06 de Novembro de 2006

Em louvor dos pecadores

Fé e Crença

Em grande parte, depois de conviver por décadas com gente santa, só fui conhecer Jesus pessoalmente através dos pecadores.

Não fui encontrá-lo na igreja, onde insistíamos que ele morava e onde falávamos metade do tempo sobre ele. Na igreja encontrei meus amigos mais bem-intencionados, muito deles assustadoramente queridos e carentes, mas oprimidos como eu debaixo de um sistema fundamentado em medo e desejo. Por mais que eu simpatizasse com o calor da instituição e com o mérito das boas intenções, nada eu testemunhava ou vivia da satisfação inerente, a generosidade, a paixão e a terrível liberdade que os evangelhos atribuíam ao Filho do Homem. Cantávamos, chorávamos e nos abraçávamos debaixo do mesmo teto piedoso, mas ali não estava o espírito de Jesus.

Não encontrei-o nem me afastei dele na Federal, onde meus mentores evangélicos tinham alertado que eu encontraria amigos irresistivelmente devassos e correria o risco incessante de idéias sediciosas, construídos os dois para abalar minhas convicções. As idéias eram ralinhas e as companhias inofensivas, a grande maioria tão ou mais careta, casta e ultraconservadora quanto eu. Havia algum coleguismo e bons parceiros de truco, mas também não pouca competividade, intolerância e altivez (talvez tanto quanto na igreja), e o espírito de Jesus não estava ali.

Mas Deus teve misericórdia de mim, este santo, e permitiu que eu convivesse de perto com pecadores. Isso, em inúmeros sentidos importantes da palavra, me salvou.

Como eu suspeitava, os pecadores não se entregam como nós na igreja a pecados mesquinhos como a hipocrisia, a mentira e o orgulho; abrem eles mão desses amadorismos e tratam da coisa em si, da sem-vergonhice mais vital, sensorial e carnal – sexo, drogas e rock’n’roll.

Finalmente estava eu no mesmo recinto que pecadores de verdade, gente indecorosa, sensual e auto-indulgente; drogados, homossexuais, bêbados, libertinos, prostitutas, poetas; safados, depravados, corruptos, lascivos. Habituei-me ao doce perfume da maconha, visitei os mais variados mocós, vi carreiras de cocaína se armarem e desaparecerem; sentei-me ouvindo Janis Joplin numa sala que eu visitava pela primeira vez, olhando para um homem dormindo onde acabara de cair, enquanto um casal transava e curtia drogas no quarto ao lado e outros faziam churrasco lá atrás. Comprei camisinhas que não eram para mim. Ajudei a pagar um tolete quando o dinheiro faltou. Visitei bares gays porque estavam na moda e meus amigos sabiam por isso que lá seria mais fácil descolar uma pedra de fumo ou, paradoxalmente, uma garota.

É natural que fora uma cervejinha ou outra me mantive sóbrio e casto durante todo esse período – não que, naturalmente, fizesse diferença. Mantive-me um santo – um carola, amado ternamente por eles apesar disso – entre pecadores. Eu me sabia mais ou menos resistente às seduções da carne e talvez estivesse ainda sustentando a ilusão de que poderia “fazer diferença” no meio daquela pobre gente. Talvez estivesse procurando mais um motivo extravagante para me orgulhar, de ser capaz de manter minha integridade à prova de balas mesmo convivendo com os mais baixos e corrompidos. A esta altura, não sei dizer o que esperava.

Mas sei dizer o que não esperava: não esperava encontrar entre os pecadores, e pela primeira vez na vida, a terna experiência do espírito de Jesus.

Não em mim. Neles.

Posso garantir que até aquele momento eu só conhecia a postura de Jesus e dos primeiros cristãos de ouvir falar. Os evangelhos atribuem ao Filho do Homem tremendas paixão, vitalidade, generosidade e independência; o livro de Atos e as cartas falam de cristãos que “tinham tudo em comum” e “eram de um só coração”. Em seus momentos mais idealistas Jesus fala em amar os inimigos, dar a outra face, emprestar sem esperar receber de volta, oferecer um banquete a quem não tem como retribuir. Paulo descreve um mundo sem preconceito de sexo, raça ou classe social. João garante que Deus é amor, e que o amor abre mão de qualquer traço de temor.

