16 de Janeiro de 2012

Se ele era inocente

Goiabas Roubadas

Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.

Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.

Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.

Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.

Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

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12 de Janeiro de 2012

A violência do global

Goiabas Roubadas

O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal.

A analogia entre os termos “global” e “universal” é enganosa. Universalização tem a ver com direitos humanos, liberdade, cultura e democracia. Globalização, ao contrário, tem a ver com tecnologia, com mercado, turismo e informação. A globalização é aparentemente irreversível, enquanto a universalização está provavelmente com os dias contados. Ela parece, no mínimo, estar perdendo terreno como sistema de valores desenvolvido no contexto da modernidade ocidental e sem paralelo em qualquer outra cultura. Toda cultura que se torna universal perde a sua singularidade e morre. Foi o que aconteceu com todas as culturas que destruímos no processo de assimilá-las. Porém isso é também verdade para a nossa própria cultura, a despeito de sua alegação de ser universalmente válida. A única diferença é que as outras culturas morreram por causa da sua singularidade, o que é uma morte bonita. A nossa está morrendo porque estamos perdendo nossa singularidade e exterminando nossos valores – e essa é uma morte muito feia.

Cremos que o propósito ideal de qualquer valor é tornar-se universal, mas não avaliamos de fato o risco mortal que tal objetivo representa. Longe de ser uma empreitada edificante, trata-se na verdade de uma trajetória descendente na direção de um nível zero para tudo que tem valor. No Iluminismo a universalização era vista como crescimento ilimitado e propulsão ao progresso . Hoje, em contraste, a universalização existe por padrão é expressa como uma pisada sem rumo no acelerador, em que se busca apenas alcançar o mais ínfimo valor comum. É precisamente esse o destino dos direitos humanos, da democracia e da liberdade nos nossos dias. Sua expansão é na verdade sua expressão mais fraca.

A universalização está desaparecendo por causa da globalização. A globalização do comércio coloca um fim na universalização dos valores, e isso marca o triunfo de um pensamento uniforme sobre um pensamento universal. O que é globalizado é acima de tudo o mercado, a profusão de transações e de toda a sorte de produtos, o fluir perpétuo do dinheiro. Culturalmente, a globalização dá lugar a uma promiscuidade de símbolos e de valores, de modo a formar o que é na verdade uma pornografia. De fato, o alastramento global de tudo e de nada através de redes é pornográfico. A obscenidade sexual deixou de ser necessária; tudo que se tem agora é uma cópula global interativa. E, como resultado disso, não existe mais qualquer diferença entre o global e o universal. O universal tornou-se globalizado, e os direitos humanos circulam exatamente da mesma forma que qualquer outro produto global (por exemplo, petróleo ou capital).

A passagem do universal para o global ocasionou não apenas a uma constante homogeneização, mas também a uma infinita fragmentação. Deslocamento, não localização, tomou o lugar da centralização. Excentrismo, não descentralização, substituiu a concentração. Similarmente, discriminação e exclusão não são meras consequências acidentais da globalização, são os resultados lógicos da própria globalização. De fato, a presença da globalização pode nos levar a refletir se a universalização já não foi destruída por sua própria massa crítica. Pode também levar-nos a refletir se universalidade e modernidade existiram de fato fora de alguns discursos oficiais e de certos sentimentos morais populares. Para nós, hoje, o espelho da universalização está partido. Isso, no entanto, pode mostrar-se uma oportunidade: nos fragmentos desse espelho partido todas as sortes de singularidade reaparecem: as singularidades que julgávamos estar em risco sobrevivem, e as que julgávamos perdidas são revividas.

À medida em que os valores universais perdem sua autoridade e legitimidade, as coisas se tornam mais radicais. Quando crenças universais foram introduzidas como os únicos valores possíveis de mediação cultural, era muito fácil para essas crenças incorporar singularidades como modos de diferenciação numa cultura universal que alegava encorajar a diferença. Mas isso elas não são mais capazes de fazer, porque a globalização erradicou todas as formas de diferenciação e todos os valores universais que costumavam advogar a diferença. Ao fazê-lo, a globalização deu origem a cultura que é perfeitamente indiferente. No momento em que o universal desapareceu, uma tecnoestrutura global onipotente ficou sozinha para dominar. Mas essa tecnoestrutura está tendo agora de confrontar novas singularidades que, sem a presença da universalização para incubá-las, conseguem expandir-se de modo livre e devastador.

