13 de Setembro de 2009

Quem precisa de capas

Pormenor

Dois livros lançados num intervalo de dois meses: isso se chama ausência de planejamento estratégico – e da minha parte. Meus professores de Administração sentir-se-iam ultrajados.

* * *

O livro da Bacia deve sair em novembro, mas este está praticamente na mão: Em 6 passos o que faria Jesus, pela Garimpo Editorial, com o conteúdo integral da série publicada originalmente aqui na Bacia.

O que o livro tem de diferente do pdf que já está circulando pela net é que eliminamos o último capítulo, “Deuses e homens” (que não havia sido concebido para a série, em primeiro lugar) e colocamos no lugar uma conclusão que escrevi especialmente para esta ocasião. Esse último capítulo, que deve amarrar todo o conteúdo anterior (para quem acha esse tipo de coisa necessária), estará disponível apenas na edição em papel; chama-se Além da memória e foi instigado por uma sacada do insubmisso Rondinelly Gomes de Medeiros.

O livro não tem capa, mas com conteúdo tão precário quem precisa dessas definitudes? Partamos sem entraves para as entranhas.

Notícias adicionais em breve.

Leia também:
Quem precisa de árvores
Sobre o livro da Bacia
Entr’acte

02 de Setembro de 2009

Sobre o livro da Bacia

Pormenor

Anunciado o lançamento do livro da Bacia, recebi inúmeras reações por e-mail: algumas com felicitações, algumas com dúvidas. Porém a maior parte dos que me contataram saiu em defesa da integridade dos ideais de beleza, liberdade, anarquia e amor (acima de tudo o amor. All you need is love, como lembrava o Christian de Moulin Rouge) que têm regido a Bacia desde os seus primórdios. Até que ponto estarão comprometidos?

Deixe-me tirar um momento, então para esclarecer aqui algumas dessas dúvidas e iluminar alguns receios. Espero que, dito isto, possamos seguir com a programação habitual ou ausência dela.

1. O que vai conter o livro?
A bacia das almas, o livro, é uma coletânea de artigos e documentos que publiquei nesta Bacia desde sua origem, em algum momento de 2004, até o final de março de 2009. A seleção dos artigos e sua distribuição em seções dentro do livro foram feitos por mim e por mais ninguém. Muita coisa teve de ser deixada de fora, mas meus critérios [arbitrários] foram preservar o que considero essencial e manter (dentro das limitações do meio) o espírito eclético, anárquico e transversal da Bacia, o sáite.

2. O que está no sáite e vai ficar de fora do livro?
Todos os vídeos e ilustrações, para começar. E ainda a esmagadora maioria das goiabas roubadas (embora tenhamos conseguido preservar uma meia dúzia). Tudo que pertence a séries não concluídas, como os infindáveis episódios de Nasce um homem e Rastros dos apóstolos, também ficará de fora. Do que está concluído no sáite, a única ausência digna de nota é a série Em seis passos que faria Jesus, que deve ter outro destino.

3. Alguma coisa foi censurada ou amenizada?
Caraca, cada pergunta. Tudo que está numa Bacia está na outra. O livro não é em nenhum sentido mais inofensivo do que o sáite.
A Bacia é aqui.

4. Que dizer do material que sempre esteve disponível no sáite e agora faz parte do livro? Esses documentos vão ser retirados do ar?
Púats, outra pergunta ofensiva. É comigo que você está falando. Não, nada vai mudar no sáite da Bacia. O que sempre esteve disponível aqui, aqui vai permanecer, enquanto restar o último monge vivo neste monastério. Não se engane: a Bacia das Almas é o sáite, não o livro. O livro recebeu permissão condicional para repetir o conteúdo que pertence a este lugar. Dito de outra forma, se você estiver disposto a [a] prescindir da facilidade da página impressa, [b] adentrar um labirinto e [3] abrir mão da ordem arbitrária que impus ao material, pode ler o livro completo online agora mesmo – com uma única exceção.

