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	<title>A Bacia das Almas &#187; anarquismo</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Bíblia e contracultura</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Feb 2012 08:31:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[bíblia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[O consolo de Gilgamesh é a cidade – as realizações humanas da edificação de cidades, do governo e da lei [...]; é esse o seu conforto diante da perda de seus amigos e da consciência da morte. &#160; Alan F. Segal Life After Death – A History of the Afterlife in Western Religion &#160; A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>O consolo de Gilgamesh é a cidade – as realizações humanas da edificação de cidades, do governo e da lei [...]; é esse o seu conforto diante da perda de seus amigos e da consciência da morte.<br />
&nbsp;<br />
<strong>Alan F. Segal</strong><br />
<em>Life After Death – A History of the Afterlife in Western Religion</em></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A história dos primórdios em Gênesis e as antigas narrativas das tradições mesopotâmicas (como aquelas preservadas no <em>Épico de Gilgamesh</em>) parecem compartilhar uma lição central, a de que a mortalidade é componente inseparável da condição humana, e de que sua contrapartida é o dom divino da sabedoria – sabedoria que é concedido ao homem exercer e desfrutar interinamente.</p>
<p>Já foi observado que este não é o único ponto que ambas as tradições tem em comum, mas também já foi observado que mais reveladoras do que as semelhanças talvez sejam as diferenças entre ambas. Porque, falando em termos gerais, aquilo em que a tradição do Gênesis difere das tradições mesopotâmicas (com que parece ter em mais em comum do que com qualquer outra) ela também difere das demais culturas do Oriente Médio e da maioria das mitologias deste mundo. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A Bíblia é relutante para endossar a ideia de civilização.</span>A Bíblia sonha desde o princípio um sonho singular.</p>
<p>Um exemplo especialmente relevante dessa singularidade está no modo como o Gênesis – e, na verdade, a Bíblia toda – se mostra resistente para endossar o conceito clássico de civilização. No <em>Épico de Gilgamesh</em> a sociedade civilizada e urbana é apresentada como um dos grandes e autorizados confortos de que a humanidade pode desfrutar diante do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/sabedoria-e-mortalidade/">estorvo da mortalidade</a>. A narrativa em si está emoldurada entre dois poemas idênticos que exaltam a cidade de Uruk, governada por Gilgamesh. É uma história que começa e termina com a exaltação das conquistas da vida urbana:</p>
<blockquote><p>Observe seus muros, cuja orla superior é como bronze;<br />
contemple sua muralha interior, a que obra nenhuma pode se pode comparar.<br />
Toque o limiar de pedra, que é antiquíssimo;<br />
aproxime-se da Eanna, habitação da deusa Ishtar,<br />
obra que nenhum rei entre os reis mais recentes pode igualar.<br />
Suba as muralhas de Uruk, caminhe ao longo do topo,<br />
inspecione a base, veja o lavor dos tijolos.<br />
Não é o seu próprio interior feito com tijolos queimados no forno?<br />
Quanto à sua fundação, não foi depositada pelos sete sábios?<br />
Uma parte cidade, uma parte pomar, e uma parte cava de argila.<br />
Três partes, incluindo a cava de argila, compõem Uruk.</p></blockquote>
<p>A ideia central é vender a ideia de civilização (e portanto da sociedade organizada e urbana) como valor, como destino glorioso e como justificação da humanidade. </p>
<p>A postura geral do Gênesis sobre a questão (e não é preciso ir longe para entender) é precisamente oposta. A passagem paralela no livro de Gênesis é aquela em que os templos da Mesopotâmia, as torres dos zigurates, são transfigurados em Torre de Babel. Nesta narrativa, os esforços dos homens para se organizar em sociedade e executar grandes obras representam não uma façanha admirável ou uma conquista que produz segurança, mas uma afronta a Deus, fadada por esse motivo ao mais embaraçoso fracasso.</p>
<p>Na tradição preservada no livro de Gênesis a civilização não indica conforto e não assinala valor. Nessa visão de mundo o progresso deve ser sempre colocado entre aspas, porque não representa um verdadeiro avanço; ao contrário, a vida civilizada é o começo da corrupção. O construtor da primeira cidade é o maldito Caim (Gênesis 4:17), e são os seus descendentes a inventar os primeiros instrumentos musicais (v. 21) e implementos de metal (v.22). </p>
<p>Mais tarde a narrativa vai se esforçar para contrastar a vida pura – sem garantias e sem adornos – do povo de Israel em sua travessia pelo deserto com a vida sofisticada, arrogante e sedentária da civilização egípcia que deixaram para trás e da qual foram salvos.</p>
<p>Talvez o emblema mais antigo da aversão bíblica à vida sedentária (e portanto à civilização e os resultantes centros urbanos) esteja preservado na história de Caim e Abel. A oferta de Abel é aceita porque ele personifica a vida pastoril, nômade e sem afetação, capaz de evocar uma idade do ouro em que a vida era mais simples e as pessoas andavam mais perto de Deus porque dependiam mais de perto dele. Caim é rejeitado porque sua oferta de cereais sugere o começo da sociedade sedentária e tudo que a vida civilizada tem de corruptor e de destemperado. A eterna tentação gerada pela segurança e pelas distrações da vida urbana é a do homem esquecer-se dos valores eternos – e portanto de si mesmo, do seu próximo e de Deus.</p>
<p>Essa relutância em admitir a civilização explica porque na Bíblia os grandes heróis são em geral pastores como Abraão, Moisés e Davi, gente que vive uma vida singela e autêntica longe da força corruptora de centros urbanos como Sodoma, Gomorra e Nínive. Até mesmo por ocasião do nascimento do messias, com tanta gente neste mundo para ser informada da boa nova, a glória divina demonstrou sua predileção pelos pastores da Judéia, que a narrativa concede que testemunhem a majestade que nenhum homem civilizado já viu.</p>
<p>Naturalmente a Bíblia não tem como contornar indefinidamente o fascínio da civilização e da vida urbana; com o tempo até mesmo Deus vai fazer concessões e terá sua própria cidade e o seu grande edifício em Jerusalém, devidamente providos de sacerdotes, muralhas, exércitos, cortesãos, reis e cavas de argila. Mas as tradições de contracultura preservadas na Bíblia se esforçam para declarar que toda a glória de Jerusalém, tanto o seu trono quanto o seu templo, não são a comprovação da supremacia e dos confortos da sociedade organizada – tratam-se realmente de <em>concessões </em>feitas em favor dos homens por uma glória muito acima da terrena. Deus absolutamente não cabe em templos feitos por mãos humanas (1 Reis 8:27), e os reis são um contratempo e um estorvo do qual a divindade preferiria ter poupado o seu povo (1 Samuel 8:6-20). A grandeza de Jerusalém não está em ser uma cidade civilizada, mas em ser a honorária habitação divina.</p>
<p>Porém a admissão da vida urbana não quer dizer que a sociedade de Israel será como as demais civilizações. A tradição bíblica busca consistentemente sustentar uma polêmica com os discursos deste mundo, e estabelece inúmeros mecanismos para garantir a singularidade (e portanto a marginalidade) da sociedade israelita. Israel será desde seu berço ideológico uma anti-civilização, uma contracultura, divinamente impedida de tornar-se como as outras.</p>
<p>Israel será para sempre uma civilização sem escultura, sem pintura, sem teatro – uma cultura inteira sem belezas distraídas, lascivas ou arbitrárias. Todas as suas manifestações artísticas (por exemplo, musicais e arquitetônicas) serão religiosas, e por fim até mesmo isso será tirado dela, porque a história sequestrará para si o Templo e a própria cidade da divina habitação.</p>
<p>No final, Israel só terá um livro (isto é, uma memória) ao redor do qual construir e sustentar a sua identidade. Enquanto os impérios ao redor levantam escolas arquitetônicas, deitam filosofias, dividem espólios, aperfeiçoam as artes plásticas e refinam as artes da urbanidade, Israel se manterá um país imaterial de verbos e de letras, uma cultura de interpretações e de memórias.</p>
<p>E finalmente, quando a narrativa deixa claro que Israel já se reconciliara com o seu destino e já reconhecia a si mesmo como o povo do livro e como a civilização da palavra, a contracultura bíblica chega ao seu apogeu no Novo Testamento, quando até mesmo essa singularidade é rejeitada em favor&#8230; da mera existência.</p>
<p>“A Palavra se fez carne” é (literalmente) a última palavra da tradição bíblica em sua polêmica contra a civilização. O entendimento de que Jesus é a palavra de Deus encarnada representa o esvaziamento final de significado, a pá final de terra na trincheira divina contra a sofisticação e os supostos confortos da vida civilizada. Se até mesmo o verbo tornou-se carne, o último grande valor da cultura de Israel, isto é, sua familiaridade e seu apego com a palavra, é negado, esgotado e tornado obsoleto.</p>
<p>A Bíblia é essa grande obra de anarquismo e de contracultura, e seu sonho é desiludir o ser humano das supostas seguranças e méritos da vida civilizada. O que nos parecem seguranças e conquistas, advertem-nos os idealizadores da Bíblia, não passam de discursos, e todos os discursos escravizam e matam. Para ser salvo o homem deve ser de carne, isto é, manter-se livre – ao mesmo tempo acima e abaixo do regime dos discursos. </p>
<p>É isso, finalmente, o que fazem os que foram tocados pela implacável lucidez do Espírito no Pentecostes: despem-se da civilização, negam o mérito de tudo que tinham e abraçam uns aos outros sem critério que não seja o fato de serem gente de carne. Abrem mão das ambições usuais para tornarem-se pastores de si mesmos e uns dos outros, e entendem que não há destino mais elevado: que não há destino mais simples e humano e portanto mais divino.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug074.gif"></p>
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		<title>A violência do global</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 10:38:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>

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		<description><![CDATA[O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal. A analogia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O terrorismo dos nossos dias não é produto de uma tradição histórica de anarquismo, niilismo ou fanatismo. Ao contrário, ele é o parceiro contemporâneo da globalização. A fim de identificar as suas principais características é necessário desenhar uma breve genealogia da globalização, particularmente da sua relação com o singular e com o universal. </p>
<p>A analogia entre os termos &#8220;global&#8221; e &#8220;universal&#8221; é enganosa. Universalização tem a ver com direitos humanos, liberdade, cultura e democracia. Globalização, ao contrário, tem a ver com tecnologia, com mercado, turismo e informação. A globalização é aparentemente irreversível, enquanto a universalização está provavelmente com os dias contados. Ela parece, no mínimo, estar perdendo terreno como sistema de valores desenvolvido no contexto da modernidade ocidental e sem paralelo em qualquer outra cultura. Toda cultura que se torna universal perde a sua singularidade e morre. Foi o que aconteceu com todas as culturas que destruímos no processo de assimilá-las. Porém isso é também verdade para a nossa própria cultura, a despeito de sua alegação de ser universalmente válida. A única diferença é que as outras culturas morreram por causa da sua singularidade, o que é uma morte bonita. A nossa está morrendo porque estamos perdendo nossa singularidade e exterminando nossos valores &#8211; e essa é uma morte muito feia.  </p>
<p>Cremos que o propósito ideal de qualquer valor é tornar-se universal, mas não avaliamos de fato o risco mortal que tal objetivo representa. Longe de ser uma empreitada edificante, trata-se na verdade de uma trajetória descendente na direção de um nível zero para tudo que tem valor. No Iluminismo a universalização era vista como crescimento ilimitado e propulsão ao progresso . Hoje, em contraste, a universalização existe por padrão é expressa como uma pisada sem rumo no acelerador, em que se busca apenas alcançar o mais ínfimo valor comum. É precisamente esse o destino dos direitos humanos, da democracia e da liberdade nos nossos dias. Sua expansão é na verdade sua expressão mais fraca.</p>
