Manuscritos estocados sob a rubrica 'Pormenor'
06 de Junho de 2011

Teaser

Pormenor

19 de Abril de 2011

Formulário de contato da Bacia volta a funcionar adequadamente – depois de 6 meses

Pormenor

Esta é a boa notícia.

A má notícia é que se nos últimos seis meses você escreveu para o Brabo usando o formulário de contato da Bacia, sua mensagem não chegou até o destino e não vai chegar, apesar da entusiástica mensagem que deve ter lhe dito Pronto: sua mensagem foi enviada com sucesso e deve estar aguardando na caixa postal do Monastério. A despeito das muito evidentes boas intenções do sistema, não era verdade; as mensagens deixaram de ser enviadas por algum deslize do sistema, que esqueceu-se também de enviar para mim e para você a mensagem de erro que deveria ter produzido nessa situação.

A última mensagem recebi do Alex Greik no dia 08 de novembro de 2010; depois disso, nada. E sim, demorei todo esse tempo para me tocar que poderia haver algo de estranho nesse silêncio.

Como eu ia dizendo, as mensagens que você mandar a partir de agora através do formulário devem chegar sem problemas, mas as enviadas neste intervalo ficarão pela eternidade flutuando no limbo, seu conteúdo e suas boas intenções perdidas para sempre, apesar da sua certeza e da minha de que chegariam, seriam lidas e atendidas. Deve haver aqui alguma ameaça de metáfora, mas deixe-mo-la de lado; que o silêncio nos sirva de lição.

Pormenores adicionais:

A partir de agora uma cópia das mensagens enviadas pelo formulário de contato ficará também retida na base de dados da Bacia, onde tenho como acessá-las mesmo se o envio por email falhar por alguma razão. Eu sei, é o tipo de medida que eu deveria ter tomado há eras, para evitar o presente constrangimento. Me processe.

Se você é assinante da lista de entrega1 que envia o conteúdo da Bacia por email, para falar comigo basta responder qualquer uma das mensagens que recebeu .

Finalmente, uso o gmail. Você não precisa saber mais do que isso.

***

PÓS-ESCRITO
Bastou conferir as datas para entender que a origem do problema pode ser traçada a alguma incompatibilidade de configuração herdada durante a transferência de servidor realizada em 9 de outubro de 2010.

NOTAS
  1. Para assinar o conteúdo da Bacia você deve cadastrar o seu email nesta página. []
28 de Março de 2011

Mal e mal

Pormenor

A coisa ao mesmo tempo letal e redentora em ter escrito dois livros que acabaram nas estantes de Espiritualidade, Crescimento Espiritual e Vida Cristã de livrarias cristãs é ter adquirido no processo a liberdade de supor que os autores dos livros que ocupam essas estantes comigo sejam gente tão apadrinhada, egoísta, contraditória, vaidosa, inconsistente, indigna de confiança, confusa e desassossegada quanto eu mesmo. Ordinários, em todos os sentidos da palavra.

Não ignoro que essa é uma postura especialmente mesquinha, a de julgar os outros a partir das minhas próprias lacunas; ainda mais grave, talvez, seja o fato de que essa mesquinhez pode ser indicação de que publiquei esses livros com o propósito secreto de adquirir o direito a tomar essa conclusão: o prazer de deduzir, a partir da minha farsa individual, a depravação total da humanidade.

O fato é que não tenho direito de supor que os autores de livros cristãos1 sejam em geral menos bem-intencionados do que eu; mas não posso também deixar de conjecturar que tenham sido como eu seduzidos por nossos editores, por nossos amigos e pelo nosso ego para o curral da crença de que o que tínhamos a dizer poderia mostrar-se benéfico para alguém.

E isso, preciso repeti-lo continuamente também a mim, não é verdade. No que me diz respeito, os bastidores da porção benigna da literatura cristã funcionam da seguinte forma: na pior das hipóteses, como no meu caso, o autor supõe que se souber fingir-se de bonzinho talvez acabe inspirando à integridade algum leitor crédulo ou distraído; na melhor das hipóteses, e quem sabe aconteça com mais frequência, o autor crê que se contar ao leitor o quanto é [genuinamente, nesse caso] bonzinho será capaz de produzir o mesmo resultado.

E em verdade vos digo, essa desejada transição é um milagre que as mais bem sopradas das palavras não serão capazes de efetuar. Você já deve ter me ouvido dizendo isso de outras maneiras, mas estou condenado a repeti-lo porque esta é a minha profissão de fé, purificada pelo fogo do meu cinismo: a letra mata de tal forma que não é vaso adequado para conter o espírito que produz vida. Encontrar o reino de Deus é encontrar-se com o Real, e essa porta requer uma chave de carne e sangue. Só um vaso vital pode carregar a radioatividade curativa do Filho do Homem. Pode até ser o Paulo Brabo, mas será o cara grandão que mora sozinho numa casa de madeira. E devemos ser não menos que gratos, rendidos e maravilhados de que seja assim: que Jesus tenha ordenado o mundo desse modo formidável, em que os qualificados e oficialmente respeitáveis nada tem a oferecer.

Talvez seja para apaziguar essa culpa essencial, de ter acenado com as palavras de modo a produzir no leitor uma falsa expectativa, que os capítulos finais dos livros que publiquei digam essencialmente a mesma coisa: os livros não mudam ninguém. Até as letras sabem repetir: só a vida tem potencial para a abundância, e só a palavra encarnada é residência concebível para o espírito. Você pode até querer ser uma pessoa melhor, mas a mais piedosa das estantes não vai ajudá-lo nessa tarefa. As palavras mal e mal bastam para fazer essa confissão, e não espero delas mais do que isso.

Não espere mais delas você.

NOTAS
  1. Há já nessa concessão, obviamente, o germe de todo o meu argumento. Que ilusão levou-nos a admitir que dizer “livros cristãos” faz mais sentido do que dizer “liquidificadores cristãos” ou “rodovias cristãs”? Que demônio nos convenceu a conceber que possa haver algo “cristão” que não seja uma pessoa? []
29 de Janeiro de 2011

Deus existe

Pormenor

Fabio Biondi e seus asseclas da orquestra Europa Galante criam uma beleza febril a partir do ar; eles e uma das composições mais inflexivelmente celebratórias (RV 558/I) do padre veneziano Antonio Vivaldi.

21 de Janeiro de 2011

O que você não deve saber sobre o livro da Bacia

Pormenor

É fato conhecido que ao longo do século XX o que as pessoas ganharam em longevidade os livros perderam. Tendo sido lançado em dezembro de 2009, A bacia das almas tem hoje, em vida de livro, mais de 35 anos. De um livro de meia-idade talvez não seja injusto fazer reminiscências; seguem uma ou duas coisas que você absolutamente deve ignorar sobre ele.

  • O título era outro. Até o último momento A bacia das almas era para se chamar O último cristão (a partir deste texto); só resolvi mudar isso pouco antes de mandar o manuscrito final para a editora. Quando decidi que o título devia ser o mais ou menos genérico A bacia das almas, intuí a necessidade de um subtítulo; minha primeira ideia foi “Confissões de um ex-consumidor de igreja” (que era, por sua vez, o título original deste documento) – mas o departamento de marketing dentro de mim absolutamente exigiu algo mais apelativo.
  • O primeiro capítulo foi roubado de outro livro. Quando fui convidado a simular um volume mais ou menos coerente a partir do material heterogêneo da Bacia, entrei num pânico cordial; minha maior preocupação, sem qualquer dúvida, era o que colocar logo no começo (The beginning is a very delicate time, a primeira coisa que ensinou-me a princesa Irulan). A solução mais à mão, como frequentemente acontece, foi apelar para a reciclagem. O primeiro capítulo de A bacia das almas (que você pode ler aqui) é na verdade o primeiro capítulo de um livro que eu já havia decidido que não valia à pena terminar, e era para se chamar A pedra angular e a igreja da esquina. Deste livro tenho concluídos mais dois capítulos que nada têm que valha pena resgatar, com a possível exceção da passagem Satã roga pelos homens, que já estoquei aqui.

  • Os cortes foram feitos pelo autor. A primeira seleção de material que fiz para compor o livro tinha 127.897 palavras. A versão que mandei para a editora – e que, para minha surpresa, foi aprovada na íntegra, resultando no presente calhamaço – tinha 102.125. Ou seja, a edição e os cortes que houve foram feitos por mim; o material que ficou de fora você jamais saberá.

  • Dois capítulos não foram escritos. De material inédito, como se sabe, o livro da Bacia só tem o último capítulo, Os livros não mudam ninguém. Com receio de que um só texto novo não bastasse para imprimir a devida marketability ao volume, fiz notas para dois capítulos adicionais que não cheguei a concluir para o livro, e deveriam se chamar A igreja que existe fora das portas e O encontro de Bonhoeffer com Gandhi. O primeiro, um ano depois, resultou mais ou menos no meu capítulo de contribuição para O que eles estão falando da igreja; o segundo nunca comecei a redigir.

  • As parábolas que não são. A seção de ficção do livro da Bacia tem o nome de Parabólicas, mas fora um exemplo ou outro, não consta de parábolas. Há nesse paradoxo uma parábola, mas a lição não devo revelar. Incidentalmente, esta é a única seção do livro que ponderei muito seriamente eliminar – não por outro motivo, mas porque planejava reservar essas histórias para um possível livro de contos curtos que espero um dia venha ainda à luz. Incidentalmente, é também nessa seção que está aquele que do livro inteiro é o texto de que mais gosto e pelo qual não me importaria de ser lembrado: este Blefe.