04 de Março de 2012

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Fotografia

09 de Janeiro de 2012

O aniquilamento da não-violência

Manuscritos


Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.
Bernard Charbonneau, falando em nome do anarquista cristão Jacques Ellul

 

Aquilo que o diabo sonhou por milênios, um mundo em que não fosse mais possível viver uma vida de não-agressão, o capitalismo neoliberal possibilitou, evangelizou e metastaseou planeta afora. O nosso é um mundo em que não há mais santos, pacifistas ou mesmo gente boa. Ele foi de fato concebido, no seu ventre ideológico, de modo a que não subsista a virtude nem tenha como subsistir.

Houve épocas em que bolsões de paz e de boa vontade, muitos deles sustentados diretamente pelo sopro de Jesus de Nazaré, proveram santuário a este mundo. Os ramos da família anabatista em particular (por exemplo, os irmãos menonitas) foram por séculos os portadores de uma longa e radical tradição cristã de não-violência – inspirando e sendo inspirados por gente como Erasmo, Tolstoi, Gandhi e Martin Luther King. Um fogo semelhante nunca deixou de arder no coração da experiência católica, encarnado (por exemplo) nas paixões de Francesco, no ideal da aventura monástica e na lucidez de Dorothy Day. A não-agressão está, além disso, muito entranhada no ideário de tradições religiosas não-cristãs, em especial no budismo e no jainismo.

Esses, no entanto, foram ideais e realidades de uma outra era, açudes esgotados e sonhos anulados pela amoral capitalista. Ninguém mais é livre, por isso ninguém mais tem como dar-se ao luxo de ser bom.

Oculta por trás de multiformes manifestações e múltiplos falsos destinos, o capitalismo tem uma só regra, mas é uma regra rígida: conforme-se. Não me interessa o quê, consuma. Acredite no que quiser, apenas compre. Quem não sabe comprar deve ser ensinado a aprender, e as culturas e pessoas que não estão interessadas em consumir ou em impor seu modo de vida às demais estão condenadas à execração e à morte social, cultural e econômica.

Resistir é inútil. A função da propaganda (e a propaganda ocupou cada centímetro do espaço social) é evangelizar você com a má nova de que você não é feliz, e de que não terá como ser feliz até aprender a comprar o quanto baste, isto é, sem parar. Olhe pra você. Você está longe de ter toda a autorrealização que pode comprar. Para imprimir credibilidade à sua mediocridade você deve consumir. Para se destacar você deve fazer como todos.

A questão central, que as luzes do shopping simplesmente não nos deixam enxergar, é que consumir é agredir, especialmente num mundo interligado como o nosso. Não restam pessoas pacíficas entre nós, nem uma sequer. Não há gente não-violenta, porque todos consumimos.

Há inúmeros sentidos em que, dentro de um capitalismo global, consumir é agredir. Talvez baste citar dois.

Primeiro há a questão dos recursos naturais, e mesmo aqueles dentre nós que creem que o espírito empreendedor não tem limites deveriam poder entender que os recursos têm. Se 20% da população da Terra consomem 80% dos recursos disponibilizados pelo planeta, resulta em primeiro lugar que os bem-sucedidos dentre nós são os que desfrutam muito desautorizadamente do que não é seu. Não importa o que você acredite, o seu MBA não o qualifica a usar o recurso planetário que pertence tanto a você quanto ao seu irmão de um dos sertões do mundo. Na marca dos 7 bilhões de condôminos, a Terra é um cortiço que está ficando pequeno, e nesse condomínio uma minoria dilapida segundo os seus (os nossos) próprios caprichos um patrimônio que é comum, e despeja ao mesmo tempo o seu (o nosso) lixo sobre a cabeça de uma minoria que absolutamente não é responsável por ele.

Além disso, a presente taxa de utilização dos recursos naturais representa não apenas um ultraje para o presente, para gente que está viva agora, mas uma ameaça para o futuro – uma ameaça para os que nascem hoje e terão de encontrar espaço de vida e de dignidade amanhã. Não há como não concordar com os que alertam que é tarde demais para ser pessimista: “sustentável” é menos uma diretiva do que um sonho. Sustentável é o que o futuro seria na melhor das hipóteses, se o nosso presente também fosse. Consumir é agredir porque é de fato consumir, fazer desaparecer – é queimar um mundo que não nos pertence, e como se não houvesse amanhã.