<p>A universalização está desaparecendo por causa da globalização. A globalização do comércio coloca um fim na universalização dos valores, e isso marca o triunfo de um pensamento uniforme sobre um pensamento universal. O que é globalizado é acima de tudo o mercado, a profusão de transações e de toda a sorte de produtos, o fluir perpétuo do dinheiro. Culturalmente, a globalização dá lugar a uma promiscuidade de símbolos e de valores, de modo a formar o que é na verdade uma pornografia. De fato, o alastramento global de tudo e de nada através de redes é pornográfico. A obscenidade sexual deixou de ser necessária; tudo que se tem agora é uma cópula global interativa. E, como resultado disso, não existe mais qualquer diferença entre o global e o universal. O universal tornou-se globalizado, e os direitos humanos circulam exatamente da mesma forma que qualquer outro produto global (por exemplo, petróleo ou capital).</p>
<p>A passagem do universal para o global ocasionou não apenas a uma constante homogeneização, mas também a uma infinita fragmentação. Deslocamento, não localização, tomou o lugar da centralização. Excentrismo, não descentralização, substituiu a concentração. Similarmente, discriminação e exclusão não são meras consequências acidentais da globalização, são os resultados lógicos da própria globalização. De fato, a presença da globalização pode nos levar a refletir se a universalização já não foi destruída por sua própria massa crítica. Pode também levar-nos a refletir se universalidade e modernidade existiram de fato fora de alguns discursos oficiais e de certos sentimentos morais populares. Para nós, hoje, o espelho da universalização está partido. Isso, no entanto, pode mostrar-se uma oportunidade: nos fragmentos desse espelho partido todas as sortes de singularidade reaparecem: as singularidades que julgávamos estar em risco sobrevivem, e as que julgávamos perdidas são revividas.</p>
<p>À medida em que os valores universais perdem sua autoridade e legitimidade, as coisas se tornam mais radicais. Quando crenças universais foram introduzidas como os únicos valores possíveis de mediação cultural, era muito fácil para essas crenças incorporar singularidades como modos de diferenciação numa cultura universal que alegava encorajar a diferença. Mas isso elas não são mais capazes de fazer, porque a globalização erradicou todas as formas de diferenciação e todos os valores universais que costumavam advogar a diferença. Ao fazê-lo, a globalização deu origem a cultura que é perfeitamente indiferente. No momento em que o universal desapareceu, uma tecnoestrutura global onipotente ficou sozinha para dominar. Mas essa tecnoestrutura está tendo agora de confrontar novas singularidades que, sem a presença da universalização para incubá-las, conseguem expandir-se de modo livre e devastador.</p>
<p>A universalização teve sua chance dada pela história. Porém hoje em dia, confrontada com uma ordem global por um lado sem qualquer alternativa e por outro avançando à deriva com singularidades de insurreição, os conceitos de liberdade, democracia e direitos humanos estão com um aspecto deplorável. Permanecem como os fantasmas da universalização passada. </p>
<p>A universalização costumava promover uma cultura caracterizada pelos conceitos de transcendência, subjetividade, conceitualização, realidade e representação. Em contraste, a cultura virtual global contemporânea substituiu conceitos universais por telas, redes, imanência, números e um contínuo espaço-tempo sem qualquer profundidade. No universal havia ainda espaço para uma referência natural ao mundo, ao corpo, ao passado. Havia uma espécie de tensão dialética ou movimento crítico que encontrava sua materialidade na violência histórica e revolucionária. Porém a expulsão dessa negatividade crítica abriu as portas para outra forma de violência, a violência do global. Essa nova violência é caracterizada pela supremacia da eficiência e da positividade técnicas, da organização total, da circulação integral e da equivalência de todos os intercâmbios. Além disso, a violência do global coloca um fim não só no papel social do intelectual (ideal ligado ao Iluminismo e à universalização), mas também ao papel do ativista, cuja sorte costumava estar ligada às ideias de oposição crítica e violência histórica.</p>
<p>Será fatal a globalização? Algumas vezes outras culturas, que não a nossa, foram capazes de escapar da fatalidade do intercâmbio indiferente. Porém hoje em dia, onde está o ponto crítico entre o universal e o global? Teremos atingido um ponto sem volta? Que vertigem impele o mundo a apagar a Ideia? E que outra vertigem é essa que, ao mesmo tempo, parece forçar as pessoas a quererem incondicionalmente concretizar a Ideia?</p>
<p>O universal era uma Ideia; porém, quando tornou-se concretizada no global ela desapareceu como Ideia, cometeu suicídio e desapareceu como fim em si mesma. Como a humanidade é agora sua própria imanência, tendo assumido o lugar deixado por um Deus morto, o humano tornou-se o único modo de referência e é soberano. Porém essa humanidade não mais tem qualquer finalidade. Livre dos seus antigos inimigos, a humanidade tem agora de criar inimigos de dentro, o que de fato produz uma ampla variedade de metástases inumanas.</p>
<p>É precisamente daqui que vem a violência do global. Ela é produto de um sistema que sai à caça de qualquer forma de negatividade e de singularidade, incluindo, é claro, a morte, em sua qualidade de forma última de singularidade. Trata-se da violência de uma sociedade em que o conflito é proibido, em que morrer não é permitido. Trata-se de uma violência que, num certo sentido, põe fim à própria violência, e luta para estabelecer um mundo em que qualquer coisa relacionada ao natural deve desaparecer (quer diga respeito ao corpo, ao sexo, ao nascimento ou à morte). Talvez, melhor do que chamá-la de violência global, fosse chamá-la de virulência global. Essa forma de violência é de fato viral. Ela se move por contágio, avança por reação em cadeia, e pouco a pouco destrói nosso sistema imunitário e nossa capacidade de resistir.</p>
<p>Porém o jogo ainda não terminou. A globalização não venceu por completo. Contra essa força dissolvente e homogeneizante, forças heterogêneas &#8211; não apenas diferentes, mas claramente antagônicas &#8211; estão se levantando em todo lugar. Por trás das crescentes fortes reações contra a globalização e das formas sociais e políticas de resistência ao global, encontram-se mais do que simplesmente expressões nostálgicas de negação. Encontra-se, ao contrário, um esmagador revisionismo em relação à modernidade e ao progresso, uma rejeição não apenas da tecnoestrutura global, mas também do sistema mental da globalização, que pressupõe um princípio de equivalência entre todas as culturas. Esse tipo de reação pode às vezes assumir aspectos violentos, anormais e irracionais, ou podem pelo menos ser percebidos como violentos, anormais e irracionais da perspectiva de nosso modo de pensar tradicionalmente iluminista. Essa reação pode assumir formas coletivas étnicas, religiosas e linguísticas, mas pode também assumir a forma de explosões emocionais individuais ou mesmo neuroses. Em qualquer caso, seria um erro condenar essas reações como simplesmente populistas, arcaicas ou mesmo terroristas. Tudo nos nossos dias que tem qualidade de evento está engajado contra a universalidade abstrata do global, e isso inclui a própria oposição islâmica aos valores ocidentais (é justamente por ser a contestação mais vigorosa desses valores que o Islam é considerado hoje o inimigo número um do ocidente).</p>
<p>Quem pode derrotar o sistema global? Certamente não o movimento antiglobalização, cujo único objetivo é retardar a retirada global do controle governamental. O impacto político desse movimento pode ser importante, mas seu impacto simbólico é inútil. Sua oposição nada mais é do que uma questão interna que o sistema dominante pode facilmente manter sob controle. Alternativas positivas não são capazes de derrotar o sistema dominante, mas singularidades que não são bem positivas nem negativas podem. Singularidades não são alternativas: elas representam uma ordem simbólica diferente. Elas não seguem julgamentos de valor ou realidades políticas. Singularidades podem representar o melhor ou o pior, não podendo ser &#8220;regularizadas&#8221; por meios de ação histórica coletiva. Elas derrotam qualquer pensamento que seja exclusivamente dominante, porém não se apresentam na forma de um contrapensamento exclusivo. Falando simplesmente, elas criam seu próprio jogo e impõem suas próprias regras. Nem todas as singularidades são violentas: algumas singularidades linguísticas, artísticas, corpóreas e culturais são bem sutis. Porém outras, como o terrorismo, podem ser violentas. A singularidade do terrorismo vinga as singularidades das culturas que pagaram com a sua extinção o preço da imposição de um poder global único.</p>
<p>Não estamos aqui falando de um &#8220;confronto entre civilizações&#8221;, mas de um conflito quase antropológico entre uma cultura universal indiferenciada e todo o restante que, em qualquer domínio, retenha uma qualidade irredutível de alteridade. Da perspectiva do poder global (que é tão fundamentalista em suas crenças quanto qualquer ortodoxia religiosa), qualquer modalidade de diferença ou de singularidade é heresia. Forças singulares tem como escolha juntar-se ao sistema global (por livre vontade ou pela força) ou perecer. A missão do Ocidente (ou, antes, do que era antes o Ocidente, visto que esse perdeu seus próprios valores há muito tempo) é utilizar todos os meios disponíveis para subjugar toda cultura ao princípio brutal da equivalência cultural. Uma vez que perde seus valores, o que resta a uma cultura é buscar vingança atacando os valores das demais. Para além dos objetivos econômicos e políticos, guerras como a do Afeganistão buscam ajustar a selvageria e alinhar todos os territórios. O alvo é livrar-se de qualquer zona reativa: colonizar e domesticar geograficamente e mentalmente qualquer território extravagante ou resistente.</p>
<p>O estabelecimento de um sistema global é o resultado de um ciúme profundo. É o ciúme que uma cultura indiferente e de baixa definição tem de culturas de alta definição; o ciúme que um sistema desiludido e deintensificado tem de ambientes de alta intensidade cultural; o ciúme que uma sociedade dessacralizada tem de formas sacrificiais. De acordo com o sistema dominante, qualquer forma de reação é virtualmente terrorista (de acordo com essa lógica, pode-se dizer que até mesmo as catástrofes naturais são formas de terrorismo. Grandes acidentes tecnológicos, como Chernobyl, são ao mesmo tempo ato terrorista e desastre natural. Outro acidente tecnológico, o vazamento de gás tóxico em Bhopal, na Índia, poderia também ter sido um ataque terrorista. Qualquer queda de avião pode também ter a responsabilidade assumida por um grupo terrorista. A característica dominante de eventos irracionais é que eles podem ser imputados a qualquer um e a qualquer dada motivação. Até certo ponto, qualquer coisa em que pensarmos pode ser criminosa, mesmo uma frente fria ou um terremoto. Isso não é novidade. No terremoto de Tóquio de 1923 milhares de coreanos foram mortos porque acreditou-se que eram responsáveis pelo desastre. Num sistema intensamente integrado como o nosso, tudo pode ter um efeito de desestabilização semelhante. Tudo caminha para o fracasso de um sistema que alega ser infalível. Do nosso ponto de vista, apanhados dentro dos controles racionais e programáticos do sistema, não somos sequer capazes de perceber que a pior catástrofe é na verdade a infalibilidade do próprio sistema). </p>
<p>Veja o Afeganistão. O fato de que apenas dentro desse país todas as formas de liberdades e expressões &#8220;democráticas&#8221; &#8211; de música e televisão à possibilidade de se ver o rosto de uma mulher &#8211; são proibidas, bem como a possibilidade de que esse país pudesse assumir um caminho totalmente avesso ao que chamamos de civilização (não importando quais os princípios religiosos invocados), provaram-se não aceitáveis para o mundo &#8220;livre&#8221;. A dimensão universal da modernidade não pode ser recusada. Da perspectiva do Ocidente, de seu modelo consensual e de seu modo único de pensar, é um crime não perceber a modernidade como a fonte óbvia do Bem ou como o ideal natural da humanidade. É crime também quando a universalidade de nossos valores e práticas são consideradas suspeitas por indivíduos que, no momento em que revelas as suas dúvidas, são imediatamente tachados de fanáticos.</p>
