05 de Maio de 2008

Uma nova religião

Traduzindo Borges

 

Apaixonar-se é criar uma religião cujo Deus é falível.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1952)

28 de Abril de 2008

Céu e inferno

Traduzindo Borges

O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações ressurgirem do pó para acatar a Boca inapelável, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra do arqueiro persegue a sombra da corça, eternamente; nem a loba de fogo que no piso inferior dos infernos muçulmanos é anterior a Adão e aos castigos; nem metais violentos, nem sequer a treva visível de John Milton. Um odioso labirinto de tríplice ferro e fogo doloroso não oprimirá as almas atônitas dos réprobos.

Tampouco o fundo dos anos guarda um remoto jardim. Deus não precisa para alegrar os méritos do justo de esferas de luz, concêntricas teorias de tronos, potestades e querubins, nem o espelho ilusório da música nem as profundidades da rosa nem o esplendor desafortunado de um só de seus tigres, nem a delicadeza de um pôr-do-sol amarelo no deserto nem o sabor antigo e natal da água. Em sua misericórdia não há jardins nem luz de uma esperança ou de uma recordação.

Na janela de um sonho vislumbrei os prometidos Céu e Inferno: quando o juízo retumbar nas trombetas últimas e o planeta milenar for obliterado e bruscamente cessar o Tempo, as efêmeras pirâmides de cores e linhas do teu passado definirão na treva um rosto adormecido, imóvel, fiel, inalterável (talvez o da amada, quem sabe o teu) e a contemplação desse imediato rosto incessante, intato, incorruptível será, para os réprobos, Inferno; para os eleitos, Paraíso.

Jorge Luis Borges, Poemas (1954)

05 de Março de 2008

A fraternidade das letras

Manuscritos

Em Bauru, quando chegamos à cidade em 1979, não havia uma livraria de verdade e a biblioteca pública, que não era pequena, tinha menos livros interessantes do que a minha, que era. Enquanto me demorava a fazer amigos, eu passava o tempo sentindo falta da Biblioteca Pública de Londrina e da Livraria Ghignone de Curitiba, ambas vastas e inacessíveis.

O último – e único – reduto para ratos de livro como eu eram as três ou quatro estantezinhas de livros da papelaria Tilibra, que era a maior da região mas dedicava a melhor parte das suas instalações a produtos de giro mais certo. Meu problema era que, mesmo diante de oferta literária tão módica, eu não sabia que livros escolher, e não tinha dinheiro para testá-los todos.

Aquele, pode ser necessário lembrar, era o minúsculo e inconcebível mundo pré-internet; não havia uma grande e unânime ferramenta para guiar-nos pela mão e refinar-nos as preferências individuais. Praticamente não havia, fora a iniciativa das editoras, quem me recomendasse um livro ou um autor; não havia, que eu soubesse, autores com o gosto não-convencional que eu ainda não sabia que tinha, muito menos um público que os apreciasse. E, caso houvesse, eu não tinha como saber.

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18 de Fevereiro de 2008

Formas de uma lenda

Heresias Sensacionais, Traduzindo Borges

Às pessoas causa repugnância ver um ancião, um enfermo ou um morto, porém estão sujeitas à morte, às enfermidades e à velhice; o Buda declarou que esta reflexão o induziu a abandonar sua casa e seus pais e vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta em um dos livros do cânone; outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses; são um louco, um ancião recurvado, um inválido, um criminoso em tormentos e um morto, e avisam que nosso destino é nascer, caducar, enfermar, sofrer justo castigo e morrer. O Juiz das Sombras (na mitologia do Hindustão Yama desempenha esse cargo, porque foi o primeiro homem que morreu) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros; este admite que sim, porém não foi capaz de decifrar o aviso; os carrascos o encerram numa casa que está cheia de fogo. Quiçá o Buda não tenha inventado essa ameaçadora parábola; baste-nos saber que a proferiu (Majihima nikaya, 130) e que jamais a vinculou, talvez, à sua própria vida.

A realidade pode ser demasiado complexa para a transmissão oral; a lenda a recria de uma maneira que apenas acidentalmente é falsa e que a permite andar pelo mundo, de boca em boca. Na parábola e na declaração figuram um homem velho, um homem enfermo e um homem morto; o tempo fez dos dois textos um e forjou, confundindo-os, uma outra história.

