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	<title>A Bacia das Almas &#187; capitalismo</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Se ele era inocente</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 08:18:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.</p>
<p>Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.</p>
<p>Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.</p>
<p>Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.</p>
<p align="right"><small><strong>Bernard Shaw</strong>, no prefácio de <em>On the rocks</em> (1933)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug080.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/nenhum-motivo-e-nenhuma-recompensa/">Nenhum motivo e nenhuma recompensa</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-ateismo-lucido-de-lovecraft/">O ateísmo lúcido de Lovecraft</a></p>
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		<title>A violência do global</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 10:38:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>

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		<description><![CDATA[O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal. A analogia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal. </p>
<p>A analogia entre os termos &#8220;global&#8221; e &#8220;universal&#8221; é enganosa. Universalização tem a ver com direitos humanos, liberdade, cultura e democracia. Globalização, ao contrário, tem a ver com tecnologia, com mercado, turismo e informação. A globalização é aparentemente irreversível, enquanto a universalização está provavelmente com os dias contados. Ela parece, no mínimo, estar perdendo terreno como sistema de valores desenvolvido no contexto da modernidade ocidental e sem paralelo em qualquer outra cultura. Toda cultura que se torna universal perde a sua singularidade e morre. Foi o que aconteceu com todas as culturas que destruímos no processo de assimilá-las. Porém isso é também verdade para a nossa própria cultura, a despeito de sua alegação de ser universalmente válida. A única diferença é que as outras culturas morreram por causa da sua singularidade, o que é uma morte bonita. A nossa está morrendo porque estamos perdendo nossa singularidade e exterminando nossos valores &#8211; e essa é uma morte muito feia.  </p>
<p>Cremos que o propósito ideal de qualquer valor é tornar-se universal, mas não avaliamos de fato o risco mortal que tal objetivo representa. Longe de ser uma empreitada edificante, trata-se na verdade de uma trajetória descendente na direção de um nível zero para tudo que tem valor. No Iluminismo a universalização era vista como crescimento ilimitado e propulsão ao progresso . Hoje, em contraste, a universalização existe por padrão é expressa como uma pisada sem rumo no acelerador, em que se busca apenas alcançar o mais ínfimo valor comum. É precisamente esse o destino dos direitos humanos, da democracia e da liberdade nos nossos dias. Sua expansão é na verdade sua expressão mais fraca.</p>
<p>A universalização está desaparecendo por causa da globalização. A globalização do comércio coloca um fim na universalização dos valores, e isso marca o triunfo de um pensamento uniforme sobre um pensamento universal. O que é globalizado é acima de tudo o mercado, a profusão de transações e de toda a sorte de produtos, o fluir perpétuo do dinheiro. Culturalmente, a globalização dá lugar a uma promiscuidade de símbolos e de valores, de modo a formar o que é na verdade uma pornografia. De fato, o alastramento global de tudo e de nada através de redes é pornográfico. A obscenidade sexual deixou de ser necessária; tudo que se tem agora é uma cópula global interativa. E, como resultado disso, não existe mais qualquer diferença entre o global e o universal. O universal tornou-se globalizado, e os direitos humanos circulam exatamente da mesma forma que qualquer outro produto global (por exemplo, petróleo ou capital).</p>
<p>A passagem do universal para o global ocasionou não apenas a uma constante homogeneização, mas também a uma infinita fragmentação. Deslocamento, não localização, tomou o lugar da centralização. Excentrismo, não descentralização, substituiu a concentração. Similarmente, discriminação e exclusão não são meras consequências acidentais da globalização, são os resultados lógicos da própria globalização. De fato, a presença da globalização pode nos levar a refletir se a universalização já não foi destruída por sua própria massa crítica. Pode também levar-nos a refletir se universalidade e modernidade existiram de fato fora de alguns discursos oficiais e de certos sentimentos morais populares. Para nós, hoje, o espelho da universalização está partido. Isso, no entanto, pode mostrar-se uma oportunidade: nos fragmentos desse espelho partido todas as sortes de singularidade reaparecem: as singularidades que julgávamos estar em risco sobrevivem, e as que julgávamos perdidas são revividas.</p>
<p>À medida em que os valores universais perdem sua autoridade e legitimidade, as coisas se tornam mais radicais. Quando crenças universais foram introduzidas como os únicos valores possíveis de mediação cultural, era muito fácil para essas crenças incorporar singularidades como modos de diferenciação numa cultura universal que alegava encorajar a diferença. Mas isso elas não são mais capazes de fazer, porque a globalização erradicou todas as formas de diferenciação e todos os valores universais que costumavam advogar a diferença. Ao fazê-lo, a globalização deu origem a cultura que é perfeitamente indiferente. No momento em que o universal desapareceu, uma tecnoestrutura global onipotente ficou sozinha para dominar. Mas essa tecnoestrutura está tendo agora de confrontar novas singularidades que, sem a presença da universalização para incubá-las, conseguem expandir-se de modo livre e devastador.</p>
<p>A universalização teve sua chance dada pela história. Porém hoje em dia, confrontada com uma ordem global por um lado sem qualquer alternativa e por outro avançando à deriva com singularidades de insurreição, os conceitos de liberdade, democracia e direitos humanos estão com um aspecto deplorável. Permanecem como os fantasmas da universalização passada. </p>
<p>A universalização costumava promover uma cultura caracterizada pelos conceitos de transcendência, subjetividade, conceitualização, realidade e representação. Em contraste, a cultura virtual global contemporânea substituiu conceitos universais por telas, redes, imanência, números e um contínuo espaço-tempo sem qualquer profundidade. No universal havia ainda espaço para uma referência natural ao mundo, ao corpo, ao passado. Havia uma espécie de tensão dialética ou movimento crítico que encontrava sua materialidade na violência histórica e revolucionária. Porém a expulsão dessa negatividade crítica abriu as portas para outra forma de violência, a violência do global. Essa nova violência é caracterizada pela supremacia da eficiência e da positividade técnicas, da organização total, da circulação integral e da equivalência de todos os intercâmbios. Além disso, a violência do global coloca um fim não só no papel social do intelectual (ideal ligado ao Iluminismo e à universalização), mas também ao papel do ativista, cuja sorte costumava estar ligada às ideias de oposição crítica e violência histórica.</p>
<p>Será fatal a globalização? Algumas vezes outras culturas, que não a nossa, foram capazes de escapar da fatalidade do intercâmbio indiferente. Porém hoje em dia, onde está o ponto crítico entre o universal e o global? Teremos atingido um ponto sem volta? Que vertigem impele o mundo a apagar a Ideia? E que outra vertigem é essa que, ao mesmo tempo, parece forçar as pessoas a quererem incondicionalmente concretizar a Ideia?</p>
<p>O universal era uma Ideia; porém, quando tornou-se concretizada no global ela desapareceu como Ideia, cometeu suicídio e desapareceu como fim em si mesma. Como a humanidade é agora sua própria imanência, tendo assumido o lugar deixado por um Deus morto, o humano tornou-se o único modo de referência e é soberano. Porém essa humanidade não mais tem qualquer finalidade. Livre dos seus antigos inimigos, a humanidade tem agora de criar inimigos de dentro, o que de fato produz uma ampla variedade de metástases inumanas.</p>
<p>É precisamente daqui que vem a violência do global. Ela é produto de um sistema que sai à caça de qualquer forma de negatividade e de singularidade, incluindo, é claro, a morte, em sua qualidade de forma última de singularidade. Trata-se da violência de uma sociedade em que o conflito é proibido, em que morrer não é permitido. Trata-se de uma violência que, num certo sentido, põe fim à própria violência, e luta para estabelecer um mundo em que qualquer coisa relacionada ao natural deve desaparecer (quer diga respeito ao corpo, ao sexo, ao nascimento ou à morte). Talvez, melhor do que chamá-la de violência global, fosse chamá-la de virulência global. Essa forma de violência é de fato viral. Ela se move por contágio, avança por reação em cadeia, e pouco a pouco destrói nosso sistema imunitário e nossa capacidade de resistir.</p>
<p>Porém o jogo ainda não terminou. A globalização não venceu por completo. Contra essa força dissolvente e homogeneizante, forças heterogêneas &#8211; não apenas diferentes, mas claramente antagônicas &#8211; estão se levantando em todo lugar. Por trás das crescentes fortes reações contra a globalização e das formas sociais e políticas de resistência ao global, encontram-se mais do que simplesmente expressões nostálgicas de negação. Encontra-se, ao contrário, um esmagador revisionismo em relação à modernidade e ao progresso, uma rejeição não apenas da tecnoestrutura global, mas também do sistema mental da globalização, que pressupõe um princípio de equivalência entre todas as culturas. Esse tipo de reação pode às vezes assumir aspectos violentos, anormais e irracionais, ou podem pelo menos ser percebidos como violentos, anormais e irracionais da perspectiva de nosso modo de pensar tradicionalmente iluminista. Essa reação pode assumir formas coletivas étnicas, religiosas e linguísticas, mas pode também assumir a forma de explosões emocionais individuais ou mesmo neuroses. Em qualquer caso, seria um erro condenar essas reações como simplesmente populistas, arcaicas ou mesmo terroristas. Tudo nos nossos dias que tem qualidade de evento está engajado contra a universalidade abstrata do global, e isso inclui a própria oposição islâmica aos valores ocidentais (é justamente por ser a contestação mais vigorosa desses valores que o Islam é considerado hoje o inimigo número um do ocidente).</p>
<p>Quem pode derrotar o sistema global? Certamente não o movimento antiglobalização, cujo único objetivo é retardar a retirada global do controle governamental. O impacto político desse movimento pode ser importante, mas seu impacto simbólico é inútil. Sua oposição nada mais é do que uma questão interna que o sistema dominante pode facilmente manter sob controle. Alternativas positivas não são capazes de derrotar o sistema dominante, mas singularidades que não são bem positivas nem negativas podem. Singularidades não são alternativas: elas representam uma ordem simbólica diferente. Elas não seguem julgamentos de valor ou realidades políticas. Singularidades podem representar o melhor ou o pior, não podendo ser &#8220;regularizadas&#8221; por meios de ação histórica coletiva. Elas derrotam qualquer pensamento que seja exclusivamente dominante, porém não se apresentam na forma de um contrapensamento exclusivo. Falando simplesmente, elas criam seu próprio jogo e impõem suas próprias regras. Nem todas as singularidades são violentas: algumas singularidades linguísticas, artísticas, corpóreas e culturais são bem sutis. Porém outras, como o terrorismo, podem ser violentas. A singularidade do terrorismo vinga as singularidades das culturas que pagaram com a sua extinção o preço da imposição de um poder global único.</p>
<p>Não estamos aqui falando de um &#8220;confronto entre civilizações&#8221;, mas de um conflito quase antropológico entre uma cultura universal indiferenciada e todo o restante que, em qualquer domínio, retenha uma qualidade irredutível de alteridade. Da perspectiva do poder global (que é tão fundamentalista em suas crenças quanto qualquer ortodoxia religiosa), qualquer modalidade de diferença ou de singularidade é heresia. Forças singulares tem como escolha juntar-se ao sistema global (por livre vontade ou pela força) ou perecer. A missão do Ocidente (ou, antes, do que era antes o Ocidente, visto que esse perdeu seus próprios valores há muito tempo) é utilizar todos os meios disponíveis para subjugar toda cultura ao princípio brutal da equivalência cultural. Uma vez que perde seus valores, o que resta a uma cultura é buscar vingança atacando os valores das demais. Para além dos objetivos econômicos e políticos, guerras como a do Afeganistão buscam ajustar a selvageria e alinhar todos os territórios. O alvo é livrar-se de qualquer zona reativa: colonizar e domesticar geograficamente e mentalmente qualquer território extravagante ou resistente.</p>
<p>O estabelecimento de um sistema global é o resultado de um ciúme profundo. É o ciúme que uma cultura indiferente e de baixa definição tem de culturas de alta definição; o ciúme que um sistema desiludido e deintensificado tem de ambientes de alta intensidade cultural; o ciúme que uma sociedade dessacralizada tem de formas sacrificiais. De acordo com o sistema dominante, qualquer forma de reação é virtualmente terrorista (de acordo com essa lógica, pode-se dizer que até mesmo as catástrofes naturais são formas de terrorismo. Grandes acidentes tecnológicos, como Chernobyl, são ao mesmo tempo ato terrorista e desastre natural. Outro acidente tecnológico, o vazamento de gás tóxico em Bhopal, na Índia, poderia também ter sido um ataque terrorista. Qualquer queda de avião pode também ter a responsabilidade assumida por um grupo terrorista. A característica dominante de eventos irracionais é que eles podem ser imputados a qualquer um e a qualquer dada motivação. Até certo ponto, qualquer coisa em que pensarmos pode ser criminosa, mesmo uma frente fria ou um terremoto. Isso não é novidade. No terremoto de Tóquio de 1923 milhares de coreanos foram mortos porque acreditou-se que eram responsáveis pelo desastre. Num sistema intensamente integrado como o nosso, tudo pode ter um efeito de desestabilização semelhante. Tudo caminha para o fracasso de um sistema que alega ser infalível. Do nosso ponto de vista, apanhados dentro dos controles racionais e programáticos do sistema, não somos sequer capazes de perceber que a pior catástrofe é na verdade a infalibilidade do próprio sistema). </p>
<p>Veja o Afeganistão. O fato de que apenas dentro desse país todas as formas de liberdades e expressões &#8220;democráticas&#8221; &#8211; de música e televisão à possibilidade de se ver o rosto de uma mulher &#8211; são proibidas, bem como a possibilidade de que esse país pudesse assumir um caminho totalmente avesso ao que chamamos de civilização (não importando quais os princípios religiosos invocados), provaram-se não aceitáveis para o mundo &#8220;livre&#8221;. A dimensão universal da modernidade não pode ser recusada. Da perspectiva do Ocidente, de seu modelo consensual e de seu modo único de pensar, é um crime não perceber a modernidade como a fonte óbvia do Bem ou como o ideal natural da humanidade. É crime também quando a universalidade de nossos valores e práticas são consideradas suspeitas por indivíduos que, no momento em que revelas as suas dúvidas, são imediatamente tachados de fanáticos.</p>
<p>Só uma análise que enfatize a lógica da obrigação simbólica pode decifrar esse confronto entre o global e o singular. Para se entender o ódio do resto do mundo contra o Ocidente, as perspectivas devem ser invertidas. O ódio dos povos não-ocidentais não está baseado no fato de que o Ocidente roubou tudo deles e nunca devolveu coisa alguma em troca. Ao contrário: está baseado no fato de que eles receberam tudo, mas nunca tiveram permissão para devolver coisa alguma. Esse não é o ódio causado pela exploração ou pela espoliação, mas pela humilhação. É precisamente este tipo de rancor que explica os ataques terroristas de 11 de setembro: foram ataques de humilhação em resposta a outra humilhação.</p>
<p>O pior que pode acontecer a um poder global não é ser atacado ou destruído, mas sofrer uma humilhação. O poder global foi humilhado no 11 de setembro porque os terroristas infligiram algo que o sistema global não tem como devolver. Represálias militares limitaram-se a uma reação física. Porém, no 11 de setembro, o poder global foi simbolicamente derrotado. A guerra é uma resposta à agressão, não a um desafio simbólico. Um desafio simbólico é aceito e removido quando o adversário é humilhado em retribuição (mas isso não tem como funcionar quando o adversário é triturado por bombas ou trancafiado em Guantanamo). A regra fundamental da obrigação simbólica estipula que a base de qualquer forma de dominação é a total ausência de qualquer contrapartida, de qualquer retorno. A dádiva unilateral é um ato de poder. E o Império do Bem, a violência do Bem, é precisamente ser capaz de dar sem qualquer possibilidade de retorno. É isso o que significa estar na posição de Deus, ou na posição do senhor que permite que o escravo viva em troca de seu trabalho (porém o trabalho não é uma contrapartida simbólica, e a única resposta que o escravo pode eventualmente dar é rebelar-se ou morrer). </p>
<p>Deus costumava abrir algum espaço para sacrifício. Na ordem tradicional, era sempre possível devolver-se alguma coisa a Deus, ou à natureza, ou a qualquer entidade superior através do sacrifício. Era isso que assegurava o equilíbrio simbólico entre seres e coisas. Hoje, no entanto, não temos ninguém a quem retribuir, a quem devolver o débito simbólico. Este é o curso da nossa cultura. Não é que a dádiva seja impossível, a contradádiva é que é. Todas as formas sacrificiais foram neutralizadas ou removidas (o que resta é uma paródia do sacrifício, visível em todas as instâncias contemporâneas de vitimização).</p>
<p>Estamos portanto na irremediável situação de ter que receber, sempre receber, não mais de Deus ou da natureza, mas por via de um mecanismo tecnológico de tráfico generalizado e gratificação comum. Tudo nos é virtualmente dado, e, quer se goste ou não, ganhamos direito sobre todas as coisas. Nossa situação é similar à do escravo cuja vida foi poupada mas permanece preso a um débito impossível de se pagar. Essa situação pode durar ainda algum tempo, sendo de fato a base da troca nesta ordem econômica. Porém chega sempre a hora em que a regra fundamental volta à superfície e um retorno negativo segue inevitavelmente como resposta a uma transferência positiva, quando vem à tona uma explosão emocional diante dessa vida de cativeiro, dessa existência protegida e dessa saturação. Essa reversão pode tomar a forma de um ato aberto de violência (como o terrorismo), mas também de entrega impotente (que é mais característica da nossa modernidade), de autodepreciação e de remorso &#8211; em outras palavras, todas aquelas paixões negativas que são formas degradadas da impossível contradádiva. </p>
<p>Aquilo que odiamos em nós mesmos &#8211; o obscuro objeto de nosso ressentimento &#8211; é o nosso excesso de realidade, de poder, de conforto, nossa disponibilidade universal, nossa completa realização, aquele tipo de destino que o Grande Inquisidor de Dostoiévski tinha reservado para as massas domesticadas. É precisamente essa porção da nossa cultura que os terroristas consideram repulsiva (o que também explica o apoio que recebem e a pressão que exercem). O apoio ao terrorismo não está baseado apenas no desespero dos que foram humilhados e ofendidos; está também fundamentado no desespero invisível daqueles a quem a globalização privilegiou, em nossa própria submissão a uma tecnologia onipotente, a uma esmagadora realidade virtual, a um império de redes e de programas que estão provavelmente em processo de redesenhar os contornos regressivos da espécie humana como um todo, de uma humanidade que tornou-se &#8220;global&#8221; (afinal de contas, não é a supremacia da espécie humana sobre o restante da vida na terra o reflexo da dominação do ocidente sobre o resto do mundo?). Esse desespero invisível, nosso desespero invisível, é irremediável, porque é resultado da realização de todos os nossos desejos.</p>
<p>Dessa forma, se o terrorismo deriva do excesso de realidade e do impossível sistema de trocas dessa realidade, se é produto de uma profusão sem qualquer contrapartida possível, e se emerge de uma resolução forçada de conflitos, a ilusão de que livrar-se dele é livrar-se de um mal objetivo está completa. Pois, em todo esse absurdo e contrassenso, o terrorismo é julgamento e penalidade da própria sociedade.</p>
<p align="right"><small><strong>Jean Baudrillard</strong></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug081.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/o-aniquilamento-da-nao-violencia/">O aniquilamento da não-violência</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>O aniquilamento da não-violência</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 08:13:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[pacifismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade. Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul &#160; Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small><br />
<em>Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.</em><br />
<strong>Bernard Charbonneau</strong>, falando em nome do anarquista cristão <strong>Jacques Ellul</strong></small> </p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.</p>
<p>Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.</p>
<p>Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.</p>
<p>Oculta por trás de multiformes manifestações e múltiplos falsos destinos, o capitalismo tem uma só regra, mas é uma regra rígida: <em>conforme-se</em>. Não me interessa o quê, consuma. Acredite no que quiser, apenas compre. Quem não <em>sabe comprar</em> deve ser ensinado a aprender, e as culturas e pessoas que não estão interessadas em consumir ou em impor seu modo de vida às demais estão condenadas à execração e à morte social, cultural e econômica.</p>
<p>Resistir é inútil. A função da propaganda (e a propaganda ocupou cada centímetro do espaço social) é evangelizar você com a má nova de que você não é feliz, e de que não terá como ser feliz até aprender a comprar o quanto baste, isto é, sem parar. Olhe pra você. Você está longe de ter toda a autorrealização que pode comprar. Para imprimir credibilidade à sua mediocridade você deve consumir. Para se destacar você deve fazer como todos.</p>
<p>A questão central, que as luzes do shopping simplesmente não nos deixam enxergar, é que consumir é agredir, especialmente num mundo interligado como o nosso. Não restam pessoas pacíficas entre nós, nem uma sequer. Não há gente não-violenta, porque todos consumimos. </p>
<p>Há inúmeros sentidos em que, dentro de um capitalismo global, consumir é agredir. Talvez baste citar dois.</p>
<p>Primeiro há a questão dos recursos naturais, e mesmo aqueles dentre nós que creem que o espírito empreendedor não tem limites deveriam poder entender que os recursos têm. Se 20% da população da Terra consomem 80% dos recursos disponibilizados pelo planeta, resulta em primeiro lugar que os bem-sucedidos dentre nós são os que desfrutam muito desautorizadamente do que não é seu. Não importa o que você acredite, o seu MBA não o qualifica a usar o recurso planetário que pertence tanto a você quanto ao seu irmão de um dos sertões do mundo. Na marca dos 7 bilhões de condôminos, a Terra é um cortiço que está ficando pequeno, e nesse condomínio uma minoria dilapida segundo os seus (os nossos) próprios caprichos um patrimônio que é comum, e despeja ao mesmo tempo o seu (o nosso) lixo sobre a cabeça de uma minoria que absolutamente não é responsável por ele.</p>
<p>Além disso, a presente taxa de utilização dos recursos naturais representa não apenas um ultraje para o presente, para gente que está viva agora, mas uma ameaça para o futuro – uma ameaça para os que nascem hoje e terão de encontrar espaço de vida e de dignidade amanhã. Não há como não concordar com os que alertam que é tarde demais para ser pessimista: “sustentável” é menos uma diretiva do que um sonho. Sustentável é o que o futuro seria na melhor das hipóteses, se o nosso presente também fosse. Consumir é agredir porque é de fato <em>consumir</em>, fazer desaparecer – é queimar um mundo que não nos pertence, e como se não houvesse amanhã.</p>
<p>Em segundo lugar, consumir é agredir porque, num espaço de produção globalizado, você não é obrigado a testemunhar as injustiças que patrocinam os seus hábitos de consumo. O capitalismo não apenas alienou o trabalhador do fruto do seu trabalho, conforme diagnosticado por Marx, mas separou também o consumidor da realidade do valor e da produção. Amigo, nada neste mundo custa 1,99. Tudo neste planeta é muito valioso. Tudo é caríssimo, em especial as horas-gente e as horas-futuro, que são horas-vida. Acredite, a máquina fotográfica que você tem no bolso é uma milagre e o seria em qualquer tempo e qualquer universo; se você paga por ela coisa de 30 almoços é porque <em>alguém está pagando o restante do valor</em> – e via de regra é o chinês apertado numa fábrica, com as mesmas condições de conforto e o mesmo espaço para se esticar que o frango industrial de que você comprou ontem o filé. E os operários em todo o mundo se sujeitam a esse tipo de indignidade apenas porque vendemos a eles, constantemente e com toda a eficiência, o sonho de aprenderem a comprar com a mesma eficácia que nós mesmos. E quem não gostaria de estar no nosso lugar? Todos os que consumimos, de iPads a goiabinhas Piraquê, somos senhores de escravos.</p>
<p>Desse modo não é difícil entender, com Jean Baudrillard, porque discriminação e exclusão são consequências diretas e imediatas da globalização. O capitalismo tecnológico quer impor sobre as culturas e sobre os indivíduos uma solução de vida sem verdadeira alternativa; todos os que não se submetem ou não desejam esse modo de vida estão por definição discriminados e excluídos. E mesmo os que se sujeitam a desejar a solução indiferenciada tem de submeter-se ainda à pedra de moer da eterna insatisfação: a máquina capitalista só funciona enquanto e porque todos nos sentimos pelo menos um pouco discriminados e excluídos, e entendemos que o consumo do produto almejado nos curará dessa inadequação. Gente satisfeita com o que tem (ou com o que não tem) representa a morte do capitalismo; não é à toa que o capitalismo esteja tão bem de saúde.</p>
<p>Não foi à toa que Gandhi entendeu depressa que para abraçar adequadamente o ideal da não-agressão não bastava baixar as armas e oferecer a outra face: era preciso afastar-se deliberadamente das cadeias do consumo e adotar um modo de vida ao mesmo tempo responsável e sustentável. Ele intuiu que a verdadeira não-violência, no seu sentido mais radical da coisa, requer consumir o que se planta, vestir o que se fia, assumir a responsabilidade pelo próprio lixo, abrir mão das ilusões do consumo, abandonar as armadilhas da novidade e ignorar a ficção útil da propriedade privada<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/o-aniquilamento-da-nao-violencia/#footnote_0_2765" id="identifier_0_2765" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma aspira&ccedil;&atilde;o e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evang&eacute;lico do neomonasticismo.">1</a></sup>. E o capitalismo está construído de modo a que você permaneça convencido de que não tem liberdade para fazer qualquer uma dessas coisas. </p>
<p>A perfeição do mecanismo está em que somos nós mesmos nossos catequizadores. Nosso modo de vida insiste, na verdade ele comprova, que não existe uma alternativa ao moinho do consumo. Você não é livre e jamais será, mas não vai sentir falta da liberdade enquanto estiver com um cartão de crédito ou sonhando com um.</p>
<p>Como resultado, a violência foi efetivamente institucionalizada, tendo se tornado o combustível até mesmo dos mais inocentes. A liberdade que temos, quando temos, é a de escolher, a cada momento, a agressão menor – e mesmo essa frágil decisão está se tornando cada vez mais difícil e improvável. As cadeias são cada vez mais eficazes e os encadeamentos cada vez mais complexos. Quem pode nos ensinar a viver de outra forma? Somos paupérrimos, só sabemos comprar para viver. O ciclo de agressão da produtividade e do consumo está entranhado em tudo que fazemos, tudo que desejamos, tudo que sonhamos. Os mais carolas, amantes de paz e inofensivos dentre nós patrocinam a agressão aberta e foram para sempre maculados por ela. Somos todos cúmplices e vítimas da mesma violência capital.</p>