A universalização teve sua chance dada pela história. Porém hoje em dia, confrontada com uma ordem global por um lado sem qualquer alternativa e por outro avançando à deriva com singularidades de insurreição, os conceitos de liberdade, democracia e direitos humanos estão com um aspecto deplorável. Permanecem como os fantasmas da universalização passada.

A universalização costumava promover uma cultura caracterizada pelos conceitos de transcendência, subjetividade, conceitualização, realidade e representação. Em contraste, a cultura virtual global contemporânea substituiu conceitos universais por telas, redes, imanência, números e um contínuo espaço-tempo sem qualquer profundidade. No universal havia ainda espaço para uma referência natural ao mundo, ao corpo, ao passado. Havia uma espécie de tensão dialética ou movimento crítico que encontrava sua materialidade na violência histórica e revolucionária. Porém a expulsão dessa negatividade crítica abriu as portas para outra forma de violência, a violência do global. Essa nova violência é caracterizada pela supremacia da eficiência e da positividade técnicas, da organização total, da circulação integral e da equivalência de todos os intercâmbios. Além disso, a violência do global coloca um fim não só no papel social do intelectual (ideal ligado ao Iluminismo e à universalização), mas também ao papel do ativista, cuja sorte costumava estar ligada às ideias de oposição crítica e violência histórica.

Será fatal a globalização? Algumas vezes outras culturas, que não a nossa, foram capazes de escapar da fatalidade do intercâmbio indiferente. Porém hoje em dia, onde está o ponto crítico entre o universal e o global? Teremos atingido um ponto sem volta? Que vertigem impele o mundo a apagar a Ideia? E que outra vertigem é essa que, ao mesmo tempo, parece forçar as pessoas a quererem incondicionalmente concretizar a Ideia?

O universal era uma Ideia; porém, quando tornou-se concretizada no global ela desapareceu como Ideia, cometeu suicídio e desapareceu como fim em si mesma. Como a humanidade é agora sua própria imanência, tendo assumido o lugar deixado por um Deus morto, o humano tornou-se o único modo de referência e é soberano. Porém essa humanidade não mais tem qualquer finalidade. Livre dos seus antigos inimigos, a humanidade tem agora de criar inimigos de dentro, o que de fato produz uma ampla variedade de metástases inumanas.

É precisamente daqui que vem a violência do global. Ela é produto de um sistema que sai à caça de qualquer forma de negatividade e de singularidade, incluindo, é claro, a morte, em sua qualidade de forma última de singularidade. Trata-se da violência de uma sociedade em que o conflito é proibido, em que morrer não é permitido. Trata-se de uma violência que, num certo sentido, põe fim à própria violência, e luta para estabelecer um mundo em que qualquer coisa relacionada ao natural deve desaparecer (quer diga respeito ao corpo, ao sexo, ao nascimento ou à morte). Talvez, melhor do que chamá-la de violência global, fosse chamá-la de virulência global. Essa forma de violência é de fato viral. Ela se move por contágio, avança por reação em cadeia, e pouco a pouco destrói nosso sistema imunitário e nossa capacidade de resistir.

Porém o jogo ainda não terminou. A globalização não venceu por completo. Contra essa força dissolvente e homogeneizante, forças heterogêneas – não apenas diferentes, mas claramente antagônicas – estão se levantando em todo lugar. Por trás das crescentes fortes reações contra a globalização e das formas sociais e políticas de resistência ao global, encontram-se mais do que simplesmente expressões nostálgicas de negação. Encontra-se, ao contrário, um esmagador revisionismo em relação à modernidade e ao progresso, uma rejeição não apenas da tecnoestrutura global, mas também do sistema mental da globalização, que pressupõe um princípio de equivalência entre todas as culturas. Esse tipo de reação pode às vezes assumir aspectos violentos, anormais e irracionais, ou podem pelo menos ser percebidos como violentos, anormais e irracionais da perspectiva de nosso modo de pensar tradicionalmente iluminista. Essa reação pode assumir formas coletivas étnicas, religiosas e linguísticas, mas pode também assumir a forma de explosões emocionais individuais ou mesmo neuroses. Em qualquer caso, seria um erro condenar essas reações como simplesmente populistas, arcaicas ou mesmo terroristas. Tudo nos nossos dias que tem qualidade de evento está engajado contra a universalidade abstrata do global, e isso inclui a própria oposição islâmica aos valores ocidentais (é justamente por ser a contestação mais vigorosa desses valores que o Islam é considerado hoje o inimigo número um do ocidente).