Siddharta, o Bodhisattva, o pré-Buda, é filho de um grande rei, Suddhodana, da estirpe do sol. Na noite de sua concepção a mãe sonha que em seu lado direito entra um elefante, da cor da neve e com seis dentes de marfim1. Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrarem-se da vida e da morte. O rei prefere que Siddartha conquiste grandeza temporal e não eterna, e encerra-o num palácio do qual foram removidas todas as coisas que podem revelar-lhe que é corruptível. Vinte e nove anos de ilusória tranqüilidade transcorrem dessa forma, dedicados à satisfação dos sentidos, porém Siddharta, certa manhã, sai em seu coche e vê com espanto um homem recurvado, “cujo cabelo não é como o dos outros, cujo corpo não é como o dos outros”, que se apóia num bastão para caminhar e cuja carne treme. Pergunta que homem é esse; o cocheiro explica que é um ancião e que todos os homens da terra serão como ele. Siddharta, inquieto, dá ordem que retornem imediatamente, porém em outra saída vê um homem a quem devora a febre, cheio de lepra e de úlceras; o cocheiro explica que é um enfermo e que ninguém está a salvo desse perigo. Em outra saída vê um homem que levam num féretro, esse homem imóvel é um morto, explicam, e morrer é a lei de todo que nasce. Em outra saída, a última, vê um monge das ordens mendicantes que não deseja viver nem morrer. A paz está em seu rosto; Siddharta encontrou o caminho.

A lenda determinou que o Buda fosse canonizado por Roma.

Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pili-Werken) aplaudiu o colorido desta lenda; um ideólogo contemporâneo, A. Foucher, cujo tom de gracejo nem sempre é inteligente ou urbano, escreve que, admitida a ignorância prévida do Bodhisattva, a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. No princípio do século V da nossa era o monge Fa-Hien peregrinou aos reinos do Hindustão em busca dos livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens erigidas por Asoka, ao norte, ao sul, ao este e ao leste das muralhas, para celebrar os encontros. No princípio do século VII um monge cristão redigiu a novela que se entitula Barlaam y Josafat; Josafat (Josafat, Bodhisattva) é filho de um rei da Índia; os astrólogos predizem que um dia reinará sobre um reino maior, que é o da Glória: o rei encerra-o num palácio, porém Josafat descobre a desafortunada condição dos homens através das espécies de um cego, de um leproso e de um moribundo e é convertido finalmente à fé pelo ermitão Barlaam. Esta versão cristã da lenda foi traduzida para diversos idiomas, inclusive o holandês e o latim; a pedido de Hákon Hákonarson produziu-se na Islândia, em meados do século XIII, uma Barlaams saga. O cardeal César Baronio incluiu Josafat em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano; em 1615 Diego de Couto denunciou, em sua continuação das Décadas, as analogias da fingida fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafat. Tudo isso e muito mais achará o leitor no primeiro volume de Origenes de la novela de Menéndez y Pelayo.

A lenda que em terras ocidentais determinou que o Buda fosse canonizado por Roma tinha, no entanto, um defeito: os encontros que postula são eficazes mas são também incríveis. Quatro saídas de Siddharta e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do azar. Menos atentos ao estético do que à conversão das massas, os doutores quiseram justificar essa anomalia; Koeppen (Die Religion des Buddha, I, 82) anota que na última versão da lenda o leproso, o morto e o monge são simulacros que as divindades produzem para instruir Siddhartha. Assim, no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita está dito que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto era levado, a não ser o cocheiro e o príncipe. Numa biografia legendária do século XVI as quatro aparições são metamorfoses de um deus (Wieger: Vies chinoises du Bouddha, 37-41).

