01 de Janeiro de 2010
Se você ainda não assistiu Avatar, o primeiro filme do diretor James Cameron depois de Titanic, provavelmente não vai querer ler esta nota.
O protagonista de Avatar ousou adentrar e abraçar um novo mundo; ousou dar um passo além da carne e do sangue e adotar como seus um povo outro e uma outra cultura. Avatar, o filme, apesar da pirotecnia das paisagens impossíveis, da invenção de idiomas e espécies e do descortinar de imensos abismos em 3D, ousou muito menos.
Trata-se, para começar, de um filme com uma mensagem, o que – anote o que estou dizendo – nunca é bom sinal. Na maior parte do tempo o ruído dessa intenção evangelística passa despercebido diante de ofertas mais imediatas e interessantes, mas na meia hora final, quando o diretor/autor se mostra inteiramente incapaz de amarrar a sua mensagem sem maculá-la com contradições, o castelo desmorona por completo. E em 3D.
Apesar do apelo de aventura, apesar de ser a história de um mocinho que contorna perigos e subjuga espécies exóticas, Avatar se considera um filme muito sério, e seu grande conflito fundamental desenrola-se entre capitalistas e populações nativas. De um lado está um modo de vida predatório e desumanizante, de outro uma vida natural e sustentável; de um lado estão burocratas e corporações, de outro xamãs e pés descalços; de um lado exércitos, do outro crianças.
Nada tenho contra esse conflito, que, entre outras coisas e infelizmente, é baseado em fatos reais. Apenas não devemos absolutamente acreditar quando Avatar dá entender que pode ter encontrado para ele um desfecho satisfatório.
Há, por exemplo, o tremendo desconforto de ver o grande herói branco transformando-se em deus cavalgador de dragões e salvador de civilizações devido à sua mera capacidade de, em poucos meses, aprender a manejar seu avatar melhor do que os nativos adultos de Pandora aprenderam a manejar seus próprios corpos desde que nasceram. É a sobrevivência no nosso tempo da terrível sombra do Mighty White, o grande salvador branco das narrativas colonialistas e imperialistas, cujos avatares são Tarzan e Jim das Selvas e Daktari e George, o rei da floresta.
Depois há o constrangimento de ver trazido seriamente à tona, e em pleno terceiro milênio, o mais desgastado e incompetente dos encantamentos naturebas, “não agrida a natureza ou ela irá voltar-se contra você”. A fórmula inspirou bons filmes de terror entre as décadas de 1950 e 1970 (“cuidado ao fazer testes nucleares no deserto ou derramar produtos químicos no pântano mais próximo, do contrário os <-inserir aqui qualquer espécie animal arbitrária-> gigantes irão invadir a sua cidade”), mas a nossa própria era, que enfrenta dilemas maiores e mais urgentes, requer solução menos infantilizante.
Porque Avatar pretende que o conflito em Pandora seja uma metáfora apta para os conflitos ambientais da nossa própria terra e do nosso própria tempo, e o que sabemos da nossa experiência é que não, a natureza não irá voltar-se contra você não importa o que você faça – pelo menos não a tempo, não de uma forma que o faça reconsiderar sua intenção de destruir e descaracterizar. Não importa o júbilo incandescente que promovam as vitórias de Avatar (e de filmes semelhantes), os rinocerontes não irão atacar as lojas do Wallmart e as baleias não vão derrubar as plataformas de petróleo. O mais perto que a natureza chegará de revidar será atendendo nosso pedido de um futuro isento de complicações como rinocerontes e baleias, mas então será tarde demais, e esta é a única moral da história e também sua contradição. Em termos ambientais, só se aprende a noção de sustentabilidade quando é cedo demais, na dura bem-aventurança das populações nativas, ou tarde demais, entre nós que já consumimos o planeta e vendemos o futuro.
Na verdade, as populações nativas acompanham invariavelmente a natureza em sua intransigente sujeição à destruição. Não devemos acreditar em mitos tardios de bons selvagens, mas é preciso reconhecer que uma coisa índios e culturas nativas têm em comum com a natureza: seu cavalheirismo de submeter-se ao apagamento sem luta. Entregam-se invariavelmente com docilidade, como quem cede a um abraço, ao toque que irá cancelá-los da realidade.
Esta é a contradição e a falha final de Avatar, o fato de que no filme a solução que os nativos destilam para vencer a violência dos exércitos financiados pelas corporações é engendrar sua própria estirpe de violência. Avatar não conhece outra solução para a guerra que não seja a guerra, e esta é uma tremenda derrota para narrativa tão bem-intencionada. O que acontece em Avatar é um caso homérico da rivalidade mimética denunciada por René Girard: a fim de vencer o inimigo sem alma os nativos imitam-no em tudo, deixando para trás até mesmo sua característica mais essencial e mais celebrada, seu respeito à vida, na ânsia de empreender justiça e salvar algum terreno. Desnecessário lembrar que na vida real, como provavelmente no universo do filme, as corporações estarão inteiramente prontas para revidar qualquer iniciativa violenta dos nativos, e quando voltarem estarão armados da justificativa inteiramente à prova de balas da vingança. Avatar é nisso indistinguível de Tropa de Elite.
Na vida real os frágeis não fazem guerra e ninguém fala em nome da natureza. Tudo que o meio-ambiente faz diante da violência (e entenda-se meio-ambiente como paisagens, espécies, tradições e culturas) é recolher-se e calar. Sua violência é apagar-se, e só o futuro será capaz de revelar por completo, pelo clamor impensável da ausência, a extensão desse horror.
E não importa o que sugira a ficção, não teremos outro planeta belíssimo para destruir. Não terás avatar nenhum.
* * *

Brabo das selvas e a mais severa das advertências

09 de Novembro de 2009

Na Amazônia ela era conhecida como “a árvore que chora”, o sangue branco da floresta, e por gerações os índios haviam retalhado o seu tronco, deixando o látex gotejar em folhas, de onde podia ser moldado à mão na forma de vasos e lâminas impermeáveis à chuva. Colombo encontrou índios arauacãs jogando com estranhas bolas que quicavam e voavam. Thomas Jefferson e Benjamin Franklin descobriram que o material era ideal para apagar anotações à lápis. Devido à crença generalizada de que se originava nas Índias Ocidentais, a substância era chamada de India rubber. Na verdade o produto vinha do Brasil, onde o rei de Portugal já havia estabelecido uma ativa indústria que produzia sapatos, capas e bolsas de borracha.
Todos esses produtos, no entanto, tinham uma grande falha. No frio a borracha tornava-se tão quebradiça que rachava como porcelana. No verão uma capa de borracha reduzia-se a um manto viscoso. Então, em 1839, Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.Charles Goodyear descobriu (inteiramente por acidente) a vulcanização, um processo que torna a borracha resistente aos elementos, transformando-a assim de curiosidade num ingrediente essencial da Era Industrial. Em 1888 John Dunlop inventou os pneus infláveis de borracha para que o seu filho pudesse ganhar uma corrida de triciclo em Belfast. Sete anos mais tarde os irmãos Michelin deixaram a crítica boquiaberta ao introduzirem pneus removíveis no rally Paris-Bordeaux. Na virada do século havia cinqüenta fábricas de automóveis nos Estados Unidos. A Oldsmobile, a mais bem sucedida, vendeu 425 carros só em 1901. Menos de uma década depois os primeiros 15 milhões de Modelos T deslizaram para fora da linha de produção de Henry Ford. Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.
O repente de riqueza foi hipnotizante. Em Londres e Nova Iorque homens jogavam moedas para decidir se sairiam em busca de ouro no Klondike ou borracha no Brasil. No pico da corrida 5.000 aventureiros chegavam à Amazônia por semana. Em 1909 os negociantes estavam despachando rio abaixo 500 toneladas de borracha a cada dez dias. Em 1910 a borracha representava 40 por cento das exportações brasileiras. Um ano depois a produção atingia o seu pico máximo de 44.296 toneladas. Isso valia, numa estimativa conservadora, mais de 200 milhões de dólares. Em Pittsburgh o magnata do aço Andrew Carnegie lamentava: “eu deveria ter escolhido a borracha”.
Manaus, situada no coração do comércio brasileiro de borracha, transformou-se em poucos anos de um modesto vilarejo à beira do rio numa próspera cidade cuja opulência atingia níveis bizarros.Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares. Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares e saciavam a sede dos seus cavalos em baldes de prata cheios de champagne francesa gelada. Suas esposas, desdenhosas das águas barrentas do Amazonas, mandavam seus linhos a Portugal para serem lavados. Prostitutas de Tangiers e de São Petesburgo chegavam a ganhar 8.000 dólares por uma noite de trabalho, tarifas que eram freqüentemente pagas em tiaras e jóias; em 1907 os cidadãos de Manaus eram os maiores consumidores per capita de diamantes do mundo.
Ao longo do território do Amazonas o comércio da borracha desencadeou um reino de terror a que não se via igual desde a consquista espanhola. No fim o que salvou a população nativa foi um ato da política imperial britânica. Em 1877 sementes de borracha trazidas pelos ingleses das florestas do Brasil chegaram à Malaia, uma terra tropical de clima similar à Amazônia, mas intocada pela praga da folha. Aqui não era necessário que as árvores crescessem tão separadas umas das outras; plantações densas e eficientes eram possíveis. Em 1909 mais de 40 milhões de pés de seringueira haviam sido plantados na Malaia (hoje em dia parte da Malásia), em intervalos de apenas seis metros, em fileiras regulares que permitiam que um único trabalhador sulcasse 400 árvores por dia. A produção dobrava a cada doze meses.
Com o sucesso das plantações, o boom da borracha da Amazônia implodiu. Em 1910 o Brasil produzia cerca de metade do consumo mundial; em 1918 a cifra caía para 20 por cento. Em 1940 o Brasil era responsável por apenas 1.3 por cento da produção mundial de borracha, e a nação havia se tornado importadora inveterada do produto que havia dado ao mundo.
Wade Davis, Shadows In The Sun (1998)

28 de Setembro de 2009
Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem o trabalho de ir buscar o seu arabutan. Uma vez um velho perguntou-me:
– Por que vêm vocês, mairs e perôs (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para se aquecerem? Vocês não tem madeira na sua terra?«E vocês por acaso precisam de muita?»
Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas extraíamos dela tinta para tingir, tal o qual eles faziam com os seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente:
– E vocês por acaso precisam de muita?
– Sim – respondi-lhe – pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que vocês podem imaginar, e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.
– Ah! – retrucou o selvagem – É assombroso o que você me conta.
E acrescentou, depois de compreender bem o que eu lhe dissera:
– Mas esse homem rico de quem você me fala não morre?
– Sim – disse eu – morre como os outros.
O missionário calvinista Jean de Léry tenta explicar o espírito do capitalismo a um tupinambá, durante sua permanência no Brasil na França Antártica em 1557.
Histoire d’un Voyage Fait en la Terre du Brésil, 1578

Leia também:
A integridade das coisas
21 de Junho de 2009
A Rede Brasileira de História Ambiental é pilotada pelo meu amigo renascentista Alessandro Casagrande, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e obcecado pela História em estágio muito mais adiantado e terminal do que eu mesmo.
Mapas históricos, expedições, documentos, fotos, vídeos, entrevistas, artigos exclusivos e reflexões apaixonadas sobre a desconcertante história ambiental do Brasil aguardam no sáite da Rede. Não sei o que você ainda está fazendo aqui.

