08 de Agosto de 2007

Mina submersa quer explodir em Mauá

Política, Quase Ciência

Atualização 08/08 15h37
Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto
Menos de uma semana depois de anunciar que a área de inundação da usina hidrelétrica de Mauá precisaria de um estudo minucioso de água e de solo por conta da existência de uma mina desativada de carvão, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) disse ontem ter encontrado a solução para o grande passivo ambiental. A assessoria de imprensa informou que a represa abafará o efeito dos dez hectares de rejeitos de carvão e de metais pesados que são liberados às margens do rio Tibagi, em Telêmaco Borba, nos Campos Gerais.
Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto, na Gazeta do Povo de hoje

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60 anos de lixo tóxico aguardam para contaminar o lago da nova usina. Quem se importa?

Em muitas espécies de animais os fatores ambientais impedem que a competição dentro da própria espécie conduza ao desastre. Não existe, no entanto, força regulatória agindo sobre o desenvolvimento cultural da humanidade. Sob a pressão da fúria competitiva nós não apenas esquecemos o que é útil para a humanidade, mas até mesmo o que é bom e vantajoso para o indivíduo.
Konrad Lorenz, Os oito pecados mortais do homem civilizado

O meio-ambiente é coisa particularmente difícil de se defender, porque o agressor somos nós mesmos. Nossa condição como espécie é paradoxal: quanto mais poder adquirimos de manipular o meio-ambiente em nosso favor, mais perto estamos de descaracterizá-lo irremediavelmente para nossa destruição.

O projeto da hidrelétrica de Mauá prevê a inundação de uma área de 100 quilômetros quadrados entre Ortigueira e Telêmaco Borba, aqui no estado do Paraná. A usina terá potência máxima de 362 megawatts (MW), suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes. Dos R$ 950 milhões necessários para a obra, R$ 700 milhões serão bancados pelo BNDES, sendo que a construtora J. Malucelli já assinou contrato para executar o projeto.

Quem não apostaria nessa barganha? 100 quilômetros quadrados de que ninguém vai sentir falta em troca da energia elétrica para uma grande cidade pululando de consumidores, votantes e impostos.

A não ser que você leve em conta, naturalmente, o custo ambiental. Já em 2005 um parecer do Ministério Público Federal advertia que [1] a barragem coloca em risco a sustentabilidade das tribos indígenas que habitam a região da bacia do Rio Tibagi; a área a ser alagada [2] contém 15 espécies na lista vermelha de espécies ameaçadas do Paraná, [3] cobrirá 200 propriedades e [4] não deverá poupar a Fazenda Monte Alegre, “composta por um mosaico de florestas nativas associadas a monoculturas florestais, sendo uma das responsáveis pela incomum riqueza de mamíferos na bacia do Rio Tibagi”; além disso [5] o estudo menciona 15 sítios arqueológicos na região a ser alagada, “com vestígios relacionados a diversos grupos humanos, períodos históricos e tradições”.

Deveríamos deixar que um punhado de índios, um grupo disperso de sitiantes, umas bromélias que nem dão flor e umas poucas gravações na rocha se interponham no avanço do progresso? Se não poupamos – Deus nos perdoe - as Sete Quedas, não seria preciosismo embargar a usina Mauá?

O problema do custo ambiental são, naturalmente, dois. Primeiro, o fato dele ser muito difícil de avaliar. Os ecossistemas são ao mesmo tempo infinitamente complexos e infinitamente recatados. Até que seja tarde demais, não temos como estimar o impacto ambiental da perda de uma única nascente, quanto mais de 100 quilômetros quadrados de campos gerais. Ecossistemas são difíceis de avaliar porque tudo funciona quando eles estão funcionando; fica, conseqüentemente, difícil encontrar argumentos em sua defesa. Não sabemos tudo que vai deixar de funcionar quando eles deixarem de existir; não sabemos, literalmente, o que estamos perdendo.

Em segundo lugar, o custo ambiental não tem peso para frear projeto algum, porque o empreendedor e o político sabem muito bem que (salvo descartáveis exceções) não é um custo que eles mesmos terão de pagar. Se tudo der certo, a nota promissória da dívida ambiental será deixada convenientemente para as próximas gerações.

 
O resultado da análise, revelando altas concentrações de chumbo, cádmio e manganês.

A maior parte das pessoas que serão prejudicadas talvez ainda nem exista, por isso não consomem os seus produtos nem votam em você – e não têm como processá-lo! No nosso mundo, cujo deus chama-se Agora, quem seria insensato de levar esse fantasmas futuros em conta? Todo político quer uma obra grandiosa para inaugurar, todo empreendedor quer a sua fatia para construí-la.

Quem ousaria se colocar no caminho desse tanque de guerra a fim de salvar um trecho monótono de campos gerais, que não têm o glamour visual da Mata Atlântica e tudo que faz é nos prover de ninharias como rios e água pura?