<p>A tragédia está em que o amor não foi capaz de nos unir, mas a complacência universal com a injustiça nos tornou irmãos. Somos a máfia, e na máfia todos se cuidam, para que a máfia não tenha como mudar. Da máfia ninguém sai.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2765" class="footnote">Uma aspiração e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evangélico do <a href="http://www.christianitytoday.com/ct/2005/september/16.38.html">neomonasticismo</a>.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A dura coreografia de um dia como os outros</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Dec 2011 16:27:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>É com toda a relutância (e por certo para grande prejuízo da imagem de sofisticação que penso às vezes a transmitir), que devo confessar que sim, curto o Natal &#8211; não só o Natal de Jesus, mas também aquele das tradições, das canções, das luzinhas, das diferentes culturas e da conturbada história do ocidente (não tenho como aprovar, claro, o chão comercialismo da coisa toda, mas o Natal está longe de ser a única coisa bonita arruinada pelo capitalismo, ou a mais importante). Curto o Natal talvez mais do que o cidadão comum, e certamente muito mais do que deixaram entrever a severidade e o estudado cinismo <a href="http://www.baciadasalmas.com/tag/natal/">das vezes em que me manifestei</a> aqui sobre o assunto; se me contive foi para tentar evitar parecer ainda mais brega do que já demonstrei ser.</p>
<p>Mas entendo também, e queria apenas dizer isso, que muito do que o Natal tem de belo faz com que tenha também algo de forçado, de artificial e &#8211; por vezes &#8211; de terrível. O maior problema do Natal (e falo da festa, que é o que existe) não é que ninguém se lembra de Jesus, ou que devesse lembrar, ou que tentemos fazer com que a beleza da festa persista sem a necessária memória da sua origem. Essas, creia-me, são tecnicalidades. O problema é que, justamente porque não há quem não entenda que esta deveria ser uma festa de alegria e de luz e de boa vontade, o Natal acaba exigindo de todos uma coreografia que a realidade nem sempre se mostra elástica o bastante para fornecer. A inadequação dos nossos esforços e do próprio resultado acaba com frequência transformando o que deveria ser belo e tranquilo em peso e horror &#8211; numa vida que já os tem tantos.</p>
<p>Inconscientemente todos sacamos que o Natal, para que seja perfeito (e quem não sonhou com um Natal perfeito?) requer ajustes por vezes muito severos na crueza da realidade. E não falo de encontrar o presente certo para a Mabel, esposa do Renan, que você tirou no amigo secreto, mas de coreografar a vida de modo a que tudo esteja bem, tudo esteja aceitável, todos estejam falando com todos, ninguém se sinta esquecido, ninguém se sinta ofendido, ninguém beba demais, ninguém levante aquele assunto constrangedor, aquele tio não comece a contar aquelas piadas.</p>
<p>Em especial, sentimo-nos obrigados a coreografar a vida <em>de modo a que nós mesmos estejamos bem</em> &#8211; afinal de contas, ninguém quer ter de representar o constrangimento de estar triste na noite de Natal. Bêbados tudo bem, emputecidos sim, cínicos na maior parte das vezes, mas estar triste numa noite de luz é uma gafe que preferiríamos não ter de associar a nós mesmos. O próprio peso positivo da festa nos constrange a coreografar a vida de modo a que estejamos de bem com a vida naquela data, porque naquele dia nada pode dar errado, porque na festa do ano nada pode estar sujeito a contingências: o presente certo deve estar aguardando o destino seguro no banco de trás de cada um, as provisões tem de estar aguardando enfileiradas na cozinha, as roupas passadas e o cabelo penteado, o peru no forno, o zíper fechado e o sorriso no rosto.</p>
<p>O problema, claro, é que a vida não é um comercial de tender, e não há como coreografar as contingências para fora da vida. Não há como manufaturar em um dia a perfeição que nunca houve o ano inteiro, e que jamais haverá. Há o filho distante, há a doença do amigo, há nossa tendência à vanglória, há a desilusão, a morte, a rejeição, a fome, a desigualdade, a guerra de longe e de perto e há as inadequações de todos e de cada um ao nosso redor, muito facilmente refletidas e amplificadas pelas nossas. Tudo que resta, frequentemente, é a distância entre a realidade e as nossas boas intenções, entre o que a festa foi e o que deveria ser.</p>
<p>O Natal é o grande peso da cristandade: a falsa culpa e a frustração patrocinadas com as melhores das intenções.</p>
<p>E trata-se do peso peculiar a todas as instituições, que tentam por natureza aprisionar numa formalidade e adequar a uma casca uma beleza que não se deixa absolutamente aprisionar.</p>
<p>O paradoxal (porque tudo é paradoxal) é que a ocasião original do nascimento de Jesus é história definida apenas por contingências, existindo por inteiro debaixo do signo do inesperado e do imperfeito. É a história de gente conseguindo reconstruir suas expectativas de modo a encontrar beleza no que poderia ser facilmente considerado terrível: uma gravidez não esperada, uma desilusão amorosa, uma viagem cansativa, uma cidade lotada e um nascimento sem um mínimo de dignidade.</p>
<p>Deixo esta canção de Natal: Deus conosco é o Deus teimoso do não-coreografado. O Natal é dança que só se oferece a pés despreparados que acontecem de ouvir nas estrelas os anjos cantando.</p>
<p>Então, pelo amor de Deus, abra mão da coreografia que estou tentando apenas viver eu mesmo, aqui do meu lado. Se Jesus não nascer <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-dia-mais-banal/">num dia qualquer</a> não é na noite dos milagres que ele vai querer dar as caras.</p>
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		<title>O caminho da natureza e o caminho da graça</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 11:28:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[graça]]></category>
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		<description><![CDATA[A propósito, se não tenho coragem de recomendar descaradamente o filme Árvore da vida, de Terrence Malick, é porque às vezes tenho vergonha de quanto descaradamente cristão o filme é, e queria poder evitar esse proselitismo. Mas não se iluda: trata-se de uma obra imensa, luminosa e generosa, ao mesmo tempo ambiciosíssima e tremendamente singela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A propósito, se não tenho coragem de recomendar descaradamente o filme <em>Árvore da vida</em>, de Terrence Malick, é porque às vezes tenho vergonha de quanto descaradamente cristão o filme é, e queria poder evitar esse proselitismo. Mas não se iluda: trata-se de uma obra imensa, luminosa e generosa, ao mesmo tempo ambiciosíssima e tremendamente singela. <em>Árvore da vida</em> é um filme do Espírito e um filme de Jesus em todos os sentidos, inclusive no que a coisa pode ter de mais constrangedor, a sensação sempre iminente de que talvez se esteja assistindo a uma peça de Natal com ambições cósmicas. Porém é um grande filme e um filme cristão, e não creio que as duas coisas já tenham coexistido neste universo. Fiquei por meses ponderando se tinha assistido ao primeiro filme da minha vida ou ao último.</p>
<p>E o glorioso é que a melhor resenha do filme que cheguei a ler é de um homem que não se dá ao trabalho de acreditar em Deus, <a href="http://antagonie.blogspot.com/2011/06/days-of-malick-you-can-only-be-happy-if.html">Tim Brayton</a>, que lê do seguinte modo a contraposição entre <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sobre-manipular-antonimos/">o caminho da natureza e o caminho da graça</a> (ou, para usar a linguagem bíblica, entre carne e espírito):</p>
<blockquote><p>
O que me deixou um pouco perplexo, na primeira vez em que vi o filme, foi pensar que se a obra cinemática de Malick pode ser resumida a um único tema, seria a inseparabilidade entre o caminho da natureza e o caminho da graça, não seria? &#8220;Natureza&#8221;, no entanto, não se refere aqui ao mundo natural, mas à natureza humana. A mulher prossegue sem intervalo a explicar suas palavras, esclarecendo que os que seguem o caminho da natureza são levados a fechar-se para a bondade e para luz; forçam a si mesmos e aos outros a seguir uma espiral desordenada de provarem-se incessantemente os mais fortes, os mais capazes, os mais ricos, os mais poderosos, e assim por diante. Os que seguem o caminho da graça permitem-se simplesmente Ser. Não é o modo como ela coloca, &#8220;Ser&#8221;, mas não resta nenhuma dúvida a partir do seu tom de voz de que, se tivesse usado essas precisas palavras, &#8220;Ser&#8221; viria proferido em inequívocas maiúsculas.</p></blockquote>
<p>Brayton tem a lucidez adicional de enxergar o que pode ter passado despercebido a muitos cristãos que viram o filme, a sacada de que na vida de cada um carne e espírito &#8211; o caminho da natureza e o caminho da graça &#8211; permanecem inseparáveis mesmo quando um consegue ultrapassar em muito o poder do outro. Foi por isso que, com alguma hesitação, coloquei a narração inicial do filme<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-caminho-da-natureza-e-o-caminho-da-graca/#footnote_0_2748" id="identifier_0_2748" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="&amp;#8220;As freiras nos ensinaram que h&aacute; dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da gra&ccedil;a. Voc&ecirc; tem de escolher que caminho seguir. A gra&ccedil;a n&atilde;o tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza s&oacute; quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agrad&aacute;-la tamb&eacute;m. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro est&aacute; resplandecendo ao seu redor, e o amor est&aacute; sorrindo atrav&eacute;s de todas as coisas.&amp;#8221;">1</a></sup> para introduzir <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sobre-manipular-antonimos/">minha nota</a> sobre a manipulação de antônimos. Não deve haver dúvida de que o capitalismo é o caminho da natureza e a herança de Jesus é o caminho da graça, mas natureza e graça, embora antagônicos, não são, infelizmente, antônimos. Carne e espírito não existem separados dentro de nós mesmo quando empreendemos entregar a vida com toda paixão apenas a um. Se temos de &#8220;escolher que caminho seguir&#8221; não é em regime definitivo, o que não seria possível, mas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/microsalvamentos-como-salvar-o-mundo-um-instante-de-cada-vez/">a cada momento</a>. Nem os mais virtuosos nem os mais perversos dentre nós são consistentes na sua escolha, o que explica em parte a ambivalência e a complexidade da condição humana. Como lembra <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/gli-altri-siamo-noi/">aquela canção italiana</a> de que gosto, somos todos vítimas e algozes e &#8211; de algum modo misterioso mas muito literal &#8211; os outros somos nós.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2748" class="footnote">&#8220;As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.&#8221;</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Sobre manipular antônimos</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Dec 2011 16:30:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.</small></p>
<p align="right"><small>A narração inicial de <em>Árvore da vida</em>, de <strong>Terrence Malick</strong></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo. </p>
<p>Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. &#8220;Qual é o contrário de [determinada coisa]&#8221; é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.</p>
<p>Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sobre-manipular-antonimos/#footnote_0_2746" id="identifier_0_2746" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Ou, ainda, qual &eacute; o contr&aacute;rio de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido &amp;#8220;homoafetivo&amp;#8221;, que alia &agrave; baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplifica&ccedil;&atilde;o e da incorre&ccedil;&atilde;o. Porque os heterossexuais, em especial os homens, s&atilde;o em geral grandes homoafetivos &amp;#8211; no sentido de que sentem-se mais &agrave; vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperan&ccedil;as da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.">1</a></sup>? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. &#8220;Qual é o contrário disso?&#8221; pode também significar &#8220;existirá uma alternativa a isso?&#8221;, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.</p>
<p>Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, &#8220;o contrário de capitalismo é socialismo&#8221; é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.</p>
<p>Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência &#8211; aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-lado-esquerdo-de-hitler/">O lado esquerdo de Hitler</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/sobre-dar-nomes-a-primatas/">Sobre dar nome a primatas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sobre-o-costume-de-agrupar-livros/">Sobre o costume de agrupar livros</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2746" class="footnote">Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido &#8220;homoafetivo&#8221;, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos &#8211; no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Perdão e poder</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 12:47:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[graça]]></category>
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		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é de estranhar que Jesus de Nazaré tenha se recusado a reduzir a virtude a um conjunto confortável de regras; não é de estranhar que ele tenha se negado firmemente a indicar que a conduta do reino pudesse ser domada em normas ou esgotada pela obediência passiva. Essas suas cautelas se enquadram de modo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é de estranhar que Jesus de Nazaré tenha se recusado a reduzir a virtude a um conjunto confortável de regras; não é de estranhar que ele tenha se negado firmemente a indicar que a conduta do reino pudesse ser domada em normas ou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-acalentado-conforto-da-proibicao/">esgotada pela obediência passiva</a>. Essas suas cautelas se enquadram de modo natural em seu projeto de rejeitar o uso de qualquer ferramenta de manipulação e de poder. Legislar é poder, legislar é condicionar, e nada está mais distante da postura que Jesus assumiu para si mesmo e sonhou para os seus amigos.</p>
<p>Também não é de estranhar que a igreja tenha ignorado por completo esse sonho de Jesus, tendo caído muito cedo na tentação de regulamentar e institucionalizar. O desafio do sopro imprevisível do espírito se prestava menos como ferramenta de controle do que a promulgação de novos e exigentes regulamentos, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Débito é controle.</span>pelo que a igreja não tardou a elencá-los e a demandar o seu solene cumprimento.</p>
<p>Em especial, a elaboração de uma nova legislação resolvia o tremendo problema  gerado pelo anúncio evangélico do perdão universal dos pecados. Porque, como quem pondera essas coisas não deve esquecer, o rabi de Nazaré era acima de tudo um sujeito que via como essencial viver desafiando as pessoas a celebrar um novo modo de vida com base no desconcertante anúncio divino da remissão das faltas que mancham a ficha de cada um (inclusive, estava implícito, daquelas manchas teimosas para as quais a lei de Moisés não previa compensação ou misericórdia). Tratava-se de uma absolvição incondicional, integral, imediata e gratuita – e, em cada um desses aspectos, inteiramente sem precedentes. O anúncio e o ingresso do reino dos céus começavam com o mergulho literal nessa vertiginosa notícia.</p>
<p>Deste lado de um rio com dois mil anos de largura, estamos habituados a tomar o anúncio do perdão plenário dos pecados como um dos aspectos mais imateriais e etéreos – um dos aspectos mais politicamente inofensivos – da mensagem de Jesus. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Ser perdoado deve ser complicado.</span>Não teríamos como estar mais enganados.</p>
<p>O anúncio da disponibilidade universal da absolvição dos pecados era um golpe que desfechava fraturas profundas nas estruturas sociais, religiosas, econômicas e políticas do mundo de Jesus. Como explicam tão rigorosamente os evangelhos, os representantes do estado de coisas em cada uma dessas esferas não deixaram de farejar essa ameaça no ar. Nenhum governo precisa perseguir gente santa: santos não incomodam, porque limitam-se a apontar o pecado. Jesus e João Batista foram perseguidos porque distribuíam o perdão e a liberdade, anulando e relativizando o poder paralisante da culpa e do pecado.</p>
<p>O problema, naturalmente, está em que nenhum estado de coisas, nenhum sistema de dominação e controle, tem como sobreviver à súbita ausência de débitos.</p>
<p>Os homens que projetaram a igreja formal julgaram que não convinha para a manutenção do sistema que uma pessoa se sentisse por muito tempo inteiramente perdoada, sem dever nada a ninguém – isto é, autônoma, livre, criativa e responsável. A fim de evitar a dificuldade que seria fiscalizar uma multidão autônoma de alforriados, viu-se como necessário colocá-los sem demora debaixo de uma nova e sensata cadeia de exigências. Uma lista de normas, que pudesse ser decorada e que não deixasse margem de manobra ou de dúvida. Por amor ao rebanho e, por tabela, a Jesus.</p>
<p>Nessa manobra, que deve ter sido em grande parte inconsciente, a igreja primitiva intuiu muito espertamente o que sabem hoje em dia todos os governos e todas instituições financeiras: débito é controle. Para que a instituição funcione e para que a máquina continue a rodar você precisa sentir que está devendo para ela. Quem deve, teme.</p>
<p>É por isso que os governos e as instituições tendem a aumentar indefinidamente a sua lista de proibições e de transgressões, mas tendem a diminuir a lista daqueles com autoridade para absolvê-las. É por isso que, nos nossos dias, mesmo as maiores autoridades e os mais poderosos tribunais são constrangidos pelo sistema a não mitigar a severidade de quaisquer penas, especialmente as mais graves. É por isso que é tão fácil conseguir um cartão de crédito e tão difícil sair de casa sem ele. É por isso que os religiosos do tempo de Jesus se incomodavam menos com os seus desvios da ortodoxia do que com a singeleza com que ele perdoava os pecados de quem quer que fosse.</p>
<p>A fim de se garantir a sobrevivência de qualquer sistema, ser perdoado deve ser complicado. Deve ter um procedimento, uma hierarquia, um prazo, um trâmite e um preço. Para que o débito exerça de modo adequado o seu poder de controle, o perdão não pode ser distribuído indiscriminadamente. Ninguém deve ter poder para absolver a seu bel-prazer – e, como se não bastasse a sua própria insubordinação, era com a missão de distribuir o perdão que Jesus convidava seus seguidores a passear mundo afora. Nada é mais subversivo do que o perdão emitido sem critério, e era um Deus assim – uma vida assim – que Jesus apresentava ao mundo. A este mundo.</p>
<p>A singularidade desse indulto universal é tão assombrosa que nem mesmo a igreja foi capaz de represá-la por completo. Porém os líderes pós-apostólicos entenderam muito depressa que a euforia libertadora do mais radical e abrangente dos perdões pode ser anulada imediatamente pela contabilização de novos débitos.</p>
<p>Afinal de contas, quem não deve nada a ninguém pode crer-se livre para mudar o mundo ou para reger a sua própria vida – e nada há de mais perigoso. O espírito da liberdade pode insistir em soprar onde quiser – e nada há de mais inconveniente.</p>
<p>Foi tida como medida urgente e necessária, portanto, reinstaurar a culpa. Foi deliberado como recomendável anular-se o risco da liberdade e do perdão.</p>
<p>Porque, descuidado leitor, o que você empreenderia se entendesse de repente que não deve nada aos seus empregadores? O que você faria agora mesmo se entendesse que não deve nada a seu banco, a seu governo ou a si mesmo?</p>
<p>Por tudo que é sagrado, o que você faria se entendesse que não deve nada a Deus?</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug007.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-deus-que-nao-tem-ninguem-na-sua-lista/">O Deus que não tem ninguém na sua lista</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/na-cama-com-a-biblia/">Na cama com a Bíblia</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-acalentado-conforto-da-proibicao/">O acalentado conforto da proibição</a></p>
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		<title>A distância entre caridade e justiça</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Nov 2011 07:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[poser or prophet]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>
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		<description><![CDATA[Nos textos que seguem procuro empregar o Novo Testamento e alguns elementos das tradições cristãs a fim de complicar a correspondência que costumamos crer existir entre caridade e justiça social. Embora um bom número dos cristãos que trabalham em organizações de caridade tenha sido atraído para esse trabalho inspirado por um compromisso com a visão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos textos que seguem procuro empregar o Novo Testamento e alguns elementos das tradições cristãs  a fim de complicar a correspondência que costumamos crer existir entre caridade e justiça social. Embora um bom número dos cristãos que trabalham em organizações de caridade tenha sido atraído para esse trabalho inspirado por um compromisso com a visão bíblica de justiça, acontece que com frequência  essas organizações de caridade &#8211; quer sejam ou não cristãs &#8211; estão na verdade envolvidas na perpetuação e na consolidação da injustiça, da exploração e da opressão. Consequentemente, aqueles que estão pessoalmente comprometidos com a justiça acabam tornando-se inadvertidamente instrumentos de injustiça; ou, para usar uma linguagem um pouco diversa: os que desejam conceder vida acabam se tornando traficantes de morte.</p>
<p>Dizendo de modo mais sucinto, pretendo levar aqueles que trabalham numa organização de caridade a ponderar qual é a relação dessa sua obra com [a] conferir vida aos outros e [b] seguir Jesus. Com esse fim, procurarei contrastar algumas características da caridade, como praticada hoje, com algumas características do ministério de Jesus.</p>
<p>Antes de fazer isso, no entanto, quero fazer uma única observação sobre a linguagem que estou empregando. Prefiro em geral evitar o termo “justiça” em conversações como esta. Estou incluindo o termo aqui logo de início porque creio que seja um tema importante neste curso de discussão. Porém prefiro não usar essa terminologia, porque a considero popular entre gente que gosta de falar muito e acaba confundido falação com atitude concreta. Muita gente parece achar que se torna mais “justa” <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A caridade é hierárquica; Jesus operava numa comunidade não hierárquica de gente pobre que buscava a mudança de baixo para cima.</span>porque fala ou pensa a respeito de “justiça”, por isso é às vezes necessário mudar os termos da discussão.</p>
<p>Semelhantemente, muita gente tem ideias estranhas sobre o que constitui “justiça”. Alguns cristãos conservadores, por exemplo, acham que o trabalho das <em>sweat shops</em> do terceiro mundo – fábricas com péssimas condições de trabalho e baixo salário, onde são manufaturados grande parte dos bens consumidos no ocidente – é um modo “justo” de se desenvolver outras economias e uma alternativa “justa” para quem poderia estar se prostituindo ou algo semelhante. Outros acham ainda que estamos lutando uma guerra “justa” contra o terror no Afeganistão ou, aliás, contra o povo do Haiti, da Palestina e da Líbia.</p>
<p>Por essa razão, em vez de usar esses termos, prefiro falar em termos de vida e morte. Na qualidade de seguidores de Jesus e de adoradores do Deus que chamava Jesus de seu Amado, creio que somos chamados a dar testemunho e participar da (nova) criação de um mundo em que uma vida abundante esteja ao alcance de todos, e não seja simplesmente apoderada por uns poucos às custas de muitos. Esse chamado requer duas posturas correlatas: devemos produzir e participar daquilo que confere vida e devemos resistir, subverter e destruir aquilo que propicia a morte. É isso o que requer não apenas a visão bíblica de “justiça”, mas a mais fundamental visão bíblica do que significa ser filho Deus e, num nível ainda mais básico, do que significa ser humano.</p>
<p>Isso, creio, é especialmente verdadeiro no que se refere às maneiras como entendemos “caridade” hoje em dia, por isso quero destacar alguns dos modos em que a caridade resvala no terreno daquilo que propicia a morte, em contraste com as posturas doadoras de vida da comunidade reunida ao redor de Jesus. Isso se faz através da análise de sete contrastes.</p>
<p><em>Primeiro contraste:</em></p>
<p><strong>A caridade é hierárquica, fluindo de cima para baixo, e essa estrutura e disposição asseguram a sua impotência.</p>
<p>Jesus operava numa comunidade não-hierárquica de gente pobre que buscava a mudança de baixo para cima, e essa estrutura e disposição asseguravam a possibilidade a criação de mudança que confere vida.</strong></p>
<p>À primeira vista esse contraste pode não parecer tão importante quanto é, em termos de participar daquilo que confere vida ou contribuir para aquilo que propicia a morte. Diversos contrastes importantes, no entanto, são desdobramento deste. É necessário observar e questionar, portanto, a diferença entre as posições sócio-econômicas e suas correspondentes trajetórias de mudança &#8211; de baixo para cima e de cima para baixo.</p>
<p>Começando com a caridade &#8211; e uso o termo para referir-me àquele tipo de coisa que fazem agências como <em>The Gateway</em> e a <em>Yonge Street Mission</em>, &#8211; há uma hierarquia muito clara em vigor, uma hierarquia que ao mesmo tempo imita e sobrepõe-se à hierarquia estrutural da sociedade.</p>
<p>O modo mais evidente de se observar isso é levantando-se perguntas relacionadas a dinheiro, acesso a informação e o poder de efetuar mudanças dentro da organização. Quem ganha quanto? Quem sabe o quê? Quem pode fazer o quê? As respostas a essas perguntas revelam de que modo o poder está distribuído e onde está concentrado, a despeito da retórica que os serviços sociais amam empregar, de que todos os envolvidos são estimados igualmente. Se fosse verdade, todos receberiam o mesmo, teriam igual acesso à informação e teriam a mesma autoridade pare efetuar mudança dentro da organização. O mesmo, naturalmente, é válido para qualquer cristão que fala sobre “liderança de serviço”, “valores do reino” ou o quer que seja. Qual foi a última vez que você viu um “líder servo” recebendo salário menor do que os membros da sua equipe? Qual foi a última vez em que você conheceu um “líder servo” que limpava os banheiros do dormitório ou do escritório?</p>
<p>Portanto, quando analisamos a questão do dinheiro, do acesso à informação e do poder de efetuar mudanças, encontramos na caridade o mesmo tipo de hierarquia que prevalece em empresas, governos e outras instituições. Com respeito a isso, é sempre instrutivo comparar-se, por exemplo, os quatro níveis de pessoas dentro de uma organização dessa natureza. Quanto ganham os assistidos? Quando ganham os zeladores? Quanto ganham os envolvidos na linha de frente? Quanto ganha o diretor executivo?</p>
<p>Você provavelmente não sabe a resposta a essas perguntas, porque não se espera que as pessoas na base da pirâmide saibam o quanto ganham os demais &#8211; o que demonstra o meu segundo ponto. Quanta informação a respeito do funcionamento interno da instituição de caridade podem acessar os assistidos, os zeladores, os funcionários da equipe de atendimento e o diretor executivo?</p>
