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	<title>A Bacia das Almas &#187; borges</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>A inconcebível figura</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Dec 2011 15:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;O que é uma inteligência infinita?&#8221;, indagará talvez o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos que dá um homem, desde o dia de seu nascimento até o da sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O que é uma inteligência infinita?&#8221;, indagará talvez o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos que dá um homem, desde o dia de seu nascimento até o da sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens um triângulo. Esse desenho tem (quem sabe) sua determinada função na economia do universo.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, numa nota de rodapé</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug006.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-desenho-e-seu-nome/">O desenho e seu nome</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-peca-ininterrupta/">A peça ininterrupta</a></p>
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		<title>Deus não escreve não-ficção; por que alguém deveria?</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 07:34:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme &#8220;eu sou o que sou&#8221; (Êxodo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme &#8220;eu sou o que sou&#8221; (Êxodo 3:14), não que declare ou analise, como Hegel ou Anselmo, o <em>argumentum ontologicum</em>. Deus não deve teologizar; o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que exige de nós a arte. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não terminar de entendê-lo, parece confessar que este não é inevitável para ele. Desconfiamos de sua inteligência, do mesmo modo que desconfiaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. Deus, escreveu Spinoza (Ética 5:17), não odeia ninguém e não deseja ninguém.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, explicando porque os primeiros livros de H. G. Wells, que limitam-se a contar histórias e não se rebaixam a defender teses, são superiores aos demais. No processo, acaba esclarecendo porque Jesus só contou histórias. Ainda <em>Otras Inquisiciones</em> (1952).</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif"></p>
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		<title>Los más arduos pasajes</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Nov 2011 07:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[islam]]></category>
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		<description><![CDATA[É ateu, mas sabe interpretar de um modo ortodoxo as mais árduas passagens do Alcorão, porque todo homem culto é um teólogo, e para sê-lo não é indispensável a fé. Jorge Luis Borges, pausando sobre Omar Khayyām em suas Otras Inqusiciones (1952)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É ateu, mas sabe interpretar de um modo ortodoxo as mais árduas passagens do Alcorão, porque todo homem culto é um teólogo, e para sê-lo não é indispensável a fé.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, pausando sobre Omar Khayyām<br />
em suas <em>Otras Inqusiciones</em> (1952)</small></p>
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		<title>Minha disciplina pessoal mais antiga</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Aug 2009 10:25:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[teologia narrativa]]></category>

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		<description><![CDATA[78 Minha disciplina pessoal mais antiga é escrever histórias. Escrevo desde muito cedo, e contar histórias foi para mim uma resposta muito natural a um mundo generosíssimo que cercou-me de narrativas desde o berço, maravilhando-me e calibrando-me continuamente através delas. Nas canções de ninar, na literatura, nos filmes e séries da televisão, nas novelas e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>78</p>
<p>Minha disciplina pessoal mais antiga é escrever histórias. Escrevo desde muito cedo, e contar histórias foi para mim uma resposta muito natural a um mundo generosíssimo que cercou-me de narrativas desde o berço, maravilhando-me e calibrando-me continuamente através delas. Nas canções de ninar, na literatura, nos filmes e séries da televisão, nas novelas e desenhos animados, no cinema, no teatro e na ópera (mais ou menos nesta ordem) fui encontrando um universo que dançava ao meu redor oferecendo-se para contar uma história sempre que eu me dispusesse a parar para ouvir. Escrever foi para mim uma forma de retribuir esse desprendimento, aceitando ao mesmo tempo o convite para brincar.</p>
<p>Muito cedo intuí que o mundo era um lugar seguro, porque fui percebendo que em todas as culturas &#8211; entre chineses e piratas, açougueiros e siberianos, deputados e cangaceiros, cantores de ópera e assassinos, debaixo de todas as arquiteturas e em todas os idiomas &#8211; as pessoas se alinhavam nisso, no interesse de ouvir histórias e de contá-las.</p>
<p>A não-ficção sempre foi para mim um interesse secundário, atividade mais ou menos empolada e incompreensível, e esse parecer não mudou muito com o passar do tempo. Na verdade, comecei a escrever ensaios e dissertações porque gente como Lovecraft e Borges tratavam de misturá-los à sua ficção, e eu queria imitá-los (e continuo, como vivo dizendo, tentando).</p>
<p>Escrevo desde os sete ou oito anos, mas tudo que concluí até hoje foram histórias pequenas e <a href="http://www.baciadasalmas.com/tag/ficcao">contos curtos</a>. Já investi em narrativas ambiciosas, algumas delas bastante complexas, mas não cheguei a concluir nenhum dos grandes romances que idealizo e esboço desde os treze ou quatorze anos.</p>
<p>Agora que penso nisso: <em>Cândida</em>, um dos contos pseudo-borgianos que escrevi antes de completar dezoito anos e que ninguém além de mim chegou a ler, começa com uma frase pomposa que eu sabia ser profética e acurada mesmo então: <em>Nada é certo sobre o homem que tem muitas histórias para contar, a não ser que morrerá sem tê-las contadas todas.</em></p>
<div class='series_toc'><h3>Nasce um homem</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-1/' title='Era uma vez'>Era uma vez</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-2/' title='Adão era'>Adão era</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/nasce-um-homem-3/' title='A teoria literária'>A teoria literária</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nasce-um-homem-4/' title='Para mim'>Para mim</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/se-havia-improvavel-graca/' title='Se havia improvável graça'>Se havia improvável graça</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-conflito-que-anima-uma-historia/' title='O conflito que anima uma história'>O conflito que anima uma história</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-primeira-blasfemia/' title='A primeira blasfêmia'>A primeira blasfêmia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/eu-sentia-ser-minha-obrigacao/' title='Eu sentia ser minha obrigação'>Eu sentia ser minha obrigação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-demonstrado-exemplarmente-por-jesus/' title='Como demonstrado exemplarmente por Jesus'>Como demonstrado exemplarmente por Jesus</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-detalhes/' title='De todos os detalhes'>De todos os detalhes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-distincao-mais-antiga/' title='A distinção mais antiga'>A distinção mais antiga</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-homem-em-pe-no-centro/' title='O homem em pé no centro'>O homem em pé no centro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/quando-levantei-me-do-lugar/' title='Quando levantei-me do lugar'>Quando levantei-me do lugar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/ele-tinha-o-mundo-natural-aos-seus-pes/' title='Ele tinha o mundo natural aos seus pés'>Ele tinha o mundo natural aos seus pés</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/dois-ou-tres-personagens-nao-bastam/' title='Dois ou três personagens não bastam'>Dois ou três personagens não bastam</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-proibicao-extrai-seu-poder/' title='A proibição extrai seu poder'>A proibição extrai seu poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-caracterizar-uma-tragedia/' title='Para caracterizar uma tragédia'>Para caracterizar uma tragédia</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/pisei-no-andar-terreo/' title='Pisei no andar térreo'>Pisei no andar térreo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/voce-pode-comer/' title='Você pode comer'>Você pode comer</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/um-professor-errante-depara-se-com-um-homem-cego/' title='Um professor errante depara-se com um homem cego'>Um professor errante depara-se com um homem cego</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nenhum-outro-elemento-da-trama/' title='Nenhum outro elemento da trama'>Nenhum outro elemento da trama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/toda-historia-sobre-transgressao/' title='Toda história sobre transgressão'>Toda história sobre transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/de-todos-os-sonhos-de-que-me-recordo/' title='De todos os sonhos de que me recordo'>De todos os sonhos de que me recordo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-devemos-deixar/' title='Não devemos deixar'>Não devemos deixar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-chave-obviamente/' title='A chave, obviamente'>A chave, obviamente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/e-curioso-notar/' title='É curioso notar'>É curioso notar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/para-comecar/' title='Para começar'>Para começar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/neste-ponto/' title='Neste ponto'>Neste ponto</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-a-entrada-da-serpente/' title='Com a entrada da serpente'>Com a entrada da serpente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/dos-enigmas-da-serpente/' title='Dos enigmas da serpente'>Dos enigmas da serpente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/porem-quando-percebo/' title='Porém quando percebo'>Porém quando percebo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-serpente-e-astuta/' title='A serpente é astuta'>A serpente é astuta</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-narrativa-e-limpida/' title='A narrativa é límpida'>A narrativa é límpida</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-serpente-permanece-um-enigma/' title='A serpente permanece um enigma'>A serpente permanece um enigma</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/quando-olho-tempo-suficiente/' title='Quando olho tempo suficiente'>Quando olho tempo suficiente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-silencio-da-historia/' title='O silêncio da história'>O silêncio da história</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/outro-resultado/' title='Outro resultado'>Outro resultado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/individuacao/' title='Individuação'>Individuação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/e-o-momento-decisivo/' title='É o momento decisivo'>É o momento decisivo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-ausencia-divina/' title='A ausência divina'>A ausência divina</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/e-uma-pista-falsa/' title='É uma pista falsa'>É uma pista falsa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/nao-se-trata/' title='Não se trata'>Não se trata</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/uma-donzela-encontra-na-floresta-uma-perigosa-serpente/' title='Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente'>Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-hora-e-agora/' title='A hora é agora'>A hora é agora</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/porque-e-ignoro-quantas-vezes/' title='Porque &#8211; e ignoro quantas vezes terei de voltar'>Porque &#8211; e ignoro quantas vezes terei de voltar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/alcancar-a-individuacao/' title='Alcançar a individuação'>Alcançar a individuação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/eva-recua/' title='Eva recua'>Eva recua</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/deus-sabe/' title='Deus sabe'>Deus sabe</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-motor-do-conflito/' title='O motor do conflito'>O motor do conflito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-grande-revelacao/' title='A grande revelação'>A grande revelação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/transgredir/' title='Transgredir'>Transgredir</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-obra-da-serpente/' title='A obra da serpente'>A obra da serpente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/onde-esta-a-maldade/' title='Onde está a maldade'>Onde está a maldade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-me-faz-lembrar/' title='O que me faz lembrar'>O que me faz lembrar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-transfiguracao-do-conflito/' title='A transfiguração do conflito'>A transfiguração do conflito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/que-sao-a-imitacao-e-o-jogo-de-espelhos/' title='Que são a imitação e o jogo de espelhos'>Que são a imitação e o jogo de espelhos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-esta-historia-existe-para-mostrar/' title='O que esta história existe para mostrar'>O que esta história existe para mostrar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-por-isso/' title='É por isso'>É por isso</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-o-ultimo-momento/' title='É o último momento'>É o último momento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/quando-volto-a-recordacao/' title='Quando volto à recordação'>Quando volto à recordação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-efeito-imediato/' title='O efeito imediato'>O efeito imediato</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/como-numa-comedia-de-erros/' title='Como numa comédia de erros'>Como numa comédia de erros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/minha-primeira-transgressao/' title='Minha primeira transgressão'>Minha primeira transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-so-do-lado-de-ca/' title='É só do lado de cá'>É só do lado de cá</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-esse-principio/' title='A esse princípio'>A esse princípio</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/nao-nos-devera/' title='Não nos deverá'>Não nos deverá</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-coisa-boa/' title='A coisa boa'>A coisa boa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/se-o-conflito-e-a-graca/' title='Se o conflito é a graça'>Se o conflito é a graça</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-transgressao-original/' title='A transgressão original'>A transgressão original</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/transgredir-e-escolher/' title='Transgredir é escolher'>Transgredir é escolher</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/no-espaco-recem-aberto-da-minha-transgressao/' title='No espaço recém-aberto da minha transgressão'>No espaço recém-aberto da minha transgressão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/em-si-mesmo-nada-ha-de-terrivel/' title='Em si mesmo nada há de terrível'>Em si mesmo nada há de terrível</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-conceito-teologico/' title='O conceito teológico'>O conceito teológico</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/bastaria-a-morte/' title='Bastaria a morte'>Bastaria a morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-ambivalencia-do-poder/' title='A ambivalência do poder'>A ambivalência do poder</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-maldicao-do-po/' title='A maldição do pó'>A maldição do pó</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/ha-algo-de-terrivel-na-autodeterminacao/' title='Há algo de terrível na autodeterminação'>Há algo de terrível na autodeterminação</a></li><li>Minha disciplina pessoal mais antiga</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-crueza/' title='Essa crueza'>Essa crueza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/nao-e-completa/' title='Não é completa'>Não é completa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essas-historias/' title='Essas histórias'>Essas histórias</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/na-noite-de-ontem-para-hoje/' title='Na noite de ontem para hoje'>Na noite de ontem para hoje</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-outro-simbolo-universal/' title='O outro símbolo universal'>O outro símbolo universal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-serpente-e-mentirosa/' title='A serpente é mentirosa'>A serpente é mentirosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-primeiro-desdobramento/' title='O primeiro desdobramento'>O primeiro desdobramento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/foi-mais-ou-menos-nessa-epoca/' title='Foi mais ou menos nessa época'>Foi mais ou menos nessa época</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/todas-as-lendas/' title='Todas as lendas'>Todas as lendas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/minha-conviccao/' title='Minha convicção'>Minha convicção</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Uma nova religião</title>
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		<pubDate>Mon, 05 May 2008 10:20:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; Apaixonar-se é criar uma religião cujo Deus é falível. Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1952)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Apaixonar-se é criar uma religião cujo Deus é falível.</p>
<p align="right"><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, Otras Inquisiciones (1952)</small></p>
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		<title>Céu e inferno</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 09:07:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>

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		<description><![CDATA[O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações ressurgirem do pó para acatar a Boca inapelável, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações ressurgirem do pó para acatar a Boca inapelável, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra do arqueiro persegue a sombra da corça, eternamente; nem a loba de fogo que no piso inferior dos infernos muçulmanos é anterior a Adão e aos castigos; nem metais violentos, nem sequer a treva visível de John Milton. Um odioso labirinto de tríplice ferro e fogo doloroso não oprimirá as almas atônitas dos réprobos.</p>
<p>Tampouco o fundo dos anos guarda um remoto jardim. Deus não precisa para alegrar os méritos do justo de esferas de luz, concêntricas teorias de tronos, potestades e querubins, nem o espelho ilusório da música nem as profundidades da rosa nem o esplendor desafortunado de um só de seus tigres, nem a delicadeza de um pôr-do-sol amarelo no deserto nem o sabor antigo e natal da água. Em sua misericórdia não há jardins nem luz de uma esperança ou de uma recordação.</p>
<p>Na janela de um sonho vislumbrei os prometidos Céu e Inferno: quando o juízo retumbar nas trombetas últimas e o planeta milenar for obliterado e bruscamente cessar o Tempo, as efêmeras pirâmides de cores e linhas do teu passado definirão na treva um rosto adormecido, imóvel, fiel, inalterável (talvez o da amada, quem sabe o teu) e a contemplação desse imediato rosto incessante, intato, incorruptível será, para os réprobos, Inferno; para os eleitos, Paraíso.</p>
<p><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, Poemas (1954)</small></p>
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		<title>A fraternidade das letras</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Mar 2008 08:44:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[lovecraft]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Bauru, quando chegamos à cidade em 1979, não havia uma livraria de verdade e a biblioteca pública, que não era pequena, tinha menos livros interessantes do que a minha, que era. Enquanto me demorava a fazer amigos, eu passava o tempo sentindo falta da Biblioteca Pública de Londrina e da Livraria Ghignone de Curitiba, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/pelayo-01-b.jpg" title="Clique para ampliar"><img width="400" height="266" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/pelayo-01.jpg"/></a></p>
<p>Em Bauru, quando chegamos à cidade em 1979, não havia uma livraria de verdade e a biblioteca pública, que não era pequena, tinha menos livros interessantes do que a minha, que era. Enquanto me demorava a fazer amigos, eu passava o tempo sentindo falta da Biblioteca Pública de Londrina e da Livraria Ghignone de Curitiba, ambas vastas e inacessíveis.</p>
<p>O último – e único – reduto para ratos de livro como eu eram as três ou quatro estantezinhas de livros da papelaria Tilibra, que era a maior da região mas dedicava a melhor parte das suas instalações a produtos de giro mais certo. Meu problema era que, mesmo diante de oferta literária tão módica, eu não sabia que livros escolher, e não tinha dinheiro para testá-los todos.</p>
<p>Aquele, pode ser necessário lembrar, era o minúsculo e inconcebível mundo pré-internet; não havia uma grande e unânime ferramenta para guiar-nos pela mão e refinar-nos as preferências individuais. Praticamente não havia, fora a iniciativa das editoras, quem me recomendasse um livro ou um autor; não havia, que eu soubesse, autores com o gosto não-convencional que eu ainda não sabia que tinha, muito menos um público que os apreciasse. E, caso houvesse, eu não tinha como saber.</p>
<p><span id="more-1493"></span></p>
<p>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>The Orange Tree, <b>Philip Glass</b></small></span></p>
<p>O primeiro milagre foi efetuado pela Editora Francisco Alves na forma da coleção <em>Mestres do Horror e da Fantasia</em>, que começou a ser publicada especialmente <em>para mim</em> em algum momento da década de 1980. Através da coleção MDHEDF conheci gente e histórias que nunca me abandonaram – volumes como <em>A ilha do Dr. Moreau</em>, de H.G. Wells, <em>A última esperança sobre a terra (Eu sou a lenda),</em> de Richard Matheson e <em>O enigma do trem perdido</em>, uma antologia de contos de terror de Arthur Conan Doyle. Retirei-os solenemente da estante da Tilibra, um a um, levei-os para casa e rendi-me de imediato diante do seu charme.</p>
<p>Porém a coleção me reservava coisa ainda melhor, obras que alçariam minha expectativa literária a um patamar inimaginado – e falo de <em>A assombração da Casa da Colina</em>, de Shirley Jackson, e <em>O país de outubro</em>, de Ray Bradbury. Aqui estavam não apenas histórias que me fascinavam, mas literatura de primeira ordem, com que eu me deparava talvez pela primeira vez. A originalidade de tom, de estilo e de ênfase desses autores, nessas que são suas melhores obras, me assombrariam dali em diante.</p>
<p>Acontece que meu dinheiro era menor do que a oferta da coleção, que lançava dois ou três livros por ano. Eu não trabalhava, comia o que meu pai colocava na mesa, estudava de manhã e passava a tarde na <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/piano-de-letras/">máquina de escrever</a> compondo exercícios literários que nunca cheguei a concluir. Quando a coleção MDHEDF ofereceu um livro que me decepcionou, <em>Terror na Oktoberfest</em>, de Frank de Felitta, percebi que a alegria não tinha como continuar, não na forma da festa contínua que eu vinha experimentando. Eu tinha de ser mais seletivo: resolvi só comprar um livro que me fosse recomendado por mais de uma fonte independente.</p>
