Que o velho já não me interessa.
Foi Jean Delumeau, cuja História do medo no Ocidente voltei a percorrer descalço todas as manhãs, quem me chamou a atenção para o fato de que o temor da novidade e a glorificação do passado são motivo de todo o tipo de conflito contraditório no estreitíssimo (mas perene) fio do presente.
Quem administra o passado pode nos manejar como bem lhe parece, porque a humanidade não tem olhos para o futuro. Um menino caminha e caminhando chega a um muro, mas é só ali – só até aqui – que conseguimos chegar. Mesmo quando procura acenar com a promessa retórica de um futuro melhor, o estadista usa como moeda as memórias de uma longínqua e idealizada idade do ouro ou, como alavanca, os desafios deixados pela utopia de um profeta que já morreu. Ele precisa se alicerçar em seduções do passado, porque gente de carne é incapaz de desejar, verdadeiramente desejar, o futuro.
Em consequência, grande parte dos movimentos que acabamos classificando como revolucionários não fundamentam o seu discurso na construção de um futuro previamente inconcebível, mas num esforço declarado de recuperação do passado (ou de um ideal do passado) – que se toma por mais admirável e digno de perpetuação do que a condição presente. Os revolucionários, hereges e insurgentes enxergam-se, regra geral, como a sagrada elite dos verdadeiros conservadores.
Foi esse, muito evidentemente, o caso com os proponentes da Reforma Protestante, que exigiam um retorno à pureza original (isto é, pertencente ao passado) do evangelho e rejeitavam todas as inovações introduzidas ou toleradas pela igreja medieval: o culto dos santos, as indulgências, a missa em latim, as imagens, os votos monásticos a confissão obrigatória. Foi assim, paradoxalmente, com a Contra-Reforma, movimento católico que se inflamou em várias frentes contra o que era visto como as novidades introduzidas pelos protestantes, e tomava como inadmissível que os reformadores rejeitassem o formidável monumento de séculos e séculos de um sistema eclesiástico universal. Embora discordassem espetacularmente sobre a natureza ideal do presente, os discursos de um e de outro – defensores da Reforma e da Contra-Reforma – estavam alicerçados na preservação de ideais e valores do passado. Discordavam apenas quanto a por qual passado valia à pena lutar, morrer e matar.
Qualquer um que se levanta contra os sistemas do mundo, portanto, se vê inevitavelmente sujeito à mais mesquinha e incontornável das denúncias: “então você está certo e mil (ou dois mil, ou cem) anos de tradição estão erradas?” Não apenas qualquer avanço se vê impedido por essa intransigência, mas o próprio espaço do presente se vê inteiramente tomado por diferentes facções definidas por sua lealdade a determinada fatia do passado – facções que estarão prontas a levantar cercas e espadas para proteger a honra e a supremacia dessa sua distância da inovação.
Em nenhum caso esse cativeiro voluntário com o passado é mais paradoxal do que na postura do cristianismo institucional, que manifesta lealdade nominal a um movimento que em sua forma original representava um compromisso inegociável, sem precedentes e sem sucessores, com a inovação.
Que se devassem os arquivos de todas as religiões, revoluções e ideais já abraçados pela humanidade. Afirmo sem o temor da hipérbole que nenhum, mais do que o inquieto movimento delineado no Novo Testamento, propôs o novo, fez do novo sua bandeira, postulou o novo e resolutamente o requereu. Ideologias como o marxismo, o satanismo e o anarquismo parecerão cautelosos e conservadores quando comparados ao rigor iconoclasta e obsessivamente inclusivo do cristianismo das primeiras gerações.
A doutrina do reino de Deus pleiteia um homem irretocavelmente renovado e, consequentemente, outorga a promessa de um mundo inconcebível de tão novo. Na esteira da sua implantação, seus proponentes trabalharam sistematicamente para derrubar, diante dos outros e de si mesmos, as barreiras ancestrais de sexo, nacionalidade, classe social e ideologia que haviam delimitado as fronteiras da ordem e da civilização – e nada sugere que esperassem que essa onda revolucionária de inclusividade pudesse ser contida com a última página do Novo Testamento.
