Sua estadia no Egito • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de julho de 2011

Sua estadia no Egito

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ABRAÃO: Sua estadia no Egito

Mal Abraão havia se estabelecido em Canaã, irrompeu uma devastadora fome — uma das dez fomes que Deus designou para castigo dos homens. A primeira ocorreu no tempo de Adão, quando Deus amaldiçoou o solo por causa dele; a segunda foi no tempo de Abraão; a terceira forçou Isaque a abrigar-se entre os filisteus; as devastações da quarta levou os filhos de Jacó ao Egito para comprar trigo por alimento; a quinta veio no tempo dos juízes, quando Elimeleque e sua família tiveram de buscar refúgio na terra de Moabe; a sexta ocorreu durante o reinado de Davi e durou três anos; a sétima aconteceu nos dias de Elias, que havia jurado que nem orvalho nem chuva cairiam sobre a terra; a oitava foi aquela do tempo de Eliseu, quando uma cabeça de asno foi vendida por oitenta peças de prata; a nona é a fome que sobrevêm aos homens gradativamente, de tempos em tempos; a décima flagelará os homens antes do advento do Messias, e essa será “não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor” 1Amós 8:11.

A fome no tempo de Abraão só prevaleceu em Canaã, e havia sido infligida sobre a terra a fim de testar a fé dele. Abraão não murmurou e não demonstrou qualquer sinal de impaciência com relação a Deus, que havia lhe dito pouco tempo antes para abandonar sua terra nativa por uma terra de privação. A fome forçou-o a deixar Canaã por algum tempo, e ele dirigiu-se ao Egito, para conhecer a sabedoria dos sacerdotes e, se necessário, dar-lhes instrução sobre a verdade.

Na viagem de Canaã para o Egito Abraão observou pela primeira vez a beleza de Sara. Casto como era, ele não havia jamais olhado para ela, porém agora, quando cruzavam um riacho, ele viu o reflexo da sua beleza na água como se fosse o esplendor do sol. Pelo que disse a ela:

— Os egípcios são gente muito sensual; vou colocá-la num baú para que nenhum mal me sobrevenha por sua causa.

Na fronteira do Egito, os coletores de impostos perguntaram o conteúdo do baú, e Abraão disse que estava trazendo cevada nele.

— Não — disseram eles, — está cheio de trigo.

— Muito bem — respondeu Abraão, — estou pronto a pagar a taxa pelo trigo.

Os oficiais então arriscaram outro palpite:

— Está cheio de pimenta!

Abraão concordou em pagar a taxa pela pimenta e não recusou a pagar a taxa por ouro, e finalmente pedras preciosas. Vendo que ele não se opunha a taxa alguma, por mais alta que fosse, os coletores de impostos encheram-se de suspeita e insistiram que ele abrisse o baú e deixasse-os examinar o conteúdo.

Quando abriram à força o baú, o Egito inteiro resplandeceu com a beleza da Sara. Comparada a ela, as outras belezas eram como homens comparados a macacos. Sara superava a própria Eva. Cada servo do faraó ofereceu um um preço mais alto para comprá-la, embora opinassem também que beleza tão radiante não deveria permanecer propriedade de um só indivíduo. Foram relatar a questão ao rei, e o faraó mandou uma poderosa tropa armada para trazer Sara ao palácio; tão encantado ele ficou com os charmes dela que os que haviam trazido a notícia de sua chegada ao Egito receberam abundantes dádivas.

Em lágrimas, Abraão elevou uma oração a Deus com as seguintes palavras: “É essa minha recompensa por confiar no senhor? Por sua graça e sua longanimidade, não permita que minha esperança seja envergonhada”.

Sara também implorou a Deus: “Ó Deus, o senhor ordenou o meu mestre Abraão a deixar a sua casa, a terra de seus ancestrais, e viajar a Canaã, e prometeu recompensá-lo se ele cumprisse os seus mandamentos. Agora fizemos como o senhor nos ordenou: deixamos nosso país e nossas famílias, e viajamos para uma terra estranha, a um povo que nos era até então desconhecido. Viemos para cá salvar nossa gente da fome, e agora esse terrível infortúnio nos sobrevêm. Ah, Senhor, ajude-me e salve-me da mão desse inimigo, e pela sua graça mostre-me o seu benefício”.

Um anjo apareceu a Sara enquanto ela estava na presença do rei, a quem o anjo não tornou-se visível, e disse que ela tivesse coragem:

— Não tenha medo, Sara: Deus ouviu a sua oração.

O rei perguntou a Sara sobre o homem na companhia de quem viera ao Egito, e Sara chamou Abraão de seu irmão. O faraó prometeu fazer de Abraão um homem grande e poderoso, e fazer em favor dele qualquer coisa que ela desejasse. Fez com que Abraão recebesse muito ouro e prata, e diamantes e pérolas, ovelhas e bois, escravos e escravas, e designou-lhe uma residência nos átrios do palácio real. Pelo amor que nutria por Sara, o faraó redigiu um contrato de casamento pelo qual lhe transferia tudo que possuía na forma de ouro e prata e escravos e escravas, e ainda a província de Gosém, a região ocupada posteriormente pelos descendentes de Sara, por ser de direito sua propriedade. Ainda mais notável, deu-lhe como escrava sua própria filha Hagar, pois preferia ver sua filha como serva de Sara do que reinando como concubina em outro harém.

Toda essa sua generosidade de nada adiantou. Durante a noite, quando o faraó aproximava-se de Sara, um anjo aparecia armado com um bastão. Se o faraó apenas tocava o calçado de Sara para removê-lo do pé, o anjo plantava-lhe um golpe na mão; se pegava-lhe no vestido, seguia-se um segundo golpe. Antes de cada golpe o anjo perguntava a Sara se tinha permissão de desferi-lo; se ela ordenava que ele desse ao faraó um momento para se recuperar, o anjo obedecia e fazia como ela lhe ordenara.

E outro grande milagre aconteceu. O faraó, seus nobres e seus servos, e até mesmo as paredes de sua casa e sua cama foram afligidos com lepra, de modo que ele não tinha como entregar-se a seus desejos carnais. A noite em que o faraó e sua corte receberam essa merecida punição foi a décima quinta noite de Nisã, a mesma noite na qual Deus posteriormente visitou os egípcios a fim de redimir Israel, os descendentes de Sara.

Horrorizado pela praga enviada sobre ele, o faraó inquiriu de que modo podia livrar-se dela. Ele consultou os sacerdotes, através dos quais descobriu a verdadeira causa de sua aflição, que também foi corroborada por Sara. Ele então chamou Abraão e devolveu-lhe a esposa, pura e intocada, e pediu desculpas pelo ocorrido, explicando que sua intenção tinha sido ligar-se por laços de família a Abraão, que ele pensava ser irmão de Sara, através do casamento com ela. Ele ofertou ao marido e à esposa ricos presentes, e assim partiram para Canaã, depois de uma estadia de três meses no Egito.

Chegando em Canaã, procuraram as mesmas pousadas em que haviam dormido anteriormente, a fim de pagar suas contas, e também a fim de ensinar, pelo seu exemplo, que não vale à pena buscar um novo lugar para se viver, a não ser quando se é forçado a tanto.

A estadia de Abraão no Egito foi de grande utilidade para os habitantes daquele país, porque ele demonstrou aos sábios da terra quão vazias e vãs eram suas concepções da realidade, tendo também ensinado a eles astronomia e astrologia, desconhecidas no Egito antes da chegada dele.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Amós 8:11
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