Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sociedade'
16 de Outubro de 2007

A urgência de uma reforma no vestuário oficial da República

Brasil, Sociedade

O que os nativos brasileiros sabiam e os portugueses ignoravam? Que é simultânea insensatez e imoralidade usar gravata, paletó, meia preta e sapato fechado numa terra tropical como esta de Santa Cruz. Muitas vezes mais pertinente do que uma reforma ortográfica seria uma reforma no guarda-roupa oficial do país.

A crise é de graves proporções. O rei de Sião andava descalço no seu palácio, os líderes africanos caminham pelo saguão das Nações Unidas em arejadas roupas coloridas, e aqui, no Brasil dos índios, o rei não está nu.

Tudo bem, não exijo a nudez diplomática compulsória, pelo menos não ainda – me dê cinco minutos – mas devo insistir no saneamento mais básico:

1. Todos os cidadãos que recebem dinheiro público, de escriturários a presidentes da república, deverão andar descalços em seus ambientes de trabalho.

1.1 Pessoas com necessidades especiais (tipo bombeiros, policiais e capitães do BOPE) poderão usar alpercatas de couro cru, havaianas ou – em casos extremos e com porte de arma – tênis.

2. Gravatas, sapatos fechados e colarinhos fechados de qualquer natureza são símbolos decadentes do imperialismo e relíquias dos regimes monárquicos antidemocráticos; serão banidos sob multa de extradição.

2.1 Paletós serão permitidos, desde que usados sobre camisetas ou camisas de colarinho aberto.

3. Para homens, calções e bermudas terão preferência sobre calças, e camisetas sobre camisas.

4. Para mulheres, saias, vestidos e calções terão preferência sobre calças.

5. Para todos, tecidos crus terão preferência sobre tecidos tingidos, tecidos naturais terão preferência sobre tecidos sintéticos e tecidos estampados terão preferência sobre tecidos lisos.

6. Toda nudez não é obrigatória, mas nenhuma será castigada.

7. Revogam-se as disposições em contrário.

Photo by mr oji

10 de Outubro de 2007

Contra o prazer

Fé e Crença, Sociedade

Não é verdade que o cristianismo trouxe o autocontrole e o ascetismo do corpo ao mundo pagão que se deliciava com os prazeres e com o corpo. Pelo contrário, a hostilidade ao prazer e ao corpo é um legado da antiguidade que foi singularmente preservado até hoje no cristianismo. Os cristãos não ensinaram aos pagãos licenciosos, dissolutos, a odiarem o prazer e se controlarem; foram os pagãos que tiveram de reconhecer que os cristãos eram tão adiantados quanto eles próprios.

A hostilidade ao prazer e ao corpo é um legado da antiguidade preservado até hoje no cristianismo.

Embora os filósofos gregos de um modo geral concordassem com a importância considerável da busca do prazer para o ideal humano de vida, os estóicos, sobretudo durante os dois primeiros séculos da Era Cristã, mudaram tudo isso. Rejeitaram a procura pelo prazer.

O estóico Sêneca, que no ano 50 foi nomeado tutor de Nero, então com 11 anos de idade, e por ele obrigado a cometer suicídio no ano 65, argumenta do seguinte modo num ensaio “Sobre o casamento”: “Todo o amor pela esposa de alguma outra pessoa é vergonhoso. Mas também é vergonhoso amar a própria esposa desmesuradamente. Ao amar a esposa, o homem sábio toma a razão como guia, e não a emoção. Resiste ao assalto das paixões, e não se permite ser levado impetuosamente ao ato conjugal. Não há gesto mais depravado do que o de amar a própria esposa como se ela fosse uma adúltera”.

Esta passagem agradou tanto a Jerônimo, um dos padres da igreja que odiava o sexo, que a citou contra Joviniano, o amante do prazer (Contra Joviniano I, 49). [O papa] João Paulo II ainda fala sobre o adultério contra a própria esposa.

“Não faças nada pelo simples prazer” é o princípio fundamental de Sêneca (Carta 88, 29). Seu contemporâneo mais jovem, Musônio, que foi professor de filosofia estóica de muitos legisladores romanos, declarava que qualquer ato sexual que não servisse a procriação era imoral. Segundo ele, só o sexo conjugal, e só quando visava a procriação, estava de acordo com a boa ordem. Qualquer um que tentasse praticá-lo pelo simples prazer, mesmo dentro dos limites do casamento, era passível de repreensão. Os estóicos do século I foram os pais das encíclicas sobre o controle de natalidade do século XX. Musônia rejeita de forma explícita a contracepção; pelo mesmo motivo, se rebela contra o homossexualismo: o ato sexual tem de ser um ato de procriação.

Os estóicos do século I foram os pais das encíclicas sobre o controle de natalidade do século XX.

[Embora o judaísmo em si fosse isento de pessimismo sexual,] a noção [estóica] de que o sexo tem de ter finalidade procriadora deixou marca duradoura no cristianismo.