<p>Só uma análise que enfatize a lógica da obrigação simbólica pode decifrar esse confronto entre o global e o singular. Para se entender o ódio do resto do mundo contra o Ocidente, as perspectivas devem ser invertidas. O ódio dos povos não-ocidentais não está baseado no fato de que o Ocidente roubou tudo deles e nunca devolveu coisa alguma em troca. Ao contrário: está baseado no fato de que eles receberam tudo, mas nunca tiveram permissão para devolver coisa alguma. Esse não é o ódio causado pela exploração ou pela espoliação, mas pela humilhação. É precisamente este tipo de rancor que explica os ataques terroristas de 11 de setembro: foram ataques de humilhação em resposta a outra humilhação.</p>
<p>O pior que pode acontecer a um poder global não é ser atacado ou destruído, mas sofrer uma humilhação. O poder global foi humilhado no 11 de setembro porque os terroristas infligiram algo que o sistema global não tem como devolver. Represálias militares limitaram-se a uma reação física. Porém, no 11 de setembro, o poder global foi simbolicamente derrotado. A guerra é uma resposta à agressão, não a um desafio simbólico. Um desafio simbólico é aceito e removido quando o adversário é humilhado em retribuição (mas isso não tem como funcionar quando o adversário é triturado por bombas ou trancafiado em Guantanamo). A regra fundamental da obrigação simbólica estipula que a base de qualquer forma de dominação é a total ausência de qualquer contrapartida, de qualquer retorno. A dádiva unilateral é um ato de poder. E o Império do Bem, a violência do Bem, é precisamente ser capaz de dar sem qualquer possibilidade de retorno. É isso o que significa estar na posição de Deus, ou na posição do senhor que permite que o escravo viva em troca de seu trabalho (porém o trabalho não é uma contrapartida simbólica, e a única resposta que o escravo pode eventualmente dar é rebelar-se ou morrer). </p>
<p>Deus costumava abrir algum espaço para sacrifício. Na ordem tradicional, era sempre possível devolver-se alguma coisa a Deus, ou à natureza, ou a qualquer entidade superior através do sacrifício. Era isso que assegurava o equilíbrio simbólico entre seres e coisas. Hoje, no entanto, não temos ninguém a quem retribuir, a quem devolver o débito simbólico. Este é o curso da nossa cultura. Não é que a dádiva seja impossível, a contradádiva é que é. Todas as formas sacrificiais foram neutralizadas ou removidas (o que resta é uma paródia do sacrifício, visível em todas as instâncias contemporâneas de vitimização).</p>
<p>Estamos portanto na irremediável situação de ter que receber, sempre receber, não mais de Deus ou da natureza, mas por via de um mecanismo tecnológico de tráfico generalizado e gratificação comum. Tudo nos é virtualmente dado, e, quer se goste ou não, ganhamos direito sobre todas as coisas. Nossa situação é similar à do escravo cuja vida foi poupada mas permanece preso a um débito impossível de se pagar. Essa situação pode durar ainda algum tempo, sendo de fato a base da troca nesta ordem econômica. Porém chega sempre a hora em que a regra fundamental volta à superfície e um retorno negativo segue inevitavelmente como resposta a uma transferência positiva, quando vem à tona uma explosão emocional diante dessa vida de cativeiro, dessa existência protegida e dessa saturação. Essa reversão pode tomar a forma de um ato aberto de violência (como o terrorismo), mas também de entrega impotente (que é mais característica da nossa modernidade), de autodepreciação e de remorso &#8211; em outras palavras, todas aquelas paixões negativas que são formas degradadas da impossível contradádiva. </p>
<p>Aquilo que odiamos em nós mesmos &#8211; o obscuro objeto de nosso ressentimento &#8211; é o nosso excesso de realidade, de poder, de conforto, nossa disponibilidade universal, nossa completa realização, aquele tipo de destino que o Grande Inquisidor de Dostoiévski tinha reservado para as massas domesticadas. É precisamente essa porção da nossa cultura que os terroristas consideram repulsiva (o que também explica o apoio que recebem e a pressão que exercem). O apoio ao terrorismo não está baseado apenas no desespero dos que foram humilhados e ofendidos; está também fundamentado no desespero invisível daqueles a quem a globalização privilegiou, em nossa própria submissão a uma tecnologia onipotente, a uma esmagadora realidade virtual, a um império de redes e de programas que estão provavelmente em processo de redesenhar os contornos regressivos da espécie humana como um todo, de uma humanidade que tornou-se &#8220;global&#8221; (afinal de contas, não é a supremacia da espécie humana sobre o restante da vida na terra o reflexo da dominação do ocidente sobre o resto do mundo?). Esse desespero invisível, nosso desespero invisível, é irremediável, porque é resultado da realização de todos os nossos desejos.</p>
<p>Dessa forma, se o terrorismo deriva do excesso de realidade e do impossível sistema de trocas dessa realidade, se é produto de uma profusão sem qualquer contrapartida possível, e se emerge de uma resolução forçada de conflitos, a ilusão de que livrar-se dele é livrar-se de um mal objetivo está completa. Pois, em todo esse absurdo e contrassenso, o terrorismo é julgamento e penalidade da própria sociedade.</p>
<p align="right"><small><strong>Jean Baudrillard</strong></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug081.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/o-aniquilamento-da-nao-violencia/">O aniquilamento da não-violência</a></p>
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		<title>O aniquilamento da não-violência</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 08:13:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
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		<description><![CDATA[Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade. Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul &#160; Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small><br />
<em>Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.</em><br />
<strong>Bernard Charbonneau</strong>, falando em nome do anarquista cristão <strong>Jacques Ellul</strong></small> </p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.</p>
<p>Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.</p>
<p>Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.</p>
<p>Oculta por trás de multiformes manifestações e múltiplos falsos destinos, o capitalismo tem uma só regra, mas é uma regra rígida: <em>conforme-se</em>. Não me interessa o quê, consuma. Acredite no que quiser, apenas compre. Quem não <em>sabe comprar</em> deve ser ensinado a aprender, e as culturas e pessoas que não estão interessadas em consumir ou em impor seu modo de vida às demais estão condenadas à execração e à morte social, cultural e econômica.</p>
<p>Resistir é inútil. A função da propaganda (e a propaganda ocupou cada centímetro do espaço social) é evangelizar você com a má nova de que você não é feliz, e de que não terá como ser feliz até aprender a comprar o quanto baste, isto é, sem parar. Olhe pra você. Você está longe de ter toda a autorrealização que pode comprar. Para imprimir credibilidade à sua mediocridade você deve consumir. Para se destacar você deve fazer como todos.</p>
<p>A questão central, que as luzes do shopping simplesmente não nos deixam enxergar, é que consumir é agredir, especialmente num mundo interligado como o nosso. Não restam pessoas pacíficas entre nós, nem uma sequer. Não há gente não-violenta, porque todos consumimos. </p>
<p>Há inúmeros sentidos em que, dentro de um capitalismo global, consumir é agredir. Talvez baste citar dois.</p>
<p>Primeiro há a questão dos recursos naturais, e mesmo aqueles dentre nós que creem que o espírito empreendedor não tem limites deveriam poder entender que os recursos têm. Se 20% da população da Terra consomem 80% dos recursos disponibilizados pelo planeta, resulta em primeiro lugar que os bem-sucedidos dentre nós são os que desfrutam muito desautorizadamente do que não é seu. Não importa o que você acredite, o seu MBA não o qualifica a usar o recurso planetário que pertence tanto a você quanto ao seu irmão de um dos sertões do mundo. Na marca dos 7 bilhões de condôminos, a Terra é um cortiço que está ficando pequeno, e nesse condomínio uma minoria dilapida segundo os seus (os nossos) próprios caprichos um patrimônio que é comum, e despeja ao mesmo tempo o seu (o nosso) lixo sobre a cabeça de uma minoria que absolutamente não é responsável por ele.</p>
<p>Além disso, a presente taxa de utilização dos recursos naturais representa não apenas um ultraje para o presente, para gente que está viva agora, mas uma ameaça para o futuro – uma ameaça para os que nascem hoje e terão de encontrar espaço de vida e de dignidade amanhã. Não há como não concordar com os que alertam que é tarde demais para ser pessimista: “sustentável” é menos uma diretiva do que um sonho. Sustentável é o que o futuro seria na melhor das hipóteses, se o nosso presente também fosse. Consumir é agredir porque é de fato <em>consumir</em>, fazer desaparecer – é queimar um mundo que não nos pertence, e como se não houvesse amanhã.</p>
<p>Em segundo lugar, consumir é agredir porque, num espaço de produção globalizado, você não é obrigado a testemunhar as injustiças que patrocinam os seus hábitos de consumo. O capitalismo não apenas alienou o trabalhador do fruto do seu trabalho, conforme diagnosticado por Marx, mas separou também o consumidor da realidade do valor e da produção. Amigo, nada neste mundo custa 1,99. Tudo neste planeta é muito valioso. Tudo é caríssimo, em especial as horas-gente e as horas-futuro, que são horas-vida. Acredite, a máquina fotográfica que você tem no bolso é uma milagre e o seria em qualquer tempo e qualquer universo; se você paga por ela coisa de 30 almoços é porque <em>alguém está pagando o restante do valor</em> – e via de regra é o chinês apertado numa fábrica, com as mesmas condições de conforto e o mesmo espaço para se esticar que o frango industrial de que você comprou ontem o filé. E os operários em todo o mundo se sujeitam a esse tipo de indignidade apenas porque vendemos a eles, constantemente e com toda a eficiência, o sonho de aprenderem a comprar com a mesma eficácia que nós mesmos. E quem não gostaria de estar no nosso lugar? Todos os que consumimos, de iPads a goiabinhas Piraquê, somos senhores de escravos.</p>
<p>Desse modo não é difícil entender, com Jean Baudrillard, porque discriminação e exclusão são consequências diretas e imediatas da globalização. O capitalismo tecnológico quer impor sobre as culturas e sobre os indivíduos uma solução de vida sem verdadeira alternativa; todos os que não se submetem ou não desejam esse modo de vida estão por definição discriminados e excluídos. E mesmo os que se sujeitam a desejar a solução indiferenciada tem de submeter-se ainda à pedra de moer da eterna insatisfação: a máquina capitalista só funciona enquanto e porque todos nos sentimos pelo menos um pouco discriminados e excluídos, e entendemos que o consumo do produto almejado nos curará dessa inadequação. Gente satisfeita com o que tem (ou com o que não tem) representa a morte do capitalismo; não é à toa que o capitalismo esteja tão bem de saúde.</p>
<p>Não foi à toa que Gandhi entendeu depressa que para abraçar adequadamente o ideal da não-agressão não bastava baixar as armas e oferecer a outra face: era preciso afastar-se deliberadamente das cadeias do consumo e adotar um modo de vida ao mesmo tempo responsável e sustentável. Ele intuiu que a verdadeira não-violência, no seu sentido mais radical da coisa, requer consumir o que se planta, vestir o que se fia, assumir a responsabilidade pelo próprio lixo, abrir mão das ilusões do consumo, abandonar as armadilhas da novidade e ignorar a ficção útil da propriedade privada<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2012/o-aniquilamento-da-nao-violencia/#footnote_0_2765" id="identifier_0_2765" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma aspira&ccedil;&atilde;o e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evang&eacute;lico do neomonasticismo.">1</a></sup>. E o capitalismo está construído de modo a que você permaneça convencido de que não tem liberdade para fazer qualquer uma dessas coisas. </p>
