07 de Dezembro de 2011

A inconcebível figura

Traduzindo Borges

“O que é uma inteligência infinita?”, indagará talvez o leitor. Não há teólogo que não a defina; eu prefiro um exemplo. Os passos que dá um homem, desde o dia de seu nascimento até o da sua morte, desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens um triângulo. Esse desenho tem (quem sabe) sua determinada função na economia do universo.

Jorge Luis Borges, numa nota de rodapé

Leia também:
O desenho e seu nome
A peça ininterrupta

01 de Dezembro de 2011

Deus não escreve não-ficção; por que alguém deveria?

Traduzindo Borges

Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência, podemos supô-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; quando se rebaixa a raciocinar, sabemo-lo falível. A realidade procede dos fatos, não dos raciocínios; a Deus toleramos que se afirme “eu sou o que sou” (Êxodo 3:14), não que declare ou analise, como Hegel ou Anselmo, o argumentum ontologicum. Deus não deve teologizar; o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que exige de nós a arte. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não terminar de entendê-lo, parece confessar que este não é inevitável para ele. Desconfiamos de sua inteligência, do mesmo modo que desconfiaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. Deus, escreveu Spinoza (Ética 5:17), não odeia ninguém e não deseja ninguém.

Jorge Luis Borges, explicando porque os primeiros livros de H. G. Wells, que limitam-se a contar histórias e não se rebaixam a defender teses, são superiores aos demais. No processo, acaba esclarecendo porque Jesus só contou histórias. Ainda Otras Inquisiciones (1952).

29 de Novembro de 2011

Los más arduos pasajes

Traduzindo Borges

É ateu, mas sabe interpretar de um modo ortodoxo as mais árduas passagens do Alcorão, porque todo homem culto é um teólogo, e para sê-lo não é indispensável a fé.

Jorge Luis Borges, pausando sobre Omar Khayyām
em suas Otras Inqusiciones (1952)

08 de Agosto de 2009

Minha disciplina pessoal mais antiga

Manuscritos

78

Minha disciplina pessoal mais antiga é escrever histórias. Escrevo desde muito cedo, e contar histórias foi para mim uma resposta muito natural a um mundo generosíssimo que cercou-me de narrativas desde o berço, maravilhando-me e calibrando-me continuamente através delas. Nas canções de ninar, na literatura, nos filmes e séries da televisão, nas novelas e desenhos animados, no cinema, no teatro e na ópera (mais ou menos nesta ordem) fui encontrando um universo que dançava ao meu redor oferecendo-se para contar uma história sempre que eu me dispusesse a parar para ouvir. Escrever foi para mim uma forma de retribuir esse desprendimento, aceitando ao mesmo tempo o convite para brincar.

Muito cedo intuí que o mundo era um lugar seguro, porque fui percebendo que em todas as culturas – entre chineses e piratas, açougueiros e siberianos, deputados e cangaceiros, cantores de ópera e assassinos, debaixo de todas as arquiteturas e em todas os idiomas – as pessoas se alinhavam nisso, no interesse de ouvir histórias e de contá-las.

A não-ficção sempre foi para mim um interesse secundário, atividade mais ou menos empolada e incompreensível, e esse parecer não mudou muito com o passar do tempo. Na verdade, comecei a escrever ensaios e dissertações porque gente como Lovecraft e Borges tratavam de misturá-los à sua ficção, e eu queria imitá-los (e continuo, como vivo dizendo, tentando).

Escrevo desde os sete ou oito anos, mas tudo que concluí até hoje foram histórias pequenas e contos curtos. Já investi em narrativas ambiciosas, algumas delas bastante complexas, mas não cheguei a concluir nenhum dos grandes romances que idealizo e esboço desde os treze ou quatorze anos.

Agora que penso nisso: Cândida, um dos contos pseudo-borgianos que escrevi antes de completar dezoito anos e que ninguém além de mim chegou a ler, começa com uma frase pomposa que eu sabia ser profética e acurada mesmo então: Nada é certo sobre o homem que tem muitas histórias para contar, a não ser que morrerá sem tê-las contadas todas.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
05 de Maio de 2008

Uma nova religião

Traduzindo Borges

 

Apaixonar-se é criar uma religião cujo Deus é falível.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1952)