Segundo os ensinamentos da Igreja, Jesus não teria sentido prazer em todo o processo de redenção e, sobretudo, não teria se tornado homem, ou teria procurado outra mãe, caso Maria tivesse tido o prazer de ter mais filhos além dele. Isso foi explicado pelo papa Sirício, no século IV, que afirmou que nesse caso Jesus não teria aceitado Maria como mãe: “Jesus não teria escolhido nascer de uma virgem, se tivesse sido obrigado a considerá-la tão intemperante a ponto de deixar que o útero onde o corpo do Senhor foi modelado, aquele átrio do rei eterno, fosse maculado pela presença do sêmen masculino” (Carta, do ano de 392, ao bispo Anísio). Ter filhos é portanto uma incontinência, um mergulho no prazer. E conceber uma criança, exceto pelo Espírito Santo, é uma violação e uma imundície.

Uta Ranke-Heinemann
As raízes pagãs do pessimismo sexual cristão,
em Eunucos pelo reino de Deus

01 de Setembro de 2007

Doente

Sociedade

A pergunta mais intrigante sobre a cultura norte-americana contemporânea – ainda mais intrigante do que “quando e por que os homens começaram a se abraçar?” – é a pergunta que Diana West aborda neste livro penetrante e arguto: “quando e porque os americanos pararam de crescer?” Tenho, na verdade, a deprimente sensação de que as duas perguntas estão relacionadas.

George F. Will, conservador norte-americano, colunista da Newsweek e mente gravemente perturbada

12 de Agosto de 2007

Paul Potts - O nome secreto de um vendedor de celulares

Sociedade


Ma il mio mistero è chiuso in me
Il nome mio nessun saprá
Tramontate stelle
All’alba vincerò!

O meu mistério está fechado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Apaguem-se, estrelas!
Ao alvorecer eu vencerei.
Nessun dorma, Turandot

 

4 de março de 2007, o primeiro teste
IL MIO MISTERO È CHIUSO IN ME

Paul Potts, filho de um motorista de ônibus com uma caixa de supermercado…

“Na escola me xingavam e eu era surrado com freqüência. Virei um sujeito solitário. Nunca contei aos meus pais. Eu achava que era de alguma forma minha culpa”…

Em 2002, foi diagnosticado que Paul tinha um tumor benigno na glândula adrenal…

Quatro dias antes de voltar ao trabalho, depois de meses recuperando-se do seu tumor, Paul foi atropelado por um carro enquanto ia para casa de bicicleta. Ele escapou por pouco, mas partiu a clavícula; incapaz de trabalhar, Paul acumulou 30.000 libras em dívidas, e não cantou uma nota sequer até o seu teste no concurso de talentos ‘Britain’s Got Talent’…

Em 2004 Paul começou a trabalhar como vendedor de telefones celulares, mantendo seu sonho e talento ocultos de seus colegas de trabalho…

“Preenchi o formulário de inscrição online, no meu laptop, mas hesitei antes de pressionar o botão de enviar. Esperei uma hora e decidi atirar uma moeda para o alto - cara eu entro, coroa não”.

 

14 de junho de 2007, a semi-final
IL NOME MIO NESSUN SAPRÁ

“Não sei porque as pessoas acreditam em mim”…

“Meu sonho é passar a vida fazendo aquilo que creio que nasci para fazer”…

“Eu sempre sonhei com uma carreira de cantor. Auto-confiança sempre foi, tipo, um problema para mim. Sempre encontro dificuldade em ter plena confiança em mim mesmo “…

“Sempre fui um pouco diferente. Creio que essa é a razão porque luto às vezes com uma baixa auto-estima. Quando canto não tenho este problema. Estou no lugar onde deveria estar”…

“Por toda a minha vida eu me senti insiginificante. Depois daquele primeiro teste percebi que sou alguém. Eu sou Paul Potts.”

 


17 de junho de 2007
, a final
TRAMONTATE STELLE

“Não acredito que isso esteja acontecendo”…

“Sinto-me agradecido por estar adquirindo um pouco de auto-confiança. Eu deveria ter mais fé em mim mesmo. Estou trabalhando nisso”.

 

17 de junho de 2007, o anúncio do resultado
ALL’ALBA VINCERÓ

“Apenas um de vocês irá cantar no show para a Rainha…”

“Obrigado por acreditarem em mim”…

“Semana que vem, Paul, você estará num estúdio gravando seu primeiro álbum”…

 

16 de julho de 2007

Dia de lançamento do álbum One Chance, de Paul Potts. O cd é, na primeira semana, o primeiro lugar em vendas, superando o restante dos dez álbuns mais vendidos contados juntos.

 

12 de agosto de 2007

One Chance permanece entre os 10 mais vendidos (segundo lugar) na Inglaterra.

* * *

Veja também:
paulpottsofficial.com, o sáite oficial
Mais clipes e entrevistas

14 de Março de 2007

Quando as mulheres dominavam a Terra

Homens e Mulheres, Sociedade

O maior emblema da vitória final da ideologia capitalista no século XX não foi a Queda do Muro e a subseqüente derrocada dos socialismos, mas a entrada da mulher no mercado de trabalho.