<p>E a recomendação não demorou a vir: uma resenha de apenas uma coluna na revista VEJA mencionava um novo volume da coleção <em>Mestres do Horror e da Fantasia</em> (que eu percebesse, aquela era a primeira vez em que a revista mencionava a coleção) e um autor que eu não conhecia: H. P. Lovecraft. A nota prometia uma ampla e coerente mitologia original e uma nova estirpe de terror, epitomizada pelo &#8220;impronunciável, o inominável&#8221; – aquilo que não pode ser adequadamente descrito, ou que se fosse adequadamente descrito levaria à loucura. A obra era <em>A casa das bruxas</em>, e eu não tinha como ter recomendação mais eficaz.</p>
<p>Pronto. Nos quatro contos de puro horror que compunham <em>A casa das bruxas</em> (e nos seis de <em>Um sussurro nas trevas</em>, publicado na mesma coleção) encontrei uma imaginação poderosa colocada a serviço de um pessimismo irresistível, um narrador cuja firmeza de voz permanece me influenciando <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/post-mortem/">através das décadas</a>. Lovecraft é um ensaísta erudito que conta histórias de monstro; para um diletante do gênero, eu havia encontrado a mais preciosa das pérolas. Eu estava fisgado; não podia conceber autor melhor do que Lovecraft.</p>
<p>Mas a imprensa interviu novamente, a imprensa que era o paliativo que tomávamos quando a cura da internet ainda não havia sido inventada. Uma matéria de uma página da Folha Ilustrada (o caderno interessante da Folha de São Paulo) quis me vender um outro autor infalível, um desconhecido argentino com nome de brasileiro: Jorge Luis Borges. Lembrei que havia, incrivelmente, um volume desse Borges aguardando numa das estantes da Tilibra, um livrinho surrado que ninguém parecia querer comprar e que chamava-se, simplesmente, <em>Ficções</em>.</p>
<p>Comprei o livrinho com base na indicação e esqueci automaticamente tudo que sabia. O universo, decidi, precisava ser inteiramente revisado. A história começava aqui. Eu me deparara com o escritor mais inventivo, mais obsessivo, mais original, menos original, mais generoso e mais convolutamente conciso do século XX. Nas cento e tantas páginas de <em>Ficções</em> havia mundos e universos e reviravoltas que não cabiam nem de longe em todos os volumes de todos os outros autores que eu havia lido ou chegaria a ler. Meu pai do céu, a vastidão do cara. Borges revisava a literatura da humanidade, denunciava os seus mecanismos e ao mesmo tempo a reinventava. Quando fechei o livro sabia que teria de renunciar a qualquer esperança de alcançar alguma glória na vocação literária; percebi ao mesmo tempo que não tinha como livrar-me dessa vocação. Borges, o imbatível, seduzira-me ao seu ofício e condenara-me ao terrível destino de não ser Borges.</p>
<p>Durmo hoje em dia abraçado aos três ou quatro volumes de suas <em>Obras Completas</em>, mas minha lua-de-mel com Borges está longe de terminar. Ensinou-me o argentino cego, dentre tantas contundências que eu gostaria de ter escrito, que &#8220;os livros são uma extensão da memória e da imaginação&#8221;. A primeira parte da sentença é convencional o bastante e eu teria como prever, mas não a segunda. Meu Deus, <em>os livros como um extensão da imaginação</em>. Como não percebi isso antes? Eu mesmo deveria ter percebido isso assim que abri a primeira página de Monteiro Lobato, de La Fontaine ou de H. G. Wells. Os livros, em sua distilação silenciosa, segregam o soro secreto que alonga o universo, faz desdobrar a consciência, catalisa as ebulições da invenção, estende os limites da própria criatividade. O cérebro é uma máquina maravilhosa, mas os livros aumentam magicamente a sua memória RAM.</p>
<h5>Os bons autores indicam bons autores.</h5>
<p>E foi lendo Borges, o Citador, que foi-me concedida outra epifania, que pretende explicar estas linhas. Os livros são uma extensão da memória e da imaginação, mas os bons livros tem um mérito adicional: os bons autores indicam outros bons autores, e essa cumplicidade das letras faz com que um tesouro acabe nos conduzindo ele mesmo ao próprio Palácio dos Tesouros. Por indicação de Borges alcancei em segurança as margens de literaturas virgens e visitei a cabana de desconcertantes pensadores e fertilíssimos contadores de histórias, autores que sem a intervenção redentora dele eu jamais chegaria a conhecer.</p>
<p>A lista é necessariamente incompleta, mas Borges levou-me a William James, a Emanuel Swedenborg, a Kafka, a Bernard Shaw, a Dante Alighieri, a Plotino, a William Beckford, a Edward Gibbon, a Miguel de Cervantes, a Farid ud-Din Attar, a Averróis, a Schopenhauer, a Berkeley, a G. K. Chesterton – gente sem os quais, desta margem do mar, a vida e a literatura me parecem empreendimento inconcebível e estéril.</p>
<p>Borges, o Mapeador, propõs e demonstrou a hipótese de que a literatura é uma rede sem fim de citações, um vasto e intrincado <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hipertexto">hipertexto</a> sustentado por uma confraria de cúmplices que vivem separados por capas, séculos e contracapas. Nesta fraternidade valem menos abstrações como &#8220;autoria&#8221; ou &#8220;idéia original&#8221; do que o tráfego offline de fertilidades. Os autores são muitos, mas a Biblioteca é uma. A literatura é uma espécie de amizade, um presente que não cessa de presentear.</p>
<p>Basta estar pronto para ouvir. Lovecraft, para dar um exemplo que não seja a vertigem que é Borges, apresentou-me a Edgar Allan Poe, a Arthur Machen, a Algernon Blackwood, a Fritz Leiber – e, por vias tortas mas certeiras, – ao absolutamente notável Thomas Ligotti.</p>
<h5>Uma história é uma genealogia.</h5>
<p>Em &#8220;<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/formas-de-uma-lenda/">Formas de uma lenda</a>&#8220;, Borges usa sua mágica para demonstrar que uma idéia é na verdade uma herança; uma história é na verdade uma genealogia. Porém o Mapeador e Citador é generoso, e não sonega as coordenadas a partir das quais vislumbrou sua constatação. &#8220;Tudo isso e muito mais&#8221;, explica ele, &#8220;achará o leitor no primeiro volume de <em>Origenes de la novela</em> de Menéndez y Pelayo&#8221;.</p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/pelayo-02-b.jpg" title="Clique para ampliar"><img width="400" height="266" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/pelayo-02.jpg"/></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: left">Apontado este destino, que venho contemplando há anos, comprei há duas semanas, de um sebo na internet, os três volumes de <em>Origenes de la novela</em> de Marcelino Menéndez Pelayo. Mal abri o primeiro volume, mas estou inteiramente desconcertado. Que posso dizer? Que Menéndez Pelayo é uma pré-encarnação de Borges? Que sua lucidez só se compara à sua erudição? Que sua erudição só se compara à sua generosidade? Não posso dizer nada.</p>
<p>Se Borges levou-me a Menéndez Pelayo, bastaram cinco ou seis páginas do seu texto principal para Menéndez Pelayo levar-me a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/meu-testamento-literario/">Luciano de Samósata</a>, e uma página desse autor <em>do segundo século</em> bastou para deixar-me sem fôlego. Nessas cinco páginas Menéndez Pelayo insistiu ainda que eu desse uma olhada em <a href="http://books.google.com.br/books?id=Qy9DAAAAIAAJ&amp;printsec=titlepage&amp;source=gbs_summary_r">The History of Fiction</a>, de John Colin Dunlop, que apenas folheei virtualmente e vejo que quer levar-me a outros destinos igualmente sedutores.</p>
<p>Estou fisgado, inteiramente e voluntariamente vencido, e a doçura é que a rede que me prende não tem fim. Borges estava certo: o Paraíso é um labirinto e uma biblioteca.</p>
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		<title>Formas de uma lenda</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Feb 2008 07:36:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[folclore]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Às pessoas causa repugnância ver um ancião, um enfermo ou um morto, porém estão sujeitas à morte, às enfermidades e à velhice; o Buda declarou que esta reflexão o induziu a abandonar sua casa e seus pais e vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta em um dos livros do cânone; outro registra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Às pessoas causa repugnância ver um ancião, um enfermo ou um morto, porém estão sujeitas à morte, às enfermidades e à velhice; o Buda declarou que esta reflexão o induziu a abandonar sua casa e seus pais e vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta em um dos livros do cânone; outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses; são um louco, um ancião recurvado, um inválido, um criminoso em tormentos e um morto, e avisam que nosso destino é nascer, caducar, enfermar, sofrer justo castigo e morrer. O Juiz das Sombras (na mitologia do Hindustão Yama desempenha esse cargo, porque foi o primeiro homem que morreu) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros; este admite que sim, porém não foi capaz de decifrar o aviso; os carrascos o encerram numa casa que está cheia de fogo. Quiçá o Buda não tenha inventado essa ameaçadora parábola; baste-nos saber que a proferiu (<em>Majihima nikaya</em>, 130) e que jamais a vinculou, talvez, à sua própria vida.</p>
<p>A realidade pode ser demasiado complexa para a transmissão oral; a lenda a recria de uma maneira que apenas acidentalmente é falsa e que a permite andar pelo mundo, de boca em boca. Na parábola e na declaração figuram um homem velho, um homem enfermo e um homem morto; o tempo fez dos dois textos um e forjou, confundindo-os, uma outra história.</p>
<p>Siddharta, o Bodhisattva, o pré-Buda, é filho de um grande rei, Suddhodana, da estirpe do sol. Na noite de sua concepção a mãe sonha que em seu lado direito entra um elefante, da cor da neve e com seis dentes de marfim<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/formas-de-uma-lenda/#footnote_0_1477" id="identifier_0_1477" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Este sonho &eacute;, para n&oacute;s, uma mera fealdade. N&atilde;o &eacute; assim para os hindus: o elefante, animal dom&eacute;stico, &eacute; s&iacute;mbolo de mansid&atilde;o; a multiplica&ccedil;&atilde;o de dentes de marfim n&atilde;o tem como incomodar os espectadores de uma arte que, para sugerir que Deus &eacute; o todo, lavra figuras de m&uacute;ltiplos bra&ccedil;os e rostos; o seis &eacute; n&uacute;mero habitual (seis vias de transmigra&ccedil;&atilde;o; seis Budas anteriores ao Buda; seis pontos cardeais, contando o z&ecirc;nite e o nadir: seis divindades que o Yajurveda chama de as seis portas de Brahma).">1</a></sup>. Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/formas-de-uma-lenda/#footnote_1_1477" id="identifier_1_1477" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Esta met&aacute;fora pode ter sugerido aos tibetanos a inven&ccedil;&atilde;o das m&aacute;quinas de rezar, rodas ou cilindros que giram ao redor de um eixo, cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras m&aacute;gicas. Algumas s&atilde;o manuais; outras s&atilde;o como grandes moinhos, e move-as a &aacute;gua e o vento.">2</a></sup> e ensinará aos homens como livrarem-se da vida e da morte. O rei prefere que Siddartha conquiste grandeza temporal e não eterna, e encerra-o num palácio do qual foram removidas todas as coisas que podem revelar-lhe que é corruptível. Vinte e nove anos de ilusória tranqüilidade transcorrem dessa forma, dedicados à satisfação dos sentidos, porém Siddharta, certa manhã, sai em seu coche e vê com espanto um homem recurvado, &#8220;cujo cabelo não é como o dos outros, cujo corpo não é como o dos outros&#8221;, que se apóia num bastão para caminhar e cuja carne treme. Pergunta que homem é esse; o cocheiro explica que é um ancião e que todos os homens da terra serão como ele. Siddharta, inquieto, dá ordem que retornem imediatamente, porém em outra saída vê um homem a quem devora a febre, cheio de lepra e de úlceras; o cocheiro explica que é um enfermo e que ninguém está a salvo desse perigo. Em outra saída vê um homem que levam num féretro, esse homem imóvel é um morto, explicam, e morrer é a lei de todo que nasce. Em outra saída, a última, vê um monge das ordens mendicantes que não deseja viver nem morrer. A paz está em seu rosto; Siddharta encontrou o caminho.</p>
<h5>A lenda determinou que o Buda fosse canonizado por Roma.</h5>
<p>Hardy (<em>Der Buddhismus nach älteren Pili-Werken</em>) aplaudiu o colorido desta lenda; um ideólogo contemporâneo, A. Foucher, cujo tom de gracejo nem sempre é inteligente ou urbano, escreve que, admitida a ignorância prévida do Bodhisattva, a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. No princípio do século V da nossa era o monge Fa-Hien peregrinou aos reinos do Hindustão em busca dos livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens erigidas por Asoka, ao norte, ao sul, ao este e ao leste das muralhas, para celebrar os encontros. No princípio do século VII um monge cristão redigiu a novela que se entitula <em>Barlaam y Josafat</em>; Josafat (Josafat, Bodhisattva) é filho de um rei da Índia; os astrólogos predizem que um dia reinará sobre um reino maior, que é o da Glória: o rei encerra-o num palácio, porém Josafat descobre a desafortunada condição dos homens através das espécies de um cego, de um leproso e de um moribundo e é convertido finalmente à fé pelo ermitão Barlaam. Esta versão cristã da lenda foi traduzida para diversos idiomas, inclusive o holandês e o latim; a pedido de Hákon Hákonarson produziu-se na Islândia, em meados do século XIII, uma <em>Barlaams saga</em>. O cardeal César Baronio incluiu Josafat em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano; em 1615 Diego de Couto denunciou, em sua continuação das Décadas, as analogias da fingida fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafat. Tudo isso e muito mais achará o leitor no primeiro volume de <em>Origenes de la novela</em> de Menéndez y Pelayo.</p>
<p>A lenda que em terras ocidentais determinou que o Buda fosse canonizado por Roma tinha, no entanto, um defeito: os encontros que postula são eficazes mas são também incríveis. Quatro saídas de Siddharta e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do azar. Menos atentos ao estético do que à conversão das massas, os doutores quiseram justificar essa anomalia; Koeppen (<em>Die Religion des Buddha</em>, I, 82) anota que na última versão da lenda o leproso, o morto e o monge são simulacros que as divindades produzem para instruir Siddhartha. Assim, no terceiro livro da epopéia sânscrita <em>Buddhacarita</em> está dito que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto era levado, a não ser o cocheiro e o príncipe. Numa biografia legendária do século XVI as quatro aparições são metamorfoses de um deus (Wieger: <em>Vies chinoises du Bouddha</em>, 37-41).</p>
<p>Mais longe havia ido o <em>Lalitavistara</em>. Dessa compilação de prosa e verso, escrita num sânscrito impuro, é costume falar com algum sarcasmo; em suas páginas a história do Redentor infla-se até a opressão e até a vertigem. O Buda, a quem rodeiam doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas, revela o texto da obra dos deuses; do quarto céu fixou o período, o continente, o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez; oitenta mil tambores acompanham as palavras do seu discurso e há no corpo de sua mãe a força de dez mil elefantes. O Buda, neste estranho poema, dirige cada etapa de seu destino; faz com que as divindades projetem as quatro figuras simbólicas e, quando interroga o cocheiro, já sabe quem são e o que significam. Foucher vê neste rasgo um mero servilismo dos autores, que não podem tolerar que o Buda não saiba o que sabe um servente; o enigma merece, em meu entender, outra solução. O Buda cria as imagens e logo em seguida pergunta a um terceiro o sentido que encerram. Teologicamente caberia talvez contestar: o livro é da escola de Mahayana, que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno; o do céu ordena as coisa, o da terra as padece e executa (nosso século, com outra mitologia ou vocabulário, fala do inconsciente). A humanidade do Filho, segunda pessoa de Deus, pôde gritar da cruz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste: O Buda, analogamente, pôde espantar-se das formas que havia criado sua própria divindade&#8230; Para desatar o problema, não são indispensáveis, ademais, tais sutilezas dogmáticas, basta recordar que todas as religiões do Hindustão, e em particular o budismo, ensinam que o mundo é ilusório. Minuciosa relação do jogo (de um Buda) representa o <em>Lalitavistara</em>, segundo Winternitz; um jogo ou um sonho é, para o Mahayana, a vida do Buda sobre a terra, que é outro sonho. Siddhartha elege sua nação e seus pais. Siddhartha lavra quatro formas que o encherão de espanto; Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras; tudo isso é razoável se o consideramos um sonho de Siddhartha. Melhor ainda se o considerarmos um sonho em que figura Siddhartha (da mesma forma que figuram o leproso e o monge) e que ninguém sonha, porque aos olhos do budismo do norte<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/formas-de-uma-lenda/#footnote_2_1477" id="identifier_2_1477" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Rhys Davids condena essa locu&ccedil;&atilde;o cunhada por Burnouf, por&eacute;m seu emprego nesta frase &eacute; menos inc&ocirc;modo que o de Grande Travessia ou Grande Ve&iacute;culo, que teriam detido o leitor.">3</a></sup> o mundo e os prosélitos e o Nirvana e a roda das transmigrações e o Buda são igualmente irreais. Ninguém se apaga no Nirvana, lemos num tratado famoso, porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como o desaparecimento de uma fantasmagoria que um feiticeiro numa encruzilhada cria por artes mágicas, e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade, mero nome, e também o livro que o declara e o homem que o lê. Paradoxalmente, os excessos numéricos do poema subtraem, não acrescentam, realidade; doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo XII inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros, de 9 a 49, 51 e 53) são vastas e monstruosas bolhas de sabão, ênfases do Nada. O irreal foi assim fraturando a história; primeiro tornou fantásticas as figuras, depois o príncipe e, com o príncipe, todas as gerações e o universo.</p>
<p>No final do século XIX Oscar Wilde propôs uma variante; o príncipe feliz morre na reclusão do palácio sem ter descoberto a dor, porém sua efígie póstuma a contempla do alto do pedestal.</p>
<p>A cronologia do Hindustão é incerta; minha erudição muito mais; Koeppen e Hermann Beckh serão talvez tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota; não me surpreenderia se minha história da lenda fosse ela mesma legendária, feita de verdade substancial e erros acidentais.</p>
<p><small><strong>Jorge Luis Borges</strong>, Otras Inquisiciones (1952)</small></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1477" class="footnote">Este sonho é, para nós, uma mera fealdade. Não é assim para os hindus: o elefante, animal doméstico, é símbolo de mansidão; a multiplicação de dentes de marfim não tem como incomodar os espectadores de uma arte que, para sugerir que Deus é o todo, lavra figuras de múltiplos braços e rostos; o seis é número habitual (seis vias de transmigração; seis Budas anteriores ao Buda; seis pontos cardeais, contando o zênite e o nadir: seis divindades que o Yajurveda chama de as seis portas de Brahma).</li><li id="footnote_1_1477" class="footnote">Esta metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar, rodas ou cilindros que giram ao redor de um eixo, cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. Algumas são manuais; outras são como grandes moinhos, e move-as a água e o vento.</li><li id="footnote_2_1477" class="footnote">Rhys Davids condena essa locução cunhada por Burnouf, porém seu emprego nesta frase é menos incômodo que o de Grande Travessia ou Grande Veículo, que teriam detido o leitor.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A feira de livros de Can&#8217;acre</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Sep 2007 09:01:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Para Mark Carpenter Quando li não lembro onde que a paixão por livros é a mais avassaladora de todas as paixões pensei eu gostaria de ter escrito isso, mas esse é um pensamento que me assalta com tanta freqüência que não lhe atribuo nenhuma significação especial; nada o distingue de outras fugidias falsas reminiscências e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>Para Mark Carpenter</small> </p>
<p>
<p style="text-align: left"><span style="padding-right: 5px; font-size: 80px; float: left; padding-bottom: 11px; color: #d4d4c7; line-height: 63px; padding-top: 2px; font-family: georgia, times">Q</span>uando li não lembro onde que a paixão por livros é a mais avassaladora de todas as paixões pensei <i>eu gostaria de ter escrito isso</i>, mas esse é um pensamento que me assalta com tanta freqüência que não lhe atribuo nenhuma significação especial; nada o distingue de outras fugidias falsas reminiscências e pequenas invejas que constituem o meu limitado estro intuitivo e o ruído de fundo de minhas emoções, que, pesado tudo, são literárias todas elas. Os livros tiraram-me da maneira mais justa e completa tudo que me deram: a literatura foi o augúrio que me conduziu a Deus, a ninfa cuja mão me mostrou o amor, o companheiro de espada que me desafiou à lealdade, o adversário que me acendeu a paixão, a amante que me ensinou o tédio. Em troca dessa glória as estantes me varreram, espoliaram e exauriram, devassaram meu universo interior, levando cativa minha vontade e negando-se a deixar em meu poder qualquer fiapo de autenticidade que pudesse ter peso ou validade na vida real. Hoje tudo que sou e que sinto é regido pelo jogo vão da literatura, pela ardente cobiça das ordens de palavras que com resignado afeto sonho serem minhas; sustentado, mantido vivo pela busca pelo assombro definitivo, o prazer e o horror de ler o que eu gostaria de ter escrito,<i> </i>de encontrar aquela frase, aquela particular e assombrosa escolha de palavras que não me ocorreu ter disposto daquela forma mas que já era minha idéia, minha potencial idéia, à espreita por trás dos meus pensamentos, pesada e furtiva e sem jamais vir à tona como a <i>Fera na Selva</i> de Henry James.
<p>Sonhei com Can&#8217;acre e com sua Feira muito antes de pisar os losangos de pedra que pavimentam suas angulosas esquinas. Sonhei-a anônima e imponderável: encontrá-la, sabê-la real no mundo real, foi um necessário e previsível e surreal anticlímax. Se a negra, tortuosa Feira tivesse permanecido sem nome e sem realidade no âmbito da obra menor que são os sonhos, seu fascínio não seria talvez inferior e eu não seria mais feliz.
<p>Não previ, é claro, suas coordenadas no espaço; sonhei, no entanto, seus e temas e títulos, seus gigantescos galpões e estreitas estantes ao ar livre, seus negros volumes; sonhei, com indelével clareza, a <i>sensação </i>dela. E quando digo <i>sonhei</i> falo de sonho no sentido primário, a atividade noturna e talvez física, em oposição ao devaneio da imaginação.
<p>Não fui capaz de imaginar a Feira; ela teve de se revelar a mim, ambas as vezes.
<p>Esclareço essas declarações nesta breve nota, e o que justificará talvez o leitor será saber que minha pobre introdução é também minha pobre história; Can’acre e seu sonho são apenas o ícone final, a última pá de terra cansada sobre o túmulo de minha obsessão.
<p>Com oito ou nove anos a literatura já havia me arrancado da maneira mais irreversível a virgindade do pensamento. O orgasmo definitivo, a definitiva ruína, conheci na tarde em que pisei sozinho pela primeira vez o assoalho rangente da escura e empoeirada casa de madeira que abrigava a vasta biblioteca do meu tio-avô, trazida de navio dos Estados Unidos, de onde ele trouxera também o diploma de doutor em Teologia.
<p>Quando mudei com meus pais para Curitiba, antes dos dez anos de idade, meu tio-avô ainda era vivo e morava sozinho por trás de persianas cerradas. A diabetes havia arrancado seus olhos e a artrite suas forças, e que eu soubesse ele só voltava a existir nos breves momentos em que um parente ou conhecido eventual vinha ler, em inglês insuficiente, as obras que ele pedia. Como Borges entre as altas estantes da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, mas na decrépita casa descascada dos fundos do terreno da minha avó, meu tio-avô era uma encarnação do arquétipo do cego em sua biblioteca.
<p>Meu tio não recebia crianças nem mortais que não falassem inglês. Meus primeiros contatos com sua biblioteca e seus sagrados volumes foram nas breves mas diárias visitas que eu fazia à casa, levando a bandeja com nabos mergulhados no leite que minha vó lhe preparava. Enquanto ele cheirava o prato por trás de inquietos olhos cegos eu aguardava ali em pé, tentando não respirar, os olhos percorrendo ávidos os títulos nas estantes mais próximas. Nunca dissemos realmente nada um ao outro nessas ocasiões. Hoje quero crer que naqueles instantes nos unia – o velho de noventa anos e o menino de nove – uma silenciosa e trágica reverência pela solene massa de livros ao nosso redor, a consciência de que estávamos ambos tragicamente separados dela, ele porque lhe faltavam os olhos, eu porque me faltava o idioma.
<p>Os volumes viviam encarcerados atrás das portas envidraçadas de dez ou doze armários de madeira vermelha envernizada, altos, estreitos e idênticos. Logo os decorei: cada um tinha sete prateleiras e seis janelas retangulares de vidro, três em cada folha da porta. Que eu pudesse ver, todos os volumes eram de capa dura, alguns deles (os menos antigos) ostentando as cores vistosas e desenhos vigorosos daquela sobrecapa de papel que os americanos chamam de <i>dust jacket</i>.
<p>Por dois minutos diários eu andava a passos de lesma ao longo dos armários da sala, cabeça inclinada para passar os olhos pelas lombadas, deslizando por desconcertantes títulos dos quais eu não entendia uma palavra, a não ser um eventual <i>God</i> ou um evidente <i>Philosophy</i>. A maior parte dos volumes tinha mais de trinta anos, os mais antigos com capas escuras gravadas com ornamentos e letras douradas. Ali estava<i> The Golden Bough</i>, de Frazer, que mais tarde eu leria em português como <i>O Ramo Dourado</i> sem saber que se tratava do mesmo livro e que a esta altura eu seria capaz de lê-lo em inglês. Ali estavam os três volumes esverdeados das obras de Platão na tradução de Llewelyn e Vaughan, cujo <i>Fédon</i> me levaria às lágrimas nesta mesma sala anos depois. Mais adiante um pequeno e impossivelmente belo volume de poesias de Longfellow, que hoje sei ter sido editado por Nimmo em 1875. Ali estavam, incongruentemente, os dois volumes do <i>Manuale Tipografico </i>de Bodoni.
<p>E havia o cheiro. Se hoje eu sei que o Paraíso cheira a livros velhos, descobri-o nas crepitantes e pobres salas daquela casa escura. O paradoxo estava em que esse bordel da alma ficava a poucos passos de outra casa, também de madeira, mas oposta à casa dos livros no que tinha de luminosa e arejada e barulhenta. Nesta outra, emoldurados por janelas eternamente abertas, pululavam bolos e sucos e tios e netos, e reinava absoluta minha avó.
<p>Minha avó, que por anos a fio preparou os nabos no leite para o seu cunhado, meu tio-avô, o dono dos livros, o cego perdido em sua biblioteca, até o dia em que alguém entrou na casa dos fundos levando a bandeja de nabos (não fui eu) e não encontrou quem pudesse comê-los.
<p>Nessa mesma tarde, depois que levaram o corpo, entrei sozinho no seu santuário-casa-biblioteca e chorei por meu tio-avô, chorei sua cegueira e seu isolamento e os livros que ele deixou para trás, chorei porque ninguém além desse pobre e medíocre menino de dez anos, que não sabia ler inglês, era capaz de reconhecer a a importância e a santidade daquele lugar, chorei pela deleite egoísta que era ter uma biblioteca cega só para mim. De raiva, de alegria e de dor, abri um armário, peguei um livro, escondi-o dentro da camisa e nunca mais o devolvi. Lançando do limiar da porta um último olhar para as prateleiras inúteis e repletas, jurei com a patética convicção de Scarlet O’Hara que jamais voltaria a passar fome. Eu só entraria de novo naquela casa quando dominasse o idioma que me guiaria naquele labirinto de delícias.
<p>Menti.
<p>Muito antes de ser capaz de entender uma frase completa em inglês eu vinha folhear interminavelmente as páginas amareladas, examinar com apaixonado zelo os diagramas, as gravuras, os ornamentos, as ordeiras tabelas assinaladas pela palavra <i>Contents</i>, as citações latinas em itálico, as gravuras em bico de pena. Sentado no chão empoeirado ou empoleirado na cama, por cima dos acolchoados de pena, um único volume nas mãos, na réstia de sol de uma única brecha de janela, eu passava horas olhando as palavras. Minha fascinação não diminuía pela minha incapacidade de entender o que estava escrito; ao contrário, minha ignorância só fazia amplificar o que me pareciam as infinitas possibilidades daqueles textos. Era um peso maravilhoso, avassalador, pensar que <i>aquelas páginas podiam estar dizendo qualquer coisa</i>. Que narrativas fantásticas, que assombrosas teorias aquelas colunas de texto não ocultariam?
<p>Nos seis ou sete anos que se seguiram aprendi a língua inglesa para fazer jus àquela biblioteca. Durante esse período a biblioteca do meu tio-avô permaneceu, a não ser por minhas inócuas visitas, intocada e não-lida em sua solitária casa, seu destino final mergulhado num limbo judicial familiar que pendia alternadamente entre a discussão amigável e o litígio. Minha avó apenas tolerava que eu visitasse a casa; ela parecia ficar satisfeita se eu devolvesse obedientemente a chave no lugar e não roubasse mais do que um livro por visita.
<p>Quando ficou decidido que a velha casa seria derrubada e o seu espaço destinado a fins mais salubres, definiu-se também que os altos armários seriam divididos entre meus cinco tios, os sobrinhos do morto; quanto aos livros, a um irmão do meu pai (o pastor da família) couberam os circunspectos títulos de Teologia e a mim todo o resto – Platão e Shakespeare e Tennyson e Dante e Bertrand Russell e Emerson e Plotino e Marco Aurélio e Dante e Josefo e Plutarco e Samuel Johnson.
<p>No verso seis do capítulo onze da Carta aos Hebreus está escrito que para aproximar-se de Deus é necessário crer que ele existe e é recompensador dos que o buscam; o mesmo pode ser dito, com a mesma retórica e com a mesma e improvável esperança, sobre a busca da satisfação literária. Abri cada volume esperando encontrar ali uma <i>presença, uma feição</i> – uma pessoa, uma surpresa e um jogo; assim, não buscando Deus e não esperando encontrá-lo, vislumbrei na literatura as indefinidas e vastas credenciais de um outro invisível que me provocava e me recompensava e me amava e nutria. No universo de obras maiores mas desiguais da biblioteca do meu tio, aprendi a reconhecer entre uma passagem e outra a voz marcada, equilibrada e fluente do <i>Narrador</i>, o prosador último, o outro do outro lado, meu interlocutor (ao mesmo tempo recordado e imaginado). Aprendi a reconhecer a sutileza de suas inflexões, aprendi a não perder o fio do seu sarcasmo; memorizei a rouquidão de sua prosa, o estalo de prazer na sua língua – suas pausas, suas ênfases e suas obsessões.
<p>Que eu não o encontraria em todas as páginas, nem mesmo na maior parte delas, ficou claro logo de início. A brutal experiência ensinou-me, no entanto, a rastreá-lo; guiava-me menos seu fluido vocabulário do que o caráter inconfundível de seus tópicos, suas inversões, suas estudadas marcações, sua cadência. Senti o pulso do Narrador na nobre dramaturgia do <i>Fédon</i> de Platão, mas perdio-o de vista meia jornada adentro da <i>República</i>; só reencontrei-o, dias depois, na lucidez dos sete primeiros parágrafos de<i> O Demônio da Perversidade</i> de Poe, de 1850. Ouvi sua tranqüila respiração na apaixonada sensatez de Toynbee, mas por angustiantes intervalos ela foi sufocada pela ironia de Wells.
<p>Com o tempo, com o empilhar de volumes e o grifar dos lápis, aprendi a reconhecer uma frase ou um parágrafo do Narrador, a ser capaz de diferenciar de imediato um original de uma impostura.
<p>O Narrador, por exemplo, diz (via Sócrates, via Platão, via F. J. Church)
<p><i>As long as the sight of one thing brings another thing to your mind, there must be recollection, whether or no the two things are alike,</i>
<p>mas jamais diria (com Emerson)
<p><i>Shakespeare, Homer, Dante, Chaucer, saw the splendour of meaning that plays over the visible world; knew that a tree had another use than for apples, and corn another than for meal, and the ball of the earth, than for tillage and roads; that these things bore a second and finer harvest to the mind, being emblems of its thoughts, and conveying in all their natural history a certain mute commentary on human life.</i>
<p>Ele diz (com Bernard Shaw em <i>Man and Superman</i>)
<p><i>He is carefully dressed, not from the vanity that cannot resist finery, but from a sense of the importance of everything he does which leads him to make as much of paying a call as other men do of getting married or laying a foundation stone,</i>
<p>mas jamais diria (com Bernard Shaw em <i>Man and Superman</i>)
<p><i>Two other chairs are against the wall between the busts.</i>
<p>Na <i>Conferência dos Pássaros</i> de Farid ud-Din Attar está contada a história de um homem que encontrou Majnun peneirando terra na beira de uma estrada. “O que você está procurando?” perguntou o homem. “Estou procurando [minha amada] Laïla”, ele respondeu. “E você espera encontrá-la aqui?” insistiu o homem. “Procuro-a em todos os lugares”, replicou Majnun, “na esperança de encontrá-la em algum”.
<p>Reconheci nessas linhas o estilo acústico e inimitável do Narrador, e percebi que com essa história ele me fornecia uma ferramenta, uma evidente mas apropriada metáfora da minha própria busca. Instruído por ele mesmo, passei a procurá-lo em todos os lugares, na esperança de encontrá-lo em algum.
<p>Na virada dos meus trinta anos a populosa mas finita biblioteca esgotou-se, e perdi de vista o Narrador quando virei a última página do último volume d<i>A História do Declínio e da Queda do Império Romano</i> de Gibbon.
<p>Desnecessário dizer que minha obsessão pela satisfação literária havia ultrapassado as proporções de vício; a súbita ausência do Narrador assassinou-me. Peneirar a terra do caminho em busca dele pareceu-me uma opção tão razoável quanto deve ter parecido a Majnun;<i> o absurdo</i>, eu entendia agora, <i>é ter de ser privado de Laïla</i>.