<p>Em terceiro lugar, quanto poder têm os assistidos, os zeladores, a equipe de atendimento e o diretor executivo para mudar as coisas dentro da instituição?</p>
<p>Essas três áreas demonstram uma hierarquia muito claramente demarcada operando dentro de instituições de caridade cristãs, replicando os modelos hierárquicos estabelecidos da sociedade.</p>
<p>Outro exemplo dessa imitação está em que aqueles que ocupam as posições mais altas tendem a ter de um perfil socioeconômico mais elevado do que aqueles que ocupam posições inferiores, e tendem também a ter um nível mais alto de escolaridade. A profissionalização das obras de caridade tem se difundido rapidamente nas últimas décadas. Por um lado, isso praticamente assegura que os funcionários de linha de frente provenham quase todos de uma classe social diferente da dos assistidos que servem &#8211; alienando deste modo ainda mais a caridade da efetiva comunidade que alega servir, e garantindo também que a equipe assistencial esteja provavelmente mais entranhada dos valores dominantes da sociedade. Por outro lado, isso assegura que aqueles em cargos de gestão tenham recebido a maior parte da sua instrução na área de administração de negócios &#8211; garantindo desse modo que os valores e a cultura de classe dos encarregados da direção sejam ainda mais distantes daqueles dos assistidos do que os da equipe de atendimento.</p>
<p>Essencialmente, a direção de uma instituição de caridade tende a ser composta por gente bem intencionada que vive tão distante das realidades da vida nas ruas e do que poderia de fato representar incremento de vida às pessoas marginalizadas que acabam fazendo mais mal do que bem (para mais sobre esse assunto recomendo enfaticamente a coletânea <em>The Revolution Will Not Be Funded: Beyond the Non-Profit Industrial Complex</em>).</p>
<p>É interessante observar que essa estrutura hierárquica esteja tão fortemente entranhada nas caridades cristãs. Mover-se dentro desse tipo de ambiente é ser simplesmente ensinado a partir do pressuposto de que o funcionamento natural das coisas requer que algumas pessoas tenham um salário bem maior que as demais, que algumas pessoas saibam bem mais do que as demais e que algumas pessoas tenham mais poder para efetuar mudança do que as outras.</p>
<p>Embora um grande número de instituições da caridade cristãs alegue ter como propósito assistir os necessitados e eliminar certas linhas divisórias, elas ainda assim reproduzem e aceitam como coisa natural muitas das linhas demarcatórias mais centrais da nossa sociedade &#8211; como, por exemplo, aquela entre uns poucos ricos e poderosos e uma maioria pobre e sem voz ativa.</p>
<p>Que isso é um fato consumado fica bem ilustrado no livro de Greg Paul, <em>The Twenty Piece Shuffle: Why the Poor and Rich Need Each Other.</em> Greg, como se sabe, escreveu esse livro na qualidade de diretor da <a href="http://sanctuarytoronto.ca/">Sanctuary</a>, e creio que a obra funciona um pouco como uma apologética da classe média; parece ter sido o modo pelo qual Greg procurou conciliar o seu modo de vida confortável com o fato de viver cercado de gente pobre. Assim, Greg explica que somos todos gente falha, e fala do modo como os pobres são capazes de impactar positivamente as falhas dos ricos e vice-versa. Desse modo, escreve ele, os pobres e os ricos precisam uns dos outros. O pressuposto não-declarado é que é na verdade <em>necessário </em>que exista gente rica e gente pobre. Faria mais sentido se Greg tivesse escrito um livro que se perguntasse por que existe gente pobre e gente rica em primeiro lugar, e por que não podemos fazer alguma coisa para criar um espaço neste mundo em que não haja nem pobreza nem riqueza, mas o suficiente para todos. Isso, na minha opinião, estaria mais alinhado com a visão bíblica de como devemos estruturar nossa vida comunitária.</p>
<p>Dito isso, apesar da profissionalização da obra social, apesar das boas intenções de todos os envolvidos, apesar do estabelecimento de hierarquias projetadas para dar autonomia aos indivíduos certos e apesar da abundância de instituições de caridade existentes hoje em dia, aparentemente não estamos fazendo muita diferença. A elite dos poucos continua a se tornar cada vez mais rica. A maioria pobre continua a crescer e a ficar mais pobre. A cada ano o número de sem-teto é maior. Cava vez mais gente recorre à cesta básica. Cada vez mais gente vive à distância de um cheque de perder sua casa.</p>
<p>A caridade tem se mostrado positivamente incapaz de realizar algo de significativo &#8211; além de, naturalmente, dar a gente como eu e você um crescente mercado de trabalho e um pouco mais de segurança financeira. Alguns diriam que a resposta ao problema da impotência da caridade está em articular mais conexões com a elite, em angariar mais dinheiro e trabalhar por um maior nível de profissionalização. Porém eu gostaria de sugerir que a impotência das iniciativas de caridade é, em parte, <em>gerada </em>pelas conexões com a elite, pelo dinheiro angariado e pelos profissionais envolvidos.</p>
<p>Com isso em mente, devemos examinar a posição e a estrutura do movimento que aglutinou-se ao redor de Jesus.</p>
<p>Para começar, pode ser necessário mencionar que no tempo de Jesus havia estruturas de caridade hierárquicas similares às que temos hoje. Os sistema de clientelismo e de beneficência &#8211; pelos quais os abastados ajudavam a cuidar dos menos afortunados ou faziam doações públicas a cidades inteiras &#8211; estavam bem estabelecidas ao longo de todo o mundo mediterrâneo. Em retribuição, os ricos e poderosos podiam esperar lealdade e serviço de seus vassalos, bem como reverência e honra em questões tanto públicas quanto privadas. Desse modo, aqueles que com frequência saqueavam cidades inteiras eram publicamente honrados como moralmente superiores aos outros. Os ricos e poderosos apropriavam-se não apenas de bens, mas ainda do próprio bem. Deve ser também dito que, à parte as obras públicas como aquedutos e fontes, essa forma de caridade era exercida quase exclusivamente em favor dos pobres “que mereciam”, sendo negada aos que eram considerados “não merecedores”.</p>
<p>É interessante notar como o movimento de Jesus recusa-se por completo a participar desse sistema de patronagem, a fim de criar um modo alternativo de estruturar a vida comunitária. Assim, por exemplo, Jesus encoraja as pessoas a dar sem esperar retribuição (Lucas 6:34-36) &#8211; uma forma de partilha que contradiz por completo a lógica da patronagem, passada ou presente. Jesus, além disso, apela para uma ética e uma economia fundamentada na noção de jubileu; em especial o perdão de débitos monetários (Lucas 4:18-19; 11-14) vai de encontro a  qualquer forma de caridade praticada naquela época. Isso não é caridade, é redistribuição econômica em favor dos necessitados (ver o comentário de Joel Green sobre o evangelho de Lucas; também o livro de Bruce W. Longenecker, <em>Remember the Poor: Paul, Poverty and the Greco-Roman World</em>).</p>
<p>Ou seja, ao contrário de participar das consagradas práticas hierárquicas de assistência que existiam em sua sociedade, Jesus escolheu participar da criação de uma comunidade igualitária que compartilhava uma solidariedade vivida com os pobres.</p>
<p>A fim de focalizar essa solidariedade vivida devemos, em primeiro lugar, observar que Jesus não interagia com os pobres e marginalizados à distância. Assim, em Lucas 9:58 ele declara: “As raposas tem suas tocas e as aves do céu tem seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Jesus não trabalhava com os outros; ele era, ele mesmo, o outro com o qual trabalhamos. O mesmo é válido para a comunidade ao redor dele. Em sua companhia vemos prostitutas lavando seus pés com lágrimas e enxugando com o cabelo. Vemos terroristas como Simão, o zelote, lado a lado com pelegos e reacionários como Mateus, lado a lado com gente proletária como Pedro e João. Vemos os intocáveis e os enfermos sendo acolhidos como tocáveis e saudáveis. Vemos os pecadores e os malditos acolhidos como perdoados e salvos. Tudo considerado, um observador de fora provavelmente descreveria essa como uma comunidade de fodidos, desajustados, criminosos e idiotas &#8211; não exatamente o tipo de companhia que encontramos no quadro de funcionários de uma instituição de caridade. Ainda assim esses eram os amigos, a família, os companheiros e os amantes de Jesus. Não eram seus assistidos.</p>
<p>Em segundo lugar, essa era uma comunidade não-hierárquica. Embora alguns deles competissem constantemente para serem vistos como mais prestigiosos do que os outros &#8211; como quando Tiago e João pediram para sentar-se à sua direita e à sua esquerda (Mateus 20:20-28) &#8211; Jesus era inflexível em sua postura de que todos os membros da comunidade deveriam esforçar-se para ser escravos dos outros, honrando os outros mais do que a si mesmos, mesmo que isso significasse tarefas humilhantes e vergonhosas como lavar os pés de outra pessoa (conforme João 13:1-17).</p>
<p>Com a vida comunitária estruturada dessa forma, os que haviam sido marginalizados na sociedade recebiam posições de proeminência ao lado de todos os demais. Por exemplo, vemos que as mulheres desempenhavam um papel de destaque no movimento de Jesus. Não apenas exerciam liderança, mas eram tidas como dignas de maior honra do que homens. Na cruz apenas as mulheres ficaram perto de Jesus. Não é de se surpreender, portanto, que quando Jesus ressurge dos mortos são as mulheres a ter o privilégio de receber a mensagem da notícia. São elas as primeiras a agirem na qualidade de apóstolos, pregando as boas novas aos onze e ao restante dos integrantes do movimento. É por isso que Jesus disse que é necessário que sejamos eunucos pelo reino de Deus (Mateus 19:12): ele não quis dizer que os homens devem abrir mão de suas bolas; ele quis dizer que os homens precisavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/novo-testamento-a-supremacia-e-o-carater-subversivo-do-amor/">abrir mão da autoridade que sua cultura lhes concedia</a>, e passar a relacionar-se com as mulheres <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/">como iguais</a>.</p>
<p>É claro que falar de líderes &#8211; sejam mulheres ou não &#8211; parece contradizer a ideia de uma comunidade não hierárquica, então é importante enfatizar que a modalidade de liderança praticada nos primórdios do movimento de Jesus não era institucionalizada e não era restrita a determinadas pessoas e determinadas classes de pessoas. Emprestando o termo de Max Weber, tratava-se do que os sociólogos chamam de “liderança carismática”. Essas são pessoas que operam em papéis de liderança porque algo nelas diz algo ou ressoa de modo poderoso diante do restante da comunidade. Desse modo, sua liderança depende estritamente da aprovação comunal de suas palavras e suas ações. É por isso que Paulo, em suas cartas e apesar de todas as alegações que faz sobre ele mesmo e seu papel, está constantemente pedindo para ser ouvido. Ele só tem autoridade porque a comunidade escolhe dar a ele autoridade, e essas autoridade pode ser revogada a qualquer momento.</p>
<p>Se os líderes representavam a comunidade, eram aceitos; se deixavam de representar a comunidade, perdiam toda a autoridade. Não é de se admirar, portanto, que os que tendiam a ser aprovados como líderes nas assembleias locais dos seguidores de Jesus eram aqueles que mais e melhor serviam essas assembleias. Se fossemos compor uma lista contemporânea de “líderes” como os mencionados nas cartas de Paulo, faria mais sentido se elencássemos nossos zeladores, não nossos diretores ou membros do conselho.</p>
<p>Além disso, os ricos e poderosos, os compassos morais da sociedade, os que receberam uma boa instrução e aqueles que orquestravam as formas mais institucionais de caridade &#8211; os profissionais &#8211; estão notavelmente ausentes dos primórdios do movimento de Jesus. Isso não quer dizer que Jesus não recebia assistência ocasional de doadores ricos, como as mulheres mencionadas em Lucas 8:2-3, e outras casas que o hospedavam. O que quer dizer é que os que apoiavam o movimento desse modo não deviam esperar receber coisa alguma em troca (conforme Marcos 3:32; Lucas 9:4; 10:38). Sendo assim, dado que nenhum patrono da antiguidade prestava assistência aos verdadeiramente miseráveis, mas fazia o que eram meramente “investimentos racionais”, prover o movimento de Jesus com riqueza e bens traria na verdade vergonha e desonra sobre qualquer doador, além de causar a perda de uma parte da sua riqueza. Essa atitude seria vista como uma tentativa de envergonhar aqueles em posição mais elevada na hierarquia do poder, que esperavam que a riqueza e os bens se fluíssem sempre na sua direção.</p>
<p>Essencialmente, fazer doações a Jesus e a seu grupo seria visto como dar uma banana aos poderosos, e isso invariavelmente traria repercussões negativas para qualquer um que desse apoio a Jesus. Essa postura os arrastaria para um processo de declínio sócio-econômico.</p>
<p>Desse modo, qualquer doação externa era realizada a fundo perdido &#8211; um investimento desperdiçado que envergonhava os doadores, levava-os a perder tanto dinheiro quanto status e prejudicava as suas próprias relações com outros ricos e poderosos. Perceba quão radicalmente diferente é isso do que acontece com os que apoiam hoje em dia as nossas instituições de caridade. Veremos num momento qual é a causa disso.</p>
<p>Por enquanto, o que vemos em Jesus é um movimento não hierárquico que existe em solidariedade vivida com gente pobre e sem instrução. Marcadamente ausentes estão aqueles que prestam assistência profissionalmente &#8211; e os que apoiam o movimento financeiramente sofrem um bocado por fazê-lo. No entanto, talvez seja em parte essa a razão pela qual o movimento de Jesus foi bem sucedido de tantas maneiras em que os nossos próprios esforços têm falhado. Isso veremos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="right"><small><strong>Daniel Oudshoorn</strong>, <a href="http://poserorprophet.wordpress.com/2011/11/09/contemporary-charitable-institutions-and-the-early-assemblies-of-jesus-followers/">numa palestra</a> apresentada<br />
a assistentes sociais que trabalham na <a href="http://www.ysm.ca/">Yonge Street Mission</a> em Toronto,<br />
uma das mais respeitadas e antigas instituições de caridade<br />
engajadas na assistência a moradores de rua daquela cidade.</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug079.png"></p>
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		<title>Can you just look at me for a second</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Nov 2011 09:10:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pormenor]]></category>
		<category><![CDATA[antiguru]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Louis C. K., sobre como as pessoas já não conseguem assimilar a experiência se não for através de seus celulares. «Se Jesus voltar as pessoas vão ficar tuitando sem prestar a mínima atenção. Ele: &#8220;Eu sou o Cristo e retornei&#8221; e cada um MEU DEUS, JESUS ESTÁ NA MINHA FRENTE AGORA MESMO! #TENSO #SANTOCRISTO»]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/xSSDeesUUsU?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Louis C. K., sobre como as pessoas já não conseguem assimilar a experiência se não for através de seus celulares.</p>
<blockquote><p>«Se Jesus voltar as pessoas vão ficar tuitando sem prestar a mínima atenção. Ele: &#8220;Eu sou o Cristo e retornei&#8221; e cada um MEU DEUS, JESUS ESTÁ NA MINHA FRENTE AGORA MESMO! #TENSO #SANTOCRISTO»</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A mão invisível e a graça irresistível do mercado</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 07:49:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa reguladora da justiça, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista/">reguladora da justiça</a>, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o tapeceiro, só vemos o avesso, o mercado-tapeceiro tece do lado certo. O outro aspecto é o da “graça irresistível” do mercado. Ou você se abre para a economia de mercado ou está destinado ao “inferno” decadente e isolado do mundo – é a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-conquista-do-publico-e-a-punicao-dos-indisciplinados/">inexorabilidade do mercado</a>. Você vem para o “Senhor” nem que seja pela dor.</p>
<p>Não seria o evangelho de Jesus o “niilismo mais radical” que desmascara os encantamentos religiosos: que quebra os odres velhos?</p>
<p>O que pode ser menos religioso que o evangelho de Jesus?</p>
<p>O que pode a transformar “crentes no capital” em “ateus anárquicos” mais que o evangelho do Cristo de Deus?</p>
<p align="right"><small><strong>Elienai Cabral Júnior</strong>, em comentário a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/de-me-um-monoteismo-e-moverei-o-mundo/">este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
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		<title>Dexter Morgan, padroeiro do século XXI</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Oct 2011 08:47:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Recomendações]]></category>
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		<description><![CDATA[Não chegou até mim arte televisiva contemporânea mais bem escrita do que Dexter, o seriado norte-americano sobre um assassino em série que mata assassinos em série. E não se trata só dos enredos bem amarrados, do uso inteligente e bem-humorado das narrações em off, das ambições shakespearianas dos arcos narrativos e da construção de edifícios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não chegou até mim arte televisiva contemporânea mais bem escrita do que <em>Dexter</em>, o seriado norte-americano sobre um assassino em série que mata assassinos em série. E não se trata só dos enredos bem amarrados, do uso inteligente e bem-humorado das narrações em off, das ambições shakespearianas dos arcos narrativos e da construção de edifícios de suspense mais altos do que se considerava humanamente concebível. Há a questão do discurso além do discurso, a questão de um arranque criativo semiconsciente que mostra-se tanto uma precisa captura do espírito da época quando uma inclemente reflexão sobre ele.</p>
<p>Sinto-me tentado a escrever volumes sobre Dexter; permita-me impor uma página ou duas.</p>
<p><strong>Dexter, sumo sacerdote da violência redentora</strong></p>
<p>Os norte-americanos, ainda mais do que o restante dos homens, são obcecados com as possibilidades redentoras da violência. Dessa obsessão nascem as paixões nacionais pela pena de morte, pelos super-heróis, pelas glórias militares, pelos filmes de terror, pelo oeste sem lei. A mesma fé no poder redentor da violência inspira os adeptos do vigilantismo (aquelas ordens civis que fazem a justiça com as próprias mãos), inflama os tiroteios suicidas nas escolas e anima as aspirações dos assassinos em série.</p>
<p>Em sua qualidade de assassino impiedoso de assassinos impiedosos, Dexter Morgan é a encarnação de todas as seduções dessa teologia. Impossível não dobrar-se de prazer quando o Dexter elimina um criminoso culpado com a  mesma minuciosa crueldade com que o criminoso que está sendo eliminado costumava matar gente inocente. Há algo de irresistivelmente justo e congruente e libertador nessa simetria; como seres humanos somos incapazes de resistir a uma história que nos conduza até um lugar em que ela possa ser devidamente celebrada.</p>
<p>Dexter nos leva a esse lugar todas as vezes. Quando deixamos de acreditar nas possibilidades da justiça efetuada pelas mãos de homens, não é como se não tivéssemos um sumo sacerdote que se compadecesse de nós. Dexter, que o rubro céu o proteja, é a incorporação da guerra justa e da violência redentora justamente quando podíamos ser tentados a deixar de acreditar nela. Pelos heróis que nascem banhados em sangue, rogai por nós.</p>
<p><strong>Dexter, patrono do gerenciamento de múltiplas identidades</strong></p>
<p>Desde pelo menos Jekyll e Hyde, de cujo legado se apropriaram tantos super-heróis e supervilões, a ficção tem brincado com as possibilidades metafóricas e dramáticas de uma dupla identidade. O jogo cambiante das máscaras pode ser, na verdade, retraçado como o mistério impulsionador de todo teatro e de todo o drama.</p>
<p>Porém, com a extravagante entrada em cena da internet, vive-se o primeiro momento da história em que o homem comum pode se ver pessoalmente envolvido com as tentações e complicações do gerenciamento de identidades. A internet, que é repleta de destinos mas não confere passaportes, é um um convite aberto para que desenvolvamos vários rostos.</p>
<p>É coisa mais do que corriqueira cultivar mais de um blog, sustentar mais de uma conta no Google ou usar nomes diferentes em diferentes redes sociais, cada uma dessas instâncias voltada para um interesse ou para um público. Há o cara da foto no Facebook, que pode não querer usar o mesmo nome quando entra num ambiente da internet em que se folheia pornografia, em que se compartilha conteúdo pirata ou em que se discute a sua preferência sexual. Na verdade, cada vez que precisa escolher um nome de usuário você está sendo convidado a assumir uma nova identidade, a desenhar um novo círculo que não necessariamente interceptará aqueles que em você, sob algum nome, já existe.</p>
<p>Na prática, as contas de usuário servem menos para proteger a sua privacidade do que para orientar a publicidade que será despejada na sua direção, mas a sedução de cada nova máscara permanece. Ninguém precisa mais contentar-se em ser uma pessoa só<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/dexter-morgan-padroeiro-do-seculo-xxi/#footnote_0_2680" id="identifier_0_2680" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Na verdade, uma pequena e inflamada revolta coletiva permanece sendo lan&ccedil;ada contra o rec&eacute;m-lan&ccedil;ado Google+, porque essa rede social exige formalmente (ao contr&aacute;rio do que na internet &eacute; a pr&aacute;tica usual) que seus usu&aacute;rios utilizem o seu nome verdadeiro para identificar o seu perfil. Depois que aprendemos a viver sob a luz eles, a treva do banimento dos pseud&ocirc;nimos nos parece inteiramente incompreens&iacute;vel e inaceit&aacute;vel, coisa que se espera mais de um governo totalit&aacute;rio do que de uma corpora&ccedil;&atilde;o moderna e antenada.">1</a></sup>.</p>
<p>Na narrativa de Dexter, a centralidade do problema do gerenciamento de identidades reflete as complicações dessa nossa nova condição. Dexter é na luz do dia um policial quietão mas gente boa, profissional de primeira, amigo leal e pai de família, mas no abrigo da noite persegue sem trégua a sua obsessão, o &#8220;passageiro sombrio&#8221; que exige recorrentes derramamentos de sangue para manter-se mais ou menos sob controle. Nas histórias de super-heróis a problemática da identidade dupla é em geral tratada com leveza de farsa e descartada sem maiores problemas, mas a iminente e impensável sobreposição de mundos opostos é o que define toda a tensão na trajetória de Dexter. </p>
<p>Acompanhamos os seus trabalhos no sentido de manter as suas esferas separadas, mas entendemos simultaneamente que ninguém tem como manter partes de si mesmo independentes por tempo indeterminado. Por outro lado, as ferramentas da internet tem nos dado tamanha tarimba na prática da compartimentalização que nos tornamos incapazes de considerar como desejável a perspectiva de abrir mão de qualquer uma de nossas identidades paralelas.</p>
<p>Se o grande desafio da maturidade psicológica é o que Jung chama de individuação &#8211; o processo de nos tornarmos um <em>in-divíduo</em>, harmonizando num todo não-dividido as partes de nós mesmos que vivem em esferas separadas, &#8211; Dexter serve de formidável parábola sobre as dificuldades desse processo na presente experiência. Os dois mundos de Dexter não têm como colidir sem catástrofe; da mesma forma, temos aprendido a sustentar uma árvore inteira de narrativas pessoais que em outro tempo seriam consideradas irreconciliáveis. Pelos desafios do gerenciamento de identidades, rogai por nós.</p>
<p><strong>Dexter, santo protetor dos alienados e perplexos</strong></p>
<p>O aspecto mais ressonante e original da narrativa de Dexter, no entanto, é sua alienação essencial do mundo que o rodeia. Tendo sua estrutura psíquica precariamente organizada depois de sobreviver a um devastador trauma de infância, Dexter não sabe e não entende o que o mundo exterior espera dele. Não sabe sentir ou agir &#8220;naturalmente&#8221;. Suas reações são todas simuladas, fundamentadas na observação. Incapaz de encontrar dentro de si uma fonte genuína de convicção e de sentimento, seu método é oferecer em cada momento ao mundo o que ele imagina que o mundo espera dele naquele momento &#8211; e surpreende-se quando funciona na maioria dos casos. As pessoas ao seu redor o tomam por um cara um pouco esquisito mas simpático, sensível e de confiança &#8211; porém ele mesmo entende ser uma completa farsa.</p>
<p>É por esse milagre, pela sua ascendência como ícone espetacular de nossa própria alienação essencial, que vejo em Dexter a figura altaneira do padroeiro deste século.</p>
<p>Eis um cara que, como grande parte de nós, ou como todos nós grande parte do tempo, relaciona-se com o mundo como um observador, não como um participante. Dexter vive imerso numa experiência que lhe parece inteiramente estranha e impenetrável. Não tendo sido poupado de enxergar o caráter arbitrário e artificial das reações e princípios que tomamos por naturais, ele aprendeu a resignar-se a olhar o mundo com o fascínio e o horror com que observaríamos uma civilização extraterrestre.</p>
<p>O poder da metáfora está em que, devido a uma vasta cadeia de causas interligadas, nenhum conceito representa com mais acerto a condição do habitante deste milênio do que este: alienação. Não importa quão saudável ou natural lhe pareça o seu cotidiano, nosso próprio modo de viver está inteiramente permeado de pacotes de estranheza e de distanciamento. Karl Marx entreviu o capitalismo como fonte inexorável de alienação, mas absolutamente não tinha como prever os extremos vertiginosos aos quais içaríamos essa tendência.</p>
<p>Não há como não identificar-se em alguma medida com Dexter e sua precária relação com um mundo alheio e indecifrável. Tornamo-nos, no modo que vida que aprendemos a tolerar, gente assim. Como os personagens de um mau filme de ficção científica da madrugada, aprendemos a nos relacionar uns com outros e com o mundo pela intermediação de máquinas, tendo perdido a arte do contato direto com o que quer que seja. Nada no mundo real gera em nós uma verdadeira conexão, e todas as nossas reações dentro dele são simuladas. Onde deixei o meu celular? Pelo horror de um mundo que não nos diz respeito, rogai por nós.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug024.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2680" class="footnote">Na verdade, uma pequena e inflamada revolta coletiva permanece sendo lançada contra o recém-lançado Google+, porque essa rede social exige formalmente (ao contrário do que na internet é a prática usual) que seus usuários utilizem o seu nome verdadeiro para identificar o seu perfil. Depois que aprendemos a viver sob a luz eles, a treva do banimento dos pseudônimos nos parece inteiramente incompreensível e inaceitável, coisa que se espera mais de um governo totalitário do que de uma corporação moderna e antenada.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>O capitalismo é a crise</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 09:24:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta. Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana. Pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta.</p>
<p>Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana.</p>
<p>Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o total de débito assumido por estudantes (que não entraram ainda no mercado de trabalho) é maior do que o total do débito assumido pelo público consumidor em geral.</p>
<p>Os gastos militares globais alcançaram uma cifra recorde em 2011.</p>
<p>O mundo está morrendo, e os capitalistas estão quebrando recordes de lucro enquanto ele morre.</p>
<p><small><strong>Michael Truscello</strong>, em <a href="http://dissidentvoice.org/2011/08/austerity-is-euphemism-for-class-war-waged-by-rich/">Capitalism is the Crisis</a></small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Não é a economia que está em crise; a economia é a crise. Não é que não há trabalho, o que há é trabalho demais. Tudo somado, não é a crise, é o crescimento a causa da nossa depressão.</p>
