30 de Outubro de 2007

O romance do macho solitário

Brasil, Sociedade

A elite de um homem só

TROPA DE ELITE é um filme passavelmente bom e tremendamente ruim; sutilmente verdadeiro e também uma farsa terrível. Não consigo pensar em filme brasileiro mais revolucionário, nem outro mais pelego.

Ser enlatado ou não
Tropa de Elite é permeado por um terrível dilema de consciência - e não se trata dos fantasmas que perseguem o capitão Nascimento ou da controvérsia extra-tela sobre se o filme é de fato fascista (é), se apresenta com justiça as complexidades do tráfico (não) ou faz apologia da tortura (faz).

O dilema do qual Tropa de Elite não consegue escapar é mais constrangedor do que todas essas questões porque é mais irrelevante do que todas elas; ele diz respeito à decisão (ou indecisão) do filme de ser um blockbuster, uma história convencional de polícia e ladrão, um grande filme de ação como os que Hollywood injeta incessantemente nos canais usuais. Um filme de herói.

Como não há precedente, a audiência não sabe exatamente como deve reagir diante de atores de tevê com pistola na mão, ostentando expressões faciais que pertencem por direito a Clint Eastwood e Bruce Willis. Será uma comédia? Uma esquete dos Trapalhões? “O que estou fazendo aqui?” parece se perguntar o ator principal. “Devo mesmo tentar encarnar a sério um herói brasileiro?” “Devo engoli-lo?, parece perguntar-se o espectador.

Fica a dúvida.

Por si só, um filme em que o policial é o herói viola a grande regra não-escrita da produção cinematográfica brasileira contemporânea, gravada a estilete na lente desfocada de Glauber Rocha: um cineasta de verdade não deve rebaixar-se a imitar uma produção hollywoodiana – em especial, não deve cometer jamais um filme com herói incorruptível e final feliz.

Vilões, para Nascimento, são todos os que não tem a felicidade de serem ele mesmo.

Na tentativa de ocultar essa contravenção, Tropa de Elite comete mais erros do que acertos – mas tratam-se de erros reveladores. Para começar, Tropa rejeita por completo a convenção mais usual dos filmes de ação norte-americanos, o fato de serem em geral buddy movies – isto é, o protagonista tem um parceiro que se contrapõe a ele e o completa. Há uma infinidade de razões dramáticas para o sucesso da fórmula da dupla, mas Tropa de Elite não quer saber delas. O capitão Nascimento não apenas não tem um parceiro: ele não tem amigos. Nascimento não tem paz em lugar algum e com ninguém, nem mesmo em casa e com a esposa. Em termos dramáticos, isto quer dizer que o protagonista não tem, em momento algum, onde aliviar a sua tensão ou onde acentuá-la em contraste com uma outra vontade que ele respeite (na cena no consultório psiquiátrico ele deliberadamente, estoicamente, rejeita essa oportunidade). Por outro lado, também quer dizer que o filme não fornece ao espectador qualquer ferramenta que o ajude a identificar-se com o conflito do protagonista. Nossa alienação deve refletir, aparentemente, a do capitão Nascimento.

Talvez pela mesma razão, o filme rechaça outra convenção de Hollywood, a inclusão de um vilão nítido e memorável, um antagonista cuja eliminação possa fornecer uma completa e satisfatória catarse. Baiano, o dono do morro, não é esse cara, nem tampouco o são os burgueses da faculdade ou os policias corruptos da polícia convencional. Tropa de Elite não tem vilões – ou melhor: vilões, para Nascimento, são todos os que não tem a felicidade de serem ele mesmo.

Porém o mais fundamental ingrediente dramático que falta para que o protagonista de Tropa de Elite exista num verdadeiro filme policial é o mais genérico de todos: um dilema de lealdades, um conflito de interesses. Nascimento vive dizendo para si mesmo que precisa de alguém para substituí-lo no BOPE a fim de poder “voltar para a família”, mas em determinado momento da história ele mesmo deixa de sustentar essa balela. Seu conflito de lealdades não é entre a corporação e a família, porque sua lealdade para com a corporação não sofre qualquer risco.

Nascimento é um cara claramente atormentado, que se entope de pílulas como um bom policial de filme noir, mas não pela razão dramática usual, o conflito de lealdades. A raiz de sua piração deve estar em outro lugar.

