Aquilo que mais ou menos aprendi
Manuscritos
é que escrevemos, falamos e lemos como se as coisas fossem sólidas, e a experiência insiste em demonstrar que são fluidas.
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31 de Dezembro de 2011
Aquilo que mais ou menos aprendiManuscritosé que escrevemos, falamos e lemos como se as coisas fossem sólidas, e a experiência insiste em demonstrar que são fluidas. 23 de Dezembro de 2011
A salvaguarda do sexoManuscritosQuanto mais eu rezo, mais gente me escreve pra falar a respeito das suas questões e inadequações sexuais. Diz muito sobre este mundo (e sobre o mundo evangélico) que tanta gente só encontre brecha para falar sobre esse assunto com um cara que nunca viu pessoalmente, um nome na internet, um ilustre desconhecido, um não-rosto diante do qual encontraram a graça de sentir-se à vontade para falar. Essa galera não tem como não sacar que não tenho como ser terapeuta de ninguém, e quem conhece a minha inclinação sabe que não tenho a mínima vontade de ser. Mas ainda assim me escreve contando as suas barbaridades, talvez na esperança de que eu fique devidamente chocado, ou intuindo que sou liberal o bastante para não condenar o seu desvio da norma. Fico de fato sem saber se esperam que eu diga “abandone essa vida de pecado ou prepara-se para arder no inferno” ou “não se alugue que isso não é pecado não”. E fico de cara ao pensar que alguém pode de fato achar que eu (ou qualquer um) teria cacife para dizer a quem quer que seja uma coisa ou outra. Naturalmente, e como vivo dizendo, é esperado que as neuras que venham à tona sejam de natureza sexual, porque o sexo é a última fachada moral da subcultura evangélica, que em todas as outras frentes abraçou a mais completa permissividade. Ninguém (nenhum evangélico, pelo menos) me escreve para dizer que está em crise porque está cobiçando um iPad, porque está servindo o exército, porque presta serviço para agências de propaganda, porque dói-se da desigualdade da distribuição de renda no Brasil, porque sente que não está contribuindo para um futuro sustentável, porque quer cometer uma empresa e enriquecer, porque queria ganhar mais de modo a poder contribuir com causas honrosas, porque estamos queimando o planeta e obliterando culturas, porque não dorme à noite de repulsa ao capitalismo, porque tem gente dormindo na rua, porque só tem uma vida para oferecer em trabalho voluntário, porque a igreja tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos, porque o governo tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos, porque o sistema tira dinheiro dos pobres e dá aos ricos. Não: o sexo é o único motor da culpa. O sexo que nos ocupa a mente é o sexo que não estamos fazendo. Não é à toa que as igrejas enfatizam esse ponto, pois do contrário perderiam o pouco lastro de influência que lhes resta no mundo e no rebanho. Imagino que a maioria busque em mim a graça que todos podem encontrar nos terapeutas (e que idealmente seria de encontrar em todos os seguidores de Jesus), a dádiva simples e curativa de ser ouvido sem ser condenado ou julgado. Talvez, no fundo, sabem que nem desejam a orientação que estão pedindo. E, de minha parte, gostaria de poder oferecer a todos uma solução simples e abrangente, tipo relaxe e goze ou quem ama espera, mas nem isso posso fazer. Não rola porque propor tanto uma coisa quanto a outra é colocar um peso sobre as costas de quem está ouvindo, e não tenho essa vocação. Dizer “quem ama espera” é esmagar o sujeito debaixo da norma, aquela do sexo-só-dentro-do-casamento-monogâmico-heterossexual, e toda norma ignora as nuanças: neste caso, as nuanças mais importantes da vida e da experiência, das inclinações e dos arrebatamentos, das travas e dos enlevos, da Bíblia e da história. Dizer “relaxe que isso não é pecado” pode fazer ainda mais mal, porque é atravessar e às vezes interromper um caminho que, se for necessário e possível, cada um tem de fazer por si mesmo. Para quem se importa com esse tipo de coisa, ouvir de outra pessoa que uma coisa não é pecado pode tanto produzir uma falsa culpa quanto solidificar a dúvida, em vez de gerar a libertação que se esperava. Acima de tudo, essas duas soluções se atem ao aspecto exterior da coisa, a mera execução da ópera, e a tensão sexual é parte inseparável de nós mesmo quando estamos achando que a norma nos protege. Primeiro porque o sexo que nos ocupa a mente é sempre o sexo que não estamos fazendo: o sexo que desejamos, o sexo que gostaríamos de estar fazendo, o sexo de que abrimos mão, o sexo que vamos fazer na internet, o sexo que vamos fazer quando casar, o sexo que vamos fazer neste verão, o sexo que achamos errado mas que nos atrai do mesmo jeito. Neste sentido, a obsessão com a castidade é uma perversão como qualquer outra, e talvez a pior, porque nos constrange a definir a identidade pela medida do sexo, e pelo sexo que não estamos fazendo – e a vida é ao mesmo tempo muito mais e muito menos do que sexo. Ninguém deveria ter de viver indefinidamente com menos do que sexo, mas também ninguém deveria se sentir constrangido a definir-se ou a ver-se rotulado por ele. Não foi sem fundamento que Freud conseguiu traçar nossa epopeia interior pela matriz do sexo. Entre outras coisas, o sexo é o emblema mais fulgurante do grande desafio da condição humana, a eterna possibilidade de estabelecermos verdadeiro contato com outro ser humano. Vivemos sozinhos, todos nós, todos prisioneiros de nós mesmos, sonhando sempre e temendo sempre a ocasião de uma conexão – a vertigem de encontrarmos uma saída de nós mesmos e tocarmos por um momento que seja uma outra pessoa, sem por um lado esmagar essa pessoa e sem por outro nos perdermos para sempre nela. A questão com o sexo é que ele ao mesmo tempo possibilita essa conexão e nos protege dela. Toda conduta sexual é uma fuga em potencial: a castidade, a homossexualidade, a masturbação, o papai-mamãe, a promiscuidade, a fidelidade, a infidelidade e todos os matizes intermediários. Somos sofisticados o bastante para procurar no sexo (ou na ausência dele) um modo de evadirmos à possibilidade de um contato com outra pessoa e portanto com o espelho. Em particular, nossa conduta sexual pode nos fornecer uma falsa culpa protetora – putz, estou sendo infiel à minha esposa com essa dona da internet, que traste que eu sou, – quando a culpa verdadeira é muito outra, e nos custaria muito mais encará-la de frente. Idealmente o sexo, mesmo o mais casual, deveria poder ser exercido como celebração do contato entre seres humanos. Muitas vezes, mesmo entre gente casada, o sexo (ou sua ausência) só serve para marcar a distância. É por esse motivo, por ser o emblema por excelência dos sagrados desafios e promessas do contato interpessoal, que o sexo pode representar coisa tão melindrosa em tantas esferas, e tanta coisa diferente para tantas pessoas. Todo contato interpessoal existe nesta tensão entre [1] manter-se confortavelmente distante e [2] aproximar-se ao ponto de sufocar e esmagar. A distância é sempre entre negar-se por completo e negar por completo a dignidade do outro, entre viver sozinho e colecionar conquistas sem qualquer chão. Os dois extremos são muito confortáveis e são ambos emblemas de poder: o papa e Don Juan extraem sua força da mesma obsessão sexual. Aqui reside o fascínio de um cara como Jesus de Nazaré, que pelo que sabemos nunca transou mas que intuímos claramente que não vivia como nós debaixo da sombra do sexo que não estava fazendo. Nunca viveu sozinho mas nunca esmagou ninguém. Wilhelm Reich chegou a ponderar – e entendo bem de onde ele tirou essa ideia – que Jesus pode ter sido a pessoa “mais fálica” que jamais existiu: um cara que penetrava a realidade e encarava os relacionamentos de um modo muito positivo, natural, sem neuras, sem julgamentos, sem rancores, sem recalques, sem culpas. Jesus parece ter sido o cara resolvido por natureza, não porque deixava possivelmente de exercer o sexo ou porque quem sabe o exercesse em segredo, mas porque tudo que fazia no curso da vida era estabelecer conexões muito reais com gente, aquilo que vivemos sonhando que o sexo faça por nós, ou de que nos mantenha a salvo.
Leia também: Na cama com a Bíblia 06 de Novembro de 2011
Can you just look at me for a secondPormenorLouis C. K., sobre como as pessoas já não conseguem assimilar a experiência se não for através de seus celulares.