5. O livro contém material inédito?
Se não quem iria querer comprar, certo? A resposta é sim. Tudo que está no livro está no sáite, com exceção de um único capítulo, o último, que escrevi exclusivamente para o livro – e assim deverá permanecer por motivos contratuais. Em compensação, esse capítulo inédito chama-se Os livros não mudam ninguém, e quem me conhece saberá antecipar ou antever sem margem de erro o que está dito nele.

6. O sonho acabou? O Brabo “se enquadrou”? Vendeu-se ao sistema? Rendeu-se ao establishment? Dobrou-se ao status quo? Alinhou-se com aqueles que jurou denunciar? Dobrou-se ao brilho do Anel do Poder? Passou de incendiário a bombeiro? Vai passar a vender seminários de autoajuda? Esqueceu a lição de Borges, de que a fama é uma espécie de incompreensão? Vai deixar de recomendar filmes de gosto questionável? Vai deixar de questionar a rigidez das leis de copyright? Vai colocar o Rick Warren na lista de sáites indicados? Vai ajustar sua profissão de fé? Vai dar entrevista nas páginas amarelas da Veja? Vai posar nu para a revista G?
Evidente que sim. Admira-me você ter tido a ilusão de que poderia ser diferente.

Agora um passinho a frente.

Veja também:
A bacia das almas, o livro

31 de Agosto de 2009

Quem precisa de árvores

Pormenor

Já está circulando no twitter, então é tarde demais para não ser verdade também aqui.

Desde o início das atividades da Bacia venho explicando que “aqui aqui jazem em tormento incessante as minhas idéias que não viraram livro”.

Bem, em breve isso não vai ser exatamente verdade.

Mundo Cristão, novembro.

 

25 de Julho de 2009

Podem passar a sacolinha

Gírias e Falares

ou, o verdadeiro significado de “Bacia das Almas”.

Faz sentido.

Anos depois de publicar esta explicação (obviamente inventada, mas não por mim) para a origem da expressão “bacia das almas”, encontro esta plausível (mas não menos reveladora) definição no Dicionário Aulete digital:

Bacia das almas
1 Prato ou recipiente em que são depositadas as esmolas, nas igrejas.
2 Fig. Situação dramática, desesperadora, crítica.

13 de Maio de 2009

Em que o Brabo realmente realmente acredita

Manuscritos

Era inevitável.

Além das perplexidades que eu esperava e que naturalmente aprovo (o que o Brabo realmente acredita sobre MPB, sobre colocar passas na farofa, sobre a lagartixa do pantanal matogrossense, sobre abdução extraterrestre, sobre gente que mexe o cafezinho com a pazinha de plástico e fica lambendo a pazinha, gente que não pode passar por um estabelecimento envidraçado que fica se olhando como num espelho, cachorro do vizinho que não para de latir, vizinho, adiantar o relógio pra se enganar que está atrasado, gente que lê a sinopse antes de comprar o livro, sinopse, dentista que enche a boca da gente de ferrinhos e fica perguntando coisas, mocinhas de telemarketing, mocinhas, telemarketing, pronunciamento do presidente em cadeia nacional, Baby Consuelo, cerveja quente com gelo, discurso de miss universo, o rumo do voo da borboleta, primeiro de abril, quem fala de si mesmo na terceira pessoa) e das incursões dos que aproveitaram a brecha para fazer perguntas genéricas que quero um dia chegar a responder (“O que o Brabo realmente acredita acerca da produção de um bom texto?”, “O que o Brabo realmente acredita sobre livros evangélicos?”, “O que o Brabo pensa sobre amizade?”), encontrei dois tipos de reações à minha provocação Em que o Brabo realmente acredita: perguntas sobre teologia e perguntas sobre moralidade.

As questões sobre teologia foram, mais ou menos como eu esperava, as mais numerosas. É evidente que, devidamente injuriado e deliciado diante delas, não moverei um dedo para respondê-las. Fique claro que não quero que nada fique claro a respeito da minha posição sobre esses assuntos, e permanecendo assim será melhor para mim e para você.