<p><small><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Coming_Insurrection">The Coming Insurrection</a></small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O modo de se fazer dinheiro é comprar quando há sangue correndo pelas ruas.</p>
<p><small><strong>John D. Rockefeller</strong>, magnata do petróleo</small> </p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O Estado é uma condição, uma certa relação entre seres humanos, uma modalidade de comportamento. Para destruí-lo é necessário estabelecer-se outras relações, e isso se faz quando passamos a agir de modo diferente uns para com os outros.</p>
<p><small><strong>Gustav Landauer</strong>, pacifista e anarquista alemão</small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/fYFw3O--2R0?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug017.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://amarelofosco.com/?p=1091">Você não produz o suficiente</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">O fim de todos os governos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
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		<title>Uma perversa simetria</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 10:00:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[fama]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é possível separar o sofrimento do 11 de setembro da cobertura de mídia que o cercou, porque a mídia foi o motivo pelo qual a atrocidade foi perpetrada. Essas mortes foram projetadas e desenhadas para a câmera, aprovisionando-a de todos os modos. Por essa razão a cultura das imagens tem um relacionamento diverso com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é possível separar o sofrimento do 11 de setembro da cobertura de mídia que o cercou, porque a mídia foi o motivo pelo qual a atrocidade foi perpetrada. Essas mortes foram projetadas e desenhadas para a câmera, aprovisionando-a de todos os modos.</p>
<p>Por essa razão a cultura das imagens tem um relacionamento diverso com os ataques, que serviu como confirmação em pesadelo de sua má consciência. Houve uma perversa simetria no fato dos terroristas terem servido a destruição das torres a uma sociedade cujo entretenimento favorito consiste em assistir ao maior número possível de explosões gigantescas. O espetáculo foi ao mesmo tempo a visão mais terrível do mundo e exatamente o tipo de imagem que toda organização de notícias cobiça e todo espectador sintoniza para consumir.</p>
<p align="right"><small><strong>Laura Miller</strong>, <a href="http://www.salon.com/news/911/index.html?story=/books/feature/2011/09/10/9_11_and_the_novel">escrevendo sobre porque</a> não<br />
é possível escrever boa ficção sobre 11 de setembro de 2001</small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/camera-lenta/">Em câmera lenta</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/11-de-setembro/">11 de setembro</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ser inteligente</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 08:48:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambiçõesNinguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. de carreira pública ou política. Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambições<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado.</span> de carreira pública ou política.</p>
<p>Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um chefe de uma repartição, o presidente da república, ou o líder de algum pequeno grupo, o que permitiu a ele chegar lá não foi a sua inteligência e sim a sua flexibilidade. Entendeu, <em>flexibilidade?</em></p>
<p align="right"><small>Meu amigo <strong>Ivan Volcov</strong>, em comentário <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/ambush/">a este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
<p align="right">
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		<title>Jorge Bertolaso Stella: o humanismo de um pastor protestante</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jul 2011 13:09:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade. São mestres na arte de demonizar o diferente. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade.</p>
<p>São mestres na arte de demonizar o diferente. Fundamentalistas supostamente mais refinados, através de uma rigorosa análise teológica, qualificam irmãos da mesma tradição religiosa com rótulos absolutamente ultrapassados. Tal estratégia visa apenas aniquilar os supostos heterodoxos, alijando-os da instituição que tanto amam.</p>
<p>O outro grupo de fundamentalistas, mais popular e com forte penetração nas massas religiosas, não possui um discurso teológico tão “sofisticado” quanto o primeiro, mas através de uma forte presença midiática, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em"><br />
Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do <em>Bhagavad Gita.</em></span>aliada às inegáveis qualidades retóricas, arrebanha para si a opinião do vasto público religioso.</p>
<p>Tal realidade se faz presente em todos os grupos cristãos, do catolicismo-romano até a mais recente igreja neopentecostal.</p>
<p>Assim, nos dizeres do padre e sociólogo católico Pedro Ivo Oro, reproduzem o conhecido discurso de que “o outro seja o demônio”. O outro, no caso, é todo aquele que não se enquadra na suposta ortodoxia dominante, a saber: o seguidor de uma crença não cristã, o ateu, o agnóstico, o ecumênico, o simpatizante da teologia da libertação, o liberal, o neo-ortodoxo e etc.</p>
<p>Sabemos que a divergência no mundo das ideias não é apenas aceitável, mas é ferramenta fundamental para o desenvolvimento humano. Como bem dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. No entanto, os fundamentalistas não encerram suas divergências no âmbito do pensamento, mas levam essas diferenças naturais ao ponto mais extremo, acabando, literalmente, com a vida de seus oponentes.</p>
<p>Diante deste triste quadro, é interessante trazer à memória a biografia de modernos líderes cristãos que trilharam um caminho visceralmente oposto ao citado acima. Este é o caso do saudoso Jorge Bertolaso Stella.</p>
<p>Italiano de Abadia, cidade localizada na província de Parma, nasceu em 1888, chegando ao Brasil com apenas três anos de idade. Junto com seus familiares, estabeleceu-se no interior de São Paulo. De origem católico-romana, abraçou o protestantismo de orientação reformada, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Eu defendo a ordenação da mulher.»</span>tornando-se pastor evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, comunidade mãe de todo o presbiterianismo paulista.</p>
<p>Sua formação intelectual é digna de nota. Teólogo formado, adquiriu real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico.  Tornou-se especialista em línguas absolutamente complexas, como o basco e o etrusco. Não obstante seu apurado conhecimento nessas línguas, sua principal contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual brasileiro a dominar o sânscrito, milenar língua indiana.</p>
<p>Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do <em>Bhagavad Gita</em>, principal livro sagrado do hinduísmo. O trabalho de Stella foi além da tradução, contendo comentários históricos, lingüísticos e teológicos a respeito do clássico indiano. Seguindo esta linha, publicou vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Detinha, ainda, um amplo conhecimento sobre budismo e jainismo. Defensor de um verdadeiro diálogo interreligioso, Stella distinguia-se do evangélico padrão brasileiro. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo são intérpretes de Deus.»</span>Sua visão das crenças não cristãs não era marcada pela tradicional apologética. Além de considerá-las como manifestações naturais da religiosidade humana, analisava as mesmas com o rigor acadêmico de um verdadeiro historiador da religião.</p>
<p>Mesmo não concordando com o ateísmo, respeitava-o como forma de pensamento, ressaltando que o caráter de uma pessoa independia de suas convicções religiosas.</p>
<p>Foi professor emérito da cadeira de História das Religiões do antigo Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, localizado em São Paulo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.</p>
<p>Também participou de inúmeras comissões tradutoras da Sociedade Bíblica do Brasil. Como especialista em assuntos bíblicos, sua opinião a respeito da formação do cânon demonstra seu espírito científico e progressista. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo Palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos provenientes de outras culturas foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram inspiradas no conhecido Código de Hammurabi. Em suma, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. <span style="float:right; text-align:right; width:45%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Como fruto nutritivo do cristianismo apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista.»</span>Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.</p>
<p>Além de importantes obras de teor teológico, filológico e historiográfico, Bertolaso Stella tinha como máxima divulgar seus pensamentos em breves opúsculos, quase todos publicados pela saudosa Imprensa Metodista. O importante não era manter-se restrito ao seleto círculo de teólogos, acadêmicos ou intelectuais, mas divulgar seu conhecimento para o verdadeiro público alvo de um ministro religioso, a igreja.  Abordaremos, brevemente, alguns temas debatidos por Jorge Bertolaso Stella.</p>
<p><strong>1 – Direitos da Mulher</strong></p>
<p>A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, denominação a qual Bertolaso Stella esteve ligado até o final de sua vida, apenas admitiu mulheres ao oficialato pleno, isto é, presbiterato e pastorado, em 1999. No entanto, desde o início de sua vida pastoral, sua defesa em prol do ministério feminino foi uma marca distintiva. Sobre este assunto escreveu no livreto “A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação”, datado de 1974, os seguintes dizeres:</p>
<blockquote><p>Eu defendo a ordenação da mulher para o santo ministério, sim, mulheres pastoras. Deus chama as mulheres para o ministério ou pastorado. Esse Ser Eterno escolhe a quem quer e quando quer para sua obra santa. É um erro pensar que Deus somente escolhe homens para o pastorado. Nós nunca demos à mulher o lugar que ela realmente merece. Preconceitos, estreiteza de mente e ignorância, muitas vezes têm impedido que ela exerça a tarefa de que é digna e capaz. A mulher em coisa alguma é inferior ao homem. A mulher é a natureza para significar que ela é tudo. No código indiano das <em>Leis de Manu</em>, encontramos esta expressão: a mulher é imagem da terra. Aquela gente, bastante antiga, já conhecia o valor da mulher.</p></blockquote>
<p><strong>2 – Transitoriedade de doutrinas e dogmas</strong></p>
<p>Ao contrário da postura fundamentalista, Jorge Bertolasso Stella defendia que determinadas doutrinas são passiveis de revisão, devendo evoluir de acordo com o ser humano. Deus não seria estático:</p>
<blockquote><p>Existem doutrinas, princípios e praxes que precisam de uma revisão, são obsoletos e tiveram razão de ser somente em determinada época. O volume não é pequeno e constitui uma carga pesada para a Igreja, que ameaça ir ao fundo como o navio, descrito no livro de Atos.</p></blockquote>
<p><strong>3 – Humanismo</strong></p>
<p>Claras ideias humanistas são expostas no livreto <em>Um Só Mundo</em>, publicado em 1957:</p>
<blockquote><p>A humanidade é uma só. Os mares, lagos, rios, montanhas, vales e outra qualquer coisa, não podem dividir o mundo em partes separadas. Essa separação existe somente na superfície. No fundo, tudo é igual. As conquistas são imorais. Tudo deve ser para todos. Há terra, ar, luz que constituem o ambiente e pertencem a qualquer criatura enquanto viver. Não é humano uma nação, uma família ou um indivíduo apossar-se de uma parte do mundo, de uma região ou de uma parte da terra e abandonar os outros seres, deixando-os na penúria, sem trabalho, sem terra para cultivar, semear e viver. Em regra, o que motiva a guerra, que é câncer da humanidade, é justamente a noção de pátria, nação e povo.</p></blockquote>
<p>Encontramos no trecho acima uma clara crítica ao espírito nacionalista e xenófobo.</p>
<blockquote><p>Os seres humanos constituem uma irmandade na face da terra. Não importa a cor da pele, costumes diversos pelo ambiente e mesmo tendências diferentes. Todos os homens são irmãos e por isso devem se amar, banindo o egoísmo e cancelando a guerra, que significa a destruição da grande família humana.</p></blockquote>
<p><strong>4 – Defesa dos animais</strong></p>
<p>Em uma época em que este tema sequer era ventilado, encontramos em <em>Mensagens Evangélicas</em>:</p>
<blockquote><p>Ama os animais, com os quais tens muita afinidade. Tu também és um animal. Eles compreendem a tua linguagem e tu entendes a deles. Possuem um corpo: sede da dor e do prazer. Eles amam e odeiam, choram e riem como tu, pedem e oferecem, nascem e morrem. Belo é o provérbio que reza : – O justo olha pela vida dos seus animais (Provérbios 12.10).</p></blockquote>
<p>Fiel às descobertas científicas, o pastor ítalo-brasileiro afirma a existência de sentidos nos animais.</p>
<p><strong>5 – Posicionamento socialista e democrático</strong></p>
<blockquote><p>Como fruto nutritivo e apreciável dessa árvore frondosa, que se chama cristianismo, apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A Natureza é a mestra do homem e os seus ensinos são diretrizes da vida. Não podemos despregar os olhos dela. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista. Ele criou tudo para todos. Segundo Gênesis 1:29-30, a terra, a água, o ar e a luz pertencem a todos. A criança nasce comunista. Ela se apodera de tudo quanto à cerca, não conhece restrições. A primeira família humana, da qual todos descendem, era comunista. Religiões e grupos há, que praticam o comunismo, por ser expressão do amor e da união. O comunismo cristão que estou tratando aqui, nasceu de persuasão, não da imposição. O seu princípio basilar era expresso com esta frase : “o que é meu é teu”. Não estava em voga a outra frase que o apresenta assim, por alguns: “o que é teu é meu”.</p></blockquote>
<p>Interessantes essas colocações de Bertolaso Stella. Publicadas em <em>Conceitos Religiosos</em>, de 1976, portanto em pleno regime militar, assumem uma postura claramente esquerdista. No entanto, como bom humanista, ele diverge do tipo de comunismo “à lá soviético”, onde tais ideais eram impostas por uma estrutura autoritária.</p>
<p><strong>6 – Crítica ao cristianismo institucionalizado</strong></p>
<p>Suas críticas ao cristianismo de sua época são mordazes e contundentes:</p>
<blockquote><p>O cristianismo atual fracassou. É um cristianismo capitalista e egoísta, repleto de viúvas e velhos pobres, famintos e miseráveis.”<br />
<small><em>Conceitos Religiosos</em>, 1976</small></p></blockquote>
<blockquote><p>O Cristianismo de Cristo não carece de reforma, nem de ser substituído. O cristianismo dos homens, que é cheio de especulações filosóficas, teológicas e doutrinárias, esse, sim, precisa ser reformado, digo mais, substituído.”<br />
<small><em>Um Só Mundo</em>, 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>Pouca gente conhece a história dos Concílios. Alguns deles agiram sem muita caridade cristã. O célebre Credo de Nicéia, por exemplo, aprovado no ano de 325, que muita gente o repete quase de joelhos, se fosse apertado nas mãos revelaria gotas de sangue, porque foi elaborado no ambiente de discórdia, inveja e ódio.”<br />
<small><em>A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação</em>, 1974</small></p></blockquote>
<p><strong>7 – Visão científica e crítica a respeito da própria Bíblia</strong></p>
<p>Como experiente exegeta, produziu comentários claramente vinculados ao método histórico-crítico de estudos bíblicos:</p>
<blockquote><p>Eu sou pela volta ao passado, pelas origens primeiras do cristianismo e isto, porventura, daria um Novo Testamento mais resumido. Os Evangelhos foram elaborados, lapidados, modificados. Outros aforismos de Jesus estão nos chamados apócrifos.”<br />
<small><em>Conceitos Religiosos</em>, 1976</small></p></blockquote>
<p><strong>8 – Respeito e compreensão para com outras expressões religiosas</strong></p>
<p>O espírito aberto e tolerante, aliado ao fato de ser um profundo conhecedor das religiões, principalmente orientais, levou o pastor presbiteriano independente de São Paulo a considerar toda a expressão religiosa humana como nobre. Nenhuma seria detentora exclusiva da verdade:</p>
<blockquote><p>Há uma só religião. O que há é desenvolvimento da religião, evolução, transformação do sentimento religioso. Resta olhar com tolerância e simpatia para com as outras religiões que procuram interpretar a Deus e a consciência humana. O <em>Bhagavada Gita</em> traz esses aforismos de tolerância. Cap.VII: 20-23.”<br />
<small><em>Um Só Mundo</em>, 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>Nós falamos em religião imperfeita. É imperfeita a linguagem dos selvagens? Não. É imperfeita ao nosso ponto de vista, considerada pela cultura, mas ela serve ao supostamente primitivo para expressar sua ideia, o seu pensamento. A história da religião é um campo de cultura universal e permite ao estudioso apreciar a ideia de Deus no tempo e no espaço. Vêm-se religiões que tiveram a sua época, sua influência em determinados países e também sua decadência, ou melhor, a sua transformação e manifestação em outras ideias espirituais.<br />
<small><em>Um Só Mundo,</em> 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>
Todas as religiões gozam de uma inspiração verdadeira. Cada uma de suas Bíblias ocupa seu lugar em um grau determinante na escala das revelações divinas.<br />
<small><em>Um Só Mundo</em>, 1957</small></p></blockquote>
<blockquote><p>
Os chamados fundadores de religiões, como, entre outros, Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo, são intérpretes de Deus, revelando através da experiência e dependendo do grau de consciência divina de cada um. Mas, Jesus Cristo, para mim, todo consciência de Deus, é diferente dos outros.<br />
<small><em>Antologia de Estudos Religiosos</em>, 1979</small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este é um pequeno resumo do pensamento de Jorge Bertolasso Stella. Pretendo, quem sabe, trabalhar de forma mais apurada esta singular figura do cristianismo protestante brasileiro.</p>
<p>Em tempos de fundamentalismo, seria bom que sua voz fosse ouvida e compreendida.</p>
<p align="right"><small><strong>André Tadeu de Oliveira</strong>, no <a href="http://bulevoador.haaan.com/2011/07/24908/">Bule Voador</a><br />
via <a href="http://teologia-livre.blogspot.com/">Roger</a>, via <a href="http://amarelofosco.com/">Alysson</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug032.gif"></p>
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		<title>Dinheiro na mão</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jul 2011 17:36:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Desenho que fiz para coluna de Gustavo Cerbasi na revista Você S/A, ilustrando a importante lição que curtir a vida equivale pisar em dinheiro, ou algo parecido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desenho que fiz para coluna de Gustavo Cerbasi na revista <em>Você S/A</em>, ilustrando a importante lição que curtir a vida equivale pisar em dinheiro, ou algo parecido.</p>
<p align="center"><a href="http://farm7.static.flickr.com/6030/5957973341_9d96a66531_b.jpg"><img src="http://www.23hq.com/6812801/6942536_b51eb26a520c4be9e0c49fa60f7df575_large.jpg" title="Clique para ampliar"></a></p>
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		<title>O triunfo do capitalismo</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jul 2011 09:14:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pormenor]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
		<category><![CDATA[os livros da bacia]]></category>

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		<description><![CDATA[É, companheiro, o sonho acabou. [Visite a Bacia para ouvir o áudio]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É, companheiro, o sonho acabou.</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bacia-extra-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bacia-extra.jpg" title="Ei, aquela churrasqueira até que está barata" /></a></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
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		<title>Do berço à sepultura: a nostalgia do comunismo e o capitalismo em sua forma de sempre</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Jul 2011 07:47:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa entrevista para o The New York Herald em 1921, Lenin afirma1: Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa entrevista para o <em>The New York Herald</em> em 1921, Lenin afirma<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/do-berco-a-sepultura-a-nostalgia-do-comunismo-e-o-capitalismo-em-sua-forma-de-sempre/#footnote_0_2574" id="identifier_0_2574" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Collected Works, vol. 36, p. 538.">1</a></sup>:</p>
<blockquote><p>Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o regime bolchevique fosse derrubado.</p></blockquote>
<p>O admirável sobre essa propaganda anti-comunista é quão tediosamente similar ela tem se mantido ao longo de quase 90 anos, e quão difundida ela permanece. De qualquer modo, visto que essas panelinhas &#8220;de homens muito malvados&#8221; foram agora derrubadas e substituídas pelos &#8220;governos admiráveis&#8221; de &#8220;pessoas muito inteligentes&#8221;, seria o caso de examinar as condições dos países &#8220;pós-comunistas&#8221; da Europa oriental.</p>
<p>Num comentário em minha postagem anterior, <a href="http://stalinsmoustache.wordpress.com/2011/06/04/marx-the-satanist/#comments">Marx, satanista?</a>, Tamara chamou-me a atenção para uma <a href="http://www.romanianewswatch.com/2010/09/many-in-romania-miss-ceausescu-regime.html">pesquisa recente</a> feita na Romênia:</p>
<blockquote><p>Só 27 por cento dos romenos afirmam que o comunismo era &#8220;errado&#8221;, enquanto 47 por cento responderam que &#8220;era uma boa ideia, mas mal aplicada&#8221; e 14 por cento acham que foi &#8220;uma boa ideia e bem aplicada&#8221;. Impressionantes 78 por cento afirmam que nem eles nem suas famílias jamais sofreram debaixo do comunismo.</p></blockquote>
<p>E tudo isso tomou lugar sob aquele ditador perverso e odiado, Nikolai Ceausescu.</p>
<p>Passemos então para a Bulgária, um lugar que conheço muito bem. Num livro recente, Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life after Communism/<em>Perdido na transição: Etnografias do cotidiano depois do comunismo</em>, Kristen Ghodsee observa uma crescente nostalgia pela era comunista. Mas por quê, especialmente em se tratando de um estado supostamente stalinista? <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«O que diziam do capitalismo era verdade.»</span>Quando o capitalismo foi repentinamente imposto em 1989, uns poucos estrangeiros com boas conexões e uma nova classe de oligarcas e criminosos locais assumiram os ativos que haviam pertencido anteriormente ao estado &#8211; aqueles que chamaríamos de &#8220;empresários&#8221;. A gente comum sentiu-se roubada, e muitos perderam seus empregos justamente no momento em que o sistema previdenciário do estado era desmantelado. E será que isso só ocorre na Bulgária? De forma alguma: é o capitalismo em sua forma de sempre.</p>
<p>Tenha em mente que esses são estados que eram supostamente modelos de uma ditadura insuportavelmente repressiva. Não estamos falando, por exemplo, da Iugoslávia, que era com frequência tomada como exemplo de um comunismo mais humano e viável. E enquanto falamos da Iugoslávia: quatro em cada cinco pessoas com as quais falo sobre &#8220;a antiga I&#8221; me dizem que ela funcionava muito bem.</p>
<p>Prevejo que esta seria a brecha para uma resposta bem lubrificada da direita:</p>
<p>&#8220;Claro, é natural que os mais velhos tenham saudade das ditaduras e autocracias, porque essas lhes forneciam algumas certezas na vida, por mais difícil que fosse a situação. Mas podemos com segurança ignorar essas debéis nostalgias dos mais velhos&#8230;&#8221;</p>
<p>Papo-furado. Conheci russos jovens, nascidos depois ou logo antes de 1989, que erguem copos e brindam à antiga União Soviética. Acrescente-se a isso &#8211; como informa-me um colega de Kiev depois de muita pesquisa &#8211; que apenas um, talvez dois, dos países do bloco oriental chegaram a alcançar o PIB de 1989 &#8211; e isso depois de mais de duas décadas de capitalismo.</p>
<p>Talvez, apenas talvez, as pessoas encontrem de fato valor em coisas como cobertura de saúde e educação universais, desemprego zero, dias de trabalho mais curtos e tempo de sobra para encontrar-se e conversar. Talvez, apenas talvez, economias planejadas sejam de fato melhores. Até mesmo o odiado (na Europa oriental) e ex-anti-comunista Zizek parece concluir que o comunismo era superior. Como ele coloca: tínhamos segurança do berço à sepultura, nunca levávamos nossos governantes a sério e tínhamos o Ocidente mítico com o qual sonhar.</p>
<p>Finalmente, há o que um amigo que morava num desses lugares me disse há algum tempo:</p>
<p>&#8220;Quando nos ensinavam sobre o capitalismo na escola, todos achávamos que ele não tinha como ser tão terrível quanto diziam. Achávamos que nossos professores estavam inventando tudo aquilo. Hoje, vivendo sob o capitalismo, entendo que o que eles diziam era verdade.&#8221;</p>
<p align="right"><small><strong>Roland Boer</strong>, <a href="http://stalinsmoustache.wordpress.com/2011/06/08/was-life-under-communism-better/">Was life under Communism better?</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug034.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/partiya-lenina/">Партия Ленина</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/na-mesma-moeda/">Na mesma moeda</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">Igreja e capitalismo</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2574" class="footnote"><em>Collected Works</em>, vol. 36, p. 538.</li></ol>]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Por que as religiões rígidas prosperam</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 18:29:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Não é coisa fácil explicar porque algumas pessoas submetem-se entusiasticamente à lei religiosa, especialmente quando se está falando com gente que não tem o menor desejo de agir da mesma forma. Por que limitar-se à &#8220;teologia do corpo&#8221;, como a chamava o papa João Paulo II, quando o controle da natalidade e a pesquisa de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é coisa fácil explicar porque algumas pessoas submetem-se entusiasticamente à lei religiosa, especialmente quando se está falando com gente que não tem o menor desejo de agir da mesma forma. Por que limitar-se à &#8220;teologia do corpo&#8221;, como a chamava o papa João Paulo II, quando o controle da natalidade e a pesquisa de células-tronco prometem alívio para duas das mais dolorosas vicissitudes da existência física &#8211; a gravidez indesejada e as doenças degenerativas? Porque restringir-se a alimentos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Produtos_Kosher">kosher</a>, quando o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cashrut">cashrut</a> baseia-se em classificações zoológicas que caducaram milhares de anos atrás?</p>
<p>Entre os não-devotos, uma piedade dessa magnitude é frequentemente vilipendiada como patologia social. Os moderadamente religiosos demonstram mais respeito mas também não ajudam a esclarecer o mistério; eles só balançam a cabeça e dizem, &#8220;pra eles acho válido, só não é pra mim&#8221;. Nem mesmo os devotos encontraram um modo de comunicar ao resto do mundo o que os atrai numa observância religiosa rígida. Eles só dizem que agem assim porque Deus quer que ajam &#8211; argumento que simplesmente não faz sentido para um incrédulo. Ou alegam superioridade moral, coisa que, se você acredita que a moralidade deriva de Deus, é praticamente a mesma coisa que dizer que estão agindo assim porque Deus quer que ajam.</p>