Em segundo lugar, consumir é agredir porque, num espaço de produção globalizado, você não é obrigado a testemunhar as injustiças que patrocinam os seus hábitos de consumo. O capitalismo não apenas alienou o trabalhador do fruto do seu trabalho, conforme diagnosticado por Marx, mas separou também o consumidor da realidade do valor e da produção. Amigo, nada neste mundo custa 1,99. Tudo neste planeta é muito valioso. Tudo é caríssimo, em especial as horas-gente e as horas-futuro, que são horas-vida. Acredite, a máquina fotográfica que você tem no bolso é uma milagre e o seria em qualquer tempo e qualquer universo; se você paga por ela coisa de 30 almoços é porque alguém está pagando o restante do valor – e via de regra é o chinês apertado numa fábrica, com as mesmas condições de conforto e o mesmo espaço para se esticar que o frango industrial de que você comprou ontem o filé. E os operários em todo o mundo se sujeitam a esse tipo de indignidade apenas porque vendemos a eles, constantemente e com toda a eficiência, o sonho de aprenderem a comprar com a mesma eficácia que nós mesmos. E quem não gostaria de estar no nosso lugar? Todos os que consumimos, de iPads a goiabinhas Piraquê, somos senhores de escravos.

Desse modo não é difícil entender, com Jean Baudrillard, porque discriminação e exclusão são consequências diretas e imediatas da globalização. O capitalismo tecnológico quer impor sobre as culturas e sobre os indivíduos uma solução de vida sem verdadeira alternativa; todos os que não se submetem ou não desejam esse modo de vida estão por definição discriminados e excluídos. E mesmo os que se sujeitam a desejar a solução indiferenciada tem de submeter-se ainda à pedra de moer da eterna insatisfação: a máquina capitalista só funciona enquanto e porque todos nos sentimos pelo menos um pouco discriminados e excluídos, e entendemos que o consumo do produto almejado nos curará dessa inadequação. Gente satisfeita com o que tem (ou com o que não tem) representa a morte do capitalismo; não é à toa que o capitalismo esteja tão bem de saúde.

Não foi à toa que Gandhi entendeu depressa que para abraçar adequadamente o ideal da não-agressão não bastava baixar as armas e oferecer a outra face: era preciso afastar-se deliberadamente das cadeias do consumo e adotar um modo de vida ao mesmo tempo responsável e sustentável. Ele intuiu que a verdadeira não-violência, no seu sentido mais radical da coisa, requer consumir o que se planta, vestir o que se fia, assumir a responsabilidade pelo próprio lixo, abrir mão das ilusões do consumo, abandonar as armadilhas da novidade e ignorar a ficção útil da propriedade privada1. E o capitalismo está construído de modo a que você permaneça convencido de que não tem liberdade para fazer qualquer uma dessas coisas.

A perfeição do mecanismo está em que somos nós mesmos nossos catequizadores. Nosso modo de vida insiste, na verdade ele comprova, que não existe uma alternativa ao moinho do consumo. Você não é livre e jamais será, mas não vai sentir falta da liberdade enquanto estiver com um cartão de crédito ou sonhando com um.

Como resultado, a violência foi efetivamente institucionalizada, tendo se tornado o combustível até mesmo dos mais inocentes. A liberdade que temos, quando temos, é a de escolher, a cada momento, a agressão menor – e mesmo essa frágil decisão está se tornando cada vez mais difícil e improvável. As cadeias são cada vez mais eficazes e os encadeamentos cada vez mais complexos. Quem pode nos ensinar a viver de outra forma? Somos paupérrimos, só sabemos comprar para viver. O ciclo de agressão da produtividade e do consumo está entranhado em tudo que fazemos, tudo que desejamos, tudo que sonhamos. Os mais carolas, amantes de paz e inofensivos dentre nós patrocinam a agressão aberta e foram para sempre maculados por ela. Somos todos cúmplices e vítimas da mesma violência capital.

