02 de Dezembro de 2006

O que dura uma idéia

Traduzindo Borges

[Sexto Empírico] (Adversus mathematicus, XI, 197) nega o passado, que já foi, e o futuro, que não é ainda, e argumenta que o presente ou é divisível ou é indivisível. Não é indivisível, pois nesse caso não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro; não teria sequer meio, porque não tem meio o que carece de princípio e fim. Tampouco é divisível, pois nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. Ergo, o presente não existe, mas como tampouco existem o passado e o porvir, o tempo não existe.

O tempo não existe.

F. H. Bradley redescobre e melhora essas perplexidades. Observa (Appearance and Reality, IV) que se agora é divisível em outros agoras, não é menos complicado do que o tempo, e que se é indivisível, o tempo é uma mera relação entre coisas intemporais.

Tais raciocínios, como se vê, negam as partes para negar o todo; eu rechaço o todo para exaltar cada uma das partes. Pela dialética de Berkeley e Hume cheguei ao ditame de Schopenhauer: “A forma da manifestação da vontade é apenas o presente, não o passado nem o porvir; esses não existem a não ser para a conceituação e para o encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado e ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida, é uma possessão de que nenhum mal lhe pode arrebatar… O tempo é como um círculo que gira infinitamente: o arco que desce é o passado, o que ascende é o porvir; acima deles há um ponto invisível que toca a tangente e que é o agora. Imóvel como a tangente, esse ponto sem extensão marca o contato do objeto, cuja forma é o tempo, com o sujeito, que carece de forma, porque não pertence ao cogniscível e é condição prévia do conhecimento” (Welt als Wille und Vorstekkung, I, 54).

A vida de um ser dura o mesmo que uma idéia.

Um tratado budista do século quinto, o Visuddhimagga (Caminho da Pureza), ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: “Estritamente falando, a vida de um ser dura o mesmo que uma idéia. Como a roda da carruagem, ao girar, toca a terra em apenas um ponto, dura a vida o que dura uma única idéia” (Radhakrishnan: Indian Philosophy, I, 373).

Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis mil e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão, vertiginosamente fabricada por uma série de homens momentâneos e solitários. “O homem de um momento passado – adverte-nos o Caminho da Pureza, – viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá” (obra citada, I, 407), sentença que podemos comparar a esta de Plutarco (De E apud Delphos, 18): “O homem de ontem morreu no de hoje, e o de hoje morre no de amanhã”.

O homem de um momento passado viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá.

And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico, são desesperações aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é espantoso por ser irreal; é espantoso porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, porém eu sou o rio; é um tigre que me devora, porém eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.

Jorge Luis Borges, Nova refutação do tempo, 1946

28 de Novembro de 2006

A força do leão

Manuscritos

Os filósofos do país de que estou falando leram O Ramo Dourado de Frazer e concluíram que a ciência é a mais insidiosa e inatural das superstições. O homem primitivo cria enxergar alguma relação secreta e invisível entre matar um leão ou vestir sua pele e herdar sua força; da mesma forma crêem os cientistas existir uma relação direta e rigorosa entre o pressionar do interruptor e o acender da lâmpada, entre a aplicação da vacina e a produção dos anticorpos, entre a passagem do tempo e a luz das estrelas. Porém quem pode afirmar, sem recorrer à superstição ou à metáfora, haver alguma relação verdadeira entre uma coisa e outra? O cientista dirá que se pode provar empiricamente, isto é, pela experiência, que, mantidas as demais condições do sistema, a mesma receita produzirá sempre o mesmo bolo, e que essa teimosa coincidência comprova a relação mágica que ele acredita existir. Não será isso, ponderaram nossos filósofos, incorrer em magia simpática e petição de princípio? De que modo, em qual universo, pode-se conceber a terrível abstração que seria “manter-se as condições do sistema”? Os selvagens estão em posição ideológica mais confortável: para comprovar empiricamente a relação entre a força do homem a força do leão bastava, é claro, matar o leão.

14 de Novembro de 2006

Três versões de Judas

Heresias Sensacionais, Traduzindo Borges

There seemed a certainty in degradation.
T. E. Lawrence, Seven Pillars of Wisdom, CIII

Na Ásia Menor ou em Alexandria, no segundo século de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou perversa improvisação de anjos deficientes, Niels Runeberg teria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe teria destinado, talvez, um sepulcro de fogo; seu nome aumentaria os catálogos dos heresiarcas menores, entre Saturnilo e Carpócrates; algum fragmento de suas prédicas, exonerado de injúrias, perduraria no apócrifo Liber adversus omnes haereses ou teria perecido quando o incêndio de uma biblioteca monástica devorou o último exemplar do Syntagma. Em troca, Deus lhe concedeu o século vinte e a cidade universitária de Lund. Aí, em 1904, publicou a primeira edição de Kristus och Judas; aí, em 1909, seu livro capital Den hemlige Frälsaren. (Deste último tenho a tradução alemã, executada em 1912 por Emili Schering; chama-se Der heimliche Heiland.)