Quem pode derrotar o sistema global? Certamente não o movimento antiglobalização, cujo único objetivo é retardar a retirada global do controle governamental. O impacto político desse movimento pode ser importante, mas seu impacto simbólico é inútil. Sua oposição nada mais é do que uma questão interna que o sistema dominante pode facilmente manter sob controle. Alternativas positivas não são capazes de derrotar o sistema dominante, mas singularidades que não são bem positivas nem negativas podem. Singularidades não são alternativas: elas representam uma ordem simbólica diferente. Elas não seguem julgamentos de valor ou realidades políticas. Singularidades podem representar o melhor ou o pior, não podendo ser “regularizadas” por meios de ação histórica coletiva. Elas derrotam qualquer pensamento que seja exclusivamente dominante, porém não se apresentam na forma de um contrapensamento exclusivo. Falando simplesmente, elas criam seu próprio jogo e impõem suas próprias regras. Nem todas as singularidades são violentas: algumas singularidades linguísticas, artísticas, corpóreas e culturais são bem sutis. Porém outras, como o terrorismo, podem ser violentas. A singularidade do terrorismo vinga as singularidades das culturas que pagaram com a sua extinção o preço da imposição de um poder global único.

Não estamos aqui falando de um “confronto entre civilizações”, mas de um conflito quase antropológico entre uma cultura universal indiferenciada e todo o restante que, em qualquer domínio, retenha uma qualidade irredutível de alteridade. Da perspectiva do poder global (que é tão fundamentalista em suas crenças quanto qualquer ortodoxia religiosa), qualquer modalidade de diferença ou de singularidade é heresia. Forças singulares tem como escolha juntar-se ao sistema global (por livre vontade ou pela força) ou perecer. A missão do Ocidente (ou, antes, do que era antes o Ocidente, visto que esse perdeu seus próprios valores há muito tempo) é utilizar todos os meios disponíveis para subjugar toda cultura ao princípio brutal da equivalência cultural. Uma vez que perde seus valores, o que resta a uma cultura é buscar vingança atacando os valores das demais. Para além dos objetivos econômicos e políticos, guerras como a do Afeganistão buscam ajustar a selvageria e alinhar todos os territórios. O alvo é livrar-se de qualquer zona reativa: colonizar e domesticar geograficamente e mentalmente qualquer território extravagante ou resistente.

O estabelecimento de um sistema global é o resultado de um ciúme profundo. É o ciúme que uma cultura indiferente e de baixa definição tem de culturas de alta definição; o ciúme que um sistema desiludido e deintensificado tem de ambientes de alta intensidade cultural; o ciúme que uma sociedade dessacralizada tem de formas sacrificiais. De acordo com o sistema dominante, qualquer forma de reação é virtualmente terrorista (de acordo com essa lógica, pode-se dizer que até mesmo as catástrofes naturais são formas de terrorismo. Grandes acidentes tecnológicos, como Chernobyl, são ao mesmo tempo ato terrorista e desastre natural. Outro acidente tecnológico, o vazamento de gás tóxico em Bhopal, na Índia, poderia também ter sido um ataque terrorista. Qualquer queda de avião pode também ter a responsabilidade assumida por um grupo terrorista. A característica dominante de eventos irracionais é que eles podem ser imputados a qualquer um e a qualquer dada motivação. Até certo ponto, qualquer coisa em que pensarmos pode ser criminosa, mesmo uma frente fria ou um terremoto. Isso não é novidade. No terremoto de Tóquio de 1923 milhares de coreanos foram mortos porque acreditou-se que eram responsáveis pelo desastre. Num sistema intensamente integrado como o nosso, tudo pode ter um efeito de desestabilização semelhante. Tudo caminha para o fracasso de um sistema que alega ser infalível. Do nosso ponto de vista, apanhados dentro dos controles racionais e programáticos do sistema, não somos sequer capazes de perceber que a pior catástrofe é na verdade a infalibilidade do próprio sistema).

