A heresia secreta
Heresias Sensacionais, Homens e Mulheres, Livros
Há bons bestsellers e maus bestsellers. O Código Da Vinci, de Dan Brown, é um bom bestseller: fácil de consumir mas não de descartar, pretensioso mas levíssimo, marcado por um ritmo impecável, alguma sofisticação de estilo, abordando um tema pseudo-erudito ao mesmo tempo em que evita as armadilhas mais fáceis do pedantismo. Não há como deixar de admirar a esperteza do escritor, que requentou idéias que circulavam há muito tempo e amarrou-as num pacote cuja atração – sobre mim, pelo menos – é irresistível enquanto dura.
Está certo que, estruturalmente, O Código é uma única cena de perseguição estendida por cem capítulos. Está certo que os personagens são estereotípicos, a caracterização nenhuma, as probabilidades forçadas, a geografia incorreta, a teologia conspiratória, a acuracidade histórica risível, os procedimentos policiais, aéreos, alfandegários e judiciais absurdamente inexatos. Mérito maior do autor, cuja habilidade faz o leitor mais cético (este sou eu) passar por cima de tudo isso [quase] todo o tempo, deixando ainda um sabor agridoce de apressada originalidade. Não importa o que se pense do resultado, trata-se de um sujeito que fez bem o que propôs-se a fazer.
Ainda mais vantajosa para o sucesso do Código foi a miríade de livros que surgiu na sua cola para refutá-lo. Tratam-se, veja bem, de esforços para refutar uma obra de ficção – não creio que algo parecido tenha acontecido, em grau significativo, em qualquer outro momento da história.
A indignação contra as baboseiras históricas contidas no livro é de certa forma justificada; afinal de contas, algum leitor desavisado do Código pode de fato acreditar que, na teologia primitiva dos judeus, Deus de fato mantinha relações sexuais com sua esposa, a Shekiná. Essa é apenas uma das “informações” do livro que, embora não sobreviva ao exame histórico mais superficial, pode acabar passando por verdade. Funciona para manter a história andando, mas aqui, fora do livro, posso garantir que o Deus da Bíblia – para eterno constrangimento de seus concorrentes – não tem e nunca teve vida sexual. A shekiná é sua glória, seu esplendor, um de seus atributos – e o menos informado dos hereges não ousaria interpretá-la como sendo sua consorte.
O livro está correto quando defende a tese de que o Deus dos judeus (e por tabela o dos cristãos e muçulmanos) esforça-se consistentemente para dissociar sexo de adoração, ao contrário do que fazem inúmeras religiões antigas e contemporâneas. Segundo o Código, o motivo dessa dissociação com o sexo é que o Deus cristão é uma aberração machista criada artificialmente para diminuir a importância do papel da mulher na sociedade e no culto. O motivo, na verdade, é menos romântico e mais pessoal: nas religiões que promovem ritos de fertilidade (como por exemplo as promíscuas religiões de Canaã, que a Torá não se cansa de condenar), o sexo ritual é usado como meio de manipulação da divindade. Os ritos sexuais servem como modo de extorquir fertilidade e prosperidade dos deuses associados a elas – e um traço fundamental do caráter do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é que ele não se deixa extorquir. Deus não faz barganhas, e não quer que seu povo recorra ou acredite que qualquer esforço humano possa garantir o favor espiritual da divindade. Pelo mesmo motivo Deus baniu da vida de Israel qualquer associação com a magia e a mediunidade.