Antes de ensaiar um exame dos mencionados trabalhos cabe repetir que Nils Runeberg, membro da União Evangélica Nacional, era profundamente religioso. Num grêmio de Paris ou de Buenos Aires um literato poderia muito bem redescobrir as teses de Runeberg; essas teses, propostas num grêmio, seriam exercícios ligeiros de negligência ou de blasfêmia. Para Runeberg, foram a chave que decifra um mistério central da teologia; foram matéria de meditação e análise, de controvérsia histórica e filológica, de soberba, de júbilo e terror. Justificaram e arruinaram sua vida. Quem recorrer a este artigo deve também considerar que ele registra tão-somente as conclusões de Runeberg, não sua dialética e suas provas. Alguém possivelmente observará que a conclusão precedeu sem dúvida as “provas”. Quem se resigna a buscar provas de algo em que não crê ou cuja prédica não lhe importa?

Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas.

A primeira edição de Kristus och Judas leva esta catégorica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria monstruosamente o próprio Nils Runeberg: Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou a Jesus Cristo a fim de forçá-lo a declarar a sua divindade e acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma justificação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superfluidade do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que pregava diariamente na sinagoga e que operava milagres diante de concursos de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um acontecimento casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Portanto a traição de Judas não foi casual: foi um ato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Prossegue Runeberg: o Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiqüidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à carne; para corresponder a tal sacrifício era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a reprovação. Assim elucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.

Os teólogos de todas as confissões o refutaram. Lars Peter Engström acusou-o de ignorar, ou de preterir, a união hipostática; Axel Borelius, de renovar a heresia dos docetas, que negaram a humanidade de Jesus; o contundente bispo de Lund, de contradizer o terceiro versículo do capítulo 22 do evangelho de Lucas.

Esses variados anátemas influenciaram Runeberg, que parcialmente reescreveu o livro reprovado e modificou sua doutrina. Abandonou a seus adversários o terreno teológico e propôs oblíquas razões de ordem moral. Admitiu que Jesus, “que dispunha dos consideráveis recursos que a onipotência pode oferecer”, não necessitava de um homem para redimir a todos os homens. Rebateu, em seguida, os que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, para curar os enfermos, para limpar os leprosos, para ressuscitar os mortos e para expulsar demônios (Mateus 10:78; Lucas 9:1). Um homem a quem o Redentor concedeu tal distinção merece de nós melhor interpretação de seus atos. Imputar seu crime à cobiça (como tem feito alguns, alegando João 12:6) é resignar-se ao motivo mais torpe. Nils Runeberg propõe o motivo contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo. O asceta, para maior glória de Deus, envilece e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer1. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. Do adultério costumam participar a ternura e a abnegação; do homicídio, a coragem; das profanações e da blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas que não são visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Trabalhou com gigantesca humildade, creu-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino que não devem usurpar os homens2.

Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu.

Muitos tem descoberto, post factum, que nos justificáveis começos de Runeberg está seu extravagante fim, e que Den hemlige Frälsaren é uma mera perversão ou exasperação de Kristus och Judas. Ao fim de 1907 Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que o entregasse à prensa. Em outubro de 1909 o livro apareceu com um prólogo (tíbio ao ponto do enigmático) do hebraísta dinamarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu (João 1:10). O argumento geral não é complexo, embora a conclusão seja monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem tendo em vista a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício realizado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu a uma tarde na cruz é blasfematório3. Afirmar que foi homem e incapaz de pecado encerra contradição; os atributos de impeccabilitas e de humanitas não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor podia sentir fadiga, frio, perturbação, fome e sede; também cabe admitir que poderia pecar e perder-se. O famoso texto Brotará como raiz de terra sedenta; não tinha boa aparência nem formosura; desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer (Isaías 53:2.3) é para muitos a previsão do crucificado na hora da morte; para alguns (por exemplo, Hans Lassen Martensen), uma refutação da formosura que o consenso popular atribui a Cristo; para Runeberg, é a profecia pontual não a respeito de um momento mas de todo o atroz futuro, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus se fez totalmente homem até a infâmia, homem até a reprovação e o abismo. Para salvar-nos, poderia ter eleito qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história; poderia ter sido Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; escolheu um ínfimo destino: foi Judas.

Em vão propuseram essa revelação as livrarias de Estocolmo e de Lund. Os incrédulos a consideraram, a priori, um insípido e laborioso jogo teológico; os teólogos a desdenharam. Runeberg intuiu nessa indiferença ecumênica uma quase milagrosa confirmação. Deus ordenava essa indiferença; Deus não queria que se propagasse na terra seu terrível segredo. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora. Sentiu que estavam convergindo sobre ele antigas maldições divinas; recordou Elias e Moisés, que na montanha esconderam o rosto para não ver a Deus; Isaías, que aterrorizou-se quando seus olhos viram aquele cuja glória enche a terra; Saulo, cujos olhos quedaram cegos na estrada de Damasco; o rabino Simeon ben Azai, que viu o Paraíso e morreu; o famoso feiticeiro João de Viterbo, que enlouqueceu quando pôde ver a trindade; os midrashim, que abominam os ímpios que pronunciam o Shem Hamephorash, o nome secreto de Deus. Não seria ele acaso culpado desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, que não será perdoada (Mateus 12:31)? Valério Sorano morreu por ter divulgado o nome oculto de Roma; que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o terrível nome de Deus?

Ébrio de insônia e de vertiginosa dialética, Nils Runeberg morreu pelas ruas de Malmö, rogando em altos brados que lhe fosse concedida a graça de compartilhar com o Redentor do inferno.

Morreu do rompimento de um aneurisma a primeiro de março de 1912. Os heresiólogos haverão talvez de recordá-lo; agregou ao conceito do Filho, que parecia esgotado, as complexidades do mal e do infortúnio.

Jorge Luis Borges, 1944

1 Borelius interroga com desdém: Por que não renunciou a renunciar? Por que não renunciar a renunciar?

2 Euclides da Cunha, num livro ignorado por Runeberg, anota que para o heresiarca de Canudos, Antônio Conselheiro, a virtude “era quase uma impiedade”. O leitor argentino recordará passagens análogas na obra de Almafuerte. Runeberg publicou, no panfleto simbolista Sju insegel, um assíduo poema descritivo, A água secreta; as primeiras estrófes narram os acontecimentos de um dia tumultuoso; as últimas, a descoberta de um lago glacial; o poeta sugere que a perduração dessa água silenciosa corrige nossa inútil violência e de algum modo a permite e a absolve. O poema conclui assim: A água da selva é feliz; podemos ser malvados e dolorosos.

3 Maurice Abramowicz observa: “Jésus, d’aprés ce scandinave, a toujours le beau rôle; ses déboires, grâce à la science des typographes, jouissent d’une réputabon polyglotte; sa résidence de trente­trois ans parmi les humains ne fut en somme, qu’une villégiature”. Erfjord, no terceiro apêndice da Christelige Dogmatik refuta essa passagem. Anota que a crucificação de Deus não cessou, porque o que aconteceu uma só vez no tempo se repete sem trégua na eternidade. Judas, agora, segue cobrando as moedas de prata; segue beijando a Jesus Cristo; segue arremessando as moedas de prata no templo, segue preparando o laço da corda no campo de sangue (Erfjord, para justificar essa afirmação, invoca o último capítulo do primeiro tomo da Vindicação da eternidade de Jaromir Hladík).

09 de Outubro de 2006

Milonga de Manuel Flores

Traduzindo Borges

Manuel Flores vai morrer
isso é moeda corrente
morrer é costume
que sabe-se ter toda gente.

E ainda assim dói em mim
despedir-me da vida
essa coisa tão de sempre
tão doce e tão conhecida

Contemplo no alvorecer minhas mãos
contemplo nas mãos as veias
com estranheza as contemplo
como se fossem alheias.

Virão os quatro tiros
e com os quatro o esquecimento;
já disse o sábio Merlin:
morrer é ter nascido.

Quanta coisa em seu caminho
estes olhos já viram!
Quem sabe o que verão
depois de julgado por Cristo.

Manuel Flores vai morrer
isso é moeda corrente
morrer é costume
que sabe-se ter toda gente.

* * *

Manuel Flores va a morir,
eso es moneda corriente;
morir es una costumbre
que sabe tener la gente.

Y sin embargo me duele
decirle adiós a la vida,
esa cosa tan de siempre,
tan dulce y tan conocida.

Miro en el alba mis manos,
miro en las manos las venas;
con estrañeza las miro
como si fueran ajenas.

Vendrán los cuatro balazos
y con los cuatro el olvido;
lo dijo el sabio Merlín:
morir es haber nacido.

¡Cuánto cosa en su camino
estos ojos habrán visto!
Quién sabe lo que verán
después que me juzgue Cristo.

Manuel Flores va a morir,
eso es moneda corriente:
morir es una costumbre
que sabe tener la gente.

Jorge Luis Borges

27 de Junho de 2006

Como pensar sobre o governo

Brasil, Politica, Traduzindo Borges

O argentino, à diferença dos americanos do norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode atribuir-se à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos, ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração (o Estado é impessoal: o argentino só concebe uma relação pessoal. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime).

O certo é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel, “o Estado é a realidade da idéia moral” parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood repetidamente propõem à admiração o caso de um homem (geralmente um repórter) que busca a amizade de um criminoso para entregá-lo depois à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma máfia, sente que esse “herói” é um incompreensível canalha.

[...]

O mundo, para o europeu, é um cosmos, em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do norte julgam que deverá ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer, o argentino admite a possibilidade de que não seja ruim, apesar do prêmio.

Jorge Luis Borges, em 1946, escrevendo sem saber sobre as semelhanças entre brasileiros e argentinos.