Nenhuma dessas posturas representava meias-medidas; encarnavam inovações no sentido mais revolucionário e controverso da coisa, e requeriam a dissolução sistemática do próprio tecido da cultura, da economia e da sociedade. O reino de Deus anuncia o fim do mundo porque sua implantação ab-roga o castelo de cartas que teimamos chamar de civilização.
A inclusão e a indiferenciação demandada pela doutrina graça, em particular, soa para ouvidos humanos como um perigoso flerte com o próprio caos, uma entrega inadmissível ao mais rigoroso terror. Você já parou para ponderar como seria, para além da retórica, um mundo em que não houvesse de fato “judeu nem grego, empregado nem empregador, homem nem mulher”?
De modo algum: nosso amor à ordem e à tradição recusam-se resolutamente a acompanhar essas sugestões até suas necessárias consequências. Não é à toa que os cristãos das gerações posteriores tenham se desviado deliberadamente desse projeto, porque nós mesmos recuamos em horror diante dele.
O paradoxo está em que, enquanto pretendemos ou fingimos voltar continuamente (e com maior fidelidade do que qualquer facção concorrente) ao Novo Testamento, o Novo Testamento propõe-nos incessantemente que avancemos para além dele. Em sua inclusividade, em sua intransigência, em seu anti-imperialismo, em sua visão comunitária, em sua generosidade e sua gentileza, o movimento do reino encarna esse ideal ativamente comprometido com o incondicionado, o não-previsto, o sem precedentes.
Esse compromisso com uma onda sem volta de inovação foi, na verdade, articulado em atos pelas testemunhas e em palavras por todos os proponentes do reino. “As coisas velhas já passaram”, decreta o Apóstolo, e celebra ao mesmo tempo a recém-instaurada vertigem: “tudo agora se fez novo”. O livro de Apocalipse descreve a dissolução sistemática (e, em última instância, absolutamente revolucionária) de todas as estruturas de intimidação e de dominação jamais empunhadas pela humanidade, e conclui sua ascensão rumo a uma impoluta glória com a mais desconcertante e embaraçosa auto-definição da divindade: “Eis que faço novas todas as coisas”.
Um Deus comprometido com a novidade, e não com a tradição, nunca voltou a frequentar os sonhos dos homens. E Jesus, seu representante e desbravador, só tinha olhos, gestos e palavras para o reino dessa devastadora inovação. Ele alertou claramente que o vinho da sua revolução era de natureza tão ebuliente que não podia ser contido em recipientes de couro velho, que não se mostrariam flexíveis o bastante para preservá-lo e distribuí-lo. O sumo perpetuamente renovado do reino requer continuamente recipientes novos, sempre temporários e sempre irrestritamente maleáveis. O novo só se dobra diante da necessidade de uma renovação adicional: a semente deve morrer para brotar, o homem deve morrer para ressuscitar. As coisas velhas já passaram, e o que um dia já foi unânime e útil deve ser deixado agora mesmo para trás.
E ali logo em frente, a esperar pela gente, está um futuro inteiramente condicionado, inteiramente amordaçado pelo nosso temor do outro e nosso pavor da novidade.
Coloque a palma da sua mão ao lado da minha e posso lê-las como as páginas de um livro. Tudo que faremos eu e você nos próximos dias, nos próximos anos e nas próximas décadas – em nosso trabalho, em nosso voto, em nossos planos, em nosso círculo de relações, na carne de nossas tatuagens e no esqueleto de nossas omissões – terá em vista manter (ou estabelecer) um estado de coisas confortável para nós mesmos, um mundo em que não tenhamos de olhar a diferença nos olhos. Por certo haverá progresso, mas manteremos seus pés acorrentado ao rigor das nossas alianças, obrigando-o a avançar nos passos diminutos limitados pela pequeneza de nossas concessões – concessões que celebraremos dentro de nós como sinal muito evidente de nossa própria grandeza, como se representassem um grande avanço e não encarnassem em sua cautela o nosso próprio horror de dar um passo maior.