Mas foram as questões sobre ética e moralidade que me pegaram desprevenido. Por alguma razão, eu não esperava ouvir gente perguntando minha opinião sobre o que é certo e errado; gente perguntando o que o Brabo realmente acredita sobre – digamos – inadimplência, amor livre, adultério, sexo antes do casamento e sexo depois do divórcio.

Em retrospecto eu deveria ter sido mais esperto e antecipado essas intervenções. Bastaria ter em mente os evangelhos para lembrar que as perguntas sobre moralidade envolvem sempre uma armadilha – e não é infrequente que a armadilha não esteja armada para quem está sendo interrogado, mas para quem está fazendo a pergunta.

Quem se levanta para fazer uma pergunta sobre ética está, ainda mais do que quem faz uma pergunta sobre ortodoxia, procurando alguma medida de legitimação. Você pode estar buscando a certeza de que minha posição sobre sexo é devidamente liberal como você esperava – para, diante dessa confirmação, celebrar comigo ou autorizadamente condenar-me em círculos mais conservadores. Paradoxalmente, pode estar buscando o contrário, confirmar sua suspeita de que o vanguardismo da minha teologia não tem verdadeira correspondência na minha postura sobre questões morais, que você toma por conservadora.

De uma forma ou de outra, é a delimitação do que é permitido e do que é proibido que acaba produzindo conforto – seja na confirmação da tolerância, na confirmação da severidade ou na condenação de ambas. O conforto está nos contrastes: o Brabo pensa como eu contra eles, ou o Brabo não pensa como nós.

Se sua pergunta não envolveu uma armadilha mais ou menos deliberada dessa natureza, isto é, se você fez ao Brabo uma pergunta sobre moralidade porque quer nortear a sua própria postura moral a partir da resposta, tantíssimo pior. Nessa caso a armadilha está pronta para você, e não para mim, e você precisa de mais ajuda do que qualquer resposta pode dar.

A maravilha está em que essas perguntas sobre moralidade não me esquivarei a responder, e ofereço para todas uma mesma resposta.CADA
UM
FAZ
O QUE
QUER
Não tenho vocação para pioneiro no sentido iluminado por Bernard Shaw; não espere testemunhar-me permitindo o que era proibido ou proibindo o que era permitido. Não me disponho a fornecer a ninguém esse conforto.

À questão “o que o Brabo pensa sobre [determinada questão moral]“, minha resposta permanecerá necessariamente uma só: cada um faz o que quer.

Faço questão de repetir: cada um faz o que quer.

Não preciso lembrar que não digo “cada um deve fazer o que quer”, e digo menos ainda que não deveria fazer. Trata-se de austera constatação, e não de confortante recomendação.

Cada um faz o que quer: é nisso que o Brabo realmente realmente acredita sobre questões morais. Como bem observou um perplexo Sabbatai Sevi, a verdadeira vertigem deste universo não que está em que haja bem ou mal, certo ou errado, perverso ou bem-intencionado, mas em que o proibido seja, em última instância, permitido.

Acredito que o universo moral esteja construído dessa forma singular, ao redor dessa reviravolta e dessa vertigem, cujo emblema original está na narrativa da queda em Gênesis. No universo moral o horizonte é também o limite, o acelerador é também o freio. Dependendo da sua constituição, da sua fibra e da sua inclinação, essa mesma verdade – cada um faz o que quer – soará para você como severa advertência ou como carta branca, como irresistível convite à permissividade ou como eloquente apelo à responsabilidade.

No vocabulário da Bíblia isso está expresso em códigos com os quais aprendemos a conviver, coisas como “cada um prestará contas de si mesmo a Deus” e “não façam aos outros o que não querem que façam a vocês” e “tudo é puro para os que são puros” e “por que vocês não decidem por vocês mesmos o que é certo?”. Numa terrível palavra, cada um faz o que quer.

O modo como você reage a essa realidade diz muito mais sobre você do que sobre Deus, sobre a moralidade ou sobre o universo.

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Mas passas na farofa é totalmente inadmissível.

Leia também:
Além da submissão