23 de Fevereiro de 2008

Visão de Monde

Grandes Navegações

Fiquei conhecendo o Le Monde Diplomatique por intermediação do Airton do inquieto Observatório Bíblico. Como se eu já não tivesse muito o que ler.

A nau dos dinossauros

No crepúsculo da Era Bush, centenas de neo-conservadores norte-americanos embarcam num cruzeiro marítimo, durante o qual debatem o “sucesso notável” dos EUA no Iraque, a “inexistência” do aquecimento global e o “risco iminente” de dominação muçulmana sobre a Europa. Nosso repórter estava com eles. Continue lendo >

A cultura hacker

Confundidos propositalmente, pelo pensamento conservador, com invasores de rede, hackers somos todos os que agimos para que informações, cultura e conhecimento circulem livremente. E esta ética de cooperação, pós-capitalista, vai transbordando do software livre para toda a sociedade.

A internet é a obra-prima hacker. Está surgindo uma consciência inequívoca de que a construção de baixo para cima tem muito para oferecer para o desenvolvimento do processo coletivo.

Criar para a sociedade. Fazer acontecer independente do retorno financeiro a curto prazo. Qualquer pessoa com um computador conectado pode participar voluntariamente de projetos importantes. Continue lendo >

A fraude do conceito de “capital humano”

Imposto pela novilíngua contemporânea que é o discurso neoliberal, o conceito pretende convencer os trabalhadores assalariados de que cada um deles possui um “capital”: sua própria pessoa. E transforma assim sua existência num empreendimento constante de acúmulo de recursos destinados à valorização no mercado de trabalho.

Mas, se cada um é um pequeno empresário, é então o próprio mecanismo da exploração capitalista que é ocultado. Continue lendo >

* * *

E assim por diante.

02 de Dezembro de 2007

Estagnados no dia seguinte

Sociedade

Não vivam ansiosos quanto ao futuro. Não vivam inquietos pelo dia de amanhã, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

O código-fonte da revolução que não haverá

O que você só vai entender tarde demais é que Jesus não disse que não vivessemos ansiosos com o futuro porque deveríamos crer que tudo acabaria dando certo no sentido de paz e prosperidade (não deu para ele e para nenhum dos seus seguidores), mas porque enquanto vivemos obcecados pelo futuro não nos forçamos a viver o único momento singular e portanto santo, o presente. Seu “o amanhã cuidará de si mesmo” corresponde ao seu “deixe que os mortos enterrem os seus mortos”.

Hoje dizemos que não se preocupar com o futuro é postura infantil e uma irresponsabilidade, porém o rabi de Nazaré queria o oposto. Viver em função do futuro, explica ele, é idiotizante e infantilizante, e nossa única chance de pisarmos o chão da realidade é nos desprogramarmos desse eloqüente mundo de ilusão.

A sociedade de consumo glorificou a obsessão pelo futuro, transformando-a num modo de vida e num incessante estado mental. Somos idiotas por pré-progamação. Não desfrutamos daquilo que temos, porque nossos olhos estão continuamente postos naquilo que se tudo der certo iremos um dia consumir. Não encaramos de frente o mal de cada dia, porque estamos sempre trabalhando para contornar a obsolescência que virá. Não desfrutamos da segurança presente, porque estamos perpetuamente preocupados com a segurança que devemos adquirir para o amanhã.

Em conseqüência somos obsoletos por padrão, imprestáveis do momento em que saímos da fábrica. Esta geração nada fez e a geração seguinte nada fará, porque nunca estamos aqui. Vivemos estagnados no dia seguinte. Nascemos mortos.

25 de Outubro de 2006

A transição de São Nicolau

História, Ilustração

É época da pintura alucinada de ícones de São Nicolau, pintados à mão e para usos seculares, no scriptorium do Monastério. Sobra pouco tempo, devo confessar, para meditações, leituras diárias, cântico de salmos, cópia de manuscritos e outras disciplinas do espírito e de mortificação da carne.

Como se sabe, Papai Noel é a encarnação mais recente e pasteurizada de São Nicolau de Mira, santo gente-boa do século IV e padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega.

O bem-cuidado Saint Nicholas Center é uma boa fonte (em inglês) a respeito de São Nicolau e de sua transição para Santa Claus. Interessou-me em particular saber que nas lendas que descrevem sua visita tradicional de Natal, em que chega trazendo presentes para as criancinhas de boa vontade, São Nicolau muitas vezes não comparece sozinho, mas na companhia de ajudantes que variam de uma cultura para outra. Quem diria que na França São Nicolau aparece acompanhado de um burrinho, na Holanda por um mouro da África (Zwarte Piet, “Negro Pedro”) e na [antiga] Tchecoslováquia pelo próprio Diabo?

Em 2005 o prefeito de Demre (Turquia), cidade Natal do Noel, mandou desalojar uma estátua tradicional do santo da praça da Igreja de São Nicolau e colocou no lugar uma mais imediatamente consumível versão de plástico de “Noel Baba”.

Deixo-vos então com minha própria versão de Baba: faces rosadas, olhos azuis, rosto bonito, barba branca e abundante, coração puro e sorriso angelical. Como não comprar um produto endossado por esse sujeito?

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Veja também:

Saint Nicholas Nicked

 

Este documento faz parte da série

A burlesca história da comemoração do Natal

  1. A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112
  2. A transição de São Nicolau
  3. Os desgovernos do Natal
  4. Uma concessão
  5. A aquisição da boa vontade
21 de Dezembro de 2004

O egoísta esclarecido e as gorjetas defensivas de Natal

Sociedade

Money Magazine, dezembro de 1991

«Na época de Natal você deve demonstrar às pessoas que trabalham pra você o quanto aprecia o trabalho delas – traduzindo: se não, você sofrerá as conseqüências no ano seguinte.
Tenha em mente uma espécie de Marxismo às avessas: a cada um segundo a sua necessidade (não a deles). Quer dizer, dê a gorjeta mais generosa a quem puder causar-lhe o prejuízo maior.»

19 de Agosto de 2004

As Variedades da Experiência Capitalista

Fé e Crença, Manuscritos, Sociedade

A fim de manter a sua supremacia por um período significativo de tempo, um sistema religioso precisa sustentar valores e idéias que parecem evidentes por si mesmos à maior parte dos membros de uma sociedade. As principais idéias de um sistema religioso têm de ser naturalmente transferíveis às novas gerações, sem que precisem ser ensinadas diretamente; os desvios da norma, os hereges, devem por sua vez ficar evidentes e ser excluídos por um mecanismo instintivo de rejeição logo que se manifestam.

Há pelo menos três séculos o cristianismo como sistema religioso formal da civilização ocidental foi substituído pela crença universal no capitalismo. O capitalismo (leia-se, e em inglês, way of life) provou-se por todos os critérios o sistema de crenças mais bem sucedido da história.

Isso porque, como qualquer muçulmano pode facilmente apontar, o capitalismo é uma religião como qualquer outra – apenas mais enraizada e muito mais difícil de converter. Embora a história do sucesso do cristianismo e do capitalismo ocidental andem até certo ponto de mãos dadas, os sistemas de segurança e multiplicação do capitalismo como sistema de fé são infinitamente mais estanques e bem amarrados do que os do cristianismo jamais foram.

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