05 de Outubro de 2009

A Regra do Argueiro da Fé

Manuscritos

Ao contrário de nós, Jesus não tinha medo de que as pessoas se recusassem a ter fé em Deus: o que ele temia era a conduta dos que afirmavam ter. A falta de fé só deve ser lamentada quando não há evidência de fé em quem afirma que a tem.

Certa vez, numa conversa à beira do Jordão, Tomé articulou a coisa da seguinte forma (e imediatamente dei a essa sua fórmula o nome de “Regra do Argueiro da Fé”): Não lamente a falta de fé dos outros: lamente a sua própria conduta.

Fragmentos do Segundo Evangelho de Pedro, XII, 3-5

16 de Setembro de 2009

Breve história do arrependimento

Manuscritos

19

Não é segredo que as palavras não se dão ao respeito: prestam-se a qualquer coisa e rebaixam-se a qualquer metáfora ou abuso (pressupondo-se que haja uma diferença). O problema apenas se acentua quando a comunicação é intermediada por milênios de distância cultural e o ruído babélico de traduções, traduções de traduções e lembranças de traduções. Mesmo levando-se tudo isso em conta, é unânime entre os que se preocupam com essas coisas que poucas palavras quanto esta sofreram maltratos tão acentuados e repetidos ao longo tempo.

A desfiguração do termo é tão completa que quem se depara hoje em dia com ele – tão simples: arrependimento – não apenas não tem como saber o que significava há dois milênios para os autores do Novo Testamento que semearam o seu uso na civilização ocidental; não há na verdade como determinar ao certo o que a palavra implica nos nossos dias.

Dependendo de quem está falando e de quem está ouvindo, “arrepender-se” pode significar “sentir remorso”, “lamentar e/ou abandonar uma vida ou conduta de pecado”, “converter-se [à religião de quem está falando]“,”voltar atrás [com relação a qualquer assunto ou posição]“. “Arrependimento” pode ser rigoroso ou ligeiro, sacro ou mundano, duradouro ou passageiro.

Os pregadores ainda esbravejam “arrependam-se”, mas não tem como estar certos de como são compreendidos. O que exigem com esse “arrependimento”? Contrição sincera? Culpa reconhecida? Pecado lamentado? Conduta reformada? Uma combinação de tudo isso? É algo que só deve ser experimentado uma vez, ou é uma atitude a ser renovada periodicamente? É trato da mente, da vontade ou do coração? Diz respeito à conduta passada ou à conduta futura? Passa apenas pela vida interior ou deixa impressões digitais na vida real? Quais são suas marcas e suas implicações, em todos os âmbitos?

Ninguém sabe e não teremos como saber, pelo menos enquanto estivermos dançando ao redor desta tradução. Inteiramente esvaziado de sentido pelos abusos a que o submetemos, o termo “arrependimento” deve aguardar sem rosto na beira do caminho, enquanto saímos pelo mundo em busca de conceito mais iluminador que possa recuperar-lhe as feições.

Podemos começar, por exemplo, pelas origens.

Mudei de idéia

Garantem-me os que se ocuparam de estudar essas coisas (e serve-me de guia Guy D. Nave, de cujo The role and function of repentance in Luke-Acts tirei todas as citações que seguem) que a palavra grega que foi traduzida como “arrependimento”, metanoia (bem como seu verbo correspondente, metanoeo), era utilizada pelos gregos (se bem que em menor escala) muito antes que a palavra fosse apropriada e popularizada pelos cristãos.

Mesmo os que afirmam que os autores do Novo Testamento e cristãos posteriores imprimiram à palavra novas e revolucionárias nuances concordam que esses partiram do peso que a palavra já carregava do seu uso anterior por poetas e filosófos pagãos.

E, para os gregos clássicos, metanoia significava mudar de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma postura, mudar de idéia; implicava em mudança de mentalidade, de visão, de opinião, de propósito.

Escrevendo no quarto século antes de Cristo, o historiador Xenofonte diz assim:

Concluímos naquela ocasião ser mais fácil governar todas as outras criaturas do que governar homens. Porém, quando refletimos sobre a vida de Ciro, o persa, fomos levados a mudar de opinião, e julgar que governar homens pode ser tarefa nem impossível nem difícil.

Menandro, dramaturgo cômico do mesmo século, faz um de seus personagens dizer:

Deixo que você fique com uma de minhas possessões. Se gostar, fique com ela. Se não gostar, ou se mudar de idéia, devolva.

Falando a um tribunal, o orador Demóstenes, também do quarto século antes de Cristo, argumenta contra o seu oponente:

Que suspeito ele trouxe ao tribunal e foi capaz de condenar das acusações trazidas contra ele? Que decreto ele propôs do qual, depois de serem inicialmente persuadidos de sua legitimidade, vocês não escolheram mais tarde mudar de idéia?

Plutarco (45-125? d.C.):

Creio que os que, como homens que caem num poço, adentram irrefletidamente a vida pública, devem necessariamente experimentar confusão e começar a mudar de idéia sobre o acerto do seu curso de ação.

E:

Cypselus, pai de Periandro, quando era recém-nascido, sorriu aos homens que tinham sido enviados para matá-lo, e eles o pouparam. Quando esses mais tarde mudaram de idéia e foram procurá-lo, não o encontraram, porque sua mãe o tinha escondido num baú.

Fílon de Alexandria (25 a.C-50 d.C):

Deus não visita com a sua vingança aqueles que pecam contra ele, mas dá a eles tempo para que reavaliem a sua postura e remediem e corrijam sua conduta perversa.

Todos esses autores usam, nas palavras em negrito, o verbo grego cuja raiz é o substantivo metanoia, traduzido no Novo Testamento como “arrependimento”, e em cada caso o que querem denotar é uma mudança de idéia ou de postura.

As palavras só carregam sentido pelo seu uso anterior. Esse uso de metanoia pelos autores de fala grega sem dúvida orientou o a escolha da palavra por parte dos autores do Novo Testamento. Era como mudança de idéia ou reavaliação de postura que eles esperavam que metanoia fosse entendida pelos seus leitores.

Evidência ainda mais inequívoca disso é o uso de metanoia e seu verbo correspondente na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento que é a versão da Bíblia mais citada pelos autores do Novo Testamento.

E na Septuaginta metanoeo é usado consistentemente no sentido de mudar de idéia ou de opinião. Se não:

Também aquele que é a força de Israel não mente nem muda de idéia, porquanto não é homem para mudar de idéia (1. Samuel 15:29);

Por isso lamentará a terra, e os céus em cima se enegrecerão; porquanto assim o disse eu, assim o propus e não mudei de idéia, nem me desviarei desse propósito (Jeremias 4:28);

E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes; e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em benignidade, e muda de idéia com relação ao mal [que pretendia fazer]. Quem sabe ele não se voltará e mudará de idéia, e deixará após si uma bênção, em oferta de cereais e libação para o Senhor vosso Deus? (Joel 2:13-14);

Se em qualquer tempo eu falar acerca duma nação, e acerca dum reino, para arrancar, para derribar e para destruir; e se aquela nação, contra a qual falar, se converter da sua maldade, também eu mudarei de idéia do mal que intentava fazer-lhe. E se em qualquer tempo eu falar acerca duma nação e acerca dum reino, para edificar e para plantar, se ela fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então mudarei de idéia do bem que lhe intentava fazer (Jeremias 18:7-10);

Laço é para o homem dizer precipitadamente: É santo; e, uma vez feitos os votos, mudar de idéia (Provérbios 20:25);

“Quem sabe se se voltará Deus, e mudará de idéia, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?” Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho, e Deus mudou de idéia do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez (Jonas 3:9-10).

Pœnitentiam agite

O problema começou, naturalmente, quando a palavra começou a navegar na nossa direção através de traduções. E logo na primeira instância, na tradução direta do grego original do Novo Testamento para o latim da Vulgata, a transição foi espetacular.

Se é preciso demonstrar o ponto de que toda tradução é ideológica, bastará este exemplo: os patriarcas latinos escolheram traduzir o grego metanoia pelo latim paenitentia. O que estamos habituados a ler como “arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” é em latim Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum. Isto é, o que era “reavaliem sua postura”, ou algo parecido, passou a ser, sem rodeios, façam penitência.

Essa tradução foi orientada, sem qualquer dúvida, pela teologia prevalente no quinto século (e dali em diante), segundo a qual a salvação só podia ser obtida mediante a execução dos atos de justiça, caridade ou mortificação, fossem esses voluntários ou prescritos pelo padre após a confissão.

Numa única tacada, de metanoia a paenitentia, a percepção coletiva da humanidade sobre o sentido de metanoia/arrependimento foi alterada para sempre. Como se não bastasse, a própria integridade da mensagem bíblica em sua viagem pelo tempo estava agora em questão. Se os guardiões da ortodoxia podiam transformar “mudem de idéia” em “façam penitência”, estava agora claro que o próprio texto bíblico não estava imune, via tradução ou interpretação (visto que não há diferença), a virtualmente qualquer manipulação ideológica. “Amem os seus inimigos” podia muito bem ser reformado em “queimem-nos na fogueira” – como de fato acabou acontecendo.

Nosso problema, naturalmente, está em que as palavras e sentidos da Bíblia são ainda hoje submetidos a esse tipo de desfiguração. As palavras não se tornaram mais fixas, nós mais iluminados ou os portadores da ortodoxia mais dignos de confiança. Cada um persiste encontrando o que quer no texto que quer, e impingindo ao mundo a sua própria leitura. Se é Rick Warren que está lendo, Jesus aprova as guerras em geral e a do Iraque em particular; se é R.R. Soares quem está lendo, Deus quer que você seja rico, e o caminho é você dar o seu dinheiro para mim. As palavras prestam-se a qualquer coisa, e não é à toa que o Apóstolo concluiu, devidamente enojado, que a letra é letal em 100% dos casos. A mensagem da boa nova é de tal natureza que só pode ser transportada em palavras de carne embebidas no espírito – mas estou me adiantando.

Do arrependimento como sentimento até os nossos dias

Quando João Ferreira de Almeida escolheu traduzir o grego metanoia pelo português “arrependimento”, estava devidamente iluminado por traduções anteriores, como a inglesa de Tyndale (1526) e a Autorizada do Rei Tiago (1611), que usam os verbos correspondentes repent e o substantivo repentance.

Essas traduções foram instruídas, por sua vez, pelas ênfases da Reforma na importância da recuperação do sentido original dos textos bíblicos e, neste caso em especial, na rejeição da doutrina católica das obras como agentes da salvação.

Em todos os sentidos traduzir metanoeo como “arrepender-se” foi um tremendo avanço em relação ao latim “façam penitência”. A metanoia deixava de ser tráfico da carne e voltava a ser transação do espírito.

Porém já no tempo de Almeida “arrepender-se” podia significar tanto um remorso ligeiro quanto a contrição que patrocina uma reforma mais profunda. Longe do sentido pragmático do grego original, segundo o qual metanoia representava a conversão em si, o arrependimento passava a ser associado a uma sensação de remorso, ao espírito de contrição necessário (e que antecede) à conversão genuína.

Desse conceito de arrependimento como sentimento tentam nos salvar muitas traduções e paráfrases contemporâneas da Bíblia, que buscam ao seu modo recuperar o sentido original do grego metanoia. Como é muito difícil fazer-nos mudar de idéia com relação a um conceito tão arraigado quanto arrependimento, essas traduções recorrem a todo um leque de alternativas para verter o usual “arrependei-vos”: mudem de atitude, mudem de idéia, mudem de mentalidade, reavaliem a sua postura, deixem o pecado e voltem-se para Deus, corrijam-se, abracem a nova ordem das coisas – porque, naturalmente, é chegado o reino de Deus.

Novamente, essas novas traduções representam um avanço formidável em relação ao mais fraco (e apenas transversalmente acurado) “arrependam-se”. O problema (e a tremenda vantagem) com relação à tradução “mudem de idéia” e suas variações está em que ela também permanece aberta a todo o tipo de interpretação. Mudem de idéia, está certo, mas com relação a quê?

Esse caráter aberto não está ausente, na verdade, do próprio grego metanoia. Nossa sorte é que, dos autores do Novo Testamento, nenhum está mais preparado e disposto a nos explicar o que representa na vida prática a metanoia no sentido usado por Jesus – qual é o sentido e quais são as implicações dessa mudança de mentalidade – do que o autor do livro de Atos.

14 de Agosto de 2009

Essa crueza

Manuscritos

79

Essa crueza parece estar totalmente ausente do relato da criação em Gênesis. Não se encontram aqui as mortes, decapitações, violência sexual e derramamento de sangue que recebem destaque nos mitos originais de muitas culturas. A criação em Gênesis 1 e 2, em comparação, aparenta ser um processo disciplinado e austero, orientado por uma rigorosa assepsia.

A violência criativa persiste, no entanto, mesmo nos recintos sanitizados de Gênesis. Se não a vemos é porque em parte a agressão reside sob a superfície; em parte porque aprendemos a fechar os olhos para ela.

Em Gênesis a iniciativa divina da criação é regida por duas atitudes que se alternam, a criação e a organização – ambas arbitrárias e, cada uma a seu modo, inerentemente violentas. Extrair existência do que não existe é uma agressão contra a suficiência do nada e de Deus; organizar o que foi criado em categorias é uma agressão contra a legitimidade do caos pré-existente e da relação divina com ele.

Em especial, a narrativa bíblica investe na noção de que para criar é preciso promover sem pausa a separação. Qualquer que sejam os termos originais ou as escolhas da tradução, a criação bíblica é caracterizado por verbos inerentemente agressivos: dividir, fender, separar, extrair – sejam seus objetos terra ou mar, luz ou trevas, céu ou terra, dia ou noite, homem ou mulher.

A criação da mulher talvez seja o melhor exemplo da tentativa da narrativa de minimizar o caráter agressivo da criação, mas o fato do homem estar anestesiado durante a operação não altera a natureza violenta da cirurgia.

A grande agressão, no entanto, é reservada para o modo como Adão foi arrancado de modo não natural da terra com que foi moldado. Estrelas, peixes e pássaros surgiram reluzindo do éter e da palavra divina, mas o homem foi “tomado”, praticamente subtraído, do solo pela mão divina. Quando lembra que essa sua estátua deverá voltar fatalmente ao pó – porque não passa de pó – Deus reduz a vida humana a um terrível débito que a criatura terá de pagar contra a violência do criador, sua infração de ter arrancado do solo uma ilegítima porção.

Os reflexos dessas transgressões divinas aparecem claramente no modo como Deus distribui consequências para a transgressão humana. No veredito de Deus a criação e a geração de vida deverão permanecer para o ser humano processos tão violentos quanto foram para ele. A fim de extrair fertilidade do solo, o homem deverá derramar do seu suor e agredir perpetuamente o solo com o arado; a fim de dar a luz e presentear o mundo com a vida, a mulher terá de sofrer e aceitar agressão contra si mesma.

Também para o autor de Gênesis todo ato criativo é um ato de violência, e há algo de terrível na autodeterminação. Haverá algum modo legítimo de se exercer o poder? O conflito que resta, e do qual se ocuparão todas as páginas restantes da Bíblia, está em se, e de que modo, a autonomia e a potência podem ser administradas.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
22 de Julho de 2009

Um mundo além do perdão

Manuscritos

Que o próprio Jesus tenha sido batizado por João (e não o contrário, como pediu este último) é um nó que dois mil anos de tradição não bastaram para desatar. E não se trata apenas do constrangimento de ver o homem sem mácula rebaixando-se ao batismo do arrependimento “tendo em vista o perdão dos pecados”. A noção de um Jesus sem pecado, embora tenha se tornado um conceito teológico essencial, não é mencionada diretamente nas narrativas do Novo Testamento. Antes das cartas de Paulo (mesmo que essas sejam, como normalmente se supõe, cronologicamente anteriores aos evangelhos) o tratamento que o assunto merece é no máximo transversal.

Mesmo que nos atenhamos à narrativa, no entanto, há escândalos. Em primeiro lugar porque, enquanto batizava, João apontava continuamente para a chegada iminente de um grande Outro – aquele de quem João não se considerava digno de desatar as sandálias – que aplicaria uma categoria mais aperfeiçada e espetacular de batismo, um batismo diante do qual o de João reduziria-se à condição de contingência ou prefiguração. “João mergulhou em água, mas vocês serão mergulhados no Espírito Santo, dentro de poucos dias”.“Eu, na verdade, os batizo em água, mas está chegando aquele que é mais poderoso do que eu; ele os batizará no Espírito Santo e com fogo (Lucas 3:16)1”. Os que desciam à água pela mão de João eram, portanto, impulsionados por essa esperança e por essa promessa: o reino de Deus está próximo, e o Grande Batizador Divino está chegando.

O constrangimento está em que o primeiro ato deste batizador revisto e atualizado, profetizado e reconhecido por João Batista (“aqui está o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”) é ser ele mesmo batizado por João, e assim o círculo se fecha da forma mais incompreensível. Como num desenho de Escher, a serpente alimenta-se da própria cauda, ou a mão desenha a mão que desenha a mão2.

Certo é que Jesus endossou João Batista do começo ao fim, tendo imprimido sua explícita aprovação, em atos e palavras, sobre o batismo de João e suas inerentes transgressões. Em todos os evangelhos o Filho do Homem inaugura sua atividade pública sendo batizado por João Batista (em Atos 1:22 os apóstolos reportam o início de sua própria aventura com Jesus não ao seu primeiro encontro com o mestre, mas ao “batismo de João”, o que refere-se provavelmente ao fato de terem sido todos batizados por ele). Mais tarde, tendo angariados discípulos (alguns deles subtraídos inadvertidamente de João), Jesus mesmo não batizava; por um lado ele não impedia que a multidão continuasse afluindo ao batismo de João, por outro mandava ou permitia que seus próprios discípulos administrassem o batismo com água.

Este paradoxo, do Grande Batizador Divino que abstinha-se de batizar, está explicado em parte pela própria profecia de João Batista. Em seu último discurso antes da ascensão, registrado neste mesmo livro de Atos, Jesus ecoa diretamente à mensagem original de João, dizendo aos discípulos que aguardem em Jerusalém a promessa do Pai, “porque, na verdade, João batizou em água, mas vocês serão batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias (1:5)”.

E, dessa forma, o tema do batismo amarra os livros de Lucas e Atos (via Lucas 3:16, Atos 1:15 e todas as referências intermediárias e posteriores) de modo ainda mais completo e formidável do que o tema das testemunhas. Mas em Atos fica finalmente declarado o quanto as coisas estão interligadas: “Vocês receberão poder, quando descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas.”

A implicação clara em todas essas declarações e emblemas é que o batismo de João não envolvia qualquer transação ou alocação da lucidez do Espírito. O batismo de João era poderoso o bastante para perdoar os pecados, mas aparentemente o perdão dos pecados era pouco em relação ao que Deus tinha em mente. Jesus, guiado pela sua própria medida da lucidez divina, não queria apenas seguidores ou santos, queria testemunhas (e o que quer dizer com “testemunhas” devemos esperar que a narrativa vá deixando cada vez mais claro). Que o novo batismo deveria ser efetuado por Jesus já havia sido antecipado com suficiente clareza por João. A reviravolta (e isso só fica plenamente manifesto quando chegamos à orla da ascensão), está em que a administração desse novo batismo requer a ausência de seu aplicador. Para serem tocados pelo Espírito, os discípulos devem perder o toque de Jesus, e por uma excelente razão: o Espírito Santo é idêntico ao espírito de Jesus.

E finalmente, quando chega o momento de revelar a natureza do batismo do Espírito Santo, o autor (de Atos, ecoando o seu próprio Lucas) repete solenemente, ao mesmo tempo em que transforma, as imagens do batismo por imersão.

O texto esforçasse para deixar manifesto que o que está acontecendo é um batismo, mas um de uma estirpe nova e revolucionária. Como a água corrente que enchia o tanque batismal, o Espírito é “derramado” do céu até “encher toda a casa onde estavam sentados”. O aposento em que estão reunidos torna-se, nessa imagem, um recipiente cheio a ponto de transbordar. Uma vez mergulhados nessa solução, saturada das memórias e lealdades compartilhadas de Jesus, os presentes são imediatamente batizados, isto é, calibrados e equilibrados por ela. Numa osmose divina e instantânea, “ficam todos cheios do Espírito Santo” – isto é, passam eles mesmos à condição de recipientes. Estando cheios do Espírito, os discípulos tornam-se num golpe só efetivos portadores e potenciais distribuidores do conteúdo que carregam. Estão por um lado completos, por outro prontos para abraçarem outros.

É esse o milagre que os transportará ao inconcebível mundo além do perdão. Jesus não está com eles, mas está em cada um, e o reino de Deus nunca esteve tão próximo. Se o batismo no Espírito Santo é sua porta de entrada, sua palavra-chave é arrependimento.

Leia também:
A verdade e sua metáfora

NOTAS
  1. Os exegetas se digladiam sem pausa para determinar se no grego original a expressão “no Espírito Santo e com fogo” diz respeito a dois batismos independentes e opostos (o primeiro do bem, o segundo do mal) ou ainda a diferentes aspectos de um mesmo batismo (do bem). []
  2. É só o quarto evangelho que fornece para o batismo de Jesus uma necessidade, e sua explicação transforma em retrospecto toda a história do batismo de João. “Era para que ele fosse manifestado a Israel que vim batizando em água” – ou seja, João crê que seu batismo tenha sido todo tempo uma isca e um teste de seleção para o Messias. “Eu não o conhecia; mas aquele que me enviou a batizar em água me disse: ‘Aquele sobre quem você vir descer o Espírito, e sobre ele permanecer, esse é o que batiza no Espírito Santo’ (1:31,33)”. O mesmo evangelho, no entanto, aponta que tanto João quanto os discípulos de Jesus continuaram batizando em água depois do batismo de Jesus (3:23, 4:2), deixando assim claro que a triagem messiânica não cobre todas as funções narrativas do batismo. []
08 de Julho de 2009

As transgressões do céu

Manuscritos

Para os demais evangelistas João aparece no deserto, adulto e com uma missão, como que do nada. É apenas Lucas – este mesmo Lucas de Atos – que oferece ao homem adulto uma história de origem e portanto uma premonição.

João é filho de um sacerdote, Zacarias, e de sua esposa Isabel, ambos avançados em idade e sem filhos, como Abraão e Sara; seu nascimento é anunciado por um anjo, como o de Ismael, como o de Sansão, como o de Jesus.

Sobre menino o anjo explica que “muitos se alegrarão com o seu nascimento”, porque ele será “cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, o Deus deles”. Sua posturá servirá para cumprir a última profecia proferida no Antigo Testamento (Malaquias 5:6), pela qual Deus promete finalmente “converter os corações dos pais aos filhos”, isso (descobrimos agora) a fim de “providenciar um povo preparado para o Senhor”. Zacarias, ele mesmo cheio da lucidez do Espírito Santo, enxerga que seu filho “será chamado profeta do Altíssimo, pois irá adiante do Senhor, preparando o caminho para ele”, porque, graças à misericórdia de Deus, “a aurora virá lá do alto nos visitar”.

Esse menino, sobre o qual descerá pela última vez a Palavra do Senhor, salta “de alegria” ainda no ventre de sua mãe ao pressentir na saudação de Maria a estarrecedora proximidade do reino.

Essa tensão entre o antigo e o novo, entre o que foi prometido e o que virá, entre as velhas profecias e a nova luz, marcará a posição e o papel de João no Novo Testamento. Para Lucas, ainda mais do que para os demais evangelistas, João é a divisa simbólica entre dois mundos, representando ao mesmo tempo ponte de ligação e muralha de separação entre a Lei e as boas novas.

“A lei e os profetas vigoraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus (Lucas 16:16)”.

Então, antes que Jesus apareça nas cidades, o que acontece é que João aparece no deserto. O primo de Jesus vive como um outsider, inteiramente à margem da cultura reinante, mas usa essa sua postura marginal como credencial para sua posição de agente transformador. João é, afinal de contas, “a voz que clama no deserto” – e gritar no deserto, onde ninguém pode ouvir, é um contrasenso mas é também manifestação artística, ato de resistência e de contracultura, e portanto ato divino. Desde o tempo de Moisés, desde a sarça ardente que o fogo não consome e dos caminhos circulares debaixo do maná (e mesmo antes, nas peregrinações de Abraão e seus filhos que são como grãos de areia), Deus é aquele que sustenta a vida no deserto.

E logo no deserto há multidões, porque as pessoas escoam da Judéia e da Galiléia e de Jerusalém e de destinos ainda mais improváveis para desembocar nas margens do Jordão, onde João está apregoando uma nova e desconcertante mensagem, “o batismo de arrependimento para remissão dos pecados”.

“Arrependam-se”, João diz aos que recorrem a ele (precisamente como Pedro dirá quando estiver na sua posição – e podemos supor que os ouvintes de Pedro interpretarão sua injunção pelo que sabiam da mensagem de João), “porque o reino de Deus está próximo”.

Embora nunca se estenda sobre a natureza exata do reino de Deus ou sobre a natureza de sua proximidade (estará próximo no tempo? no espaço?), João está absolutamente convencido que o arrependimento é a única postura adequada diante da iminência de uma Pessoa (alguém “maior e mais poderoso do que eu”, que está para se manifestar e pode muito bem ser o Messias das profecias), pessoa que por sua vez precipitará um terrível Evento (que pode muito bem ser o juízo final, visto que “o machado já está posto junto à raiz das árvores; toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada no fogo”).

Por associar sua mensagem a essa expectativa de transformação iminente e possivelmente definitiva, a onda de João é frequentemente catalogada entre os movimentos “apocalípticos” ou “escatológicos” – isto é, definidos pela sua preocupação com as últimas coisas e com as derradeiras medidas a serem tomadas antes do fim – dos quais houve muitos antes dele e permanecem tão frequentes que não conhecemos ainda o último.

O que todas as tradições concordam é que João representou uma novidade desconcertante e uma onda irresistível. Para o embaraço da religião institucionalizada do Templo e dos fariseus, “multidões” de judeus de todas as origens e de todos os matizes [1] iam até João, [2] confessavam os seus pecados e [3] eram batizados por ele no rio Jordão [4] para o perdão dos pecados”.

O embaraçoso estava em que nada havia de ortodoxo em qualquer uma dessas práticas.

