04 de Novembro de 2011

A mão invisível e a graça irresistível do mercado

Goiabas Roubadas

Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa reguladora da justiça, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o tapeceiro, só vemos o avesso, o mercado-tapeceiro tece do lado certo. O outro aspecto é o da “graça irresistível” do mercado. Ou você se abre para a economia de mercado ou está destinado ao “inferno” decadente e isolado do mundo – é a inexorabilidade do mercado. Você vem para o “Senhor” nem que seja pela dor.

Não seria o evangelho de Jesus o “niilismo mais radical” que desmascara os encantamentos religiosos: que quebra os odres velhos?

O que pode ser menos religioso que o evangelho de Jesus?

O que pode a transformar “crentes no capital” em “ateus anárquicos” mais que o evangelho do Cristo de Deus?

Elienai Cabral Júnior, em comentário a este documento
Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários

Leia também:
O profeta e a revolução

21 de Setembro de 2011

O capitalismo é a crise

Goiabas Roubadas

Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta.

Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana.

Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o total de débito assumido por estudantes (que não entraram ainda no mercado de trabalho) é maior do que o total do débito assumido pelo público consumidor em geral.

Os gastos militares globais alcançaram uma cifra recorde em 2011.

O mundo está morrendo, e os capitalistas estão quebrando recordes de lucro enquanto ele morre.

Michael Truscello, em Capitalism is the Crisis

 

Não é a economia que está em crise; a economia é a crise. Não é que não há trabalho, o que há é trabalho demais. Tudo somado, não é a crise, é o crescimento a causa da nossa depressão.

The Coming Insurrection

 

O modo de se fazer dinheiro é comprar quando há sangue correndo pelas ruas.

John D. Rockefeller, magnata do petróleo

 

O Estado é uma condição, uma certa relação entre seres humanos, uma modalidade de comportamento. Para destruí-lo é necessário estabelecer-se outras relações, e isso se faz quando passamos a agir de modo diferente uns para com os outros.

Gustav Landauer, pacifista e anarquista alemão

 

 

Leia também:
Você não produz o suficiente
O fim de todos os governos
O profeta e a revolução

14 de Setembro de 2011

Ready for that day [2]

História, Sociedade

Are you prepared to run this Christian race?

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Welcome

Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é que alguns de nós chegam ao poder. Nota para mim mesmo: Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.

O líder bem intencionado só quer a perpetuação da instituição, e isso com o objetivo de proteger você.

O líder mal intencionado só quer o seu dinheiro, e afirmará que a causa mais sentida das coletas que faz é patrocinar os seus sonhos.

O líder de uma seita lhe estenderá na última ceia um copo com cianeto, irá convidar você e seus filhos a morrer com ele, e você aceitará de bom grado.

E até ser tarde demais você pode não ter como perceber com qual dos três está lidando.

A congregação de que estou falando foi fundada na década de 1950 em Indianápolis, como ramo da denominação Discípulos de Cristo, e mudou-se em 1965 para a Califórnia, onde formou uma comunidade vibrante e engajada, comprometida com justiça social e integração racial. Em 1974 essa comunidade decidiu que era hora de abandonar os Estados Unidos, cuja postura fascista, corporativista e racista seus membros tomavam (com acerto) por anticristãs; em 1977 a maior parte do grupo transferiu-se para a Guiana, onde fundaram a colônia rural que ficaria conhecida como Jonestown, um “paraíso socialista” modelado para contrastar com a vida alienada e consumista que haviam abandonado nos Estados Unidos.

Porém a essa altura o líder e fundador original já dava há anos indicações de enraizados distúrbios mentais1, e lapidara à excelência o dom psicopata de promulgar perversidades sem perder a doçura do tom de voz.

Em 18 de novembro de 1978, horas depois de uma complexa escaramuça envolvendo dissidentes e que resultou no assassinato de um deputado norte-americano que viera visitar a colônia, o líder da congregação reuniu a comunidade e conduziu um suicídio em massa no qual morreram mais de 900 pessoas, entre homens, mulheres e crianças – inclusive o próprio líder, Jim Jones. Pelo que se sabe, e conforme testemunha uma gravação feita na ocasião, o suicídio em si aconteceu calmamente, entre aleluias e choros de bebês, mas sem grandes manifestações de repúdio, de tristeza ou de horror. “Não estamos cometendo suicídio”, explica Jones; “este é um ato revolucionário”. E mais tarde: “Elas [as crianças] não estão chorando de dor; [o veneno] é que é um pouco amargo”.

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As últimas deliberações em Jonestown
Transcrição dos diálogos aqui

A congregação chamava-se Peoples Temple e em 1973, ainda na Califórnia, seu coro gravou o disco He’s Able/Ele é capaz, da qual subtraí a canção Walking With You, Father/Caminhando contigo, Pai, que arquivei aqui, bem com as outras canções que ilustram este documento.

***

Acima do altar na casa de reuniões da congregação do Peoples Temple na Guiana havia uma placa com o lema da comunidade: Those who don’t remember the past are condemned to repeat it – os que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.

 

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Walking with you, Father

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Set them free

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Walk a mile in my shows

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Hold on, Brother

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Down from his glory

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He’s Able

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Something got a hold of me

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Because of Him

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Black baby

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Will you

Album via wfmu.org

Leia também:
Os que menos são
Jonestown (abundante material primário sobre o assunto, em inglês)

NOTAS
  1. Famosamente, o líder de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser “o único heterossexual” do planeta. []
20 de Agosto de 2011

Ser inteligente

Política

Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambiçõesNinguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. de carreira pública ou política.

Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um chefe de uma repartição, o presidente da república, ou o líder de algum pequeno grupo, o que permitiu a ele chegar lá não foi a sua inteligência e sim a sua flexibilidade. Entendeu, flexibilidade?

Meu amigo Ivan Volcov, em comentário a este documento
Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários

18 de Agosto de 2011

Notas no caderno da revolução

Sociedade

Para trazer a efeito a revolução não basta simplesmente compartilhar as mesmas ideias, é necessário poder viver juntos, numa base diária, se possível em contato direto com a natureza. Embora pareça paradoxal, apenas uma comunidade de homens “unidos e isolados” pode garantir a vida interior autêntica negada pela civilização tecnológica.

Jacques Ellul

É precisamente isso que distinguía Ellul de todos os totalitaristas, panteístas e naturalistas daquele tempo: Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.

Bernard Charbonneau

Ellul e Chabornneau insistiam constantemente na necessidade de estabelecerem-se, localmente, pequenos grupos auto-governados que seriam federados entre si. Deveriam funcionar como contra-sociedades, esses grupos exemplares, manifestações concretas da ordem a ser construída. Seu propósito não era derrubar o regime mas servir de evidência, aqui e agora, da revolução instantânea. Gradualmente, de forma contagiosa, essa rede fundada nas bases poderia espalhar-se além das fronteiras nacionais, que estavam fadadas a desaparecer de qualquer maneira.

Patrick Troude-Chastenet,
sobre os projetos anárquicos de Jacques Ellul

Leia também:
O profeta e a revolução