Sesulis • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de outubro de 2014

Sesulis

Estocado em Manuscritos

Na boca da caverna não me acomete temor nem apreensão, apenas um vago assombro – não diante da tarefa que me aguarda nem dos horrores arbitrários que espreitam, mas de mim mesmo: minha própria imaculidade, minha atordoante autonomia, meu indiscutido valor.

Desde de que Ferôdio tombou em Êlia e, quem sabe muito antes, maior que eu não há homem sobre a terra. Minha própria sombra, seja num terraço de Creta ou num campo de batalha em Hipossos, aponta incessantemente para o mais temido, o mais temível, o mais incansavelmente desejado dos homens. Um mortal que tem mais estátuas que juntos todos os deuses, mais santuários que o divino casal de Elêusis, mais devotos que os touros de Poreleno e mais iniciados que o bode de mil filhos.

As crônicas das nações desconhecem campeão mais generoso, guerreiro mais mortal, amante mais habilidoso, cínico mais hábil. Os hierofantes me apresentam sem me conhecer, defendem-me os filósofos que venci, cantam-me o vigor poetas que só me conhecem de ouvir falar. À minha passagem desfalecem as donzelas, palpitam soldados, gritam em êxtase as crianças, rendem louvores e despem-se as vestais.

Apenas minha fama é, concebivelmente, maior do que meus feitos. Temem-me os peixes, os monstros do mar e os rios; fogem de mim as nuvens, e rumorejam de temor as tempestades. A meu abraço cedem os pulsos dos gladiadores; as feras do campo rasgam o peito para não terem de sentir-me a espada; ao meu esplendor os dragões saltam como lêmingues dos penhascos e a medusa desvia o olhar.

Derrubei monstros, sangrei heróis, cuspi no copo de reis; reparei uma multidão de injustiças e distribuí magnanimamente inimagináveis despojos. A hidra não desconhece meu punho, o rei do mar já tremeu sob meu pé descalço. Não há sacerdotisa ou monarca que não me unja com óleo a nudez; não há homem, mulher ou imortal não pronto a voluntariamente reclinar-se no meu leito, em reverência e tremor silente e gratidão. Semideus algum resistiria ao meu afago; inimigos suicidam-se com a notícia falsa da minha chegada, heróis choram de alegria ao toque da trombeta do meu resgate.

A cada lua nova encenam-se em Kerameikos peças em minha honra; epopeias inteiras celebram, obsessivamente, um único golpe da minha espada; os nubentes de Mora consumam seus votos recitando poemas eróticos que celebram as revoluções dos cabelos do meu peito. Desci ao inferno não uma, mas três vezes. Já usei o relâmpago como arma e a tromba d’água como alforje. Venci exércitos. Decifrei todos os enigmas de Kalathos, resolvi as charadas de Sândalo, interpretei os mais intricados pesadelos de Minos. Tornei-me parceiro notório dos deuses e favorito dos oráculos. Meus oponentes beijam-me os pés, meus amigos beijam-me a boca, meus seguidores beijam o céu.

Ajeito a sandália, sinto o metal frio contra a perna e penetro a escuridão e o aclive.

A caverna de Antesterion é impossivelmente profunda, recortada e repleta de perigos. Ilumina-me o caminho apenas o brilho das pupilas, o fulgor de Apolo que trago no semblante. A grande sacerdotisa de Eleli, nua e com os dedos manchados de sangue sob um rubente baixo-relevo de Demétrio e Perséfone, oraculou-me há dois dias que aguarda-me no exato fundo da caverna o secreto muro de Antesterion; minha tarefa, minha única tarefa, consiste em interpretar sua inscrição.

Conheço a linguagem dos oráculos e não espero encontrar um muro literal ou uma literal inscrição; talvez me aguarde um guardião severo com seu enigma, um esplêndido monstro abraçado a seu tesouro, um arcado ciclope, uma tatuagem.

