04 de Novembro de 2011

A mão invisível e a graça irresistível do mercado

Goiabas Roubadas

Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa reguladora da justiça, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o tapeceiro, só vemos o avesso, o mercado-tapeceiro tece do lado certo. O outro aspecto é o da “graça irresistível” do mercado. Ou você se abre para a economia de mercado ou está destinado ao “inferno” decadente e isolado do mundo – é a inexorabilidade do mercado. Você vem para o “Senhor” nem que seja pela dor.

Não seria o evangelho de Jesus o “niilismo mais radical” que desmascara os encantamentos religiosos: que quebra os odres velhos?

O que pode ser menos religioso que o evangelho de Jesus?

O que pode a transformar “crentes no capital” em “ateus anárquicos” mais que o evangelho do Cristo de Deus?

Elienai Cabral Júnior, em comentário a este documento
Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários

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17 de Outubro de 2011

Dexter Morgan, padroeiro do século XXI

Manuscritos, Recomendações

Não chegou até mim arte televisiva contemporânea mais bem escrita do que Dexter, o seriado norte-americano sobre um assassino em série que mata assassinos em série. E não se trata só dos enredos bem amarrados, do uso inteligente e bem-humorado das narrações em off, das ambições shakespearianas dos arcos narrativos e da construção de edifícios de suspense mais altos do que se considerava humanamente concebível. Há a questão do discurso além do discurso, a questão de um arranque criativo semiconsciente que mostra-se tanto uma precisa captura do espírito da época quando uma inclemente reflexão sobre ele.

Sinto-me tentado a escrever volumes sobre Dexter; permita-me impor uma página ou duas.

Dexter, sumo sacerdote da violência redentora

Os norte-americanos, ainda mais do que o restante dos homens, são obcecados com as possibilidades redentoras da violência. Dessa obsessão nascem as paixões nacionais pela pena de morte, pelos super-heróis, pelas glórias militares, pelos filmes de terror, pelo oeste sem lei. A mesma fé no poder redentor da violência inspira os adeptos do vigilantismo (aquelas ordens civis que fazem a justiça com as próprias mãos), inflama os tiroteios suicidas nas escolas e anima as aspirações dos assassinos em série.

Em sua qualidade de assassino impiedoso de assassinos impiedosos, Dexter Morgan é a encarnação de todas as seduções dessa teologia. Impossível não dobrar-se de prazer quando o Dexter elimina um criminoso culpado com a mesma minuciosa crueldade com que o criminoso que está sendo eliminado costumava matar gente inocente. Há algo de irresistivelmente justo e congruente e libertador nessa simetria; como seres humanos somos incapazes de resistir a uma história que nos conduza até um lugar em que ela possa ser devidamente celebrada.

Dexter nos leva a esse lugar todas as vezes. Quando deixamos de acreditar nas possibilidades da justiça efetuada pelas mãos de homens, não é como se não tivéssemos um sumo sacerdote que se compadecesse de nós. Dexter, que o rubro céu o proteja, é a incorporação da guerra justa e da violência redentora justamente quando podíamos ser tentados a deixar de acreditar nela. Pelos heróis que nascem banhados em sangue, rogai por nós.

Dexter, patrono do gerenciamento de múltiplas identidades

Desde pelo menos Jekyll e Hyde, de cujo legado se apropriaram tantos super-heróis e supervilões, a ficção tem brincado com as possibilidades metafóricas e dramáticas de uma dupla identidade. O jogo cambiante das máscaras pode ser, na verdade, retraçado como o mistério impulsionador de todo teatro e de todo o drama.

Porém, com a extravagante entrada em cena da internet, vive-se o primeiro momento da história em que o homem comum pode se ver pessoalmente envolvido com as tentações e complicações do gerenciamento de identidades. A internet, que é repleta de destinos mas não confere passaportes, é um um convite aberto para que desenvolvamos vários rostos.

