01 de Outubro de 2008
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Quando chegou o dia de Pentecostes/Qüinquagésimo estavam todos reunidos de comum acordo.
De repente veio do céu um ruído, como o de um vento forte e impetuoso, e encheu toda a casa onde eles estavam reunidos. Apareceram então línguas como que de fogo, que se ramificavam e pousaram sobre cada um deles. Todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, de acordo com o que o Espírito Santo concedia que falassem.
Havia residindo em Jerusalém, naquela ocasião, homens judeus religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. Por causa daquele ruído juntou-se uma multidão; estavam todos confusos, porque cada um os ouvia falar em seu próprio idioma. Todos estavam espantados e admirados.
– Vejam – eles começaram a dizer uns aos outros, – não são da Galiléia todos esses que estão falando? Como então cada um de nós pode ouvi-los em seu próprio idioma, da terra em que nasceu? Porque todos nós, da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia, os ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas.
Todos estavam boquiabertos e perplexos.
– O que será isso? - perguntavam uns aos outros.
Atos 2:1-12
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Porque a resposta da narrativa (isto é, da mão divina) à iniciativa organizatória de Pedro é imediata, fulminante e inequívoca. O que acontece em seguida é o único momento verdadeiramente sobrenatural de toda a narrativa do Novo Testamento; talvez da Bíblia inteira.
Jesus fizera levantar os mortos, mas o mesmo havia realizado Eliseu; dera visão aos cegos, mas antes dele o Rio havia levado as chagas de Naamã; o Filho do Homem subira ao céu, mas tinha sido precedido por Elias. Até este momento o poder divino reservara para si recatos, apegara-se ao rigor de seu método. O Espírito descera, cegante, mas sempre sobre um escolhido ou outro; guiara, mas pela mão do profeta; falara, mas à distância segura do Outro. O próprio Jesus, que venceria com uma palavra a própria morte, não havia sido capaz de superar por completo o obstáculo de ser ele mesmo: a incontornável dificuldade de não ser a pessoa com quem estava falando.
Porém agora, enquanto os seguidores do Cristo desaparecido aguardam reunidos um momento que não sabem se reconhecerão, o espírito de Cristo derrama-se por completo e sem recatos sobre todos e sobre cada um. As línguas de fogo descem sem distinção: todos os reunidos contemplam sem véu a nudez divina e sua glória, e todos imediatamente transbordam dela.
A Encarnação do Filho, em sua atordoante exuberância, aparentemente não bastara para um Deus suficientemente ambicioso. A divindade provera para si, através do precedente de Jesus, uma segunda e definitiva encarnação, efetuada pelo derramamento profuso da consciência universal de Cristo sobre os que eram tocados por ele. Deus revelava finalmente seu plano: um Filho singular não lhe bastava; seu projeto era ter uma multidão de Filhos, uma comunidade vertiginosa e viva de conspiradores forjados segundo o molde revolucionário da mente de Cristo.
E, quando acontece, acontece sobre todos sem exceção, homens e mulheres, velhos e adolescentes. O texto enfatiza continuamente esta unanimidade pelo uso acumulado das expressões “todo”, “todos” e “cada um”. Nisto, na verdade, está a singularidade da coisa toda: nesta perfeitamente cavalheiresca abrangência de generosidade, sem precedentes e sem sucessores na história de todos os cultos. Em todas as tradições, o sobrenatural é de algum modo seletivo; o que acontece no dia de Pentecostes, em seu generoso abraço, é sobre-sobrenatural.
Que o evento está colocado no relato de modo a contrastar com a recente votação orquestrada por Pedro não deve haver nenhuma dúvida. Pois a iniciativa de Pedro é, no fim das contas, elitista e institucional; o derramamento do espírito é universal e democrático (para não dizer socialista ou, ainda melhor, anárquico).
A votação de Pedro, de iniciativa humana, é delimitadora, fazendo apenas confirmar e legitimar as categorias pré-estabelecidas; o derramar do Pentecostes, de iniciativa de Cristo, é igualitário, dissolvendo em sua embaraçosa unanimidade todos os rótulos e categorias.