Paradoxalmente, este mundo definido em termos positivos poucos cristãos chegam em qualquer medida a experimentar. Escolhemos nos definir não por essas qualidades afirmativas – aquilo que o Apóstolo chama de “fruto do Espírito” – mas pelo que é negativo e paralisante e opressor contra os outros e nós mesmos: a culpa, a mesquinhez, a repressão, a neurose, a negação, o niilismo. O mundo em que todos se aceitam e se amam, embora faça parte da nossa pregação nominal, nos é aterrorizante por natureza. Tudo na nossa postura batalha contra ele. A “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” não nos interessa. Alguém me dê depressa um líder carismático e um rol muito claro de mandamentos – é só o que pedimos.

Entre os pecadores encontrei um universo livre da superficialidade de igreja e da irrelevância burguesa da faculdade. Aqui estava um mundo que escolhia se definir, na prática e não a partir de qualquer discurso ou demagogia, pela aceitação e pelo amor. Aqui estava gente que tinha tudo em comum, até mesmo – onde está, Mamom, a tua vitória? – o dinheiro. Gente que ignorava rótulos de classe, sexo e conta bancária para se tratar como gente no sentido mais fundamental da coisa. Gente que se recusava a ser manipulada pelo desejo e pelo temor, e fazia isso entregando-se a um e mandando às favas o outro.

A comunhão que experimentam, descobri, não tem limites; sua generosidade, que não espera recompensa que não o instante, não tem paralelo. Os pecadores abrem suas portas uns para os outros a qualquer momento do dia ou da noite; repartem sua droga, seu dinheiro, sua casa e seu pão sem qualquer trâmite ou transação, seja com um irmão importuno ou com o desconhecido em que acabam de tropeçar. Emprestam, terrivelmente, sem esperar receber de volta. Carregam quem precisam ser carregado, descolam um trampo para quem precisa, tiram a camisa para quem vomitou na roupa, emprestam a chave do carro para quem não tem onde fumar, providenciam o apartamento de alguém na praia para o que foi expulso de casa, repartem sem chiar ou cobrem o tanque de gasolina. Trabalham tanto para os outros quanto para si, acolhem com graça incondicional; são compassivos até para com os que não os toleram, longânimos com os que todos já decidiram ser melhor rejeitar. Convivem sem traumas com a consciência, apavorante para nós, de que não são melhores do que ninguém.

Entre os pecadores não transita apenas a legitimidade de quem recusa-se a ter o que esconder: rola, senhoras e senhores, um amor – e tão forte que lança fora todo o medo. São gente boa no sentido afirmativo da coisa. Gente sensualista, mas raras vezes desonesta. Auto-indulgente, mas sempre generosa. Pecadora, mas não proselitista. Matam-se, mas o que fazem pelos outros é só resgatar. Morrem, mas abraçados.

Não é difícil entender porque Jesus curtia tanto a companhia dos pecadores e não escondia seu orgulho em associar-se a eles. A integridade existe e a verdadeira comunhão não é uma impossibilidade: os pecadores legítimos não as desconhecem. Louvados sejam nas alturas os grandes pecadores, porque uma porção fundamental de Jesus sobrevive na Terra apenas através deles.

Arrependo-me, naturalmente, de não ter pecado tanto quanto devia com meus amigos pecadores. Eu, que não consigo viver nem de longe tão perto da inteireza de Jesus quanto eles, deveria ter lhes dado pelo menos essa satisfação.

* * *

Leia também:
O fariseu e o cobrador de impostos

31 de Outubro de 2006

Deus

Fé e Crença

Deus é amizade.

Elredo de Rievaulx (1110-1167)

23 de Setembro de 2005

Simple face

Gírias e Falares, The Net

Há um ano, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, escrevi que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão “cara simples” de forma muito singela e sensata – simple face.

Lembro que alguns dias depois, no messenger, ele mencionou o quanto havia gostado de ser chamado de simple face, e perguntou exatamente o que a expressão queria dizer. Respirei fundo e escrevi (em inglês) que cara simples é uma pessoa legal, um sujeito despretensioso, um indivíduo acessível. Ele logo pediu que eu parasse, dizendo que simple face explicava melhor o que eu estava querendo dizer.