24 de Abril de 2011
A entropia da instituiçãoManuscritosHomilia para o dia da ressurreição
Foi no dia do lançamento do O que eles estão falando da igreja; conversávamos, os autores que iam chegando, ao redor de uma mesa da cantina do Mackenzie e eu fiz uma das minhas intervenções usuais contra a instituição. Imediatamente, com doses iguais convicção e provocação, o Alessandro Rocha (que eu havia conhecido naquele momento) reagiu apaixonadamente: – Mas o que é você está dizendo, Brabo? Até parece que você não sabe que a Bacia é uma igreja! Já faz algum tempo que venho pensando em escrever sobre isso, que a Bacia das Almas do Paulo Brabo é uma instituição e que é sem dúvida uma igreja. E com essa verdade despiu-me ali mesmo, embora tenha tido a gentileza de não delatar-me diante do auditório quando “compomos a mesa” um ao lado do outro alguns minutos mais tarde. Fazendo isso, o Alessandro (que de resto, e inclusive por isso, descobri naquele dia ser um cara absolutamente notável) abriu uma ferida que venho tentando tratar pelo menos desde meados de 2007. Em retrospecto, foi justamente a convicção de que estava criando uma igrejinha que me fez recolher deste sáite a caixa de comentários, para evitar (ou pelo menos retardar) a ilusão de que formávamos aqui alguma espécie de “comunidade”. Embora exista oficialmente desde 2004, a Bacia não tomou fôlego até o dia em que fomos encontrados e levados a sério pelo Volney Faustini, isso talvez em algum momento de 2005. Nesse intervalo escrevi protegido e abençoado pela convicção de saber: publico “e ninguém lê” (como me disse naquela época minha irmã Alice, para me incentivar). O que venho ponderando desde 2007, porque venho lutando contra ela de forma mais ou menos consciente desde aquela época, é essa curiosa e avassaladora tendência humana a institucionalizar (e assim anular) as boas intenções, tendência que mostra-se mesquinha o bastante para se materializar até mesmo em mim, que dou testemunho aberto contra ela, e entre aqueles que afirmam concordar comigo quando digo isso. Acabei tendo de concluir que a institucionalização tem sua própria entropia, sua própria e particular lei da gravidade. Uma das leis da termodinâmica explica que os sistemas deixados por si mesmos tendem ao caos e à desordem; isso explica, para dar um exemplo que é uma enorme simplificação, porque a mais impecável das casas tende a ficar suja e bagunçada a não ser que você dispenda energia lutando contra essa tendência irreversível. Mas a termodinâmica explica também que a desordem é uma tendência irresistível precisamente porque é na desordem – ou mais, propriamente, na “perfeita desordem interna” – que os sistemas encontram o equilíbrio. Uma casa limpa e arrumada é difícil de manter (isto é, requer para manter-se o dispêndio periódico de energia) justamente porque é uma casa limpa e arrumada é coisa tão evidentemente contrária ao luxuriante caos que se encontra de modo natural no mundo físico. Esse é o ritmo das coisas no universo físico, mas os sistemas culturais criados pelo homem conformam-se à tendência inversa. Deixados por si mesmos, os sistemais humanos tendem não ao caos (e portanto ao equilíbrio), mas à ordenação, à petrificação e à sistematização. As iniciativas humanas tendem à institucionalização. Os mais selvagens e bem intencionados dos ideais humanos tendem a ser sequestrados a apropriados para sustentar a ordem e a permanência do sistema; nessa entropia inversa, Jesus passa a ser usado como credencial de impérios e Che Guevara se reduz a uma estampa numa camiseta de marca. A fim de se lutar contra essa tendência dos sistemas humanos à institucionalização é necessário o dispêndio periódico – melhor seria dizer contínuo – de energia. Os movimentos humanos mais vivos e vitais tendem à mumificação e à esterilidade, e essa tendência só pode ser domada enquanto lutamos deliberadamente e continuamente de modo a manter acesa a sua subversão. Num sistema físico, requer-se o dispêndio de energia para se manter a ordem; num sistema cultural, requer-se o dispêndio de energia para se evitá-la. A energia que nos mantém à salvo da petrificação cultural se chama espírito. Os sistemas humanos tendem à ordem porque em grande parte acreditamos que é a ordem – a iniciativa civilizadora de lutar contra o caos, a decadência e a deterioração – que nos torna humanos. A contradição está em que, embora se alimente dessa intenção tipicamente humana de perpetuar o que é bom, a instituição acaba perpetrando a morte prematura da vida que se propunha a preservar. Consequentemente, para lutar contra a instituição, isto é, para lutar a favor da vida e gerar a raríssima semente da ressurreição, é preciso abraçar – continuamente, deliberadamente, subversivamente – a morte. Permitam-me então anunciar às claras o que deveria ser evidente, que a Bacia está morrendo e há muito tempo, que está em franco declínio e que sua a única chance de exercer a sua vocação é precisamente morrendo e fechando as portas. Periodicamente dispendo alguma energia na tentativa de retardar o processo humano, que está também em mim, de transformá-la numa instituição. Assim recolho os comentários, assim recuso-me a dar qualquer entrevista, assim declino a todos os pedidos para visitar igrejas e fazer palestras. Trata-se de conduta muito artificial, isto é, requer muita energia, e a requer sempre. Mas ninguém pode lutar contra uma tendência que mata sem dispor-se a morrer periodicamente. Fique então declarado que a Bacia vai acabar, que está definhando aos poucos e que seu momento final está cada vez mais próximo. Se tudo der certo, eu mesmo e o corpo que fala por mim sobreviveremos a ela, porque nada vale o preço de institucionalização alguma. E enquanto estou dispendendo a energia necessária para desiludi-lo, meu caro e impenitente leitor, será conveniente lembrá-lo e lembrar-me de quem na realidade sou. Dois livros amarrados às pressas não bastam para esconder os fatos: não sou escritor, não tenho curso superior e duvido continuamente ser o que sempre digo que sou, ilustrador; o testemunho que posso dar é que sou um cara, um ser humano, com tudo de maravilhoso e de mesquinho e de contraditório que a palavra implica. Quando você se sentir tentado a pensar no meu nome ou nas minhas ideias com um mínimo que seja de autoridade ou de solenidade – “como afirma Paulo Brabo”, – esta é a precisa hora de você rever os seus conceitos e de lembrar com quem e de quem está falando. Nesta confissão sazonal será preciso lembrar que interessam-me não só as pérolas mas também os porcos. Minha alma não fixou residência nas ideias sobre Jesus, na história da igreja na contradição das teologias; frequento com obsessão igual ou maior – e com igual superficialidade – tudo que diz respeito a arqueologia, filologia, ufologia, cinema, software, Segunda Guerra Mundial, sexologia, história, literatura, filosofia indiana, antropologia, fotografia, canetas, cadernos, música pop e brega, histórias de terror, psicologia, neurologia, relíquias de santos, exploração espacial, pintura, filmes de monstro, história da arte, ficção científica, cabala judaica, vodu, alquimia, biologia, culinária árabe, indiana e italiana, aldeias medievais, nudismo, azulejos, literatura de cordel, assassinatos em série, espadas, criptozoologia, antropofagia e nazismo, bem como todas as revistas e embalagens e arquitetura e programas de rádio e selos e arte em ferro e músicas de baile, desde que não sejam da nossa época. Sou um cara muito tímido mas sinto-me perdidamente atraído por aglomerações humanas, especialmente aquelas mais arbitrárias e transitórias, coisas como feiras, rodeios, exposições-feiras, filas de refeitório e manifestações políticas. O calor altera o meu humor sempre para o pior, mas sinto-me irresistivelmente atraído pela praia no verão – porque é ali que estão as pessoas, e porque emprestam seu charme e sua bendita contradição ao que sem elas seria meros sol, sílica e água salgada, três coisas que uma infinidade de outros planetas além do nosso seriam capazes de oferecer. Já fui visto por pessoas vivas cavando poços mortos, fazendo salada de frutas, pulando fogueiras, roubando galinhas, beijando homens, despindo mulheres, matando animais, andando descalço em shopping centers, tomando banho pelado em rio, visitando prostíbulos, entrando em boates, saindo de motéis, dando conselhos matrimoniais a sacerdotes, conversando com prostitutas, furando filas, fazendo sexo, dando cursos de vendas, registrando empresas, contratando advogados, fazendo serenatas de amor, esquecendo datas importantes, aceitando tratamento preferencial, cobrindo telhados de casas, criando publicidade para vender produtos de que ninguém precisa – algumas dessas coisas com atenuantes, outras com agravantes, algumas vezes de graça, outras por dinheiro, o que não muda o fato de que me mantenho disposto a fazer um saudável número delas, não necessariamente nesta ordem. Tudo que já falei e fiz, bem como tudo que deixei de fazer, pode ser mal entendido e será mal entendido e pode muito tranquilamente ser usado contra mim. Não fiz nenhum voto de pobreza, de silêncio ou de castidade, e provavelmente não os recomendaria a ninguém. Com o passamento de Krishnamurti, não deve haver guru que lute de modo mais consciente para se manter antiguru: para se manter menos sério, mais promíscuo, menos confiável, menos estável, mais inclassificável, menos coerente. Que essa enumeração sirva para lembrar não só que para não ser uma instituição é preciso manter-se uma pessoa, mas que para não ser uma instituição é preciso manter-se um corpo.
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Os recursos necessáriosManuscritosVai ficando claro que esta é uma utopia que não descansará até alçar todos os degraus do sublime e do improvável (se é que existe diferença entre uma coisa e outra): ficamos sabendo logo em seguida que os integrantes da nova comunidade não apenas repartiam sem qualquer critério os seus bens uns com os outros, mas também vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, o que deve ser considerado muitas vezes mais insensato. Reter uma quantidade fixa de bens em regime comunal, por mais radical ou exigente que possa parecer, não é o mesmo que dissolver ou dilapidar todo um patrimônio conjunto, transformando-o em dinheiro e repartindo a liquidez resultante com todos – mesmo que seja “segundo a necessidade de cada um”. O esvaziamento radical que, nesses termos tão descobertos, Jesus havia exigido (e sem sucesso!) de um único candidato a discípulo, é no novo cenário do espírito abraçado sem restrição e sem rancor por todos, com o consentimento ou sob a supervisão dos doze que serviam-lhes de exemplo. “Venda tudo que possui”, Jesus havia dito naquela ocasião, “e dê aos pobres, e venha ser meu discípulo”. E o que um não havia se rebaixado a fazer em privado, agora todos fazem em público. O que está se materializando aqui é, naturalmente, o eco necessário e tardio dos ultimatos que Jesus apresentou às multidões – como, por exemplo, aquele tremendo registrado em Lucas 14. Os evangelhos trabalham juntos para explicar que a relação de Jesus com as multidões era no mínimo ambígua. Por um lado, as pessoas despejavam-se de cidades e de distâncias para ouvi-lo e beneficiar-se dele; Quem não se despoja não tem os recursos necessários.por outro, Jesus as ensinava, alimentava e curava, mas muito declaradamente “não confiava nelas”. A origem muito natural dessa desconfiança está em que, embora as multidões não se negassem a ouvir as insanas exigências que o Filho do Homem deitava diante de todos, um número muito menor – praticamente um punhado, uma dúzia, talvez setenta ou uns poucos mais – permitiram-se efetivamente transtornados e finalmente guiados por elas. Todos ouviam deleitados sobre as reviravoltas e escandalosas inversões do reino, mas poucos abraçavam a inclusividade do arrependimento. Muitos diziam “Senhor, Senhor”, mas poucos faziam o que ele estava dizendo. Muitos assistiam as suas aulas, mas poucos engajavam-se na sua reforma. Por esses, que aumentavam continuamente o seu ibope mas observavam o reino de longe, o rabi de Nazaré não se deixava enganar. Não só isso; ele se esforçava constantemente para que eles mesmos não se deixassem enganar. Se Jesus volta tantas vezes ao assunto é porque era absolutamente necessário que seus seguidores nominais não passassem a se considerar, em sua posição de meros ouvintes, integrantes da verdadeira revolução.