A tragédia está em que o amor não foi capaz de nos unir, mas a complacência universal com a injustiça nos tornou irmãos. Somos a máfia, e na máfia todos se cuidam, para que a máfia não tenha como mudar. Da máfia ninguém sai.

NOTAS
  1. Uma aspiração e um recuo semelhantes caracterizam o movimento evangélico do neomonasticismo. []
08 de Dezembro de 2011

Joquempô

Manuscritos

Nossa alegria de existir naquele domingo debaixo do sol era tão sem limites que beirava a fraude ou a extravagância. Era incrível, mas nos bastávamos ali, com os pés cravados na areia, chupando os gelos do copo vazio de caipirinha e a pele rejeitando gota a gota o protetor solar.

Junto da nossa frota de cadeiras de lona as crianças brincavam de alguma modalidade particularmente violenta de joquempô, inteiramente perplexas diante da ideia e despreparadas para a execução de uma brincadeira que não acontecesse pela mediação azul do computador ou do iPad.

– Em suma – disse o Marcelo, – o Steve Jobs era um idiota, e sinto-me rebaixado até de ter de explicar isso às pessoas.

Estávamos conversando sobre o problema das interfaces de programas de computador e discutíamos a questão das áreas clicáveis dentro de um jogo eletrônico, aquelas porções do cenário ou dos personagens com as quais você pode interagir através de um clique do mouse ou um toque do joystick. A questão, naturalmente, é que mesmo num jogo com o mais elaborado dos cenários, um número limitado de áreas visíveis da tela acaba sendo clicável. De outra forma o jogo seria um pesadelo tanto para se programar quanto para se jogar.

Enquanto o Fabrício oferecia sua opinião, fechei os olhos. Debaixo das pálpebras incandescentes, com o sal beliscando a pele e as ondas varando horizontalmente os tímpanos, entendi subitamente esta vertigem: que o universo, apesar dos vastíssimos recursos energéticos e da abundância de lugar para o armazenamento de dados, provavelmente tem uma única e minúscula interface para a interação da criação com Deus e vice-versa: a superfície do planeta Terra.

Como que para confirmar a sacada, o Marcelo terminou de esmagar um cubo de gelo entre os dentes e opinou:

– Interface boa mesmo é a do mundo. Não só você pode clicar em qualquer coisa; as coisas também clicam em você.

E, de olhos fechados, senti no joelho um toque amigável.

03 de Outubro de 2011

O crepúsculo dos deuses

Manuscritos, Quase Ciência

Eu
Quero um lugar
Que não tenha dono
Qualquer lugar

Azymuth, Linha do horizonte

 

Somos gente, e gente precisa de mitos, aquelas grandes narrativas formadoras que nos alçam para além das perplexidades paralisantes da realidade cotidiana e servem de espinha dorsal sobre a qual suportamos e orientamos o arco da vida.

Como já foi suficientemente demonstrado, todos vivemos debaixo de uma narrativa deste tipo, mesmo os mais céticos e descrentes dentre nós. Talvez não baste dizer que os seres humanos precisam de mitos; mais acertado seria dizer que são os mitos que nos tornaram humanos em primeiro lugar, e que são eles os patrocinadores do que nos resta de humanidade.

O ocidente pré-moderno via o arco ascendente da existência como desenhado exclusivamente por Deus: era a divindade que víamos nos conduzindo gradualmente de um presente incerto a um futuro de segurança. A condução divina era nossa narrativa sustentadora.

Na era moderna, Deus foi grosso modo substituído pela razão. Passamos a crer que a razão (equipada por todos os seus periféricos ideológicos: a ciência, a autonomia, a liberdade, a democracia, o materialismo, a privatização da produção e da vida social, o otimismo humanista, o capitalismo liberal) é quem nos guiaria de um presente incerto para um futuro de segurança. Criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.Nossa narrativa orientadora passou a ser arco ascendente do progresso conduzido pela mente racional.