É coisa mais do que corriqueira cultivar mais de um blog, sustentar mais de uma conta no Google ou usar nomes diferentes em diferentes redes sociais, cada uma dessas instâncias voltada para um interesse ou para um público. Há o cara da foto no Facebook, que pode não querer usar o mesmo nome quando entra num ambiente da internet em que se folheia pornografia, em que se compartilha conteúdo pirata ou em que se discute a sua preferência sexual. Na verdade, cada vez que precisa escolher um nome de usuário você está sendo convidado a assumir uma nova identidade, a desenhar um novo círculo que não necessariamente interceptará aqueles que em você, sob algum nome, já existe.

Na prática, as contas de usuário servem menos para proteger a sua privacidade do que para orientar a publicidade que será despejada na sua direção, mas a sedução de cada nova máscara permanece. Ninguém precisa mais contentar-se em ser uma pessoa só1.

Na narrativa de Dexter, a centralidade do problema do gerenciamento de identidades reflete as complicações dessa nossa nova condição. Dexter é na luz do dia um policial quietão mas gente boa, profissional de primeira, amigo leal e pai de família, mas no abrigo da noite persegue sem trégua a sua obsessão, o “passageiro sombrio” que exige recorrentes derramamentos de sangue para manter-se mais ou menos sob controle. Nas histórias de super-heróis a problemática da identidade dupla é em geral tratada com leveza de farsa e descartada sem maiores problemas, mas a iminente e impensável sobreposição de mundos opostos é o que define toda a tensão na trajetória de Dexter.

Acompanhamos os seus trabalhos no sentido de manter as suas esferas separadas, mas entendemos simultaneamente que ninguém tem como manter partes de si mesmo independentes por tempo indeterminado. Por outro lado, as ferramentas da internet tem nos dado tamanha tarimba na prática da compartimentalização que nos tornamos incapazes de considerar como desejável a perspectiva de abrir mão de qualquer uma de nossas identidades paralelas.

Se o grande desafio da maturidade psicológica é o que Jung chama de individuação – o processo de nos tornarmos um in-divíduo, harmonizando num todo não-dividido as partes de nós mesmos que vivem em esferas separadas, – Dexter serve de formidável parábola sobre as dificuldades desse processo na presente experiência. Os dois mundos de Dexter não têm como colidir sem catástrofe; da mesma forma, temos aprendido a sustentar uma árvore inteira de narrativas pessoais que em outro tempo seriam consideradas irreconciliáveis. Pelos desafios do gerenciamento de identidades, rogai por nós.

Dexter, santo protetor dos alienados e perplexos

O aspecto mais ressonante e original da narrativa de Dexter, no entanto, é sua alienação essencial do mundo que o rodeia. Tendo sua estrutura psíquica precariamente organizada depois de sobreviver a um devastador trauma de infância, Dexter não sabe e não entende o que o mundo exterior espera dele. Não sabe sentir ou agir “naturalmente”. Suas reações são todas simuladas, fundamentadas na observação. Incapaz de encontrar dentro de si uma fonte genuína de convicção e de sentimento, seu método é oferecer em cada momento ao mundo o que ele imagina que o mundo espera dele naquele momento – e surpreende-se quando funciona na maioria dos casos. As pessoas ao seu redor o tomam por um cara um pouco esquisito mas simpático, sensível e de confiança – porém ele mesmo entende ser uma completa farsa.

É por esse milagre, pela sua ascendência como ícone espetacular de nossa própria alienação essencial, que vejo em Dexter a figura altaneira do padroeiro deste século.

Eis um cara que, como grande parte de nós, ou como todos nós grande parte do tempo, relaciona-se com o mundo como um observador, não como um participante. Dexter vive imerso numa experiência que lhe parece inteiramente estranha e impenetrável. Não tendo sido poupado de enxergar o caráter arbitrário e artificial das reações e princípios que tomamos por naturais, ele aprendeu a resignar-se a olhar o mundo com o fascínio e o horror com que observaríamos uma civilização extraterrestre.