Veja o Afeganistão. O fato de que apenas dentro desse país todas as formas de liberdades e expressões “democráticas” – de música e televisão à possibilidade de se ver o rosto de uma mulher – são proibidas, bem como a possibilidade de que esse país pudesse assumir um caminho totalmente avesso ao que chamamos de civilização (não importando quais os princípios religiosos invocados), provaram-se não aceitáveis para o mundo “livre”. A dimensão universal da modernidade não pode ser recusada. Da perspectiva do Ocidente, de seu modelo consensual e de seu modo único de pensar, é um crime não perceber a modernidade como a fonte óbvia do Bem ou como o ideal natural da humanidade. É crime também quando a universalidade de nossos valores e práticas são consideradas suspeitas por indivíduos que, no momento em que revelas as suas dúvidas, são imediatamente tachados de fanáticos.

Só uma análise que enfatize a lógica da obrigação simbólica pode decifrar esse confronto entre o global e o singular. Para se entender o ódio do resto do mundo contra o Ocidente, as perspectivas devem ser invertidas. O ódio dos povos não-ocidentais não está baseado no fato de que o Ocidente roubou tudo deles e nunca devolveu coisa alguma em troca. Ao contrário: está baseado no fato de que eles receberam tudo, mas nunca tiveram permissão para devolver coisa alguma. Esse não é o ódio causado pela exploração ou pela espoliação, mas pela humilhação. É precisamente este tipo de rancor que explica os ataques terroristas de 11 de setembro: foram ataques de humilhação em resposta a outra humilhação.

O pior que pode acontecer a um poder global não é ser atacado ou destruído, mas sofrer uma humilhação. O poder global foi humilhado no 11 de setembro porque os terroristas infligiram algo que o sistema global não tem como devolver. Represálias militares limitaram-se a uma reação física. Porém, no 11 de setembro, o poder global foi simbolicamente derrotado. A guerra é uma resposta à agressão, não a um desafio simbólico. Um desafio simbólico é aceito e removido quando o adversário é humilhado em retribuição (mas isso não tem como funcionar quando o adversário é triturado por bombas ou trancafiado em Guantanamo). A regra fundamental da obrigação simbólica estipula que a base de qualquer forma de dominação é a total ausência de qualquer contrapartida, de qualquer retorno. A dádiva unilateral é um ato de poder. E o Império do Bem, a violência do Bem, é precisamente ser capaz de dar sem qualquer possibilidade de retorno. É isso o que significa estar na posição de Deus, ou na posição do senhor que permite que o escravo viva em troca de seu trabalho (porém o trabalho não é uma contrapartida simbólica, e a única resposta que o escravo pode eventualmente dar é rebelar-se ou morrer).

Deus costumava abrir algum espaço para sacrifício. Na ordem tradicional, era sempre possível devolver-se alguma coisa a Deus, ou à natureza, ou a qualquer entidade superior através do sacrifício. Era isso que assegurava o equilíbrio simbólico entre seres e coisas. Hoje, no entanto, não temos ninguém a quem retribuir, a quem devolver o débito simbólico. Este é o curso da nossa cultura. Não é que a dádiva seja impossível, a contradádiva é que é. Todas as formas sacrificiais foram neutralizadas ou removidas (o que resta é uma paródia do sacrifício, visível em todas as instâncias contemporâneas de vitimização).

Estamos portanto na irremediável situação de ter que receber, sempre receber, não mais de Deus ou da natureza, mas por via de um mecanismo tecnológico de tráfico generalizado e gratificação comum. Tudo nos é virtualmente dado, e, quer se goste ou não, ganhamos direito sobre todas as coisas. Nossa situação é similar à do escravo cuja vida foi poupada mas permanece preso a um débito impossível de se pagar. Essa situação pode durar ainda algum tempo, sendo de fato a base da troca nesta ordem econômica. Porém chega sempre a hora em que a regra fundamental volta à superfície e um retorno negativo segue inevitavelmente como resposta a uma transferência positiva, quando vem à tona uma explosão emocional diante dessa vida de cativeiro, dessa existência protegida e dessa saturação. Essa reversão pode tomar a forma de um ato aberto de violência (como o terrorismo), mas também de entrega impotente (que é mais característica da nossa modernidade), de autodepreciação e de remorso – em outras palavras, todas aquelas paixões negativas que são formas degradadas da impossível contradádiva.