Parte fundamental da estrutura de um mito (como tentei indicar acima na expressão “arco ascendente” e em verbos como “conduzir” e “guiar”) é o seu componente geográfico. Em cada mito está embutida uma promessa de deslocamento, a promessa de que seremos através da eficácia do próprio mito transferidos de um lugar para outro – em particular, do lugar em que estamos para um lugar melhor.

Independentemente do mito/narrativa que nos conduz, estamos todos antevendo e ansiando por esse “lugar melhor” de tranquilidade e abundância ao qual cremos que o mito pode nos levar. Esse destino já foi, para um punhado de hebreus sem-terra, o fulgor da Terra Prometida, que manava leite e mel. Para milhões de mulheres, escravos, párias e marginalizados de todos os impérios, foi o Paraíso em que reinariam a paz e a justiça que não encontraram na experiência terrena. Para a Europa cristã saturada, exaurida, injusta e infértil da segunda metade do milênio passado, a Terra Prometida foram as Américas, destino de impensável abundância e de irrestrita liberdade. Para os norte-americanos decepcionados com o convencionalismo, a rigidez social e o corporativismo das colônias do Atlântico, o “lugar melhor” foi o Oeste Selvagem, terra da oportunidade, da igualdade e do ouro1.

Portanto cada época (e, num certo sentido, cada lugar) teve seu próprio “mito de migração redentora” subalterno ao seu mito principal. Vivemos todos debaixo da expectativa perpétua desse lugar de abundância e de realização, esse destino ao mesmo iminente e distante, onde poderemos finalmente ser quem somos e não teremos mais de viver debaixo das limitações e constrangimentos da vida que temos agora – isto é, aqui.

No século XX, ao mesmo tempo em que a tradição cristã perdia definitivamente para a ciência o primeiro lugar como mito orientador no ocidente, os homens terminavam de mapear o globo e ponderavam com terror crescente as consequências da limitação de sua circunferência. Havendo os destinos terrestres de abundância finalmente se esgotado, a humanidade esboçou um mito de migração redentora que se adequasse ao seu novo mito orientador, e criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.

As profecias do novo mito, contendo suas promessas e advertências, passaram a ser registradas nos livros de ficção científica, que são um ramo contemporâneo da milenar literatura apocalíptica. No Apocalipse de João a salvação dos homens está na cidade celeste que desce do céu à terra; na ficção científica a salvação da terra está nos homens que sobem ao céu para edificar as cidades celestes.

A ficção científica prometeu que colonizaríamos os planetas, que viveríamos em estações orbitais sustentáveis, que exploraríamos galáxias e pisaríamos sistemas planetários repletos de riquezas que a imaginação não pode conceber. Ensinou-os que descobriríamos no espaço novas formas de vida, novas fontes de energia e recursos, para todos os efeitos, inesgotáveis. Doutrinou-os com a ideia que a exploração espacial representaria uma retomada muitas vezes multiplicada do espírito da Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, e que recuperaríamos nela nossa vocação de plantar colônias e esbarrar em novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.

O espaço tornou-se o nosso destino redentor, “a fronteira final” que prometia e possibilitava a grande futura migração – a mágica transferência para um domínio que representaria a solução de todos os problemas energéticos, populacionais e culturais que caracterizam a condição circular do nosso planeta.

A ideologia da exploração espacial ao mesmo tempo justificou a exploração dos recursos da Terra e a requereu. Se não tomamos medidas para conter a superpopulação foi porque a ficção científica implantou no inconsciente coletivo a noção de que no futuro estaríamos colonizando o espaço sem fim. Se não tomamos medidas para conter a radical espoliação dos recursos da terra foi porque a literatura apocalípticaA exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. da exploração espacial prometeu que em breve teríamos acesso aos recursos inesgotáveis e sem precedentes das estrelas e dos planetas2.

Porém nas últimas décadas temos testemunhado o que pode ser uma interrupção radical de toda essa narrativa, e o recente encerramento do projeto do ônibus espacial é apenas o símbolo mais recente dessa quebra de continuidade. A exploração espacial como a sonhamos talvez não seja impossível, mas o sonho tem perdido em golpes implacáveis da realidade o seu poder de factibilidade e de oportunidade, e portanto sua força de mito redentor.

