Sobre o manejo eficaz da culpa econômica

Finalmente conseguimos: o Brasil é um exemplo para o mundo.

Não faz ainda três anos, um consórcio internacional de amigos meus decidiu, com a minha conivência, que o Brasil estava no topo da lista dos lugares do mundo em que era menos provável que o fascismo levantasse a sua cara.

Ah, se estávamos errados. Fascismo, só para tirar a sua dúvida, é quando mães são agredidas porque seus bebês estão usando roupas da cor errada. Não deve haver dúvida: quando parte que seja da população acredita poder determinar quem tem razão através de um código de cores, o tecido social está já bem rompidinho.

Outra indicação da vitória do Continue lendo →

Diaz

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Diaz, Paulo Brabo | Clique no triângulo para ouvir

Este é o tema que escrevi para o protagonista de uma comédia musical que deixei inconclusa em 1998, e que deveria se chamar A igreja fantástica de Jackson Diaz.

Na história, um trilionário jovem, excêntrico e idealista vira crente, e sua interferência bem-intencionada mas extravagante começa a por à prova as tradições de uma igreja local. Sua iniciativa mais controversa é premiar com um salário a frequência dos Continue lendo →

O que há de errado (e de bom) no capitalismo

Foto: Alexey Titarenko

O trajeto usual é este: quem se aproxima do socialismo é porque sente que há algo de errado com o capitalismo.

Como neste mundo o capitalismo é praticamente tudo que existe, é relativamente raro que as pessoas enxerguem no sistema (que é o seu mundo) falhas que as levem a concluir que o sistema precisa ser revisto ou substituído. Essa infrequência tem diversos motivos, mas deve-se antes de tudo à profundidade das transformações que o regime capitalista produziu no rastro da sua ascensão.

O capitalismo existiu em regime embrionário em todas as gerações dos homens, mas foi por milênios contido por restrições técnicas, morais Continue lendo →

O mundo ao reverso (e outros versos)

Nada é mais sério do que uma festa: nada concilia e emblema melhor a dupla paixão humana pela liberdade por um lado e pelo ritual por outro. Uma festa é um dia programado para ser fora do programa, e essa contradição encarna mais do que qualquer outro aspecto da cultura os contrastes da condição humana.

Os antropólogos entenderam há muito tempo o engano que seria continuar dividindo festas populares entre sagradas e profanas, visto que cada festa que encontrou ocasião de se entremear no calendário das gentes celebra a seu modo uma entrada no domínio do que não pode ser dito, visto ou explicado: o domínio do sagrado, que só pode Continue lendo →

O gerenciamento da esperança [3]

Em sua carta o Oliver esboça duas heranças ideológicas: de um lado a linhagem de Caim, gananciosa e otimista, que ignora a fragilidade e as contradições da condição humana e insiste em construir, cercar, organizar, produzir, conquistar, ampliar, ordenar e progredir (Ordem e Progresso!); do outro, a linhagem de Sete, lúcida e desiludida, que reconhece tanto a sua insuficiência quanto o potencial destrutivo da sua condição, pelo que avança um dia após o outro com toda a cautela, esperando misericórdia de Deus ou do universo. Caim é produtividade, Sete é responsabilidade.

A festa do fim do mundo

Na cultura popular de tradição europeia o tipo de cenário mais importante era o do festival: festivais de família, como casamentos; festivais comunitários, como a festa do padroeiro de uma cidade ou paróquia; festivais anuais que envolviam a maior parte dos europeus, como a Páscoa, a Festa da Primavera [May Day], o solstício de verão [Midsummer], a Quadra Natalícia [Twelve Days of Christmas], o Ano Novo e a Epifania; e, finalmente, o Carnaval. Eram ocasiões especiais em que as pessoas paravam de trabalhar para comer, beber e gastar tudo que tinham.
Peter Burke, Popular Culture in Early Modern Europe

A peleja do Carnaval com a Quaresma

Óleo de Pieter Bruegel, datado 1559.

Esse título – A peleja do Carnaval com a Quaresma, – ainda que o li pela primeira vez esta manhã, é o subtítulo que a Bacia nasceu para ter.

Na tradição europeia, o Carnaval era a temporada de excessos e glutonaria que precedia a temporada de austeridade e jejuns que culminava na Páscoa. Em alguns casos a oposição era celebrada ostensivamente num festival (de Carnaval), em que Carnaval e Quaresma, personificados, batalhavam pela alma do povo.

A necessária reviravolta: entrou em cena a Reforma, e ambos os lados perderam.


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