Vencida a tremenda distância (não sei dizer se passei aqui menos de um mês) encontro finalmente o fundo da caverna e, no preciso centro de uma clareira quase circular, um simples muro, literal, de terra batida. Não é muito mais alto ou mais largo do que eu, e nada separa, porque não chega a tocar as bordas da caverna.

Acendo uma das seis estrelas de Anquises para servir-me de sol e caminho ao redor do muro de Antesterion, desalojando com as sandálias a poeira de osso que reveste a clareira. Vem-me à mente a linha de Iohannes Lupínio, “a poeira dos ossos são a areia do relógio de Cronos…”

Percorro com os dedos as cinco faces do muro, mas não há inscrição alguma. Examino em vão as paredes de pedra ao redor em busca de algum sinal, alguma brecha. Afundo os pés descalços e a ponta da espada na poeira de osso, em busca de um aro, uma chave, um alçapão. Nada me espera. Não há ruído algum e em nada me provocam as narinas. Surpreendentemente, não há ninguém aqui. Nenhum guardião, nenhuma inscrição, nenhum enigma a não ser a ausência do enigma.

Sento-me com as pernas cruzadas diante do estéril muro de Antesterion. Fixo os olhos na malha de terra batida; prendo a respiração e volta-me à mente o poema de Iohannes. “Não dês atenção à escrita na parede; vazias parecem as palavras porque de fato nada há ali…” Hora e meia depois, quando finalmente desvio o olhar para a estrela que está expirando rubra nalgum canto, penso vislumbrar finalmente uma mensagem, não mais do que duas ou três palavras em letras grandes, definidas em vago contraste contra o restante do muro. Quedo imediatamente imóvel, mas não consigo distinguir as letras e não posso olhar diretamente para elas.

Não chegarei a ler as palavras se não acentuar esse contraste, reflito comigo mesmo, e não chegarei a interpretar a inscrição se não ler as palavras. Haverá um momento antes que a estrela se extinga, decido, quando a distinção entre a inscrição e o resto do muro alcançará seu apogeu, e nesse momento poderei ver as palavras e conhecerei a mensagem.

“Agora”, digo a mim mesmo, e as palavras da inscrição do muro de Antesterion se definem por um único, certamente irrecuperável instante. Jamais saberei o que dizem, porque por algum descuido não presto atenção nelas; tudo que consigo ver nesse momento é aquilo que jamais vi, o espaço ao redor da mensagem, o vasto espaço negativo que circunda as palavras, o espaço de muro que define as letras – e nesse terrível momento tudo muda e estou vazio do universo e de mim mesmo, a realidade se esgota e desabo sobre o pó dos ossos sem encontrar qualquer diferença de essência entre eles e eu mesmo. Compreendo que tenho vivido enganado, terrivelmente enganado. Perco por completo, num único golpe, toda a fé. Torno-me inteiramente incapaz, e sei que para sempre, de crer no que sempre me pareceu natural: que as palavras são mais reais do que o branco do pergaminho; que o monstro é mais horrendo e vertiginoso que o não-monstro; que a solução do enigma é de algum modo maior ou mais singular que todas as respostas que não correspondem à pergunta. Eu, que nunca temi qualquer mensagem, tremo impotente diante da vastidão da não-mensagem, o esmagador espaço negativo ao redor de todos os significados.

O que me levou a crer que as palavras significam alguma coisa, qualquer série de palavras, quando é o espaço negativo ao redor das letras, quando é todo o restante do universo, que precisamente as define? Que espírito me levou a crer na farsa perversa da identidade, quando o universo que não é o herói, o universo inteiro que não sou, é que me credencia e me possibilita? Sou definido e contido e moldado pelo espaço vazio ao redor de mim, e o pensamento é inconcebível e descaracterizador e mortal.

Interpretei a inscrição do muro de Antesterion, e fui vencido por ela.

Publicado originalmente em 23 de outubro de 2006

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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