Aquilo que odiamos em nós mesmos – o obscuro objeto de nosso ressentimento – é o nosso excesso de realidade, de poder, de conforto, nossa disponibilidade universal, nossa completa realização, aquele tipo de destino que o Grande Inquisidor de Dostoiévski tinha reservado para as massas domesticadas. É precisamente essa porção da nossa cultura que os terroristas consideram repulsiva (o que também explica o apoio que recebem e a pressão que exercem). O apoio ao terrorismo não está baseado apenas no desespero dos que foram humilhados e ofendidos; está também fundamentado no desespero invisível daqueles a quem a globalização privilegiou, em nossa própria submissão a uma tecnologia onipotente, a uma esmagadora realidade virtual, a um império de redes e de programas que estão provavelmente em processo de redesenhar os contornos regressivos da espécie humana como um todo, de uma humanidade que tornou-se “global” (afinal de contas, não é a supremacia da espécie humana sobre o restante da vida na terra o reflexo da dominação do ocidente sobre o resto do mundo?). Esse desespero invisível, nosso desespero invisível, é irremediável, porque é resultado da realização de todos os nossos desejos.

Dessa forma, se o terrorismo deriva do excesso de realidade e do impossível sistema de trocas dessa realidade, se é produto de uma profusão sem qualquer contrapartida possível, e se emerge de uma resolução forçada de conflitos, a ilusão de que livrar-se dele é livrar-se de um mal objetivo está completa. Pois, em todo esse absurdo e contrassenso, o terrorismo é julgamento e penalidade da própria sociedade.

Jean Baudrillard

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09 de Janeiro de 2012

O aniquilamento da não-violência

Manuscritos


Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.
Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul

 

Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.

Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.

Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.

Oculta por trás de multiformes manifestações e múltiplos falsos destinos, o capitalismo tem uma só regra, mas é uma regra rígida: conforme-se. Não me interessa o quê, consuma. Acredite no que quiser, apenas compre. Quem não sabe comprar deve ser ensinado a aprender, e as culturas e pessoas que não estão interessadas em consumir ou em impor seu modo de vida às demais estão condenadas à execração e à morte social, cultural e econômica.

Resistir é inútil. A função da propaganda (e a propaganda ocupou cada centímetro do espaço social) é evangelizar você com a má nova de que você não é feliz, e de que não terá como ser feliz até aprender a comprar o quanto baste, isto é, sem parar. Olhe pra você. Você está longe de ter toda a autorrealização que pode comprar. Para imprimir credibilidade à sua mediocridade você deve consumir. Para se destacar você deve fazer como todos.

A questão central, que as luzes do shopping simplesmente não nos deixam enxergar, é que consumir é agredir, especialmente num mundo interligado como o nosso. Não restam pessoas pacíficas entre nós, nem uma sequer. Não há gente não-violenta, porque todos consumimos.

Há inúmeros sentidos em que, dentro de um capitalismo global, consumir é agredir. Talvez baste citar dois.

Primeiro há a questão dos recursos naturais, e mesmo aqueles dentre nós que creem que o espírito empreendedor não tem limites deveriam poder entender que os recursos têm. Se 20% da população da Terra consomem 80% dos recursos disponibilizados pelo planeta, resulta em primeiro lugar que os bem-sucedidos dentre nós são os que desfrutam muito desautorizadamente do que não é seu. Não importa o que você acredite, o seu MBA não o qualifica a usar o recurso planetário que pertence tanto a você quanto ao seu irmão de um dos sertões do mundo. Na marca dos 7 bilhões de condôminos, a Terra é um cortiço que está ficando pequeno, e nesse condomínio uma minoria dilapida segundo os seus (os nossos) próprios caprichos um patrimônio que é comum, e despeja ao mesmo tempo o seu (o nosso) lixo sobre a cabeça de uma minoria que absolutamente não é responsável por ele.