<p>A perfeição do mecanismo está em que somos nós mesmos nossos catequizadores. Nosso modo de vida insiste, na verdade ele comprova, que não existe uma alternativa ao moinho do consumo. Você não é livre e jamais será, mas não vai sentir falta da liberdade enquanto estiver com um cartão de crédito ou sonhando com um.</p>
<p>Como resultado, a violência foi efetivamente institucionalizada, tendo se tornado o combustível até mesmo dos mais inocentes. A liberdade que temos, quando temos, é a de escolher, a cada momento, a agressão menor – e mesmo essa frágil decisão está se tornando cada vez mais difícil e improvável. As cadeias são cada vez mais eficazes e os encadeamentos cada vez mais complexos. Quem pode nos ensinar a viver de outra forma? Somos paupérrimos, só sabemos comprar para viver. O ciclo de agressão da produtividade e do consumo está entranhado em tudo que fazemos, tudo que desejamos, tudo que sonhamos. Os mais carolas, amantes de paz e inofensivos dentre nós patrocinam a agressão aberta e foram para sempre maculados por ela. Somos todos cúmplices e vítimas da mesma violência capital.</p>
<p>A tragédia está em que o amor não foi capaz de nos unir, mas a complacência universal com a injustiça nos tornou irmãos. Somos a máfia, e na máfia todos se cuidam, para que a máfia não tenha como mudar. Da máfia ninguém sai.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2765" class="footnote">Uma aspiração e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evangélico do <a href="http://www.christianitytoday.com/ct/2005/september/16.38.html">neomonasticismo</a>.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Sobre manipular antônimos</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Dec 2011 16:30:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.</small></p>
<p align="right"><small>A narração inicial de <em>Árvore da vida</em>, de <strong>Terrence Malick</strong></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo. </p>
<p>Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. &#8220;Qual é o contrário de [determinada coisa]&#8221; é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.</p>
<p>Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sobre-manipular-antonimos/#footnote_0_2746" id="identifier_0_2746" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Ou, ainda, qual &eacute; o contr&aacute;rio de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido &amp;#8220;homoafetivo&amp;#8221;, que alia &agrave; baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplifica&ccedil;&atilde;o e da incorre&ccedil;&atilde;o. Porque os heterossexuais, em especial os homens, s&atilde;o em geral grandes homoafetivos &amp;#8211; no sentido de que sentem-se mais &agrave; vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperan&ccedil;as da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.">1</a></sup>? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. &#8220;Qual é o contrário disso?&#8221; pode também significar &#8220;existirá uma alternativa a isso?&#8221;, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.</p>
<p>Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, &#8220;o contrário de capitalismo é socialismo&#8221; é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.</p>
<p>Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência &#8211; aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-lado-esquerdo-de-hitler/">O lado esquerdo de Hitler</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/sobre-dar-nomes-a-primatas/">Sobre dar nome a primatas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sobre-o-costume-de-agrupar-livros/">Sobre o costume de agrupar livros</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2746" class="footnote">Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido &#8220;homoafetivo&#8221;, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos &#8211; no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Perdão e poder</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 12:47:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não é de estranhar que Jesus de Nazaré tenha se recusado a reduzir a virtude a um conjunto confortável de regras; não é de estranhar que ele tenha se negado firmemente a indicar que a conduta do reino pudesse ser domada em normas ou esgotada pela obediência passiva. Essas suas cautelas se enquadram de modo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é de estranhar que Jesus de Nazaré tenha se recusado a reduzir a virtude a um conjunto confortável de regras; não é de estranhar que ele tenha se negado firmemente a indicar que a conduta do reino pudesse ser domada em normas ou <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-acalentado-conforto-da-proibicao/">esgotada pela obediência passiva</a>. Essas suas cautelas se enquadram de modo natural em seu projeto de rejeitar o uso de qualquer ferramenta de manipulação e de poder. Legislar é poder, legislar é condicionar, e nada está mais distante da postura que Jesus assumiu para si mesmo e sonhou para os seus amigos.</p>
<p>Também não é de estranhar que a igreja tenha ignorado por completo esse sonho de Jesus, tendo caído muito cedo na tentação de regulamentar e institucionalizar. O desafio do sopro imprevisível do espírito se prestava menos como ferramenta de controle do que a promulgação de novos e exigentes regulamentos, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Débito é controle.</span>pelo que a igreja não tardou a elencá-los e a demandar o seu solene cumprimento.</p>
<p>Em especial, a elaboração de uma nova legislação resolvia o tremendo problema  gerado pelo anúncio evangélico do perdão universal dos pecados. Porque, como quem pondera essas coisas não deve esquecer, o rabi de Nazaré era acima de tudo um sujeito que via como essencial viver desafiando as pessoas a celebrar um novo modo de vida com base no desconcertante anúncio divino da remissão das faltas que mancham a ficha de cada um (inclusive, estava implícito, daquelas manchas teimosas para as quais a lei de Moisés não previa compensação ou misericórdia). Tratava-se de uma absolvição incondicional, integral, imediata e gratuita – e, em cada um desses aspectos, inteiramente sem precedentes. O anúncio e o ingresso do reino dos céus começavam com o mergulho literal nessa vertiginosa notícia.</p>
<p>Deste lado de um rio com dois mil anos de largura, estamos habituados a tomar o anúncio do perdão plenário dos pecados como um dos aspectos mais imateriais e etéreos – um dos aspectos mais politicamente inofensivos – da mensagem de Jesus. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Ser perdoado deve ser complicado.</span>Não teríamos como estar mais enganados.</p>
<p>O anúncio da disponibilidade universal da absolvição dos pecados era um golpe que desfechava fraturas profundas nas estruturas sociais, religiosas, econômicas e políticas do mundo de Jesus. Como explicam tão rigorosamente os evangelhos, os representantes do estado de coisas em cada uma dessas esferas não deixaram de farejar essa ameaça no ar. Nenhum governo precisa perseguir gente santa: santos não incomodam, porque limitam-se a apontar o pecado. Jesus e João Batista foram perseguidos porque distribuíam o perdão e a liberdade, anulando e relativizando o poder paralisante da culpa e do pecado.</p>
<p>O problema, naturalmente, está em que nenhum estado de coisas, nenhum sistema de dominação e controle, tem como sobreviver à súbita ausência de débitos.</p>
<p>Os homens que projetaram a igreja formal julgaram que não convinha para a manutenção do sistema que uma pessoa se sentisse por muito tempo inteiramente perdoada, sem dever nada a ninguém – isto é, autônoma, livre, criativa e responsável. A fim de evitar a dificuldade que seria fiscalizar uma multidão autônoma de alforriados, viu-se como necessário colocá-los sem demora debaixo de uma nova e sensata cadeia de exigências. Uma lista de normas, que pudesse ser decorada e que não deixasse margem de manobra ou de dúvida. Por amor ao rebanho e, por tabela, a Jesus.</p>
<p>Nessa manobra, que deve ter sido em grande parte inconsciente, a igreja primitiva intuiu muito espertamente o que sabem hoje em dia todos os governos e todas instituições financeiras: débito é controle. Para que a instituição funcione e para que a máquina continue a rodar você precisa sentir que está devendo para ela. Quem deve, teme.</p>
<p>É por isso que os governos e as instituições tendem a aumentar indefinidamente a sua lista de proibições e de transgressões, mas tendem a diminuir a lista daqueles com autoridade para absolvê-las. É por isso que, nos nossos dias, mesmo as maiores autoridades e os mais poderosos tribunais são constrangidos pelo sistema a não mitigar a severidade de quaisquer penas, especialmente as mais graves. É por isso que é tão fácil conseguir um cartão de crédito e tão difícil sair de casa sem ele. É por isso que os religiosos do tempo de Jesus se incomodavam menos com os seus desvios da ortodoxia do que com a singeleza com que ele perdoava os pecados de quem quer que fosse.</p>
<p>A fim de se garantir a sobrevivência de qualquer sistema, ser perdoado deve ser complicado. Deve ter um procedimento, uma hierarquia, um prazo, um trâmite e um preço. Para que o débito exerça de modo adequado o seu poder de controle, o perdão não pode ser distribuído indiscriminadamente. Ninguém deve ter poder para absolver a seu bel-prazer – e, como se não bastasse a sua própria insubordinação, era com a missão de distribuir o perdão que Jesus convidava seus seguidores a passear mundo afora. Nada é mais subversivo do que o perdão emitido sem critério, e era um Deus assim – uma vida assim – que Jesus apresentava ao mundo. A este mundo.</p>
<p>A singularidade desse indulto universal é tão assombrosa que nem mesmo a igreja foi capaz de represá-la por completo. Porém os líderes pós-apostólicos entenderam muito depressa que a euforia libertadora do mais radical e abrangente dos perdões pode ser anulada imediatamente pela contabilização de novos débitos.</p>
<p>Afinal de contas, quem não deve nada a ninguém pode crer-se livre para mudar o mundo ou para reger a sua própria vida – e nada há de mais perigoso. O espírito da liberdade pode insistir em soprar onde quiser – e nada há de mais inconveniente.</p>
<p>Foi tida como medida urgente e necessária, portanto, reinstaurar a culpa. Foi deliberado como recomendável anular-se o risco da liberdade e do perdão.</p>
<p>Porque, descuidado leitor, o que você empreenderia se entendesse de repente que não deve nada aos seus empregadores? O que você faria agora mesmo se entendesse que não deve nada a seu banco, a seu governo ou a si mesmo?</p>
<p>Por tudo que é sagrado, o que você faria se entendesse que não deve nada a Deus?</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug007.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-deus-que-nao-tem-ninguem-na-sua-lista/">O Deus que não tem ninguém na sua lista</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/na-cama-com-a-biblia/">Na cama com a Bíblia</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-acalentado-conforto-da-proibicao/">O acalentado conforto da proibição</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A mão invisível e a graça irresistível do mercado</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 07:49:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa reguladora da justiça, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se entendermos dois aspectos da economia de mercado, concordaremos que há sempre uma teia religiosa para conectar as práticas. Um aspecto é o da “mão invisível” do mercado, pretensa <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista/">reguladora da justiça</a>, um conceito idêntico ao da soberania do nosso cristianismo determinista: renda-se ao mercado, ele garante que no final tudo se encaixa. É o tapeceiro, só vemos o avesso, o mercado-tapeceiro tece do lado certo. O outro aspecto é o da “graça irresistível” do mercado. Ou você se abre para a economia de mercado ou está destinado ao “inferno” decadente e isolado do mundo – é a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-conquista-do-publico-e-a-punicao-dos-indisciplinados/">inexorabilidade do mercado</a>. Você vem para o “Senhor” nem que seja pela dor.</p>