Mais longe havia ido o Lalitavistara. Dessa compilação de prosa e verso, escrita num sânscrito impuro, é costume falar com algum sarcasmo; em suas páginas a história do Redentor infla-se até a opressão e até a vertigem. O Buda, a quem rodeiam doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas, revela o texto da obra dos deuses; do quarto céu fixou o período, o continente, o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez; oitenta mil tambores acompanham as palavras do seu discurso e há no corpo de sua mãe a força de dez mil elefantes. O Buda, neste estranho poema, dirige cada etapa de seu destino; faz com que as divindades projetem as quatro figuras simbólicas e, quando interroga o cocheiro, já sabe quem são e o que significam. Foucher vê neste rasgo um mero servilismo dos autores, que não podem tolerar que o Buda não saiba o que sabe um servente; o enigma merece, em meu entender, outra solução. O Buda cria as imagens e logo em seguida pergunta a um terceiro o sentido que encerram. Teologicamente caberia talvez contestar: o livro é da escola de Mahayana, que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno; o do céu ordena as coisa, o da terra as padece e executa (nosso século, com outra mitologia ou vocabulário, fala do inconsciente). A humanidade do Filho, segunda pessoa de Deus, pôde gritar da cruz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste: O Buda, analogamente, pôde espantar-se das formas que havia criado sua própria divindade… Para desatar o problema, não são indispensáveis, ademais, tais sutilezas dogmáticas, basta recordar que todas as religiões do Hindustão, e em particular o budismo, ensinam que o mundo é ilusório. Minuciosa relação do jogo (de um Buda) representa o Lalitavistara, segundo Winternitz; um jogo ou um sonho é, para o Mahayana, a vida do Buda sobre a terra, que é outro sonho. Siddhartha elege sua nação e seus pais. Siddhartha lavra quatro formas que o encherão de espanto; Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras; tudo isso é razoável se o consideramos um sonho de Siddhartha. Melhor ainda se o considerarmos um sonho em que figura Siddhartha (da mesma forma que figuram o leproso e o monge) e que ninguém sonha, porque aos olhos do budismo do norte3 o mundo e os prosélitos e o Nirvana e a roda das transmigrações e o Buda são igualmente irreais. Ninguém se apaga no Nirvana, lemos num tratado famoso, porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como o desaparecimento de uma fantasmagoria que um feiticeiro numa encruzilhada cria por artes mágicas, e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade, mero nome, e também o livro que o declara e o homem que o lê. Paradoxalmente, os excessos numéricos do poema subtraem, não acrescentam, realidade; doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo XII inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros, de 9 a 49, 51 e 53) são vastas e monstruosas bolhas de sabão, ênfases do Nada. O irreal foi assim fraturando a história; primeiro tornou fantásticas as figuras, depois o príncipe e, com o príncipe, todas as gerações e o universo.

No final do século XIX Oscar Wilde propôs uma variante; o príncipe feliz morre na reclusão do palácio sem ter descoberto a dor, porém sua efígie póstuma a contempla do alto do pedestal.

A cronologia do Hindustão é incerta; minha erudição muito mais; Koeppen e Hermann Beckh serão talvez tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota; não me surpreenderia se minha história da lenda fosse ela mesma legendária, feita de verdade substancial e erros acidentais.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1952)

NOTAS
  1. Este sonho é, para nós, uma mera fealdade. Não é assim para os hindus: o elefante, animal doméstico, é símbolo de mansidão; a multiplicação de dentes de marfim não tem como incomodar os espectadores de uma arte que, para sugerir que Deus é o todo, lavra figuras de múltiplos braços e rostos; o seis é número habitual (seis vias de transmigração; seis Budas anteriores ao Buda; seis pontos cardeais, contando o zênite e o nadir: seis divindades que o Yajurveda chama de as seis portas de Brahma). []
  2. Esta metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar, rodas ou cilindros que giram ao redor de um eixo, cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. Algumas são manuais; outras são como grandes moinhos, e move-as a água e o vento. []
  3. Rhys Davids condena essa locução cunhada por Burnouf, porém seu emprego nesta frase é menos incômodo que o de Grande Travessia ou Grande Veículo, que teriam detido o leitor. []
06 de Setembro de 2007

A feira de livros de Can’acre

Manuscritos

Para Mark Carpenter

Quando li não lembro onde que a paixão por livros é a mais avassaladora de todas as paixões pensei eu gostaria de ter escrito isso, mas esse é um pensamento que me assalta com tanta freqüência que não lhe atribuo nenhuma significação especial; nada o distingue de outras fugidias falsas reminiscências e pequenas invejas que constituem o meu limitado estro intuitivo e o ruído de fundo de minhas emoções, que, pesado tudo, são literárias todas elas. Os livros tiraram-me da maneira mais justa e completa tudo que me deram: a literatura foi o augúrio que me conduziu a Deus, a ninfa cuja mão me mostrou o amor, o companheiro de espada que me desafiou à lealdade, o adversário que me acendeu a paixão, a amante que me ensinou o tédio. Em troca dessa glória as estantes me varreram, espoliaram e exauriram, devassaram meu universo interior, levando cativa minha vontade e negando-se a deixar em meu poder qualquer fiapo de autenticidade que pudesse ter peso ou validade na vida real. Hoje tudo que sou e que sinto é regido pelo jogo vão da literatura, pela ardente cobiça das ordens de palavras que com resignado afeto sonho serem minhas; sustentado, mantido vivo pela busca pelo assombro definitivo, o prazer e o horror de ler o que eu gostaria de ter escrito, de encontrar aquela frase, aquela particular e assombrosa escolha de palavras que não me ocorreu ter disposto daquela forma mas que já era minha idéia, minha potencial idéia, à espreita por trás dos meus pensamentos, pesada e furtiva e sem jamais vir à tona como a Fera na Selva de Henry James.