<p>E peneirar a terra foi o que passei a fazer. Decidi dedicar a vida a essa empresa, de antemão inútil: canalizar todos os recursos disponíveis, e mais, à patética tentativa de reencontrar o Narrador. Para ser justo preciso dizer que encontrei-o fora dos limites daquela biblioteca original, em pelo menos duas ou três ocasiões memoráveis: ocorrem-me agora, naturalmente, a prosa de Borges, a de Lovecraft, a de Joseph Campbell (que, previsível mas tragicamente, esgotaram-se também).
<p>Encontrei traços do Narrador em Conrad, em Ende, em Bradbury, em Thomas Ligotti. À parte dessas e de outras poucas exceções, no entanto, a literatura contemporânea provou-se deserto, a palavra aplicada aqui sem qualquer força de metáfora. A tarefa de peneirar terra de verdade à beira de uma estrada de verdade teria se mostrado talvez menos frustrante; teria pelo menos me colocado mais próximo de Majnun, mais próximo de Attar, mais perto do Narrador.
<p>Borges conduziu-me a William James, às rudes <i>kenningar</i> do norte, às tragédias da honra no Japão, às Mil e Uma Noites. Devo a ele e a Campbell as breves mas eloqüentes encarnações do Narrador que testemunhei nessas e em outras literaturas. Li <i>As Lendas dos Judeus, </i>li <i>O</i> <i>Épico de Gilgamesh </i>e li o <i>Alcorão</i>, mas todos cometeram a impudícia de se esgotarem. Passado tempo suficiente não havia tradição que eu não houvesse devassado, período histórico que eu não houvesse percorrido, obra menor que eu não houvesse assimilado.
<p>Fernando Pessoa veio e passou.
<p>Silenciou-se, para todos os efeitos, a voz do Narrador. Cessou para mim a literatura, vedou-se o acesso ao pequeno prazer da surpresa e ao infinito deleite do reconhecimento. Continuei a capturar frases avulsas do Narrador numa ou outra página moderna, uma curta zombaria, uma falsa promessa – mas era pouco, aquilo era pouco.
<p>Borges falou-me, não lembro onde, de alguém que gostaria de ser capaz de esquecer <i>As Mil e Uma Noites</i> só para ter o prazer de lê-las novamente pela primeira vez. Entendi de imediato esse sentimento, e sabia que era o Narrador que zombava de mim com a ironia. Meras palavras haviam me seduzido, enriquecido e moldado, e traído.
<p>Quando tive o sonho, aos vinte anos de idade, sonhei-o duas noites seguidas, ou talvez duas vezes na mesma noite. No sonho eu estava em Paris (eu nunca havia estado em Paris, mas sabia que estava em Paris), e na manhã ou entardecer de Paris eu andava entre ruas estreitas e prédios assobradados, na companhia de alguém de que não me lembro ou que talvez não estivesse lá.
<p>Parei numa esquina diante da vitrine de uma livraria pequena, nostálgica mas muito arejada, guarnecida por colunas desordenadas de volumes empilhados na horizontal. No alto da pilha mais próxima vi, através do vidro do sonho, um volume de tamanho médio, de capa dura, a capa de trás virada para cima. A <i>dust-jacket </i>era em duas cores, preta na metade de cima, vermelha na de baixo, os caracteres brancos. Aproximei-me de imediato e o deslumbramento do sonho está em que não fui capaz de entender o que estava escrito. Com a convicção ao mesmo infundada e completa dos sonhos eu sabia que aquilo era francês, mas não o francês da vida real (que eu não compreendia, mas cuja sonoridade e cor eu já conhecia): um francês de sonho, incompreensível, suficiente, absoluto. O meu assombro diante daquele desconhecido foi completo e avassalador, e esgotou num único soluço de esperança as sensações possíveis da existência.
<p>Virei-me, e vi que as ruas estreitas haviam dado lugar a um grande pátio ensolarado, com enormes galpões e cilos ao fundo, o calçamento de paralelepípedo tomado por altas estantes de livros assando no sol da manhã. Homens de sobretudo e mulheres de calções de seda percorriam os claros corredores sondando, folheando, pechinchando, peles e páginas tremendo na excitação da brisa.
<p>E só.
<p>Março de 2002 em Paris, a Paris da vigília, eu estava sentado no coquetíssimo <i>Café Littéraire</i> do <i>Salon du Livre</i>, aguardando o início de um fórum qualquer enquanto revia as anotações que trazia da<i> Buchmesse</i> de Leipzig. Mais cedo naquele dia eu havia sido apresentado a um editor associado da <i>Societe des Auteurs et Compositeurs Dramatiques, </i>um magro e irriquieto jovem marselhês chamado Jean Alègre.
<p>Foi ele quem me encontrou e, sem dizer uma palavra, puxou uma cadeira e sentou-se, os braços cruzados apoiados nas coxas.
<p>– Entediado? – ele anunciou em zombeteiro francês.
<p>– Plenamente – sorri, levantando os olhos e colocando de lado as anotações.
<p>As afinidades improváveis que haviam surgido no nosso contato à mesa do café da manhã eram suficientes, ambos sabíamos, para que nos sentissemos agora à vontade na presença um com o outro, e isso (estava implícito) era por si só recompensa maior do que qualquer coisa que se pudesse esperar de um evento como aquele.
<p>A princípio haviam-se levantado trivialidades apenas interessantes, como o fato de Jean Alègre ter uma tia no Rio de Janeiro e eu uma irmã em La Seyne-sur-Mer. Depois, com a imponderada ousadia de estranhos que não esperam encontrar-se novamente, havíamos descoberto que compartilhávamos dos mesmos gostos por autores clássicos, ternos antiquados e escuros, programas de rádio dos anos 40, a aversão a aglomerações e o desprezo por trivialidades apenas interessantes.
<p>Como o tema do <i>Salon</i> daquele ano era <i>L&#8217;Italie à l&#8217;honneur</i>, eu não havia hesitado em mencionar Dante e <i>Orlando Furioso</i>; havia enfatizado o caráter perturbadoramente contemporâneo das reflexões<i> </i>de Marco Aurélio, e Jean anunciara que estava relendo as <i>Meditações </i>na tradução passável de um volume (o segundo) dos <i>Harvard Classics, </i>de 1910, que tirara da pasta para me mostrar, o dedo acariciando a deliciosa rubrica de<i> </i>P.F. COLLIER &amp; SON COMPANY.
<p>– “Begin the morning by saying to thyself, I shall meet with the busybody, the ungrateful, arrogant, deceitful, envious, unsocial” – ele havia citado num inglês imperfeito e bem-humorado, enquanto passava geléia cor de sangue numa instável torrada.
<p>– Apropriado – eu dissera.
<p>Horas mais tarde, portanto, no burburinho que anunciava a entrada de algum autor célebre no <i>Café Littéraire, </i>Jean fez-me uma oferta cujos termos não tenho permissão de divulgar, apertou-me a mão e desapareceu num apinhado corredor.
<p>Seria inútil, talvez improcedente, descrever com a brutal precisão de uma novela contemporânea a curiosa viagem de automóvel que empreendemos cedo na manhã seguinte. Deixarei que a embeleze a imaginação do leitor: que proveja o necessário sigilo, o tédio, o calor, as poucas palavras, a possível tensão. Os mais ousados intuirão minha calma, meu profético bem-estar.
<p>Depois de duas ou três horas Jean Alègre parou o carro. Pela janela aberta entrava o ventoso silêncio do que podia ser uma pequena cidade ou uma animada zona rural. Ele anunciou que eu podia finalmente <i>olhar.</i>
<p>Estávamos, disse-me, em Can&#8217;acre.
<p>Deixamos o carro numa esquina na orla da cidade e percorremos ruas estreitas e populosas até a praça central. Ali, como em todo o caminho, encontramos ruas e calçadas tomadas por frágeis estantes dobráveis de madeira, cada estante tomada por livros de todos os tamanhos, os maiores ostentando elaboradas capas negras esculpidas com criaturas fantásticas em <i>papier-maché</i>, os menores varados por belíssimos ornamentos de douradas filigranas.
<p>Muito antes de chegarmos à vasta praça central além dos repletos galpões e cilos, mesmo talvez antes de abrir ao acaso um volume e deparar-me com as esperadas palavras num idioma desconhecido, eu já havia intuído por completo Can&#8217;acre e sua feira. Meu sonho, previsivelmente, havia invadido a realidade; a realidade, de forma imprevisível, havia sido invadida pelo sonho de outrem.
