Manuscritos estocados sob a rubrica 'Livros'
14 de Novembro de 2007

Deve fazer pelo menos cinco anos que não vejo a última página de um livro. Na verdade, grande parte dos livros na minha mesa de cabeceira comecei a ler bem antes disso, e permanecem aguardando pacientemente pela atenção que não sei quando vou dar.
Deve significar alguma coisa, portanto, que terminei em dois dias a leitura de Uma Ortodoxia Generosa do líder emergente Brian McLaren, publicado no Brasil pela editora Palavra.
Mais generosa do que eu jamais seria ou recomendaria ser, Uma Ortodoxia Generosa é porém perfeitamente ortododoxa em sua heterodoxia. Basta verificar o efeito acumulado dos títulos de alguns capítulos: Por que sou evangélico, Por que sou pós-protestante, Por que sou bíblico, Por que sou liberal/conservador, Por que sou fundamentalista/calvinista, Por que sou metodista, Por que sou católico, Por que sou verde, Por que sou depressivo-mas-esperançoso, Por que sou emergente, Por que sou não-acabado.
Dito de outra forma, Por que você deve ler este livro.
Estou cada vez mais convencido de que Jesus não veio começar outra religião ou competir no mercado religioso. Creio que ele veio extinguir o padrão de competitividade religiosa (que Paulo chamou de “lei”) ao cumpri-lo.
À luz disso, embora eu não espere que todos os budistas se tornem cristãos (culturais), espero que todos que se sintam chamados se tornem budistas seguidores de Jesus; creio que eles deveriam ter essa oportunidade e receber esse convite. Não espero que todos os judeus ou hindus se tornem membros da religião cristã. Mas espero que todos os que se sentirem chamados se tornem judeus ou hindus seguidores de Jesus.
Finalmente, espero que Jesus salve o budismo, o islamismo e todas as outras religiões, incluindo a religião cristã, que na maioria das vezes parece carecer tanto de salvação quanto qualquer outra religião. (Nesse contexto, desejo que todos os cristãos se tornem seguidores de Jesus, mas talvez seja pedir demais).
18 de Julho de 2007
Já li mais livros sobre técnicas de administração, gerenciamento de pessoas e sucesso corporativo do que meu estômago pode suportar impunemente; cheguei, perdoem-me os céus, a traduzir alguns. No meio desse lodaçal de mediocridade e redundância a exceção mais brilhante permanece sendo (não julgue o livro pela capa - ou pelo título) Consultoria - O Segredo do Sucesso, de Gerald M. Weinberg (The Secrets of Consulting, publicado no Brasil pela McGraw Hill em 1990, esgotado).
Weinberg é um cara peculiar. Consultor de tecnologia da informação, sua curiosa especialidade (se é que posso atribuir-lhe essa falha; a especialização é sempre uma desvantagem, particularmente num consultor) é a psicologia e a antropologia do desenvolvimento de software. Mais recentemente Weinberg abandonou a estante de não-ficção e começou a escrever histórias de ficção científica, argumentando que a narrativa é a forma mais poderosa de comunicação e de transformação entre seres humanos.
Como descrever o estilo do sujeito? Fluente? Bem-humorado? Xamânico? Tangencial? O subtítulo original de O Segredo do Sucesso explica um pouco melhor a pegada universal do estilo de Weinberg: Um guia para se dar e se receber conselhos de forma bem sucedida.
Consultor é o improvável profissional que recebe dinheiro para dar conselhos a empresas. À primeira vista, pode parecer que o segredo do sucesso do consultor está em ser capaz de [1] diagnosticar com acerto a condição de uma instituição e [2] delinear as recomendações adequadas para reverter ou aprimorar essa situação. Segundo Weiberg, essa é a parte fácil. Difícil mesmo, e particularmente arriscado para a reputação do consultor, é [3] fazer com que a empresa implemente as mudanças que você afirma que são necessárias.
Certifique-se de cobrar o bastante para que coloquem em prática as suas recomendações.
Uma das regras essencias da consultoria segundo Weinberg é, portanto “certifique-se de cobrar o bastante [como consultor] para que [aqueles que estão contratando você] coloquem em prática as suas recomendações”. Caso contrário, se o serviço do consultor não parecer “caro o bastante” para aqueles que o estão contratando, esses poderão sentir-se tentados a não levar a sério as sugestões dele - pelo menos não ao ponto de fazerem o esforço final de colocarem-nas em prática.
Ser barato demais é, portanto, pecado mortal para a reputação e para a eficácia de um consultor. Ele corre o risco de não ver implantadas as soluções que sabe necessárias. Quando estiver vendendo conselhos portando, vale a regra: na dúvida, cobre mais caro.
* * *
Nisso está, naturalmente, o mecanismo segredo do sucesso das religiões que aliam promessas atraentes a regras rígidas, padrões exigentes de comportamento e rituais elaborados e repetitivos. Quanto maior for o preço comportamental exigido pela religião, maior é a probabilidade de que o cultuante sinta-se inclinado a acreditar nas suas sugestões.
Quando for inventar uma religião, portanto, certifique-se de cobrar o bastante para que as pessoas que estão pagando em renúncias pessoais e ofertas monetárias acreditem nos conselhos que você está dando.
Aqui reside, obviamente, a falha fundamental no planejamento de marketing do cristianismo: o fato de estar fundamentado na graça - ou seja, em preço nenhum. Como Jesus não cobra nada, ninguém sente-se nem de perto tentado a levar a sério o que ele diz - quanto mais colocá-lo em prática. O barato sai caro, porque ninguém quer comprar.
Melhor seria para os cristãos, antes que nos vejamos obrigados a fechar a porta da lojinha, contratar um consultor que nos ensine a vender por bom preço o que Jesus está oferecendo de graça. Afinal de contas, será com a melhor das boas intenções: Jesus terá os convertidos que quer, o crente será poupado da liberdade que não quer e nós idealizadores desfrutaremos apenas da recompensa pecuniária pela nobreza dos nossos esforços.
Todo mundo sairá ganhando - se isso não é graça, não sei dizer o que é.
geraldmweinberg.com
25 de Junho de 2007
Devidamente iluminado por Carl Jung, o antropólogo Joseph Campbell enxergou um dia o que tinha passado despercebido por incontáveis gerações de seres humanos: que todo os mitos e todas as lendas e todos os épicos e todas as narrativas sagradas de todas as culturas da humanidade contam essencialmente uma mesma história. Intuiu, maravilhado, que todas as narrativas com peso universal, de Adão a Homer Simpson, passando por Dom Quixote, o Homem-Aranha, Abraão, Dante, Darth Vader, Buda, Frodo, Jesus, Gandhi, Osíris, Harry Potter, João Grilo, Enéas, Hamlet e os formidáveis protagonistas de Gladiador e O Sexto Sentido, descrevem incessantemente a mesma trajetória primordial do mesmo herói primordial - figura que esconde-se por trás de diferentes máscaras mas aponta na eternidade para uma mesma verdade espiritual: a nossa.
Quer escutemos a arenga de um feiticeiro do Congo ou leiamos a tradução de um soneto místico de Lao-Tsé; quer decifremos o sentido de um argumento de São Tomas de Aquino ou entendamos o sentido de um conto de fadas esquimó, é sempre com a mesma história que nos deparamos.
Campbell (1904-1987) dedicou a vida a descrever a trajetória desse vertiginoso monomito (”mito único”, neologismo que emprestou de James Joyce) e registrar suas pegadas nas lendas de todas as culturas:
- um chamado à aventura, que o herói pode aceitar ou declinar;
- um trajeto de provas, nas quais o herói pode ser bem-sucedido ou falhar;
- a conquista do objetivo ou obtenção do “elixir”, momento que com freqüência resulta numa importante auto-descoberta;
- trajeto de volta ao mundo da experiência comum, percurso no qual novamente o herói pode ser bem-sucedido ou falhar;
- aplicação do elixir, no qual aquilo que o herói conquistou pode ser usado para melhorar o mundo.
Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios a seus semelhantes.
Para Campbell, havia um excelente motivo por trás da onipresença do monomito e da universal paixão humana pelas narrativas heróicas: a trajetória do herói das lendas reflete em idioma coletivo os desafios, as armadilhas e as possíveis recompensas do desenvolvimento psíquico de cada ser humano. Freud concluíra que os sonhos trazem revelações essenciais sobre a trajetória da psique e valiosas pistas para o seu avanço; Jung e Campbell concluíram que os mitos são os sonhos coletivos da humanidade, e descrevem o arco completo da inocência à maturidade/auto-descoberta.
A função primária da mitologia e dos ritos sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se àquelas fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás. Com efeito, pode ser que a incidência tão grande de neuroses no nosso meio decorra do declínio, entre nós, desse auxiliar espiritual efetivo. Mantemo-nos ligados às imagens não exorcizadas de nossa infância, razão pela qual não nos inclinamos a fazer as passagens necessárias para a vida adulta.
A jornada externa do herói reflete, naturalmente, a viagem interior do indivíduo rumo - se tudo der certo - à maturidade espiritual. O terreno de perigos, trevas e armadilhas em que o herói é forçado a penetrar são as regiões ameaçadoras e desconhecidas do inconsciente. Os ajudantes e objetos mágicos que ele encontra pelo caminho representam nossos próprios recursos interiores, que nem imaginávamos que estavam lá. O inimigo que o herói precisa matar para sobreviver e salvar o mundo (e essa é a reviravolta inevitável de todas as histórias) somos sempre nós mesmos; na narrativa do herói o momento da vitória é o preciso momento da sua morte: o momento da auto-descoberta (o inimigo sou eu), da morte do ego e da passagem para a maturidade com o elixir da vida eterna. O herói que recusa-se a morrer recusa-se a crescer; recusa-se a ressuscitar e, por ser incapaz de conhecer e ajudar a si mesmo, é incapaz de conhecer e ajudar os outros.
O herói que recusa-se a morrer recusa-se a crescer.
Em seu assombroso O Herói de Mil Faces Campbell convida o leitor a refazer, como Teseu na ilha de Minos com a ajuda do fio de Ariadne, o trajeto labirinto adentro (e quem sabe afora) pelos motivos universais que demarcam a trajetória do herói. “Nem sequer teremos de correr os riscos da aventura sozinhos”, esclarece Campbell, “pois os heróis de todos os tempos nos procederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas de seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”
Leia também:
Mito e metáfora Os outros 3 maneiras de reconciliar-se com o universo O trabalho da Nêmesis As sementes douradas não perecem O homem universal O herói e a tentação Pala-Pantír e o Mar de Bal-Perthez Sesulis
04 de Fevereiro de 2006
à minha transcrição do depoimento de Randolph Carter.
Em primeiro lugar, a advertência: nenhum lugar é mais apropriado a H. P. Lovecraft do que o papel, e este de preferência trancafiado entre as capas de um livro cheirando a mofo e a suor de mãos estranhas e preferencialmente estrangeiras.
Outra advertência: embora mereçam talvez a classificação marginal de “contos de horror”, estão ausentes das obras de Lovecraft todas as convenções que você aprendeu a associar ao gênero. Você não encontrará aqui zumbis, lobisomens, vampiros, esqueletos atrás da porta do armário, fantasmas, possessões demoníacas ou absolutamente qualquer forma de horror sobrenatural. Lovecraft acreditava que o medo que essas entidades podiam conjurar havia sido esgotado pela mentalidade científica e pela desconfiança moderna diante do sobrenatural.
Ele substituiu essas coisas por, digamos, conteúdo original. Trocou o horror sobrenatural convencional pelo que ele chamava, apropriadamente, de “horror cósmico” – um horror que é ao mesmo tempo uma espécie de solidão e uma fatalidade e uma piada e perfeitamente plausível e (em particular) muito mais velho do que a humanidade.
Dito isto, e como as obras de Lovecraft estão esgotadas em português, posso ser forçado a revelar um terrível segredo: há determinado lugar na internet onde os contos de Lovecraft foram depositados há milhões de anos, e ali aguardam com paciência eterna (como aqueles casulos dos filmes da série Alien) serem colhidos diretamente para a área de trabalho do seu computador.
Se você cometer a transgressão de colocar os pés nessa cripta de horror primal, não deixe – absolutamente não deixe – de começar por Um sussurro nas trevas; siga diretamente para A cor que caiu do céu e, caso lhe reste sanidade, penetre os corredores atordoantemente singulares de Nas montanhas da loucura. Depois disso qualquer trajeto será igualmente imprudente, desde que inclua necessariamente:
O chamado de Cthulhu Os sonhos da casa assombrada A casa abandonada
Ali você encontrará ainda outra tradução de O Depoimento de Randolph Carter, muitas vezes mais ressonante do que a minha. Dos melhores contos de Lovecraft, a ausência mais notável aqui é a de Sombras perdidas no tempo.
Ainda mais do que a originalidade do seu conteúdo, o que mais aprecio em Lovecraft é a tonalidade peculiar da sua narração, que às vezes me parece mais universal e literária do que a do próprio Borges. Lovecraft está para nos fazer revelações terríveis, mas não abre mão da cadência, da pomposa lucidez e da austeridade. Seu texto é invariavelmente classudo. Os primeiros parágrafos de Um sussurro nas trevas:
Faço questão de dizer que não me vi diante de qualquer horror concreto no final das contas. Dizer que um choque mental foi a causa do que inferi – a gota d’água que me fez fugir em disparada da solitária fazenda de Akeley, pelos morros em meia-lua de Vermont, num veículo de que lancei mão sem cerimônia – equivale a ignorar os fatos mais simples da minha experiência final. Não obstante a enormidade das coisas que vi e escutei, e apesar da confessada nitidez da impressão que tais coisas produziram em mim, mesmo agora não posso provar se eu estava certo ou errado em minha terrível inferência. Afinal de contas, o desaparecimento de Akeley nada prova. Não se encontrou nada de estranho em sua casa, apesar das marcas de balas por dentro e por fora. Era como se ele houvesse saído casualmente para um passeio pelas colinas e não voltasse. Não havia sequer sinais de um hóspede ou de que aqueles horríveis cilindros e máquinas tivessem ficado guardados no seu estúdio. Por outro lado, nada significa também o fato de que ele temesse mortalmente as inúmeras colinas verdes e os regatos intermináveis entre os quais nascera e se criara, pois milhares de pessoas estão sujeitas a esses mesmos receios mórbidos. A excentricidade, ademais, poderia facilmente explicar os atos estranhos e as apreensões esquisitas que ele vinha demonstrando ultimamente.
No que me diz respeito, tudo começou com as inundações que assolaram Vermont a 3 de fevereiro de 1927 [...]
De Nas montanhas da loucura:
Sou forçado a falar, uma vez que homens de ciência recusaram-se a seguir meu conselho, sem saberem por quê. É muito a contragosto que descrevo as razões pelas quais me oponho a essa pretendida invasão da Antártica – que há de ser acompanhada de generalizada caça a fósseis e indiscriminada perfuração e descongelamento das antigas calotas glaciais. E reluto tanto mais quanto talvez minha advertência caia em ouvidos moucos.
É inevitável que se ponham em dúvida os fatos reais, tal como devo revelá-los. No entanto, se eu calasse o que pode parecer bizarro e inacreditável nada restaria. As fotografias até aqui escamoteadas, tanto ordinárias quanto aéreas, contarão em meu favor, porquanto são funestamente vívidas e convincentes. Ainda assim, serão postas em dúvida devido ao elevado grau a que se pode levar uma hábil contrafação. Os desenhos a tinta serão, naturalmente, objeto de zombaria, serão tachados de embustes grosseiros, não obstante uma singularidade técnica que deveria causar perplexidade aos conhecedores da arte.
Ao cabo, terei de confiar na judiciosidade e na reputação dos poucos próceres científicos que têm, por um lado, suficiente independência intelectual para avaliar minhas informações com base em seus próprios méritos, medonhamente concludentes, ou à luz de certos ciclos míticos primevos e extremamente enigmáticos; e, por outro lado, influência bastante para impedir que os meios científicos em geral se aventurem a qualquer programa temerário ou exageradamente ambicioso na região daquelas montanhas de loucura. É lamentável que homens relativamente obscuros, como eu e meus colegas, ligados apenas a uma pequena universidade, tenhamos poucas possibilidades de causar impressão duradoura no que tange a assuntos de natureza extravagantemente demente ou em alto grau polêmica.
Labora ademais contra nós o fato de não sermos, em sentido rigoroso, especialistas nos campos em que se situam basicamente as revelações que farei. Na qualidade de geólogo, meu intuito ao dirigir a Expedição da Universidade de Miskatonic consistia inteiramente em coletar amostras de rochas e solo, a grande profundidade, em várias partes do continente antártico, auxiliado pela extraordinária perfuratriz projetada pelo professor Frank H. Pabodie [...]
Sem mais para o momento, deixo-os com
Os contos de H. P. Lovecraft em português, cortesia do Yahoo E-Group Culto Lovecraftiano.
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09 de Janeiro de 2006
Há bons bestsellers e maus bestsellers. O Código Da Vinci, de Dan Brown, é um bom bestseller: fácil de consumir mas não de descartar, pretensioso mas levíssimo, marcado por um ritmo impecável, alguma sofisticação de estilo, abordando um tema pseudo-erudito ao mesmo tempo em que evita as armadilhas mais fáceis do pedantismo. Não há como deixar de admirar a esperteza do escritor, que requentou idéias que circulavam há muito tempo e amarrou-as num pacote cuja atração – sobre mim, pelo menos – é irresistível enquanto dura.
Está certo que, estruturalmente, O Código é uma única cena de perseguição estendida por cem capítulos. Está certo que os personagens são estereotípicos, a caracterização nenhuma, as probabilidades forçadas, a geografia incorreta, a teologia conspiratória, a acuracidade histórica risível, os procedimentos policiais, aéreos, alfandegários e judiciais absurdamente inexatos. Mérito maior do autor, cuja habilidade faz o leitor mais cético (este sou eu) passar por cima de tudo isso [quase] todo o tempo, deixando ainda um sabor agridoce de apressada originalidade. Não importa o que se pense do resultado, trata-se de um sujeito que fez bem o que propôs-se a fazer.
Ainda mais vantajosa para o sucesso do Código foi a miríade de livros que surgiu na sua cola para refutá-lo. Tratam-se, veja bem, de esforços para refutar uma obra de ficção – não creio que algo parecido tenha acontecido, em grau significativo, em qualquer outro momento da história.
A indignação contra as baboseiras históricas contidas no livro é de certa forma justificada; afinal de contas, algum leitor desavisado do Código pode de fato acreditar que, na teologia primitiva dos judeus, Deus de fato mantinha relações sexuais com sua esposa, a Shekiná. Essa é apenas uma das “informações” do livro que, embora não sobreviva ao exame histórico mais superficial, pode acabar passando por verdade. Funciona para manter a história andando, mas aqui, fora do livro, posso garantir que o Deus da Bíblia – para eterno constrangimento de seus concorrentes – não tem e nunca teve vida sexual. A shekiná é sua glória, seu esplendor, um de seus atributos – e o menos informado dos hereges não ousaria interpretá-la como sendo sua consorte.
O livro está correto quando defende a tese de que o Deus dos judeus (e por tabela o dos cristãos e muçulmanos) esforça-se consistentemente para dissociar sexo de adoração, ao contrário do que fazem inúmeras religiões antigas e contemporâneas. Segundo o Código, o motivo dessa dissociação com o sexo é que o Deus cristão é uma aberração machista criada artificialmente para diminuir a importância do papel da mulher na sociedade e no culto. O motivo, na verdade, é menos romântico e mais pessoal: nas religiões que promovem ritos de fertilidade (como por exemplo as promíscuas religiões de Canaã, que a Torá não se cansa de condenar), o sexo ritual é usado como meio de manipulação da divindade. Os ritos sexuais servem como modo de extorquir fertilidade e prosperidade dos deuses associados a elas – e um traço fundamental do caráter do Deus de Abraão, Isaque e Jacó é que ele não se deixa extorquir. Deus não faz barganhas, e não quer que seu povo recorra ou acredite que qualquer esforço humano possa garantir o favor espiritual da divindade. Pelo mesmo motivo Deus baniu da vida de Israel qualquer associação com a magia e a mediunidade.
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