Além disso, a presente taxa de utilização dos recursos naturais representa não apenas um ultraje para o presente, para gente que está viva agora, mas uma ameaça para o futuro – uma ameaça para os que nascem hoje e terão de encontrar espaço de vida e de dignidade amanhã. Não há como não concordar com os que alertam que é tarde demais para ser pessimista: “sustentável” é menos uma diretiva do que um sonho. Sustentável é o que o futuro seria na melhor das hipóteses, se o nosso presente também fosse. Consumir é agredir porque é de fato consumir, fazer desaparecer – é queimar um mundo que não nos pertence, e como se não houvesse amanhã.

Em segundo lugar, consumir é agredir porque, num espaço de produção globalizado, você não é obrigado a testemunhar as injustiças que patrocinam os seus hábitos de consumo. O capitalismo não apenas alienou o trabalhador do fruto do seu trabalho, conforme diagnosticado por Marx, mas separou também o consumidor da realidade do valor e da produção. Amigo, nada neste mundo custa 1,99. Tudo neste planeta é muito valioso. Tudo é caríssimo, em especial as horas-gente e as horas-futuro, que são horas-vida. Acredite, a máquina fotográfica que você tem no bolso é uma milagre e o seria em qualquer tempo e qualquer universo; se você paga por ela coisa de 30 almoços é porque alguém está pagando o restante do valor – e via de regra é o chinês apertado numa fábrica, com as mesmas condições de conforto e o mesmo espaço para se esticar que o frango industrial de que você comprou ontem o filé. E os operários em todo o mundo se sujeitam a esse tipo de indignidade apenas porque vendemos a eles, constantemente e com toda a eficiência, o sonho de aprenderem a comprar com a mesma eficácia que nós mesmos. E quem não gostaria de estar no nosso lugar? Todos os que consumimos, de iPads a goiabinhas Piraquê, somos senhores de escravos.

Desse modo não é difícil entender, com Jean Baudrillard, porque discriminação e exclusão são consequências diretas e imediatas da globalização. O capitalismo tecnológico quer impor sobre as culturas e sobre os indivíduos uma solução de vida sem verdadeira alternativa; todos os que não se submetem ou não desejam esse modo de vida estão por definição discriminados e excluídos. E mesmo os que se sujeitam a desejar a solução indiferenciada tem de submeter-se ainda à pedra de moer da eterna insatisfação: a máquina capitalista só funciona enquanto e porque todos nos sentimos pelo menos um pouco discriminados e excluídos, e entendemos que o consumo do produto almejado nos curará dessa inadequação. Gente satisfeita com o que tem (ou com o que não tem) representa a morte do capitalismo; não é à toa que o capitalismo esteja tão bem de saúde.

Não foi à toa que Gandhi entendeu depressa que para abraçar adequadamente o ideal da não-agressão não bastava baixar as armas e oferecer a outra face: era preciso afastar-se deliberadamente das cadeias do consumo e adotar um modo de vida ao mesmo tempo responsável e sustentável. Ele intuiu que a verdadeira não-violência, no seu sentido mais radical da coisa, requer consumir o que se planta, vestir o que se fia, assumir a responsabilidade pelo próprio lixo, abrir mão das ilusões do consumo, abandonar as armadilhas da novidade e ignorar a ficção útil da propriedade privada1. E o capitalismo está construído de modo a que você permaneça convencido de que não tem liberdade para fazer qualquer uma dessas coisas.

A perfeição do mecanismo está em que somos nós mesmos nossos catequizadores. Nosso modo de vida insiste, na verdade ele comprova, que não existe uma alternativa ao moinho do consumo. Você não é livre e jamais será, mas não vai sentir falta da liberdade enquanto estiver com um cartão de crédito ou sonhando com um.

Como resultado, a violência foi efetivamente institucionalizada, tendo se tornado o combustível até mesmo dos mais inocentes. A liberdade que temos, quando temos, é a de escolher, a cada momento, a agressão menor – e mesmo essa frágil decisão está se tornando cada vez mais difícil e improvável. As cadeias são cada vez mais eficazes e os encadeamentos cada vez mais complexos. Quem pode nos ensinar a viver de outra forma? Somos paupérrimos, só sabemos comprar para viver. O ciclo de agressão da produtividade e do consumo está entranhado em tudo que fazemos, tudo que desejamos, tudo que sonhamos. Os mais carolas, amantes de paz e inofensivos dentre nós patrocinam a agressão aberta e foram para sempre maculados por ela. Somos todos cúmplices e vítimas da mesma violência capital.