<p>Em geral não se espera que um economista se mostre mais capaz de explicar a religião do que um religioso, mas um economista de fato o fez, utilizando a linguagem amoral da teoria da escolha racional<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/por-que-as-religioes-rigidas-prosperam/#footnote_0_2562" id="identifier_0_2562" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Os economistas pressup&otilde;em que as pessoas s&atilde;o racionais por raz&otilde;es metodol&oacute;gicas, n&atilde;o porque de fato acreditem nisso. N. do A.">1</a></sup>, que reduz as pessoas a &#8220;agentes racionais&#8221; que &#8220;maximizam  a utilidade&#8221; &#8211; ou seja, gente que age movida apenas por interesse próprio. Em seu ensaio de 1994, <em>Por que as igrejas rígidas prosperam</em>, que se mostraria de grande influência no campo da sociologia da religião, o economista Laurence Iannaccone defende a teoria contra-intuitiva de que as pessoas escolhem as religiões rígidas devido aos benefícios mensuráveis que sua devoção lhes proporciona, não na vida futura, mas aqui e agora.</p>
<p>Iannaccone começa se perguntando por que as pessoas decidem afiliar-se a igrejas rígidas, visto que fazê-lo requer um custo tão alto. Costumes excêntricos são um convite ao ridículo e à perseguição; a participação numa igreja marginal pode limitar as chances de avanço econômico e social; as regras de observância impedem o acesso a prazeres aparentemente inocentes; e a coisa toda requer tempo que poderia ser gasto em diversão ou em aprimoramento pessoal.</p>
<p>De acordo com Iannaccone, o devoto paga esse elevado preço social porque compra com ele um produto religioso de maior qualidade. As normas rígidas desencorajam os aproveitadores, aqueles que minam os esforços do grupo tirando proveito mais do que contribuem. Uma igreja rígida é aquela na qual os membros pouco comprometidos foram eliminados. Aumentar as tarifas para a participação não funciona tão bem quanto aumentar o custo de oportunidade da afiliação, porque tarifas afastam os pobres, que são justamente os que menos têm a perder em doar o seu tempo, e são também os que têm mais incentivo para orar. As tarifas, além disso, encorajam os ricos a substituir devoção por dinheiro.</p>
<p>O que o devoto recebe em troca de todo o seu tempo e esforço? Uma igreja cheia de membros apaixonados; uma comunidade de pessoas profundamente envolvidas nas vidas uns dos outros e mais dispostas do que a maioria a prestar assistência mútua; uma agremiação de pares formada por almas versadas na mesma linguagem (ou linguagens), movidas pelos mesmos textos e acalentadas pelos mesmos sonhos. A religião é uma &#8220;&#8216;mercadoria&#8217; que as pessoas produzem coletivamente&#8221;, afirma Iannaccone. &#8220;Minha satisfação religiosa depende então tanto de meus próprios inputs quando do input dos demais&#8221;. Se uma experiência espiritual rica e consistente é o que você busca, uma igreja pentecostal com fachada de loja ou uma sinagoga ortodoxa é provavelmente mais adequada do que uma igreja elegante formada por gente distraída e ambiciosa que mal consegue encontrar uma manhã livre para o culto de domingo, que dizer várias noites livres por semana para estudo bíblico e trabalho voluntário.</p>
<p>A partir de determinado ponto, naturalmente, as desvantagens do fanatismo passam a ultrapassar os benefícios. Uma igreja atinge esse ponto quando se mostra incapaz de oferecer substitutos para tudo aquilo de que pede que seus membros abram mão. Seitas que seduzem seus fiéis para o deserto mas não lhes proveem um meio de subsistência logo desaparecem de cena. Códigos abrangentes de comportamento que isolam as pessoas socialmente &#8211; tais como, digamos, o do judaísmo &#8211; desaparecem por completo a não ser que se estabeleçam redes que prestem suporte aos seus aderentes. Isso ajuda a explicar, entre outras coisas, porque os judeus que mudaram-se para cidadezinhas do sul [dos Estados Unidos] para abrir mercearias nos séculos XIX e XX, e viveram por décadas sendo as únicas famílias judaicas de suas comunidades, acabaram assimilando a cultura exterior mais do que praticamente todos os judeus ao redor do mundo.</p>
<p>O exemplo que Iannaccone dá de uma igreja cuja postura rígida pode ter saído pela culatra é a igreja católica, que tem tido dificuldade em manter seguidores na Europa e em atrair homens para o sacerdócio na América do Norte. Os tradicionalistas colocam a culpa pelas dificuldades da igreja nas reformas do [Concílio] Vaticano II, a partir do qual a missa começou a ser proferida no vernáculo e padres e freiras despiram suas vestimentas de outro mundo. Os que aspiram por uma reforma colocam a culpa na recusa dos líderes da igreja em ceder à opinião popular a respeito de controle da natalidade, homossexualidade e celibato clerical. Iannaccone afirma que os dois lados estão certos. &#8220;A igreja católica pode ter conseguido chegar a uma singularíssima posição de &#8216;pior-de-dois-mundos&#8217;&#8221;, ele escreve, &#8220;tendo abandonado posturas marcantes e estimadas nas áreas de liturgia, teologia e estilo de vida, e conservando ao mesmo tempo justamente as demandas que seus membros e seu clero mostram-se menos dispostos a aceitar.&#8221;</p>
<p>Porém, se códigos rígidos de conduta, judiciosamente aplicados, provam-se uma vantagem no mercado espiritual, faz sentido que os Estados Unidos, um dos poucos países sem uma religião estatal e com um mercado religioso genuinamente aberto, seja berço de tantas variedades de fundamentalismo e de ortodoxia. O crescimento explosivo do conservadorismo cristão, judaico e islâmico e o lento declínio de denominações mais refinadas como o episcopalismo pode representar não o triunfo das forças reacionárias, mas o resultado natural da competição religiosa.</p>
<p>Será consequência necessária da teoria de Iannaccone que os Estados Unidos estejam destinados a serem dominados pela direita religiosa, pelo menos enquanto seus líderes não forem longe demais? Não necessariamente. Suas observações tem mais a ver com o modo como as igrejas funcionam do que com o que advogam. O ponto central reside em que os fiéis anseiam por um comprometimento entusiástico de seus companheiros de adoração &#8211; não que os que anseiam por comprometimento pendem para a esquerda ou para a direita.</p>
<p>Reconhecidamente, devoção e ideias absolutistas tendem a andar juntas. É mais fácil aliciar os afiliados de correntes competidoras quando você pode asseverar que seu modo de vida provê acesso exclusivo à verdade. Porém, se o desejo por conexões abundantes e por uma comunidade forte representa mesmo que uma pequena parte da atração de uma vida religiosa rígida, as soluções de Iannaccone para a questão dos aproveitadores podem prover valiosas percepções, mesmo para igrejas e sinagogas menos rigorosas. Ministros metodistas podem permitir-se exigir mais oração e mais trabalho voluntário de seus congregantes. Rabinos do movimento judaico conservador (que são menos rígidos do que os do judaísmo ortodoxo) podem exercer maior pressão para que suas congregações mantenham-se <em>kosher</em>, estudem o Talmude e visitem os enfermos. Não há motivo para que níveis elevados de comprometimento religioso não estejam ligados a teologias liberais ao invés de conservadoras, a posturas de ceticismo e de dúvida ao invés de discursos fundamentalistas, se for nisso que creem e preguem pastores e rabinos. Demandas mais elevadas podem acabar gerando igrejas e sinagogas menores, mas o papa Bento XVI pode ter acertado em cheio quando, ainda cardeal, disse a um jornalista alemão que o futuro da igreja católica está em igrejas menores formadas por seguidores mais dedicados &#8211; um cristianismo &#8220;caracterizado pela semente de mostarda,&#8221; como ele coloca.</p>
<p>O maior obstáculo para essas reformas por parte dos líderes liberais é, naturalmente, a imaginação liberal, que tende a associar ritos tradicionais a uma postura retrógrada, ignorante e de extrema direita. Porém o mundo está repleto de seitas rigorosíssimas com praticantes cuja postura política não se presta a uma categorização fácil. Pense no pacifismo dos quacres, ou no ativismo contra a pena de morte por parte de muitos católicos. Como entenderam os grandes líderes religiosos do mundo, ritual é teatro: você pode usá-lo para passar a mensagem que quiser.</p>
<p align="right"><small><strong>Judith Shulevitz</strong>, <em>Slate Magazine</em>, <a href="http://www.slate.com/id/2118313/">maio de 2005</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug039.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-segredo-do-sucesso/">O segredo do sucesso</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/confissoes-de-um-ex-dependente-de-igreja/">Confissões de um ex-dependente de igreja</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2562" class="footnote">Os economistas pressupõem que as pessoas são racionais por razões metodológicas, não porque de fato acreditem nisso. <strong>N. do A.</strong></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>As profecias do homem-consumo e o esvaziamento das necessidades</title>
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		<pubDate>Tue, 17 May 2011 20:35:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[illich]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; É o paradoxo das nossas vidas. Nunca tivemos tanta liberdade para moldar nossas vida do modo como queremos, mas nunca estivemos sujeitos a tantas pressões nos dizendo o que é desejável. David Rowan, The Times, 6 de setembro de 2003 &#160; Parece estar suficientemente demonstrado que, quando o ocidente abandonou a noção (antes bastante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p align="right"><small>É o paradoxo das nossas vidas. Nunca tivemos tanta liberdade para moldar nossas vida do modo como queremos, mas nunca estivemos sujeitos a tantas pressões nos dizendo o que é desejável.<br />
<strong>David Rowan</strong>, <em>The Times</em>, 6 de setembro de 2003</small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Parece estar suficientemente demonstrado que, quando o ocidente abandonou a noção (antes bastante popular) de que a pobreza é uma virtude, foi com a ardente aprovação da Reforma Protestante &#8211; e provavelmente <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-teologia-do-capital/">por direta inspiração dela</a>. O que ainda não sabemos avaliar são todos os resultados que essa mudança de paradigma lançou futuro adentro. Algumas dessas flechas estão apenas começando a nos atingir; outras já nos atravessaram as pernas e o coração.</p>
<p>Mesmo antes da era da mecanização, alguns observadores, avaliando essa formidável transição, olharam com nostalgia para o passado e com temor para o futuro. Hoje em dia discute-se se um mundo que não acredita em Deus irá manter-se abraçado à ética; naquela época discutia-se se um mundo que acredita na ambição e no lucro pode alegar estar abraçado a Deus.</p>
<p>Quando a revolução industrial era menos do que uma promessa e a era da informação menos do que um sonho, esses sujeitos enxergavam o que hoje deveria ser visto como lugar-comum: que a ganância, liberta de suas cadeias ancestrais e alimentada pela tecnologia, poderia se mostrar a chave da destruição do mundo e da mais fatal cegueira da história da humanidade. </p>
<p>Em seu <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/so-a-duvida-brilhara/">A Vida de Fausto</a>, de 1791, Friedrich Maximilian Klinger coloca na boca de Satã algumas dessas profecias: </p>
<blockquote><p>Em breve, o perigoso veneno da sabedoria e da ciência contaminará a todos! Sua fantasia inflamar-se-á para criar milhares de novas necessidades. Loucura, dúvida e intranquilidade e novas necessidades alastrar-se-ão, e eu duvido que meu terrível reino possa abarcar todos aqueles que serão contaminados por esse veneno sedutor.</p></blockquote>
<p>Este é Novalis (1772-1801), escrevendo mais ou menos na mesma época, em seu <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/a-cristandade-ou-a-europa/">A Cristandade, ou a Europa</a>:</p>
<blockquote><p>Uma prolongada associação de homens diminui suas inclinações para a sua fé e para sua raça, e habitua-os a aplicar seus pensamentos e esforços à tarefa de adquirir conforto material. As necessidades, bem como as artes de satisfazê-las, tornam-se mais complexas; o ambicioso requer tanto tempo para conhecer e ganhar habilidade nessas artes que não tem mais tempo para a silenciosa reunião de ideias e a atenta consideração do mundo interior. Se um conflito surge, seu interesse presente lhe parece representar mais; desse modo fenecem as belas flores de sua juventude, da fé e do amor, dando lugar aos frutos amargos do conhecimento e da possessão. </p></blockquote>
<p>Acho especialmente relevante e lúcido que esses autores tenham entendido, de seu posto há duzentos anos, de onde não tinham como saber o que hoje sabemos, que o segredo da vitória final da ganância residiria<em> na manipulação das necessidades</em>. </p>
<p>Novalis enxergou que necessidades mais complexas requerem mais recursos e mais tempos para serem satisfeitas. O mero tempo necessário para aprendermos a nos tornar &#8220;produtivos&#8221; e a nos mantermos assim pode estar sequestrando partes muito legítimas da existência &#8211; porções e pausas de vida que perdemos inteiramente de vista enquanto corremos atrás do vento. Antes dos engarrafamentos e dos shopping centers, Novalis entreviu que a tarefa de nos tornarmos consumidores eficazes pode estar nos subtraindo o privilégio e a tarefa mais essencial de viver.</p>
<p>Klinger olhou ainda mais longe, e na mesma página diz duas vezes que a chave da manipulação e da ruína da humanidade residirá na &#8220;criação de necessidades&#8221;. Antes da televisão de tela plana e do iPad, ele entendeu que o homem abraçará os pés do diabo para não ter de resistir ao apelo de &#8220;novas necessidades&#8221;.</p>
<p>Essas profecias falam de um momento no futuro em que os homens finalmente dominariam a arte de transformar o que é supérfluo em necessidade. Essa hora, naturalmente, já chegou. Mais do que Novalis jamais poderia sonhar, aprendemos a validar nossa humanidade através daquilo que consumimos. E, numa vertigem que levaria Klinger à loucura, a subsistência dos sistemas do mundo absolutamente depende da criação e da divulgação insaciável de novas necessidades. </p>
<p>Até mais ou menos recentemente, a durabilidade de um produto era encarada como valor: os produtos eram feitos e comprados para durar. Esse paradigma, no entanto, não funcionava a serviço de um capitalismo que depende do consumo sem pausa para sobreviver. As indústrias aprenderam não apenas a lançar novos produtos (coisa que fizeram desde o começo), mas a encaixá-los num rigoroso programa de obsolescência programada. Mesmo quando compradas para durar, as coisas passaram a ser feitas <em>para não durar</em>. Hoje em dia um produto apresenta falhas técnicas muito antes do que já foi considerado aceitável, e o custo do conserto e da manutenção se mostra muitas vezes maior do que o custo da aquisição de um produto novo. O verdadeiramente notável nessa equação é que aprendemos a deixar de ficar indignados com isso, devidamente aplacados pelas vantagens anunciadas do novo produto-necessidade.</p>
<p>O último estágio da transição de valor do durável para o instantâneo ocorreu quando as indústrias deixaram de ocultar o seu projeto de obsolescência programada e passaram a anunciá-lo aos quatro ventos como evidência de compromisso com a inovação. Hoje não há quem compre um equipamento eletrônico desconhecendo que daqui a um dia ou dois, talvez antes, um equipamento com mais botões estará ocupando o mesmo lugar na estante. Não há quem compre um iPhone 4 sem saber que este ano ainda deve sair o 5. A perspectiva da obsolescência deixou de ser um problema e passou a ser um componente legítimo do produto, um de seus mais irresistíveis atrativos.</p>
<p>E, como diz a piada, com esses dez por cento nós vamos vivendo. Os profetas continuam falando e sendo solenemente ignorados, porque ouvi-los seria morder a mão que nos alimenta &#8211; ou mais propriamente, seria deixar de morder a mão que estamos consumindo: a nossa própria. Ivan Illich <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/vitimas-do-seculo-xx/">explica além da dúvida</a> que nos tornamos tão habituados às soluções da tecnologia que ficamos cegos ao fato de que estamos sendo aprisionados por elas. As soluções que deveriam tornar a vida mais fácil, bem como a obediente satisfação das necessidades novas e complexas que nos vende o sistema, pouco fizeram além de criar novos problemas, e crônicos. Entre eles estão as chamadas &#8220;doenças da opulência&#8221;, invenções do nosso sucesso em canalizar o nosso modo de vida de modo a perseguir a prosperidade &#8211; coisas como obesidade, depressão, ansiedade, hipertensão e diabetes. Essas novas doenças aplacamos com novos remédios, é claro, porque seria pedir demais que nos rebaixássemos a mudar de vida. Para que o sistema continue rodando, nada nem ninguém &#8211; nem nossa própria qualidade de vida nem o esgotamento dos recursos do mundo &#8211; deve ser considerado motivo legítimo para atrasarmos o relógio e voltarmos ao ritmo das meras necessidades, as antigas.</p>
<p>Onde o supérfluo é visto como necessário, o próprio conceito de necessidade é sequestrado e esvaziado para sempre. Havia uma coisa importante que era necessário eu dizer para concluir, mas dizê-lo neste mundo não faz sentido.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug042.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-direito-ao-desemprego-criador/">O direito ao desemprego criador</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-ciclo-pendente-das-coisas/">O ciclo pendente das coisas</a></p>
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		<title>Os que dão as costas a Omelas</title>
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		<pubDate>Fri, 06 May 2011 22:51:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Com um clangor de sinos que fez as andorinhas voarem em disparada, o Festival do Verão chegou à cidade de Omelas, de torres fulgurantes junto ao mar. O cordame dos barcos atracados cintilava com bandeiras. Nas ruas, entre casas de telhados vermelhos e paredes pintadas, entre jardins antigos e musgosos e sob avenidas arborizadas, ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com um clangor de sinos que fez as andorinhas voarem em disparada, o Festival do Verão chegou à cidade de Omelas, de torres fulgurantes junto ao mar. O cordame dos barcos atracados cintilava com bandeiras. Nas ruas, entre casas de telhados vermelhos e paredes pintadas, entre jardins antigos e musgosos e sob avenidas arborizadas, ao largo de imensos parques e edifícios públicos, as procissões avançavam. Algumas eram decorosas: gente anciã trajando longas e rígidas túnicas em malva e cinza, sisudos capatazes, mulheres serenas e satisfeitas carregando bebês no colo e conversando enquanto caminhavam. Em outras ruas o ritmo da música se adiantava: um rutilar de gongo e de tamborim e as pessoas começavam a dançar, a procissão em si uma dança. As crianças deslizavam para dentro e para fora, seus gritos agudos elevando-se como o das andorinhas que cruzavam em voo acima da música e da cantoria. Todas as procissões serpenteavam em direção ao norte da cidade, onde na extensa várzea conhecida como Verdes Prados meninos e meninas, nus sob o ar límpido, com pés e calcanhares sujos de lama e braços longos e ágeis exercitavam seus irrequietos cavalos antes da corrida. Os cavalos não usavam qualquer equipamento além de rédeas sem embocadura, suas crinas trançadas com fitas em prata, ouro e verde. Bafejavam pelas narinas e empinavam e exibiam-se uns para os outros; estavam imensamente agitados, sendo o cavalo o único animal a adotar como sua nossas cerimônias. Na distância, a oeste e norte, erguiam-se as montanhas que envolviam parcialmente Omelas e sua baía. O ar da manhã estava tão límpido que a neve que ainda coroava os Dezoito Picos ardia com fogo branco-dourado através das milhas de ar ensolarado, debaixo do azul escuro do céu. O vento que havia bastava apenas para fazer com que tremulassem de vez em quando as flâmulas que delimitavam a pista de corrida. No silêncio dos vastos prados verdes ouvia-se a música que serpeava ao longo das ruas da cidade, mais longe aqui, mais perto ali e sempre se aproximando, enquanto uma sutil e cordial doçura de ar ocasionalmente vibrava, congregava-se e explodia no formidável e jubiloso clangor dos sinos.</p>
<p>Jubiloso! Como se descreve a alegria? Como descrever os cidadãos de Omelas?</p>
<p>Olhe que não eram gente simples, apesar de serem felizes. Porém a verdade é que hoje em dia deixamos de proferir quase toda palavra de alegria; todos os sorrisos tornaram-se arcaicos. Diante de uma descrição como essa nossa tendência é fazer determinadas suposições; diante de uma descrição como essas nossa tendência é procurar em seguida o Rei, montado num formidável corcel e cercado por nobres cavaleiros, ou talvez numa liteira de ouro transportada por musculados escravos. Mas não havia rei. E não usavam espadas, nem tinham escravos. Não eram bárbaros. Não conheço as leis e normas que regiam a sua sociedade, mas suspeito que fossem singularmente pouco numerosas. Do mesmo modo que haviam aberto mão da monarquia e da escravatura, seguiam sem bolsa de valores, sem publicidade, sem polícia secreta e sem bomba atômica. Mas preciso repetir que não eram gente simples, não meigos pastores, nobres selvagens, insípidos utopistas. Não eram menos complexos do que nós.</p>
<p>O problema é que temos o mau hábito, encorajado por pedantes e estetas, de considerar a felicidade como algo meio idiota. Só a dor é intelectual, só a perversidade é interessante. Aqui reside a traição do artista: uma recusa a admitir a banalidade do mal e o terrível tédio da dor. Se não se pode vencê-los, junte-se a eles. Se dói, faça de novo. Porém louvar o desespero é condenar o deleite, abraçar a violência é perder acesso a todo o resto. E quase perdemos esse acesso; já não podemos descrever um homem feliz nem fazer qualquer celebração de júbilo. Como posso lhe falar sobre os habitantes de Omelas? Não eram crianças ingênuas e felizes &#8211; embora seus filhos fossem, de fato, felizes. Eram adultos maduros, inteligentes e apaixonados cujas vidas não haviam sido arruinadas. Ah, o milagre. Mas queria ser capaz de descrevê-los melhor. Queria ser capaz de convencer você. Nas minhas palavras Omelas soa como uma cidade de conto de fadas: há muito tempo atrás e num lugar distante, era uma vez. Talvez fosse melhor deixar que vocês a imaginassem como achassem por bem, porque ela se mostrará à altura do desafio, e com certeza não serei capaz de satisfazê-los a todos. Por exemplo, e quanto à tecnologia? Não creio que haveriam carros e helicópteros nas ruas e acima delas; isso se deduz do fato de que o povo de Omelas é um povo feliz. A felicidade está fundamentada sobre uma correta discriminação entre aquilo que é necessário, aquilo que não é necessário mas não é destrutivo, e aquilo que é destrutivo. Na categoria intermediária, entretanto &#8211; a de coisas desnecessárias mas não destrutivas, que inclui conforto, luxo, exuberância, etc &#8211; é perfeitamente concebível que tivessem aquecimento central, metrô, máquinas de lavar e todo tipo de dispositivos ainda não inventados aqui: fontes de luz flutuantes, energia sem combustível, a cura do resfriado comum. Ou poderiam não ter nada disso: não faz diferença. Fica a seu critério. Estou inclinada a imaginar que gente das cidades ao longo da costa tem se dirigido a Omelas durante os dias que antecedem o Festival em trens muito rápidos e bondes de dois andares, e que a estação ferroviária de Omelas é na verdade o prédio mais bonito da cidade, embora mais simples do que o esplêndido Mercado Rural. Mas mesmo que abramos uma concessão para trens, temo que até agora Omelas possa estar dando a alguns de vocês uma impressão de fanfarronice. Sorrisos, sinos, paradas, cavalos, blá blá blá. Se você está achando isso, por favor acrescente uma orgia. Se uma orgia for ajudar, não hesite. Vamos combinar, no entanto, que não teremos templos dos quais saem belos e nus sacerdotes e sacerdotisas, já meio extáticos e prontos para copular com qualquer homem ou mulher, amante ou estranho, que anseia por uma união com a profunda divindade do sangue, embora essa tenha sido minha primeira ideia. Acho melhor não termos templos em Omelas &#8211; pelo menos, não templos operados por gente. Religião sim, clero não. Naturalmente que essa gente nua e bonita pode simplesmente perambular por aí, oferecendo-se como divinos suflês para satisfazer a fome dos necessitados e o arrebatamento da carne. Que unam-se então às procissões. Que repiquem os tamborins acima das cópulas, e que o desejo cruento seja proclamado com gongos, e (detalhe não menos importante) que a progênie desses deleitáveis rituais seja amada e acolhida por todos. Uma coisa que estou certa de estar ausente de Omelas é a culpa. Mas o que mais deveria haver ali? Num primeiro momento achei que não haveriam entorpecentes, mas seria puritanismo. Para os que curtem, a fragrância sutil, doce e insistente de drogas pode perfumar os caminhos da cidade, drogas que de início produzem formidáveis leveza e intensidade à mente e aos membros, depois de algumas horas uma vaga languidez, e finalmente maravilhosas visões do genuinamente arcano e dos segredos mais profundos do universo, suscitando ainda o prazer de sexo inteiramente inacreditável; e não causa dependência. Para gostos mais moderados estou achando que deveria haver cerveja. Que mais? O que mais tem lugar na cidade do júbilo? O sentimento de vitória, sem dúvida, a celebração da coragem. Mas como renunciamos ao clero, abramos também mão de soldados. A alegria fundamentada na chacina bem-sucedida não é o tipo certo de alegria; não vai servir; é medonha e trivial. Um contentamento generoso que não conhece limites, um triunfo magnânimo sentido não contra um inimigo exterior mas na comunhão com o que há de mais excelente e belo nas almas de todos homens em todo lugar, bem como o esplendor do verão do mundo: é isso que enche o coração dos habitantes de Omelas, e a vitória que celebram é a vida. Não creio que muitos deles precisem usar drogas.</p>
<p>A esta altura a maior parte das procissões já chegou aos Verdes Prados. Um estupendo cheiro de comida escapa das  tendas azuis e vermelhas dos provisioneiros. Os rostos de todas as criancinhas estão afetuosamente grudentos; na benigna barba cinza de um homem, duas migalhas de folhado permanecem emaranhadas. Os garotos e garotas montaram seus cavalos e estão se agrupando junto à linha de partida. Uma senhora gorda, baixa e sorridente está distribuindo as flores de um cesto, e rapazes muito altos usam as flores no cabelo reluzente. Uma criança de nove ou dez anos senta-se sozinha na orla da multidão, tocando uma flauta de madeira. As pessoas param para ouvir e sorriem, mas não falam com ela, pois ela nunca para de tocar e nunca as vê, seus olhos escuros inteiramente arrebatados pela coisa doce e tênue mágica da melodia.</p>
<p>Ela então termina, baixando devagar as mãos que seguram a flauta de madeira.</p>
<p>E como se aquele pequeno silêncio privado fosse o sinal, de repente uma trombeta soa do pavilhão ao lado da linha de partida: altiva, melancólica, pungente. Os cavalos recuam sobre suas pernas esguias, outros relincham em resposta. Seus rostos muito sóbrios, os jovens cavaleiros acariciam os pescoços de suas montarias e tranquilizam-nas em sussurros: &#8220;Calma, calma. Assim, minha beleza, minha esperança&#8230;&#8221; Começam a alinhar-se em formação ao longo da linha de partida. As multidões ao longo da pista são como um campo de erva e como flores ao vento. Começa o Festival de Verão.</p>
<p>Você está acreditando? Está aceitando o festival, a cidade, a alegria? Não? Então deixe-me descrever mais uma coisa.</p>
<p>No subsolo de um dos belos edifícios públicos de Omelas, ou talvez no porão de uma de suas espaçosas residências privadas, há um quarto com uma porta trancada e sem janelas. Um pouco de luz penetra empoeiradamente por entre as frestas das tábuas, cortesia de uma janela coberta de teias de aranha em outra parte do porão. Num canto do quartinho dois esfregões de cabeças rígidas, emaranhadas e mau cheirosas postam-se junto a um balde enferrujado. O chão é de terra um pouco úmida ao toque, como chão de porão costuma ser. O quarto tem cerca de três passos de comprimento e dois de largura: um mero armário de vassouras ou um quartinho de ferramentas sem uso. Dentro do quarto há uma criança sentada. Pode ser um menino ou uma menina. Aparenta ter seis anos, mas tem na verdade dez. É deficiente mental. Talvez tenha nascido imperfeita, talvez tenha se tornado deficiente devido ao medo, à má-nutrição e à negligência. Ela enfia o dedo no nariz e ocasionalmente manuseia vagamente os dedos dos pés ou os órgãos genitais, enquanto permanece sentada no canto mais distante do balde de ferro e dos dois esfregões. Ela tem medo dos esfregões. Acha-os pavorosos. Fecha os olhos, mas sabe que os esfregões ainda estão ali em pé; e a porta trancada; e ninguém vai vir. A porta está sempre trancada e ninguém jamais vem, a não ser quando às vezes &#8211; a criança não tem noção de tempo ou de intervalo &#8211; às vezes a porta faz um alarido terrível e se abre, e uma pessoa, ou diversas pessoas, estão ali. Um deles pode entrar em chutar a criança para fazê-la ficar em pé. Os outros nunca se aproximam, mas espiam com olhos cheios de pavor e repulsa. A vasilha de comida e a jarra de água são rudemente enchidas, e a porta é trancada; os olhos desaparecem. As pessoas na porta nunca dizem nada, mas a criança, que não viveu desde sempre no quartinho de ferramentas e consegue lembrar a luz o sol da voz da mãe, de vez em quando fala. &#8220;Eu vou ser boazinha&#8221;, ela diz. &#8220;Me deixa sair, por favor. Eu vou ser boazinha&#8221;. Eles nunca respondem. A criança costumava gritar por ajuda durante a noite, e chorava um bom bocado, mas hoje em dia só faz uma espécie de lamúria, &#8220;irrã, irrã&#8221;, e fala com frequência cada vez menor. É também muito magra, e suas pernas não tem panturrilhas; sua barriga é proeminente; vive de meia vasilha de fubá e banha por dia. Está nua. Suas nádegas e coxas são uma massa de úlceras inflamadas, visto que vive sentada sobre o próprio excremento.</p>
<p>Todos sabem que ela está lá, todo o povo de Omelas. Alguns vieram vê-la, para outros basta saber que ela está lá. Todos sabem que ela tem de estar ali. Alguns entendem porquê, outros não, mas todos entendem que sua felicidade, a beleza da cidade, a ternura de suas amizades, a saúde de seus filhos, a sabedoria de seus eruditos, a habilidade de seus artesãos e até mesmo a abundância da sua colheita e o clima gentil de seus céus dependem inteiramente da abominável miséria dessa criança.</p>
<p>Isso é normalmente explicado às crianças entre os oito e os doze anos de idade, quando se tornam capazes de entender; e a maior parte dos que vem ver a criança são jovens, embora de vez em quando um adulto venha, ou volte, para vê-la. Não importa o quão bem tenha sido explicado a eles, esses jovens espectadores ficam sempre chocados e revoltados diante da visão. Sentem repugnância, sentimento ao qual se julgavam superiores. Sentem raiva, indignação e impotência, apesar de todas as explicações. Queriam fazer alguma coisa pela criança. Mas não há nada que possam fazer. Se a criança fosse trazida para a luz do sol, para fora daquele lugar repugnante, se fosse banhada e alimentada e confortada, seria de fato uma boa coisa; mas, se fosse feito, naquele dia e naquela hora toda a prosperidade e beleza e prazer de Omelas definhariam e seriam destruídos. Esses são os termos. Trocar toda o bem e toda a graça de cada vida em Omelas por essa única e pequena beneficência; jogar fora a felicidade de milhares pela chance de felicidade de um só: isso sim traria a culpa para dentro dos muros da cidade.</p>
<p>Os termos são estritos e absolutos; nem mesmo uma palavra de bondade pode ser oferecida à criança.</p>
<p>Não é raro que os jovenzinhos voltem para casa em prantos, ou numa indignação sem lágrimas, depois de verem a criança e enfrentarem esse terrível paradoxo. Ficam às vezes remoendo o assunto por semanas. Mas com o passar do tempo começam a perceber que mesmo se fosse libertada a  criança não teria como ganhar muito com a sua liberdade; o vago prazerzinho da comida e de um lugar aquecido, sem dúvida, mas pouco mais do que isso. Ela está por demais degradada e deficiente para conhecer qualquer alegria genuína. Tem medo há tempo demais para chegar a se libertar do temor. Seus hábitos são grosseiros demais para poder responder a um tratamento humanitário. Provavelmente não iria demorar para que ela sentisse falta de paredes para protegê-la, de escuridão para os olhos e de seu próprio excremento para sentar. As lágrimas diante da amarga injustiça secam quando eles começam a perceber a terrível justiça da realidade, e a aceitá-la. Porém talvez sejam justamente suas lágrimas e sua indignação, o teste da sua generosidade e a aceitação de sua impotência, a verdadeira fonte do esplendor de suas vidas. Sua felicidade não é algo insípido e irresponsável. Sabem que, como a criança, não são livres. Conhecem a compaixão. É a existência da criança, sua consciência da existência dela, que torna possível a nobreza de sua arquitetura, a pungência da sua música, a profundidade da sua ciência. É por causa da criança que são tão gentis com seus filhos. Sabem que se a miserável não estivesse ali lamuriando-se na escuridão, o outro, o tocador de flauta, não poderia produzir sua música jubilosa enquanto os jovens cavaleiros se alinham em sua formosura para a corrida sob o sol da primeira manhã de verão.</p>
<p>Agora você acredita? Isso os tornou mais verossímeis? Mas há mais uma coisa a se contar, e essa é bem incrível.</p>
<p>De vez em quando um dos adolescentes que vai visitar a criança não volta para casa chorando ou indignado; não volta, na verdade, para casa. Por vezes também um homem ou mulher bem mais velhos ficam sem dizer nada por um dia ou dois, depois saem de casa. Essas pessoas saem para a rua e avançam rua afora sozinhas. Continuam andando e caminham direto para fora da cidade de Omelas, passando pelos belíssimos portões. Prosseguem caminhando para além das terras cultivadas de Omelas. Cada um vai sozinho, rapaz ou garota, homem ou mulher.</p>
<p>A noite cai; o viajante tem de passar por ruas de vilarejos, por entre casas com janelas iluminadas em amarelo, e prosseguir para a escuridão dos campos. Cada um deles sozinho, rumam para oeste ou para o norte, na direção das montanhas. Vão indo. Saem de Omelas, avançam escuridão adentro, e jamais voltam. O lugar para onde vão é um lugar ainda menos imaginável para nós do que a cidade da alegria. Sou inteiramente incapaz de descrevê-lo. É possível que nem exista. Mas parecem saber para onde estão indo, os que dão as costas a Omelas.</p>
<p align="right"><small><strong>Ursula K. Leguin</strong>, em <em>The Wind&#8217;s Twelve Quarters</em>(1974)</small></p>
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		<title>A cristandade, ou a Europa</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 11:07:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou escrevendo um livro sobre a Reforma, ou melhor, sobre a gênese (e o apocalipse) das ideias da Reforma, e no caminho (através do Depois da cristandade de Gianni Vattimo, a que cheguei através da mão do Alessandro Rocha) deparei-me com esta notável reflexão de Novalis, repleta de apressados lirismos e rasgos verdadeiramente proféticos. Já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><small>Estou escrevendo um livro sobre a Reforma, ou melhor, sobre a gênese (e o apocalipse) das ideias da Reforma, e no caminho (através do <em><a href="http://www.sinopsedolivro.net/livro/depois-da-cristandade.html">Depois da cristandade</a></em> de Gianni Vattimo, a que cheguei através da mão do <a href="http://www.paulinas.org.br/loja/DetalheProduto.aspx?IDProduto=8838">Alessandro Rocha</a>) deparei-me com esta notável reflexão de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Novalis">Novalis</a>, repleta de apressados lirismos e rasgos verdadeiramente proféticos. Já depositei algumas seleções aqui na Bacia, mas aproveito para deitar a coisa toda onde poderá talvez desconcertar mais alguns. A necessária advertência é que está escrito numa retórica de outro tempo, e o leitor deve tentar não se deixar levar pela aparência reacionária da argumentação dos três primeiros parágrafos. Qualquer texto que contenha a frase &#8220;a verdadeira anarquia é o elemento criativo da religião&#8221; merece minha completa atenção.</small></p>
<p><span id="more-2527"></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A cristandade, ou a Europa (1799)</strong></p>
<p>Eram tempos belos e magníficos, aqueles em que a Europa era uma terra cristã, quando uma única cristandade habitava este civilizado continente, quando um único interesse comum unia as mais distantes províncias deste vasto império espiritual. Sem grandes possessões materiais, um único soberano governava e unificava as colossais forças espirituais. Imediatamente abaixo dele postava-se uma enorme corporação, aberta a todos, executando cada desejo seu e lutando zelosamente para consolidar o seu benevolente poder. Cada membro desta sociedade era honrado em todo lugar. Se  o povo comum buscava no seu clérigo conforto ou segurança, proteção ou conselho, de bom grado provendo em retribuição por suas diversas necessidades, ganhava também a proteção, o respeito e a atenção de seus superiores. Todos viam esses eleitos, homens armados de poderes miraculosos, como filhos do céu, cuja mera presença e afeição dispensava toda sorte de bençãos. Uma fé como a das crianças unia o povo ao ensino deles. Quão alegremente todos completavam seus labores terrenos, sabendo que esses homens santos haviam-lhes salvaguardado a vida futura, perdoado cada pecado, esclarecido e apagado cada ponto negro desta vida. Eles eram os experimentados pilotos nos vastos mares inexplorados, sob cuja proteção se podia zombar de todas as tempestades, e nos quais se podia confiar para se alcançar e desembarcar em segurança nas praias do mundo genuinamente paternal. Os apetites mais vorazes e mais selvagens viam-se obrigados à ceder com honra e obediência às suas palavras. Deles emanava paz.</p>
<p>Essa poderosa sociedade amante da paz ardentemente buscava fazer com que todos os homens compartilhassem da beleza da sua fé, pelo que enviavam discípulos a todas as partes do globo para pregar o evangelho e tornar o reino do céu o único reino da terra. Com justiça, o sábio cabeça da igreja resistia aos insolentes avanços dos poderes humanos e prematuras descobertas no campo do conhecimento, que ocorriam em prejuízo do senso do divino. Deste modo ele impediu que ousados pensadores sustentassem publicamente que a terra é um planeta insignificante, pois sabia muito bem que se as pessoas perdessem o respeito por sua residência e lar terrenos perderiam também o respeito por sua raça e lar celestiais; que prefeririam o conhecimento finito à infinita fé, e se habituariam a desprezar tudo que é grande e miraculoso, passando a considerá-lo o efeito sem vida de leis naturais.</p>
<p>Todos os homens sábios e respeitados da Europa se aglomeravam na corte dele. Ali fluíam todos os tesouros; a Jerusalém destruída foi vingada e Roma tornou-se ela mesma Jerusalém, a sacra residência do governo divino sobre a terra. Príncipes submetiam suas disputas ao pai da cristandade e de bom grado depositavam suas coroas e seu esplendor aos pés dele; de fato, viam como seu privilégio a oportunidade de serem membros dessa sagrada corporação, e de encerrarem o entardecer de suas vidas em divina meditação dentro dos solitários muros dos claustros. As poderosas aspirações de todos os poderes humanos, o harmonioso desenvolvimento de todas as habilidades, as imensuráveis alturas alcançadas por todos os indivíduos em todos os campos do conhecimento e das artes, bem como o próspero tráfico de bens espirituais e materiais dentro de toda a Europa e até às Índias distantes &#8211; tudo isso demonstrava quão benéfico, quão adequado à natureza interior do homem, eram este governo e esta organização.</p>
<p>Tais eram as principais características da beleza daqueles tempos genuinamente católicos e genuinamente cristãos. Era um primeiro amor, que morreu sob a pressão da vida comercial, cuja devoção foi reprimida por preocupações egoístas, e cujo elo foi revelado mais tarde ser fraude e engano, quando julgado a partir da experiência posterior. Deste modo ele foi destruído por um grande número de europeus. Acompanhado por destrutivas guerras, esse grande cisma interior foi um notável sinal do quão prejudicial a cultura &#8211; ou pelo menos quão temporariamente prejudicial a cultura de um certo nível &#8211; pode ser para o senso do espiritual. Esse sentimento imortal não pode jamais ser destruído, porém pode ser turvado, paralisado ou reprimido por outros sentimentos.</p>
<p>Uma prolongada associação de homens diminui suas inclinações para a sua fé e para sua raça, e habitua-os a aplicar seus pensamentos e esforços à tarefa de adquirir conforto material. As necessidades, bem como as artes de satisfazê-las, tornam-se mais complexas; o ambicioso requer tanto tempo para conhecer e ganhar habilidade nessas artes que não tem mais tempo para a silenciosa reunião de ideias e a atenta consideração do mundo interior. Se um conflito surge, seu interesse presente lhe parece representar mais; desse modo fenecem as belas flores de sua juventude, da fé e do amor, dando lugar aos frutos amargos do conhecimento e da possessão. Aqui devemos lidar com tempos e períodos, e não é por acaso a oscilação, a alternância entre tendências opostas, essencial a eles? Não é verdade que há uma duração limitada que lhes é própria, um crescimento e uma decadência que são parte da sua natureza? E não é por acaso uma ressurreição, um rejuvenescimento numa nova forma vital, o que deve esperar-se com certeza deles? Uma evolução progressiva em constante expansão é a própria essência da história.</p>
<p>Aquilo que não atinge a perfeição agora irá fazê-lo numa tentativa futura, ou numa tardia. Nada no alcance da história é transitório; de inumeráveis transformações ela sempre procede novamente para formas cada vez mais ricas. O cristianismo apareceu uma vez em pleno poder e esplendor; suas ruínas, bem como a mera letra de sua lei, governaram com crescentes impotência e infâmia até a inspiração de um novo mundo. Uma inércia infinita jazia pesadamente sobre a complacente corporação do clero. Esses estagnavam no sentimento de sua autoridade e de conforto material, enquanto o laicado subtraía deles a tocha da experiência e do aprendizado, superando-os a passos largos no caminho da educação. Esquecendo sua verdadeira missão de serem os primeiros entre os homens de espírito, conhecimento e educação, deixaram que seus desejos mais baixos lhes subissem à cabeça. A banalidade e baixeza da sua atitude tornou-se ainda mais ofensiva devido à particularidade de seu traje e de seu chamado. Desta forma o respeito e a confiança, que são as bases deste e de qualquer império, desmoronaram gradualmente, destruindo essa corporação e solapando silenciosamente a verdadeira autoridade de Roma muito antes da poderosa insurreição. Apenas medidas prudentes, e portanto expedientes, mantiveram unido o cadáver da velha constituição e preservaram-no de uma dissolução demasiadamente rápida. Entre essas medidas estava, por exemplo, a abolição do direito de casamento aos padres. Tal medida, tivesse sido aplicada na profissão similar dos soldados, teria dado a ela uma formidável coerência e prolongado sua existência. Porém nada mais natural que um ardente agitador se levantasse para pregar rebelião aberta contra a letra despótica da constituição anterior, e com maior sucesso por ser ele mesmo membro daquela corporação.</p>
<p>Os insurgentes chamaram a si mesmos de protestantes, pois protestavam solenemente contra qualquer pretensão de governo da consciência por uma força aparentemente injusta e tirânica. Por um certo período eles exigiram o direito, de que anteriormente haviam tacitamente aberto mão, de investigar, determinar e escolher a própria religião. Estabeleceram também uma série de princípios corretos, introduziram uma série de coisas louváveis e aboliram uma série de estatutos corruptos. Porém esqueceram as necessárias consequências de suas ações: separaram o inseparável, dividiram a igreja indivisível e divorciaram-se impiamente da união cristã universal, através da qual e apenas na qual um renascimento genuíno e duradouro seria possível. Uma condição de anarquia religiosa não deve ser mais do que transicional, pois permanece urgente e válida a necessidade básica de que um número de pessoas devote-se a essa vocação superior, e façam-se independentes do poder secular com respeito a essas questões.</p>
<p>O estabelecimento de consistórios e a preservação de uma espécia de clero não satisfizeram essa necessidade e não foram substituto suficiente. Infelizmente os príncipes interviram nessa ruptura, e muitos fizeram uso da disputa para consolidar e expandir sua receita e seu poder soberano. Ficaram felizes em ver-se livres daquela influência superior e tomaram os novos consistórios debaixo de sua direção e proteção paterna. Mostraram-se zelosamente preocupados em impedir a reunião completa das igrejas protestantes. Tendo a religião sido sacrilegamente enclausurada nos limites do estado, deitava-se a fundação para o gradual solapar do interesse religioso cosmopolitano. A religião perdeu dessa forma sua enorme influência como pacificadora política, o papel que lhe cabia como princípio unificador e característico do cristianismo. A paz religiosa foi concluída a partir de princípios completamente equivocados e sacrílegos, e pela continuação do assim chamado protestantismo declarava-se algo completamente contraditório &#8211; a saber, um governo permanentemente revolucionário.</p>
<p>O protestantismo, no entanto, não está baseado de modo algum nesse conceito puro. Em geral Lutero tratou o cristianismo de maneira arbitrária, entendeu erroneamente o seu espírito e introduziu uma nova lei e uma nova religião, a saber, a autoridade universal da Bíblia. Deste modo uma ciência estranha e terrena &#8211; a filologia &#8211; passou a interferir com as questões religiosas, e sua corrosiva influência tem sido inequívoca desde então. Do negro sentimento da falha de Lutero surgiu que grande parte dos protestantes elevaram-no ao posto de evangelista, tendo canonizado a sua tradução.</p>
<p>Essa decisão mostrou-se fatal para o sentimento religioso, visto que nada destrói mais a sua sensibilidade do que a letra morta. Em outro tempo a letra não poderia ter jamais se mostrado tão danosa, tendo em vista a amplitude, a maleabilidade e a riqueza da fé católica, o caráter esotérico da Bíblia e o sacro poder dos concílios e do papa. Porém agora que esses antídotos haviam sido destruídos e a absoluta popularidade da Bíblia afirmada, o limitado conteúdo da Bíblia e seu sistema rudimentar e abstrato de religião tornaram-se mais claramente opressivos, tornando infinitamente mais difícil para o Espírito Santo exercer sua ação de avivamento, penetração e revelação.</p>
<p>Por conseguinte a história do protestantismo não tem mais a nos mostrar esplêndidas revelações da esfera celestial. Apenas seu início ardeu com um fogo passageiro do céu; pouco depois um fenecer do senso do sagrado é aparente. O mundano havia saído por cima, e o sentimento pela arte sofreu em simpatia pela religião. Com a Reforma o cristianismo encontrava seu fim. A partir dali deixava de existir. Católicos e protestantes postavam-se mais distantes uns dos outros, em seu conflito sectário, do que de muçulmanos e pagãos. Os estados católicos remanescentes continuaram a vegetar, não sem sentir vagamente a influência corruptora de seus vizinhos estados protestantes. A nova política surgiu durante esse tempo: poderosos estados individuais buscando tomar posse da sé universal agora vaga, agora transformada num trono&#8230;</p>
<p>A Reforma foi um sinal dos tempos. Mostrou-se significativa para toda a Europa, mesmo tendo irrompido publicamente apenas na Alemanha livre. As melhores mentes de todas as nações haviam maturado em segredo, e na ilusória auto-confiança de sua missão rebelaram-se de modo proporcionalmente destemido contra as antigas restrições. Na velha ordem o intelectual havia sido instintivamente inimigo do clero. O terreno intelectual e o clerical, uma vez divididos, tinham que lutar uma guerra de extermínio, pois lutavam por uma única posição. Essa divisão tornou-se cada vez mais proeminente, e os intelectuais ganharam mais terreno à medida em que a Europa aproximava-se da era do aprendizado triunfante, à medida em que a fé e o conhecimento viam-se forçadas a uma oposição mais decisiva. Na fé via-se a fonte da estagnação universal, e através de um conhecimento mais penetrante esperava-se destruí-la. Em todo lugar o sentimento do sagrado sofreu várias perseguições por sua natureza passada, sua personalidade temporal.</p>
<p>O resultado da maneira moderna de se pensar foi chamada de &#8220;filosofia&#8221;, definida como qualquer coisa que se opusesse à velha ordem, especialmente portanto para referir-se a qualquer capricho contra a religião. O que era originalmente um ódio pessoal contra a fé católica tornou-se gradualmente ódio contra a Bíblia, a fé cristã e finalmente contra toda a religião. Não apenas isso: o ódio contra a religião estendeu-se de modo muito natural e consistente a tudo que fosse objeto de entusiasmo: aviltantes fantasia e sentimento, a moralidade e o amor pela arte, o futuro e o passado. Essa nova filosofia colocava o homem por necessidade no ápice da série de seres naturais, e transformava a infinita música criativa do cosmos no estrépito uniforme de um gigantesco moinho; um moinho ele mesmo movido e levado por uma corrente de acaso sem arquiteto ou moleiro, um genuíno moto perpétuo: um moinho que mói a si mesmo.</p>
<p>Um único entusiasmo foi generosamente deixado para a pobre raça humana, e tornado indispensável para todos os interessados como credencial de uma educação superior: o entusiasmo por essa filosofia magnífica e esplêndida, em especial pelos seus sacerdotes e mentores. A França foi particularmente afortunada em ser o berço e o lar desta nova fé, montada às pressas a partir de pedaços de mero conhecimento. Por mais infame que fosse a poesia para essa nova igreja, havia ainda nela alguns poucos poetas, os quais apenas por efeito utilizavam ainda os velhos ornamentos e luzes; ao fazê-lo, no entanto, corriam o risco de incendiar o sistema do novo mundo com um fogo antigo. Seus membros mais sagazes sabiam como jogar água fria sobre sua inspirada audiência. Estavam constantemente preocupados em eliminar a poesia da natureza, da terra, da alma humana e das ciências. Todo traço do sagrado devia ser destruído, toda lembrança de feitos e pessoas nobres arruinado pela sátira, e o mundo inteiro despido de qualquer ornamento pitoresco. Seu tema favorito, devido a sua obediência e impudência matemática, era a luz. Agradava-lhes que ela refratasse ao invés de brincar com as cores, pelo que chamaram seu grande empreendimento de &#8220;Iluminismo&#8221;. A Alemanha foi especialmente meticulosa com respeito a essa questão: a educação foi reformada e a velha religião recebeu um significado novo, racional e pragmático, purificado de tudo que fosse miraculoso e misterioso; toda a erudição foi convocada a deixar de buscar qualquer refúgio na história, que lutaram para enobrecer tornando-a um retrato doméstico e civil de família e moralidade. Deus foi transformado num ocioso espectador da grande drama em movimento encenado pelos intelectuais, que os poetas e atores deveriam entreter e admirar no final.</p>
<p>E de fato, a gente comum foi iluminada com o prazer e educada a um entusiasmo pela cultura. Nasceu então na Europa uma nova corporação, a dos filantropos e popularizadores da iluminação. É uma pena que a natureza tenha se mostrado tão maravilhosa e incompreensível, tão poética e infinita, esquivando-se de todas as tentativas de se modernizá-la. Se em algum lugar insinuava-se ainda a velha superstição de um mundo sobrenatural levantava-se o alarme de todos os lados, e onde fosse possível essa perigosa centelha era apagada pela filosofia e pelo bom senso. Não obstante, a palavra preferida dos educados era &#8220;tolerância&#8221;, especialmente na França, onde era sinônimo de filosofia.</p>
<p>A história da descrença moderna é extremamente notável, e é também a chave para todos os monstruosos fenômenos da era contemporânea. Foi apenas neste século, e em particular na segunda metade dele, que teve início, alcançando em pouco tempo imensas dimensões e variedade. Uma segunda reforma, mais adequada e mais abrangente, era inevitável.  Que a hora da ressurreição chegou, e que precisamente os eventos que pareciam impedir o seu ressurgimento e garantir o seu fim tornaram-se os sinais propícios de sua regeneração &#8211; isso não pode ser negado pela mente histórica.</p>
<p>A verdadeira anarquia é o elemento criativo da religião. Da destruição de tudo que é positivo ela ergue sua gloriosa cabeça de criadora de um novo mundo. Se nada o detém o homem sobe ao céu por suas próprias forças. As faculdades superiores, germe original da transformação da terra, libertam-se da mescla uniforme da mediocridade e da completa dissolução de todos os talentos e poderes humanos. O espírito de deus paira sobre as águas, e uma ilha celestial torna-se visível sobre as ondas que recuam: o local de residência de um novo homem, o nascedouro de vida eterna.</p>
<p>De modo calmo e imparcial o observador genuíno considera os novos tempos revolucionários. E não é que a revolução para ele assemelha-se a Sísifo? Ele agora chegou ao topo, só para ver sua carga tremenda rolando novamente morro abaixo. Ela jamais permanecerá no cume a não ser que uma atração em direção ao céu a mantenha equilibrada ali. Todos os pilares de vocês são fracos demais se o estado retém sua tendência em direção à terra. Porém liguem-no através de um anseio superior às alturas do céu e deem a ele uma conexão com o cosmos, e obterão desse modo uma fonte inesgotável, e todos os seus esforços serão ricamente recompensados. Encaminho você à história. Vasculhe seu instrutivo continuum em busca de ocasiões similares e aprenda a usar a varinha mágica da analogia.</p>
<p>A França defende um protestantismo secular. Deveriam agora jesuítas seculares erguerem-se de modo a renovar a história dos últimos séculos? Deveria a Revolução permanecer francesa do mesmo modo que a Reforma foi luterana? Deveria o protestantismo ser restabelecido &#8211; de modo contrário à natureza &#8211; como governo revolucionário? Deveria a letra morta ser substituída por outra letra morta? O que vocês buscam é a semente da corrupção também na velha constituição, o velho espírito? E acreditam conhecer uma constituição superior, um melhor espírito? Ah, que o espírito dos espíritos os encha e os conduza para longe de sua tola tentativa de moldar e dirigir a história da humanidade. A história não é por acaso independente, autônoma, virtualmente infinitamente adorável e profética? Estudá-la, segui-la, aprender com ela, acompanhar o ritmo dela, fielmente seguir suas promessas e sugestões &#8211; isso a ninguém ocorreu.</p>
<p>Na França muito tem sido feito em favor da religião, em não apenas uma de suas incontáveis formas, ao se privá-la de seus direitos civis e ao conceder-se a ela o mero direito de asilo. Em sua qualidade de órfão estrangeiro e insignificante ela deverá em primeiro lugar reconquistar os corações e ser amada em todo lugar antes de ser publicamente adorada e combinada a coisas mundanas de modo a conceder conselho amigável ao coração e ao espírito. A tentativa dessa grande máscara de ferro, que respondia pelo nome de Robespierre, de tornar a religião o ponto central e o coração da república permanece historicamente notável. Igualmente admirável é a frieza com que a teofilantropia, o misticismo do novo Iluminismo, tem sido recebido, isso para não mencionar as conquistas dos jesuítas e a relação mais próxima entre o oriente e a nova política.</p>
