16 de Junho de 2008

Uma pergunta que seja sua

Goiabas Roubadas

P. Quem sou eu?

UG (rindo). Você sabe muito quem você é.

P. Como assim?

UG. Será que “quem sou eu” é realmente a sua pergunta? Não, não é; você a selecionou em algum lugar. O problema é o perguntador, não a pergunta. Se não tivesse escolhido essa pergunta, você teria escolhido outra. Daqui a quarenta anos você ainda vai estar se perguntando qual é o sentido da vida. Um homem [realmente] vivo jamais faria uma pergunta dessas. É evidente que você não vê sentido na vida. Você não está vivendo; está morto. Se eu lhe revelasse o sentido da vida, em que posição isso deixaria você? O que poderia significar para você?

P. O perguntador existe?

UG. Não, não existe; o que existe é apenas a pergunta. Todas as perguntas são a mesma: repetições mecânicas de questões decoradas. Quer você pergunte “Quem sou eu?”, “Qual é o sentido da vida?”, “Deus existe?” ou “Existe vida após a morte?”, todas essas questões brotam apenas da memória. É por isso que pergunto se você tem uma pergunta que seja sua.

P. Você está dizendo que a questão “Quem sou eu” não sobrevive a um verdadeiro escrutínio?

UG. Porque não é possível separar a pergunta do perguntador. A pergunta e o perguntador são um. Assim que você aceita esse fato a coisa mostra-se de fato muito simples: quando a pergunta desaparece, o perguntador também desaparece. Mas como o perguntador não quer desaparecer, a pergunta permanece. O perguntador quer uma resposta para sua pergunta; como a pergunta não tem resposta, o perguntador permanece para sempre. O interesse do questionador é permanecer, não obter uma resposta.

U. G. Krishnamurti, antiguru

01 de Novembro de 2007

Minha missão

Goiabas Roubadas

Você erroneamente concluiu que perseguindo o alvo espiritual você de alguma forma fará com que seus alvos materiais se tornem miraculosamente simples e gerenciáveis. Tudo que posso garantir é que enquanto estiver buscando a felicidade você permanecerá infeliz.

Por que a vida deveria ter algum sentido? Por que deveria haver algum propósito em viver? Viver, em si mesmo, é tudo que existe. A sua busca por um significado espiritual transformou a vida num problema.

Minha missão, se é que existe alguma, deveria ser, de agora em diante, refutar cada declaração que já fiz. Se levar a sério ou tentar aplicar o que venho dizendo, você estará em perigo.

Meu interesse não é impugnar o que os outros disseram (o que seria fácil demais), mas impugnar o que eu estou dizendo. Mais precisamente, estou tentando interromper o que você vem concluindo do que estou dizendo.

U. G. Krishnamurti, antiguru

31 de Agosto de 2007

Não me sigam

Pormenor

Tive uma reunião a portas fechadas comigo mesmo (foi uma longa reunião; arrastava-se há meses) e decidi que não quero ter seguidores.

Neste dia 29 de agosto de Nosso Senhor, enquanto escrevo este parágrafo, a Bacia das Almas armazena 1.191 documentos e 4.585 comentários. Nem sempre favoravelmente, o que está depositado aqui é mencionado hoje em mais de 300 outros destinos da rede. A Bacia e o Paulo Brabo são duas pequenas instituições, igrejinha branca e estátua na praça, e isso me faz mal à náusea. Estou enojado da minha carolice e do meu bom mocismo, e tenho vontade de encher de porrada o canalha que me olha todas as manhãs no espelho. Minha única vingança é que posso ver claramente que ele está ficando velho. Tome isso, miserável.

Sei que não posso calar o cara, mas por amor a ele preciso ajudá-lo a livrar-se dos seus seguidores. Os comentários que deitam aqui apenas me matam, especialmente os que concordam com o que digo, por isso estão a partir de hoje eliminados por completo. Assim arbitrariamente.

(oh, o peso que isso me tira das costas)

Krishnamurti revela que nos tornamos seguidores de uma pessoa no exato momento em citamos o que ela disse, e foi apenas quando li essas palavras que abriu-se em mim a consciência do quanto isso pode ser terrível.

Fique então muito claro que não quero converter ninguém, não quero convencer ninguém, não quero argumentar com ninguém, não quero causar uma boa impressão. Não quero propor uma teologia ou revelar o verdadeiro sentido do evangelho e não quero fundar uma igreja. Não quero me explicar. Não quero me manter coerente, consistente ou engraçado. Não me comprometo a escrever todos os dias ou dia algum ou jamais. Não estou disponível para esclarecimentos adicionais, não tenho bibliografia para apresentar e não estou pronto para apresentar o embasamento daquilo que estou dizendo.

Não sou um cristão exemplar, um homem exemplar, um irmão exemplar, um filho exemplar, um amigo exemplar, um pensador exemplar, um profissional exemplar. Não sou exemplar em nada. Não sei se acredito no que escrevo e nada tenho a oferecer.

Com Krishnamurti, e novamente estou sendo seguidor dele, penso que o pensamento é morto e jamais é capaz de tocar qualquer coisa viva. O pensamento não pode capturar a vida, contê-la ou dar expressão a ela. No momento em que tenta tocar a vida, o pensamento é destruído pela qualidade da vida.

Só cheguei até aqui. Agora deixem-me em paz, porque só faço sentido quando estou falando sozinho.

Como teve de dizer aquele que gosto mais de citar do que efetivamente seguir, para onde eu vou vocês não podem ir.

27 de Abril de 2007

Morte clínica

Goiabas Roubadas

Não estou aqui para liberar ninguém. Você é que tem de liberar a si mesmo, e você é incapaz de fazer isso. O que tenho a dizer não será capaz de realizar isso. Estou apenas interessado em descrever esse estado, em dissipar a dissimulação e a mistificação nas quais as pessoas do “ramo sagrado dos negócios” envolveram a coisa toda. Talvez eu seja capaz de convencê-lo a não desperdiçar muito tempo e energia buscando um estado que não existe a não ser na sua imaginação.

* * *

Enquanto você pensar que tem algo a renunciar, estará perdido. Não pense no dinheiro e nas necessidades da vida como uma perversão. Perversão é você negar-se as necessidades básicas da vida. Você pensa que através de um ascetismo auto-imposto irá ter sua consciência de si mesmo acentuada, e que será capaz de usar essa consciência para ser feliz. Pode esquecer. Você terá paz quando todas as suas idéias sobre auto-consciência forem abandonadas e você começar a funcionar como um computador. Você deve ser uma máquina, funcionando automaticamente neste mundo, jamais questionando suas ações antes, durante e depois que acontecerem.

* * *

O medo é justamente a coisa de que você não quer estar livre. Se o medo chegar ao fim você cairá morto fisicamente. A morte clínica tomará lugar.

* * *

A pura verdade é que se você não tem um problema você criará um. Se você não tem um problema você não sente que está vivendo.

* * *

O corpo não está interessado em nada em que você está interessado. E essa é a batalha que acontece o tempo todo.

* * *

O assim chamado “auto-conhecimento” é a descoberta feita por você mesmo e em seu próprio benefício de que não existe um “eu” para descobrir. Isso será uma coisa muito chocante porque irá detonar cada nervo, cada célula, até mesmo as células da medula dos seus ossos.

U. G. Krishnamurti, antiguru