29 de Março de 2008

O Cavaleiro Sem Cabeça!

Jurássicas

A noite estava escura. A minhoca dorminhoca estava perdida. A dorminhoca era muito nova, e por isso a sua vista se embaralhava com as suas duas cabeças. É, ao contrário do que muita gente pensa, a minhoca tem duas cabeças.

Nisso, ao longe, na estrada, se ouviu um tropel. Logo surgiu um vulto de contornos avermelhados. A pequena dorminhoca estremeceu e procurou se esconder atrás de uma grande pedra. Era… era… era o legendário cavaleiro sem cabeça! A dorminhoca se encolheu ainda mais. Um ruído atrás de suas costas a fez olhar para trás. Era uma coruja! Ela precisava sair dali para não ser engolida. Mas, e o cavaleiro? A coruja deu um olhar ameaçador, o que bastou para a minhoca correr até o meio da estrada. Se ao menos ela chegasse até o outro lado da estrada… poderia encontrar a sua casa! Quando ela ia começar a correr, uma lâmina de espada quase lhe corta uma das cabeças. Era a espada do cavaleiro sem cabeça!!!

O cavaleiro deu uma gargalhada e falou:

– Aonde você pensa que vai? Durante séculos eu procurei uma cabeça, e agora, você que tem duas não quer me ceder uma?

– Mas… mas… a minha cabeça é pequenininha… E essa cabeça que o senhor carrega? Não serve?

– Essa é uma simples cabeça de abóbora… Eu só uso para iluminar o caminho.

O cavaleiro já ia cortar a cabeça da minhoca quando de uma estrela apareceu uma fada. Enquanto isso o cavaleiro ficou paralisado como uma estátua.

A fada, com um pequeno gesto, transformou a dorminhoca em um belo príncipe.

– O efeito do encanto – falou a fada – só dura até o amanhecer. – e de súbito, a fada desapareceu.

* * *

Esta história e suas ilustrações são do começo da década de 1980, portanto eu deveria ter entre 13 e 15 anos de idade quando me sentei para escrever. Minha apreciação por temas macabros e humor obscuro já aparece de forma muito clara, bem como minha incapacidade em manter o roteiro seguindo numa direção só.

Ainda mais revelador, embora não aparecerá como surpresa ao impenitente leitor da Bacia, é que deixei a história incompleta e parti imediatamente para desenhar outras coisas.

Tenho 90% de certeza de que foi a ilustração principal na primeira página que inspirou a história, não o contrário. Clique nas imagens para ampliar.



05 de Março de 2008

A fraternidade das letras

Manuscritos

Em Bauru, quando chegamos à cidade em 1979, não havia uma livraria de verdade e a biblioteca pública, que não era pequena, tinha menos livros interessantes do que a minha, que era. Enquanto me demorava a fazer amigos, eu passava o tempo sentindo falta da Biblioteca Pública de Londrina e da Livraria Ghignone de Curitiba, ambas vastas e inacessíveis.

O último – e único – reduto para ratos de livro como eu eram as três ou quatro estantezinhas de livros da papelaria Tilibra, que era a maior da região mas dedicava a melhor parte das suas instalações a produtos de giro mais certo. Meu problema era que, mesmo diante de oferta literária tão módica, eu não sabia que livros escolher, e não tinha dinheiro para testá-los todos.

Aquele, pode ser necessário lembrar, era o minúsculo e inconcebível mundo pré-internet; não havia uma grande e unânime ferramenta para guiar-nos pela mão e refinar-nos as preferências individuais. Praticamente não havia, fora a iniciativa das editoras, quem me recomendasse um livro ou um autor; não havia, que eu soubesse, autores com o gosto não-convencional que eu ainda não sabia que tinha, muito menos um público que os apreciasse. E, caso houvesse, eu não tinha como saber.

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06 de Dezembro de 2007

Hino que ouvi num sonho

MP3, Sonhos

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Não é com pouca freqüência que sonho com música (veja, por exemplo, aqui), mas nunca antes eu havia conseguido agarrar-me a uma música de tal modo a arrastá-la comigo para o mundo da vigília.

Foi na noite de 1º para 2 de dezembro deste ano, e do sonho em si lembro muito pouco. Sei que era um entarceder frio mas ensolarado, e eu estava numa cidade que podia ser Curitiba ou algum lugar da Europa que me falta conhecer. Pelas ruas e galerias do centro da cidade homens de capacete de construção e mulheres de lenço na cabeça (precisamente como num cartaz de propaganda soviético) caminhavam cantando um hino marcial numa língua que eu não soube reconhecer. Cantavam entusiasticamente, como se a música fosse parte de sua constituição e de seus destinos. A melodia era simples, mas a harmonia ia para lugares que eu não esperava; acordei solfejando e gravei imediatamente a primeira versão da música no computador.

A música é simples demais para não existir em alguma versão na vida real; não é mesmo impossível que eu tenha esquecido sua fonte na vigília só para poder recordá-la triunfalmente no sonho. Se você souber de algum pé da música na vida real, fique à vontade para me dar um toque por email.

Na tentativa de adoçar o acompanhamento de orgão amontoei instrumentos de orquestra, mas foi inutilmente. Na qualidade de hino, para sentir a extensão do seu poder seria necessário ouvi-lo sendo cantado por gente, mesmo que seja a gente que só existe nos meus sonhos.

Gravado na Capelinha de Melão do Monastério de São Brabo, etc. Clique no triângulo para ouvir.

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Sapnis Himna - Hino da República dos Sonhos

Atualização

14h30 > escreve-me o Anderson para observar a semelhança entre o Hino da República dos Sonhos e Deus dos Antigos.

10 de Novembro de 2007

Última sessão

Pormenor

Meus sonhos são felizes, todos eles. De longe os sentimentos mais comuns que fazem-me brotar os sonhos são a bem-aventurança e o assombro. Até mesmo o terrível e o monstruoso, a atmosfera de pesadelo da qual dizem-me na vigília que convém querer escapar, tem neles algo de portentoso, de dramático e technicolor, que redime os mais impensáveis infortúnios.

O mais próximo de pesadelos que tive foram noites sem sonhos.

05 de Novembro de 2007

E naquele dia (dia)

Família

Junto com meus irmãos

Brabo no alto do trator,
novembro de 1999
[Foto: Leandro Musenek]