A tragédia está em que o amor não foi capaz de nos unir, mas a complacência universal com a injustiça nos tornou irmãos. Somos a máfia, e na máfia todos se cuidam, para que a máfia não tenha como mudar. Da máfia ninguém sai.

NOTAS
  1. Uma aspiração e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evangélico do neomonasticismo. []
20 de Dezembro de 2011

A dura coreografia de um dia como os outros

Manuscritos

É com toda a relutância (e por certo para grande prejuízo da imagem de sofisticação que penso às vezes a transmitir), que devo confessar que sim, curto o Natal – não só o Natal de Jesus, mas também aquele das tradições, das canções, das luzinhas, das diferentes culturas e da conturbada história do ocidente (não tenho como aprovar, claro, o chão comercialismo da coisa toda, mas o Natal está longe de ser a única coisa bonita arruinada pelo capitalismo, ou a mais importante). Curto o Natal talvez mais do que o cidadão comum, e certamente muito mais do que deixaram entrever a severidade e o estudado cinismo das vezes em que me manifestei aqui sobre o assunto; se me contive foi para tentar evitar parecer ainda mais brega do que já demonstrei ser.

Mas entendo também, e queria apenas dizer isso, que muito do que o Natal tem de belo faz com que tenha também algo de forçado, de artificial e – por vezes – de terrível. O maior problema do Natal (e falo da festa, que é o que existe) não é que ninguém se lembra de Jesus, ou que devesse lembrar, ou que tentemos fazer com que a beleza da festa persista sem a necessária memória da sua origem. Essas, creia-me, são tecnicalidades. O problema é que, justamente porque não há quem não entenda que esta deveria ser uma festa de alegria e de luz e de boa vontade, o Natal acaba exigindo de todos uma coreografia que a realidade nem sempre se mostra elástica o bastante para fornecer. A inadequação dos nossos esforços e do próprio resultado acaba com frequência transformando o que deveria ser belo e tranquilo em peso e horror – numa vida que já os tem tantos.

Inconscientemente todos sacamos que o Natal, para que seja perfeito (e quem não sonhou com um Natal perfeito?) requer ajustes por vezes muito severos na crueza da realidade. E não falo de encontrar o presente certo para a Mabel, esposa do Renan, que você tirou no amigo secreto, mas de coreografar a vida de modo a que tudo esteja bem, tudo esteja aceitável, todos estejam falando com todos, ninguém se sinta esquecido, ninguém se sinta ofendido, ninguém beba demais, ninguém levante aquele assunto constrangedor, aquele tio não comece a contar aquelas piadas.

Em especial, sentimo-nos obrigados a coreografar a vida de modo a que nós mesmos estejamos bem – afinal de contas, ninguém quer ter de representar o constrangimento de estar triste na noite de Natal. Bêbados tudo bem, emputecidos sim, cínicos na maior parte das vezes, mas estar triste numa noite de luz é uma gafe que preferiríamos não ter de associar a nós mesmos. O próprio peso positivo da festa nos constrange a coreografar a vida de modo a que estejamos de bem com a vida naquela data, porque naquele dia nada pode dar errado, porque na festa do ano nada pode estar sujeito a contingências: o presente certo deve estar aguardando o destino seguro no banco de trás de cada um, as provisões tem de estar aguardando enfileiradas na cozinha, as roupas passadas e o cabelo penteado, o peru no forno, o zíper fechado e o sorriso no rosto.

O problema, claro, é que a vida não é um comercial de tender, e não há como coreografar as contingências para fora da vida. Não há como manufaturar em um dia a perfeição que nunca houve o ano inteiro, e que jamais haverá. Há o filho distante, há a doença do amigo, há nossa tendência à vanglória, há a desilusão, a morte, a rejeição, a fome, a desigualdade, a guerra de longe e de perto e há as inadequações de todos e de cada um ao nosso redor, muito facilmente refletidas e amplificadas pelas nossas. Tudo que resta, frequentemente, é a distância entre a realidade e as nossas boas intenções, entre o que a festa foi e o que deveria ser.

O Natal é o grande peso da cristandade: a falsa culpa e a frustração patrocinadas com as melhores das intenções.

E trata-se do peso peculiar a todas as instituições, que tentam por natureza aprisionar numa formalidade e adequar a uma casca uma beleza que não se deixa absolutamente aprisionar.

