Manuscritos estocados sob a rubrica 'Grandes Navegações'
11 de Outubro de 2011

Hoje é um lugar que não existe

Grandes Navegações, Nostalgia

Por que viver o momento, se o passado é menos desafiador e mais interessante? Combata a ressaca do presente com as pílulas do sáite Como ser um retronauta.

17 de Outubro de 2010

Uma encruzilhada de humanidades

Goiabas Roubadas, Grandes Navegações

Desconstruir concepções infundadas e preconceituosas é talvez a aventura mais extraordinária e comovente que vivo na Europa. Uma a uma, diversas idéias tortas que trouxe comigo do Brasil são sistematicamente moídas.

[...]

Ah, quão maravilhoso é o tempo em que meu coração fica aberto à humanidade alheia, em que vivo o tempo de que fala Drummond, no poema “Mãos Dadas”:

O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
A vida presente

Quantas experiências e pessoas lindas eu tenho visto nesse tempo presente…

O judeu suíço que, terminado seu estágio no hospital em que trabalho, me deu um ótimo armário que ficava em sua casa… E ainda me ajudou a trazê-lo (de metrô) ao meu apartamento, que fica no sexto andar de um prédio sem elevador. Não recebeu nada em troca: foi movido somente pela amizade.

A moça tcheca que, sabendo que eu visitaria Praga durante alguns dias, me dá as chaves de seu apartamento para que eu dele usufruísse. A explicação para tão nobre gesto é infinitamente bela na sua simplicidade: ela o fez apenas por me ter como amigo. Nada mais do que isso.

A jovem parisiense, sempre atolada de atividades, mas sempre generosa, que encontrou um tempo precioso para reler minha monografia de fim de curso e corrigir meu francês espaguetônico.

A médica italiana que deu três meses de sua juventude para cuidar de crianças pobres no sertão pernambucano.

O filósofo ateu que, há mais de dois anos, ao me alugar o studio, vê minhas evidentes dificuldades no idioma e vai paternalmente comigo até o banco, me ajudar a abrir uma conta.

A norte-americana estudante de arte, elegante e culta, que me brindou com a dádiva de uma amizade sincera.

O casal chileno que não me deixou sozinho no meu primeiro Natal no hemisfério norte, convidando-me para cear com eles.

A colega muçulmana que, tendo ganhado uns convites de cortesia, propõe-me a assistir a um concerto de música clássica.

O paciente egípcio que beija a mão da fonoaudióloga que o atendeu, em sinal de gratidão.

O rapaz francês que sempre se lembra deste perna-de-pau que vos escreve na hora de organizar a pelada do fim de semana.

Ah, Houellebecq, se você – e todos nós – abríssemos os nossos olhos e nos dispuséssemos a ver!

Entenderíamos que o mundo é uma maravilhosa encruzilhada de humanidades, repleta de um caleidoscópio de pessoalidades lindas e incoerentes, sujas e mágicas.

Perceberíamos brasileiros truculentos, mas contemplaríamos entre eles muitos brazucas gentis e cultos; enxergaríamos franceses doces em meio a outros ranzinzas.

Compreenderíamos que a nacionalidade, a etnia ou a religião a que pertencemos não são as raízes de nossas virtudes e defeitos; na verdade, nada disso nos faz melhores.

Vislumbraríamos que não há brasileiros, nem franceses, nem negros, nem árabes, nem judeus, nem católicos, nem protestantes, nem homossexuais, nem heterossexuais. “Existe é homem humano”, lembra Riobaldo. E existem essas minhas lágrimas que, ante a contemplação do homem, escorrem neste meu rosto crispado de humanidades.

Leonardo de Souza, falando da Terceira margem do Sena.
Minas ainda existe.

04 de Março de 2010

Cristianismo Xique

Grandes Navegações

Sempre que surge uma voz revolucionária, explicando que “está tudo errado” – e nada mais fácil de explicar – junta-se ao redor do cara um grupo de seguidores que representa o nascimento de uma nova elite, a Elite Dos Que Enxergam As Coisas Com Mais Clareza. Trata-se de gente que tem por missão secundária mudar o mundo, e por primeira lamentar a pobreza de espírito e a estreiteza da visão dos que não pertencem à elite.

Foi mais ou menos o que aconteceu quando o rabi de Nazaré começou a insultar as elites há dois mil anos; multidões insaciáveis saíram pelas cidades e pelos desertos no rastro de suas aparições públicas, na esperança de encontrar uma brecha e se integrar à nova nata.

RT @joaobatista Chegando a Betânia. O culto vai ser de derrubar! #muitafé

Nem todos, é verdade, abraçaram esse deslumbramento. Enquanto alguns aplaudiam ardentemente a originalidade do Mestre, outros cruzavam os braços e explicavam: “Mais um com o velho discurso ‘estou cansado’. Isaías já estava cansado há 400 anos! A fila anda!”

Os mais antenados, no entanto, estavam dispostos a tudo para perfilhar a nova onda e serem contados entre os escolhidos.

– Salomé, você ouviu que a nova moda é vender tudo e dar aos pobres?

– Querida, então já não fiz? Levou seis meses só para tirar as fotos e colocar no Mercado Livre. Estou paupérrima mas minha pele nunca esteve tão boa!

Como a nova elite precisa ser constantemente recriada, a boa nova é que você tem hoje mesmo a chance de ser incluído na onda mais recente, atualizada e badalada do cristianismo. Para ajudá-lo a se diferenciar da massa indistinta dos fiéis, Thiago Bomfim alçou o sáite Cristianismo Xique, com dicas excelentes para você agregar valor e articular a sua inclusão.

Curti especialmente a dica número 7: Dar algum parecer teológico sobre desastres naturais. Espero que meu próprio parecer tenha se mostrado vago o bastante para merecer inclusão nas duas colunas. Isso sim é que seria chique #xique.

Então, o que você está esperando? Visite e coloque em prática você também o Cristianismo Xique. Porque não é chique enquanto você entende o que está acontecendo.

19 de Setembro de 2009

O ofício dos chavões

Gírias e Falares, Grandes Navegações

Foras-chavão no namoro cristão:
1. Presbiteriana: “Vamos continuar orando, se Deus quiser mesmo, acabaremos juntos”.
2. Metodista: “Não sei é a vontade de Deus, mas não é a minha”.
3. Assembleiana: “O Senhor me revelou que você não é meu escolhido”.
4. Católica: “Vou me casar com Jesus!”
5. Universal: “Ore a respeito, e se não ficarmos juntos, é porque você não teve fé o suficiente”.

Reserva:
I. Batista: “Precisei tomar uma decisão a respeito”.
II. Adventista: “Você vai ficar bem, Jesus já está voltando”.
III. Internacional da Graça: “Nâo posso mais dedicar tempo pra você, porque es-tou se-guiiiin-doo / a Je-sus Criiiis-tooo…”

É um serviço sujo, mas alguém tem de fazer: que seja então o Keydom, do Ofício dos Chavões. Porque o meio é a mensagem.

* * *

Leia também:
Os truques da profissão

22 de Agosto de 2009

ramperto.com

Grandes Navegações

Meu mano italiano Paolo, monge do Monastero de San Ramperto in Appennino (e que me conduziu por quatro ou cinco dias atordoantes pela Garfagnana italiana ano passado), acima de ser de gente boa, naturalista e ambientalista, é um fotógrafo de sinceridade e generosidade aparentemente inesgotáveis.

Meu amigo acaba de abrir seu próprio sáite de fotografia em ramperto.com. Você pode querer conferir cada seção do seu portfolio, mas não deve deixar de espiar como meu mano enxergou e capturou no começo deste ano [minha própria região d]o Brasil.