<p>Com relação aos demais países europeus, com exceção da Alemanha, pode-se profetizar que a paz trará uma vida religiosa mais elevada e consumirá em breve todos os demais interesses mundanos. Na Alemanha, no entanto, pode-se apontar com completa certeza os traços de um novo mundo. A seu ritmo tranquilo mas certo a Alemanha avança adiante dos demais países europeus. Enquanto os outros países estão preocupados com a guerra, com a especulação e o partidarismo, a Alemanha diligentemente se educa de modo a ser testemunha de uma era mais elevada da cultura; e esse progresso deverá dar a ela grande superioridade sobre os demais países com o passar do tempo. Nas ciências e nas artes percebe-se um poderoso fermento. Uma quantidade infinita de espírito se desenvolve. Novos e intocados veios estão sendo minerados. Nunca esteve a ciência em mãos melhores, e nunca despertaram expectativas maiores. Os mais variados aspectos das coisas estão sendo traçados; nada é deixado intocado, sem ser julgado ou examinado. Todas as pedras são reviradas. Os escritores tornam-se mais originais e mais poderosos; cada monumento histórico, cada arte e cada ciência encontra novos amigos e são abraçados e tornado mais frutíferos. Uma diversidade sem paralelo, uma maravilhosa profundidade, um acabamento reluzente, um conhecimento amplo e uma fantasia rica e poderosa se encontram em todo lugar e são com frequência arrojadamente mescladas. Um poderosa intuição de disposição criativa, de ausência de limites, de infinita diversidade, de sacra originalidade e da onipotência da humanidade interior parece agitar-se em todo lugar. Desperta do sonho matinal de uma infância desprotegida, uma parte da raça humana exercita seus poderes sobre as víboras que circundam seu berço e buscam privá-la do use de seus membros. Esses são ainda indícios, desconexos e rudimentares, mas ao olhar histórico traem uma individualidade universal, uma nova história, uma nova humanidade, o mais doce abraço entre uma igreja jovem e surpresa e um deus amoroso, para não mencionar o acolhimento interno de um novo messias em todas as suas mil formas. Quem é que não sente esperança em meio a uma doce vergonha? O recém-nascido será a imagem de seu pai, uma nova era de ouro com infinitos olhos escuros, uma ocasião profética, miraculosa, curativa e consoladora que gera vida eterna. Será uma grande era de reconciliação, de um Salvador que, como verdadeiro gênio em sua própria casa, em meio aos homens, será apenas crido e não visto. Ele será vísivel àquele que crê de incontáveis maneiras: consumido como pão e vinho, abraçado como a pessoa amada, respirado como o ar, ouvido como palavra e canção, e acolhido como a morte no coração do corpo que se apaga, com volúpia celeste e as dores mais agudas do amor.</p>
<p>Agora estamos postados em posição elevada o bastante para sorrir afavelmente diante daqueles tempos antigos e reconhecer, naquelas estranhas tolices, notáveis cristalizações de matéria histórica. Com gratidão deveríamos apertar as mãos daqueles intelectuais e filósofos; pois essa ilusão tinha de ser esgotada por amor à posteridade, e a visão científica das coisas tinha de ser legitimada. Mais encantadora e pitoresca, a poesia posta-se como uma ornamentada Índia em contraste com os arcos frios, aguçados e mortos da razão acadêmica. Então, para que a Índia pudesse ser cálida e magnífica no centro do nosso planeta, um mar congelado e frio, penhascos desolados e névoa, em vez de um céu estrelado e uma longa noite, tinham de tornar ambos os pólos locais inóspitos. O significado mais profundo da mecânica perturbava esses eremitas do deserto do entendimento. A empolgação de sua primeira descoberta assoberbou-os, e a velha ordem vingou-se deles. Com maravilhosa autonegação sacrificaram as coisas mais belas e sagradas do mundo à sua autoconsciência. Foram os primeiros a reconhecer e proclamar novamente a santidade da natureza, a infinitude da arte, a necessidade do conhecimento, o respeito pelo secular e a onipresença do verdadeiramente histórico. Colocaram um fim no elevado, mais predominante e terrível reino dos fantasmas nos quais eles mesmos criam.</p>
<p>Apenas através de um conhecimento mais exato da religião seremos capazes de julgar os terríveis produtos de um sono religioso, aqueles sonhos e delírios do órgão sacro. Só desse modo será possível avaliar-se adequadamente a importância de tal dádiva. Onde não há deuses governam fantasmas. O período da gênese dos fantasmas europeus, que também acabam explicando por completo a sua forma, é o período de transição entre a mitologia grega e o cristianismo. Então venham, vocês filantropos e enciclopedistas, venham ao pavilhão da paz e recebam o beijo da fraternidade! Dispam seus véus cinzas e contemplem com amor renovado a miraculosa magnificência da natureza, da história e da humanidade. Quero conduzi-los a um irmão que lhes falará de modo a que seus corações se abram novamente, de modo a que a intuição dormente de vocês, trajando um novo corpo, volte a abraçar e reconhecer aquilo que você sentem &#8211; aquilo que o seu  pesado intelecto terreno não é capaz de apreender.</p>
<p>Este irmão é o pulso de uma nova era. Quem já o sentiu não duvida da sua chegada, e com um um doce orgulho em sua geração dá um passo para longe da massa para unir-se ao novo grupo de discípulos. Ele fez um novo véu para os santos, um véu que revela a figura celeste deles ao mesmo tempo em que os esconde ainda mais castamente do que antes. O véu é para o virgem o que o espírito é para o corpo: um órgão indispensável, cujas dobras são as letras de sua doce anunciação. O jogo infinito dessas dobras é uma música secreta, pois a linguagem é rígida e insolente para o virgem, cujos lábios só se abrem para a canção. Para mim não se trata de outra coisa que não a solene convocação para uma nova assembleia, o poderoso bater de asas de um arauto angélico que passa. São as primeiras dores do parto; que todos preparem-se para o nascimento.</p>
<p>A Física atingiu o seu ápice, e podemos agora mais facilmente vistoriar a corporação científica. Em tempos recentes, quanto mais sabemos a respeito das ciências mais aparente tem se tornado a pobreza delas. A natureza começou a parecer árida e estéril e, uma vez habituados ao esplendor de nossas descobertas, vimos mais claramente que tratava-se meramente de luz emprestada, e que com os métodos e ferramentas conhecidos não construiríamos ou encontraríamos o essencial, ou aquilo que buscávamos.</p>
<p>Na ordem política, o velho e o novo lutam ferozmente. De um lado há a veneração pelo velho mundo, a lealdade à constituição histórica, o júbilo na obediência, o amor aos monumentos ancestrais e à gloriosa e antiga família real. De outro, há o arrebatador sentimento de liberdade, as expectativas ilimitadas por uma esfera de ação mais potente, o prazer no que é novo e jovem, o contato informal entre todos os concidadãos, o orgulho na universalidade humana, a alegria nos direitos individuais e na propriedade da comunidade como um todo, um acentuado senso cívico. E nenhum lado deveria esperar destruir o outro. Todas as vitórias de conquista nada significam, pois o capitólio interior do reino jaz além de muros terrenos e não pode ser invadido.</p>
<p>Quem sabe dizer se já houve guerra que baste, se a guerra chegará a findar, a não ser que alguém segure o ramo de oliveira que só o poder espiritual pode oferecer. O sangue continuará a correr na Europa até que as nações reconheçam sua horrenda loucura. A guerra continuará a levá-las em círculos até que, tocadas e acalmadas pela música sacra, postem-se diante de seus altares abandonados em variegada multidão. </p>
<p>Não é verdade que os governos controlam tudo dos homens, exceto seu coração &#8211; seu órgão sagrado? Não tornam-se por acaso amigos, como pessoas ao redor do caixão funerário do seu amado? Não esquecem toda hostilidade quando a piedade divina lhes fala, e quando um único infortúnio, um único lamento, um único sentimento enche-lhes de lágrimas os olhos? Não são tomados de arrasto pelo sacrifício e cedem com ímpeto todo-poderoso, e não anseiam tornar-se amigos e aliados?</p>
<p>Onde está a velha e cara crença no governo de Deus sobre a terra, que pode apenas ela trazer redenção? Onde está aquela sagrada confiança mútua entre os homens, aquela doce devoção nas efusões de uma mente inspirada, aquele todo-abrangente espírito da cristandade?</p>
<p>O cristianismo tem três formas. A primeira é o elemento criativo da religião, o júbilo em toda religião. Outra é a mediação em geral, a crença na capacidade de tudo que é terreno de tornar-se pão e vinho da vida eterna. Uma terceira é a crença no Cristo, em sua mãe, e nos santos. Escolha a que quiser. Escolha todas as três. É indiferente: você será então cristão, membro de uma única comunidade eterna, inefável e feliz.</p>
<p>A velha fé católica, a última destas manifestações, era a encarnação do cristianismo aplicado. Sua onipresença na vida, seu amor pela arte, sua profunda humanidade, a santidade de seus matrimônios, seu senso filantrópico de comunidade, seu júbilo na pobreza, obediência e lealdade &#8211; tudo isso faz dela uma religião inequivocamente genuína, e contém as características básicas de sua constituição. Ela está sendo purificada pela correnteza do tempo, e em indivisível união com as duas outras manifestações do cristianismo irá abençoar a terra.</p>
<p>Sua manifestação incidental está praticamente destruída. O papado jaz na sepultura, e por uma segunda vez Roma tornou-se ruína. Não deveria o protestantismo finalmente deixar de existir, abrindo caminho para uma igreja mais duradoura? As demais partes do mundo aguardam a reconciliação e a ressurreição da Europa a fim de juntar-se a ela de modo que se tornem cidadãos conjuntos do reino do céu. Não deveria voltar a haver na Europa mentes genuinamente sacras? Não deveriam todas as mentes religiosas afins estarem cheias de anseio por verem o céu na terra? Não deveriam reunir-se entusiasticamente para cantar um sacro refrão?</p>
<p>O cristianismo deve mais uma vez tornar-se vivo e ativo, e mais uma vez formar uma igreja visível que não leve em conta fronteiras nacionais. Mais uma vez deve receber em seu seio todas as almas famintas e tornar-se mediadora entre o velho e o novo mundo.</p>
<p>O cristianismo deve mais uma vez derramar sua cornucópia de bençãos sobre as nações. Ele se erguerá novamente a partir de um venerável concílio europeu, e a questão do avivamento religioso será perseguida em conformidade com um abrangente plano divino. Ninguém voltará jamais a protestar contra coerção cristã ou mundana, pois a essência da igreja será genuína liberdade, e todas as reformas necessárias sob sua direção serão conduzida na forma de de processos de estado pacíficos e formais.</p>
<p>Quando e quão logo? Isso não se deve perguntar. Tenha paciência. Virá e deve vir, a era sagrada de paz eterna, na qual a nova Jerusalém será o capitólio. Até então permaneçamos calmos e destemidos diante dos perigos desta era. Companheiros da minha fé, proclamem em palavras e atos a divina boa nova! Permaneçam fiéis à verdadeira e eterna fé até a morte.</p>
<p align="right"><small><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Novalis">Georg Philipp Friedrich von Hardenberg</a> (1772-1801)</small></p>
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		<title>A tarefa de adquirir conforto material</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Mar 2011 17:09:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma prolongada associação de homens diminui suas inclinações para a sua fé e para sua raça, e habitua-os a aplicar seus pensamentos e esforços à tarefa de adquirir conforto material. As necessidades, bem como as artes de satisfazê-las, tornam-se mais complexas; o ambicioso requer tanto tempo para conhecer e ganhar habilidade nessas artes que não tem mais tempo para a silenciosa reunião de ideias e a atenta consideração do mundo interior. Se um conflito surge, seu presente interesse lhe parece representar mais; desse modo fenecem as belas flores de sua juventude, da fé e do amor, dando lugar aos frutos amargos do conhecimento e da possessão.</p>
<p align="right"><small><strong>Novalis</strong>, em <em>A cristandade, ou a Europa</em> (1799)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug010.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
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		<title>O profeta e a revolução</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Jan 2011 08:08:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
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		<description><![CDATA[Fui a Jaraguá do Sul visitar um cliente, coisa que raramente faço, e fui de terno e gravata, coisa que jamais voltarei a fazer. Quando sai da fábrica era o meio da tarde e pensei em dormir numa pousada em Pomerode, depois de encher a carne na Torten Paradis e beber uma imaculada série de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fui a Jaraguá do Sul visitar um cliente, coisa que raramente faço, e fui de terno e gravata, coisa que jamais voltarei a fazer. Quando sai da fábrica era o meio da tarde e pensei em dormir numa pousada em Pomerode, depois de encher a carne na <em>Torten Paradis</em> e beber uma imaculada série de <em>Weiss</em> no deque da cervejaria Schornstein. </p>
<p>Eu já estava em Pomerode, naquele cruzamento na frente da delegacia, quando olhou-me de repente a placa da saída para Timbó; lembrei-me inevitavelmente de Rio dos Cedros e de seu profeta, e decidi alongar a viagem por meia hora &#8211; ver se encontrava coragem para encarar novamente o homem que olhou o pecado no meu rosto e não viu nada de mais no que viu.</p>
<p>Avancei sem parada na tarde oblíqua e dourada, cruzando arrozais de um verde-limão inclemente e casinhas vermelhas encravadas em jardins de rosas. Quando fechei atrás de mim a última porteira e fiz o Corsa descer crepitando a curva ladeada de jerivás, faltava pouco para as seis da tarde. </p>
<p>Eu havia tirado meias e sapatos assim que entrara no carro, portanto antes de sair só afrouxei a gravata e enrolei duas vezes a barra da calça. Caminhei descalço pelo caminho de lousa até o portãozinho da cerca do jardim, gritei ô de casa, e quando venci os dois degraus da varanda já havia terminado de dobrar até os cotovelos as mangas da camisa branca.</p>
<p>Todas as portas e janelas da casinha de madeira estavam abertas, pelo que demorei a entender que estava vazia. Na varanda de trás (dei a volta por fora) encontrei uma mesa de madeira maciça, um fogão a lenha e um tanque escavado em pedra, abastecido sem trégua pela água de um aqueduto de meia taquara que desaparecia em direção ao morro vizinho. Retirei uma caneca de metal do prego em que pendia e bebi.</p>
<p>Devolvi a caneca, ponderando voltar para o carro e refazer o caminho, anulando por completo aquela tentativa e ganhando pontos para dizer um dia estive aqui e você não estava. Olhei o relógio do celular: cinco e quarenta e quatro. Decidi ir embora imediatamente e em outra ocasião explicar que havia esperado em vão das cinco e meia até as seis. Nesse ponto, no interior da casa, alcançou-me da mesa da cozinha uma visão potente o bastante (talvez a única) para me fazer abandonar o plano de fuga: uma pilha de livros.</p>
<p>O profeta de Rio dos Cedros entrou em casa meia hora depois, batendo uma contra a outra as solas de suas botas de borracha, e encontrou-me lendo fábulas de La Fontaine na mesa da sua cozinha. Os outros livros eram <em>Sobre a origem da desigualdade</em>, de Rousseau, <em>A origem da família, da propriedade privada e do estado</em>, de Engels, <em>Almas Mortas</em>, de Gogol e &#8211; o único que eu ainda não havia lido &#8211; o panfleto de quatro páginas <em>Teses sobre Feuerbach</em>, de Marx.</p>
<p>&#8211; Brabo, você voltou &#8211; ele disse, e parecia sinceramente feliz, mas antes de entrar lavou no tanque lá fora as mãos, os pés e uma braçada de raízes de aipim que trouxera numa sacola.</p>
<p>&#8211; Meu amigo proletário João do Pó! Desculpe aí ir entrando desse jeito &#8211; eu disse, mas ele desconsiderou com um balanço da cabeça e produziu de detrás de uma cortina estampada uma gamela com ameixas vermelhas e pêssegos.</p>
<p>Dez minutos depois as mandiocas cozinhavam no fogão e cada um de nós tinha diante de si um copo com partes iguais de Campari, gelo, vinho branco barato e água com gás, consagrados com uma fatia de laranja.</p>
<p>&#8211; E eu que não tinha lido esse livrinho de Marx &#8211; eu disse, querendo desviar a conversa. &#8211; Quando vi a casa vazia estava decidido a ir embora, mas tive de ficar pra falar com você sobre ele.</p>
<p>&#8211; Confesso que não li nada desse teólogo de quem Marx está falando, mas parece que não é preciso ter lido para entender.</p>
<p>&#8211; Você vai gostar de Feuerbach, mas sim, Marx está aparentemente falando consigo mesmo &#8211; puxei o panfleto do topo da pilha de livros e deixei que abrisse pousado na minha mão aberta. &#8211; A prática revolucionária. Eu não conhecia esse lado politizado de João do Pó.</p>
<p>Ele limitou-se a sorrir e sorver um gole.</p>
<p>&#8211; Pelo que entendi Marx está enfezado com o materialismo &#8211; ele opinou, &#8211; que embora seja a mais desiludida e terra-a-terra das ideias, ainda assim não passa de uma ideia. Nada no mundo dos conceitos basta para produzir a prática revolucionária que pode mudar o mundo, et cetera.</p>
<p>&#8211; Exato. Até aquele ponto a história da filosofia havia representado uma revolução arquival, por assim dizer. Os filósofos tinham em seu favor haver catalogado todos os problemas, todas as causas e todas as soluções, mas nada daquilo corria o risco de vazar dos arquivos das ideias para o mundo real.</p>
<p>&#8211; Como é mesmo que ele diz no final? &#8211; ele riu consigo mesmo, passando a mão pela cabeça raspada. &#8211; A última coisa?</p>
<p>&#8211; &#8220;Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de maneiras diferentes&#8221; &#8211; eu li, imprimindo o devido drama ao cenário de dois homens discutindo filósofos mortos numa casinha de madeira no meio do nada debaixo de um céu límpido orlado por iminentes tempestades de verão. &#8211; &#8220;A questão, porém, é transformar o mundo.&#8221;</p>
<p>&#8211; É quase &#8220;a fé sem obras é morta&#8221;, não é verdade? &#8211; ele provocou, e ignorei a provocação.</p>
<p>Nesse momento a luz na cozinha piscou duas ou três vezes antes de apagar por completo, e ouvimos a geladeira tremer e silenciar. Agora só se ouviam os sapos que malhavam ferros no banhado entre o morro e a casa.</p>
<p>&#8211; Está sempre chovendo em algum lugar &#8211; ele lembrou.</p>
<p>&#8211; O bastante para sempre apagar a luz de outro &#8211; eu disse, e coloquei o celular em cima da mesa para que ele nos cinzelasse minimamente com sua vigília azul.</p>
<p>&#8211; Enfim &#8211; ele disse, brincando com a tampa de Campari como se quisesse fechar a garrafa, sem nunca chegar a concluir a tarefa, &#8211; houve uma época em que o que a revolução desejava era remover um sistema estabelecido de coisas e colocar outro sistema no lugar. Se a realidade resistisse à mudança, como costumava fazer, para promover a revolução era tido como necessário apelar para a violência.</p>
<p>&#8211; Como assim, &#8220;houve um tempo&#8221;? Não é mais assim?</p>
<p>&#8211; Faz algum tempo que não &#8211; ele olhou-me muito sério para confirmar. &#8211; O capitalismo, que se apropria de tudo e reverte em seu favor, apropriou-se por inteiro do discurso da revolução.</p>
<p>&#8211; Che Guevara é uma marca numa camiseta que você quer comprar.</p>
<p>&#8211; Justamente &#8211; ele ajeitou-se na cadeira, &#8211; mas não só isso. A revolução está em todo lugar; impossível agora é escapar dela. A mudança é o presente sistema, e o capitalismo se alimenta precisamente disso. Hoje um produto é que é &#8220;revolucionário&#8221;. A internet é revolucionária. Os conservadores costumavam ser os que resistiam à mudança; hoje em dias, conservadores são os que creem que a mudança é a única coisa que existe.</p>
<p>&#8211; Tornando dessa forma a verdadeira revolução impossível.</p>
<p>&#8211; Não completamente. Hoje em dia para fazer violência ao sistema é preciso rejeitar a mudança em vez promovê-la.</p>
<p>&#8211; Uma violência de abstenção? &#8211; bebi um gole para dissimular um mal-estar que eu sabia só tendia a crescer.</p>
<p>&#8211; Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.</p>
<p>Ele silenciou, arrependido do uso excessivo de ênfases, mas aparentemente muito interessado na minha reação.</p>
<p>&#8211; Não me parece muito eficaz a sua revolução &#8211; fiz com um copo um gesto que abarcava a propriedade. &#8211; Você não tem televisão em casa, mas um bilhão de brasileiros está assistindo o <em>Big Brother</em>.</p>
<p>&#8211; É como uma revolução qualquer &#8211; ele relaxou na cadeira. &#8211; Para que funcione é preciso ver mais gente aderindo à violência contra o sistema. <em>Abster-se da revolução</em> é agora a prática revolucionária.</p>
<p>Baixei o copo e ponderei um longo tempo o que queria dizer.</p>
<p>&#8211; Nas revoluções anteriores era muito fácil conseguir a adesão das massas, porque o novo sistema a ser implantado oferecia vantagens muito evidentes. Já ninguém vai querer abrir mão da tecnologia e do capitalismo, como você faz, porque não há vantagem nenhuma nisso. Nenhuma vantagem evidente, quero dizer.</p>
<p>&#8211; O problema é que o capitalismo é uma revolução que esconde os próprios custos. É um produto que cada um deve vender a si mesmo, por assim dizer, um dia após o outro. E todos compram, porque o dia seguinte depende dessa venda.</p>
<p>&#8211; Tenho de reconhecer &#8211; baixei a voz, mas foi sem querer, &#8211; que a mais simples das operações, que é manter-se vendável (isto é, manter-se produtivo), requer o espaço da vida inteira. Mas, para quem está dentro, apenas o custo de sair do sistema parece maior. Tecnicamente todos sabem que não precisam de um novo celular, mas a revolução é exigente. E talvez por isso irresistível.</p>
<p>&#8211; Você entende agora por que <em>O Senhor dos Anéis</em> é uma metáfora tão adequada para o nosso tempo? &#8211; ele finalmente fechou a garrafa e colocou-a de lado. &#8211; Entende por que a trilogia de Tolkien exerce um fascínio tão grande, mesmo sobre os que não sabem articular a coisa nos nossos termos?</p>
<p>Levantei as sobrancelhas, sinceramente embaraçado, porque não via a conversa tomando aquela direção.</p>
<p>&#8211; Não tenho certeza &#8211; concedi. &#8211; A coisa que mais gosto no livro é que a solução corporativa falha miseravelmente, e o herói remanescente e eficaz só sobrevive inteiramente marcado pela amargura.</p>
<p>Ele sorriu.</p>
<p>&#8211; É formidável, mas não é disso que estou falando.</p>
<p>&#8211; E do que estamos falando?</p>
<p>&#8211; Da revolução &#8211; João do Pó cortou mais uma fatia de laranja e derrubou no seu copo. &#8211; Tolkien moldou sua história a partir dos grandes épicos e clássicos que tanto admirava, mas com uma diferença. As antigas epopeias narravam <em>a busca</em> por algum objeto poderoso, e as dificuldades que os heróis encontravam no caminho.</p>
<p>&#8211; Entendi &#8211; senti o rosto queimar, mas entendi também que o profeta faria questão de articular por completo o seu argumento.</p>
<p>&#8211; <em>O Senhor dos Anéis</em> é precisamente o contrário. Se você pensar, é uma anti-busca. O desafio dos heróis é destruir um objeto poderoso, não encontrá-lo.</p>
<p>&#8211; E fica demonstrado que não é nada fácil.</p>
<p>&#8211; Especialmente porque o poder representa uma tentação para os próprios heróis. Quem vai querer abrir mão de um artefato que representa uma vantagem tão evidente?</p>
<p>&#8211; Pouca gente &#8211; concordei. &#8211; E mesmo os que o fizerem estarão marcados para sempre pela tentação de possuí-lo.</p>
<p>&#8211; O desafio da nossa era &#8211; ele disse &#8211; não é outro.</p>
<p>Nesse momento um vaga-lume aceso, que não tínhamos notado quando entrara, voou ao redor de nós como uma fada e pousou precisamente no topo da garrafa que nos separava.</p>
<p>Calamos os dois, o pensador de gravata e o pensador com terra debaixo das unhas das mãos. Estávamos ambos descalços, e de fato nossos pés se tocavam sem grande constrangimento debaixo da mesa, mas aparentemente não seguíamos para o mesmo lugar. Ou a mesma pessoa.</p>
<p>Então, pela moldura de tela que protegia a porta aberta da frente, vi que alguém se aproximava pelo pasto escuro guiado por uma lanterna.</p>
<p>&#8211; Você está esperando alguém para jantar? &#8211; eu perguntei, e meu tom, para meu embaraço, foi quase de repreensão.</p>
<p>&#8211; Nunca espero ninguém, mas isso não quer dizer que qualquer um não possa chegar &#8211; ele explicou, e ouvimos que se abria o portãozinho do jardim.</p>
<p>Cinco minutos mais tarde esvaziei o copo, pedi licença e lembrei que estava na hora de ir indo.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug013.gif"></p>
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		<item>
		<title>A sucessora</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Jan 2011 08:35:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[socialismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Ma otto son lunghi Adriano Celentano, em O rapaz da via Gluck &#160; Agora que o presidente desceu a rampa, recebi permissão para falar. Como se sabe, meu cinismo essencial não apenas estende-se à política, mas deve-se em grande parte a ela. Sobre democracia não chego a compartilhar todas a descrenças de Lovecraft, mas endosso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><em>Ma otto son lunghi</em><br />
<small><strong>Adriano Celentano</strong>, em <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-rapaz-da-via-gluck/">O rapaz da via Gluck</a></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Agora que o presidente desceu a rampa, recebi permissão para falar. </p>
<p>Como se sabe, meu cinismo essencial não apenas estende-se à política, mas deve-se em grande parte a ela. Sobre democracia não chego a compartilhar <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/contra-a-democracia/">todas a descrenças de Lovecraft</a>, mas endosso sem qualquer dúvida <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-que-menos-sao/">a iluminada desilusão de Tolkien</a>.  Como a esta altura também ninguém deve ignorar, não me considero de esquerda, mas pendo periodicamente em direção a ela devido à minha impenitente simpatia para com o cristianismo e sua insensata <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/">ênfase distributiva</a>; pela mesma razão, não sou de direita e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">nem teria como ser</a>.</p>
<p>Meu respeito para com o ideal cristão, no entanto, é grande demais para que eu me contente com a esquerda; como já devo ter dito antes, o problema com o socialismo é ser ao mesmo tempo idealista demais e de menos. Em termos políticos, só me resta afirmar um anarquismo cristão como esboçado no Novo Testamento, que entende a implantação do reino de Deus como <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">o fim de todos os governos</a>: a formidável negação de toda estrutura de poder e de dominação, em todos os níveis, por mais bem-intencionadas que se mostrem. A negação da legitimidade dos poderes, ao contrário do que tememos os fariseus de todas as eras, não é o reinado do caos: é o intransigente reino da liberdade, da ternura e da responsabilidade universais, em que o regime do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">amor se prova mais severo do que o da justiça</a>. Muito declaradamente, Deus esvaziou-se em Jesus a fim de mostrar que onde não há poderes, há o reino de Deus. Deus é Despoder.</p>
<p>Naturalmente, um regime subversivo dessa natureza só pode ser implantado de baixo para cima. Por definição os anarquistas não devem se organizar, pelo que a do reino, por vocação, é a revolução que não será televisionada.</p>
<p>Enquanto isso os poderes continuam a dançar, e é uma dança de discursos e portanto <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/">de polarização</a>. No que diz respeito à recente ascensão da esquerda no Brasil, interessa-me menos a esperança (quem sabe infundada) que despertou em alguns do que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/">o temor que despertou em outros</a>.</p>
<p>Porém o fascínio de Lula é maior do que o da esquerda; sua importância não se esgota na sua lealdade (ou não) ao ideal socialista. Em grande parte, a singularidade desses oito anos reside no espaço negativo que circundou a figura do ex-presidente &#8211; na natureza daquele vasto tudo-aquilo-que-não-é-Lula. Faz pouca diferença se você enxerga Luis Inácio da Silva como uma estrela cujo brilho ofuscou todas as outras ou como um buraco negro que arrastou para dentro de si as energias que serviriam para iluminar o mundo. São anos que ficarão marcados menos pelo que Lula fez ou deixou de fazer do que pelo que ele gerou (e deixou de gerar) ao redor de si.</p>
<p>Em primeiro lugar, o duplo mandato de Lula deixou claro que a democracia no Brasil basta para permitir que qualquer um chegue efetivamente ao poder; essa mesma revelação mostrou ser motivo de júbilo para uns e de horror para outros. Nesse sentido, foram oito anos de comunitária nudez, a reação que oferecemos à ascensão e à postura de Lula dizendo sempre mais sobre nós mesmos do que sobre ele.</p>
<p>Em segundo lugar, há o fato incontornável (já observado por habitantes dos dois hemisférios da esfera política) de que o governo Lula não teve oposição organizada. Trata-se de feito singular por muitas razões, e a menor delas não está em que  &#8211; depois de duas décadas do seu exemplo &#8211; a direita poderia ter aprendido com o PT como se faz oposição eficaz. </p>
<p>Nesses oito anos a direita teve o lastro da revista VEJA, de Reinaldo Azevedo, de Diogo Mainardi, de Olavo de Carvalho, de um canal de TV ou outro, de articuladíssimo blogueiros, de milhões de dólares em empresários e de setecentos milhões de mensagens de email circularmente encaminhadas. Essas vozes denunciaram o presidente Lula como um analfabeto, um despreparado, um vagabundo, um bêbado e uma vergonha nacional, mas deixaram de produzir a derradeira evidência que seria capaz de comprovar o seu próprio cacife para emitir essas opiniões. Os letrados, os preparados, os trabalhadores, os sóbrios e os notáveis da direita mostraram-se incapazes de espremer de suas fileiras uma única voz &#8211; uma que fosse, minha gente, dentre tanta gente preparada &#8211; capaz de articular publicamente a sua posição e de representar uma alternativa ao governo e oferecer-lhe verdadeira oposição. Durante décadas Lula representou a oposição e falou em nome dela; durante o seu governo não houve um único candidato a candidato a expressar com um pingo de carisma ou autoridade a posição e as ressalvas da direita. </p>
<p>Acho isso grave porque estou também absolutamente convicto que não faz bem a ninguém governar sem oposição &#8211; mesmo que se trate de um governante tão claramente bem-intencionado quanto Lula. Cheguei a cogitar de, por amor à esquerda, fundar um articulado partido de extrema direita, para que Lula pudesse beneficiar-se de uma oposição e do saudável contrapeso de um adversário. Mas o que deixei de fazer por amor à esquerda os direitistas mostraram-se incapazes de fazer por amor à sua própria causa. Lula manteve a sanidade e o equilíbrio mesmo sem um opositor para refreá-lo, coisa que não pode ser dita sobre os governantes que o antecederam.</p>
<p>Finalmente, há o enorme espaço que Lula deixou para trás agora que passou de si a faixa. A lacuna é tão grande que Dilma Roussef, mesmo que tivesse em seu favor alguma visibilidade anterior e algum carisma pessoal, não teria como começar a preencher. Por décadas Lula representou o carisma na oposição e por oito anos no poder; agora que desceu a rampa, deixou-nos sem o conforto de um ou de outro.</p>
<p>Dilma nunca foi minha candidata (muito menos Serra, fique claro) e não a conheço; só sei dela que Lula por alguma razão (talvez bem-intencionada, mas sem dúvida política) impôs sobre ela sua benção. Será injusto esperar que qualquer outro representante da esquerda se mostre tão terno e equilibrado quanto Lula; será inocente esperar que qualquer representante da esquerda sem o seu carisma seja tolerado por tanto tempo por uma direita que representa os que têm tanto a perder. </p>
<p>Deste posto, do terceiro dia de quatro anos dos quais nada sei, só posso prever que Dilma, se sobreviver até o final de seu mandato, será inevitavelmente seguida por um candidato de direita.</p>
<p>Há, porém, uma esperança: talvez Lula, o despreparado filho do Brasil, se levante para preencher a lacuna que seus adversários se mostraram impotentes para oferecer. Se quiser, Lula pode muito bem representar a oposição capaz de manter o equilíbrio de Dilma. Quem sabe Lula seja grande o bastante para fazer aquilo de que nenhuma esquerda do mundo foi capaz: assegurar simultaneamente a perpetuação e a singeleza do seu ideal.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug015.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/capitalismo-socialismo-alienacao-e-o-capeta/">Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta</a><br />
<a href="http://www.garimpoeditorial.com.br/livro+anarquia+cristianismo.html">Anarquia e cristianismo</a></p>
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		<title>A sua recompensa</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Jan 2011 02:01:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>
		<category><![CDATA[rondinelly]]></category>

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		<description><![CDATA[Aí vem você argumentar que é o Estado &#8211; o monstro opressor &#8211; que dá dinheiro dos contribuintes para os miseráveis gastarem com cachaça e não trabalharem &#8211; e eu lhe pergunto três coisas: por que é inadmissível que os pobres não possam ser preferidos pelo governo, pela igreja, pelo Estado, por quem quer que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aí vem você argumentar que é o Estado &#8211; o monstro opressor &#8211; que dá dinheiro dos contribuintes para os miseráveis gastarem com cachaça e não trabalharem &#8211; e eu lhe pergunto três coisas: por que é inadmissível que os pobres não possam ser preferidos pelo governo, pela igreja, pelo Estado, por quem quer que seja, se do ponto de vista do cara mais revolucionário que já houve não há nunca imparcialidade, são as vítimas sempre a serem preferidas? E, além do mais, se o governo está fazendo aquilo que você deveria fazer – dar o dinheiro aos pobres? De onde saiu a regra de que pobres não podem ter seu dinheiro de forma autônoma? A regra de que eles precisam ser porteiros, empregadas domésticas, babás, motoristas, de que eles só valem quando vendem sua força, seu vigor e seu saber prático para o gozo dos poucos de sempre? De onde saiu a regra de que os pobres não podem gastar seu pouco dinheiro da forma que bem entenderem, assim como eu e você gastamos insensatamente o nosso salário?</p>
<p>O princípio mais demoníaco dos últimos dois séculos é o da igualdade de oportunidade. Igualdade de oportunidade é como colocar pra concorrer numa prova de atletismo um rapaz de cadeira de rodas e um atleta. As oportunidades são iguais, as condições, não. Além do mais não gosto da igualdade por si mesma: eu gosto das diferenças! (Veja, eu não disse desigualdade – que é terrível – mas diferenças). E a luta por igualdade é justamente a luta para que os diferentes possam igualmente manifestar sua vida e seu modo de estar, de falar, de cantar, de abraçar, de se vestir, de dançar e de tomar banho. Nesse caso, eu quero um Estado que trate os desiguais como desiguais: a quem tem menos (dinheiro, poder, saber, espaço) seja dado mais e primeiro; quem tem mais, já tem sua recompensa! Eu quero um país das cotas raciais e do ProUni (porque negros e brancos, alunos de escolas niveladas e de escolas modelares, nunca tiveram igualdade de condições e não teriam oportunidades iguais), quero o país da Bolsa-Família (porque pobres e ricos nunca comeram as mesmas coisas e não poderiam gozar do mesmo sabor de gastar o seu dinheiro como bem entendem), quero o país das comunidades quilombolas, das reservas indígenas, dos assentamentos bem-estruturados, da agricultura familiar camponesa (porque esses povos nunca tiveram as mesmas condições dos brancos, ricos, urbanos e agroindustriais).</p>
<p>[...]</p>
<p>Na verdade, eu quero o Não-Estado, o Despoder; eu quero a festa de corpos livres, de desejos ardentes, de danças, de músicas, de comida farta, de uma mesa única com todo mundo junto; mas essa realidade que parece impossível, é o Reino do Deus do impossível, que trabalha por nossas mãos, sua por nossos poros e chora com nossos prantos, e que não acontecerá sem a luta incessante contra aqueles que querem acumular, que criam barreiras de separação, que não gostam da inclusão de mais gente, que não querem a participação dos pobres, dos pretos, dos bêbados, dos analfabetos, das crianças, dos poetas e das mulheres! Por ora, enquanto o Reino não chega, só devemos manifestar a festa da vida em nossa vida, junto de quem está perto de nós, contra a discriminação e a repressão, pela liberdade, pelas diferenças, pela diversidade. Agora, o momento é de não permitir que as forças reacionárias do escuro impeçam a aurora de continuar a clarear o dia. A salvação não virá do governo, mas a continuidade de um governo que permite a liberdade ampla da expressão, que distribui renda, que tira pobres da pobreza e dá voz a quem não tinha é fundamental para destruirmos esse Brasil capenga, dividido e opressivo e tirar de dentro dele o outro Brasil vibrante, colorido, dançante e flamejante, contra o poder e com sabor de vida! </p>
<p align="right"><small><strong>Rondinelly Gomes Medeiros</strong>, aplicando curativa <a href="http://sdcaustica.blogspot.com/2010/10/o-fim-do-mundo-e-sempre-o-comeco-de.html">Soda Cáustica</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista/">As variedades da experiência capitalista</a></p>
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		<title>O monastério é o mundo</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Dec 2010 10:23:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[reforma protestante]]></category>

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		<description><![CDATA[Como se sabe, Weber argumentou que a Reforma Protestante abriu caminho para o capitalismo através de uma completa alteração das crenças e hábitos diários da vida. Weber mostrou-se particularmente interessado em Calvino e no calvinismo, pois encontrou neles o processo pelo qual as disciplinas monásticas &#8211; o dia ordenado de trabalho, a vida frugal, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como se sabe, Weber argumentou que a Reforma Protestante abriu caminho para o capitalismo através de uma completa alteração das crenças e hábitos diários da vida. Weber mostrou-se particularmente interessado em Calvino e no calvinismo, pois encontrou neles o processo pelo qual as disciplinas monásticas &#8211; o dia ordenado de trabalho, a vida frugal, o ascetismo, a autonegação, o chamado para a vida religiosa, o individualismo, a predestinação, a dependência da graça por parte de seres humanos inteiramente incapazes de qualquer bem eles mesmos porém constantemente impelidos às boas obras em resposta à graça &#8211; deixaram os monastérios e alcançaram a população em geral.</p>
<p>Esses ritmos da vida diária mostraram-se cruciais na transição entre os padrões medievais e aqueles mais adequados ao capitalismo. Embora Lutero tenha tomado o primeiro passo na desconstrução do monasticismo medieval, a contribuição de Calvino foi fazer deste mundo um lugar de teste e de preparação para a vida em outro mundo que ainda não pode ser conhecido. A vida diária tornou-se cenário de uma racionalização sem precedentes, na qual cada momento estava sujeito a ordenação, escrutínio e prestação de contas. </p>
<p>O paradoxo aqui está em que Calvino não tornou a vida humana menos religiosa: ao contrário, a vida humana como um todo tornou-se um monastério. Porém foi precisamente essa ampla religionização que gerou tanto as possibilidades do capitalismo quanto o fim do protestantismo calvinista como tal. Porque, ao sacralizar a vida como um todo, Calvino também a racionalizou; ao colocar em andamento essa estirpe secular de ascetismo, deixou de haver qualquer necessidade para a perpetuação de algum conceito religioso. Um ascetismo puramente secular tornou-se o resultado lógico da teologia de Calvino, que pode então ser descartada, uma vez que já cumpriu sua missão. O calvinismo protestante funciona portanto como um agente catalisador que desaparece uma vez que tenha cumprido a sua tarefa.</p>
<p align="right"><small><strong>Roland Boer</strong>, em <em>Political Grace: The Revolutionary Theology of John Calvin</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug058.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-teologia-do-capital/">A teologia do Capital</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-capitalismo-como-fascismo/">Igreja e capitalismo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-reforma-e-a-psicotizacao-da-experiencia-materialistas-gracas-a-deus/">A Reforma e a psicotização da experiência</a></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Sobre manifestações populares e medidas de proteção a minorias</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Dec 2010 08:11:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[É desconcertantemente difícil para um leigo ter qualquer opinião inteligente sobre o assunto. Eu me encontro às vezes de um lado, às vezes do outro. Pode ser que a promulgação de uma medida dessa natureza sob pressão popular se prove um valioso precedente na necessária tarefa futura de derrubar a resistência conservadora a programas federais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É desconcertantemente difícil para um leigo ter qualquer opinião inteligente sobre o assunto. Eu me encontro às vezes de um lado, às vezes do outro. Pode ser que a promulgação de uma medida dessa natureza sob pressão popular se prove um valioso precedente na necessária tarefa futura de derrubar a resistência conservadora a programas federais de assistência em geral. Por outro lado, pode provar-se sinal para outros apelos mais irracionais por privilégios especiais por parte de diversos grupos e interesses [...]. Apenas historiadores mais tardios saberão apresentar um veredito genuinamente imparcial.</p>
<p>Enquanto isso, qualquer legislação que seja capaz de relaxar a miópica e complacente supremacia das grandes indústrias deve ser encorajada. Seria provavelmente impossível e impraticável tentar-se fragmentar essas indústrias em unidades menores, visto que a tendência geral de operação efetiva é no sentido de uma unificação; porém é de fato praticável e aconselhável combater o quanto for possível o irresponsável abuso de poder e controle dos processos governamentais por parte desses conglomerados.</p>
<p align="right"><small><strong>H. P. Lovecraft</strong>, em carta a Robert E. Howard<br />
16 de agosto de 1932</small></p>
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		<title>Nenhum de nós</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Nov 2010 06:27:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Ninguém neste recinto, incluindo o seu pastor, acredita na fé cristã. Nenhum de nós daria a outra face. Nenhum de nós venderia tudo que tem e daria aos pobres. Nenhum de nós daria o casaco a um sujeito que tivesse tirado nosso sobretudo. Cada um de nós acumula todo o tesouro que consegue. Não praticamos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ninguém neste recinto, incluindo o seu pastor, acredita na fé cristã. Nenhum de nós daria a outra face. Nenhum de nós venderia tudo que tem e daria aos pobres. Nenhum de nós daria o casaco a um sujeito que tivesse tirado nosso sobretudo. Cada um de nós acumula todo o tesouro que consegue. Não praticamos a religião cristã e não temos qualquer intenção de praticá-la. Logo, não acreditamos nela. Eu portanto me desligo, e aconselho vocês a pararem de mentir e se dispersarem.</p>
<p align="right"><small><strong>Sinclair Lewi</strong>s, em <em>Elmer Gantry </em>(1927)</small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/?p=834">Morte aos comentaristas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/?p=160">Verme maldito</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/?p=217">Das tais</a></p>
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		<title>Traga-me um futuro novo</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/traga-me-um-futuro-novo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=traga-me-um-futuro-novo</link>
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		<pubDate>Mon, 25 Oct 2010 10:33:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>

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		<description><![CDATA[Que o velho já não me interessa. Foi Jean Delumeau, cuja História do medo no Ocidente voltei a percorrer descalço todas as manhãs, quem me chamou a atenção para o fato de que o temor da novidade e a glorificação do passado são motivo de todo o tipo de conflito contraditório no estreitíssimo (mas perene) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que o velho já não me interessa.</p>
<p>Foi Jean Delumeau, cuja <em>História do medo no Ocidente</em> voltei a percorrer descalço todas as manhãs, quem me chamou a atenção para o fato de que o temor da novidade e a glorificação do passado são motivo de todo o tipo de conflito contraditório no estreitíssimo (mas perene) fio do presente.</p>
<p>Quem administra o passado pode nos manejar como bem lhe parece, porque a humanidade não tem olhos para o futuro. Um menino caminha e caminhando chega a um muro, mas é só ali &#8211; só até aqui &#8211; que conseguimos chegar. Mesmo quando procura acenar com a promessa retórica de um futuro melhor, o estadista usa como moeda as memórias de uma longínqua e idealizada idade do ouro ou, como alavanca, os desafios deixados pela utopia de um profeta que já morreu. Ele precisa se alicerçar em seduções do passado, porque gente de carne é incapaz de desejar, verdadeiramente desejar, o futuro.</p>
<p>Em consequência, grande parte dos movimentos que acabamos classificando como revolucionários não fundamentam o seu discurso na construção de um futuro previamente inconcebível, mas num esforço declarado de recuperação do passado (ou de um ideal do passado) &#8211; que se toma por mais admirável e digno de perpetuação do que a condição presente. Os revolucionários, hereges e insurgentes enxergam-se, regra geral, como a sagrada elite dos verdadeiros conservadores.</p>
<p>Foi esse, muito evidentemente, o caso com os proponentes da Reforma Protestante, que exigiam um retorno à pureza original (isto é, pertencente ao passado) do evangelho e rejeitavam todas as inovações introduzidas ou toleradas pela igreja medieval: o culto dos santos, as indulgências, a missa em latim, as imagens, os votos monásticos a confissão obrigatória. Foi assim, paradoxalmente, com a Contra-Reforma, movimento católico que se inflamou em várias frentes contra o que era visto como as novidades introduzidas pelos protestantes, e tomava como inadmissível que os reformadores rejeitassem o formidável monumento de séculos e séculos de um sistema eclesiástico universal. Embora discordassem espetacularmente sobre a natureza ideal do presente, os discursos de um e de outro &#8211; defensores da Reforma e da Contra-Reforma &#8211; estavam alicerçados na preservação de ideais e valores do passado. Discordavam apenas quanto a por qual passado valia à pena lutar, morrer e matar.</p>
<p>Qualquer um que se levanta contra os sistemas do mundo, portanto, se vê inevitavelmente sujeito à mais mesquinha e incontornável das denúncias: &#8220;então você está certo e mil (ou dois mil, ou cem) anos de tradição estão erradas?&#8221; Não apenas qualquer avanço se vê impedido por essa intransigência, mas o próprio espaço do presente se vê inteiramente tomado por diferentes facções definidas por sua lealdade a determinada fatia do passado &#8211; facções que estarão prontas a levantar cercas e espadas para proteger a honra e a supremacia dessa sua distância da inovação.</p>
<p>Em nenhum caso esse cativeiro voluntário com o passado é mais paradoxal do que na postura do cristianismo institucional, que manifesta lealdade nominal a um movimento que em sua forma original representava um compromisso inegociável, sem precedentes e sem sucessores, com a inovação.</p>
<p>Que se devassem os arquivos de todas as religiões, revoluções e ideais já abraçados pela humanidade. Afirmo sem o temor da hipérbole que nenhum, mais do que o inquieto movimento delineado no Novo Testamento, propôs o novo, fez do novo sua bandeira, postulou o novo e resolutamente o requereu. Ideologias como o marxismo, o satanismo e o anarquismo parecerão cautelosos e conservadores quando comparados ao rigor iconoclasta e obsessivamente inclusivo do cristianismo das primeiras gerações.</p>
<p>A doutrina do reino de Deus pleiteia um homem irretocavelmente renovado e, consequentemente, outorga a promessa de um mundo inconcebível de tão novo. Na esteira da sua implantação, seus proponentes trabalharam sistematicamente para derrubar, diante dos outros e de si mesmos, as barreiras ancestrais de sexo, nacionalidade, classe social e ideologia que haviam delimitado as fronteiras da ordem e da civilização &#8211; e nada sugere que esperassem que essa onda revolucionária de inclusividade pudesse ser contida com a última página do Novo Testamento.</p>
<p>Nenhuma dessas posturas representava meias-medidas; encarnavam inovações no sentido mais revolucionário e controverso da coisa, e requeriam a dissolução sistemática do próprio tecido da cultura, da economia e da sociedade. O reino de Deus anuncia o fim do mundo porque sua implantação ab-roga o castelo de cartas que teimamos chamar de civilização.</p>
<p>A inclusão e a indiferenciação demandada pela doutrina graça, em particular, soa para ouvidos humanos como um perigoso flerte com o próprio caos, uma entrega inadmissível ao mais rigoroso terror. Você já parou para ponderar como seria, para além da retórica, um mundo em que não houvesse de fato &#8220;judeu nem grego, empregado nem empregador, homem nem mulher&#8221;?</p>
<p>De modo algum: nosso amor à ordem e à tradição recusam-se resolutamente a acompanhar essas sugestões até suas necessárias consequências. Não é à toa que os cristãos das gerações posteriores tenham se desviado deliberadamente desse projeto, porque nós mesmos recuamos em horror diante dele.</p>
<p>O paradoxo está em que, enquanto pretendemos ou fingimos voltar continuamente (e com maior fidelidade do que qualquer facção concorrente) ao Novo Testamento, o Novo Testamento propõe-nos incessantemente que avancemos para além dele. Em sua inclusividade, em sua intransigência, em seu anti-imperialismo, em sua visão comunitária, em sua generosidade e sua gentileza, o movimento do reino encarna esse ideal ativamente comprometido com o incondicionado, o não-previsto, o sem precedentes.</p>
<p>Esse compromisso com uma onda sem volta de inovação foi, na verdade, articulado em atos pelas testemunhas e em palavras por todos os proponentes do reino. &#8220;As coisas velhas já passaram&#8221;, decreta o Apóstolo, e celebra ao mesmo tempo a recém-instaurada vertigem: &#8220;tudo agora se fez novo&#8221;. O livro de Apocalipse descreve a dissolução sistemática (e, em última instância, absolutamente revolucionária) de todas as estruturas de intimidação e de dominação jamais empunhadas pela humanidade, e conclui sua ascensão rumo a uma impoluta glória com a mais desconcertante e embaraçosa auto-definição da divindade: &#8220;Eis que faço novas todas as coisas&#8221;. </p>
<p>Um Deus comprometido com a novidade, e não com a tradição, nunca voltou a frequentar os sonhos dos homens. E Jesus, seu representante e desbravador, só tinha olhos, gestos e palavras para o reino dessa devastadora inovação. Ele alertou claramente que o vinho da sua revolução era de natureza tão ebuliente que não podia ser contido em recipientes de couro velho, que não se mostrariam flexíveis o bastante para preservá-lo e distribuí-lo. O sumo perpetuamente renovado do reino requer continuamente recipientes novos, sempre temporários e sempre irrestritamente maleáveis. O novo só se dobra diante da necessidade de uma renovação adicional: a semente deve morrer para brotar, o homem deve morrer para ressuscitar. As coisas velhas já passaram, e o que um dia já foi unânime e útil deve ser deixado agora mesmo para trás.</p>
<p>E ali logo em frente, a esperar pela gente, está um futuro inteiramente condicionado, inteiramente amordaçado pelo nosso temor do outro e nosso pavor da novidade.</p>
<p>Coloque a palma da sua mão ao lado da minha e posso lê-las como as páginas de um livro. Tudo que faremos eu e você nos próximos dias, nos próximos anos e nas próximas décadas &#8211; em nosso trabalho, em nosso voto, em nossos planos, em nosso círculo de relações, na carne de nossas tatuagens e no esqueleto de nossas omissões &#8211; terá em vista manter (ou estabelecer) um estado de coisas confortável para nós mesmos, um mundo em que não tenhamos de olhar a diferença nos olhos. Por certo haverá progresso, mas manteremos seus pés acorrentado ao rigor das nossas alianças, obrigando-o a avançar nos passos diminutos limitados pela pequeneza de nossas concessões &#8211; concessões que celebraremos dentro de nós como sinal muito evidente de nossa própria grandeza, como se representassem um grande avanço e não encarnassem em sua cautela o nosso próprio horror de dar um passo maior.</p>
<p>Olhando na palma da sua mão e na minha, vejo por exemplo que no futuro haverá igrejas autodefinidas como tradicionais que acolherão homossexuais declarados em suas congregações, concedendo-lhes a princípio os mesmos direitos relutantes e sem alarde que foram concedidos aos divorciados. Por outro lado, haverá um número ainda maior de igrejas que condenará explicitamente esses e outros liberalismos, tomando-os por concessão a Satanás, até que a pulverização das posições dos que se definem como cristãos termine por sujeitar o nome e a herança de Jesus à mais completa irrelevância cultural.</p>
<p>E é preciso lembrar que nada há de revolucionário em que a igreja termine por se dobrar, acolhendo gente constrangedora como são atualmente os homossexuais; é na verdade absolutamente esperado que o faça, depois das necessárias contorções em contrário. Porque a igreja formal se mostrará disposta a qualquer concessão a fim de manter o seu status de igreja &#8211; um mundo em que haja pastores, templos, reuniões semanais, ofertas, testemunhos e o correspondente tráfico de culpas e fidelidades. A igreja-instituição fará tudo e qualquer coisa para preservar um mundo em que retenha a reputação de generosa mas reguladora, porém ela mesmo reservará as decisões realmente radicais para o último momento, quando sua própria posição não representar qualquer diferença diante da postura geral da sociedade sobre determinado assunto.</p>
<p>Dessa forma, a igreja permanecerá fazendo concessões que não são motivadas pela misericórdia, mas por seu compromisso com a autoperpetuação. Não o fará motivada pelo amor à relevância, mas pelo medo da irrelevância. Não o fará conduzida pelo amor à minoria, mas para não perder a aprovação da maioria.</p>
<p>Olhando na sua mão e na minha vejo que, quando for absolutamente impossível deixar de desviar nosso olhar dos limites muito evidentes de um mundo redondo, e quando nós poucos privilegiados já tivermos queimado a maior parte dos recursos que tardiamente se reconhecerá pertencerem a todos, a humanidade passará a de fato regulamentar e fazer cumprir a justiça ambiental &#8211; mas isso quando não restar qualquer espaço de manobra, quando tivermos muito literalmente derrubado a última floresta: quando for em muitos sentidos tarde demais.</p>
<p>Porém esse mundo de gente possuidora de uma forçosa consciência ambiental será ainda um mundo de corporações e de lucros, de alianças e de traições, de países, nacionalidades e fronteiras. Permanecerá um mundo condicionado.</p>
<p>Em outras palavras, a sanidade que hoje seria admirável e permanece rigorosamente improvável está na verdade predestinada a ocorrer no futuro &#8211; porém deve ficar muito evidente que tomaremos todas as providências para que a misericórdia e o respeito aos direitos do outro permaneçam no âmbito do condicionado, e que sua inevitável aplicação seja adiada até o último momento.</p>
<p>Em outras palavras, manteremos o vinho da novidade contido em recipientes de couro velho, até que finamente se rompam e não tenhamos outra escolha que não contê-lo novamente num outro recipiente destinado para durar.</p>
<p>Veja que já são passados dois mil anos e ainda volto infantilmente, condicionadamente, a essa metáfora dos odres, que já deixaram de ser usados há tanto tempo. Meu temor do futuro é tão grande que sequer consigo contextualizá-la.</p>
<p>O que se requer, muito evidentemente, não são metáforas novas, porque palavras saberemos sempre dobrar de modo a justificar os nossos discursos. O que se requer é um homem novo, em que o próprio coração seja um recipiente imoderadamente flexível e em tudo maleável.</p>
<p>A única metáfora que resta é a mais iconoclasta, niilista e existencialista de todas: a Palavra se fez carne. O necessário é que o homem não traga dentro de si qualquer coisa que não sua precária humanidade, cujo único mérito será o de pertencer a todos.</p>
<p>Porque quando o homem for humano será o reino de Deus, e Deus não nos perdoe se escolhermos um futuro menor.</p>
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