Sonhei com Can’acre e com sua Feira muito antes de pisar os losangos de pedra que pavimentam suas angulosas esquinas. Sonhei-a anônima e imponderável: encontrá-la, sabê-la real no mundo real, foi um necessário e previsível e surreal anticlímax. Se a negra, tortuosa Feira tivesse permanecido sem nome e sem realidade no âmbito da obra menor que são os sonhos, seu fascínio não seria talvez inferior e eu não seria mais feliz.

Não previ, é claro, suas coordenadas no espaço; sonhei, no entanto, seus e temas e títulos, seus gigantescos galpões e estreitas estantes ao ar livre, seus negros volumes; sonhei, com indelével clareza, a sensação dela. E quando digo sonhei falo de sonho no sentido primário, a atividade noturna e talvez física, em oposição ao devaneio da imaginação.

Não fui capaz de imaginar a Feira; ela teve de se revelar a mim, ambas as vezes.

Esclareço essas declarações nesta breve nota, e o que justificará talvez o leitor será saber que minha pobre introdução é também minha pobre história; Can’acre e seu sonho são apenas o ícone final, a última pá de terra cansada sobre o túmulo de minha obsessão.

Com oito ou nove anos a literatura já havia me arrancado da maneira mais irreversível a virgindade do pensamento. O orgasmo definitivo, a definitiva ruína, conheci na tarde em que pisei sozinho pela primeira vez o assoalho rangente da escura e empoeirada casa de madeira que abrigava a vasta biblioteca do meu tio-avô, trazida de navio dos Estados Unidos, de onde ele trouxera também o diploma de doutor em Teologia.

Quando mudei com meus pais para Curitiba, antes dos dez anos de idade, meu tio-avô ainda era vivo e morava sozinho por trás de persianas cerradas. A diabetes havia arrancado seus olhos e a artrite suas forças, e que eu soubesse ele só voltava a existir nos breves momentos em que um parente ou conhecido eventual vinha ler, em inglês insuficiente, as obras que ele pedia. Como Borges entre as altas estantes da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, mas na decrépita casa descascada dos fundos do terreno da minha avó, meu tio-avô era uma encarnação do arquétipo do cego em sua biblioteca.

Meu tio não recebia crianças nem mortais que não falassem inglês. Meus primeiros contatos com sua biblioteca e seus sagrados volumes foram nas breves mas diárias visitas que eu fazia à casa, levando a bandeja com nabos mergulhados no leite que minha vó lhe preparava. Enquanto ele cheirava o prato por trás de inquietos olhos cegos eu aguardava ali em pé, tentando não respirar, os olhos percorrendo ávidos os títulos nas estantes mais próximas. Nunca dissemos realmente nada um ao outro nessas ocasiões. Hoje quero crer que naqueles instantes nos unia – o velho de noventa anos e o menino de nove – uma silenciosa e trágica reverência pela solene massa de livros ao nosso redor, a consciência de que estávamos ambos tragicamente separados dela, ele porque lhe faltavam os olhos, eu porque me faltava o idioma.

Os volumes viviam encarcerados atrás das portas envidraçadas de dez ou doze armários de madeira vermelha envernizada, altos, estreitos e idênticos. Logo os decorei: cada um tinha sete prateleiras e seis janelas retangulares de vidro, três em cada folha da porta. Que eu pudesse ver, todos os volumes eram de capa dura, alguns deles (os menos antigos) ostentando as cores vistosas e desenhos vigorosos daquela sobrecapa de papel que os americanos chamam de dust jacket.

Por dois minutos diários eu andava a passos de lesma ao longo dos armários da sala, cabeça inclinada para passar os olhos pelas lombadas, deslizando por desconcertantes títulos dos quais eu não entendia uma palavra, a não ser um eventual God ou um evidente Philosophy. A maior parte dos volumes tinha mais de trinta anos, os mais antigos com capas escuras gravadas com ornamentos e letras douradas. Ali estava The Golden Bough, de Frazer, que mais tarde eu leria em português como O Ramo Dourado sem saber que se tratava do mesmo livro e que a esta altura eu seria capaz de lê-lo em inglês. Ali estavam os três volumes esverdeados das obras de Platão na tradução de Llewelyn e Vaughan, cujo Fédon me levaria às lágrimas nesta mesma sala anos depois. Mais adiante um pequeno e impossivelmente belo volume de poesias de Longfellow, que hoje sei ter sido editado por Nimmo em 1875. Ali estavam, incongruentemente, os dois volumes do Manuale Tipografico de Bodoni.