A votação de Pedro é sensata, ordenada e ordeira, mas nada realmente produz; o derramamento do espírito é loucura e vento e ruído e caos e, nisto, todos se entendem e todos serão transformados.
De um universo de muitos, a eleição de Pedro peneira dois e premia finalmente um. O espírito escolhe todos e sobre todos reparte a sua honra.
A votação de Pedro é manobra de exclusão, enquanto o sopro do espírito é abraço todo-inclusivo; mesmo os “de fora” são inequivocamente tocados pelo milagre (”ouvimos falar das grandezas de Deus em nossas próprias línguas”), e num instante estarão incluídos nele.
Impossível não ver, em toda essa subversão, a marca distintiva do homem de Nazaré. Pode ser possível perder Jesus de vista no livro de Atos, mas este definitivamente não é o momento. Jesus dissera que teria de partir para que seu espírito viesse; garantira que não deixaria os discípulos orfãos; assegurara que todas as nações veriam a sua glória. Eram promessas grandes e tremendas, mas seu plano se mostrara ainda mais arrojado.
Pois o que testemunhamos neste dia de Pentecostes é nada menos, senhoras e senhores, do que a volta de Cristo.
Jesus dissera que na sua vinda seria visto num instante do oriente ao ocidente, e aqui estão todos – da Pártia, da Pérsia, de Elã, residentes na Mesopotâmia, na Judéia, na Capadócia, em Ponto e na província da Ásia, na Frígia, na Panfília, no Egito e nos distritos da Líbia ao redor da cidade de Cirene, romanos residentes, tanto judeus de nascimento quanto convertidos ao judaísmo, de Creta e da Arábia – sendo tocados por ele e contemplando sem intermediários o seu esplendor.
É por isso que Jesus insistia ser necessário que ele fosse, isto é, não permanecesse neste mundo fazendo no nosso lugar o que não éramos capazes de fazer; era por isso que ele assegurava que seus discípulos fariam maravilhas maiores do que as que ele havia feito. Era esta sua promessa, era este o seu plano. Não devemos olhar para o céu aguardando a volta de Cristo, porque o Pentecostes explica-nos sem rodeios que ele voltou imediatamente.
A volta de Cristo somos nós.
17 de Setembro de 2008
A experiência do exílio não produziu apenas uma nova idéia de Deus; promoveu o surgimento de uma nova idéia de futuro e do desenrolar da história.
Anteriormente Jerusalém era vista como habitação perene e invulnerável da glória divina; sua queda exigiu uma inusitada reavaliação dessa crença. De que forma conciliar a promessa da linhagem perpétua de Davi com a imagem de Jerusalém em chamas? Como harmonizar a promessa do glorioso destino de Israel com os infortúnios e embaraços do cativeiro? Como interpretar o esplendor da promessa diante do escândalo do exílio?
Pressionados ou aclarados pelas contradições dessa nova condição, os profetas começaram a visualizar e anunciar um momento de restauração futura. A presente condição podia parecer sem esperança, apregoavam eles, mas haveria um momento do futuro em que Deus recuperaria a glória da nação e restabeleceria o trono de Davi.
Nesse futuro iminente Jerusalém seria restaurada, e a nação seria guiada no caminho da sabedoria e da devoção por um líder justo e destemido da descendência de Davi. Todas as tribos retornariam à terra prometida, abandonando para sempre a rebelião e a idolatria; haveria paz e prosperidade, e as nações pagãs se dobrariam finalmente diante do Senhor, trazendo suas riquezas e deixando-as como contrito tributo aos pés de Jerusalém.
No horizonte além das chamas, prometiam os profetas, aguarda com sua espada invencível e um cetro de conciliação um formidável messias. Bastava estender os olhos para pressenti-lo, avançando do futuro em nossa direção.
“Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e procederá sabiamente, executando o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro…” (Jeremias 23:5,6)
Na mais profunda agrura do exílio, portanto, os profetas produziram a luz da esperança messiânica. Deus não se esqueceu de nós, garantia ela; um rei virá para nos salvar.
