinas e dogmas

Ao contrário da postura fundamentalista, Jorge Bertolasso Stella defendia que determinadas doutrinas são passiveis de revisão, devendo evoluir de acordo com o ser humano. Deus não seria estático:

Existem doutrinas, princípios e praxes que precisam de uma revisão, são obsoletos e tiveram razão de ser somente em determinada época. O volume não é pequeno e constitui uma carga pesada para a Igreja, que ameaça ir ao fundo como o navio, descrito no livro de Atos.

3 – Humanismo

Claras ideias humanistas são expostas no livreto Um Só Mundo, publicado em 1957:

A humanidade é uma só. Os mares, lagos, rios, montanhas, vales e outra qualquer coisa, não podem dividir o mundo em partes separadas. Essa separação existe somente na superfície. No fundo, tudo é igual. As conquistas são imorais. Tudo deve ser para todos. Há terra, ar, luz que constituem o ambiente e pertencem a qualquer criatura enquanto viver. Não é humano uma nação, uma família ou um indivíduo apossar-se de uma parte do mundo, de uma região ou de uma parte da terra e abandonar os outros seres, deixando-os na penúria, sem trabalho, sem terra para cultivar, semear e viver. Em regra, o que motiva a guerra, que é câncer da humanidade, é justamente a noção de pátria, nação e povo.

Encontramos no trecho acima uma clara crítica ao espírito nacionalista e xenófobo.

Os seres humanos constituem uma irmandade na face da terra. Não importa a cor da pele, costumes diversos pelo ambiente e mesmo tendências diferentes. Todos os homens são irmãos e por isso devem se amar, banindo o egoísmo e cancelando a guerra, que significa a destruição da grande família humana.

4 – Defesa dos animais

Em uma época em que este tema sequer era ventilado, encontramos em Mensagens Evangélicas:

Ama os animais, com os quais tens muita afinidade. Tu também és um animal. Eles compreendem a tua linguagem e tu entendes a deles. Possuem um corpo: sede da dor e do prazer. Eles amam e odeiam, choram e riem como tu, pedem e oferecem, nascem e morrem. Belo é o provérbio que reza : – O justo olha pela vida dos seus animais (Provérbios 12.10).

Fiel às descobertas científicas, o pastor ítalo-brasileiro afirma a existência de sentidos nos animais.

5 – Posicionamento socialista e democrático

Como fruto nutritivo e apreciável dessa árvore frondosa, que se chama cristianismo, apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A Natureza é a mestra do homem e os seus ensinos são diretrizes da vida. Não podemos despregar os olhos dela. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista. Ele criou tudo para todos. Segundo Gênesis 1:29-30, a terra, a água, o ar e a luz pertencem a todos. A criança nasce comunista. Ela se apodera de tudo quanto à cerca, não conhece restrições. A primeira família humana, da qual todos descendem, era comunista. Religiões e grupos há, que praticam o comunismo, por ser expressão do amor e da união. O comunismo cristão que estou tratando aqui, nasceu de persuasão, não da imposição. O seu princípio basilar era expresso com esta frase : “o que é meu é teu”. Não estava em voga a outra frase que o apresenta assim, por alguns: “o que é teu é meu”.

Interessantes essas colocações de Bertolaso Stella. Publicadas em Conceitos Religiosos, de 1976, portanto em pleno regime militar, assumem uma postura claramente esquerdista. No entanto, como bom humanista, ele diverge do tipo de comunismo “à lá soviético”, onde tais ideais eram impostas por uma estrutura autoritária.

6 – Crítica ao cristianismo institucionalizado

Suas críticas ao cristianismo de sua época são mordazes e contundentes:

O cristianismo atual fracassou. É um cristianismo capitalista e egoísta, repleto de viúvas e velhos pobres, famintos e miseráveis.”
Conceitos Religiosos, 1976

O Cristianismo de Cristo não carece de reforma, nem de ser substituído. O cristianismo dos homens, que é cheio de especulações filosóficas, teológicas e doutrinárias, esse, sim, precisa ser reformado, digo mais, substituído.”
Um Só Mundo, 1957

Pouca gente conhece a história dos Concílios. Alguns deles agiram sem muita caridade cristã. O célebre Credo de Nicéia, por exemplo, aprovado no ano de 325, que muita gente o repete quase de joelhos, se fosse apertado nas mãos revelaria gotas de sangue, porque foi elaborado no ambiente de discórdia, inveja e ódio.”
A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação, 1974

7 – Visão científica e crítica a respeito da própria Bíblia

Como experiente exegeta, produziu comentários claramente vinculados ao método histórico-crítico de estudos bíblicos:

Eu sou pela volta ao passado, pelas origens primeiras do cristianismo e isto, porventura, daria um Novo Testamento mais resumido. Os Evangelhos foram elaborados, lapidados, modificados. Outros aforismos de Jesus estão nos chamados apócrifos.”
Conceitos Religiosos, 1976

8 – Respeito e compreensão para com outras expressões religiosas

O espírito aberto e tolerante, aliado ao fato de ser um profundo conhecedor das religiões, principalmente orientais, levou o pastor presbiteriano independente de São Paulo a considerar toda a expressão religiosa humana como nobre. Nenhuma seria detentora exclusiva da verdade:

Há uma só religião. O que há é desenvolvimento da religião, evolução, transformação do sentimento religioso. Resta olhar com tolerância e simpatia para com as outras religiões que procuram interpretar a Deus e a consciência humana. O Bhagavada Gita traz esses aforismos de tolerância. Cap.VII: 20-23.”
Um Só Mundo, 1957