E havia o cheiro. Se hoje eu sei que o Paraíso cheira a livros velhos, descobri-o nas crepitantes e pobres salas daquela casa escura. O paradoxo estava em que esse bordel da alma ficava a poucos passos de outra casa, também de madeira, mas oposta à casa dos livros no que tinha de luminosa e arejada e barulhenta. Nesta outra, emoldurados por janelas eternamente abertas, pululavam bolos e sucos e tios e netos, e reinava absoluta minha avó.

Minha avó, que por anos a fio preparou os nabos no leite para o seu cunhado, meu tio-avô, o dono dos livros, o cego perdido em sua biblioteca, até o dia em que alguém entrou na casa dos fundos levando a bandeja de nabos (não fui eu) e não encontrou quem pudesse comê-los.

Nessa mesma tarde, depois que levaram o corpo, entrei sozinho no seu santuário-casa-biblioteca e chorei por meu tio-avô, chorei sua cegueira e seu isolamento e os livros que ele deixou para trás, chorei porque ninguém além desse pobre e medíocre menino de dez anos, que não sabia ler inglês, era capaz de reconhecer a a importância e a santidade daquele lugar, chorei pela deleite egoísta que era ter uma biblioteca cega só para mim. De raiva, de alegria e de dor, abri um armário, peguei um livro, escondi-o dentro da camisa e nunca mais o devolvi. Lançando do limiar da porta um último olhar para as prateleiras inúteis e repletas, jurei com a patética convicção de Scarlet O’Hara que jamais voltaria a passar fome. Eu só entraria de novo naquela casa quando dominasse o idioma que me guiaria naquele labirinto de delícias.

Menti.

Muito antes de ser capaz de entender uma frase completa em inglês eu vinha folhear interminavelmente as páginas amareladas, examinar com apaixonado zelo os diagramas, as gravuras, os ornamentos, as ordeiras tabelas assinaladas pela palavra Contents, as citações latinas em itálico, as gravuras em bico de pena. Sentado no chão empoeirado ou empoleirado na cama, por cima dos acolchoados de pena, um único volume nas mãos, na réstia de sol de uma única brecha de janela, eu passava horas olhando as palavras. Minha fascinação não diminuía pela minha incapacidade de entender o que estava escrito; ao contrário, minha ignorância só fazia amplificar o que me pareciam as infinitas possibilidades daqueles textos. Era um peso maravilhoso, avassalador, pensar que aquelas páginas podiam estar dizendo qualquer coisa. Que narrativas fantásticas, que assombrosas teorias aquelas colunas de texto não ocultariam?

Nos seis ou sete anos que se seguiram aprendi a língua inglesa para fazer jus àquela biblioteca. Durante esse período a biblioteca do meu tio-avô permaneceu, a não ser por minhas inócuas visitas, intocada e não-lida em sua solitária casa, seu destino final mergulhado num limbo judicial familiar que pendia alternadamente entre a discussão amigável e o litígio. Minha avó apenas tolerava que eu visitasse a casa; ela parecia ficar satisfeita se eu devolvesse obedientemente a chave no lugar e não roubasse mais do que um livro por visita.

Quando ficou decidido que a velha casa seria derrubada e o seu espaço destinado a fins mais salubres, definiu-se também que os altos armários seriam divididos entre meus cinco tios, os sobrinhos do morto; quanto aos livros, a um irmão do meu pai (o pastor da família) couberam os circunspectos títulos de Teologia e a mim todo o resto – Platão e Shakespeare e Tennyson e Dante e Bertrand Russell e Emerson e Plotino e Marco Aurélio e Dante e Josefo e Plutarco e Samuel Johnson.