O paradoxal (porque tudo é paradoxal) é que a ocasião original do nascimento de Jesus é história definida apenas por contingências, existindo por inteiro debaixo do signo do inesperado e do imperfeito. É a história de gente conseguindo reconstruir suas expectativas de modo a encontrar beleza no que poderia ser facilmente considerado terrível: uma gravidez não esperada, uma desilusão amorosa, uma viagem cansativa, uma cidade lotada e um nascimento sem um mínimo de dignidade.

Deixo esta canção de Natal: Deus conosco é o Deus teimoso do não-coreografado. O Natal é dança que só se oferece a pés despreparados que acontecem de ouvir nas estrelas os anjos cantando.

Então, pelo amor de Deus, abra mão da coreografia que estou tentando apenas viver eu mesmo, aqui do meu lado. Se Jesus não nascer num dia qualquer não é na noite dos milagres que ele vai querer dar as caras.

19 de Dezembro de 2011

O caminho da natureza e o caminho da graça

Filmes

A propósito, se não tenho coragem de recomendar descaradamente o filme Árvore da vida, de Terrence Malick, é porque às vezes tenho vergonha de quanto descaradamente cristão o filme é, e queria poder evitar esse proselitismo. Mas não se iluda: trata-se de uma obra imensa, luminosa e generosa, ao mesmo tempo ambiciosíssima e tremendamente singela. Árvore da vida é um filme do Espírito e um filme de Jesus em todos os sentidos, inclusive no que a coisa pode ter de mais constrangedor, a sensação sempre iminente de que talvez se esteja assistindo a uma peça de Natal com ambições cósmicas. Porém é um grande filme e um filme cristão, e não creio que as duas coisas já tenham coexistido neste universo. Fiquei por meses ponderando se tinha assistido ao primeiro filme da minha vida ou ao último.

E o glorioso é que a melhor resenha do filme que cheguei a ler é de um homem que não se dá ao trabalho de acreditar em Deus, Tim Brayton, que lê do seguinte modo a contraposição entre o caminho da natureza e o caminho da graça (ou, para usar a linguagem bíblica, entre carne e espírito):

O que me deixou um pouco perplexo, na primeira vez em que vi o filme, foi pensar que se a obra cinemática de Malick pode ser resumida a um único tema, seria a inseparabilidade entre o caminho da natureza e o caminho da graça, não seria? “Natureza”, no entanto, não se refere aqui ao mundo natural, mas à natureza humana. A mulher prossegue sem intervalo a explicar suas palavras, esclarecendo que os que seguem o caminho da natureza são levados a fechar-se para a bondade e para luz; forçam a si mesmos e aos outros a seguir uma espiral desordenada de provarem-se incessantemente os mais fortes, os mais capazes, os mais ricos, os mais poderosos, e assim por diante. Os que seguem o caminho da graça permitem-se simplesmente Ser. Não é o modo como ela coloca, “Ser”, mas não resta nenhuma dúvida a partir do seu tom de voz de que, se tivesse usado essas precisas palavras, “Ser” viria proferido em inequívocas maiúsculas.

Brayton tem a lucidez adicional de enxergar o que pode ter passado despercebido a muitos cristãos que viram o filme, a sacada de que na vida de cada um carne e espírito – o caminho da natureza e o caminho da graça – permanecem inseparáveis mesmo quando um consegue ultrapassar em muito o poder do outro. Foi por isso que, com alguma hesitação, coloquei a narração inicial do filme1 para introduzir minha nota sobre a manipulação de antônimos. Não deve haver dúvida de que o capitalismo é o caminho da natureza e a herança de Jesus é o caminho da graça, mas natureza e graça, embora antagônicos, não são, infelizmente, antônimos. Carne e espírito não existem separados dentro de nós mesmo quando empreendemos entregar a vida com toda paixão apenas a um. Se temos de “escolher que caminho seguir” não é em regime definitivo, o que não seria possível, mas a cada momento. Nem os mais virtuosos nem os mais perversos dentre nós são consistentes na sua escolha, o que explica em parte a ambivalência e a complexidade da condição humana. Como lembra aquela canção italiana de que gosto, somos todos vítimas e algozes e – de algum modo misterioso mas muito literal – os outros somos nós.

NOTAS
  1. “As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.” []