A transição recebeu diferentes rótulos, todos com conotações positivas para as mulheres – feminismo, liberação da mulher, regime igualitário, – porém minha impressão é que, oculto sob o discurso da valorização da mulher, estava o triunfo definitivo de valores tradicionalmente masculinos.

Cedendo à simplificação e deixando de lado as exceções, pode-se dizer que durante milênios a participação da mulher na sociedade ocidental representou uma alternativa real ao modo masculino de agir e pensar. Ser mulher era epitomar um modo de vida subsersivo, livre (em maior ou menor grau) das obsessões circulares da testosterona: a agressividade, a competividade, a combatividade e a acumulação compulsiva de territórios, bens e parceiros sexuais.

O mundo dos homens sempre foi das conquistas e rivalidades, e portanto dos capitalismos. O domínio da mulher permanecia em grande parte no campo do imponderável, o domínio de coisas antiquadas e gays como o amor, o silêncio, a compaixão, a generosidade, a expressividade, a pausa, o cultivo, o sacrifício, a partilha. O homem cultuava tradicionalmente a performance, a mulher cultuava o afeto. Os homens eram combativos como cristãos, as mulheres desprendidas e zen. O homem priorizava os objetivos, a mulher priorizava os relacionamentos. A postura do homem era sair para o combate, a da mulher abraçar na esperança de que o homem enxergasse a insensatez do combate. O patriarca, mais fraco, saía para trabalhar e caçar; a matriarca, infinitamente mais poderosa e influente, governava de sua cadeira e fazia com que os homens girassem ao seu redor como satélites.

Com a entrada definitiva da mulher no mercado de trabalho, por ocasião do escoamento dos homens no crivo da Segunda Guerra Mundial, esse cenário se alterou. Oficialmente as mulheres estavam a partir de agora “reivindicando seus direitos” e “conquistando o seu espaço”. Mais propriamente, estavam dando o seu aval às obsessões masculinas e confessando que apenas o espaço dos homens era legítimo. Depois de séculos de brava resistência, as mulheres dobravam-se no altar da performance.

Como conseqüência, o ocidente sofreu uma tremenda perda no campo da “biodiversidade” cultural, e o capitalismo voltou para casa com o braço cheio de troféus e trunfos.

As mulheres foram alçadas à condição de homens honorários.

A situação é inusitada. Não sabemos dizer com qualquer grau de certeza o que espreita hoje por trás do conceito de “feminino”, exceto que grande parte das mulheres receberia o qualificativo como insulto.

Como tornou-se politicamente incorreto associar a mulher ao conceito tradicional de feminilidade, a história e a arte vêm sofrendo uma rigorosa e contínua revisão. Os traços do feminino não-combativo são eliminados com diligência bolchevique tanto de lendas quanto de narrativas históricas.

A doce donzela Guinevere, do ciclo das lendas da Távola Redonda, teve de ser redesenhada como guerreira implacável, precisa e sanguinária no filme Rei Arthur, de 2004. Esta decisão é emblema de uma onipresente tendência: a fim de evitar os embaraços causados pela postura tradicionalmente feminina de heroínas como Guinevere, essas são “alçadas” artificialmente à condição de homens honorários – altura de onde lançam flechas, desferem socos, lideram exércitos e cospem no chão. Na verdade apenas os homens e seu mundo é que são honrados, mas a maioria das mulheres parece se aplacar diante dessa insultuosa homenagem.

Mesmo um livro como O Código Da Vinci, cuja trama secreta diz respeito à recuperação do “feminino” na história, faz de Maria Madalena mera competidora na luta tipicamente masculina dos discípulos pelo poder. A Madalena de Dan Brown é mulher sem face e sem alma, inteiramente mergulhada no mundo dos homens e deixando-se moldar eficazmente por ele.

O capitalismo, como eu ia dizendo, celebra nessa capitulação das mulheres à combatividade masculina sua mais retumbante vitória. Assim que a mulher caiu na tentação do mundo dos resultados a oferta de mão de obra dobrou instantaneamente, e o mercado encheu-se de possibilidades e promessas que renderam exponencialmente. Não apenas a mulher tornou-se público consumidor independente, com direito a seus próprios produtos e meios de comunicação, mas sua entrada em cena possibilitou a criação de novos públicos onde ninguém imaginava que poderia haver um. Sentindo-se culpadas por não ficarem em casa “cuidando dos filhos,” e ao mesmo tempo benificiando-se de sua nova independência financeira, as mulheres passaram a encher seus filhos de presentes, transformando o infantil no público de maior poder decisão de todo o mercado – condição inteiramente inconcebível há meros cinqüenta anos atrás.

Se por um lado o mercado saiu ganhando com a glorificação do individualismo, por outro homens e mulheres contabilizam ainda as suas perdas. Os homens foram privados do exemplo de sanidade que lhes restava, e não são mais convidados pelo exemplo das mulheres à salubridade de uma vida menos ambiciosa e de maior significado. Hoje não há quem não acredite que só existe auto-realização e auto-expressão, e portanto valor, no trabalho remunerado. Seduzidas por essa conversa, as mulheres perderam muitos de seus privilégios mais incisivos e essenciais; em especial, a autoridade de zombar do modo de vida dos homens.