No verso seis do capítulo onze da Carta aos Hebreus está escrito que para aproximar-se de Deus é necessário crer que ele existe e é recompensador dos que o buscam; o mesmo pode ser dito, com a mesma retórica e com a mesma e improvável esperança, sobre a busca da satisfação literária. Abri cada volume esperando encontrar ali uma presença, uma feição – uma pessoa, uma surpresa e um jogo; assim, não buscando Deus e não esperando encontrá-lo, vislumbrei na literatura as indefinidas e vastas credenciais de um outro invisível que me provocava e me recompensava e me amava e nutria. No universo de obras maiores mas desiguais da biblioteca do meu tio, aprendi a reconhecer entre uma passagem e outra a voz marcada, equilibrada e fluente do Narrador, o prosador último, o outro do outro lado, meu interlocutor (ao mesmo tempo recordado e imaginado). Aprendi a reconhecer a sutileza de suas inflexões, aprendi a não perder o fio do seu sarcasmo; memorizei a rouquidão de sua prosa, o estalo de prazer na sua língua – suas pausas, suas ênfases e suas obsessões.

Que eu não o encontraria em todas as páginas, nem mesmo na maior parte delas, ficou claro logo de início. A brutal experiência ensinou-me, no entanto, a rastreá-lo; guiava-me menos seu fluido vocabulário do que o caráter inconfundível de seus tópicos, suas inversões, suas estudadas marcações, sua cadência. Senti o pulso do Narrador na nobre dramaturgia do Fédon de Platão, mas perdio-o de vista meia jornada adentro da República; só reencontrei-o, dias depois, na lucidez dos sete primeiros parágrafos de O Demônio da Perversidade de Poe, de 1850. Ouvi sua tranqüila respiração na apaixonada sensatez de Toynbee, mas por angustiantes intervalos ela foi sufocada pela ironia de Wells.

Com o tempo, com o empilhar de volumes e o grifar dos lápis, aprendi a reconhecer uma frase ou um parágrafo do Narrador, a ser capaz de diferenciar de imediato um original de uma impostura.

O Narrador, por exemplo, diz (via Sócrates, via Platão, via F. J. Church)

As long as the sight of one thing brings another thing to your mind, there must be recollection, whether or no the two things are alike,

mas jamais diria (com Emerson)

Shakespeare, Homer, Dante, Chaucer, saw the splendour of meaning that plays over the visible world; knew that a tree had another use than for apples, and corn another than for meal, and the ball of the earth, than for tillage and roads; that these things bore a second and finer harvest to the mind, being emblems of its thoughts, and conveying in all their natural history a certain mute commentary on human life.

Ele diz (com Bernard Shaw em Man and Superman)

He is carefully dressed, not from the vanity that cannot resist finery, but from a sense of the importance of everything he does which leads him to make as much of paying a call as other men do of getting married or laying a foundation stone,

mas jamais diria (com Bernard Shaw em Man and Superman)

Two other chairs are against the wall between the busts.

Na Conferência dos Pássaros de Farid ud-Din Attar está contada a história de um homem que encontrou Majnun peneirando terra na beira de uma estrada. “O que você está procurando?” perguntou o homem. “Estou procurando [minha amada] Laïla”, ele respondeu. “E você espera encontrá-la aqui?” insistiu o homem. “Procuro-a em todos os lugares”, replicou Majnun, “na esperança de encontrá-la em algum”.

Reconheci nessas linhas o estilo acústico e inimitável do Narrador, e percebi que com essa história ele me fornecia uma ferramenta, uma evidente mas apropriada metáfora da minha própria busca. Instruído por ele mesmo, passei a procurá-lo em todos os lugares, na esperança de encontrá-lo em algum.

Na virada dos meus trinta anos a populosa mas finita biblioteca esgotou-se, e perdi de vista o Narrador quando virei a última página do último volume dA História do Declínio e da Queda do Império Romano de Gibbon.

Desnecessário dizer que minha obsessão pela satisfação literária havia ultrapassado as proporções de vício; a súbita ausência do Narrador assassinou-me. Peneirar a terra do caminho em busca dele pareceu-me uma opção tão razoável quanto deve ter parecido a Majnun; o absurdo, eu entendia agora, é ter de ser privado de Laïla.

E peneirar a terra foi o que passei a fazer. Decidi dedicar a vida a essa empresa, de antemão inútil: canalizar todos os recursos disponíveis, e mais, à patética tentativa de reencontrar o Narrador. Para ser justo preciso dizer que encontrei-o fora dos limites daquela biblioteca original, em pelo menos duas ou três ocasiões memoráveis: ocorrem-me agora, naturalmente, a prosa de Borges, a de Lovecraft, a de Joseph Campbell (que, previsível mas tragicamente, esgotaram-se também).

