A medicalização do desvio da norma

Dentro do manicômio a cura da loucura continuava sendo vista como levar os pacientes a aceitar a moral, os valores e as prioridades da sociedade burguesa. O foco permanecia sendo ensinar os pacientes a aceitar a obediência, a produtividade e o valor da propriedade. A sanidade vinha com o aprendizado de julgar as coisas do mesmo modo que o restante das pessoas, e em adquirir os hábitos do restante das pessoas.

Essa trajetória se alongou até o século 20, quando grandes descobertas no campo de medicamentos psicotrópicos aumentou a conformidade dos grupos dissidentes sem limitar muito a funcionalidade dos membros desses grupos. Os loucos

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O ateísmo é a melhor coisa, exceto nos casos em que deixa de ser

O mistério dos ateus que não deixam de acreditar em coisas incrivelmente convenientes

Ateus e desconversos me interessam mais do que crentes e religiosos, porque via de regra submeteram-se a um autoexame mais inclemente e no processo abandonaram um bom número de ilusões a respeito de si mesmos e dos outros.

Para o teólogo Paul Tillich, o marxismo e a psicanálise são grandes e temíveis em que desmascaram níveis ocultos da realidade que antes de serem articulados determinavam o curso das gentes sem que os tivéssemos de olhar de frente. O homem natural tem medo (em alguns casos fundamentado) de que enxergar a realidade como ela é possa destruí-lo, por isso tende a rejeitar com paixão tanto as revelações do marxismo

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Sexo e poder

Que as três grandes ortodoxias que brotaram do tronco bíblico são sexualmente conservadoras não deve haver dúvida, mas às vezes penso que não gastamos tempo suficiente tentando determinar porquê. À primeira vista pode parecer que as coisas são assim porque religiões lineares como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tendem à ordenação e ao controle, e em seu processo civilizatório sentem-se impelidas a produzir mecanismos que refreiem o poder socialmente disruptivo do sexo. Desde o primeiro momento, afinal de contas, Deus aparece

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O custo da oportunidade

A primeira coisa é você não enganar a si mesmo; e ninguém você engana com mais facilidade do que a si mesmo.
Richard Feynman

 

Não entendemos a realidade diretamente, mas intermediada por discursos, preconcepções e filtros – óculos ideológicos que determinadas disciplinas chamam de modelos. Modelos conceituais explicam para nós a realidade mesmo quando não pensamos neles; na verdade, sua eficácia está ligada ao fato de que determinados modelos nos parecem tão naturais que não requerem reflexão. Cremos que estamos olhando o mundo diretamente, e esquecemos que estamos usando os óculos de determinada ideologia.

Uma questão de sanidade

Os ideais igualitários da esquerda não são antipáticos por natureza; ao contrário, o mais acirrado partidário da direita já terá sentido o apelo deles, e muitos deles reconhecem isso.

Ideais simpáticos, no entanto, são relativamente fáceis de serem desacreditados. O modo mais desonesto de se fazer isso é também o mais comum, e é por isso que é coisa tão frequente ver as ideias da esquerda desclassificadas justamente por serem bem-intencionadas.

O Deus que não tem ninguém na sua lista

Nesse momento entra em cena esse sujeito J. Harold Ellens, um psicólogo norte-americano que em seus livros e artigos defende essencialmente uma ideia: a de que a notícia evangelical da graça incondicional e do perdão universal dos pecados não representa apenas a única chance para a salvação espiritual da humanidade, mas a única chance para a salvação dos nossos distúrbios mentais. E que, de fato, não existe diferença entre uma coisa e outra.


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