Manuscritos estocados sob a rubrica 'Pormenor'
28 de Abril de 2013

Uma única coisa em troca

Pormenor

Dia após dia, em todos os seus dialetos, o universo me repete uma mesma frase: pegue o que você precisar.

“Brabo,” o universo me diz, “pegue o que você precisar”.

Ele pede uma única coisa em troca, e o que ele pede é tremendamente exigente: que eu continue a desejar aquilo que considero desejável.

É claro que o mundo de abraços e de café e de pura conexão entre as pessoas que desejo não existe fora da minha cabeça, mas repito: o universo não cessa de me pagar para continuar sonhando com ele. E é com essa propina que ele vai me impedindo de desejar o Facebook.

 

Leia mais nA Forja Universal:
Quanto o universo me paga para não estar no Facebook

18 de Abril de 2013

A missão mais urgente

Pormenor

No décimo-sexto volume de Vidae zu santi della Brasilicata de Giuseppe di Anscietta está escrito que São Coro de Minância tinha uma espada que só levantava para deter os que o admiravam. “De todas as missões que Deus outorgou a cada homem, a maior e mais urgente é dissuadir qualquer outro homem de segui-lo (Oração à treva que precede a aurora, XII, V)”.

 

 

Leia mais nA Forja Universal:
Para desenhar um círculo

26 de Março de 2013

A sua dis­po­si­ção em des­car­tar

Pormenor

Como viria a dei­xar claro a herança da Reforma Pro­tes­tante, o pro­blema de avan­çar pela rup­tura é que a rup­tura não demora a alcan­çar você. A sua dis­po­si­ção em des­car­tar acaba ensi­nando ao mundo que você é descartável.

A rup­tura ini­cial da Reforma multiplicou-​​se em inú­me­ras rup­tu­ras inter­nas ao longo dos sécu­los, num pro­cesso que está longe de ter­mi­nar. A expe­ri­ên­cia “pro­tes­tante” fragmentou-​​se logo nas pri­mei­ras déca­das e con­ti­nua ten­dendo irre­sis­ti­vel­mente à frag­men­ta­ção. Se você não faz parte da sub­cul­tura pode não ter ouvido falar, mas é coisa incri­vel­mente comum, mesmo nos nos­sos dias, uma con­gre­ga­ção se “divi­dir” por­que seus inte­gran­tes dis­cor­dam entre si sobre algum item da dou­trina ou da liturgia.

Jesus, que não igno­rava que rom­per é matar, falava pre­ci­sa­mente sobre esse risco quando exi­giu que seu dis­cí­pulo reco­lhesse a espada: todos que lan­ça­rem mão da espada, à espada mor­re­rão. Ou, no voca­bu­lá­rio de Bruce Ster­ling: quem nasce pela rup­tura morre pela rup­tura.

 

Leia mais nA Forja Universal:
A espada circular

12 de Março de 2013

Nenhum outro

Pormenor

Sem mais para o momento, três parágrafos do terceiro capítulo da porção inédita de A linhagem interrompida:

 

Paulo deixa claro que sua posição é sempre intransigente, mesmo quando não sabemos determinar de imediato qual é a sua posição. Sabemos que ele não admitiria outra interpretação para determinada expressão além da que ele pretendia em cada caso, mesmo quando não temos ideia de como interpretar uma passagem como ele esperava. Entendemos a sua convicção antes de entender o que ele está dizendo – e, curiosamente, esse sentimento torna a compreensão mais difícil em vez de torná-la mais fácil.

Tudo somado, os textos de Paulo exigem do seu leitor um esforço de descompactação que nenhum outro escritor bíblico ousaria pedir do seu. Nenhum outro autor pediria que seu leitor encontrasse por si mesmo uma nuance diferente de significado cada uma das vezes que uma mesma palavra está sendo usada na mesma página (e por vezes na mesma sentença).

Nenhum outro autor bíblico pediu de seu leitor maior independência e desenvoltura intelectual: nenhum outro é mais facilmente mal interpretado, ou com maior frequência.

 

Outras passagens, ainda mais curtas, aqui e aqui.

07 de Janeiro de 2013

Informes do abismo: uma denúncia e um convite

Pormenor

“Era informe… sobre a face do abismo.”
Gênesis 1:2

Nos episódios anteriores de A Bacia das Almas… expliquei que estou preparando para publicação uma segunda compilação dos manuscritos arquivados neste sáite: uma continuação, por assim dizer, de A Bacia das Almas, o livro. Disse também que o que está atrasando a vinda ao mundo dessa mítica obra, que se deve chamar A linhagem interrompida, é que estou escrevendo para engrossá-la uma pequena série de artigos inéditos sobre a ideia de carne no Novo Testamento.

Um parágrafo, tirado do primeiro desses artigos, você pode ler clicando aqui.

Deixo agora, a quem interessar possa, e para você ter certeza que é para esse lado mesmo que a coisa está degringolando, dois parágrafos do segundo desses artigos:

Embora não cheguem a tratar explicitamente da questão, entendo que para os autores do Novo Testamento o fato de Jesus não ter deixado descendentes de carne é tão importante para a compreensão de sua missão e para a interpretação da sua mensagem quanto o fato de ele ter morrido e ressuscitado.

Intérpretes contemporâneos tendem a encontrar na tácita castidade de Jesus um indício precoce da demonização do sexo que sequestraria a mentalidade cristã logo nas primeiras décadas depois da saída de cena dos apóstolos. De minha parte, enxergo na resoluta infertilidade do Filho do Homem uma carga mais exigente e subversiva, e penso poder demonstrar que os autores do Novo Testamento viam a coisa de modo semelhante. Em questão não estava a demonização do sexo, mas uma denúncia e um convite implícito a uma ampla reavaliação e ressignificação da ideia da supremacia e da suficiência da carne.

A linhagem interrompida deve vir à luz quando ficar pronto.