Encontrei traços do Narrador em Conrad, em Ende, em Bradbury, em Thomas Ligotti. À parte dessas e de outras poucas exceções, no entanto, a literatura contemporânea provou-se deserto, a palavra aplicada aqui sem qualquer força de metáfora. A tarefa de peneirar terra de verdade à beira de uma estrada de verdade teria se mostrado talvez menos frustrante; teria pelo menos me colocado mais próximo de Majnun, mais próximo de Attar, mais perto do Narrador.

Borges conduziu-me a William James, às rudes kenningar do norte, às tragédias da honra no Japão, às Mil e Uma Noites. Devo a ele e a Campbell as breves mas eloqüentes encarnações do Narrador que testemunhei nessas e em outras literaturas. Li As Lendas dos Judeus, li O Épico de Gilgamesh e li o Alcorão, mas todos cometeram a impudícia de se esgotarem. Passado tempo suficiente não havia tradição que eu não houvesse devassado, período histórico que eu não houvesse percorrido, obra menor que eu não houvesse assimilado.

Fernando Pessoa veio e passou.

Silenciou-se, para todos os efeitos, a voz do Narrador. Cessou para mim a literatura, vedou-se o acesso ao pequeno prazer da surpresa e ao infinito deleite do reconhecimento. Continuei a capturar frases avulsas do Narrador numa ou outra página moderna, uma curta zombaria, uma falsa promessa – mas era pouco, aquilo era pouco.

Borges falou-me, não lembro onde, de alguém que gostaria de ser capaz de esquecer As Mil e Uma Noites só para ter o prazer de lê-las novamente pela primeira vez. Entendi de imediato esse sentimento, e sabia que era o Narrador que zombava de mim com a ironia. Meras palavras haviam me seduzido, enriquecido e moldado, e traído.

Quando tive o sonho, aos vinte anos de idade, sonhei-o duas noites seguidas, ou talvez duas vezes na mesma noite. No sonho eu estava em Paris (eu nunca havia estado em Paris, mas sabia que estava em Paris), e na manhã ou entardecer de Paris eu andava entre ruas estreitas e prédios assobradados, na companhia de alguém de que não me lembro ou que talvez não estivesse lá.

Parei numa esquina diante da vitrine de uma livraria pequena, nostálgica mas muito arejada, guarnecida por colunas desordenadas de volumes empilhados na horizontal. No alto da pilha mais próxima vi, através do vidro do sonho, um volume de tamanho médio, de capa dura, a capa de trás virada para cima. A dust-jacket era em duas cores, preta na metade de cima, vermelha na de baixo, os caracteres brancos. Aproximei-me de imediato e o deslumbramento do sonho está em que não fui capaz de entender o que estava escrito. Com a convicção ao mesmo infundada e completa dos sonhos eu sabia que aquilo era francês, mas não o francês da vida real (que eu não compreendia, mas cuja sonoridade e cor eu já conhecia): um francês de sonho, incompreensível, suficiente, absoluto. O meu assombro diante daquele desconhecido foi completo e avassalador, e esgotou num único soluço de esperança as sensações possíveis da existência.

Virei-me, e vi que as ruas estreitas haviam dado lugar a um grande pátio ensolarado, com enormes galpões e cilos ao fundo, o calçamento de paralelepípedo tomado por altas estantes de livros assando no sol da manhã. Homens de sobretudo e mulheres de calções de seda percorriam os claros corredores sondando, folheando, pechinchando, peles e páginas tremendo na excitação da brisa.

E só.

Março de 2002 em Paris, a Paris da vigília, eu estava sentado no coquetíssimo Café Littéraire do Salon du Livre, aguardando o início de um fórum qualquer enquanto revia as anotações que trazia da Buchmesse de Leipzig. Mais cedo naquele dia eu havia sido apresentado a um editor associado da Societe des Auteurs et Compositeurs Dramatiques, um magro e irriquieto jovem marselhês chamado Jean Alègre.

Foi ele quem me encontrou e, sem dizer uma palavra, puxou uma cadeira e sentou-se, os braços cruzados apoiados nas coxas.

– Entediado? – ele anunciou em zombeteiro francês.

– Plenamente – sorri, levantando os olhos e colocando de lado as anotações.

As afinidades improváveis que haviam surgido no nosso contato à mesa do café da manhã eram suficientes, ambos sabíamos, para que nos sentissemos agora à vontade na presença um com o outro, e isso (estava implícito) era por si só recompensa maior do que qualquer coisa que se pudesse esperar de um evento como aquele.

