Aquilo que mais ou menos aprendi
Manuscritos
é que escrevemos, falamos e lemos como se as coisas fossem sólidas, e a experiência insiste em demonstrar que são fluidas.
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31 de Dezembro de 2011
Aquilo que mais ou menos aprendiManuscritosé que escrevemos, falamos e lemos como se as coisas fossem sólidas, e a experiência insiste em demonstrar que são fluidas. 01 de Outubro de 2011
Sem palavrasHomens e MulheresPode ser no entanto o momento de lembrar a única regra que, diz-se, Mae West usava e recomendava para lidar com os homens: “Diga aos bonitos que são inteligentes, diga aos inteligentes que são bonitos”. Ignoro, naturalmente, o que ela teria a dizer a mim.
Paulo Brabo, em comentário 22 de Agosto de 2011
O que você não está preparado para ouvirManuscritosDe tudo que não sinto falta na experiência do cristianismo institucional (e a lista só tende a aumentar) há três ou quatro coisas cuja mera lembrança me leva o estômago a recuar em sincera repulsa. Tanto depois, hesito mesmo mencioná-las. Aqui está uma: estar numa sala com um ou mais líderes, conversando livremente sobre qualquer assunto, até que alguém interrompe uma pausa com um suspiro e uma observação: – Mas o povo não está preparado para ouvir isso. Ou às vezes, com pureza ainda mais declarada de coração: – Pena que o povo não está preparado para ouvir isso. Nessa única frase e no silêncio solidário que a acompanhava nos congratulávamos por sermos naquela sala líderes esclarecidos tratando de assuntos controversos que uma parcela dos nossos ouvintes potenciais – dentre eles talvez você, potencialmente imaturo leitor, – não considerávamos pronta para enfrentar. Desejávamos que fosse diferente; queríamos muito que você fosse um cara maduro e que não corresse o risco de desmoronar diante do que teríamos para revelar. Mas a realidade era dura e determinadas coisas sentíamo-nos heroicamente obrigados a calar. Para poupar você. Testemunhei esta cena tantas vezes, em tantos contextos com tantos protagonistas diferentes, que tenho de concluir que pelo menos metade dos líderes e pastores de todos os matizes (e isso para mencionar só a porção evangélica do cristianismo) propaga e endossa publicamente uma versão menos controversa da sua crença do que aquela que realmente abraça, e escondem essa falsidade ideológica por trás da conveniente piedade de estarem protegendo da confusão e da apostasia a porção mais despreparada (e, supõe-se, mais numerosa) do seu rebanho. Naturalmente ninguém é obrigado a propagar aos quatro ventos aquilo em que realmente crê; eu mesmo deixei de fazer isso há muito tempo. Mas esses são caras que fizeram de propagar a sua fé a sua vocação e o seu modo de vida; são sujeitos que afirmam que o destino de cada um, inclusive o deles mesmos, depende de se abraçar e de se professar de modo sincero e consistente aquilo em que se crê. E o meu testemunho é este: grande parte desses caras (talvez a maioria) sonega da sua pregação pública aquilo em que realmente acredita. Alegam estar protegendo os mais fracos da controvérsia e da perplexidade, mas nisso protegem apenas a si mesmos. Porque, graças a Deus, o povo não está preparado para ouvir, então ninguém deve dizer. Na prática isso quer dizer que muitos pastores e líderes estão deixando de partilhar informações, convicções e dúvidas que poderiam se mostrar grandemente libertadoras para pelo menos parte de seus ouvintes. E o fazem protegidos pelo álibi da melhor das intenções. Para trazer à memória um exemplo espetacular dessa mentalidade, basta lembrar (e que seja entre nós a última vez) a omissão dos três últimos capítulos na edição brasileira de Culpa e graça, de Paul Tournier. Como ficou provado, a porção mais controversa, menos ortodoxa e mais libertadora do livro foi sumariamente sonegada dos leitores brasileiros – isso, porque, sem margem de dúvida, algum punhado de líderes decidiu muito piedosamente que aquilo “o povo não estava preparado para ouvir”. Renira Cirelli, que foi com sua irmã gêmea uma das tradutoras originais do livro, mandou-me um email alguns dias depois de ler meu artigo sobre o assunto. Sua mensagem, da qual cito a seguir alguns parágrafos, fornece confirmação para uma história que já não se requeria grande esforço para reconstruir:
Foi só desse modo, com seu conteúdo mais controverso devidamente represado, que o Culpa e graça chegou ao mercado e ao leitor brasileiro. Foi só desse modo que chegou às minhas mãos, talvez às suas: depois que gente mais iluminada do que nós certificou-se que só restava no volume impresso o que estávamos preparados para ouvir. Culpa e graça foi publicado em 1985, mas fato é que – terceiro milênio adentro – estamos longe de abandonar a mentalidade que levou à mutilação do seu texto, porque ela é alimentada pela nossa própria obsessão em infantilizar e sermos infantilizados. A questão de meses eu conversava com um editor cristão que se via diante de dilema semelhante (e de tentação semelhante) com relação à publicação da tradução de um autor contemporâneo – e tratava-se de um texto em grande parte mais ortodoxo do que o de Tournier. Ainda resta, e em todos nós, a tentação piedosa de censurar. John Stott era reconhecidamente conservador, mas opinou publicamente que o relato da criação em seis dias não deve ser tomado literalmente, e que o ser humano evoluiu a partir de formas de vida menos sofisticadas. Talvez você compartilhe dessa mesma convicção – mas concordará que essa é uma opinião que “o povo” está “preparado para ouvir”? Parte do problema, naturalmente, está na importância A própria noção de pastores e líderes requerem que eles sejam mais ou menos infalíveis, e portanto pouco controversos. Além disso, e como observa meu amigo Ivan, ninguém vai querer servir-se de um líder que não se deixe manipular; se os líderes forem sempre sinceros e honestos serão sempre imprevisíveis – isto é, permanecerão inúteis para fins políticos. Em todos os casos, será menos custoso para todo mundo se eles deixarem de dizer o que realmente pensam. Mas a contrapartida é evidente: esse pacto de silêncio acaba apenas perpetuando a infantilidade que o impulsiona e patrocina. Dito mais claramente: enquanto não ouvirem determinadas opiniões, as pessoas jamais estarão preparadas para ouvi-las. No fim das contas o que você não está preparado para ouvir talvez seja justamente isso: que o seu líder pode estar sonegando de você não só as convicções dele, mas as dúvidas dele – e isso quando por vezes basta uma dúvida compartilhada para promover uma verdadeira libertação. Por vezes a certeza de que mais desesperadamente carecemos é a de não estarmos sozinhos em nossas incertezas. Um pastor que conheço bem certa vez alertou uma ovelha sua a meu respeito: “O Paulo é gente boa; só cuidado com o que ele escreve”. O sujeito achou aquilo adorável e veio me contar. Tive de alertar eu mesmo: “Seu pastor é muito gente boa; só cuidado com o que ele não escreve“. O sujeito foi embora devidamente deliciado, e fiquei sozinho matutando o que Jesus teria dito se só tivesse dito o que estaríamos preparados para ouvir.
Leia também: 25 de Abril de 2011
EpitáfioManuscritosEscreveu-me ontem à noite o Alysson Amorim, depois de ler A entropia da instituição, para lembrar o que eu lhe disse uma vez: Deus não requer santos ou escritores; ele é mais ambicioso e requer gente. Talvez seja assim com todos: escrevemos nosso próprio epitáfio e esquecemos imediatamente, até que na hora necessária um amigo venha nos iluminar com o que sabíamos desde sempre.
04 de Março de 2009
EpígrafeManuscritosHá em Florença uma velha e respeitada fábrica artesanal, fundada em 1496, cujo produto é uma tinta azul-esverdeada usada exclusivamente na impressão de livros (as matérias-primas são fuligem, alcatrão, água do mar, corante de calamar e púrpura, cascas de cigarra, manjericão e aglutinante de figo). Em seu mais antigo manual está escrito (escândalo calculado para atingir determinada estirpe de puristas) que a tinta é artigo mais espiritual, e portanto de maior valor, do que o papel. O papel, observaram os fundadores, é sempre mudo, prosaico, parvo e passivo – em contraste com a tinta, que é fluente, alada, articulada e positiva. É o sopro da tinta que anima o papel, e nunca o contrário. O perímetro da fábrica é ligado ao pátio central por diversas galerias, e ao longo de cada galeria há três portões de ferro: um no meio e dois em cada extremidade. Ao invés de barras ou ornamentos, a gradaria de cada portão consiste numa citação latina ou inglesa escrita em letras finas e serifadas de ferro, sendo que as palavras, em diversos pesos e tamanhos, descem e ascendem arcos da mais requintada manufatura. Quem se aproxima dos portões vê portanto palavras através de palavras através de palavras, e cada portão altera, à medida que se abre ou fecha, o sentido do seguinte. Na fábrica em si não se imprimem livros, mas numa velha prensa manual reproduzem-se ainda, a partir de uma matriz ancestral, pequenas cartilhas destinadas a ensinar às crianças os perigos da leitura. Ilustrações à traço primitivo, de feitio medieval, mostram crianças pegando fogo, caindo em abismos, sendo comidas por canibais e arrastadas ao inferno pelo crime de terem aberto e vislumbrado o conteúdo dos livros anônimos que carregam em suas mãozinhas. Na fachada da fábrica, bem como na epígrafe da cartilha, espreita a frase Um livro é um homem fingindo-se de morto.
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