Seiva • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de Abril de 2010

Seiva

Estocado em Manuscritos

As nuvens pardas do entardecer, em disposição oblíqua de exército invasor, eram quase a única desobediência no cenário da cidade reformada, comparada à foto de referência ampliada na lateral do caminhão.

Na rua de paralelepípedos que acabara de deixar para trás, sob a supervisão de um homem de bigode ruivo que parecia extrair daquilo mais prazer do que deveria, um bando de meninos de calças curtas e pés descalços estava aprendendo a fumar. O mais velho dentre eles, que não tinha como ter mais de dez anos, trazia apertado no sorriso um cigarro de papel que o homem acabara didaticamente de enrolar e acender. Debaixo de uma boina verde grande demais para o seu tamanho, subitamente livre agora que descobrira que não precisava das mãos para fumar, o menino testava sua força alçando e mudando de lugar uma caixa de madeira cheia de garrafas de leite. Apesar das risadas nervosas e do entusiasmo incontido, era evidente que levavam todos muito a sério a sua tarefa. Ela balançou a cabeça e decidiu que, em sua postura imaculadamente masculina, diferiam provavelmente muito pouco dos originais.

O contêiner de madeira que continha o escritório que ela procurava era o penúltimo de uma longa fileira; haviam sido montados sobre o acostamento de uma alameda que ela não conhecia, uma rua que há menos de um ano jazia soterrada sob a área de lazer de um condomínio com meia dúzia de prédios baixos de apartamentos. Ela tinha uma amiga que morara num daqueles prédios, com um marido francês de antebraços enormes, numa cobertura com quatro suítes. Quatro suítes pequenas.

Quando disseram que esperasse um minuto para ser atendida ela puxou um banco escamoteável que se abria diretamente de uma das paredes e sentou apertando as alças da bolsa com as duas mãos. Os únicos móveis dentro do contêiner eram uma cadeira, uma lixeira e uma escrivaninha. As paredes eram encaixadas como num jogo de montar, e o fio do qual descia a lâmpada deslizava por uma canaleta de borracha semi-aberta; bastava um puxão para desmontar tanto uma coisa quanto a outra. Tudo feito para ser removido dali rápido e sem traumas, quando fosse necessário. Nenhum computador, nenhum telefone, nenhum rádio, nenhum quadro de avisos, nenhuma tomada, nenhum ornamento ou decoração. A madeira recendia a seiva e ela esperava sozinha.

O oficial que analisou os papéis que ela trazia devia ter menos de trinta anos, tinha a cabeça raspada e estava à paisana. Ele escondeu a boca no punho fechado mais de uma vez, num gesto de desespero burocrático que ela conhecia de encarnações prévias do mesmo funcionário genérico em outras repartições como essa.

— Sinto muito — ele finalmente se pronunciou, dirigindo-se aos papéis e não a ela, e falava com o misto de gentileza, atitude corporativa, paternalismo e distância que ela aprendera a rigorosamente odiar nessas últimas semanas, — mas no seu caso nada pode ser feito. É tarde demais.

— Alguém deve saber como rastrear esse documento — ela disse. — Me garantiram que nenhuma correspondência foi destruída.

Ela apontou sem olhar, a título de confirmação, para algum protocolo que ele trazia cegamente nas mãos.

— Ainda não — ele acentuou as palavras, e só então ergueu os olhos da papelada e voltou a olhá-la nos olhos. — Temos aqui o número do documento, isto é certo; mas a senhora sabe, todos os sistemas já estão fora do ar. Não resta um terminal, e mesmo se houvesse, garantem-me que as centrais estão sendo desmontadas. Não temos como rastrear isso.

— Mas o documento está em algum lugar.

Ele assentiu.

— Sim, e essa é a essência do problema. Ele pode estar em qualquer lugar. E, falando sinceramente, não temos tempo de descobrir. A quantidade de —

— Eu tenho tempo — ela esclareceu.

— Minha senhora, acredite em mim: a senhora não tem. Ninguém tem — e foi devolvendo os papéis ao envelope, sem nenhum cuidado e fora de ordem.

Ela estendeu dois dedos e usou-os para fixar a mão dele sobre a mesa, como se fosse um animal peçonhento, impedindo-o de continuar; ele paralisou ao toque dela, ambos achando aquela minúscula intimidade igualmente repulsiva.

— Meu marido morreu numa guerra que não era dele — a voz dela saiu muito mais gentil e dócil do que os dois esperavam, mas não menos definitiva — para tornar isso tudo possível. Antes de morrer ele me escreveu essa carta, essa única carta. Será pedir demais que alguém neste mundo de merda me ajude a encontrá-la?

— O Governo Provisório tomou medidas muito claras para evitar esse tipo de constrangimento — desculpou-se o homem, tentando livrar a mão sem sucesso. — O período de transição não foi pequeno, houve mais de um mês de remissão, e todos os prazos foram amplamente divulgados.

— Não na linha de frente.

— Não na linha de frente — ele livrou a mão e estendeu-lhe o envelope.

— Um homem que amo mais do que a vida me escreveu uma carta — ela declamou. — Essa é a última coisa que tenho dele, e essa coisa ninguém pode tirar. Não importa o que você venha me dizer, o que o Governo Provisório venha me dizer, a carta está em algum lugar. Não está perdida enquanto eu puder encontrá-la.

— Minha senhora, a senhora… — ele estava pronto para explicar, em terrível nível de detalhe, as pesadíssimas impossibilidades daquela empreitada, mas num relance entendeu que ela também entendia, que intuía ou podia recitar de antemão o que ele estava prestes a dizer. Nos olhos da mulher ele viu que o que ela buscava não era mais estritamente a carta de um homem morto, mas um artefato pelo menos tão raro: um ser vivo que entendesse que o que lhe restava era a busca e que não lhe negasse esse último direito. Ele brincou por um instante com a ideia cruel e misericordiosa de remover-lhe por completo as esperanças (ele afinal de contas sabia mais do que ela; ele não tinha sequer autorização para revelar-lhe o quanto sua busca era inútil), mas por fim abriu a gaveta de escrivaninha e puxou um bloco de notas.

A mulher partiu com um nome e um endereço apertados num papelzinho numa das mãos. Atrás dela os escritórios eram desmontados e suas partes içadas aos caminhões; em dez minutos não havia ali mais nada, e um homem passou de bicicleta.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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