Ou seja: multidão de fãs sem noção, baixem a bola e sentem aí para calcular os custos do discipulado. E é bom que estejam sentados quando o garçom trouxer a conta. Diante de riscos tão acentuados e retornos tão transversais, Jesus toma o cuidado de não tirar em momento algum as cartas de cima da mesa. Vez após outra, parábola após parábola, ele vai pontuando que para experimentar o discipulado – isto é, para se enxergar o reino e colocar o pé no terreno virgem do fim do mundo – é preciso despojar-se de todas as coisas. Qualquer um que se desvia por qualquer razão desse formidável crivo não tem cacife para se engajar nessa obra. Melhor nem se envolver. É essa a lei paradoxal da empreitada do reino: quem não se despoja de tudo que tem não tem os recursos necessários para empenhar-se nela. O reino é um bem fabuloso que, para se ter, requer-se apenas nada se ter além do reino. Quem não se despoja por completo não tem os recursos necessários para adquirir o reino, justamente porque nada é necessário para adquirir o reino. Viver no reino é demonstrar isso, viver o reino é descobrir isso1. É por isso que o rico não pode passar pelo buraco da agulha que é a entrada do reino: ele literalmente não tem como passar. Ou, melhor dizendo, ele tem os recursos para não passar. Para entrar, será necessário despojar-se. Despojar-se é alçar-se literalmente à posição de não-condicionado – aquela vida de completa autodeterminação e completa identificação com o próximo que Jesus desempenhou e ofereceu. Despojar-se equivale a derrubar Satanás do seu trono, porque representa deitar por terra o medo e o desejo, as algemas que permitimos que ele use para nos impedir de avançar e crescer. Despojar-se é abandonar, de modo muito literal, o medo de perder [as coisas] e o desejo de aferrar-se [as coisas]. É pisar o terrível terreno da liberdade incondicional. É conhecer o sopro do espírito que está finalmente livre para soprar onde quiser. É por isso que os integrantes da comunidade do espírito acham importante seguir a lição do despojamento até sua aplicação mais crua e literal – vender tudo e tudo diluir entre os necessitados, – porque querem seguir Jesus e para o mesmo lugar. Se é que serão não-condicionados como ele foi, será necessário deixar para trás todas as cargas que os condicionam –Possuir é manter-se condicionado. e possuir, muito evidentemente, é deixar-se condicionar, porque o verdadeiro rico é aquele que não precisa de nada. Disso muitos ouvem falar, mas só o conhece o habitante do reino. Aqueles de nós que habitam o reino e verdadeiramente o promovem são os que por um lado embrenharam-se no caminho do despojamento radical e, por outro, desenvolveram mecanismos literais para manterem-se o maior tempo possível nessa condição. Falo de gente como Gandhi, como Tolstói, como Madre Teresa, como São Francisco e como alguns amigos que tenho e dos quais você não vai ouvir falar, porque eles preferem assim. Retenha em mente, portanto, essa única coisa: possuir é manter-se condicionado, e esta é uma regra sem exceção. Por isso, quando você pensar em grandes exemplos de vida ou quando quiser mencionar pessoas edificantes e cheias de luz, pode excluir sem medo da sua lista gente que trabalha para sustentar o conforto de automóveis e casas e computadores e telefones celulares e seguidores e internet banda larga. Quem permanece escravo dessas liberdades pode até falar dele com os lábios, mas não conhece com os olhos o não-condicionado. Você deve, portanto, excluir da sua lista de notáveis o Paulo Brabo, o Diogo Mainardi, o Ricardo Gondim, o Lula, o Ed René Kivitz, o Barack Obama, o Rubem Alves, o Silas Malafaia e todos os nossos comparsas e antagonistas, porque permanecemos condicionados pela multidão de pequenas facilidades de que ainda não nos despojamos. Somos todos, luzes políticas e faladores públicos, meras distrações profissionais, operando a meio caminho entre o crime e o entretenimento. Nosso método é dar a impressão de que temos um plano e de que sabemos do que estamos falando, e enquanto nos dá ouvidos você mesmo vai adiando a loucura que seria saltar de cabeça no abismo do arrependimento e embrenhar-se na reforma interior e exterior que é também o fim do mundo. Da mesma forma, enquanto nós faladores tivermos em você uma audiência cativa nós mesmos permaneceremos adiando o temerário crescimento pessoal que com nossa voz fazemos você adiar – e nesse esforço conjunto, nessa sedução circular, vamos garantindo que nada de fato aconteça. Nossa única chance, naturalmente, seria pôr de lado minuciosamente tudo – e isso não porque os pobres carecem dos bens e da atenção que poderíamos repartir entre eles, mas porque carecemos nós de encontrar a paz e a guerra, a vida e a morte passando pelo buraco da agulha que é a entrada do reino.
Rastros dos apóstolos
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