Tudo que diz respeito à colonização do espaço tem se mostrado mais complexo e cheio de obstáculos do que costumávamos prever. Colocamos o pé na lua meia dúzia de vezes – custou caro e ensinou-nos muito em todas as áreas, mas foi só. Nenhum pé humano pisou o solo do mais próximo dos planetas do nosso próprio sistema, e não há qualquer perspectiva de que essa visita possa materializar-se nas próximas décadas. Se não temos como sequer antecipar ou arrebanhar a tecnologia e os recursos necessários para a mais simples das viagens interplanetárias, o sonho da colonização do nosso próprio sistema permanece distante ao ponto do irreal – quanto mais o de uma viagem a outro sistema planetário, quanto mais o de uma realidade em que esse tipo de viagem se torne coisa comum, factível e de retorno garantido.

Em particular, os cientistas intuem com cada vez mais clareza que a exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. Se, apesar das dificuldades, conseguirmos acesso aos recursos de outros destinos planetários, será com toda probabilidade tarde demais – tarde demais, isto é, para resolver os problemas que nos apertam na nossa presente experiência no planeta.

Os cientistas esperavam, pelo menos tanto quanto os cristãos, que a salvação viesse do céu, mas estamos todos aprendendo juntos a perder essa fé3. Perdemos nosso mito subalterno de migração redentora, e hoje em dia contribuímos para o naufrágio planetário sem contar sequer com a ilusão de um plano de fuga.

Talvez não seja cedo para concluir que o nosso primeiro planeta será também o nosso último. Talvez não seja cedo para celebrar que o universo pode estar para sempre a salvo de nós.

                  

 

NOTAS
  1. Os exemplos se pode indefinidamente multiplicar: para nordestinos esmagados pela seca, o destino de esperança foi o sul Brasil; para gente apertada pela falta de oportunidade no interior, é a cidade grande. []
  2. Ou seja, nada mudou muito desde que a tradição cristã ensinou que podíamos violentar esta terra sem qualquer escrúpulo porque em breve Deus nos daria outra. []
  3. Essa quebra de paradigma tem se refletido na própria ficção científica. O seu mito de migração redentora permanece mais ou menos inalterado, mas com cada vez menos frequência chegamos a esse novo destino através de foguetes, tecnologia convencional ou iniciativa humana. Daí a crescente importância, na literatura de ficção científica mais recente, de abismos negros, portais, wormholes e fendas no tecido espaço-tempo – soluções ou atalhos que aproximam-se, em espírito e em execução, do arrebatamento dos santos e da transição ao céu prometidos pela tradição cristã. Exemplos: a saga Stargate e as séries Primeval, Torchwood e Terra Nova. []
18 de Agosto de 2011

Notas no caderno da revolução

Sociedade

Para trazer a efeito a revolução não basta simplesmente compartilhar as mesmas ideias, é necessário poder viver juntos, numa base diária, se possível em contato direto com a natureza. Embora pareça paradoxal, apenas uma comunidade de homens “unidos e isolados” pode garantir a vida interior autêntica negada pela civilização tecnológica.

Jacques Ellul

É precisamente isso que distinguía Ellul de todos os totalitaristas, panteístas e naturalistas daquele tempo: Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.

Bernard Charbonneau

Ellul e Chabornneau insistiam constantemente na necessidade de estabelecerem-se, localmente, pequenos grupos auto-governados que seriam federados entre si. Deveriam funcionar como contra-sociedades, esses grupos exemplares, manifestações concretas da ordem a ser construída. Seu propósito não era derrubar o regime mas servir de evidência, aqui e agora, da revolução instantânea. Gradualmente, de forma contagiosa, essa rede fundada nas bases poderia espalhar-se além das fronteiras nacionais, que estavam fadadas a desaparecer de qualquer maneira.

Patrick Troude-Chastenet,
sobre os projetos anárquicos de Jacques Ellul

Leia também:
O profeta e a revolução