Desde então o Julian adotou a expressão e volta com freqüência a ela. “Fulano”, ele diz de algum amigo seu, “is a simple face.” Quando falou-me sobre o artista Dan Zanes, com quem esteve na semana passada em Nova Iorque, Julian descreveu-o apenas como “very simple faced” – como se isso explicasse tudo, e talvez explique.

Outra coisa importante que aconteceu ao Julian na semana passada foi que ele teve a oportunidade de pegar nas mãos seus primeiros cordéis de verdade – da coleção pessoal do badaladíssimo quadrinista Art Spiegelman, que ele estava visitando. Meu amigo descreveu os livrinhos com três adjetivos muito bem escolhidos: tiny, greasy, cheap paper – minúsculos, ensebados, papel barato.

Era por causa daqueles livrinhos ensebados e seus improváveis artesãos, ele deve ter se forçado a refletir, que ele estava pronto para atravessar o Atlântico. Ele estava em Nova Iorque, mas já experimentava de antemão que os cordéis são, eles mesmos, very simple faced.

Naturalmente, foi isso que o atraiu neles.

E talvez em mim, mas isso ele só vai ter certeza quando me conhecer.

FALTA 1 DIA PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

13 de Maio de 2005

The Book of Love 2

The Net

Meu pai trouxe hoje do correio uma caixa que chegou para mim da Alemanha com o livro Os Desenhos de Polichinelo, do pintor do rococó italiano Domenico Tiepolo. O livro, indescritivelmente belo, intrigante e bem produzido, foi presente do Julian.

Nossa amizade foi desde o início pontuada por misteriosos polichinelos, por isso o presente tem um significado ainda mais pungente.

“Happy birthday”, disse-me hoje o Julian no messenger.

Ah, amigão, you can read me anything – specially this.

07 de Março de 2005

O rosto do amigo

Pormenor

O Paulo Henrique, meu amigão de Redimido pela amizade, e a esposa Ana Lúcia, em fotos que tirei na minha visita de fevereiro.

Os filhos, Thiago (2 anos) e Leonardo (4), parando por uma fração de segundo de pular freneticamente nas camas elásticas do shopping, só para posar para a foto.

A família reunida no parque Vitória Régia, onde fomos dar biscoito para os peixinhos.


(fotos postadas com permissão;)

Apesar do assombroso calor (do qual eu não me lembrava mais), meu reencontro com o Paulo em Bauru teve o ar tranqüilo, reparador e incrivelmente alto-astral de um último capítulo de novela. A Ana e as crianças formam com o Paulo Henrique um bonito círculo que abriu-se de bom grado para me abrigar durante dois dias muito compensadores. Fui tratado muito melhor do que merecia (mas agradeço) e muito melhor do que posso retribuir (mas quero).

Preciso mencionar o frango, as corridas com a Belinha, a Supertiro, o Bauru original que comi pela primeira vez (com rosbife e picles e tomate e orégano e queijo derretido na água), as espadas, o Leo me mostrando todas as salas da escola, os passeios de carro por lugares que eu não reconhecia mais, a capoeira, as conversas à mesa, a mesa, a Lu, os desenhos que todos fizeram, o Paulo cantando para os meninos dormirem e a Ana Lúcia cantando para o Leo na minha janela, os tiros na formiga da Lindinha e os incontáveis prédios que construímos e destruímos.

Mais significativo do que tudo que fizemos, eu e o Paulo, foi estarmos juntos, saboreando a bondade do destino em nos permitir repartir novamente a mesma sala e reiterar as mesmas lealdades.

O rosto do meu amigo, ostentando ainda o meio-sorriso metade-malandro/metade-otimista de que me lembro dAqueles Dias, mudou muito pouco em mais de vinte anos. Só posso também agradecer, porque depois de tanto tempo o menino de ontem e o amigo de hoje (diferentes mas estranhamente o mesmo) dão-me ainda motivo para sorrir e esperar com otimismo.

Combinado, amigo velho. Da próxima vez, ostras.