<p>Não seria o evangelho de Jesus o “niilismo mais radical” que desmascara os encantamentos religiosos: que quebra os odres velhos?</p>
<p>O que pode ser menos religioso que o evangelho de Jesus?</p>
<p>O que pode a transformar “crentes no capital” em “ateus anárquicos” mais que o evangelho do Cristo de Deus?</p>
<p align="right"><small><strong>Elienai Cabral Júnior</strong>, em comentário a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/de-me-um-monoteismo-e-moverei-o-mundo/">este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O capitalismo é a crise</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 09:24:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[progresso]]></category>

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		<description><![CDATA[Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta. Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana. Pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>Os cientistas estão dando à nossa era o nome de Antropoceno, para denotar o impacto sem precedentes que os seres humanos estão exercendo sobre o planeta, impacto que está causando a sexta extinção em massa da história do planeta.</p>
<p>Há mais escravos hoje em dia do que em qualquer outro período da história humana.</p>
<p>Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o total de débito assumido por estudantes (que não entraram ainda no mercado de trabalho) é maior do que o total do débito assumido pelo público consumidor em geral.</p>
<p>Os gastos militares globais alcançaram uma cifra recorde em 2011.</p>
<p>O mundo está morrendo, e os capitalistas estão quebrando recordes de lucro enquanto ele morre.</p>
<p><small><strong>Michael Truscello</strong>, em <a href="http://dissidentvoice.org/2011/08/austerity-is-euphemism-for-class-war-waged-by-rich/">Capitalism is the Crisis</a></small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Não é a economia que está em crise; a economia é a crise. Não é que não há trabalho, o que há é trabalho demais. Tudo somado, não é a crise, é o crescimento a causa da nossa depressão.</p>
<p><small><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Coming_Insurrection">The Coming Insurrection</a></small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O modo de se fazer dinheiro é comprar quando há sangue correndo pelas ruas.</p>
<p><small><strong>John D. Rockefeller</strong>, magnata do petróleo</small> </p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>O Estado é uma condição, uma certa relação entre seres humanos, uma modalidade de comportamento. Para destruí-lo é necessário estabelecer-se outras relações, e isso se faz quando passamos a agir de modo diferente uns para com os outros.</p>
<p><small><strong>Gustav Landauer</strong>, pacifista e anarquista alemão</small></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube-nocookie.com/embed/fYFw3O--2R0?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug017.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://amarelofosco.com/?p=1091">Você não produz o suficiente</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">O fim de todos os governos</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ready for that day [2]</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Sep 2011 09:15:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Are you prepared to run this Christian race? [Visite a Bacia para ouvir o áudio] Welcome Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#B0B0A0"><small><em>Are you prepared to run this Christian race?</em></small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Welcome</small></span></p>
<p>Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é que alguns de nós chegam ao poder. Nota para mim mesmo: Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.</p>
<p>O líder bem intencionado só quer a perpetuação da instituição, e isso com o objetivo de proteger você.</p>
<p>O líder mal intencionado só quer o seu dinheiro, e afirmará que a causa mais sentida das coletas que faz é patrocinar os seus sonhos.</p>
<p>O líder de uma seita lhe estenderá na última ceia um copo com cianeto, irá convidar você e seus filhos a morrer com ele, e você aceitará de bom grado.</p>
<p>E até ser tarde demais você pode não ter como perceber com qual dos três está lidando.</p>
<p>A congregação <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day/">de que estou falando</a> foi fundada na década de 1950 em Indianápolis, como ramo da denominação Discípulos de Cristo, e mudou-se em 1965 para a Califórnia, onde formou uma comunidade vibrante e engajada, comprometida com justiça social e integração racial. Em 1974 essa comunidade decidiu que era hora de abandonar os Estados Unidos, cuja postura fascista, corporativista e racista seus membros tomavam (com acerto) por anticristãs; em 1977 a maior parte do grupo transferiu-se para a Guiana, onde fundaram a colônia rural que ficaria conhecida como Jonestown, um &#8220;paraíso socialista&#8221; modelado para contrastar com a vida alienada e consumista que haviam abandonado nos Estados Unidos.</p>
<p>Porém a essa altura o líder e fundador original já dava há anos indicações de enraizados distúrbios mentais<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day-2/#footnote_0_2646" id="identifier_0_2646" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Famosamente, o l&iacute;der de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser &amp;#8220;o &uacute;nico heterossexual&amp;#8221; do planeta.">1</a></sup>, e lapidara à excelência o dom psicopata de promulgar perversidades sem perder a doçura do tom de voz.</p>
<p>Em 18 de novembro de 1978, horas depois de uma complexa escaramuça envolvendo dissidentes e que resultou no assassinato de um deputado norte-americano que viera visitar a colônia, o líder da congregação reuniu a comunidade e conduziu um suicídio em massa no qual morreram mais de 900 pessoas, entre homens, mulheres e crianças &#8211; inclusive o próprio líder, Jim Jones. Pelo que se sabe, e conforme testemunha uma gravação feita na ocasião, o suicídio em si aconteceu calmamente, entre aleluias e choros de bebês, mas sem grandes manifestações de repúdio, de tristeza ou de horror. &#8220;Não estamos cometendo suicídio&#8221;, explica Jones; &#8220;este é um ato revolucionário&#8221;. E mais tarde: &#8220;Elas [as crianças] não estão chorando de dor; [o veneno] é que é um pouco amargo&#8221;. </p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>As últimas deliberações em Jonestown<br />
Transcrição dos diálogos <a href="http://jonestown.sdsu.edu/AboutJonestown/Tapes/Tapes/DeathTape/Q042.html">aqui</a><br />
</small></span></p>
<p>A congregação chamava-se <em>Peoples Temple</em> e em 1973, ainda na Califórnia, seu coro gravou o disco He&#8217;s Able<em>/Ele é capaz</em>, da qual subtraí a canção Walking With You, Father<em>/Caminhando contigo, Pai</em>, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day/">arquivei aqui</a>, bem com as outras canções que ilustram este documento.</p>
<p>***</p>
<p>Acima do altar na casa de reuniões da congregação do <em>Peoples Temple</em> na Guiana havia uma placa com o lema da comunidade: <em>Those who don&#8217;t remember the past are condemned to repeat it</em> &#8211; os que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/jonestown.jpg" alt="" /></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Walking with you, Father</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Set them free</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Walk a mile in my shows</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Hold on, Brother</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Down from his glory</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>He&#8217;s Able</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Something got a hold of me</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Because of Him</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Black baby</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Will you</small></span></p>
<p align="right"><small> Album via <a href="http://blog.wfmu.org/freeform/2006/02/he_was_able_mp3.html">wfmu.org</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-que-menos-sao/">Os que menos são</a><br />
<a href="http://jonestown.sdsu.edu/">Jonestown</a> (abundante material primário sobre o assunto, em inglês)</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2646" class="footnote">Famosamente, o líder de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser &#8220;o único heterossexual&#8221; do planeta.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Ser inteligente</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 08:48:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambiçõesNinguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. de carreira pública ou política. Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambições<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado.</span> de carreira pública ou política.</p>
<p>Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um chefe de uma repartição, o presidente da república, ou o líder de algum pequeno grupo, o que permitiu a ele chegar lá não foi a sua inteligência e sim a sua flexibilidade. Entendeu, <em>flexibilidade?</em></p>
<p align="right"><small>Meu amigo <strong>Ivan Volcov</strong>, em comentário <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/ambush/">a este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
<p align="right">
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		<title>Notas no caderno da revolução</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Aug 2011 11:45:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[ellul]]></category>
		<category><![CDATA[progresso]]></category>

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		<description><![CDATA[Para trazer a efeito a revolução não basta simplesmente compartilhar as mesmas ideias, é necessário poder viver juntos, numa base diária, se possível em contato direto com a natureza. Embora pareça paradoxal, apenas uma comunidade de homens &#8220;unidos e isolados&#8221; pode garantir a vida interior autêntica negada pela civilização tecnológica. Jacques Ellul É precisamente isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para trazer a efeito a revolução não basta simplesmente compartilhar as mesmas ideias, é necessário poder viver juntos, numa base diária, se possível em contato direto com a natureza. Embora pareça paradoxal, apenas uma comunidade de homens &#8220;unidos e isolados&#8221; pode garantir a vida interior autêntica negada pela civilização tecnológica.</p>
<p align="right"><small><strong>Jacques Ellul</strong></small></p>
<p>É precisamente isso que distinguía Ellul de todos os totalitaristas, panteístas e naturalistas daquele tempo: Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que <em>o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade</em>.</p>
<p align="right"><small><strong>Bernard Charbonneau</strong></small></p>
<p>Ellul e Chabornneau insistiam constantemente na necessidade de estabelecerem-se, localmente, pequenos grupos auto-governados que seriam federados entre si. Deveriam funcionar como contra-sociedades, esses grupos exemplares, manifestações concretas da ordem a ser construída. Seu propósito não era derrubar o regime mas servir de evidência, aqui e agora, da <em>revolução instantânea.</em> Gradualmente, de forma contagiosa, essa rede fundada nas bases poderia espalhar-se além das fronteiras nacionais, que estavam fadadas a desaparecer de qualquer maneira.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Patrick Troude-Chastenet,</strong><br />sobre os projetos anárquicos de Jacques Ellul </small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug028.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>10 dias para o fim do mundo</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=10-dias-para-o-fim-do-mundo</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 20 Oct 2010 02:01:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[bacia]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Faltam agora para a eleição de 31 de outubro, ocasião em que ficará decidido se será o fascismo brasileiro ou o nosso comunismo que contribuirá para o agendado fim do mundo em 2012.Vista o seu candidato nA Bacia das Almas. Aqui no Monastério de São Brabo acreditamos que a anarquia é a única forma de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Faltam agora  para a eleição de 31 de outubro, ocasião em que ficará decidido se será o fascismo brasileiro ou o nosso comunismo que contribuirá para o agendado fim do mundo em 2012.<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Vista o seu candidato nA Bacia das Almas.</span> Aqui no Monastério de São Brabo acreditamos que a anarquia é a única forma de governo, e que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/partido-nao-se-toma-3/">a liberdade de expressão termina onde começa a liberdade de pensamento</a>. Em conformidade com essa convicção e com a admoestação profética do Ivan (&#8220;vocês anarquistas precisam se organizar&#8221;) o Monastério está lançando a campanha de conscientização <em>Vista o seu candidato nA Bacia das Almas</em> &#8211; <em>10 dias para o fim do mundo</em>.</p>
