30 de Maio de 2010

O clamor que provoca

Goiabas Roubadas

Whatever happened, happened.
Jack Shephard

Na descrição clássica da “teologia forte”, Jesus estava apenas refreando seu poder divino a fim de deixar que sua natureza humana sofresse. Ele livremente escolheu cercear o seu poder porque o Pai tinha o plano de redimir o mundo através do seu sangue. Mas se seu Pai tivesse mudado de ideia aqueles soldados romanos iriam sem dúvida lamentar o dia em que nasceram, da mesma forma em que irão certamente lamentar na eternidade. Na minha visão, isso é interpretar erradamente aquela cena em termos unicamente de poder: poder terreno contraposto a poder celestial. Na minha visão, Jesus estava sendo crucificado, e não se refreando; estava sendo pregado ali e sendo executado muito contra sua vontade e contra a vontade de Deus. E ele nunca tinha ouvido falar da ideia cristã, que surgiria mais tarde, de que estava redimindo o mundo através do seu sangue. Sua abordagem diante do mal foi perdão, não o pagamento de um débito devido a seu Pai ou ao diabo, através de sofrimento ou de qualquer outro modo. Seu sofrimento não foi uma moeda em câmbio local na economia do reino. O reino não é uma economia, e Deus não comparece a esta cena como um escriturário de débitos divinos, ou como um alto poder que assiste a coisa toda lá de cima enquanto voluntariamente refreia seu infinito poder de intervenção. Isto é mais uma teologia cosmetizada, é fraqueza que fantasia com um orgasmo de poder – se não agora, poder mais tarde, quando poderemos realmente nos vingar daqueles romanos odiosos.

Essa não é a fraqueza de Deus que estou defendendo aqui. Deus, o evento refugiado no nome de Deus, está presente à crucificação como o poder da ausência-de-poder de Jesus, em e como protesto contra toda injustiça que brota da cruz, em e como palavras de perdão, e não como um poder adiado que visitará mais tarde os seus inimigos. Deus comparece na qualidade de fraco agente do grito que clama do Calvário e clama através das eras, que clama de cada cadáver jamais produzido por todo poder injusto e cruel. O logos da cruz é um clamor de renúncia à violência, não algo que a oculta e adia para depois, numa atordoante façanha que apanha o inimigo de surpresa, abatê-lo com verdadeiro poder, demonstrando ao inimigo quem é realmente poderoso. Era precisamente isso o que Nietzsche criticava sob o nome de ressentimento.

O impacto de situar Deus no lado da vulnerabilidade e do sofrimento injusto não está, naturalmente, em glorificar o sofrimento e a miséria, mas em de protestar profeticamente contra eles; é conferir significado e profundidade divinos à resistência contra o sofrimento injusto, agregar o coeficiente da divina resistência ao sofrimento injusto, motivo pelo qual o sofrimento é a matéria de perigosas lembranças. O grito, o clamor, o rogo que ergue-se da cruz é um grande e divino “não” à injustiça, uma infinita lamentação contra o sofrimento injusto e as vítimas inocentes. Deus está com Jesus na cruz, e ao postar-se com Jesus em vez de com o poder imperial de Roma, Deus posta-se ao lado de um inocente perseguido por repreender os poderes estabelecidos. O nome de Deus é um divino “não” à perseguição, à violência e à vitimização. Semelhantemente, como acabamos de argumentar, a “transcendência” divina tradicional, de cima para baixo, deve ser reformulada de modo a que todos os seus recursos sejam empregados em favor da baixeza e dos desprezados. O efeito de se falar na transcendência de Deus não deve ser o de respaldar e sobrepujar a presença com uma hiper-presença, mas o de perturbar a presença com diferença – permitindo assim que os mais ínfimos alcem-se em divino esplendor.

Nesse modo de ver as coisas – e é essa a posição da teologia fraca, a religião de um anarco-profético-desconstrucionista – a transcendência de “Deus” não quer dizer que Deus eleva-se acima do ser como supra-ser. Ao contrário, Deus arma sua tenda entre seres identificando-se com tudo que o mundo rejeita e deixa para trás. Na verdade, ao invés de se falar em transcendência de Deus, melhor seria falar em in-scendência (incendiária inscendência!) ou “insistência” de Deus no mundo. Em Deus essência e insistência são uma mesma coisa. Com isso quero dizer que Deus se retira da ordem mundana de presença, prestígio e soberania a fim de instalar-se nos bolsões de protesto e de contradição do mundo. Deus pertence ao ar, ao clamor, ao espírito que inspira e aspira, que respira justiça. Deus se instala neste mundo nos recessos formados pelos pequenos, os zés-ninguéns e joões-ninguéns deste mundo – o que em 1 Coríntios Paulo chama de ta me onta. O que estou tentando é fazer com que deixemos de pensar em Deus como a coisa melhor e mais elevada que existe e comecemos a pensar em Deus como o clamor que provoca o que existe, o espectro que assombra o que existe, o espírito que sopra sobre o que existe.

John D. Caputo,
em The weakness of God: a theology of the event

27 de Maio de 2010

Os discursos ausentes: céu e inferno

Manuscritos

Visões de céu e inferno prestam serviço à evangelização.
Alan F. Segal, Life After Death

Todo texto tem em alguma medida o sonho de alterar a realidade, e parte do pressuposto de que para isso bastará alterar a realidade dos seus leitores. Talvez mais do que qualquer outro escritor bíblico, o autor de Lucas/Atos investiu pesado nesse aspecto “formador de uma cultura” do seu discurso. Seu texto é pontuado por momentos decisivos que requerem um posicionamento do leitor, e estamos agora postados sobre o mais exigente e memorável desses pontos fulcrais. É o momento da improvável e custosa encarnação, na vida real, de um sonho – o sonho encapsulado no modo de vida e no modo de morte de Jesus. Lucas é sua única testemunha, e seu testemunho é este: a nova e ideal comunidade dos três mil e tantos, de cujas luzes temos nos ocupado, é para ser encarada como primeira moldagem de um vaso adequado para reter e distribuir mundo afora mundo o fluido sagrado da herança de Jesus.

Uma comunidade é definida pela intersecção dos discursos que a originaram, e Lucas trata de deitar muito claramente as diretivas que deverão caracterizar o legítimo movimento do reino. Como vimos, e o fio da narrativa deverá nos dar oportunidade de confirmar, neste dia de Pentecostes os desbravadores do reino dobraram-se à exigente persuasão do espírito, de que Jesus estava certo ao sustentar que arrepender-se é mudar o mundo e pecar é omitir-se. Desafiada e confrontada pela exposição de Pedro, uma pequena multidão ousou adentrar de mãos dadas esse mundo além do perdão, em que meros homens abraçam o exemplo não-condicionado de Jesus, encenam continuamente a sua subversão e inauguram uma comunhão tão escandalosamente generosa, desarmada e inclusiva que acabará representando ameaça a todas as manifestações controladoras de poder.

Antes de deixarmos para trás esta visão da glória de uma comunidade inteiramente humana (e portanto inteiramente divina) e avançarmos para o confronto dessa sociedade revolucionária com um mundo avesso a mudança, será necessário fazer outra digressão. Porque, se enfatizamos cada um dos discursos presentes (todos eles não-condicionados e portanto subversivos), não traçamos ainda os discursos ausentes – aqueles que não fazem parte da exposição e da incorporação da boa nova no livro de Atos, mas acabaram ganhando destaque nas obsessões e ênfases da igreja institucional até os nossos dias.

Se é objetivo do autor de Atos estabelecer quais devem ser as expectativas e as prioridades de uma comunidade que se proponha a levar avante o legado de Jesus, devemos crer que ele assenta a sua posição tanto pelo que diz quanto pelo que não diz. Denunciar os discursos ausentes, que intrometeram-se mais tarde na ideologia cristã, servirá não apenas para contrastar a límpida comunidade do reino com a turva igreja institucional que terminaria por sequestrar a sua herança; deverá servir também para elucidar porque esses discursos se intrometeram. Ficará evidente que a igreja apossou-se desses conceitos piedosos a fim de tornar a experiência cristã mais devocional e menos existencial – isto é, tornar passível de domesticação o que era incontrolável, tornar condicionado o que era não-condicionado. Nesse processo, terminou por ocultar o desafio e a integridade da boa nova do reino, tornando nula qualquer alegação de sua relação com ele.

O primeiro desses discursos ausentes, que não comparece no testemunho de Atos mas recebeu tremendo destaque depois, a ponto de tornar-se absolutamente central na articulação ideológica do “evangelismo”, é a questão de céu e inferno.

Porque na descrição do jorrar do espírito, na apresentação da boa nova por parte de Pedro e na primeira “conversão” exemplar não há nenhuma promessa de vida após a morte – nenhuma visão do paraíso, nenhuma ameaça de inferno1.

O discurso de Pedro, que parece ter articulado o que o espírito estava dizendo a todos e através de todos, pode ser resumido da seguinte forma: Jesus, o homem de Deus cujo ensino íntegro os homens consideraram insuportável ao ponto de assassiná-lo sem motivo por essa razão, Deus o fez Senhor e Messias. Agora que a própria morte mostrou-se incapaz de retê-lo, e estando em posição indistinguível da posição de Deus, ele confere que todos sejam capazes de compartilhar da lucidez do seu modo de ver a vida, de viver e de morrer. Ou, numa versão ainda mais resumida: Deus conferiu ao Marginal a posição de destaque, a fim de que abracemos a sua estirpe de marginalidade e dediquemos nossa vida à inclusão dos marginais.

De uma forma ou de outra, o argumento decisivo da argumentação de Pedro (e, como veremos, de toda apresentação da boa nova no livro de Atos) reside na singularidade de Jesus. A ressurreição é mencionada como desconcertante confirmação dessa singularidade, mas Pedro não oferece nenhuma indicação de que essa ressurreição seja ela mesmo algo menos do que singular – isto é, seu argumento não estende a vida após a morte como padrão ou promessa adicional. Sendo assim, quando seria o momento mais favorável para pressionar o seu público com os horrores da punição e as recompensas da eternidade, Pedro se abstém de fazê-lo: sua ênfase permanece no perdão dos pecados, isto é, na reparação das omissões passadas, e no arrependimento, isto é, na adoção (no momento presente) do modo de vida de Jesus. Seu apelo é “salvem-se da mesquinheza desta geração.”

Em contraste com essa postura, a igreja acabaria deslocando por completo o argumento decisivo de seus esforços evangelísticos, transferindo-o da singularidade de Jesus para a ameaça do inferno e a oferta do céu. De longe, a forma mais comum de se apresentar a fé cristã (e isso retém em comum os dois lados da igreja formal separados pelo fissura da Reforma), é oferecendo-se ao ouvinte uma chance de “salvação” – apresentada, bem-entendido, como uma oportunidade de escapar da condenação do inferno e abraçar a vida eterna no céu2.

De acordo com essa visão, converter-se não é assumir o perdão e adotar a vocação de alterar a tessitura do mundo, mas aceitar o convite de beneficiar-se pessoalmente do sacrifício de Jesus de modo a, por um lado, escapar de uma punição sem pausa no inferno e, por outro, ganhar a vida eterna no céu ao lado dos que você ama3.

Agora, se o livro de Atos descreve os primeiros passos do que viria a ser conhecido como igreja, e se deita as diretrizes apostólicas para se “ganhar pessoas para Jesus”, por que céu e inferno não são mencionados – não só nestes dois primeiros capítulos, mas até o final? Por que a recompensa futura e a punição incessante não recebem a ênfase que a igreja aprendeu a dar a ela?

Este não será o espaço para analisar o processo histórico através do qual a igreja acabou colocando céu e inferno no centro do seu discurso; não será nem ao menos necessário estabelecer a distinção entre a ideia de céu e inferno, como foram entendidos depois, e o conceito de ressurreição dos mortos (e renovação da terra) que consistia basicamente na estirpe de eternidade aguardada pelos judeus no tempo de Jesus4.

Bastará, em primeiro lugar, que tenhamos em mente que o discurso da eternidade está por completo ausente dos procedimentos exemplares da igreja nascente no livro de Atos e que não aparece no Novo Testamento associado à transmissão da mensagem e do legado de Jesus. Como os autores do Novo Testamento viam a coisa, evangelizar ou estender ao mundo a boa nova do reino não é acenar diante das pessoas com um ingresso gratuito para o paraíso, nem ameaçá-las com uma rampa até os fogos eternos.

Em segundo lugar, devemos aprender a reconhecer o papel que céu e inferno passaram a desempenhar na ideologia cristã. Alan F. Segal observa que “visões de céu e inferno prestam serviço à evangelização”, e disso resta abundante evidência mesmo nos nossos dias. Recorrer a céu e inferno como argumento decisivo na evangelização tem o duplo efeito de tornar a boa nova mais “espiritual” (isto é, mais palatável e menos exigente, no sentido de ter menos consequências para esta vida) ao candidato a cristão, e apelar para o instinto de “autopreservação emocional” que todos os homens têm em comum. Quem não se sentirá compelido a esquivar-se do sofrimento e a ganhar o gozo, numa transação que não requer esforço algum de sua parte?

Porém não é só na hora de angariar convertidos que céu e inferno se mostram ferramentas úteis. O domínio da vida eterna tem ainda uma poderosa função controladora sobre as pessoas. Numa sociedade que crê nesse tipo de coisa, quem tem o monopólio sobre o além tem também o controle das pessoas nesta vida, e pode manejá-las a seu bel-prazer.

Tanto no céu quanto no inferno os mortos servem para tornar concretas e legitimar as estruturas éticas e hierárquicas de uma sociedade. Aqueles que retém as chaves do paraíso tornam-se logo os mais temidos e legítimos representantes do poder terreno, sendo que seu poder é exercido em dois níveis. Primeiro, as pessoas ficam mais fáceis de controlar porque creem que a preservação de suas almas no além depende de que sigam à risca as expectativas e normas deitadas pelos líderes do presente sistema. Segundo, como a vida eterna oferece um futuro em que todas as injustiças serão corrigidas, qualquer tentativa de se implementar um mundo justo ainda nesta vida é vista com maus olhos, algo beirando ou ultrapassando o limite da heresia.

Como se vê, o resultado da adoção do discurso de céu e inferno é precisamente o oposto daquele que, acabamos de ver, ocasionou a distribuição do espírito subversivo de Pentecostes. Em Atos a boa nova é a transformação do mundo; no discurso de céu e inferno a boa nova é que este mundo não precisa ser transformado. Em Atos a boa nova origina uma comunidade não-condicionada que representará constante ameaça ao estado de coisas, estando destinada a “virar o mundo de cabeça para baixo”; no discurso de céu e inferno, a boa nova é usada para legitimar e sustentar um estado condicionado de coisas, sequestrando o apelo universal da imagem de Jesus enquanto garante que os efeitos de sua popularidade se mantenham sob controle.

Não é de estranhar, portanto, que no livro de Atos céu e inferno permaneçam à margem do discurso da comunidade do reino, porque seus membros tomam por absolutamente central manter vivo neles mesmos o caráter não-condicionado de seu mestre. Permanecerão uma comunidade viva, no sentido em que estarão inteiramente mergulhados na solução das questões sempre cambiantes desta vida. Nada que possa ser usado como ferramenta de dominação fará parte do seu vocabulário ideológico, porque a boa nova deverá permanecer libertadora em todos os sentidos.

Nesse sentido, os revolucionários do reino estão mantendo-se inteiramente fiéis às ênfases de Jesus, que mostrou-se muito mais disposto a apresentar desafios e soluções para esta vida do que a prometer os confortos da próxima. Nos evangelhos se Jesus distribuía curas, ou até mesmo ressurreições, era porque queria resgatar a dignidade e reforçar os desafios desta vida. Ele ressuscitava porque, muito claramente, cria que as pessoas ainda tinham a sua missão – a missão dele – para cumprir, e porque cria que na balança das eras é só este lado da eternidade que conta. Sua proposta incessante era de que que a experiência humana na terra requer a redenção e a reviravolta da mudança de critérios, cujo resultado é a paulatina implantação do reino. Mesmo o perdão dos pecados, com o qual o batismo estava associado, era oferecido como libertação destinada a derrubar qualquer impedimento que se interpusesse entre o ser humano e o assombro da transformação do mundo – este mundo.

Foi precisamente dessa forma que os romeiros de Pentecostes entenderam a sua vocação; não como a certeza da vida eterna no céu, mas como a certeza da urgência dos desafios desta terra. Sua conversão não estava fundamentada na esperança do paraíso, que pelo que sabemos não foi nem sequer mencionado. Quem investe todo o conteúdo da sua fé na garantia de uma felicidade futura age como que não tem pressa, e a postura dos revolucionários do reino é de absoluta urgência. Por isso despojam-se radicalmente de todo embaraço, por isso estão sempre juntos, por isso prestam contínua assistência uns aos outros e a todos que estão chegando: o céu pode esperar, mas a cura deste mundo exige atenção imediata.

NOTAS
  1. Na verdade, esse sistemático silêncio sobre céu e inferno estende-se a todo o restante do livro de Atos. Embora o livro registre uma série de discursos evangelísticos e conversões exemplares, o argumento das ruas de ouro e do lago de fogo nunca comparece. []
  2. Para a maioria de nós, suficientemente expostos aos discursos cristãos, não será necessário demonstrar essa obsessão formal do cristianismo com céu e inferno. A visita a uma catedral da Idade Média, o comparecimento a uma “série de conferências” de uma igreja evangélica ou a leitura de um folheto evangelístico do século passado terão o mesmo efeito para confirmar essa centralidade da ideia de vida/punição eterna no discurso cristão. []
  3. Desde que, naturalmente, os que você ama também tenham concordado em beneficiar-se da mesma transação. Essa pendência servirá, por si só, como tremendo incentivo à evangelização. []
  4. Paralelamente, teremos de deixar de fora a controvérsia sobre a tradução do adjetivo grego que é tradicionalmente vertido como “eterno” (por exemplo, “vida eterna” em Atos 13:46,48) e que alguns intérpretes acreditam significar algo muito distinto. []
04 de Maio de 2010

Notas para uma leitura de Paulo

Manuscritos

 

Se Jesus nos ensinou a sermos homens para nos tornarmos filhos de Deus, Paulo nos ensinou a fazer uma ampla releitura da cultura e da história de modo a salientar a abrangência, a singularidade e a relevância do evento messiânico. Do mesmo modo que Paulo achou necessário empreender uma reinterpretação radical do judaísmo a fim de destacar (sem esgotá-los) os significados da obra de Jesus, devemos com o mesmo propósito sujeitar a uma reinterpretação radical o cristianismo e portanto nossa própria cultura. Nesse sentido são inteiramente válidas as críticas “pós-modernas” à história do cristianismo e a uma leitura tradicional ou condicionada do texto bíblico, mesmo quando o alvo dessas críticas é o caráter historicamente condicionado do próprio Paulo. Nenhum discurso é capaz de esgotar aquilo de que Jesus nos libertou ou as implicações da vida, morte e irradiação de Jesus para a nossa postura e nossa disposição cultural em cada momento da história; o Apóstolo seria o primeiro a concordar.

Paulo nos ensina não apenas que a elucidação de Jesus não alcança sua consumação no discurso de Paulo, mas que toda palavra, sendo em alguma medida proferida pela carne, será incapaz de adequadamente representar as implicações do reino, porque a carne é historicamente condicionada. Só o espírito, que sopra onde quer, poderá infundir na compreensão contemporânea da boa nova a suficiente graça. A letra mata, mas o espírito confere vida. O reino não consiste na palavra, cujo significado qualquer um pode sequestrar, mas na pura e intangível e subversiva e cavalheiresca e gentilíssima e inextinguivelmente generosa Intenção que é seu poder.

Nos primeiros séculos alguns cristãos chegaram à conclusão que para sobreviver o cristianismo requeria incessante defesa diante de ideias que competiam com ele pela primazia, e se tornaram por essa razão apologistas/defensores. Nas últimas décadas alguns cristãos chegaram à conclusão que para que a pérola de Jesus possa ser apreciada em sua pureza e singularidade, o próprio cristianismo não deve estar imune a críticas e ataques de dentro e de fora. Os primeiros achavam que ser como Paulo é tornar-se argumentador como ele; os últimos, que ser como Paulo é aprender com ele a exaltar a singularidade de Jesus em detrimento de todo o resto. O que confirma a validade do reino não são as muralhas de discurso que os articulados levantam para protegê-lo, mas a inargumentável irradiação de Jesus que despejam no mundo os menores de seus discípulos. Importa que Jesus cresça e que o cristianismo – abstração que Paulo provavelmente não reconheceria – diminua.

Leia também:
Além da submissão

04 de Dezembro de 2009

Bíblia Conservadora: Jesus não perdoa

Fé e Crença

A Bíblia Conservadora é um projeto que tem por objetivo apresentar a palavra de Deus em inglês contemporâneo, removendo ao mesmo tempo as distorções liberais.

The Conservative Bible Project

 

Em agosto deste ano Andy Schlafly lançou o Projeto da Bíblia Conservadora em seu conservapedia.com,«O erro dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o que quiserem e serão perdoadas.» sáite fundado em 2006 para corrigir o suposto viés liberal da wikipédia.

Até agora o Projeto da Bíblia Conservadora, fundado por Schlafly de seu próprio bolso, completou um terço do Novo Testamento e de Gênesis. As mudanças mais controversas são a eliminação do Novo Testamento das histórias em que Jesus perdoa a mulher adúltera e perdoa seus perseguidores na cruz.

“O erro fundamental dessas passagens está em ensinar às pessoas que podem fazer o quiserem e serão perdoadas, mesmo se não se arrependerem”, afirmou Schlafly.

Schlafly observa – corretamente – que ambas as cenas não constam dos manuscritos mais antigos. Para ele, isso comprova que nunca aconteceram.

“Os liberais amam a cena do apedrejamento porque podem usá-la contra a pena de morte”, disse Schlafly. “Mas naquela época eles não apedrejavam mulheres: eles as estrangulavam”.

Ele também culpa os acadêmicos liberais por terem feito com que as traduções bíblicas do século XX, como a Nova Versão Internacional, promovessem o socialismo, o antiamericanismo e o feminismo, minimizando o julgamento de Deus e os horrores do inferno.

Seria fácil desprezar Schlafly como um excêntrico sem credibilidade, não fosse o fato de que sua conservapedia.com acumula dezenas de milhões de visitas e está presente na lista dos 50 maiores sáites conservadores dos Estados Unidos, segundo o RightWingNews.com

Mark Barna, Conservative bible hits cyberspace

 

A Bíblia Conservadora obedece as seguintes diretivas:

  • Sistema de referência contra o viés liberal;
  • Não emasculada, evitando linguagem unisex e outras distorções feministas;
  • Utiliza potentes termos conservadores, atualizando palavras como “palavra”, “paz” e “milagre”;
  • Aceita a lógica do inferno, jamais negando ou minimizando a existência do inferno ou do diabo;
  • Expressa as parábolas do livre mercado, esclarecendo as numerosas parábolas econômicas em seu completo sentido de livre mercado;
  • Exclui passagens não-autênticas inseridas posteriormente: remove passagens interpoladas sobre as quais os liberais baseiam seus argumentos, como a história da mulher adúltera.

The Conservative Bible Project

05 de Outubro de 2009

A Regra do Argueiro da Fé

Manuscritos

Ao contrário de nós, Jesus não tinha medo de que as pessoas se recusassem a ter fé em Deus: o que ele temia era a conduta dos que afirmavam ter. A falta de fé só deve ser lamentada quando não há evidência de fé em quem afirma que a tem.

Certa vez, numa conversa à beira do Jordão, Tomé articulou a coisa da seguinte forma (e imediatamente dei a essa sua fórmula o nome de “Regra do Argueiro da Fé”): Não lamente a falta de fé dos outros: lamente a sua própria conduta.

Fragmentos do Segundo Evangelho de Pedro, XII, 3-5