Olhando na palma da sua mão e na minha, vejo por exemplo que no futuro haverá igrejas autodefinidas como tradicionais que acolherão homossexuais declarados em suas congregações, concedendo-lhes a princípio os mesmos direitos relutantes e sem alarde que foram concedidos aos divorciados. Por outro lado, haverá um número ainda maior de igrejas que condenará explicitamente esses e outros liberalismos, tomando-os por concessão a Satanás, até que a pulverização das posições dos que se definem como cristãos termine por sujeitar o nome e a herança de Jesus à mais completa irrelevância cultural.
E é preciso lembrar que nada há de revolucionário em que a igreja termine por se dobrar, acolhendo gente constrangedora como são atualmente os homossexuais; é na verdade absolutamente esperado que o faça, depois das necessárias contorções em contrário. Porque a igreja formal se mostrará disposta a qualquer concessão a fim de manter o seu status de igreja – um mundo em que haja pastores, templos, reuniões semanais, ofertas, testemunhos e o correspondente tráfico de culpas e fidelidades. A igreja-instituição fará tudo e qualquer coisa para preservar um mundo em que retenha a reputação de generosa mas reguladora, porém ela mesmo reservará as decisões realmente radicais para o último momento, quando sua própria posição não representar qualquer diferença diante da postura geral da sociedade sobre determinado assunto.
Dessa forma, a igreja permanecerá fazendo concessões que não são motivadas pela misericórdia, mas por seu compromisso com a autoperpetuação. Não o fará motivada pelo amor à relevância, mas pelo medo da irrelevância. Não o fará conduzida pelo amor à minoria, mas para não perder a aprovação da maioria.
Olhando na sua mão e na minha vejo que, quando for absolutamente impossível deixar de desviar nosso olhar dos limites muito evidentes de um mundo redondo, e quando nós poucos privilegiados já tivermos queimado a maior parte dos recursos que tardiamente se reconhecerá pertencerem a todos, a humanidade passará a de fato regulamentar e fazer cumprir a justiça ambiental – mas isso quando não restar qualquer espaço de manobra, quando tivermos muito literalmente derrubado a última floresta: quando for em muitos sentidos tarde demais.
Porém esse mundo de gente possuidora de uma forçosa consciência ambiental será ainda um mundo de corporações e de lucros, de alianças e de traições, de países, nacionalidades e fronteiras. Permanecerá um mundo condicionado.
Em outras palavras, a sanidade que hoje seria admirável e permanece rigorosamente improvável está na verdade predestinada a ocorrer no futuro – porém deve ficar muito evidente que tomaremos todas as providências para que a misericórdia e o respeito aos direitos do outro permaneçam no âmbito do condicionado, e que sua inevitável aplicação seja adiada até o último momento.
Em outras palavras, manteremos o vinho da novidade contido em recipientes de couro velho, até que finamente se rompam e não tenhamos outra escolha que não contê-lo novamente num outro recipiente destinado para durar.
Veja que já são passados dois mil anos e ainda volto infantilmente, condicionadamente, a essa metáfora dos odres, que já deixaram de ser usados há tanto tempo. Meu temor do futuro é tão grande que sequer consigo contextualizá-la.
O que se requer, muito evidentemente, não são metáforas novas, porque palavras saberemos sempre dobrar de modo a justificar os nossos discursos. O que se requer é um homem novo, em que o próprio coração seja um recipiente imoderadamente flexível e em tudo maleável.
A única metáfora que resta é a mais iconoclasta, niilista e existencialista de todas: a Palavra se fez carne. O necessário é que o homem não traga dentro de si qualquer coisa que não sua precária humanidade, cujo único mérito será o de pertencer a todos.
Porque quando o homem for humano será o reino de Deus, e Deus não nos perdoe se escolhermos um futuro menor.

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