Nós falamos em religião imperfeita. É imperfeita a linguagem dos selvagens? Não. É imperfeita ao nosso ponto de vista, considerada pela cultura, mas ela serve ao supostamente primitivo para expressar sua ideia, o seu pensamento. A história da religião é um campo de cultura universal e permite ao estudioso apreciar a ideia de Deus no tempo e no espaço. Vêm-se religiões que tiveram a sua época, sua influência em determinados países e também sua decadência, ou melhor, a sua transformação e manifestação em outras ideias espirituais.
Um Só Mundo, 1957

Todas as religiões gozam de uma inspiração verdadeira. Cada uma de suas Bíblias ocupa seu lugar em um grau determinante na escala das revelações divinas.
Um Só Mundo, 1957

Os chamados fundadores de religiões, como, entre outros, Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo, são intérpretes de Deus, revelando através da experiência e dependendo do grau de consciência divina de cada um. Mas, Jesus Cristo, para mim, todo consciência de Deus, é diferente dos outros.
Antologia de Estudos Religiosos, 1979

 

Este é um pequeno resumo do pensamento de Jorge Bertolasso Stella. Pretendo, quem sabe, trabalhar de forma mais apurada esta singular figura do cristianismo protestante brasileiro.

Em tempos de fundamentalismo, seria bom que sua voz fosse ouvida e compreendida.

André Tadeu de Oliveira, no Bule Voador
via Roger, via Alysson

17 de Julho de 2011

O triunfo do capitalismo

Pormenor

É, companheiro, o sonho acabou.

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11 de Julho de 2011

Do berço à sepultura: a nostalgia do comunismo e o capitalismo em sua forma de sempre

Política

Numa entrevista para o The New York Herald em 1921, Lenin afirma1:

Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o regime bolchevique fosse derrubado.

O admirável sobre essa propaganda anti-comunista é quão tediosamente similar ela tem se mantido ao longo de quase 90 anos, e quão difundida ela permanece. De qualquer modo, visto que essas panelinhas “de homens muito malvados” foram agora derrubadas e substituídas pelos “governos admiráveis” de “pessoas muito inteligentes”, seria o caso de examinar as condições dos países “pós-comunistas” da Europa oriental.

Num comentário em minha postagem anterior, Marx, satanista?, Tamara chamou-me a atenção para uma pesquisa recente feita na Romênia:

Só 27 por cento dos romenos afirmam que o comunismo era “errado”, enquanto 47 por cento responderam que “era uma boa ideia, mas mal aplicada” e 14 por cento acham que foi “uma boa ideia e bem aplicada”. Impressionantes 78 por cento afirmam que nem eles nem suas famílias jamais sofreram debaixo do comunismo.

E tudo isso tomou lugar sob aquele ditador perverso e odiado, Nikolai Ceausescu.

Passemos então para a Bulgária, um lugar que conheço muito bem. Num livro recente, Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life after Communism/Perdido na transição: Etnografias do cotidiano depois do comunismo, Kristen Ghodsee observa uma crescente nostalgia pela era comunista. Mas por quê, especialmente em se tratando de um estado supostamente stalinista? «O que diziam do capitalismo era verdade.»Quando o capitalismo foi repentinamente imposto em 1989, uns poucos estrangeiros com boas conexões e uma nova classe de oligarcas e criminosos locais assumiram os ativos que haviam pertencido anteriormente ao estado – aqueles que chamaríamos de “empresários”. A gente comum sentiu-se roubada, e muitos perderam seus empregos justamente no momento em que o sistema previdenciário do estado era desmantelado. E será que isso só ocorre na Bulgária? De forma alguma: é o capitalismo em sua forma de sempre.

Tenha em mente que esses são estados que eram supostamente modelos de uma ditadura insuportavelmente repressiva. Não estamos falando, por exemplo, da Iugoslávia, que era com frequência tomada como exemplo de um comunismo mais humano e viável. E enquanto falamos da Iugoslávia: quatro em cada cinco pessoas com as quais falo sobre “a antiga I” me dizem que ela funcionava muito bem.

Prevejo que esta seria a brecha para uma resposta bem lubrificada da direita:

“Claro, é natural que os mais velhos tenham saudade das ditaduras e autocracias, porque essas lhes forneciam algumas certezas na vida, por mais difícil que fosse a situação. Mas podemos com segurança ignorar essas debéis nostalgias dos mais velhos…”

Papo-furado. Conheci russos jovens, nascidos depois ou logo antes de 1989, que erguem copos e brindam à antiga União Soviética. Acrescente-se a isso – como informa-me um colega de Kiev depois de muita pesquisa – que apenas um, talvez dois, dos países do bloco oriental chegaram a alcançar o PIB de 1989 – e isso depois de mais de duas décadas de capitalismo.

Talvez, apenas talvez, as pessoas encontrem de fato valor em coisas como cobertura de saúde e educação universais, desemprego zero, dias de trabalho mais curtos e tempo de sobra para encontrar-se e conversar. Talvez, apenas talvez, economias planejadas sejam de fato melhores. Até mesmo o odiado (na Europa oriental) e ex-anti-comunista Zizek parece concluir que o comunismo era superior. Como ele coloca: tínhamos segurança do berço à sepultura, nunca levávamos nossos governantes a sério e tínhamos o Ocidente mítico com o qual sonhar.

Finalmente, há o que um amigo que morava num desses lugares me disse há algum tempo:

“Quando nos ensinavam sobre o capitalismo na escola, todos achávamos que ele não tinha como ser tão terrível quanto diziam. Achávamos que nossos professores estavam inventando tudo aquilo. Hoje, vivendo sob o capitalismo, entendo que o que eles diziam era verdade.”

Roland Boer, Was life under Communism better?

Leia também:
Партия Ленина
Na mesma moeda
Igreja e capitalismo

NOTAS
  1. Collected Works, vol. 36, p. 538. []