<p>(para vestir o Serra agora mesmo, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra">clique aqui</a>. Para vestir a Dilma, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef">clique aqui</a>)</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4106/5098321704_bc62b4079d_b.jpg" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas" /></a>
</p>
<p>O que você pode fazer para participar?</p>
<p><strong>1. Divulgue a campanha</strong> no seu sáite ou blog (o código para os banners está logo abaixo), por email, powerpoint ou qualquer outro meio ainda mais irritante. Como esta é uma guerra justa, vale até mesmo o uso de meios de divulgação moralmente dúbios como o twitter. </p>
<p><strong>2. Imprima, recorte e monte o seu candidato ideológico. </strong>Vale canonizar e demonizar sem medo, visto que pastores, periódicos e blogueiros supostamente isentos fazem a mesma coisa (para vestir o Serra agora mesmo, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra">clique aqui</a>. Para vestir a Dilma, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef">clique aqui</a>).</p>
<p><strong>3. Atormente seus amigos com a sua interpretação</strong> do candidato deles. Demonstre além de qualquer dúvida que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/partido-nao-se-toma-3">nada é mais tendencioso do que uma opinião</a>!</p>
<p><strong>4. Tire uma foto de sua dupla ideológica de candidatos</strong> numa situação engraçada, criativa, impertinente ou ultrajante e mande para o Paulo Brabo no e-mail baciadasalmas@gmail.com até a meia-noite do dia 31. Todos os participantes (e não-participantes!) ganharão, sem sorteio, um país dividido. E algumas das fotos posso resolver mostrar aqui.</p>
<p><strong>5. Divirta-se com seus candidatos sem nutrir a ilusão de estar fazendo qualquer diferença,</strong> precisamente como vai ser quando você votar no dia das eleições!</p>
<h5> * * * </h5>
<p><small>Para divulgar a campanha você pode apontar para a página principal da Bacia:<br />http://www.baciadasalmas.com<br />
Ou para a página da campanha:<br />http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo<br />
Ou diretamente para as páginas dos candidatos:<br />http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra<br />http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef</p>
<p>Segue ainda o código html dos banners para você recortar e colar na barra lateral do seu blogue ou onde quiser no seu sáite:</small></p>
<p><strong>CÓDIGO PARA O BANNER DA CAMPANHA:</strong><br />
<code>&lt;a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo"&gt;&lt;img src="http://web.newsguy.com/carpen/10dias-promo.png" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</code></p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo"><img src="http://web.newsguy.com/carpen/10dias-promo.png" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas" /></a></p>
<p><strong>CÓDIGO PARA O BANNER &#8220;VISTA O SERRA&#8221;:</strong><br />
<code>&lt;a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra"&gt;&lt;img src="http://farm5.static.flickr.com/4017/5097606692_32aa8962e6.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: José Serra"/&gt;&lt;/a&gt;</code></p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4017/5097606692_32aa8962e6.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: José Serra"/></a></p>
<p><strong>CÓDIGO PARA O BANNER &#8220;VISTA A DILMA&#8221;:</strong><br />
<code>&lt;a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef"&gt;&lt;img src="http://farm5.static.flickr.com/4153/5097010531_d34b31954f.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: Dilma Roussef"/&gt;&lt;/a&gt;</code></p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4153/5097010531_d34b31954f.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: Dilma Roussef"/></a></p>
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		<title>Menos</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Oct 2010 03:01:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>

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		<description><![CDATA[O fim da fé na política tem consequências políticas muito graves.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O fim da fé na política tem <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">consequências políticas muito graves</a>.</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/6072252_2942dbb8833be874448669f5c78acae2_standard.jpg" height="460" width="325" /><br />
</a></p>
<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6072252"><img src="http://www.23hq.com/23666/6072252_2942dbb8833be874448669f5c78acae2_mblog.jpg" height="135" width="96" /> </a><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6070163"><img src="http://www.23hq.com/23666/6070163_60d84e84ec122ac514d19471d212355a_mblog.jpg" height="135" width="96" /> </a><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6066840"><img src="http://www.23hq.com/23666/6066840_cd33fc9015d808aaf6c803a88ef6009a_mblog.jpg" height="135" width="96" /></a> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6057956"> <img src="http://www.23hq.com/23666/6057956_e22ab19b6f4533e76cb293a3f1a04854_mblog.jpg" height="135" width="96"></a><br /> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6055513"><img src="http://www.23hq.com/23666/6055513_33588ba8b8f8a9dc747ac17d210d24bf_mblog.jpg" height="135" width="96" /> </a> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6052236"> <img src="http://www.23hq.com/23666/6052236_db64c46c52caa5516a25622be59df6cd_mblog.jpg" height="135" width="96" /> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6050553"> <img src="http://www.23hq.com/23666/6050553_afb4f3c4ac9987cd132b4f8218acc828_mblog.jpg" height="135" width="96" /></a><br />
</a> </p>
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		<title>O direito ao desemprego criador</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2010 04:25:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>

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		<description><![CDATA[A partir daí tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são centros de consumo, enquanto as de nossas avós e bisavós eram centros de produção. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo que a família precisava estava ao alcance das mãos &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A partir daí tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são <em>centros de consumo</em>, enquanto as de nossas avós e bisavós eram <em>centros de produção</em>. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo que a família precisava estava ao alcance das mãos &#8211; de habilidosas mãos &#8211; que não só produziam, mas também consertavam, mantinham e adaptavam a novos usos quando algo se tornava definitivamente irrecuperável.</p>
<p>[...]</p>
<p>Veja bem: tudo que entra em casa gera embalagem e sai na forma de poluição. Nada fica, nada é aproveitado, tudo é jogado fora, como se “fora” existisse. Para tantos que falam de jogar algo fora, deve existir uma mágica no universo, uma vez que “fora” significaria uma espécie de buraco negro onde tudo sumiria, <span style="float:right;text-align:right;width:35%;font-family:georgia, times new roman, serif;font-variant:small-caps;font-size:1.3em;color:#5b211a;line-height:1.3em;margin:20px 0 20px 20px;">Emprego polui.</span>quando de fato o que ocorre é que nosso “fora” significa que algo que não queremos deva ser lançado na cabeça de outra pessoa, de outro sistema ou de outra vizinhança. Transformamos o <em>ciclo da vida</em> em <em>cadeia de geração de lixo</em>. E nos prendemos nessas correntes intermináveis que acabam por nos envenenar corpos e mentes.</p>
<p>Para termos acesso a essa cadeia, buscamos dinheiro, e para obtê-lo nos submetemos a mais emprego. Nos coisificamos – reificamos segundo Marx – viramos peça de engrenagem e para manejar a situação buscamos ter mais e melhores empregos e com isso criamos muita poluição. Além de transformar a cadeia em algemas para a vida toda.</p>
<p>Para empregarmo-nos temos dois carros por família, ou usamos muito transporte de massa. Comemos comida pronta para ganhar tempo, inflamos as praças de alimentação de cada Shopping Center, onde produz-se em média dois contêineres por dia de restos de alimento que irão apodrecer em um aterro sanitário. A cada refeição geramos saquinhos plásticos, colheres plásticas, copos plásticos, facas plásticas e muito papel, energia e barulho que acompanham cada empregado, ou executivo, enquanto usufrui de sua ração diária. Nossos filhos vão a escolas e geram mais engarrafamento e stress, mais transportes, mais lanchinhos, embalagens e mais embalagens. Como a comida deve ser fácil e rápida, snacks entram no lugar de frutas ou pães, e com isso mais embalagens. Máquinas e mais máquinas, roupas compradas em lojas, e tudo que nos auxilia a consumir mais, ter melhor aparência e adequarmos nossa vida ao emprego, polui e acelera o sistema. E como pagamento por nosso esforço, ganhamos dinheiro, para comprar mais, gastar mais e poluir mais.</p>
<p>Emprego polui. E só nos empregamos por que não sabemos fazer outra coisa a não ser gerar dinheiro, para comprar mais e fazer menos. E no meio disso, para obtermos a impressão de descanso, nos entretemos diante de alguma bobagem, para que o consumo nos tenha entre tempos. Nos divertimos, para que nossa mente divirja daquilo que é importante. Saímos em grupos, para não sermos importunados pela família. Ligamos a TV para desligarmos a mente daquilo que nos oprime.</p>
<p>Uma boa medida para combater a extrema poluição que assola nosso planeta seria a busca do <em>direito ao desemprego criador.</em></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif"></p>
<p align="right"><small>O impenitente <strong>Claudio Oliver</strong>,<br />
que não se cansa de me atormentar<br />
e pode ser encontrado <a href="http://naruacomdeus.blogspot.com/">na rua com Deus</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-ansiedade-das-coisas/">A ansiedade das coisas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-capitalismo-como-fascismo/">O capitalismo como fascismo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-ciclo-pendente-das-coisas/">O ciclo pendente das coisas</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Em que o Brabo realmente acredita</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 03:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Há uns dois anos um amigo me indicou um fórum na internet onde um grupo de cristãos evangélicos estava discutindo algum texto meu. Diante de uma controvérsia alguém adiantou-se para me defender, dizendo que não era aquilo que eu tinha dito e sugerindo que não era provavelmente daquela forma que eu pensava. Foi quando alguém [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há uns dois anos um amigo me indicou um fórum na internet onde um grupo de cristãos evangélicos estava discutindo algum texto meu. Diante de uma controvérsia alguém adiantou-se para me defender, dizendo que não era aquilo que eu tinha dito e sugerindo que não era provavelmente daquela forma que eu pensava. Foi quando alguém saiu com esta: &#8220;tá certo, fulano, mas em que o Brabo <em>realmente</em> acredita?&#8221;</p>
<p>Fiquei feliz ao ponto da epifania, balbuciei que não eram carne e sangue que haviam proferido aquela revelação, e concluí que meu ministério na Terra estava concluído: alguém havia entendido que deveria ser impossível determinar minha posição final sobre qualquer assunto a partir de minhas opiniões contraditórias sobre todas as coisas.</p>