O discurso da guerra
Para o capitão Nascimento, a relação do policial honesto com o tráfico é, sem rodeios, uma guerra. Esta é sua imagem favorita, e ele volta repetidamente a ela nas suas reflexões em off – e discursos em off Tropa de Elite tem muito, mais do que qualquer outro filme brasileiro ou estrangeiro que me sugira a memória. Nascimento cede constantemente à compulsão de justificar a sua postura, e sua justificativa mais freqüente é precisamente essa que nada explica: “isto aqui é uma guerra”.

Mas sua guerra é mesmo contra quem? Contra a corrupção? Contra a lei que sustenta o tráfico proibindo-o? Contra burgueses superficiais? Contra mortes desnecessárias? Contra um sistema mutilador de crianças? Contra os traficantes? Qual defeito da sociedade ele está querendo eliminar? Quem ele está querendo defender?

Nunca ficamos sabendo, porque a guerra não é aparentemente momento de se oferecer explicações. Devem-nos bastar, supõe-se, verdades soltas como “enquanto o traficante tiver dinheiro para se armar a guerra continua” ou “só rico com consciência social é que não entende que guerra é guerra” ou “o treinamento do BOPE ensina a matar com eficiência e dignidade” ou (sobre essa última afirmação) “acredite, isso é possível”.

Ao Brasil, que nunca teve uma verdadeira mitologia de guerra, Tropa de Elite oferece uma.

Nascimento tortura e mata, portanto, protegido pelo mesmo discurso à prova de balas com que Bush invade o Iraque; sua guerra contra o tráfico, como a guerra contra o terrorismo, é credencial que justifica todas as pontarias.

Ao Brasil, que nunca teve uma verdadeira mitologia de guerra, Tropa de Elite oferece uma, com direito a bandeira do Brasil sobre o caixão do herói tombado na batalha.

Nesse sentido sua vocação secreta é mais para filme de guerra do que para filme policial. Afinal de contas, numa guerra os dois lados fazem simplesmente o que tem que fazer. Nascimento talvez não goste de torturar adolescentes, e Baiano talvez preferisse não ter de assar vivo o alemão da ONG, mas o combate exige esse tipo de distanciamento. Guerra é guerra. Não está em questão qual lado está certo, mas qual dos dois vence.

É especialmente revelador que ao capturar Baiano na seqüência final e antes de puni-lo exemplarmente pela morte de um policial honesto, Nascimento escolha fornecer ao traficante uma única explicação:

– Você perdeu.

Tudo, meu irmão, não passa de um jogo.

O romance do macho solitário
Uma matéria da revista VEJA opinou que o apelo popular de Tropa de Elite deve-se ao fato do filme evitar um clichê do cinema nacional, a romantização do bandido, a glorificação do marginal.

De fato.

Não se iluda, no entanto, porque o filme encontra um alvo para glorificar, um alvo pelo menos tão arbitrário quanto a figura do bandido. Tropa de Elite romantiza, e o faz espetacularmente, o drama do macho solitário – a dura sina do homem “de verdade”, afogado em testosterona, destinado a vagar por um oceano de incompetentes e efeminados sem saber se existe no mundo alguém tão notável quanto ele.

De certa forma, portanto, o apelo de Tropa de Elite está no fato do filme conseguir ocultar, a custo de muita voz grossa e tiroteio, o que de fato é: uma história de amor.

Embora seja protagonizado pelo protótipo do homem com H, Tropa de Elite é essencialmente uma jornada romântica. Eis o seu conflito: Nascimento, o macho e o compenetrado, está à procura de um homem que o entenda e que lhe corresponda, um homem que esteja à sua altura, um homem para chamar de ele mesmo.

Tropa de Elite é uma história de amor.

Nascimento vive dizendo que está buscando apenas um substituto, mas sua linguagem e sua obsessão sugerem mais do que isso. Basta ponderar sobre efusões como “se o Neto tivesse a inteligência do Mathias, minha escolha teria sido fácil” ou, perto do final do filme, “faltava ainda conquistar o coração do Mathias”.

O capitão Nascimento incorpora o paradoxo do macho que é tão macho que não consegue efetivar qualquer ligação importante com mulheres, nem mesmo com sua esposa. Significativamente, os únicos momentos em que o herói usa de alguma ternura para falar com a esposa é ao celular, onde os companheiros de equipe podem ouvi-lo e talvez admirá-lo. Quando está sozinho com ela, a mulher é apenas motivo de irritação. “Pior do que aquela mancada no serviço”, explica ele em determinado momento, “era ter de ouvir a mulher me dizendo o que fazer”. Um macho de verdade, ele deixa logo muito claro, não agüenta esse tipo de desaforo. Afinal de contas, ele pode perder a família desde que tenha tempo para se dedicar à prioridade de encontrar o seu homem.

No final o herói acaba perdendo tudo, mas lhe resta o coração de Mathias. Corta para o final feliz, e Hollywood venceu.

20 de Outubro de 2007

Baby, it’s cold outside (1949)

Pormenor

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Letra e música de Frank Loesser, Oscar de melhor canção em 1949. Esther Williams e Ricardo Montalban (anos antes de A Ilha da Fantasia), depois Red Skelton e Betty Garrett, em Neptune’s Daughter.

Não posso ficar – Mas meu bem, está frio lá fora
Tenho mesmo de ir – Meu bem, está frio lá fora
A noite foi mesmo – Estava esperando você aparecer
Especial – Deixa eu segurar as suas mãos, estão um gelo!
Minha mãe vai começar a se preocupar – Princesa, qual é a pressa?
Meu pai vai andar pela sala – Ouça a lareira crepitar
Então é melhor eu me apressar – Querida, não precisa correr
Bem, talvez só mais meio copo – Coloque um disco enquanto eu sirvo

Os vizinhos podem pensar – Mas meu bem, a coisa está feia lá fora
Ei, o que tem nesse drink? – Você não vai conseguir um táxi a essa hora
Eu queria saber como – Seus olhos são como estrelas agora
Quebrar esse encanto – Deixa eu ficar com o seu chapéu, que penteado legal
Eu deveria dizer não, não, não senhor – Posso chegar mais perto?
Vou dizer que pelo menos tentei – Por que ferir meu orgulho?
Não posso mesmo ficar – Meu bem, não resista
Ahh, mas está frio lá fora

Tenho mesmo de ir – Mas meu bem, está frio lá fora
A resposta é não – Meu bem, está frio lá fora
Sua acolhida foi – Que bom pra mim que você apareceu
Tão calorosa – Olhe a tempestade pela janela
Minha irmã vai desconfiar – Nossa, seus lábios parecem deliciosos
Meu irmão vai estar na porta – Ondas numa praia tropical
Minha tia solteira é tão maliciosa – Nossa, seus lábios são deliciosos
Bem, talvez só mais um cigarro – Nunca vi tamanha nevasca

Tenho que chegar em casa – Mas meu bem, você vai congelar lá fora
Você me empresta o seu pente? – A neve está na altura dos joelhos lá fora
Você foi mesmo um amor – Adoro quando você pega na minha mão
Mas você não vê? – Como você pode fazer isso comigo?
Amanhã as pessoas vão falar – Pense no remorso que vai me perseguir
Pelo menos vão imaginar – Se você pegar pneumonia e morrer
Não posso mesmo ficar – Supere essa hesitação
Ah, mas está frio lá fora

* * *

I really can’t stay – But baby, it’s cold outside
I’ve got to go away – Baby it’s cold outside
This evening has been – Been hoping that you’d drop in
So very nice – I’ll hold your hands, they’re just like ice
My mother will start to worry – Beautiful, what’s your hurry
My father will be pacing the floor – Listen to the fireplace roar
So really I’d better scurry – Beautiful, please don’t hurry
well Maybe just a half a drink more – Put some records on while I pour

The neighbors might think – But baby, it’s bad out there
Say, what’s in this drink – No cabs to be had out there
I wish I knew how – Your eyes are like starlight now
To break this spell – I’ll take your hat, your hair looks swell
I ought to say no, no, no, sir – Mind if I move a little closer
At least I’m gonna say that I tried – What’s the sense in hurting my pride
I really can’t stay – Baby don’t hold out
Ahh, but it’s cold outside

I simply must go – But baby, it’s cold outside
The answer is no – Ooh baby, it’s cold outside
This welcome has been – I’m lucky that you dropped in
So nice and warm -– Look out the window at that storm
My sister will be suspicious – Gosh, your lips look so delicious
My brother will be there at the door – Waves upon a tropical shore
My maiden aunt’s mind is vicious – Gosh your lips are delicious
Well maybe just a cigarette more – Never such a blizzard before

I’ve got to get home – Oh, baby, you’ll freeze out there
Say, lend me your comb – It’s up to your knees out there
You’ve really been grand – I thrill when you touch my hand
But don’t you see – How can you do this thing to me
It’s bound to be talk tomorrow – Think of my life long sorrow
At least there will be plenty implied – If you caught pneumonia and die
I really can’t stay – Get over that old doubt
Ahh, but it’s cold outside

07 de Outubro de 2007

Quartermass 2

Filmes

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Produção britânica de 1957, continuação de The Quartermass Experiment e refilmagem de um seriado de televisão produzido pela BBC dois anos antes. O filme é honorável precursor da atmosfera de pesadelo de Invasores de Corpos, das infernais infecções de Alien, o 8º Passageiro e da paranóia conspiratória de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Assista até o final.


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O clímax do filme, que preferi não revelar aqui, oferece deliciosas criaturas lovecraftianas, amorfas e rastejantes, com “milhas de altura”.

25 de Agosto de 2006

O último apuro de Indiana Jones

Pormenor

Talvez fosse hora de deixar uma de minhas séries de cinema favoritas, definida pelas três últimas cruzadas de Indiana Jones, descansar em paz. Não porque Harrison Ford esteja velho demais para o papel numa quarta instância da série (um Indiana Jones velho demais chega a ser contradição em termos – o cara simplesmente não morre), mas porque agora que George Lucas terminou de enterrar a série Guerras nas Estrelas não há como evitar que ele tente colocar o seu duvidoso tempero no caldo equilibrado do diretor Steven Spielbierg.

Como se sabe, o conceito original do personagem – um arqueólogo da década de 1930 que vivesse aventuras inspiradas nos antigos seriados e em James Bond – é de Lucas. Conta-se que ele só não dirigiu Caçadores da Arca Perdida porque estava com a cabeça numa galáxia muito distante; a responsabilidade ficou com Spielberg, que transformou a possibilidade em pérola e ícone. Hoje em dia creio que todo o mérito do sucesso da série está nas mãos de Spielberg (e de Ford), e que o afastamento histórico de Lucas foi milagre imerecido da Força.

Mas agora que Indiana Jones IV está finalmente prestes a sair do papel, George Lucas está deixando muito claro que este projeto é, particularmente, dele.

Numa entrevista recente Lucas confessou, sensatamente, saber que “as expectativas das pessoas são maiores do que poderíamos chegar a satisfazer”. Mas como resolver esse dilema? Perguntar a opinião de Spielberg? De Ford? Da velhinha de Taubaté? Deixar quem sabe quieto e recolher as fichas enquanto ainda se está ganhando?

“O que vamos fazer, basicamente, é A Ameaça Fantasma” – revela Lucas, no que considero uma das afirmações mais aterrorizantes da década, e referindo-se naturalmente ao primeiro episódio da segunda e controversa tosca trilogia de Guerra nas Estrelas.

“Se tudo der certo”, tenta emendar Spielberg, “este será diferente de todas as formas certas e semelhante de todos os modos familiares”.

Dr. Jones, dessa enrascada quero ver você sair.

Leia também:
Indiana Jones e a Bacia das Almas

30 de Março de 2004

A Paixão Humana

Fé e Crença

Fui esta tarde com o Ivan assistir The Passion Of The Christ. Confesso que estava hesitando em assistir o filme, porque ficava me perguntando se seria justo com Jesus enfocar o sofrimento dele como cerne da sua mensagem.

Pois fui e gostei. Chorei a maior parte do tempo, mas isso já era de se esperar. Como cinema e como celebração do Espírito de Cristo, achei muito legal. Nada foi fortuito e todas as passagens e flashbacks muito bem amarradinhos. Fiquei com mais pena de Pilatos do que Jesus, é verdade, mas Jesus sabia o que estava acontecendo.

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