A crença na vinda do messias acabou abrindo espaço para outra, com a qual acabaria se confundindo. Pois alguns escritos dos profetas não prometiam apenas uma restauração nacional ocorrida dentro do âmbito da história; anunciavam o encerramento da própria história, acompanhado de uma radical transformação da ordem natural das coisas – uma esperança escatológica, isto é, que dizia respeito e pressupunha um definitivo fim dos tempos.
“Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; e o bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; e o leão comerá palha como o boi. A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e a desmamada meterá a sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte; porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:6-9)
“E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Isaías 2:4)
Este universo renovado é anunciado como “um novo céu e uma nova terra”, em que todos viveriam em paz perpetuamente e no âmbito dos quais a própria morte seria aniquilada para sempre (Isaías 25:7,8).
Embora estejam assentadas sobre bases distintas, tanto a promessa messiânica quanto a esperança escatológica explicavam que os justos podiam esperar uma salvação a ser experimentada ainda nesta terra. Não existia, para uma ou para outra, o conceito de uma salvação que não fosse terrena. Animais, seres humanos e o próprio messias experimentariam a paz e a prosperidade na terra (embora seja “nova” ou “renovada”, é ainda a terra) e não no céu.
Na verdade, a promessa escatológica não anunciava que os homens subiriam para uma vida eterna no céu, mas que o próprio Deus desceria à terra para reinar eternamente ao lado dos homens (Zacarias 14:4-9, Ezequiel 43:6-7).
É uma diferença importante, que os desdobramentos posteriores relegariam a um segundo plano.
13 de Agosto de 2008
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Num daqueles dias, quando os que estavam reunidos eram cerca de cento e vinte pessoas, Pedro levantou-se no meio dos discípulos e disse:
– Homens irmãos, era necessário que se cumprisse essa passagem das Escrituras, aquilo que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi a respeito de Judas, que foi o guia dos que prenderam Jesus; porque ele era um de nós e participou do nosso trabalho.
(Ele comprou um terreno com a recompensa da sua perversidade, e ao cair ali arrebentou-se ao meio, e todas as suas vísceras se derramaram. Isso foi conhecido de todos os moradores de Jerusalém, de modo que o terreno recebeu na linguagem
deles o nome de Aceldama, isto é, campo de sangue).
– Pois no livro de Salmos está escrito: "que a sua residência fique deserta, e não haja quem more nela", e também: "que outro assuma a função dele". Então é necessário que, dos homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus conviveu conosco, a começar do batismo de João até o dia em que ele foi recebido no alto diante
de nós, um desses torne-se conosco testemunha da ressurreição dele.
Foram então apresentados dois nomes: José Barsabás, que também era conhecido como Justo, e Matias.
Eles então oraram:
– Senhor, que conhece o coração de todos, mostre qual destes dois o senhor escolheu para tomar parte deste encargo do apostolado, do qual Judas se desviou para ir ao seu devido lugar.
Fizeram então um sorteio com os nomes, e a sorte caiu sobre Matias; ele foi assim somado aos onze apóstolos.
Atos 1:15-26
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Então, enquanto aguardam a chegada do dom do céu que iria ensiná-los a ser testemunhas, ocorre aos discípulos, para preencher o silêncio, decidir por si mesmos o que é ser uma.
Ressentindo-se da lacuna deixada pela traição do Iscariotes, Pedro levanta-se e propõe (citando versos vagamente contraditórios do livro de Salmos) que o grupo reunido escolha um dos discípulos para unir-se aos onze apóstolos restantes, de modo a completar "o grupo dos doze".
Não se deixe enganar pela singeleza da narração: trata-se de ocasião tremendamente momentosa, que derramará profundas fissuras Novo Testamento adentro. Pedro não está aqui apenas advogando a consistência numérica ou tentando preservar de modo inocente uma tradição iniciada por Jesus. O que acontece é mais ambicioso e mais prenhe de conseqüências.
Pedro está, por iniciativa própria, definindo o que Jesus queria dizer – e com que estava falando – quando observou, antes da ascensão: "vocês receberão o poder do Espírito Santo e serão minhas testemunhas". Selecionar é interpretar, e Pedro pede que encontrem "um homem que acompanhou os doze durante todo o tempo em que Jesus conviveu com eles, a começar do batismo de João até o dia em que ele foi recebido no alto diante deles". Embora fosse provavelmente seletiva o bastante para eliminar a maior parte dos discipulos reunidos naquele dia, essa descrição não é definição de Pedro de uma testemunha, mas de um candidato a testemunha.
