01 de Março de 2010

Não sou seu porta-voz

Manuscritos

Não piso numa livraria evangélica há talvez mais de quinze anos; hoje em dia a chance é ainda menor, agora que corro o risco de encontrar ali – imagine a minha cara – o meu próprio livro. Já basta o constrangimento de achar o livro da Bacia espreitando invariavelmente na estante de autojuda das livrarias seculares.

Agora que penso nisso, deve fazer uma boa década que não leio livros QUE FALEM SOBRE DEUS. Só consigo pensar em duas exceções, o Ortodoxia Generosa de Brian McLaren e o Salvos da Perfeição de Elienai Cabral Júnior – e, embora sejam livros excelentes (e falem sobre Deus apenas transversalmente, o que é quase perdoável), quase me arrependo de tê-los lido, porque lê-los é obrigar-se a recomendá-los, Eu não leria os meus próprios livros.e ninguém em hipótese alguma deveria recomendar ou ler livros QUE FALEM SOBRE DEUS, muito menos – e acima de todos – os meus.

Preciso confessar então, com todas as letras, que eu nunca jamais leria os meus próprios livros, nem por dinheiro, nem por amizade, nem – Deus me perdoe – por amor. Em termos estritos, se rolasse uma verdadeira integridade pessoal, eu não teria sequer como recomendar meus livros de modo indireto, como vivo fazendo, ou permitir que circulassem. A única parcela da minha obra da qual não me envergonho miseravelmente, e na qual encontro algum alento e interesse, é a ficção, e vivo prometendo a mim mesmo dar mais atenção a ela. Mas vida de ex-dependente é assim mesmo: sempre resvalando nos velhos hábitos, sempre remoendo as velhas obsessões. Todo combate tem uma grande parcela de narcisismo.

Para corrigir o anterior, preciso esclarecer que sim, leio livros que falam sobre Deus, com frequência e em grande número, mas tratam-se de autores que não acreditam em Deus ou no mínimo desconfiam muito – e estão, portanto, muito mais abalizados para discorrer sobre o assunto de forma relevante e não tendenciosa.

Deixo então, acima de tudo, esta recomendação e a severa advertência: se você, caro leitor, costuma ler livros QUE FALAM SOBRE DEUS, largue imediatamente mão dessa vida. Reconheceça essa sua dependência, segura na mão de Deus e vai. Ler livros QUE FALAM SOBRE DEUS é uma forma secreta de impenitência, um modo sistemático de contornar e evitar o verdadeiro e vital arrependimento. Acredite em mim quando digo que as pessoas que têm alguma intimidade com Deus não estão perdendo tempo escrevendo sobre ele; paralelamente, quem conhece minimamente os recatos e métodos de Deus absolutamente não perderia tempo procurando-o num livro – especialmente um livro que pretendesse falar com alguma autoridade sobre ele1.

Se continuo escrevendo, portanto, não é pela esperança de encontrar alguém que entenda ou alguém que se deixe convencer. Não é para cumprir uma missão ou obedecer um chamado. Não é por imaginar que o que escrevo possa ser relevante para alguém além de mim, ou por crer que seja a aguardada articulação de uma silenciosa ânsia coletiva.

Posso ser muito prepotente, quase ao infinito, mas não a esse ponto. Não sonho ser representativo de ninguém além de mim mesmo.

Já fui muito igrejeiro, mas hoje minha abstinência eclesiástica é para todos os efeitos completa.

Já me considerei evangélico, mas hoje não sei se seria acertado dizer que compartilho da fé cristã; mais certo seria usar uma tradução antiga e dizer que, depois de muitos anos tentando evitar olhá-lo nos olhos, vi-me seduzido pela persuasão de Jesus.

Leio a Bíblia muito pouco, a ritmo de conta-gotas, e minha versão favorita, por ser a mais desarmante e portanto a mais acurada, é a Bíblia dos gatos rsrs – e talvez seja necessário me conhecer pessoalmente para não ter dúvida de que estou falando sério.

Já fui explicado como ateu, como homossexual e como católico. Não me ocorreria contradizer nem por brincadeira essas definições, especialmente porque representam acusações nas bocas em que foram proferidas; minha obrigação é acumular brasas sobre suas cabeças, para que ardam no seu inferno por pressuporem a exclusão e por condenarem o que não deve ser condenado. Pecar não é afrontar a ortodoxia de alguns, é mostrar-se em falta para com a humanidade de todos.

Embora não tenha abandonado ainda a esperança de me tornar agente daquela transferência que Paul Tournier coloca no cerne do ministério de Jesus e à qual deu o nome de reversão da culpa – a tarefa de fazer com que os culpados sintam-se justificados e os justificados sintam-se culpados, – não me resta a expectativa de mudar a vida de ninguém, muito menos a minha. Certamente não através do que escrevo.

Não represento, caro leitor, o que você representa; represento o que represento, e temos de lidar com isso eu e você.

Existindo um Deus, ele não tem ilusões e sabe que não sou porta-voz de Deus (certamente não através do que escrevo). Não acalente você, meu amigo, essa ilusão.

NOTAS
  1. Naturalmente uma espécie semelhante de abstinência deve, mais cedo ou mais tarde, estender-se às próprias Escrituras. Eu mesmo li muito a Bíblia e passo a vida tentando esquecê-la, na esperança de ser capaz de colocá-la em prática (para mais sobre esse gracioso escândalo ver o último capítulo da versão impressa de Em seis passos – e eis-me de novo recomendando o irrecomendável). []
17 de Novembro de 2008

Docemente esquecê-lo

Goiabas Roubadas

O projeto de esperar a outra vida me cansou, e resolvi abraçar esta. Gostar da simples existência, amar a vida e querê-la de todo jeito, mas do jeito em que se possa gozá-la melhor. [...] E comecei a achar um banho de chuva melhor do que a missa; a reunião inútil com meus amigos na praça, melhor do que a falsa utilidade da reunião de catequese; uma cerveja a sós, escutando Chico Buarque ou Mônica Salmaso ou João Sebastião Bach, me caíam bem mais em conta para um prazer do que a palestra que me havia sido incumbida proferir no ECC (sim, eu era o menino de ouro, o protegido prodígio da Diocese, porque aos 17 anos já ministrava cursos de teologia, e palestras doutrinárias em todo tipo de reunião). Entendi, desse modo, como era maior a tal da Teologia da Libertação, maior do que a paroquialização das CEB’s e do que a cooptação do discurso “libertador” por amplos setores das igrejas. Não era possível promover “justiça social”, lutar pela “democracia popular”, conquistar “direitos sociais”, enfim, não era possível mudar o mundo, se não se mudasse o criadouro de mundos que é a religião, ou melhor, a religiosidade. De nada adianta trocar os mandatários se nunca muda a relação que constitui por dentro o poder, e que baseia-se, obviamente, na “metafísica” subjacente a tudo.

Para ser como ele é preciso esquecê-lo.

[...] Ieshua era pra mim, de verdade, um Mestre nisso. Mas o problema é que não sabia a dosagem de seu esquecimento. Sabia que lembrar-se muito dele atrapalharia tudo, porque é preciso ser como ele e não para ele. E, para ser como ele, é preciso esquecê-lo, docemente esquecê-lo. Esquecê-lo é colocá-lo além da memória, é encarná-lo. Como as pernas e os braços que a gente tem e não se lembra, desde que não haja problemas com isso. Lembrá-lo traz sempre à tona aquelas ridículas desencarnações dele, as imagens de um modelo hollyoodiano loiro, sem força na fala, sem dramaticidade nos gestos, com uma falsa simplicidade, que denota mais os riquefifes de um nobre barroco do que o sorriso largo e companheiro de um artesão do interior.

O que, talvez, ele dissera, era verdade: ele estaria conosco, mas não da forma pessoalmente espiritual como quiseram as Instituições, mas da forma sublime que ele denominou de espírito santo – prefiro escrever com minúsculas, porque é menos hierárquico: isto é, fazendo-nos esquecer dele, para nos encontrarmos com a vida e com a sua realidade fantasiosa. Dando-nos, a qualquer um que o queira, o nosso espírito de volta, isto é, a carne com a saudade e a fantasia que ela traz.

Rondinelly Gomes Medeiros,
de seu posto no sertão paraibano, entre São Mamede e Patos,
em e-mail que mandou-me semana passada

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27 de Outubro de 2008

O horror ou o absurdo de existir

Goiabas Roubadas

O êxtase do estado dionisíaco, com sua destruição das cadeias e limites costumeiros da existência, contém, naturalmente, durante todo o período em que dura, um elemento letárgico no qual permanece submerso tudo que a pessoa já experimentou pessoalmente no passado. Devido a esse vórtice de esquecimento, o mundo da realidade cotidiana e o mundo da realidade dionisíaca separam-se um do outro.

Porém tão logo a realidade cotidiana retorna à consciência, a pessoa a percebe como algo repulsivo. O resultado desse estado é a condição ascética, na qual a pessoa nega o poder da vontade. Neste sentido o homem dionisíaco tem similaridades com Hamlet: ambos tiveram um vislumbre da natureza essencial das coisas. Ambos passaram a compreender e têm agora aversão a agir, pois sua ação não será capaz de mudar coisa alguma na natureza eterna das coisas. Percebem como rídiculo ou humilhante o fato de que espera-se deles que coloquem em ordem um mundo que está fora dos eixos. O conhecimento neutraliza a ação, pois a ação requer um estado de consciência em que estejamos cobertos pelo véu da ilusão. É isso o que Hamlet tem a nos ensinar, não aquela sabedoria inteiramente mercenária sobre o sonhador que é incapaz de sair do lugar devido a um excesso de reflexão – devido a um excesso de possibilidades, por assim dizer.

De modo algum; é o verdadeiro conhecimento, o vislumbre da cruel verdade, que vence cada motivo que poderia impeli-los a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionisíaco. Agora nenhum consolo tem mais efeito. Ele passa a ansiar por algo além do mundo, algo além dos próprios deuses, na direção da morte. A existência é negada, juntamente com seu fulgurante reflexo sobre os deuses e sobre uma vida futura de imortalidade. Na consciência de ter vislumbrado uma vez a verdade, o homem vê em todo lugar apenas o horror ou o absurdo de existir; ele agora compreende o simbolismo do destino de Ofélia; ele agora reconhece a sabedoria de Silenus, o deus da floresta. E causa-lhe aversão.

Neste ponto, quando a vontade está sob o mais grave perigo, entra a arte, na qualidade de mágica salvadora e curativa. Somente a arte é capaz de transformar esses pensamentos de repulsa diante do horror ou do absurdo da existência em conceitos imaginários que permitem que a vida continue.

Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia (1872)

16 de Junho de 2008

Uma pergunta que seja sua

Goiabas Roubadas

P. Quem sou eu?

UG (rindo). Você sabe muito quem você é.

P. Como assim?

UG. Será que “quem sou eu” é realmente a sua pergunta? Não, não é; você a selecionou em algum lugar. O problema é o perguntador, não a pergunta. Se não tivesse escolhido essa pergunta, você teria escolhido outra. Daqui a quarenta anos você ainda vai estar se perguntando qual é o sentido da vida. Um homem [realmente] vivo jamais faria uma pergunta dessas. É evidente que você não vê sentido na vida. Você não está vivendo; está morto. Se eu lhe revelasse o sentido da vida, em que posição isso deixaria você? O que poderia significar para você?

P. O perguntador existe?

UG. Não, não existe; o que existe é apenas a pergunta. Todas as perguntas são a mesma: repetições mecânicas de questões decoradas. Quer você pergunte “Quem sou eu?”, “Qual é o sentido da vida?”, “Deus existe?” ou “Existe vida após a morte?”, todas essas questões brotam apenas da memória. É por isso que pergunto se você tem uma pergunta que seja sua.

P. Você está dizendo que a questão “Quem sou eu” não sobrevive a um verdadeiro escrutínio?

UG. Porque não é possível separar a pergunta do perguntador. A pergunta e o perguntador são um. Assim que você aceita esse fato a coisa mostra-se de fato muito simples: quando a pergunta desaparece, o perguntador também desaparece. Mas como o perguntador não quer desaparecer, a pergunta permanece. O perguntador quer uma resposta para sua pergunta; como a pergunta não tem resposta, o perguntador permanece para sempre. O interesse do questionador é permanecer, não obter uma resposta.

U. G. Krishnamurti, antiguru

01 de Novembro de 2007

Minha missão

Goiabas Roubadas

Você erroneamente concluiu que perseguindo o alvo espiritual você de alguma forma fará com que seus alvos materiais se tornem miraculosamente simples e gerenciáveis. Tudo que posso garantir é que enquanto estiver buscando a felicidade você permanecerá infeliz.

Por que a vida deveria ter algum sentido? Por que deveria haver algum propósito em viver? Viver, em si mesmo, é tudo que existe. A sua busca por um significado espiritual transformou a vida num problema.

Minha missão, se é que existe alguma, deveria ser, de agora em diante, refutar cada declaração que já fiz. Se levar a sério ou tentar aplicar o que venho dizendo, você estará em perigo.

Meu interesse não é impugnar o que os outros disseram (o que seria fácil demais), mas impugnar o que eu estou dizendo. Mais precisamente, estou tentando interromper o que você vem concluindo do que estou dizendo.

U. G. Krishnamurti, antiguru