08 de Março de 2010

A Coca-Cola e o oposto do amor

Goiabas Roubadas

Numa perspectiva psicoanalítica, é crucial o elo entre a dinâmica capitalista da mais-valia e a dinâmica libidinal do mais-gozar. Podemos desenvolver esse ponto a partir da Coca-Cola, mercadoria capitalista por excelência e, como tal, “excedente de gozo” personificado.

Não é surpresa que a Coca-Cola tenha sido apresentada inicialmente como remédio; seu gosto estranho não parece prover qualquer satisfação particular. A Coca não é diretamente agradável ou atrativa; porém é precisamente nessa qualidade, no que transcende qualquer valor utilitário (ao contrário da água, da cerveja e do vinho, que de forma muito definida saciam a sede ou produzem o efeito desejado de tranquilidade satisfeita), que a Coca-Cola funciona como encarnação perfeita do “it”: o puro excedente de gozo em relação às satisfações usuais, o misterioso e esquivo X que todos buscamos em nosso consumo compulsivo de mercadorias.

O resultado inesperado dessa característica não é que, já que a Coca não satisfaz nenhuma necessidade concreta, nós a bebamos apenas como complemento, depois que alguma outra bebida tenha satisfeito nossa necessidade substancial – ao contrário, é precisamente esse caráter supérfluo que torna nossa sede pela Coca-Cola ainda mais insaciável: como observado de modo tão conciso por Jacques-Alain Miller, a Coca tem a propriedade paradoxal de que quanto mais você a bebe com mais sede você fica. Com aquele sabor estranho, agridoce, a sede nunca é efetivamente saciada. Portanto, tendo em vista que há alguns anos o slogan da Coca era “Coca-Cola é o que é” ['Coke is it', em inglês], é necessário observar sua completa ambiguidade. É precisamente esse caráter supérfluo que torna nossa sede pela Coca-Cola insaciável.A Coca “é o que é” precisamente na medida em que nunca realmente é, precisamente na medida em que cada satisfação abre uma brecha para um “quero mais!

O paradoxo, portanto, reside em que a Coca não é uma mercadoria comum, cujo valor de uso é transubstanciado na expressão de uma aura de puro Valor (de troca); trata-se de uma mercadoria cujo peculiar valor de uso já é ele mesmo a incorporação direta da aura suprasensível de inefável excedente espiritual: uma mercadoria cujas propriedades materiais correspondem por si mesmas àquelas de uma mercadoria.

Esse processo chega à sua conclusão no caso da Coca-Cola Diet sem cafeína. Por quê? Bebemos Coca-Cola – ou qualquer bebida – por duas razões: pelo seu valor nutricional ou poder de matar a sede, e pelo seu sabor. No caso da Coca Diet sem cafeína, o valor nutricional é anulado e a cafeína, ingrediente-chave do seu sabor, é também levada embora. Tudo que resta é um completo simulacro, a promessa artificial de uma substância que nunca se materializa.

Aquilo a que estou me referindo implicitamente é, naturalmente, a clássica distinção de Nietzsche entre “querer nada” (no sentido de ausência de desejo) e a instância niilista de ativamente querer o Nada para si; seguindo a trilha de Nietzsche, Lacan enfatizou que na anorexia o paciente não quer simplesmente “comer nada” – ao contrário, ele ou ela querem ativamente comer o Nada (o Vazio) que representa ele mesmo o objeto-causa último do desejo. Semelhantemente, no caso da Coca Diet sem cocaína nós bebemos o próprio Nada, o puro simulacro de uma propriedade que é na realidade mera embalagem de um vazio.

Esse exemplo esclarece a ligação entre três noções: a da mais-valia marxista, a noção lacaniana do objet petit a1 em sua qualidade de “excedente de prazer” (mais-gozar, o conceito que Lacan elaborou com referência direta à mais-valia de Marx) e o paradoxo do superego, percebido há tanto tempo por Freud: quanto mais Coca você bebe, com mais sede você fica; quanto mais lucro você tem, mais lucro você quer; quanto mais você obedece o imperativo do superego, mais culpado você se sente. Nos três casos, a lógica da troca equilibrada é interrompida em favor de uma lógica excessiva em que “quanto mais você dá (quanto mais você paga suas dívidas), mais você fica devendo” (ou “quanto mais você tem aquilo que deseja, maior a sua carência”; ou – a versão consumista – “quanto mais você compra, mais tem para gastar”); ou seja, o paradoxo que é o oposto exato do paradoxo do amor, pelo qual Julieta exprimiu em palavras imortais a Romeu: “quanto mais dou, mais tenho”.

Slavok Žižek, em The Fragile Absolute (2000)

NOTAS
  1. O objeto inalcançável de desejo da teoria lacaniana. []
03 de Março de 2010

O capitalismo como fascismo

Goiabas Roubadas

Onde, capitalismo?

Em 1776 Adam Smith deu a luz à moderna ciência da economia ao predizer que a liberação do mercado de todas as formas de controle estatal nos conduziria ao melhor dos mundos possíveis. Em 1848 Karl Marx desafiou Smith e predisse que o capitalismo seria destronado pela ascensão inexorável do socialismo. Desde então têm surgido infindas profecias competindo entre si para determinar em que direção o capitalismo está conduzindo a nossa vida. No entanto, da perspectiva privilegiada do início do século XXI, podemos ver que o que tem surgido é a predominância global da economia neoclássica ou liberalismo econômico. De que forma devemos, portanto, interpretar as diversas predições feitas a respeito do capitalismo?

Para começar deve ficar claro que o capitalismo não gerou a utopia predita por Smith. Ao invés disso, vivemos numa época em que a desigualdade, a fome e a opressão econômica afetam mais gente ao redor do globo do que em qualquer outro período. Consequentemente é necessário enfatizar que a visão de Smith era, de fato, É um erro tentar redimir ou corrigir o capitalismo.utópica (no pior sentido da palavra). A visão de Smith prometia aquilo que não podia ser atingido pelos meios que oferecia.

Em segundo lugar, o triunfo do liberalismo econômico deixou claro que o capitalismo não conduz ao socialismo, como fora previsto pelos marxistas tradicionais e por outros. Na verdade, o que vimos ocorrendo foi o exato oposto disso: a maior parte das nações socialistas se converteu ao capitalismo, e mesmo países nominalmente comunistas, como a China, adotam aquilo que é, no fundo, uma forma neoclássica de economia. Porque as coisas aconteceram dessa forma? Há inúmeras razões para o fracasso do socialismo (e a menor delas não será o maior poderio militar das nações capitalistas, que foram capazes de destruir muitos governos socialistas em seus primeiros estágios), mas a principal é que o socialismo estava associado em demasia ao próprio capitalismo. Slavoj Žižek argumenta da seguinte forma:

O comunismo marxista, a noção de uma sociedade de produtividade pura à parte da estrutura do capital, era uma fantasia inerente ao próprio capitalismo. O socialismo fracassou porque era em última instância uma subespécie do capitalismo, uma tentativa ideológica de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, de escapar do cerco do capitalismo retendo ao mesmo tempo seus ingredientes chave.

O socialismo representa um utopismo fracassado precisamente porque dá simplesmente prosseguimento ao utopismo do capitalismo (isto é, em vez de argumentar que o capitalismo conduz diretamente à utopia, argumenta que o capitalismo conduz indiretamente, através do capitalismo, à utopia).

Em terceiro lugar, outros que preveram que o capitalismo levaria à anarquia mostraram-se também enganados. Sem dúvida o capitalismo ocasionou a ruptura e fragmentação da maior parte dos corpos sociais, mas o resultado não foi o caos. Ao contrário, o que vemos no liberalismo econômico é o nascimento de enormes oligarquias que detém poder cada vez maior sobre um público fragmentado.

Quem então predisse corretamente a destinação do capitalismo em sua forma liberal? Surpreendemente, foram os marxistas que rejeitaram o elemento fatalista do marxismo aqueles a prever onde nos levaria o capitalismo. Foi gente como Bukharin, Lenin e Trotsky que previu com acerto que o capitalismo, deixado aos seus próprios recursos, se transformaria numa forma fascista de imperialismo. Falando claramente: a conquista global consumada pelo liberalismo econômico, com sua ênfase na privatização, na desregulamentação e em cortes nos gastos sociais, representa o triunfo global do capitalismo-como-fascismo.

É importante definir o que quero dizer aqui com “fascismo”. Tradicionalmente o fascismo é entendido como a subordinação de indivíduos, bem como de todas as entidades corporativas, ao Estado. O que ocorreu dentro do liberalismo econômico, no entanto, foi a subordinação de indivíduos e de todas as entidades corporativas, incluindo o Estado, aos poderes econômicos reinantes – as oligarquias, as multinacionais e aqueles que as servem (como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional). Com essa distinção em mente, os demais elementos característicos do fascismo tradicional mantém-se inalterados na experiência contemporânea do capitalismo-como-fascismo: [1] ele ataca todas as formas de coletividade e todos os corpos públicos; [2] define-se, portanto, pela sua compulsão pela conquista; [3] favorece os interesses de uns poucos em detrimento dos interesses de muitos; e [4] leva os muitos a enxergarem favoravelmente a sua própria repressão. A demonstração definitiva deste mecanismo está nos exemplos específicos dos diversos países em que o liberalismo econômico tem sido introduzido e aplicado.

Além disso é importante entender que o liberalismo econômico não existe como uma perversão do “verdadeiro capitalismo”; a economia neoclássica se desenvolve naturalmente da própria raiz do pensamento capitalista. Consequentemente a pergunta não é “o que deu errado com o capitalismo?”, porque ele está errado desde o princípio. Como diz George Weissman: “o germe do fascismo é endêmico ao capitalismo”.

É um erro, portanto, tentar redimir ou corrigir o capitalismo. A tentativa de voltar-se à forma de capitalismo anterior ao liberalismo econômico pode ser comparada ao esforço de escapar da Alemanha de 1945 para a Alemanha de 1934: uma contém a raiz da outra, o que torna o trajeto, além de impossível, inútil.

Aqui cabem muito bem as palavras de Simone de Beauvoir: “Protestar contra ‘excessos’ ou ‘abusos’ em nome da moralidade é um erro que denuncia uma cumplicidade ativa. Não há aqui ‘excessos’ ou ‘abusos’, só um sistema que tudo permeia”. Consequentemente, o desafio para o cristão não é abraçar um “capitalismo mais humano” ou um “capitalismo responsável”. O desafio é trocar o capitalismo por um sistema totalmente diferente.

O insano e lúcido Dan (Daniel Oudshoorn)
Poser or Prophet

13 de Fevereiro de 2010

Capitalismo de desastre

Pense comigo

Logo depois da passagem do furacão que esmagou New Orleans, o guru capitalista Milton Friedman (falecido em novembro de 2006), sugeriu que havia ali a oportunidade de eliminar-se o sistema de escolas públicas da cidade, substituindo-o por escolas privadas construídas com subsídio do governo. Sua sugestão foi abraçada por empreendores e colocada em prática com recursos que teriam de outro modo sido aplicados no auxílio direto às vítimas. Enquanto o trabalho de reparo dos diques andava a passo lento, o sistema (agora privado) de educação da cidade era concluído em tempo recorde. Antes do Katrina havia 123 escolas públicas em New Orleans; hoje em dia há quatro.

Naomi Klein:

Por mais de três décadas [Milton] Friedman e seus poderosos seguidores têm aperfeiçoado esta mesma estratégia: aguardam uma crise de grandes proporções, depois vendem porções do estado à iniciativa privada enquanto os cidadãos estão ainda recuperando-se do choque, tornando rapidamente essas “reformas” permanentes.

Em um de seus artigos mais influentes Friedman articulou o cerne tático da panacéia capitalista contemporânea, aquilo que passei a entender como doutrina de choque. Ele observou que “somente uma crise – real ou percebida – produz verdadeira mudança. Quando essa crise ocorrer, as ações a serem tomadas dependem das idéias que estiverem circulando naquele momento. Essa, creio, é nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantendo-as vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”. Friedman estava convencido de que quando uma crise ocorria era crucial agir com rapidez e impor mudanças velozes e irreversíveis antes que a sociedade devastada pela crise resvalasse novamente na “tirania do status quo”. Ele estimava que “uma nova administração tem de seis a nove meses para implantar mudanças de grande monta; se não age de forma decisiva nesse período, não chegará a ter outra oportunidade”. Variação do conselho de Maquiavel de que danos devem ser infligidos “todos de uma vez”, essa provou ser uma das mais duradouras de Friedman.

Chamo esses ataques orquestrados contra a esfera pública no rastro de eventos catastróficos, combinados ao tratamento de desastres como estimulantes oportunidades de mercado, de “capitalismo de desastre”: disaster capitalism1.

Não falta quem observe que uma versão de espetaculares proporções da aplicação desta doutrina está ocorrendo neste preciso momento no Haiti.

NOTAS
  1. Naomi Klein, The Shock Doctrine, Metropolitan Books, 2007 []
06 de Fevereiro de 2010

Carta a um homem que pede que eu o ensine como orar

Fé e Crença

Caro Z.,

Obrigado pela sua mensagem, pelo carinho e pelos comentários sobre o livro.

Nem de perto imagino as dificuldades da sua presente situação, mas o fato é que não tenho respostas definitivas a oferecer aos seus questionamentos – e, mais importante, você não deveria acreditar em mim se eu afirmasse que tivesse.

Você pergunta como e por que uma pessoa sem religião – “sem um ato espiritual, que pisou uma igreja somente em seu batismo e não tem o hábito de orar” – pode prosperar. O que posso dizer é que variações deste questionamento aparecem constantemente ao longo do Antigo Testamento (por exemplo, no salmo 73).

O que o Novo Testamento faz, como em todos os assuntos, é reverter a pergunta: porque uma pessoa sem Deus não deveria prosperar? Deus derrama o seu sol e faz chover sobre justos e injustos. Melhor ainda: porque uma pessoa com Deus deveria prosperar? Na verdade, há inequívocas indicações no Novo Testamento de que seguir Jesus é seguir o seu caminho de renúncia, sofrimento, anulação e desintegração. A teologia da prosperidade não encontra qualquer brecha nesta boa nova.Cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. O que está dito aqui é “quem quiser me seguir negue-se a si mesmo tome a sua cruz” e “basta a cada dia o seu mal”. Ou ainda, minha expressão favorita, encontrada em Atos 14:22: “por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus”.

Será então verdade que o cristianismo é um movimento essencialmente pessimista? Sim e não. O que os seus primeiros proponentes deixam claro é que quem quiser seguir Jesus (e ele mesmo deixou claro que ninguém é obrigado!) deve estar disposto a deixar tudo para trás a fim de assumir um novo caminho. A estranhíssima vocação de um seguidor de Jesus é encontrar a paz mitigando o sofrimento dos outros, e não o seu próprio.

Para Jesus e os demais autores do NT, o problema do mundo dos homens é que ele é totalmente implacável; precisamente como animais, as pessoas só buscam solução para os seus próprios apetites, deixando pouco ou nenhum espaço para misericórdia, para a inclusividade e para o respeito interpessoal. É justamente porque o mundo é implacável que você foi demitido e ainda não encontrou espaço para voltar ao mercado. Na grelha do capitalismo, cair para o fogo aos 56 anos de idade é considerado trajeto sem volta.

A boa nova, como apresentada por Jesus, é que o reino de Deus foi inaugurado, e nesta nova realidade todos devem trabalhar de forma voluntária e consistente para que o mundo se torne menos implacável. Neste reino todos devem dar um passo além da carne (ou seja, dar um passo além das limitações da natureza humana), e aprender a imitar a Deus em sua inclusividade e generosidade. Arrepender-se é mudar o mundo.

Basta olhar ao redor para ver que este é um processo que está longe de estar sendo implantado satisfatoriamente. Mais do que isso, Jesus deixou suficientemente claro que a boa nova é de tal natureza que não devemos esperar ser nós mesmos beneficiados por ela; o que cada um pode esperar é meramente fazer sua parte para que o mundo se mostre menos implacável e injusto para os outros. O mundo dos afetados pelas nossas omissões é o único que podemos mudar.

Desde o tempo de Jó uma importante linha de pensamento dentro da Bíblia defende a idéia de que as coisas não acontecem neste mundo a partir de uma lógica de retribuição. Neste mundo não é que os bonzinhos e esforçados são premiados e os malvados punidos e confundidos. Como deixa claro o próprio livro de Jó, o mistério é mais profundo e não há respostas fáceis para o problema do sofrimento.

O escândalo do Novo Testamento está em sugerir que não apenas a religião não é necessária para sermos beneficiados pela graça divina, mas que cabe aos homens, e não a Deus, corrigir as injustiças deste mundo. Isso se faz quando nos arrependemos – isto é, quando passamos a imitar Deus em sua disponibilidade assombrosa de dar e dar-se.

Na lógica exigente da boa nova é por minha culpa que você está desempregado, e amenizar as durezas da sua condição é de minha única responsabilidade. Não posso pedir que Deus faça isso, e não posso esperar que outra pessoa o faça.

Numa palavra, não posso ensinar você a orar, mas posso oferecer um abraço, um beijo e um lugar à mesa. Mande seu telefone que quero ligar pra gente conversar.

Abração

PB

01 de Janeiro de 2010

Avatar nenhum

Sociedade

Se você ainda não assistiu Avatar, o primeiro filme do diretor James Cameron depois de Titanic, provavelmente não vai querer ler esta nota.

 

O protagonista de Avatar ousou adentrar e abraçar um novo mundo; ousou dar um passo além da carne e do sangue e adotar como seus um povo outro e uma outra cultura. Avatar, o filme, apesar da pirotecnia das paisagens impossíveis, da invenção de idiomas e espécies e do descortinar de imensos abismos em 3D, ousou muito menos.

Trata-se, para começar, de um filme com uma mensagem, o que – anote o que estou dizendo – nunca é bom sinal. Na maior parte do tempo o ruído dessa intenção evangelística passa despercebido diante de ofertas mais imediatas e interessantes, mas na meia hora final, quando o diretor/autor se mostra inteiramente incapaz de amarrar a sua mensagem sem maculá-la com contradições, o castelo desmorona por completo. E em 3D.

Apesar do apelo de aventura, apesar de ser a história de um mocinho que contorna perigos e subjuga espécies exóticas, Avatar se considera um filme muito sério, e seu grande conflito fundamental desenrola-se entre capitalistas e populações nativas. De um lado está um modo de vida predatório e desumanizante, de outro uma vida natural e sustentável; de um lado estão burocratas e corporações, de outro xamãs e pés descalços; de um lado exércitos, do outro crianças.

Nada tenho contra esse conflito, que, entre outras coisas e infelizmente, é baseado em fatos reais. Apenas não devemos absolutamente acreditar quando Avatar dá entender que pode ter encontrado para ele um desfecho satisfatório.

Há, por exemplo, o tremendo desconforto de ver o grande herói branco transformando-se em deus cavalgador de dragões e salvador de civilizações devido à sua mera capacidade de, em poucos meses, aprender a manejar seu avatar melhor do que os nativos adultos de Pandora aprenderam a manejar seus próprios corpos desde que nasceram. É a sobrevivência no nosso tempo da terrível sombra do Mighty White, o grande salvador branco das narrativas colonialistas e imperialistas, cujos avatares são Tarzan e Jim das Selvas e Daktari e George, o rei da floresta.

Depois há o constrangimento de ver trazido seriamente à tona, e em pleno terceiro milênio, o mais desgastado e incompetente dos encantamentos naturebas, “não agrida a natureza ou ela irá voltar-se contra você”. A fórmula inspirou bons filmes de terror entre as décadas de 1950 e 1970 (“cuidado ao fazer testes nucleares no deserto ou derramar produtos químicos no pântano mais próximo, do contrário os <-inserir aqui qualquer espécie animal arbitrária-> gigantes irão invadir a sua cidade”), mas a nossa própria era, que enfrenta dilemas maiores e mais urgentes, requer solução menos infantilizante.

Porque Avatar pretende que o conflito em Pandora seja uma metáfora apta para os conflitos ambientais da nossa própria terra e do nosso própria tempo, e o que sabemos da nossa experiência é que não, a natureza não irá voltar-se contra você não importa o que você faça – pelo menos não a tempo, não de uma forma que o faça reconsiderar sua intenção de destruir e descaracterizar. Não importa o júbilo incandescente que promovam as vitórias de Avatar (e de filmes semelhantes), os rinocerontes não irão atacar as lojas do Wallmart e as baleias não vão derrubar as plataformas de petróleo. O mais perto que a natureza chegará de revidar será atendendo nosso pedido de um futuro isento de complicações como rinocerontes e baleias, mas então será tarde demais, e esta é a única moral da história e também sua contradição. Em termos ambientais, só se aprende a noção de sustentabilidade quando é cedo demais, na dura bem-aventurança das populações nativas, ou tarde demais, entre nós que já consumimos o planeta e vendemos o futuro.

Na verdade, as populações nativas acompanham invariavelmente a natureza em sua intransigente sujeição à destruição. Não devemos acreditar em mitos tardios de bons selvagens, mas é preciso reconhecer que uma coisa índios e culturas nativas têm em comum com a natureza: seu cavalheirismo de submeter-se ao apagamento sem luta. Entregam-se invariavelmente com docilidade, como quem cede a um abraço, ao toque que irá cancelá-los da realidade.

Esta é a contradição e a falha final de Avatar, o fato de que no filme a solução que os nativos destilam para vencer a violência dos exércitos financiados pelas corporações é engendrar sua própria estirpe de violência. Avatar não conhece outra solução para a guerra que não seja a guerra, e esta é uma tremenda derrota para narrativa tão bem-intencionada. O que acontece em Avatar é um caso homérico da rivalidade mimética denunciada por René Girard: a fim de vencer o inimigo sem alma os nativos imitam-no em tudo, deixando para trás até mesmo sua característica mais essencial e mais celebrada, seu respeito à vida, na ânsia de empreender justiça e salvar algum terreno. Desnecessário lembrar que na vida real, como provavelmente no universo do filme, as corporações estarão inteiramente prontas para revidar qualquer iniciativa violenta dos nativos, e quando voltarem estarão armados da justificativa inteiramente à prova de balas da vingança. Avatar é nisso indistinguível de Tropa de Elite.

Na vida real os frágeis não fazem guerra e ninguém fala em nome da natureza. Tudo que o meio-ambiente faz diante da violência (e entenda-se meio-ambiente como paisagens, espécies, tradições e culturas) é recolher-se e calar. Sua violência é apagar-se, e só o futuro será capaz de revelar por completo, pelo clamor impensável da ausência, a extensão desse horror.

E não importa o que sugira a ficção, não teremos outro planeta belíssimo para destruir. Não terás avatar nenhum.

* * *

Brabo das selvas e a mais severa das advertências

Brabo das selvas e a mais severa das advertências