Quando dois nomes são indicados, o grupo vê-se obrigado a eliminar um – visto que na interpretação de Pedro os apóstolos divinamente apontados não poderão ser mais do que doze, conforme a configuração original. O ajuntamento solicita austeramente a predileção divina e realiza um sorteio, que consagra Matias e elimina da corrida Barsabás – não que nem um nem outro voltem a ser mencionados na história.
Com isso fica claro de antemão, diante do grupo, que a condição de testemunha de Cristo é algo a que nem todos – na verdade, muito longe disso – podem almejar. Pedro estabelece tanto os requerimentos formais da posição quanto os limites da sua circunscrição – e assim, num golpe só, transforma uma idéia que Jesus deixara no ar numa muito rígida instituição.
Ficou estabelecida, nesse único gesto, a tradição que viria a ser conhecida como autoridade apostólica: a noção de que o círculo mais interno de doze discípulos (justamente por terem estado mais perto de Jesus, no sentido literal) desfrutava de uma espécie de inalienável aval divino. O parecer desse grupo de apóstolos passava a ser considerado inquestionável tanto em termos administrativos quanto teológicos. Dito sem rodeios, Jesus mal havia esfriado no túmulo e os discípulos já haviam inventado uma hierarquia (com o passar dos tempo, interpretou-se que essa autoridade ia sendo transferida para os novos discípulos que viveram mais perto deste círculo inicial de discípulos, e assim por diante até o infinito. A autoridade espiritual reduzira-se a traços de uma radioatividade original que ia se esvaindo).
Jesus dissera que os discípulos aguardassem o poder do alto, mas Pedro, do alto de sua posição, já está distribuindo poder. O que redime a história é que o Espírito de Cristo, onde quer que esteja nesse momento, tem outras idéias.
28 de Maio de 2008
Já foi amplamente observado, e a própria Bíblia oferece testemunho suficiente, de que os antigos hebreus não conheciam – e portanto não promoviam – os conceitos hoje inescapáveis de alma imortal, de recompensa futura, de vida após a morte, de céu e inferno. Dois terços da Escritura hebraica estavam concluídos e a Bíblia não havia ainda feito qualquer menção, mesmo que indireta, à ressurreição ou a um julgamento depois da morte.
Retroativamente, depois de dois mil anos de ouvir a religião ocidental batendo na tecla da imortalidade pessoal, pode ser difícil apreender que os primeiros escritores do Antigo Testamento (entre eles os autores do Pentateuco, de Eclesiastes, das narrativas de Reis e de inúmeros Salmos) viam a vida e a morte de modo muito diverso.
Enquanto hoje temos a esperança (ou a ameaça) de uma vida futura plena e consciente, os autores da maior parte do Antigo Testamento ensinavam que deveríamos apostar todas as nossas cartas nesta vida, porque (enfatizavam eles) não há outra – pelo menos não uma existência que se compare a esta em termos de iniciativa, satisfação e relacionamento com Deus e os homens.
“Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: alguém comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol, todos os dias da vida que Deus lhe deu; pois esse é o seu quinhão/tudo que ele vai ter” (Eclesiastes 5:18).
A idéia dos antigos hebreus de vida depois da morte é representada por um local ou condição obscuros chamados Seol (ou Sheol), palavra que pode muito bem ser metáfora (digamos, como “túmulo”) para a morte definitiva ou o fim da existência.
“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma (9:10).”
O Seol difere dos conceitos posteriores de céu e do inferno em inúmeros sentidos importantes. Em primeiro lugar, trata-se de um destino democrático, local para onde vão indistintamente justos e injustos:
“E embora vivesse duas vezes mil anos, mas não gozasse o bem, [de que adiantaria?] – não vão todos para um mesmo lugar? (6:6).”
A existência (ou não-existência) no Seol não implica, por essa razão, no julgamento da conduta que a pessoa abraçou em seus dias na terra, ou numa espera por esse julgamento; não implica em recompensa ou castigo, não implica em ressurreição posterior. É lugar para a qual caminham todos, condição em que ninguém deve nada esperar e nada se pode fazer.
Para os autores dos primeiros dois terços do Antigo Testamento, portanto, a morte representava o dramático término da vida espiritual, o fim do relacionamento do homem com Deus. “Volta-te, Senhor, salva-me a alma/vida; pois na morte não há lembrança de ti; no Seol quem te louvará? (Salmo 6:4-5)”. O salmista entende aqui que a existência da sua alma corresponde à sobrevivência da sua vida. Ele não está pedindo pela salvação eterna da alma após a morte, conceito que claramente desconhece; seu pedido é que Deus prolongue a sua vida, de modo a que o seu relacionamento com Deus seja prolongado: “pois na morte não há lembrança de ti”.
Na melhor das hipóteses, o Seol era visto como um local de repouso final em que as pessoas estavam finalmente livres dos tormentos e arbitrariedades da condição humana (Jó 3:11-19). Porém mesmo quando visto como oportunidade de sono ou descanso, o Seol era a condição negativa que contrastava com a condição positiva de vida. Não havia promessa ou expectativa de recompensa, de consciência pessoal ou de ressurreição (”Mostrarás tu maravilhas aos mortos? ou levantam-se os mortos para te louvar? [Salmo 88:10)]“; “Não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele? [Eclesiastes 3:22]“; “Tal como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce ao Seol nunca tornará a subir [Jó 7:9]).
Para os antigos hebreus, a recompensa para uma conduta de obediência a Deus era vida, especialmente entendida como “prosperidade na vida” – mas esta vida. O castigo pela desobediência a Deus era a morte, especialmente entendida como morte antecipada – mas morte comum a todos. A vida podia ser eventualmente prolongada pela obediência (”para que se prolonguem os seus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”), mas uma vida longa e próspera na presença de Deus e uma prolongação de vida na forma de uma descendência numerosa era o máximo o que uma pessoa íntegra podia pedir e esperar.
Um caso como o de Enoque, que Deus decidiu “tomar para si” para viver na sua presença, era tido como exceção e como extraordinária exceção era celebrado. Para a esmagadora maioria, mesmo para a maioria dos justos, tudo que havia era a perspectiva de uma boa vida e uma boa morte. Depois, o nada, o túmulo: o Seol.
Dentro dessa visão de mundo, o homem era visto como pó da terra animado por um espírito – sendo que esse conceito de “espírito” não tinha qualquer relação com a idéia posterior de alma pessoal e imortal. Para os antigos hebreus, “espírito” era o sopro de vida inculcado temporariamente por Deus na matéria inanimada. Não trata-se de um espírito pessoal, nem tampouco de um espírito limitado ao homem. Todas as coisas vivas, mesmo os animais, eram tidas como animadas pelo mesmo espírito/sopro de vida.
O autor de Eclesiastes observa que “nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito/sopro da vida, para o reter (8:8)” e lamenta:: “Pois o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais; uma e a mesma coisa lhes sucede; como morre um, assim morre o outro; todos [homens e animais] têm o mesmo fôlego/espírito; e o homem não tem vantagem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão (3:19-20).” Mesmo um grande trecho Novo Testamento adentro, Tiago lembra que “o corpo sem espírito/sopro de vida é morto (2:26)”.
Quando a pessoa morria, então, não se cria que seu espírito continuasse a ter uma existência pessoal independente do corpo. O corpo voltava à terra (”do pó vieste, ao pó retornarás”) e o espírito/força vital voltava a Deus, que o havia concedido (Eclesiastes 12:7).
Os primeiros autores da Bíblia criam e escreviam sobre um mundo em que depois da morte não havia vida ou consciência, nem promessa de recompensa ou justiça futura. Era uma religião peculiar e limpa, em que o contraste essencial era mantido entre céu e terra, divindade e criação, e apenas Deus retinha e desfrutava do dom da imortalidade (Salmo 115:16-18). A meros homens cabia viver uma vida digna diante de Deus e morrer fazendo a coisa certa – porque na sepultura, repetiam constantemente a si mesmos, não teriam oportunidade de fazer uma coisa ou outra. Para os antigos hebreus, uma pessoa só podia ser espiritual enquanto vivia.
Essa perspectiva existencialista está perfeitamente resumida na declaração do salmista: “[Quando alguém morre] Sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos (Salmo 146:4)”.
Então, no último terço da Escritura hebraica, especialmente nos profetas tardios e na porção que os judeus chamam de Ketuvim/Literatura, algo aconteceu. O livro de Daniel, que foi escrito muito tempo depois dos dias que descreve (motivo pelo que os judeus não o contam entre os livros históricos), é o primeiro da Bíblia a mencionar diretamente a ressurreição:
“Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo; e haverá um tempo de tribulação, qual nunca houve, desde que existiu nação até aquele tempo; mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno (12:1-2)”.
Assim, do nada.
Nos séculos formativos que antecederam Jesus e viram a confecção dos últimos livros da Escritura hebraica, os judeus haviam encontrado – num lugar que não eram as antigas escrituras ou a sua tradição – a idéia de ressurreição, de julgamento e de salvação/perdição eterna.
02 de Abril de 2008
A versão da Bíblia mais contundente (talvez a mais edificante) que folheei nos últimos tempos é um trabalho de humor de voluntários pagãos (ou, no mínimo, ecumênicos); um texto aberto, colaborativo, que não existe no papel.
Tudo começou com a abreviatura lol e suas irmãs, nascidas para agilizar a comunicação em comunicadores instantâneos como o Yahoo! Messenger e o MSN. Nasceram em inglês e em inglês foram adotadas pelo mundo, mas a idéia original gerou variantes em outras línguas (em português “lol” é normalmente dito “rsrs” – ou, se a coisa for realmente engraçada, “rsrsrsrsrsrsrs”).
Com a multiplicação de câmeras de celulares e a facilidade do compartilhamento de arquivos pela internet, lol gerou as imagens de lolcat. Lolcat (”gato rsrs”) é uma fotografia de um gato acompanhada de um texto engraçadinho num dialeto recente do inglês que se chama lolspeak – uma mescla do leet, do miguxês, do vocabulário resumido da comunicação via messenger e daquele jeito bobo de falar que pais, apaixonados e donos usam para dirigir-se a crianças pequenas, namorados e animaizinhos de estimação.
Os lolcats cresceram e multiplicaram-se em número e popularidade, especialmente porque desde o início ficou claro que qualquer um que tivesse acesso a um gato, uma câmera e um computador poderia fazer e divulgar o seu. No hemisfério superior os lolcats viraram mania, ao ponto de ganharem sáites inteiramente dedicados a eles.
Mas não parou por ái, e eis o verdadeiro milagre. Como o objetivo do universo da internet é a permutação, ocorreu a alguém iniciar um projeto de tradução da Bíblia para o dialeto lolspeak, a língua dos lolcats.
O resultado, senhoras e senhores, não é menos que espetacular. A Bíblia dos gatos rsrs (The lolcat Bible, em inglês) é um projeto de colaboração aberta, como a wikipédia, por isso está continuamente em processo de revisão e aprimoramento, e qualquer espectador pode deixar a sua contribuição.
As traduções abaixo fui eu mesmo que arrisquei da versão mais atual do projeto. Não imagino que traduzir fielmente o lolspeak seja mais fácil do que traduzir livremente o hebraico, mas absolutamente não pude deixar de tentar.
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1 No comecim Gatu do Telhado fazeu us ceuz e a Ter, mas naum comeu eles. 2 A Ter naum tinha forma e tinha o rostu eskuro, e Gatu do Telhado andava di bicicleta invisivel por sober az aguaz. 3 No comecim naum tem lúis. E Gatu do Telhado diz, pódi ter lúis eu? E têvi lúis. 4 E Gatu do Telhado viu a lúis, pra ver as coizaz, e serparou a lúis da eskuridaum mas issu foi purque gatim enxerga no eskuro e naum tropessa em néda. 5 E Gatu do Telhado dizeu lúis Dia e eskuridaum Dia Naum. E foi u PRIMEIRU!!! 6 E Gatu do Telhado dizeu, tô na aguaz divocê fazênu telhado, mas não fez ainda um divocê. E fazeu um buraco no telhado. 7 E Gatu do Telhado fazeu os ceuz com az aguaz em baixo e az aguaz emcima. Fazeu acontecer. 8 E Gatu do Telhado dizeu, eu pódi ter firmento qui eh palavra engarçada da Blíbia pra telhado, e assim passou dia dois. 9 E Gatu do Telhado colocou az aguaz juntinhas divocê, e Gatu do Telhado fazeu lugarez secoz purque gatim NAUM GOSTA DI SI molhá. 10 E Gatu do Telhado chamou sem água diterra e aguaz di olciano. E foi dez.
Gênesis 1:1-10
4 Se você forfazê Gatu do Telhado di qualquer das minhas cria turas ládu céu, láda terra ou ládaz aguaz, eu acertu você cum meus olhos di lêiser. 5 Se você achar que Gatu falsu do Telhado é Gatu do Telhado, façu murrÊ você e gatins divocê e se gatins divocê tivé gatins, faço murrÊ tamein, por sê muito burro. 6 Si não, façu você e os outros divocê tê muntaum de gatins! 7 Se você dissé que Gatu do Telhado é du mal eu acertu você cum meus olhos di lêiser, purque naum gosto nada naum. Na boa.
Êxodo 20:4-7
1 Se você jugar será jugadu, então naum jugue. 2 Purque vc vai ser jugado dumesmo jeito que jugou o outro negu1m. 3 A serragem tá no oi duteu rimão i isso ti confundi. Pur que c alugá desse jeitu quando você teim uma tábua no oi divocê RSRS? 4 Pur que você diz “Deixa eu tiro a serrage do olho divocê”? Você tácoa tábua nu seu! 5 Tira a tábua do seu olho primeiro, zezão. Depois tira a poera do oi do teu irmaum. Dêr.
Mateus 7:1-5
1 I Jesus foi aa igreja e um gatim tava lá e o gatim tinha uma pata difeituosa! 2 I todu mundo ficou olhandu praver se ele ia detoná no gátabado, purque oz gatins devim durmi no gátabado i todu mundo na igreja quiria sa B si Jesus ia quebrá suas proprias regraz. 3 I ele dizeu ao gatim difeituoso “sei qui sua pata dói, rsrs, mas venhaqui di qualquer jeitu”. 4 I entaum Jesus dizeu “Kras, pur que vocês achum qui é melhor não tr@b@lh@r e deixar essi gatim maxucadu do q tr@b@lh@r e deixar essi gatim naum morrer?” E os kra na igreja naum dissram nada. 5 I Jesus fikou mu1to brabo com os kra e quis detoná com eles pur que estava agindo como b0b0s, maz entaum Jesus dizeu ao gatim maxucadu “Ei, midê sua pata por fvr” e o gatim maxucado deu a pata e entaum a pata naum estava maiz difeituosa! 6 I entaum aqueles kras saíram da igreja e forum falawr com outros kras do mal e foi tipo “caraca, alguém tem q detonar com Jesus”. 7 Mas Jesus q não é b0b0 já tinha pegadu seuz amigoz e ido pro olciano e todus os bons gatins da Galiléia ida Judéia 8 idi Jeruzalei ida Iduméia ido Jordaum idi Tiro idi Sidom ido espaço sideral ficaram todos tipo “CARACA! Jesus detona D+, na boa! Nóis temus q ir i detoná com Jesus!” 9 Intaum Jesus dizeu “Ei kras, tenhu q entrar num barco agora por q esses outros kras saum todus gatins gente boa e tal mas são D+ e preciso de um carro de fuga, rsrs”. 10 Pur q Jesus tinha detonado por tudo e detonava tantu que todos os gatins queriam tokar Jesus e todus essis gatins tinham tipo doençaz, q nojo. 11 I esses kras que antes eram do mal estavam caindo, esses kras ficavam tipo “Jesus, você eh filho do Gatu do Telhado!” 12 I Jesus ficava, tipo “Ei kras, naum falem de mim taum alto pur q eztou tentando esconder, na boa”.
Marcos 3:1-12
1 Na mesma hora tinha zilhoes de gatins tudo amontuados e andâno em cima unsdos outros, entaum Jebus dizeu: “Aê! CUID@DO com us fariseus, porque eles são tipo farsante total RSRS! Fora de brinca. 2 Purque naum tem o q fike em segredo ou num lugar izcondido. 3 E se você falá um segredo no escuro? Vaum contá nulugar de tomá sol. Se você contá nu ouvido di algueim? Amanhã sai no Google.
Lucas 12:1-3
1 No comecim é a macro do gato, e a macro do gato dis “Aê, Gatu do Telhado”, e a macro do gato é o Gatu do Telhado. 2 A macro do gato e o Gatu do Telhado são tipo miguxões desdi o comecim. 3 Ele fez tudo que eh cocada; sem ele nem nhuma cocada si fez. 4 Ele tácoa vida toda, e porcauza da vida negu1m diz “Aê, lúis”. 5 A lúis detona coas treva, mas as treva fica tipo meferrei. 6 E o Gatu do Telhado tem essi otro carinha, xamadu Juaum. 7 Ele fala pru povaum que a lúis tá lá, pra negu1m dizê aimeujesusinhocristinho. 8 Ele naum era a lúis; ele tipo só dis que a lúis tá lá. 9 A lúis da real – tipo muita luz – tá na área, falei? 10 Ele vem tipo “Aê, eu quifis vocês”, mas o mundu naum vê ele. 11 Ele vem pro seu pedaço, mas u seu pedaço dis “Naum quero saber!” 12 E o carinha que quer e dis “O Gatu do Telhado det0na aê”, essi é tipo filho dele. 13 Maz naum tipo filho normal, blz? Padrão filho do Gatu do Telhado.
João 1:1-13
31 Qui que eu vou dizer entaum, fora de brinca? Se o Gatu do Telhado briga pur nóis, quemdi nós precisa sinvolvê ni brigá de gato? 32 Si o cara pregou seu próprio gatim, Minino Jebus, nu poste di arranhá, pra darpra nóis maiz xisburg e lêiti quenxi e tipo essas coisas. 35 Quemqui intaum pódi nus roubá o amor do Minino Jebus? Pódi briga di gato, ou murdida no trazero, ou falta di raçaum na tigela, ou falta di pêlo ou u que for? 37 Naum na boa fora de brinca, somus maizqui vencidoris porque acariciamus u pêlo deli. 38 I tô sabendo qi neim suneca nem dança, neim Anjus Inviziveis, neim coisa diagora ou coisa diamanhã dimanhã, nem letercidade, 39 neim cima nembaixo, nem outrz animalz, pódim nus tirar du amor qui nóis teim, o lêiti morním do Gatu do Telhado e do Minino Jebus, o Cristerson, nórso Senhor.
Romanos 8
1 Si eu falássi az linguaz dos homenz idus anjus, inaum tivéssi amor, seria comu o serumano qui dirruba tudo qui eh panelaz e potis da partileira, na boa. 2 Si eu tivéssi poder do tipo dizew o futuroz e tivéssi acesso aas internets, e dominassi tudo que eh mizterios e tudo que eh conhessimentu e tudo que eh feh, qui déssi pra desova mountanhaz, inaum tivéssi amor, tava zeradim. 3 I si eu xegasse a dar tudo quieu tenho, idesse meu corpu pra ser queimado, inaum tivéssi amor, tava zeradim.
1 Coríntios 13:1-3
12 Jebus dis “tôchegandu!” (pra valer dessa veiz)
13 Sou u Primeiro e u Último e u Semper.
16 Gatim do Gatu do Telhado tá brilhando tantu.
18 U livru termina aki. Cabou. Blz?
19 Teh Blíblia Sagrader is © U Gatu do Telhado
20 BRB.
21 Quia grassa du Senhor Jebus Cristerson seje cum vocêis gatins pra semprer e semprer Ah Mein. Na real. Bjim bjim, xau xau!
Apocalipse 22
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