Manuscritos estocados sob a rubrica 'Filmes'
19 de Dezembro de 2011

O caminho da natureza e o caminho da graça

Filmes

A propósito, se não tenho coragem de recomendar descaradamente o filme Árvore da vida, de Terrence Malick, é porque às vezes tenho vergonha de quanto descaradamente cristão o filme é, e queria poder evitar esse proselitismo. Mas não se iluda: trata-se de uma obra imensa, luminosa e generosa, ao mesmo tempo ambiciosíssima e tremendamente singela. Árvore da vida é um filme do Espírito e um filme de Jesus em todos os sentidos, inclusive no que a coisa pode ter de mais constrangedor, a sensação sempre iminente de que talvez se esteja assistindo a uma peça de Natal com ambições cósmicas. Porém é um grande filme e um filme cristão, e não creio que as duas coisas já tenham coexistido neste universo. Fiquei por meses ponderando se tinha assistido ao primeiro filme da minha vida ou ao último.

E o glorioso é que a melhor resenha do filme que cheguei a ler é de um homem que não se dá ao trabalho de acreditar em Deus, Tim Brayton, que lê do seguinte modo a contraposição entre o caminho da natureza e o caminho da graça (ou, para usar a linguagem bíblica, entre carne e espírito):

O que me deixou um pouco perplexo, na primeira vez em que vi o filme, foi pensar que se a obra cinemática de Malick pode ser resumida a um único tema, seria a inseparabilidade entre o caminho da natureza e o caminho da graça, não seria? “Natureza”, no entanto, não se refere aqui ao mundo natural, mas à natureza humana. A mulher prossegue sem intervalo a explicar suas palavras, esclarecendo que os que seguem o caminho da natureza são levados a fechar-se para a bondade e para luz; forçam a si mesmos e aos outros a seguir uma espiral desordenada de provarem-se incessantemente os mais fortes, os mais capazes, os mais ricos, os mais poderosos, e assim por diante. Os que seguem o caminho da graça permitem-se simplesmente Ser. Não é o modo como ela coloca, “Ser”, mas não resta nenhuma dúvida a partir do seu tom de voz de que, se tivesse usado essas precisas palavras, “Ser” viria proferido em inequívocas maiúsculas.

Brayton tem a lucidez adicional de enxergar o que pode ter passado despercebido a muitos cristãos que viram o filme, a sacada de que na vida de cada um carne e espírito – o caminho da natureza e o caminho da graça – permanecem inseparáveis mesmo quando um consegue ultrapassar em muito o poder do outro. Foi por isso que, com alguma hesitação, coloquei a narração inicial do filme1 para introduzir minha nota sobre a manipulação de antônimos. Não deve haver dúvida de que o capitalismo é o caminho da natureza e a herança de Jesus é o caminho da graça, mas natureza e graça, embora antagônicos, não são, infelizmente, antônimos. Carne e espírito não existem separados dentro de nós mesmo quando empreendemos entregar a vida com toda paixão apenas a um. Se temos de “escolher que caminho seguir” não é em regime definitivo, o que não seria possível, mas a cada momento. Nem os mais virtuosos nem os mais perversos dentre nós são consistentes na sua escolha, o que explica em parte a ambivalência e a complexidade da condição humana. Como lembra aquela canção italiana de que gosto, somos todos vítimas e algozes e – de algum modo misterioso mas muito literal – os outros somos nós.

NOTAS
  1. “As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.” []
28 de Agosto de 2011

O Monstro do Mar

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22 de Abril de 2011

Pra mim basta um dia

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O que acontece quando você pede que o mundo inteiro registre, em vídeo, um único dia na Terra? Você recebe 80.000 vídeos e 4.500 horas de filmagem de 192 países. O produtor Ridley Scott e o diretor Kevin Macdonald, vencedor do Oscar, pegaram esse material bruto – todo ele filmado em 24 de julho de 2010 – e criaram Life in a Day/A vida num dia, um documentário que retrata esse caleidoscópio de imagens a que chamamos de vida. Estréia nos Estados Unidos em 24 de julho de 2011.

 

 

Veja também:
Gli altri siamo noi
Basta um dia
Dois bebês

01 de Maio de 2010

Trailer | A versão completa de Metropolis

Filmes

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No verão de 2008 o curador do Museo del cine de Buenos Aires encontrou uma cópia integral, em negativo, de Metropolis (1927, Fritz Lang), um dos filmes mais espetaculares, visualmente impecáveis e influentes de toda a história – mas que praticamente ninguém tinha visto em versão completa. Até agora.

Uma nova restauração de Metropolis está sendo lançada com 25 minutos de cenas inéditas – cerca de 1/5 do filme – que nunca haviam sido vistas desde a sua estréia em Berlim. Deve ter havido poucas oportunidades na história da cultura em que o termo “imperdível” se aplicasse de modo tão apropriado.

Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (  ) na barra de reprodução.

15 de Abril de 2010

Cinco minutos de Guerra nas Estrelas

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Montados a partir de clipes de 15 segundos reencenados por uma multidão de fãs ao redor do mundo. A versão completa de Star Wars – Uncut estréia 19 de abril em Copenhagen.

Não deixe de assistir também o trailer.