15 de Agosto de 2008

Porém quando percebo

Manuscritos

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Porém quando percebo, no meu sonho, a presença de uma ameaça secreta que meus amigos desconhecem, a bem-aventurança do grupo se transmuta imediatamente em material mais frágil e mais fluido, mais difícil de segurar entre os vãos dos dedos.

Meu sentimento de segurança e bem-estar estava ligado à sensação de ser parte indeferenciada do grupo: não se originava do fato de sentir-me alguém em particular, mas de sentir-me um diluído entre muitos. A aparição da serpente que ninguém mais parecia ver mudava tudo, porque me obrigava a um posicionamento de que eu preferia poder me esquivar.

O mero fato de enxergar uma ameaça que nenhum deles era capaz de perceber já me afastava, talvez irremediavelmente, dos demais componentes do grupo. Apesar de que nada mudara no acolhimento dos meus companheiros, no que me dizia respeito uma enorme distância se abrira sem aviso e sem cura entre nós.

Por outro lado, a serpente estava logo ali, caminhando impunemente entre as pernas dos meus amigos. Eu não sabia há quanto tempo aquela ameaça estivera entre nós ou o que a havia mantido oculta até aquele momento, mas agora eu via um perigo muito real, muito próximo, à minha integridade e à dos meus companheiros.

Meu dilema estava em que para proteger o grupo eu precisava apontar uma ameaça que o próprio grupo não aparentava perceber. Meu dilema estava em que, para proteger o grupo, eu precisava dar um passo para além da indiferenciação – perdendo, assim, todas as seguranças e privilégios que ser parte indiferenciada do grupo me havia conferido até aquele momento.

A singularidade daquela percepção me pressionava na direção de um processo que eu buscara por longos anos evitar: aquilo que Jung chamou de individuação, a penosa tarefa de se tornar um indivíduo.

24 de Julho de 2008

Altercação

Sonhos

Como parte da pesquisa para sua tese de mestrado, o Carlos havia de alguma forma conseguido criar, do nada, um ser humano totalmente perverso: inteligente e empreendedor mas desprovido de qualquer virtude. Esse homem de maldade pura havia escapado e estava agora à solta pela cidade, procurando uma forma de destruir o Carlos e a pesquisa dele.

Era de noite e eu caminhava pelos pátios internos de alguma universidade, do lado de fora de ginásios e refeitórios iluminados, esperando. O Carlos apareceu e disse que a hora havia chegado e a mesa examinadora estava pronta para examinar a evidência do caso, que ele havia por segurança apagado da própria memória mas havia me dado para guardar. Tirei do bolso da camisa e entreguei para ele um pen drive e um maço de pequenos pedaços retangulares de folhas de caderno, com anotações a lápis e à caneta. Ele explicou que a teoria toda lhe voltava à lembrança enquanto lia as anotações, e correu para o auditório.

Fiquei ali fora no pátio; sem aviso e pulando agilmente de alguma quina de telhado, pôs-se de pé na minha frente o homem perverso, para me atacar. Antes que ele pudesse me pegar, no entanto, chegou por outro lado um homem idêntico a este mas de caráter inverso; o Carlos havia, sem que eu soubesse, criado um homem integralmente bom a fim de anular as perversidades do primeiro.

O homem bom avançou na direção do mau, na intenção de me proteger, e parou a dois passos dele.

– Este é um mundo mau – disse o homem mau, andando devagar ao redor do outro e estudando-o com falsa boa vontade nos olhos. – Muita maldade e poucos abraços.

E deu enquanto falava um passo na direção do homem bom, como se fosse passar o braço ao redor do seu ombro, mas atirou-se em vez disso no pescoço dele, com a intenção de estrangulá-lo. Logo estavam os dois altercando-se no chão, rolando de um lado para o outro, e como eram idênticos eu não podia distinguir quem estava levando vantagem.

A luta durou o que pode ter sido uma hora ou poucos segundos; depois desse intervalo entendi que o homem bom havia vencido, mas continuava a golpear sem clemência o corpo inerte do perverso que havia matado. O vencedor segurou o cadáver por um dos braços e passou a atirá-lo de um lado para o outro, fazendo-o bater com força contra o piso de cimento, até que todas as juntas se romperam: a cabeça, as mãos, os braços, os pés e as pernas desconectaram-se do conjunto, mantendo-se ligados uns aos outros e ao tronco por ligamentos vermelhos que pareciam molas. Mas homem bom, tomado de uma raiva que nada podia aplacar, continuava golpeando o corpo desconjuntado contra o piso.

Na noite do dia 22 para o dia 23

29 de Março de 2008

O Cavaleiro Sem Cabeça!

Jurássicas

A noite estava escura. A minhoca dorminhoca estava perdida. A dorminhoca era muito nova, e por isso a sua vista se embaralhava com as suas duas cabeças. É, ao contrário do que muita gente pensa, a minhoca tem duas cabeças.

Nisso, ao longe, na estrada, se ouviu um tropel. Logo surgiu um vulto de contornos avermelhados. A pequena dorminhoca estremeceu e procurou se esconder atrás de uma grande pedra. Era… era… era o legendário cavaleiro sem cabeça! A dorminhoca se encolheu ainda mais. Um ruído atrás de suas costas a fez olhar para trás. Era uma coruja! Ela precisava sair dali para não ser engolida. Mas, e o cavaleiro? A coruja deu um olhar ameaçador, o que bastou para a minhoca correr até o meio da estrada. Se ao menos ela chegasse até o outro lado da estrada… poderia encontrar a sua casa! Quando ela ia começar a correr, uma lâmina de espada quase lhe corta uma das cabeças. Era a espada do cavaleiro sem cabeça!!!

O cavaleiro deu uma gargalhada e falou:

– Aonde você pensa que vai? Durante séculos eu procurei uma cabeça, e agora, você que tem duas não quer me ceder uma?

– Mas… mas… a minha cabeça é pequenininha… E essa cabeça que o senhor carrega? Não serve?

– Essa é uma simples cabeça de abóbora… Eu só uso para iluminar o caminho.

O cavaleiro já ia cortar a cabeça da minhoca quando de uma estrela apareceu uma fada. Enquanto isso o cavaleiro ficou paralisado como uma estátua.

A fada, com um pequeno gesto, transformou a dorminhoca em um belo príncipe.

– O efeito do encanto – falou a fada – só dura até o amanhecer. – e de súbito, a fada desapareceu.

* * *

Esta história e suas ilustrações são do começo da década de 1980, portanto eu deveria ter entre 13 e 15 anos de idade quando me sentei para escrever. Minha apreciação por temas macabros e humor obscuro já aparece de forma muito clara, bem como minha incapacidade em manter o roteiro seguindo numa direção só.

Ainda mais revelador, embora não aparecerá como surpresa ao impenitente leitor da Bacia, é que deixei a história incompleta e parti imediatamente para desenhar outras coisas.

Tenho 90% de certeza de que foi a ilustração principal na primeira página que inspirou a história, não o contrário. Clique nas imagens para ampliar.



05 de Março de 2008

A fraternidade das letras

Manuscritos

Em Bauru, quando chegamos à cidade em 1979, não havia uma livraria de verdade e a biblioteca pública, que não era pequena, tinha menos livros interessantes do que a minha, que era. Enquanto me demorava a fazer amigos, eu passava o tempo sentindo falta da Biblioteca Pública de Londrina e da Livraria Ghignone de Curitiba, ambas vastas e inacessíveis.

O último – e único – reduto para ratos de livro como eu eram as três ou quatro estantezinhas de livros da papelaria Tilibra, que era a maior da região mas dedicava a melhor parte das suas instalações a produtos de giro mais certo. Meu problema era que, mesmo diante de oferta literária tão módica, eu não sabia que livros escolher, e não tinha dinheiro para testá-los todos.

Aquele, pode ser necessário lembrar, era o minúsculo e inconcebível mundo pré-internet; não havia uma grande e unânime ferramenta para guiar-nos pela mão e refinar-nos as preferências individuais. Praticamente não havia, fora a iniciativa das editoras, quem me recomendasse um livro ou um autor; não havia, que eu soubesse, autores com o gosto não-convencional que eu ainda não sabia que tinha, muito menos um público que os apreciasse. E, caso houvesse, eu não tinha como saber.

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06 de Dezembro de 2007

Hino que ouvi num sonho

MP3, Sonhos

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Não é com pouca freqüência que sonho com música (veja, por exemplo, aqui), mas nunca antes eu havia conseguido agarrar-me a uma música de tal modo a arrastá-la comigo para o mundo da vigília.

Foi na noite de 1º para 2 de dezembro deste ano, e do sonho em si lembro muito pouco. Sei que era um entarceder frio mas ensolarado, e eu estava numa cidade que podia ser Curitiba ou algum lugar da Europa que me falta conhecer. Pelas ruas e galerias do centro da cidade homens de capacete de construção e mulheres de lenço na cabeça (precisamente como num cartaz de propaganda soviético) caminhavam cantando um hino marcial numa língua que eu não soube reconhecer. Cantavam entusiasticamente, como se a música fosse parte de sua constituição e de seus destinos. A melodia era simples, mas a harmonia ia para lugares que eu não esperava; acordei solfejando e gravei imediatamente a primeira versão da música no computador.

A música é simples demais para não existir em alguma versão na vida real; não é mesmo impossível que eu tenha esquecido sua fonte na vigília só para poder recordá-la triunfalmente no sonho. Se você souber de algum pé da música na vida real, fique à vontade para me dar um toque por email.

Na tentativa de adoçar o acompanhamento de orgão amontoei instrumentos de orquestra, mas foi inutilmente. Na qualidade de hino, para sentir a extensão do seu poder seria necessário ouvi-lo sendo cantado por gente, mesmo que seja a gente que só existe nos meus sonhos.

Gravado na Capelinha de Melão do Monastério de São Brabo, etc. Clique no triângulo para ouvir.


Sapnis Himna - Hino da República dos Sonhos

Atualização

14h30 > escreve-me o Anderson para observar a semelhança entre o Hino da República dos Sonhos e Deus dos Antigos.