Nada na Lei, na história ou na tradição prescrevia que adoradores afluíssem a um profeta errante e confessassem os seus pecados, e nada sugeria que poderiam beneficiar-se em alguma medida com isso. Como acabamos de ver, embora a Lei prescrevesse uma série de imersões rituais, eram todas realizadas sem assistência pelo próprio adorador; o novo método de João, que batizava ele mesmo os que vinham até ele, não tinha precedentes que o redimissem. Outra diferença fundamental: as imersões previstas na Lei estavam invariavelmente ligadas à pureza cerimonial, e deviam ser repetidas todas as vezes que o judeu devoto se visse embaraçado pela impureza ritual. Em contrapartida, o batismo de João, com seus requerimentos e benefícios, era oferecido uma única vez e de uma vez por todas diante da emergência e da urgência do Reino.

O mais severamente não-ortodoxo e escandaloso no batismo de João, no entanto, estava em sua sua aspiração a propiciar o perdão dos pecados. Nem a mais liberal interpretação da Lei poderia sugerir que alguma outra prática, que não os sacrifícios apresentados no Templo, pudesse prover a remissão de pecados – e eis aqui o profeta cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, batizando gente, ouvindo suas confissões públicas e apresentando o batismo de arrependimento “tendo em vista a remissão dos pecados”.

Propor e promover um rito alternativo que mediasse o perdão divino era sustentar uma espécie muito grave de desobediência civil ou, neste caso, religiosa. Usar o ofício divino de profeta para contornar o serviço do Templo e suas minuciosas exigências não equivalia apenas a criticá-lo (como faziam, por exemplo, os essênios); era questionar por completo a sua legitimidade.

Não é à toa que essa postura tenha despertado a indignação de fariseus e saduceus, judeus particularmente comprometidos com a ortodoxia e com os escrúpulos do Templo, que foram sondar as obras do Batizador no Jordão e acabaram saudados por ele como “ninhada de víboras” – gente que, segundo João, usava sua religiosidade como manobra evasiva, na ilusão de poder “escapar da ira vindoura”.

O que resta portanto no batismo de João está em que, embora tivesse suas raízes fixas em expectativas e procedimentos anteriores, diferia desses ao ponto do escândalo e da transgressão. Lembrava os procedimentos prescritos para a limpeza ritual, mas separava-se deles porque a purificação que oferecia era interior e não exterior. Evocava as imersões previstas na lei e na tradição, mas se distinguia delas por seu caráter não-repetitivo e por ser administrado por um mediador. Era realizado no Jordão, que ecoava com a libertação do Êxodo e a posse da Terra, mas oferecia o perdão dos pecados fora de Jerusalém e longe do Templo. E, embora fosse administrado por João e seus discípulos, apontava para um grande e outro Mediador que estava ainda para chegar.

Tudo na mensagem de João existia no fio da navalha, na finíssima divisão entre continuidade e descontinuidade.

O problema para a religião institucionalizada de Jerusalém estava em que muita gente na massa inculta, não devidamente esclarecida nas necessidades e clarezas da ortodoxia, via esse novo e incômodo profeta como especialmente autorizado por Deus. E quem é Deus para autorizar novidades? Pelo contrário, é natural concluir que basta alguém oferecer liberdades em nome de Deus para demonstrar sua própria desqualificação.

Isso fariseus e saduceus enxergavam com clareza, mas a multidão se deixa desviar com tanta facilidade. Chegarão a seguir outro transgressor, um galileu que tentará justificar as novidades de João Batista com o absurdo argumento de que eram transgressões endossadas pelo céu (Mateus 21:25).

Como que para irritá-los, esse novo transgressor anunciará precisamente a mesma “boa nova” do “arrependam-se, porque o reino de Deus está próximo” que tanto incomodou-os no Batizador. E chegará ao extremo de sugerir que saduceus e doutores da Lei rejeitaram o propósito de Deus para suas vidas (como se isso fosse possível!) quando recusaram-se a submeter-se ao batismo de João (Lucas 7:29-30).

E, como que deliberadamente, como que para manchar logo de início a sua reputação e deixar muito claro a que veio, a primeira coisa que o novo transgressor fará em sua vida pública será identificar-se com a mensagem de João, sendo batizado por ele no rio Jordão, que àquela altura já se maculara com as impurezas de tantos.

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