<p>Isso porque acredito, naturalmente, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/minha-fe-nao-e-aquilo-em-que-acredito">aquilo em que acreditamos</a> não tem relação alguma com a tarefa de descobrirmos quem somos e avançar em direção ao que devemos fazer.</p>
<p>Não significa que eu não acredite em coisa alguma, porque acredito num número inacreditável de coisas. Como parte dos festejos pelo aniversário de cinco anos da Bacia, quero lançar com este documento uma série de artigos sobre <em>O que o Brabo realmente acredita</em>.</p>
<p><span style="float:left;color:#D4D4C7;font-size:53px;letter-spacing:-4px;line-height:45px;padding-top:2px;padding-bottom:2px;padding-right:15px;font-family:Georgia, times,serif;">EM QUE<br />
O BRABO<br />
<em>REALMENTE</em><br />
ACREDITA?</span>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug039.gif"></p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE A IGREJA, JESUS E A BÍBLIA</strong><br />
A igreja existe, mas raramente com esse nome.<br />
Jesus é honrado, mas raramente com esse nome.<br />
A Bíblia é infalível, especialmente quando indica que não deve ser tomada literalmente.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE FARINHA DE MANDIOCA</strong><br />
Se farinha fosse americana, mandioca importada,<br />
Banquete de bacana era farinhada.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE A POSIÇÃO DA BÍBLIA SOBRE SEXO</strong><br />
Todas as vezes que parece estar legislando sobre sexo a Bíblia está advertindo contra a idolatria. A ganância, que é idolatria, é o pecado sexual por excelência. O capitalismo sem rédeas é a vitória final da luxúria, mas não pelos motivos que se costuma pensar.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE A MORTE</strong><br />
Desta vida tudo se leva.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE ORAÇÃO</strong><br />
A oração é poderosa no que é várias coisas contraditórias; é submissão e é ao mesmo tempo subversão, é introspecção e é ao mesmo tempo assimilação do Outro. A oração é transformadora e transtornadora, mas via de regra &#8211; conforme indicado na Bíblia &#8211; apenas para a pessoa que está orando. A oração de poder não é a que leva o mundo a agir em nosso favor, mas a que nos leva a agir em direção ao mundo.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SER O SEGREDO DO SUCESSO</strong><br />
Se não puder ser o melhor, seja o mais caro.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE CASAMENTO GAY</strong><br />
Sou totalmente a favor do casamento de homossexuais e lésbicas, desde que não seja o casamento de um homossexual com uma lésbica &#8211; eles acabariam não fazendo sexo, e sua relação ficaria (por essa razão) indistinguível de um casamento convencional.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE O BRASIL</strong><br />
Somos um gigante adormecido. O restante do planeta é composto por gigantes acordados e anões muito espertos. O Brasil é melhor do que todos os demais, mas é também o menos preparado para competir com eles. Já que somos os mais fracos, vamos brincar assim: vocês não sabem brincar.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE O CAPITALISMO</strong><br />
O capitalismo é, no sentido mais cru e literal e bíblico da coisa, o anti-Cristo.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE FUMO</strong><br />
Fumo.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE BEBIDA</strong><br />
Bebida.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE POLÍTICA</strong><br />
O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. O poder absoluto bem divididinho já faz um bom estrago.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE CONTRACEPÇÃO</strong><br />
Uso camisinha, bermudinha, cuequinha e chinelinho.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE PECADO</strong><br />
Ninguém pecou com mais graça do que Paul Tournier em <em>Culpa e Graça</em>, quando cometeu a indiscrição de revelar que o pecado &#8211; o único pecado, o pecado por excelência &#8211; é não chegarmos a ser nós mesmos.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE USAR EMAIL PARA ENCAMINHAR ARQUIVOS DO POWERPOINT</strong><br />
Instruí meu filtro de email para livrar-se automaticamente de todas as mensagens que tem anexos com as extensões .ppt e .pps., porque os arquivos do PowerPoint são no fundo uma forma perversa e trapaceira de vírus na qual que você é o vetor.<br />
Além de multiplicarem-se como a peste, mostram ao invés de contéudo fotos de gatinhos e pores do sol com mensagens pseudo-edificantes, embaladas ao som obsceno de música de elevador; estão num formato do qual é difícil extrair informação; tudo que mostram pode ser encontrado em maior qualidade e quantidade com a mais desleixada busca na internet; são arquivos maiores do que qualquer vírus e por isso entompem as veias da rede e abarrotam as caixas de entrada com muito mais facilidade.<br />
Vá e não encaminhes mais.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE PRECONCEITO</strong><br />
Diga-me com que não andas e direi de quem te consideras superior.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE OS TRIBALISTAS</strong><br />
Os tribalistas já não querem ter razão. Não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião. Os tribalistas já não entram em questão; não entram em doutrina, em fofoca ou discussão. Seu lema é: pé em Deus e fé na taba.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE ANARQUIA</strong><br />
A anarquia é a única forma de governo.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE PREDESTINAÇÃO</strong><br />
O calvinismo é um devaneio categórico, mas acredito numa forma narrativa de predestinação, que é também uma forma terrível de liberdade. Todos, evidentemente, estão predestinados tanto à perdição quanto à glória. Só as narrativas são livres, mas todos conhecem a perdição; todos veem a glória.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE OS ATEUS</strong><br />
Acredito.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE ECOLOGIA</strong><br />
Somos kamikazes confortáveis, não da nossa própria vida, mas da vida dos outros. Com o mesmo rigor e lúcida intensidade com que hoje condenamos os que pela sua omissão não impediram o Holocausto, os habitantes do futuro nos condenarão por não termos feito alguma coisa para impedir o desmatamento, o calar das fontes, os crimes silentes contra a biodiversidade e demais pecados contra o ambiente.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE O TWITTER</strong><br />
Púats.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE O FUTURO DO CRISTIANISMO</strong><br />
Há uma cruz no fim do túnel.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE ORTODOXIA</strong><br />
Acredito que já escrevi sobre isso.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE ESTAR SEMPRE CERTO</strong><br />
Não desejo pra ninguém.</p>
<p><i>O que o Brabo realmente acredita</i><br />
<strong>SOBRE A BACIA</strong><br />
Aqui discutimos coisas que têm o enorme mérito de interessar apenas a nós mesmos.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Se você quer conhecer a precária posição do Brabo sobre outro assunto controverso ou insignificante, use o <a href="http://www.baciadasalmas.com/contato">formulário de contato</a> da Bacia e pergunte <em>&#8220;O que o Brabo realmente acredita sobre ______________?&#8221;</em> Não prometo responder todas as perguntas, mas prometo ficar indignado diante de cada uma.</p>
<p>E aproveite para perguntar, porque só penso assim agora; fatalmente amanhã terei mudado de idéia.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug038.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/servidor">Servidor</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/em-que-o-brabo-realmente-realmente-acredita">Em que o Brabo realmente <em>realmente</em> acredita</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Apartai-vos de mim</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Oct 2008 11:31:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais um espetáculo eleitoral requer dez minutos da minha paciência e, para completar, meu pai (que certamente o é) me encaminha um e-mail de um sujeito que confessa incessantemente ser &#8220;reacionário&#8221; &#8211; porque, exige ele, não gosta dos sem-terra nem de outros &#8220;sem&#8221;; não gosta dos congressistas que aprovam a demarcação de áreas indígenas; não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais um espetáculo eleitoral requer dez minutos da minha paciência e, para completar, meu pai (que certamente o é) me encaminha um e-mail de um sujeito que confessa incessantemente ser &#8220;reacionário&#8221; &#8211; porque, exige ele, não gosta dos sem-terra nem de outros &#8220;sem&#8221;; não gosta dos congressistas que aprovam a demarcação de áreas indígenas; não gosta de índios que querem deter a construção de usinas hidrelétricas; não gosta da intervenção de esquerdistas estrangeiros nos negócios nacionais; não gosta de governantes semi-analfabetos; não gosta da distribuição de bolsas-família, vale-gás e outros bônus semelhantes.</p>
<p>O que posso dizer em favor do autor desse texto é que seu diagnóstico está correto: ele é de fato reacionário, e escreve como um. Eu gostaria de poder discutir com você, anônimo autor dessa reflexão, mas quando o máximo que você tem a dizer contra determinada postura é este rasíssimo &#8220;não gosto&#8221;, devo tomá-lo como criança e tratá-lo como tal. Eu, de minha parte, não gosto de peixe nem de reacionários, mas não vejo mal no livre consumo de um ou de outros. Conversaremos quando você tiver algo a dizer.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>O que temem os reacionários, evidentemente, é que o mundo seja finalmente engolido pelo comunismo.</p>
<p>Ai de nós! Embora eu simpatize de coração com os ideais do socialismo, considero-me lúcido o suficiente para ter me tornado finalmente anarquista &#8211; entendido como alguém que não espera absolutamente nada de bom de qualquer iniciativa institucional. O governo, senhoras e senhores, é uma ilusão &#8211; só estamos aqui eu e você, e cada dilema moral e cada embaraço social cabe a nós dois resolver.</p>
<p>O que governos muito suavemente esquerdistas (como o nosso) tentam fazer é suavizar de modo artificial (isto é, instititucional) as brutais diferenças de distribuição de renda geradas pelo capitalismo tecnológico nu &#8211; diferenças que acabam patrocinando todas as formas de marginalidade, tráfico e exclusão. </p>
<p>Por um lado, não vejo como condenar o governo por estar empreendendo algo que deveríamos nós mesmos estar fazendo (e condená-lo por isso é a missão de vida dos reacionários); por outro, não nutro qualquer ilusão de que uma iniciativa institucional possa ser bem-sucedida nessa tarefa. Se eu, Brabo, não fizer (se você, possivelmente reacionário leitor, não fizer), absolutamente nada  será feito. Disso não tenha dúvida.</p>
<p>Afinal de contas, muitos dirão naquele dia: &#8220;&#8216;Vossa excelência, Vossa excelência, não fizemos justiça em nome dos impostos que te pagamos? Em teu nome  não expulsamos o demônio da fome? Em teu nome não fizemos muitos milagres sociais?&#8217; Então ele lhes dirá claramente: &#8216;Nunca vos conheci, e certamente não vos convidaria para um coquetel; apartai-vos de mim, vós que acreditastes no sistema&#8217;&#8221;.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Estou condenado a repetir Tolkien:</p>
<blockquote><p>A tarefa mais imprópria para qualquer homem, até mesmo para santos (que seriam de qualquer forma os menos dispostos a assumi-la) é mandar em outros homens. Nem mesmo um em um milhão está capacitado para ela, e os que menos são são os que buscam a oportunidade.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Contra a democracia</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2006/contra-a-democracia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=contra-a-democracia</link>
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		<pubDate>Tue, 18 Apr 2006 03:57:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[lovecraft]]></category>

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		<description><![CDATA[A idéia de que pessoas destreinadas possam com algum grau de acerto compreender a menor coisa que seja sobre a prática da administração civil da máquina de uma civilização economicamente complexa, que envolve os mais intricados problemas de engenharia, é tão grotesca e absurda que apenas o costume cego baseado na tradicional e inefável estupidez [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A idéia de que pessoas destreinadas possam com algum grau de acerto compreender a menor coisa que seja sobre a prática da administração civil da máquina de uma civilização economicamente complexa, que envolve os mais intricados problemas de engenharia, é tão grotesca e absurda que apenas o costume cego baseado na tradicional e inefável estupidez do grupo pode levar, concebivelmente, um adulto sóbrio a abraçá-la seriamente neste nosso desiludido ano de 1932.</p>
<p>A democracia &#8211; como distinta de oportunidade e bom tratamento universais &#8211; é hoje uma falácia e uma impossibilidade tão grandes que qualquer tentativa séria de aplicá-la não deve ser considerada como outra coisa que não gracejo e pilhéria. </p>
<p>Em tempos mais primitivos o cidadão médio era mais ou menos capaz de compreender a natureza dos problemas governamentais ao redor de si &#8211; compreender, quer dizer, quais medidas imediatas trariam a longo prazo a realização dos seus desejos, e quais passos práticos seriam, através de uma cadeia relativamente simples de causa e efeito, capazes de garantir a adoção bem-sucedida e a manutenção dessas medidas.</p>
<p>No complexo mundo contemporâneo nenhuma compreensão semelhante é possível. Debaixo do altamente tecnicalizado governo que qualquer grande nação industrial deve ter, o cidadão moderadamente informado e inteligente não possui mais do que uma debilíssima idéia do que representam os mais simples princípios políticos, ao mesmo tempo em que não tem a mais remota chance de apreender o que for dos mais avançados e intrincados problemas de política e administração. </p>
<p>Isso se aplica, além disso, não apenas ao homem simples e não-instruído, mas a todos os leigos e profissionais liberais, quer sejam lavradores ou professores de sânscrito, varredores de rua ou escultores. Que uma pessoa assim mal-informada lance votos que determinem medidas nacionais, ou mesmo imaginar-se que possa conceber o que representa a maior parte dessas medidas, é objeto de incontrolável riso cósmico. Que tais pessoas possam ser eligíveis a cargo administrativo é noção que levaria Tsathoggua e Yog-Shothoth a partirem-se em incontrolável hilaridade.</p>
<p>O governo &#8220;pelo voto popular&#8221; quer dizer apenas a nomeação de homens dubiamente qualificados por dubiamente autorizadas e raramente competentes agremiações de políticos profissionais que representam interesses ocultos, seguida por uma insolente farsa de persuasão emocional na qual os oradores com as línguas mais falastronas e as frases de efeito mais baratas arrebanham para o seu lado uma maioria numérica de tolos e simplórios cegamente impressionáveis que não tem em sua maioria a mínima idéia do que representa o circo todo.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug053.gif" alt="" width="120" height="112" /></p>
<p align="right"><small><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/post-mortem">H. P. Lovecraft</a>, em carta de 7 de novembro de 1932 a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_E._Howard">Robert E. Howard</a></small></p>
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		<title>Meros consumidores</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Aug 2005 09:22:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Creio que a presente crise tem as suas raízes num grande experimento duplo que fracassou, e afirmo que a resolução da crise começa com o reconhecimento do fracasso. Por cem anos temos tentado fazer com que as máquinas trabalhem para o homem, e tentado ensinar os homens a uma vida a serviço delas. Acontece que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Creio que a presente crise tem as suas raízes num grande experimento duplo que fracassou, e afirmo que a resolução da crise começa com o reconhecimento do fracasso. Por cem anos temos tentado fazer com  que as máquinas trabalhem para o homem, e tentado ensinar os homens a uma vida a serviço delas. Acontece que as máquinas não &#8220;trabalham&#8221;, e as pessoas não podem ser ensinadas a uma vida a serviço das máquinas. A hipótese na qual a experiência foi baseada deve agora ser descartada. A hipótese era que as máquinas podem substituir os escravos. A evidência mostra que, usadas com esse propósito, as máquinas escravizam os homens.</p>
<p>[...]</p>
<p>Nos países ricos, os prisioneiros tem com freqüência acesso a mais coisas e serviços do que os membros de suas famílias, mas não tem direito a opinar sobre como as coisas são feitas e não podem decidir o que fazer com elas. Sua punição consiste em serem privados do que chamo de &#8220;convivência&#8221;. São reduzidos ao status de meros consumidores.</p>
<p>Escolho o termo convivência para designar o oposto da produtividade industrial. Quero designar com o termo uma relação autônoma e criativa entre pessoas, e a relação de pessoas com seu meio-ambiente; e isso em contraste com a resposta condicionada de pessoas às exigências feitas sobre elas por outros, e por um meio-ambiente criado pelo homem. Considero a convivência como sendo a liberdade individual colocada em efeito na interdependência pessoal e, como tal, um valor ético intrínseco. Creio que, em qualquer sociedade, quando a convivência é reduzida abaixo de determinado nível, não há acréscimo de produtividade industrial que possa efetivamente satisfazer as necessidades que gera entre os membros da sociedade.</p>
<p align="right"><small><strong>Ivan Illich</strong>, em <em>Ferramentas de Convivência</em></small></p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=562">Vítimas do século XX</a><br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=211">A integridade das coisas</a></p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug058.gif" alt="" width="99" height="121" /></p>
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		<title>Problema seu</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jun 2005 09:29:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Conta meu pai que o padre velho disse ao padre novo: Não pense. Se pensar, não fale. Se falar, não escreva. Se escrever, não assine. Se assinar, se vire que daí o problema não é meu.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Conta meu pai que o padre velho disse ao padre novo:</p>
<blockquote><p>Não pense.<br />
Se pensar, não fale.<br />
Se falar, não escreva.<br />
Se escrever, não assine.<br />
Se assinar, se vire que daí o problema não é meu.</p></blockquote>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug002.gif" alt="" width="30" height="34" /></p>
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		<title>Ameaça</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2005 09:11:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[ellul]]></category>

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		<description><![CDATA[Bernard Charbonneau, comparsa de Jacques Ellul no sensatíssimo movimento anárquico-cristão que agitou a Europa no início do século XX, desconfiava como Tolkien dos efeitos da tecnologia sobre a produção, o meio ambiente e a sociedade. Porém, exatamente como Tolkien, Charbonneau e Ellul não eram ingênuos de acreditar que a principal afronta do progresso tecnológico era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bernard Charbonneau, comparsa de <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=388">Jacques Ellul</a> no sensatíssimo movimento <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=395#comment-2383">anárquico-cristão</a> que agitou a Europa no início do século XX, desconfiava <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=211">como Tolkien</a> dos efeitos da tecnologia sobre a produção, o meio ambiente e a <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=178">sociedade</a>.</p>
<p>Porém, exatamente como Tolkien, Charbonneau e Ellul não eram ingênuos de acreditar que a principal afronta do progresso tecnológico era contra a paisagem.</p>
<blockquote><p>&#8220;É precisamente isso que distinguía Ellul de todos os totalitaristas, panteístas e naturalistas daquele tempo&#8221;, diz Charbonneau. &#8220;Minha ideia &#8211; embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas &#8211; é que <em>o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade&#8221;.</em></p></blockquote>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug006.gif" alt="" width="39" height="62" /></p>
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		<title>Boa lembrança</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Apr 2005 09:33:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>

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		<description><![CDATA[O que me faz lembrar o que o Ivan me disse outro dia: &#8211; Vocês anarquistas precisam se organizar!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que me faz lembrar o que o Ivan me disse outro dia:</p>
<p>&#8211; Vocês anarquistas precisam se organizar!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tolkien, o São</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2004 09:48:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>

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		<description><![CDATA[J. R. R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis, era um cara são. Politicamente, por exemplo, ele ia adiante das tendências simplistas, já dominantes no seu tempo, que viam no comunismo a destilação definitiva do mal e a democracia como o último bastião da virtude. Ele na verdade desconfiava tanto de um quanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>J. R. R. Tolkien, autor da trilogia <em>O Senhor dos Anéis</em>, era um cara são.</p>
<p>Politicamente, por exemplo, ele ia adiante das tendências simplistas, já dominantes no seu tempo, que viam no comunismo a destilação definitiva do mal e a democracia como o último bastião da virtude. Ele na verdade desconfiava tanto de um quanto de outro.</p>
<p>Sobre a democracia ele pronunciava lucidezas como:</p>
<p>
<blockquote>
<p>Não sou democrata &#8211; apenas porque a &#8220;humildade&#8221; e a igualdade são princípios espirituais corrompidos pela tentativa de se mecanizá-los e formalizá-los, e como resultado o que temos não é singeleza e humildade universais, mas universais grandeza e orgulho, até que algum Orc resolva se apossar de um Anel do Poder e sejamos então, como estamos sendo, escravizados.</p>
<p></p></blockquote>
<p>Tolkien nunca se posicionou a favor de nenhum dos partidos da sua Inglaterra nativa. Privadamente, ele confessou numa carta a seu filho Christopher:</p>
<p>
<blockquote>
<p>Minhas opiniões políticas tendem cada vez mais para a anarquia (compreendida filosoficamente, significando abolição de controle, e não homens barbudos armados de bombas) &#8211; ou talvez a uma monarquia aconstitucional. Eu gostaria de poder prender qualquer pessoa que usasse a palavra &#8220;Estado&#8221; (em qualquer sentido que não para referir-se ao domínio inanimado do solo da Inglaterra e seus habitantes, algo que não tem nem poder, nem direitos nem mente); depois de uma chance de retratação, eu os executaria sumariamente se permanecessem na sua obsessão.</p>
<p></p></blockquote>
<p>É evidente que um dos principais eixos dramáticos de <em>O Senhor dos Anéis</em> é político: a noção de que o poder &#8211; qualquer poder &#8211; corrompe. Mesmo simples hobbits e elfos puros de coração não estão a salvo do brilho corruptor do poder do Anel.</p>
<p>Tolkien, o São, desprezava o socialismo, a democracia, o capitalismo, o fascismo, o totalitarismo e na verdade de qualquer controle institucional: qualquer Estado, por mais bem intencionado que fosse. Era um sujeito que celebrava as virtudes da vida simples (leia-se o Condado), tinha severa antipatia por <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=211">máquinas ou pela vida mecanizada</a>, e esperava que sua arte pudesse refletir ou antever uma transformação maior na alma do mundo.</p>
<p>Tolkien, o São, aguardava o Retorno do Rei, mas não ousava imaginar que alguém deveria ou teria como, nesse hiato, ousar usurpar o lugar.</p>
<p>Anarquistas, eu e ele, graças a Deus.</p>
<p><i><em></i><i></em></i><i><em></i><i></em></i><i><em></i></em>_</p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=126">As variedades da experiência capitalista</a></p>
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