O poder da metáfora está em que, devido a uma vasta cadeia de causas interligadas, nenhum conceito representa com mais acerto a condição do habitante deste milênio do que este: alienação. Não importa quão saudável ou natural lhe pareça o seu cotidiano, nosso próprio modo de viver está inteiramente permeado de pacotes de estranheza e de distanciamento. Karl Marx entreviu o capitalismo como fonte inexorável de alienação, mas absolutamente não tinha como prever os extremos vertiginosos aos quais içaríamos essa tendência.

Não há como não identificar-se em alguma medida com Dexter e sua precária relação com um mundo alheio e indecifrável. Tornamo-nos, no modo que vida que aprendemos a tolerar, gente assim. Como os personagens de um mau filme de ficção científica da madrugada, aprendemos a nos relacionar uns com outros e com o mundo pela intermediação de máquinas, tendo perdido a arte do contato direto com o que quer que seja. Nada no mundo real gera em nós uma verdadeira conexão, e todas as nossas reações dentro dele são simuladas. Onde deixei o meu celular? Pelo horror de um mundo que não nos diz respeito, rogai por nós.

NOTAS
  1. Na verdade, uma pequena e inflamada revolta coletiva permanece sendo lançada contra o recém-lançado Google+, porque essa rede social exige formalmente (ao contrário do que na internet é a prática usual) que seus usuários utilizem o seu nome verdadeiro para identificar o seu perfil. Depois que aprendemos a viver sob a luz eles, a treva do banimento dos pseudônimos nos parece inteiramente incompreensível e inaceitável, coisa que se espera mais de um governo totalitário do que de uma corporação moderna e antenada. []
21 de Setembro de 2011

O capitalismo é a crise

Goiabas Roubadas

Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta.

Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana.

Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o total de débito assumido por estudantes (que não entraram ainda no mercado de trabalho) é maior do que o total do débito assumido pelo público consumidor em geral.

Os gastos militares globais alcançaram uma cifra recorde em 2011.

O mundo está morrendo, e os capitalistas estão quebrando recordes de lucro enquanto ele morre.

Michael Truscello, em Capitalism is the Crisis

 

Não é a economia que está em crise; a economia é a crise. Não é que não há trabalho, o que há é trabalho demais. Tudo somado, não é a crise, é o crescimento a causa da nossa depressão.

The Coming Insurrection

 

O modo de se fazer dinheiro é comprar quando há sangue correndo pelas ruas.

John D. Rockefeller, magnata do petróleo

 

O Estado é uma condição, uma certa relação entre seres humanos, uma modalidade de comportamento. Para destruí-lo é necessário estabelecer-se outras relações, e isso se faz quando passamos a agir de modo diferente uns para com os outros.

Gustav Landauer, pacifista e anarquista alemão

 

 

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Você não produz o suficiente
O fim de todos os governos
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11 de Setembro de 2011

Uma perversa simetria

Goiabas Roubadas

Não é possível separar o sofrimento do 11 de setembro da cobertura de mídia que o cercou, porque a mídia foi o motivo pelo qual a atrocidade foi perpetrada. Essas mortes foram projetadas e desenhadas para a câmera, aprovisionando-a de todos os modos.

Por essa razão a cultura das imagens tem um relacionamento diverso com os ataques, que serviu como confirmação em pesadelo de sua má consciência. Houve uma perversa simetria no fato dos terroristas terem servido a destruição das torres a uma sociedade cujo entretenimento favorito consiste em assistir ao maior número possível de explosões gigantescas. O espetáculo foi ao mesmo tempo a visão mais terrível do mundo e exatamente o tipo de imagem que toda organização de notícias cobiça e todo espectador sintoniza para consumir.

Laura Miller, escrevendo sobre porque não
é possível escrever boa ficção sobre 11 de setembro de 2001

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Em câmera lenta
11 de setembro

20 de Agosto de 2011

Ser inteligente

Política

Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambiçõesNinguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. de carreira pública ou política.

Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um chefe de uma repartição, o presidente da república, ou o líder de algum pequeno grupo, o que permitiu a ele chegar lá não foi a sua inteligência e sim a sua flexibilidade. Entendeu, flexibilidade?

Meu amigo Ivan Volcov, em comentário a este documento
Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários