Manuscritos estocados sob a rubrica 'Recomendações'
20 de Novembro de 2010

O poeta e o pescador

Gírias e Falares, Livros

Meu pai, pode ser necessário lembrar, usa o termo “poeta” como insulto. Encontro em Luis da Camara Cascudo – Geografia dos mitos brasileiros, prefácio – um uso análogo:

Nas praias do Rio Grande do Norte, poeta é sinônimo de bicho-de-pé. “Estou aqui vendo se tiro esse poeta”, respondeu um pescador a Henrique Castriciano que lhe perguntara por que estava escavacando os dedos com uma ponta-de-faca.

* * *

O livro oferta ainda generosidades como esta: “O sertão respira [atualmente] pelas mil bocas das estradas e paga o conforto da eletricidade com o esquecimento das estórias antigas e saborosas”.

15 de Novembro de 2010

15 de novembro

Brasil, Livros

e os cinco volumes da História da Prostituição no archive.org.



Notavelmente ampliada e enriquecida desde 1889.

* * *

HISTÓRIA DA PROSTITUIÇÃO
EM TODOS OS POVOS DO MUNDO
DESDE A ANTIGUIDADE ATÉ OS NOSSOS DIAS
Obra necessaria aos moralistas,
util aos homens de Sciencia e Lettras
e interessante para todas as classes

ILUSTRADA COM PRIMOROSAS GRAVURAS

Para ler e baixar clique aqui.

06 de Novembro de 2010

Adagio

Recomendações

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Do concerto para piano e violino de Mendelssohn.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

29 de Outubro de 2010

O advento do Scrivener

Recomendações

Não custa repetir: o MS Word não foi feito para escritores. Se quer escrever um livro ao invés de uma carta ou um relatório, você precisa ao mesmo tempo de muito menos e muito mais do que o MS Word foi desenhado para oferecer.

Como máquina de escrever, tenho usado o writemonkey (gratuito), e para organizar séries mais longas, o Notebox Disorganizer (gratuito). Nem mesmo o Disorganizer, no entanto, foi capaz de me ajudar a levar avante projetos mais complexos (sim, estou falando com você, Ciro).

Para levar avante projetos como esse, fiquei sonhando por mais de dois anos com o lançamento da versão para Windows do mítico Scrivener (US$ 40,00), o mais desejado dos programas desenhados para escritores, que até agora estava reservado para os usuários do Mac.

Projetado para acompanhar autores em projetos de qualquer complexidade, o Scrivener gosta de deixar que você componha o seu texto (seja poema ou odisseia) em porções menores que podem ser tão pulverizadas quanto você quiser (seja um capítulo ou um parágrafo) e rearranjadas (via outline ou cartões num quadro de cortiça) como melhor lhe parecer. Em qualquer momento as unidades que compõem o seu texto/projeto podem ser visualizadas e editadas individualmente ou em conjunto, e ainda exportadas para destinos menos nobres como o Word.

A notícia que venho dar é que a primeira versão beta/teste do Scrivener para Windows acaba de ser lançada, e pode ser baixada aqui. O programa fala inglês, mas seu grau de desajuste com a língua não deve impedi-lo de tentar.




Nem sei o que dizer.

Visite:
Scrivener for Windows

17 de Outubro de 2010

Uma encruzilhada de humanidades

Goiabas Roubadas, Grandes Navegações

Desconstruir concepções infundadas e preconceituosas é talvez a aventura mais extraordinária e comovente que vivo na Europa. Uma a uma, diversas idéias tortas que trouxe comigo do Brasil são sistematicamente moídas.

[...]

Ah, quão maravilhoso é o tempo em que meu coração fica aberto à humanidade alheia, em que vivo o tempo de que fala Drummond, no poema “Mãos Dadas”:

O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
A vida presente

Quantas experiências e pessoas lindas eu tenho visto nesse tempo presente…

O judeu suíço que, terminado seu estágio no hospital em que trabalho, me deu um ótimo armário que ficava em sua casa… E ainda me ajudou a trazê-lo (de metrô) ao meu apartamento, que fica no sexto andar de um prédio sem elevador. Não recebeu nada em troca: foi movido somente pela amizade.

A moça tcheca que, sabendo que eu visitaria Praga durante alguns dias, me dá as chaves de seu apartamento para que eu dele usufruísse. A explicação para tão nobre gesto é infinitamente bela na sua simplicidade: ela o fez apenas por me ter como amigo. Nada mais do que isso.

A jovem parisiense, sempre atolada de atividades, mas sempre generosa, que encontrou um tempo precioso para reler minha monografia de fim de curso e corrigir meu francês espaguetônico.

A médica italiana que deu três meses de sua juventude para cuidar de crianças pobres no sertão pernambucano.

O filósofo ateu que, há mais de dois anos, ao me alugar o studio, vê minhas evidentes dificuldades no idioma e vai paternalmente comigo até o banco, me ajudar a abrir uma conta.

A norte-americana estudante de arte, elegante e culta, que me brindou com a dádiva de uma amizade sincera.

O casal chileno que não me deixou sozinho no meu primeiro Natal no hemisfério norte, convidando-me para cear com eles.

A colega muçulmana que, tendo ganhado uns convites de cortesia, propõe-me a assistir a um concerto de música clássica.

O paciente egípcio que beija a mão da fonoaudióloga que o atendeu, em sinal de gratidão.

O rapaz francês que sempre se lembra deste perna-de-pau que vos escreve na hora de organizar a pelada do fim de semana.

Ah, Houellebecq, se você – e todos nós – abríssemos os nossos olhos e nos dispuséssemos a ver!

Entenderíamos que o mundo é uma maravilhosa encruzilhada de humanidades, repleta de um caleidoscópio de pessoalidades lindas e incoerentes, sujas e mágicas.

Perceberíamos brasileiros truculentos, mas contemplaríamos entre eles muitos brazucas gentis e cultos; enxergaríamos franceses doces em meio a outros ranzinzas.

Compreenderíamos que a nacionalidade, a etnia ou a religião a que pertencemos não são as raízes de nossas virtudes e defeitos; na verdade, nada disso nos faz melhores.

Vislumbraríamos que não há brasileiros, nem franceses, nem negros, nem árabes, nem judeus, nem católicos, nem protestantes, nem homossexuais, nem heterossexuais. “Existe é homem humano”, lembra Riobaldo. E existem essas minhas lágrimas que, ante a contemplação do homem, escorrem neste meu rosto crispado de humanidades.

Leonardo de Souza, falando da Terceira margem do Sena.
Minas ainda existe.