Um estudo recente da Frente de Proteção do Rio Tibagi revela que há um enorme risco não contabilizado esperando a água da barragem para vir à tona. O perigo, desta vez, são lagoas ácidas, hectares de rejeito tóxico e dezenas de minas abandonadas que babam ferrugem amarela e metais pesados.

Num vale de Telêmaco Borba, junto a uma curva do Tibagi e numa área que pertence à Klabin Papel e Celulose, aguardam os resíduos químicos de 60 anos de extração de carvão mineral. As fotos que ilustram o relatório da Frente de Proteção mostram bocas de minas abandonadas das quais brotam enxofre e ácido sulfúrico e lagoas transparentes com o carimbo azul-turquesa da drenagem ácida. O laudo anexo do SEBRAQ comprova a presença de metais pesados (cádmio, chumbo e manganês) em concentrações escandalosamente altas nas amostras coletadas. Sabe-se com segurança que a rede inundada de galerias abandonadas estende-se por quilômetros terra adentro, onde as concentrações tóxicas tendem a ser muito maiores.


Uma página do relatório.

“Se inundadas”, conclui o relatório, ”as minas funcionarão como chaminés de ácidos e metais pesados que fluirão diretamente para dentro do lago, provocando um desastre ambiental sem precedentes no futuro reservatório e impedindo o uso da água em Londrina e outras cidades localizadas rio abaixo.”

A descoberta gerou uma viagem de helicóptero ao local por parte do secretário do Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. “É um complicador”, disse Rodrigues. “Não é para alarmismo, mas é um passivo ambiental significativo”.

Da mesma matéria da Gazeta do Povo:

Pós-doutor em Geoquímica, o professor André Bittencourt foi responsável pela parte do levantamento técnico que trata da qualidade da água. Ele se defende, afirmando que não explorou a parte sobre as minas e rejeitos de carvão por uma razão química. Os rejeitos só são poluentes em contato com o oxigênio e, se ficassem imersos, não causariam danos. “Essas minas dão muito mais problema como estão do que embaixo d’água”, assegura. Ele também acredita que, tanto no rio como na eventual represa, a quantidade de produtos tóxicos produzida pela mina desativada se dilui com facilidade na água.

Outra matéria da mesma edição traz o título “Dona da área [Klabin] investiu R$ 600 mil em recuperação”. Procurei, mas o texto não diz de que forma foram gastos os 600 mil, e na recuperação de quem.

Hoje (quarta-feira) pela manhã um evento no Plenarinho da Assembléia Legislativa do estado estará debatendo o caso Mauá. A deliberação da tarde, nas galerias da Assembléia, contará com a presença de cerca de 100 representantes da região atingida.

O governador Roberto Requião defendeu esta semana a importância da usina no “plano energético nacional”. A Copel é sócia majoritária no empreendimento, com participação de 51%; a Eletrosul tem 49%.

Leia também:
Crime ambiental no Tibagi, o relatório-denúncia da Frente de Proteção ao Tibagi
Descoberta de resíduos de carvão põe em risco construção de Mauá, matéria da Gazeta do Povo
Exploração mineral deixou passivo ambiental na região, matéria da Gazeta do Povo
Dona da área investiu R$ 600 mil em recuperação, matéria da Gazeta do Povo
Paradigma

05 de Outubro de 2006

Gente como a gente

Quase Ciência

Um estudo publicado em julho do ano passado pela American Psychological Society sugere que nossos genes dão um jeito para que, sem nos darmos conta disso, acabemos gostando e nos apegando a gente semelhante a nós.

Conduzido por J. Philippe Rushton e Trudy Ann Bons, da Universidade de Ontário, o estudo parece comprovar que somos em geral surrealmente semelhantes a nossos cônjuges e melhores amigos – e ainda mais do que estamos habituados a pensar, já que a semelhança se estende muitas vezes ao nível genético.

Não é difícil concluir que preferimos em geral a companhia de gente como a gente: extrovertidos preferem extroverditos, gente tradicional prefere gente tradicional. Mais notável é descobrir que em alguns casos compartilhamos sem saber quase metade do nosso material genético com nosso cônjuge ou melhor amigo. “De um leque de alternativas possíveis, as pessoas buscam aqueles que são compatíveis com o seu genótipo”, afirmam os autores.

Nossos genes nos fazem gostar de gente como nós.

“Quando você gosta, é amigo, ajuda ou se acasala com gente que é muito semelhante geneticamente a você, nada mais está fazendo do que tentando assegurar que seu próprio segmento do acervo genético seja preservado e preferencialmente transmitido às gerações futuras”. É o gene egoísta de Richard Dawkins, fazendo-se passar por bonzinho.

Como incomodava o subversivo de Nazaré: “Se amardes os que têm o mesmo conteúdo genético de vós, que recompensa tendes? Não fazem os sanguessugas de Brasília também o mesmo?”

Se por um lado fico lisonjeado diante da mera possibilidade de ostentar qualquer semelhança essencial com meus amigos, sou por outro forçado a reconhecer que meu amor reputadamente mais apaixonado e altruísta é delineado, ele mesmo, por narcisismo e auto-obsessão.