<p>Em Can&#8217;acre (ignoro seu nome verdadeiro), uma cidadezinha muito real a duas ou três horas de viagem de Paris, todos são filólogos, todos escritores e – naturalmente – todos tipógrafos. Nas casas abundam as prensas, os tipos móveis, as colas, as pilhas de papel, as escrivaninhas, os tinteiros, talvez até, Deus nos livre, os computadores pessoais. Periodicamente (quem sabe todos os dias, não tenho como saber) cada habitante/autor/editor apresenta seus incompreensíveis e belamente pretensiosos volumes na despretensiosa Feira. Cada volume é, tanto quanto eu saiba (Jean Alègre apressou-se em não me dar explicações), único e perfeito e bem-cuidado e perfeitamente compreensível para o seu autor. Ignoro se os idiomas de Can&#8217;acre são peculiares às suas obras ou a seus autores; basta-me saber, com a mesma e imediata convicção que se abateu sobre mim naquela manhã, que cada livro da Feira é uma uma obra real, estanque, ininteligível mas perfeitamente decifrável –<i> e pode estar dizendo qualquer coisa.</i>
<p>Abri mão naquele dia, como Jean Alègre já fizera antes de mim, do terrível privilégio de morar em Can&#8217;acre. Ao contrário dele, nunca voltei à Feira. O grosso volume que roubei da prateleira mais alta de uma precária estante numa ensolarada esquina (pois a moeda de Can&#8217;acre é o furto), que trago comigo em todas as minhas cabeceiras e que só ousei folhear uma vez (temeroso de intuir uma palavra, deparar-me com a chave do seu código ou compreender o seu assunto), é testemunho suficiente do assombro possível.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug009.gif"></p>
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		<title>O que dura uma idéia</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Dec 2006 02:12:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>

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		<description><![CDATA[[Sexto Empírico] (Adversus mathematicus, XI, 197) nega o passado, que já foi, e o futuro, que não é ainda, e argumenta que o presente ou é divisível ou é indivisível. Não é indivisível, pois nesse caso não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro; não teria sequer meio, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[<a href="http://es.wikipedia.org/wiki/Sexto_Emp%C3%ADrico">Sexto Empírico</a>] (<em>Adversus mathematicus,</em> XI, 197) nega o passado, que já foi, e o futuro, que não é ainda, e argumenta que o presente ou é divisível ou é indivisível. Não é indivisível, pois nesse caso não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro; não teria sequer meio, porque não tem meio o que carece de princípio e fim. Tampouco é divisível, pois nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. <em>Ergo,</em> o presente não existe, mas como tampouco existem o passado e o porvir, o tempo não existe.</p>
<h5>O tempo não existe.</h5>
</p>
<p>F. H. Bradley redescobre e melhora essas perplexidades. Observa (<em>Appearance and Reality</em>, IV) que se agora é divisível em outros agoras, não é menos complicado do que o tempo, e que se é indivisível, o tempo é uma mera relação entre coisas intemporais.</p>
<p>Tais raciocínios, como se vê, negam as partes para negar o todo; eu rechaço o todo para exaltar cada uma das partes. Pela dialética de Berkeley e Hume cheguei ao ditame de Schopenhauer: &#8220;A forma da manifestação da vontade é apenas o presente, não o passado nem o porvir; esses não existem a não ser para a conceituação e para o encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado e ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida, é uma possessão de que nenhum mal lhe pode arrebatar&#8230; O tempo é como um círculo que gira infinitamente: o arco que desce é o passado, o que ascende é o porvir; acima deles há um ponto invisível que toca a tangente e que é o agora. Imóvel como a tangente, esse ponto sem extensão marca o contato do objeto, cuja forma é o tempo, com o sujeito, que carece de forma, porque não pertence ao cogniscível e é condição prévia do conhecimento&#8221; (<em>Welt als Wille und Vorstekkung,</em> I, 54).</p>
<h5>A vida de um ser dura o mesmo que uma idéia.</h5>
</p>
<p>Um tratado budista do século quinto, o <em>Visuddhimagga (Caminho da Pureza)</em>, ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: &#8220;Estritamente falando, a vida de um ser dura o mesmo que uma idéia. Como a roda da carruagem, ao girar, toca a terra em apenas um ponto, dura a vida o que dura uma única idéia&#8221; (Radhakrishnan: <em>Indian Philosophy,</em> I, 373).</p>
<p>Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis mil e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão, vertiginosamente fabricada por uma série de homens momentâneos e solitários. &#8220;O homem de um momento passado &#8211; adverte-nos o <em>Caminho da Pureza,</em> &#8211; viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá&#8221; (obra citada, I, 407), sentença que podemos comparar a esta de Plutarco (<em>De E apud Delphos,</em> 18): &#8220;O homem de ontem morreu no de hoje, e o de hoje morre no de amanhã&#8221;.</p>
<h5>O homem de um momento passado viveu, mas não vive e não viverá; o homem de um momento futuro viverá, mas não viveu e não vive; o homem do momento presente vive, mas não viveu e não viverá.</h5>
</p>
<p><em>And yet, and yet&#8230;</em> Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico, são desesperações aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é espantoso por ser irreal; é espantoso porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, porém eu sou o rio; é um tigre que me devora, porém eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><strong>Jorge Luis Borges,</strong> <em>Nova refutação do tempo,</em> 1946</small></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug063.gif" alt="" width="45" height="66" /></p>
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		<title>A força do leão</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Nov 2006 08:35:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>

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		<description><![CDATA[Os filósofos do país de que estou falando leram O Ramo Dourado de Frazer e concluíram que a ciência é a mais insidiosa e inatural das superstições. O homem primitivo cria enxergar alguma relação secreta e invisível entre matar um leão ou vestir sua pele e herdar sua força; da mesma forma crêem os cientistas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os filósofos do país de que estou falando leram <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Golden_Bough">O Ramo Dourado</a> de Frazer e concluíram que a ciência é a mais insidiosa e inatural das superstições. O homem primitivo cria enxergar alguma relação secreta e invisível entre matar um leão ou vestir sua pele e herdar sua força; da mesma forma crêem os cientistas existir uma relação direta e rigorosa entre o pressionar do interruptor e o acender da lâmpada, entre a aplicação da vacina e a produção dos anticorpos, entre a passagem do tempo e a luz das estrelas. Porém quem pode afirmar, sem recorrer à superstição ou à metáfora, haver alguma relação verdadeira entre uma coisa e outra? O cientista dirá que se pode provar empiricamente, isto é, pela experiência, que, mantidas as demais condições do sistema, a mesma receita produzirá sempre o mesmo bolo, e que essa teimosa coincidência comprova a relação mágica que ele acredita existir. Não será isso, ponderaram nossos filósofos, incorrer em magia simpática e petição de princípio? De que modo, em qual universo, pode-se conceber a terrível abstração que seria &#8220;manter-se as condições do sistema&#8221;? Os selvagens estão em posição ideológica mais confortável: para comprovar <em>empiricamente</em> a relação entre a força do homem a força do leão bastava, é claro, matar o leão.</p>
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		<title>Três versões de Judas</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Nov 2006 08:01:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[There seemed a certainty in degradation.T. E. Lawrence, Seven Pillars of Wisdom, CIII Na Ásia Menor ou em Alexandria, no segundo século de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou perversa improvisação de anjos deficientes, Niels Runeberg teria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe teria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:right;"><small> There seemed a certainty in degradation.<br /><strong>T. E. Lawrence,</strong> Seven Pillars of Wisdom, CIII </small></p>
<p>Na Ásia Menor ou em Alexandria, no segundo século de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou perversa improvisação de anjos deficientes, Niels Runeberg teria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe teria destinado, talvez, um sepulcro de fogo; seu nome aumentaria os catálogos dos heresiarcas menores, entre Saturnilo e Carpócrates; algum fragmento de suas prédicas, exonerado de injúrias, perduraria no apócrifo <em>Liber adversus omnes haereses</em> ou teria perecido quando o incêndio de uma biblioteca monástica devorou o último exemplar do <em>Syntagma.</em> Em troca, Deus lhe concedeu o século vinte e a cidade universitária de Lund. Aí, em 1904, publicou a primeira edição de <em>Kristus och Judas;</em> aí, em 1909, seu livro capital <em>Den hemlige Frälsaren.</em> (Deste último tenho a tradução alemã, executada em 1912 por Emili Schering; chama-se <em>Der heimliche Heiland.)</em></p>
<p>Antes de ensaiar um exame dos mencionados trabalhos cabe repetir que Nils Runeberg, membro da União Evangélica Nacional, era profundamente religioso. Num grêmio de Paris ou de Buenos Aires um literato poderia muito bem redescobrir as teses de Runeberg; essas teses, propostas num grêmio, seriam exercícios ligeiros de negligência ou de blasfêmia. Para Runeberg, foram a chave que decifra um mistério central da teologia; foram matéria de meditação e análise, de controvérsia histórica e filológica, de soberba, de júbilo e terror. Justificaram e arruinaram sua vida. Quem recorrer a este artigo deve também considerar que ele registra tão-somente as conclusões de Runeberg, não sua dialética e suas provas. Alguém possivelmente observará que a conclusão precedeu sem dúvida as &#8220;provas&#8221;. Quem se resigna a buscar provas de algo em que não crê ou cuja prédica não lhe importa?</p>
<h5>Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas.</h5>
</p>
<p>A primeira edição de <em>Kristus och Judas</em> leva esta catégorica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria monstruosamente o próprio Nils Runeberg: <em>Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas</em> (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou a Jesus Cristo a fim de forçá-lo a declarar a sua divindade e acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma justificação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superfluidade do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que pregava diariamente na sinagoga e que operava milagres diante de concursos de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um acontecimento casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Portanto a traição de Judas não foi casual: foi um ato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Prossegue Runeberg: o Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiqüidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à carne; para corresponder a tal sacrifício era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a reprovação. Assim elucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.</p>
<p>Os teólogos de todas as confissões o refutaram. Lars Peter Engström acusou-o de ignorar, ou de preterir, a união hipostática; Axel Borelius, de renovar a heresia dos docetas, que negaram a humanidade de Jesus; o contundente bispo de Lund, de contradizer o terceiro versículo do capítulo 22 do evangelho de Lucas.</p>
<p>Esses variados anátemas influenciaram Runeberg, que parcialmente reescreveu o livro reprovado e modificou sua doutrina. Abandonou a seus adversários o terreno teológico e propôs oblíquas razões de ordem moral. Admitiu que Jesus, &#8220;que dispunha dos consideráveis recursos que a onipotência pode oferecer&#8221;, não necessitava de um homem para redimir a todos os homens. Rebateu, em seguida, os que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, para curar os enfermos, para limpar os leprosos, para ressuscitar os mortos e para expulsar demônios (Mateus 10:78; Lucas 9:1). Um homem a quem o Redentor concedeu tal distinção merece de nós melhor interpretação de seus atos. Imputar seu crime à cobiça (como tem feito alguns, alegando João 12:6) é resignar-se ao motivo mais torpe. Nils Runeberg propõe o motivo contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo. O asceta, para maior glória de Deus, envilece e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer<sup><a href="#fn1">1</a></sup>. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. Do adultério costumam participar a ternura e a abnegação; do homicídio, a coragem; das profanações e da blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas que não são visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Trabalhou com gigantesca humildade, creu-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: <em>Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor</em> (1 Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino que não devem usurpar os homens<sup><a href="#fn2">2</a></sup>.</p>
<h5>Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu.</h5>
</p>
<p>Muitos tem descoberto, <em>post factum,</em> que nos justificáveis começos de Runeberg está seu extravagante fim, e que <em>Den hemlige Frälsaren</em> é uma mera perversão ou exasperação de <em>Kristus och Judas.</em> Ao fim de 1907 Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que o entregasse à prensa. Em outubro de 1909 o livro apareceu com um prólogo (tíbio ao ponto do enigmático) do hebraísta dinamarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: <em>Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu</em> (João 1:10). O argumento geral não é complexo, embora a conclusão seja monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem tendo em vista a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício realizado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu a uma tarde na cruz é blasfematório<sup><a href="#fn3">3</a></sup>. Afirmar que foi homem e incapaz de pecado encerra contradição; os atributos de <em>impeccabilitas</em> e de <em>humanitas</em> não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor podia sentir fadiga, frio, perturbação, fome e sede; também cabe admitir que poderia pecar e perder-se. O famoso texto <em>Brotará como raiz de terra sedenta; não tinha boa aparência nem formosura; desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer</em> (Isaías 53:2.3) é para muitos a previsão do crucificado na hora da morte; para alguns (por exemplo, Hans Lassen Martensen), uma refutação da formosura que o consenso popular atribui a Cristo; para Runeberg, é a profecia pontual não a respeito de um momento mas de todo o atroz futuro, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus se fez totalmente homem até a infâmia, homem até a reprovação e o abismo. Para salvar-nos, poderia ter eleito <em>qualquer</em> dos destinos que tramam a perplexa rede da história; poderia ter sido Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; escolheu um ínfimo destino: foi Judas.</p>
<p>Em vão propuseram essa revelação as livrarias de Estocolmo e de Lund. Os incrédulos a consideraram, <em>a priori,</em> um insípido e laborioso jogo teológico; os teólogos a desdenharam. Runeberg intuiu nessa indiferença ecumênica uma quase milagrosa confirmação. Deus ordenava essa indiferença; Deus não queria que se propagasse na terra seu terrível segredo. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora. Sentiu que estavam convergindo sobre ele antigas maldições divinas; recordou Elias e Moisés, que na montanha esconderam o rosto para não ver a Deus; Isaías, que aterrorizou-se quando seus olhos viram aquele cuja glória enche a terra; Saulo, cujos olhos quedaram cegos na estrada de Damasco; o rabino Simeon ben Azai, que viu o Paraíso e morreu; o famoso feiticeiro João de Viterbo, que enlouqueceu quando pôde ver a trindade; os midrashim, que abominam os ímpios que pronunciam o <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/lutero-alerta-os-alemaes">Shem Hamephorash</a>, o nome secreto de Deus. Não seria ele acaso culpado desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, que não será perdoada (Mateus 12:31)? Valério Sorano morreu por ter divulgado o nome oculto de Roma; que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o terrível nome de Deus?</p>
<p>Ébrio de insônia e de vertiginosa dialética, Nils Runeberg morreu pelas ruas de Malmö, rogando em altos brados que lhe fosse concedida a graça de compartilhar com o Redentor do inferno.</p>
<p>Morreu do rompimento de um aneurisma a primeiro de março de 1912. Os heresiólogos haverão talvez de recordá-lo; agregou ao conceito do Filho, que parecia esgotado, as complexidades do mal e do infortúnio.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Jorge Luis Borges,</strong> 1944 </small></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug023.gif" alt="" width="67" height="150" /></p>
<p>
<p id="fn1"><sup>1</sup> Borelius interroga com desdém: <em>Por que não renunciou a renunciar? Por que não renunciar a renunciar?</em></p>
<p>
<p id="fn2"><sup>2</sup> Euclides da Cunha, num livro ignorado por Runeberg, anota que para o heresiarca de Canudos, Antônio Conselheiro, a virtude &#8220;era quase uma impiedade&#8221;. O leitor argentino recordará passagens análogas na obra de Almafuerte. Runeberg publicou, no panfleto simbolista <em>Sju insegel,</em> um assíduo poema descritivo, <em>A água secreta;</em> as primeiras estrófes narram os acontecimentos de um dia tumultuoso; as últimas, a descoberta de um lago glacial; o poeta sugere que a perduração dessa água silenciosa corrige nossa inútil violência e de algum modo a permite e a absolve. O poema conclui assim: <em>A água da selva é feliz; podemos ser malvados e dolorosos.</em></p>
<p>
<p id="fn3"><sup>3</sup> Maurice Abramowicz observa: <em>Jésus, d&#8217;aprés ce scandinave, a toujours le beau rôle; ses déboires, grâce à la science des typographes, jouissent d&#8217;une réputabon polyglotte; sa résidence de trente­trois ans parmi les humains ne fut en somme, qu&#8217;une villégiature</em>. Erfjord, no terceiro apêndice da <em>Christelige Dogmatik</em> refuta essa passagem. Anota que a crucificação de Deus não cessou, porque o que aconteceu uma só vez no tempo se repete sem trégua na eternidade. Judas, <em>agora,</em> segue cobrando as moedas de prata; segue beijando a Jesus Cristo; segue arremessando as moedas de prata no templo, segue preparando o laço da corda no campo de sangue (Erfjord, para justificar essa afirmação, invoca o último capítulo do primeiro tomo da <em>Vindicação da eternidade</em> de Jaromir Hladík).</p>
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		<title>Milonga de Manuel Flores</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 10:29:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Manuel Flores vai morrerisso é moeda correntemorrer é costumeque sabe-se ter toda gente. E ainda assim dói em mimdespedir-me da vidaessa coisa tão de sempretão doce e tão conhecida Contemplo no alvorecer minhas mãoscontemplo nas mãos as veiascom estranheza as contemplocomo se fossem alheias. Virão os quatro tirose com os quatro o esquecimento;já disse o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Manuel Flores vai morrer<br />isso é moeda corrente<br />morrer é costume<br />que sabe-se ter toda gente.</p>
<p>E ainda assim dói em mim<br />despedir-me da vida<br />essa coisa tão de sempre<br />tão doce e tão conhecida</p>
<p>Contemplo no alvorecer minhas mãos<br />contemplo nas mãos as veias<br />com estranheza as contemplo<br />como se fossem alheias.</p>
<p>Virão os quatro tiros<br />e com os quatro o esquecimento;<br />já disse o sábio Merlin:<br />morrer é ter nascido.</p>
<p>Quanta coisa em seu caminho<br />estes olhos já viram!<br />Quem sabe o que verão<br />depois de julgado por Cristo.</p>
<p>Manuel Flores vai morrer<br />isso é moeda corrente<br />morrer é costume<br />que sabe-se ter toda gente.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Manuel Flores va a morir,<br />eso es moneda corriente;<br />morir es una costumbre<br />que sabe tener la gente.</p>
<p>Y sin embargo me duele<br />decirle adiós a la vida,<br />esa cosa tan de siempre,<br />tan dulce y tan conocida.</p>
<p>Miro en el alba mis manos,<br />miro en las manos las venas;<br />con estrañeza las miro<br />como si fueran ajenas.</p>
<p>Vendrán los cuatro balazos<br />y con los cuatro el olvido;<br />lo dijo el sabio Merlín:<br />morir es haber nacido.</p>
<p>¡Cuánto cosa en su camino<br />estos ojos habrán visto!<br />Quién sabe lo que verán<br />después que me juzgue Cristo.</p>
<p>Manuel Flores va a morir,<br />eso es moneda corriente:<br />morir es una costumbre<br />que sabe tener la gente.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small>Jorge Luis Borges</small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O evangelho de Borges</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jul 2006 09:37:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>

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		<description><![CDATA[Muito antes de me render de uma vez por todas à persuasão de Jesus, há cerca de dez anos, fui tocado irresistivelmente pelo evangelho segundo a obra do maior escritor menor de todos os tempos: o argentino universal Jorge Luis Borges. A boa nova de Borges é despretensiosa e transparente, o que não deixa de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muito antes de me render de uma vez por todas à persuasão de Jesus, há cerca de dez anos, fui tocado irresistivelmente pelo evangelho segundo a obra do maior escritor menor de todos os tempos: o <del>argentino</del> universal Jorge Luis Borges.</p>
<p>A boa nova de Borges é despretensiosa e transparente, o que não deixa de ser <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«Neste mundo a beleza é comum.»</span>notável num escritor que é lugar comum descrever como labiríntico. Sua expressão mais contundente, que eu saiba, encontra-se nesta declaração:  &#8220;Espero que o leitor descubra em minhas páginas algo que possa merecer sua memória; neste mundo a beleza é comum.&#8221;</p>
<p>De todas as frases, de todos os livros, de todas as páginas, de todas as épocas, não há frase que eu gostaria de ter escrito mais do que essa: <em>neste mundo a beleza é comum.</em></p>
<p>Não há sensatez maior, nem visão de mundo que mais se alinhe à dos evangelhos.</p>
<p>Borges cria que os parágrafos mais incompetentes, as poesias mais desajeitadas e as traduções mais distraídas não são imunes à beleza. Borges cria que a maior expressão de toda filosofia e de toda metafísica encontra-se nas narrativas do gênero menor que é a literatura fantástica. Borges cria que o melhor da produção literária da humanidade circulou como moeda comum muito antes de chegar a repousar entre capas duras: as lendas japonesas, os contos das mil e uma noites, as sagas nórdicas. Borges cria &#8211; perceba a horrenda ousadia, o impensável contrasenso &#8211; que a beleza é comum.</p>
<p>Um cego que enxergava a beleza em todo lugar &#8211; a imagem é tão piegas que não é impossível que seja capaz de nos desarmar.</p>
<p>Pois o evangelho de Borges, sua boa nova, é que neste mundo não há como escapar à beleza. Para onde fugirei da sua face? Se eu subir ao céu, lá a beleza está; se eu fizer no inferno a minha cama, ali ela está também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar &#8211; não há como se evadir ao seu regime. Salomão foi um sujeito elegante, mas nunca, jamais, em todo seu esplendor, chegou perto de ameaçar a carreira do mais rastaqüera lírio do campo.</p>
<p>É a velha boa nova do Reino, com que Jesus fendia nossas mais ternas convicções de que o mundo é uma ameaça e a felicidade uma pérola que poucos chegam a conhecer. </p>
<p>Deus não cessa de fazer o bem, blasfemava Jesus. Nada tem como dar errado. <em>Nada.</em> Não vos preocupeis com o dia de amanhã. Se vocês que são maus sabem dar aos seus filhos coisas boas, quanto mais o papai do céu. O mundo é um lugar insuportavelmente belo e seguro embalado pelo amor do Pai.</p>
<p>Diante disso restou ao monge, também citado incessantemente por Borges, suplicar: &#8220;Ah, Senhor, que não haja tanta beleza!&#8221; &#8211; que é, naturalmente, a segunda frase que eu mais desejaria ter escrito. Mas recolho-me e me conformo, não sem um sorriso. Num mundo em que a beleza é coisa rasteira deve haver frase melhor aguardando numa conversa de botequim, num capítulo de novela, num blog anônimo que não ocorre há meses a seu autor perder tempo para atualizar.</p>
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		<title>Como pensar sobre o governo</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jun 2006 11:24:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Traduzindo Borges]]></category>
		<category><![CDATA[borges]]></category>

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		<description><![CDATA[O argentino, à diferença dos americanos do norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode atribuir-se à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos, ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração (o Estado é impessoal: o argentino só concebe uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O argentino, à diferença dos americanos do norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode atribuir-se à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos, ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração (o Estado é impessoal: o argentino só concebe uma relação pessoal. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime).</p>
<p>O certo é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel, &#8220;o Estado é a realidade da idéia moral&#8221; parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood repetidamente propõem à admiração o caso de um homem (geralmente um repórter) que busca a amizade de um criminoso para entregá-lo depois à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma <em>máfia,</em> sente que esse &#8220;herói&#8221; é um incompreensível canalha.</p>
<p>[...]</p>
<p>O mundo, para o europeu, é um cosmos, em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do norte julgam que deverá ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer, o argentino admite a possibilidade de que não seja ruim, apesar do prêmio.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><a href="http://www.baciadasalmas.com/rubricas/goiabas-roubadas/traduzindo-borges">Jorge Luis Borges</a>, em 1946, escrevendo sem saber sobre as semelhanças entre brasileiros e argentinos. </small></p>
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