17 de Junho de 2009
A leitura de Hitler teve ajuda me deixou inquieto, e ver o texto arquivado aqui na Bacia deixou-me ainda mais. Embora Edwin Black tenha publicado alguns dos livros-denúncia mais obsessivamente bem documentados dos últimos anos, quando são expostas assim a seco, despidas de qualquer bibliografia, suas conclusões soam excêntricas e improváveis ao ponto do surreal. Com os erros dos nazistas, aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros.Como acreditar que o nazismo existiu e persistiu por mais de uma década na forma como ele o descreve? Como crer que eram seres humanos os envolvidos naquela transação?
Pesquisas como as de Black fornecem indicações de que não é à toa que associamos, inconscientemente, as atrocidades do nazismo aos pecados desumanizadores da indústria. Era ainda 1943 e o desenho animado Der Fuehrer’s Face, dos estúdios Disney, já mostrava o Pato Donald vivendo na Alemanha nazista um pesadelo proletário debaixo de roldanas, esteiras, engrenagens e metas de produção.
Porém essas eram imagens, iconografias – talvez por demais inclementes, tendo em vista que os norte-americanos viviam naquela época debaixo de limites semelhantes e semelhantes promessas. Foram necessárias multidões áridas de documentos, como os levantados por Edwin Black, para mostrar sem equívoco o fundamento e as estranhas irmandades por trás da representação.
Hoje podemos concluir, com horrenda sobriedade, que o nazismo era uma indústria de morte e exclusão não porque era regido por loucos sem rédea, mas porque era regido literalmente pelo espírito do capitalismo.
Henry Ford, o americano obcecado com os méritos da performance, engendrou a moderna linha de montagem e dessa forma gerou tudo no nosso mundo: de tuíteres a iPhones, de ilustradores que vendem seu trabalho pela internet a fábricas chinesas que mais parecem campos de concentração. Adolf Hitler, o austríaco obcecado com os méritos da performance, tinha um retrato de Henry Ford em seu escritório de Munique, e dois anos antos de tornar-se chanceler revelou numa entrevista ter Henry Ford “como sua inspiração”.
Essa mostrou ser uma inspiração muito literal. Os campos de extermínio assemelham-se a fábricas de matar porque foram projetados tomando como modelo fábricas de verdade. Tudo nos campos nazistas foi inspirado nas luzes do recém-canonizado capitalismo industrial: as metas, a obsessão com a produtividade e com a limpeza, as chaminés, a sincronia na entrada de insumos, a eliminação eficiente de dejetos.
Porém Henry Ford e Adolf Hitler tinham em comum mais do que uma simpatia pela eficiência e um interesse nos prêmios da mecanização. Ambos compartilhavam de uma convicção mais essencial e mais próxima à raiz dos seus discursos: a crença de que uma raça superior, que fosse capaz de demostrar sua superioridade pela excelência de seu desempenho, merecia privilégios muito evidentes que todos os inferiores deveriam respeitar. Este, que prega o mérito auto-evidente do desempenho superior, não é apenas o espírito do nazismo, como demonstrado pela História, mas o espírito do capitalismo, como ocultado por ela.
Desprezamos Hitler porque sabemos que a superioridade racial que Hitler queria ver premiada não tinha fundamento científico. Sabemos hoje que ser ariano é não ser melhor do que ninguém. A superioridade pregada por Hitler era falsa, portanto as atrocidades realizadas em seu nome declaramos ilegítimas.
Aceitamos de bom grado o capitalismo porque sabemos que a superioridade que ele quer ver premiada tem fundamento no bom senso e na igualdade de oportunidades; ser trabalhador é, evidentemente, ser melhor de quem não quer trabalhar ou não foi capaz de mostrar o seu valor. Acreditamos que a superioridade pregada pelo capitalismo é verdadeira, por isso são legítimas as atrocidades realizadas em seu nome. Quem demonstra sua superioridade pela excelência do seu desempenho merece privilégios muito evidentes que todos os inferiores devem respeitar – e crendo nisso nos cremos muito diferentes de Hitler e tantas vezes mais esclarecidos do que ele, embora fosse essencialmente nisso que ele acreditava e sendo isso o que o movia.
A questão é que depois dos erros muito evidentes e públicos do nazismo aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros. Onde os nazistas deixaram pontas soltas, somos mais sofisticados. Ninguém deverá ser capaz de rastrear nossos cadáveres, e nossos campos de concentração produzem oportunidades ao invés de montes de cinza.
A quem ousar acusar o capitalismo de alguma injustiça estaremos prontos a lembrar que o socialismo (como se capitalismo selvagem e socialismo cego fossem as únicas opções no mercado de destinos econômicos) gerou injustiças maiores. Aos que ousarem denunciar as condições desumanas de pobres e subempregados, lembraremos que as últimas décadas testemunharam um sensível aumento nos padrões de vida do mundo inteiro, e que mesmo os mais miseráveis estão sendo de alguma forma beneficiados.
O que permanecemos ocultando habilmente, com uma habilidade que os comparsas de Hitler saberiam admirar, é que a raça superior continua a desfrutar de seus merecidos privilégios. O rótulo é diverso, mas permanecemos fundamentados na mesma ideologia e instruídos na mesma tarefa de exclusão e morte.
20% da população do planeta consomem 80% dos recursos dele.Poderíamos de comum acordo decidir ignorar, por exemplo, que 2% da população mundial retém metade da riqueza do mundo. Esqueçamos isso. Sou o primeiro a admitir que “riqueza” é um conceito muito fluido, e que o valor do dinheiro é puramente convencional. Em termos estritos, dinheiro não vale nada.
Muito mais grave, mais irreversível e criminosa é a realidade subjacente, o fato de que 20% da população do planeta consomem 80% dos recursos disponibilizados por ele – coisas como água potável, ar respirável, madeira nativa, minério, metais, petróleo e biodiversidade.
Os premiados pela performance – nós, os membros da raça superior – sentimo-nos autorizados para não apenas confiscar, mas consumir numa transação sem volta os recursos que pertencem a todos.
Este é o nosso crime, e com o tempo os tribunais da sanidade saberão nos encontrar.

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Em câmera lenta
O culto da performance
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