A falta que Deus faz

Existindo fora e acima da narrativa oficial, Deus encontrava prazer em contestar as alegações de justiça e de suficiência das soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens

Parte essencial da imagem que o ocidente faz de si mesmo é que nos consideramos desde sempre mais lúcidos e esclarecidos do que o resto do mundo.

Por quase dois milênios o orgulho ocidental esteve fundamentado no fato de sermos os legítimos bastiões da fé num mundo de resto cheio de incrédulos e pagãos. Como não há narrativa sem paradoxo, hoje em dia nos orgulhamos do contrário: de sermos aqueles que abandonaram as ilusões da religião num mundo de resto cheio de crédulos e fanáticos.

Os abusos do Estado Islâmico servem, em particular, como lembrete do quanto devemos nos congratular e dar tapinhas de aprovação nas costas uns

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A ameaça da alegria

 

Em meus anos de teatro amador (leia-se teatro de igreja) acabei avançando rumo à mais paradoxal das conclusões. A pessoa comum sente-se mais ou menos à vontade para interpretar a tristeza, a perversidade e a fúria, mas irá sentir-se verdadeiramente violada se tiver de levar ao palco a alegria. Atores amadores estão prontos para encarnar os tentados, os atormentados, os drogados, as prostitutas, os maus e os infelizes, mas é absolutamente trabalhoso fazê-los enfrentar mais de um minuto de um final feliz. Estão prontos para o Rei Lear, mas não para Sonho de uma noite de verão.

O amador sente – ou pelo menos alega – que

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Novo Testamento: a supremacia (e o caráter subversivo) do amor

No Novo Testamento a lógica do sexo como ritual de dominação é menos explícita, mas permanece sendo importante substrato (uma daquelas realidades sociais tão unânimes que permanecem ocultas, subindo poucas vezes à superfície da consciência ou do discurso) todas as vezes que o assunto é mencionado ou aludido. A questão é na verdade de importância fundamental para os autores do Novo Testamento, porque a mensagem de Jesus e sua boa nova são interpretadas por eles como representando um chamado universal ao abandono dos mecanismos de controle e manipulação que compõem o sistema deste mundo.

A linhagem interrompida

Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
Mateus 1:1

 

Antes de nos aproximarmos dessa conclusão poderá ser útil que nos detenhamos por um momento diante desta única ideia: o quanto o conceito de perpetuação – perpetuação da herança, perpetuação da história e dos valores, mas acima de tudo perpetuação da linhagem – está incrustado na noção de família (e portanto de valor) que prevaleceu ao longo dos milênios.

Uma família, no sentido tradicional, é uma máquina construída para repetir e multiplicar sucessos; porém, mesmo quando tudo dava errado numa determinada derivação da história

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O acalentado conforto da proibição

 

Só os grandes articuladores da fé, que vivem e pensam em esferas distantes da multidão, é que falam da sua religião em termos profundos e categorias teológicas. Para uma pessoa normal, ou para alguém que observa de fora, uma religião é mais claramente definida pelas suas proibições.


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