A princípio haviam-se levantado trivialidades apenas interessantes, como o fato de Jean Alègre ter uma tia no Rio de Janeiro e eu uma irmã em La Seyne-sur-Mer. Depois, com a imponderada ousadia de estranhos que não esperam encontrar-se novamente, havíamos descoberto que compartilhávamos dos mesmos gostos por autores clássicos, ternos antiquados e escuros, programas de rádio dos anos 40, a aversão a aglomerações e o desprezo por trivialidades apenas interessantes.

Como o tema do Salon daquele ano era L’Italie à l’honneur, eu não havia hesitado em mencionar Dante e Orlando Furioso; havia enfatizado o caráter perturbadoramente contemporâneo das reflexões de Marco Aurélio, e Jean anunciara que estava relendo as Meditações na tradução passável de um volume (o segundo) dos Harvard Classics, de 1910, que tirara da pasta para me mostrar, o dedo acariciando a deliciosa rubrica de P.F. COLLIER & SON COMPANY.

– “Begin the morning by saying to thyself, I shall meet with the busybody, the ungrateful, arrogant, deceitful, envious, unsocial” – ele havia citado num inglês imperfeito e bem-humorado, enquanto passava geléia cor de sangue numa instável torrada.

– Apropriado – eu dissera.

Horas mais tarde, portanto, no burburinho que anunciava a entrada de algum autor célebre no Café Littéraire, Jean fez-me uma oferta cujos termos não tenho permissão de divulgar, apertou-me a mão e desapareceu num apinhado corredor.

Seria inútil, talvez improcedente, descrever com a brutal precisão de uma novela contemporânea a curiosa viagem de automóvel que empreendemos cedo na manhã seguinte. Deixarei que a embeleze a imaginação do leitor: que proveja o necessário sigilo, o tédio, o calor, as poucas palavras, a possível tensão. Os mais ousados intuirão minha calma, meu profético bem-estar.

Depois de duas ou três horas Jean Alègre parou o carro. Pela janela aberta entrava o ventoso silêncio do que podia ser uma pequena cidade ou uma animada zona rural. Ele anunciou que eu podia finalmente olhar.

Estávamos, disse-me, em Can’acre.

Deixamos o carro numa esquina na orla da cidade e percorremos ruas estreitas e populosas até a praça central. Ali, como em todo o caminho, encontramos ruas e calçadas tomadas por frágeis estantes dobráveis de madeira, cada estante tomada por livros de todos os tamanhos, os maiores ostentando elaboradas capas negras esculpidas com criaturas fantásticas em papier-maché, os menores varados por belíssimos ornamentos de douradas filigranas.

Muito antes de chegarmos à vasta praça central além dos repletos galpões e cilos, mesmo talvez antes de abrir ao acaso um volume e deparar-me com as esperadas palavras num idioma desconhecido, eu já havia intuído por completo Can’acre e sua feira. Meu sonho, previsivelmente, havia invadido a realidade; a realidade, de forma imprevisível, havia sido invadida pelo sonho de outrem.

Em Can’acre (ignoro seu nome verdadeiro), uma cidadezinha muito real a duas ou três horas de viagem de Paris, todos são filólogos, todos escritores e – naturalmente – todos tipógrafos. Nas casas abundam as prensas, os tipos móveis, as colas, as pilhas de papel, as escrivaninhas, os tinteiros, talvez até, Deus nos livre, os computadores pessoais. Periodicamente (quem sabe todos os dias, não tenho como saber) cada habitante/autor/editor apresenta seus incompreensíveis e belamente pretensiosos volumes na despretensiosa Feira. Cada volume é, tanto quanto eu saiba (Jean Alègre apressou-se em não me dar explicações), único e perfeito e bem-cuidado e perfeitamente compreensível para o seu autor. Ignoro se os idiomas de Can’acre são peculiares às suas obras ou a seus autores; basta-me saber, com a mesma e imediata convicção que se abateu sobre mim naquela manhã, que cada livro da Feira é uma uma obra real, estanque, ininteligível mas perfeitamente decifrável – e pode estar dizendo qualquer coisa.

Abri mão naquele dia, como Jean Alègre já fizera antes de mim, do terrível privilégio de morar em Can’acre. Ao contrário dele, nunca voltei à Feira. O grosso volume que roubei da prateleira mais alta de uma precária estante numa ensolarada esquina (pois a moeda de Can’acre é o furto), que trago comigo em todas as minhas cabeceiras e que só ousei folhear uma vez (temeroso de intuir uma palavra, deparar-me com a chave do seu código ou compreender o seu assunto), é testemunho suficiente do assombro possível.