Sou mesmo um traste.

Meu consolo é que meus amigos não ficam atrás.

Our Genes Make Us Like People Like Us

Mate Choice and Friendship in Twins – Evidence for Genetic Similarity (publicação acadêmica – PDF)

13 de Maio de 2006

“Araucaria brasiliana” na Flora brasiliensis

Grandes Navegações, História

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Flora brasiliensis

Flora brasiliensis

Flora brasiliensis

O pinheiro-do-paraná, com grinfas, pinhas e pinhões, conforme descrito na obra Flora brasiliensis, produzida entre 1840 e 1906 pelos editores Carl Friedrich Philipp von Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, com a participação de 65 especialistas de vários países. Flora brasiliensis contém tratamentos taxonômicos de 22.767 espécies de angiospermas brasileiras, reunidos em 15 volumes, divididos em 40 partes, com um total de 10.367 páginas. Até hoje a Flora brasiliensis, que recebeu apoio financeiro do Imperador Ferdinando I da Áustria, do Rei Ludovico I da Baviera e do nosso Dom Pedro II, é a única obra a [procurar] mapear a flora completa do Brasil.

Imagens extraídas do impecável sáite florabrasiliensis, que traz o conteúdo integral da obra, incluindo uma interessante introdução histórica. No sáite você pode inquirir as imagens em alta resolução, com opções de zoom e slideshow, e baixar até dez páginas por vez em formato PDF. De especial interesse parecem ser as pranchas do Volume I, que ilustram a vegetação das diferentes áreas geográficas do Brasil e contém preciosidades como esta árvore imensa sendo abraçada por mais de dez homens:

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Both em português and in English.

Flora brasiliensis

31 de Outubro de 2005

Genes na patente

1984

Já mencionei o assunto aqui, mas quero chamar a atenção para o estudo recente, publicado na revista Science, que revela que a quinta parte (20%) dos genes humanos já foram patenteados nos Estados Unidos.

Segundo os que apóiam a idéia, patentear material genético humano é conduta legítima porque os genes são ferramentas particularmente valiosas de pesquisa, úteis no diagnóstico de doenças e na descoberta e produção de novas drogas – em outras palavras, são dinheiro em potencial e precisam ser protegidos de outros abutres pelo abutre que chegar primeiro.

20% dos genes humanos já foram patenteados nos Estados Unidos.

Parte da controvérsia está em requerer direitos comerciais (e de invenção!) sobre seqüências químicas que são, biologicamente falando, mais eu e você do que nós mesmos. A outra está em que, quando o gene é patenteado, apenas o detentor da patente poderá no futuro pesquisar aquela seqüência particular de genes em busca de aplicações medicinais e científicas; apenas ele terá direito a explorar o potencial comercial daquele gene, aos preços que bem entender, na aplicação para a qual o patenteou – e assim por diante.

Escrúpulos? Melhor não pensar nas implicações morais de se requerer exclusividade comercial sobre o que pertence a todos e a cada um. Nos nossos dias o único pecado a se atribuir a uma conduta é não ser lucrativa.

Dos mais de 4000 genes humanos patenteados, cerca de 63% pertencem a empresas privadas e 28% a universidades.

Leia também;
Colheita genética

21 de Setembro de 2005

O último tio da terra

Quase Ciência, Sociedade

Um artigo da última Scientific American opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes – um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do milênio.

O ano de 2005 marca o fulcro central de uma década que representará três transições fundamentais e únicas na história da humanidade. Antes do ano 2000 o número de jovens sempre foi maior do que o número de velhos. Desde 2000 há mais gente velha do que nova. Historicamente, sempre houve mais gente morando no campo do que na cidade. De 2007 em diante a população urbana será mais numerosa do que a rural. Desde 2003 as mulheres ao redor do mundo têm tido e continuarão a ter, em média, filhos suficientes apenas para repor o seu próprio lugar e o do pai na geração seguinte – ou menos.

As três mudanças são avassaladoras em sua singularidade e suas conseqüências, mas a última me pegou particularmente de jeito. Eu, que como muitos idealizo e sinto falta da grande família grande, vou continuar sentindo.

As tendências são evidentes na vida diária. Muitos de nós já tiveram a experiência de se perder na sua cidade natal, que cresceu ao ponto de não a reconhecermos mais. O crescimento, porém, tende a se desacelerar à medida que as famílias diminuem. Cada vez mais crianças crescem não apenas sem irmãos, mas sem tios, sem tias e sem primos.

Caracas, crescer sem irmãos já me parece suficientemente ruim, mas sobreviver sem tios, tias e primos me parece inconcebível. Chegará o dia em que o último tio dará o seu último suspiro e então seu cargo será uma curiosidade, mera nota de rodapé no museu de figuras históricas que não existem mais – ao lado de “taquígrafo”, “meeirinho” e do sujeito que acendia as lamparinas nas esquinas quando anoitecia.

Os jantares de final de ano da família terão, no máximo, oito pessoas – normalmente, apenas três.

FALTAM 3 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL