Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sociedade'
05 de Março de 2010
FOI COM A MELHOR DAS INTENÇÕES.
Parte 1: “Se você não estiver preparado para estar errado, nunca vai ter uma idéia original”
Parte 2: “De repente, um diploma não vale mais nada”

27 de Janeiro de 2010

O Jogo tem duas regras:
1. Quando você pensa no Jogo, você perde o Jogo;
2. Quando perde o Jogo você deve anunciar que perdeu àqueles ao seu redor.
Todos que sabem sobre o Jogo estão jogando. Tecnicamente ninguém pode ganhar o Jogo; o máximo que se pode fazer é não perder o Jogo (isto é, enquanto não se pensa no Jogo), ou levar outras pessoas a perderem (levando-as a pensar no Jogo).
Você acaba de perder o Jogo.
* * *
Mais sobre O Jogo (em inglês) aqui e aqui.

06 de Janeiro de 2010
É sabido que Platão nutria grande desprezo pela palavra escrita e escrevia em forma de diálogo – discussões simuladas entre dois ou mais personagens – na tentativa de corrigir pelo menos parcialmente aquela que considerava ser a grande falha conceitual do livro, sua incapacidade de dialogar com o leitor.
Um livro argumenta, mas não contra-argumenta; fala, mas não responde as mais simples perguntas; discorre, mas não está preparado para vencer as objeções que seu autor não tenha antecipado.
Apesar das tabulações de Platão, até recentemente a palavra escrita era particularmente avessa ao diálogo. Você podia publicar livros e artigos, e se alguém discordasse das suas idéias teria de escrever e publicar livros e artigos ele mesmo; se quisesse apresentar sua resposta ao contra-argumento do seu oponente você teria de publicar uma nova leva de livros e artigos, e assim por diante. Havia diálogo, que fique muito claro: livros e autores discordavam com paixão, mas era um processo pouco ágil; por conta dos próprios custos e intervalos envolvidos, uma rarefeita elite tinha acesso a essas facilidades.
Isso, desnecessário lembrar, foi antes da internet; hoje em dia vivemos na outra margem de um rio mítico que Platão não sonhava existir. Os custos de publicação e o intervalo de resposta, que até recentemente se interpunham eloquentemente na conversa, foram reduzidos a virtualmente zero. Na internet qualquer um pode publicar de imediato o que escreveu, e qualquer um pode de imediato responder, discordar, argumentar, contribuir, reformular, corrigir, opinar, construir e desconstruir, escrever e reescrever. É a era da comunicação instantânea, e suas palavras de ordem são interatividade e colaboração.
Conceitualmente, a internet provou ter potencial para corrigir de forma definitiva e eficaz aquela antiga deficiência da palavra escrita que os diálogos de Platão tinham sido inventados para corrigir de modo paliativo. Porque na internet, pasme-se, o diálogo é real. Graças à magia de grupos de discussão, tuíteres, mensagens de email, comentários em blogues, wikipédias, janelas de chat e redes de relacionamento, a palavra escrita foi liberta de seus grilhões. O diálogo é permanente. A internet é um livro aberto, e qualquer um pode escrever no miolo e rabiscar nas margens. Qualquer um é livre para adicionar sem intervalo e sem custo novas páginas que corrijam, expliquem, mencionem, satirizem ou anulem as anteriores; qualquer um pode contribuir para deixar o conteúdo mais claro, mais correto, mais atualizado, mais original, mais pessoal ou menos pessoal, mais profundo ou mais simples, mais austero ou mais engraçado.
Mais do que na Biblioteca de Babel de Borges, vivemos no Paraíso de Platão, e tudo que existe é o diálogo. Trata-se de um milagre em muitos sentidos, e de uma maldição em outros. Permita-me falar sobre a parte da maldição.
O problema é que nós seres humanos somos animais estranhos, e o diálogo não é uma arte que saibamos verdadeiramente dominar. Mesmo os mais capazes dentre nós encontram dificuldade na tarefa, e com muito mais frequência do que gostaríamos de admitir temos problemas para entender o que estamos dizendo uns aos outros, ou ainda com que intenção ou com que ênfase.
Para Platão, o lugar para se dialogar, por excelência, era entre amigos reunidos ao redor de uma mesa – de preferência um banquete lubrificado por muito vinho e música ao vivo. As vantagens do banquete cordial são muitas e muito evidentes: amigos se conhecem e saberão entender as provocações mútuas e as alusões a lembranças compartilhadas; amigos conhecem as entonações, os ritmos, os temas, as pausas e as mitologias pessoais uns dos outros. Por estarem juntos na mesma sala, um olhar compassivo pode corrigir uma frase brusca, um meio sorriso pode colorir uma ironia e uma sobrancelha erguida inverter uma idéia. A comida compartilhada os pacificará, a bebida compartilhada os tornará irmãos.
Mesmo diante de todas essas felicidades, haverá invariavelmente discordância, por um lado, e por outro a comunicação não estará isenta de ruído. Mesmo no banquete, onde tudo é favorável, a interação pode ser falha e o diálogo pode ser interrompido a qualquer momento.
Se a comunicação é irredutivelmente tortuosa entre amigos que metem a mão no mesmo prato, quanto mais ruído e quantos maiores riscos não haverá no diálogo da internet, que transcorre entre perfeitos estranhos de modo algum calibrados pelos confortos do vinho, da companhia, da cordialidade, da história prévia e dos interesses comuns?
Existe verdadeiro diálogo na internet, mas é uma misericordiosa e rara exceção; bem-aventurados são os que o encontram, santificado seja o nome dos que o proporcionam. O que há, de modo geral, é superficialidade, narcisismo (acredite, posso dizê-lo de primeira mão) e, em especial, animosidade gratuita.
A superficialidade e o narcisismo sempre fizeram parte da história da literatura e da palavra escrita; a verdadeira contribuição da internet está em ter universalizado a agressividade arbitrária e o rancor pré-estabelecido. Na internet não basta discordar, o que é considerado insuficiente e de baixo calado; a verdadeira norma, se você quer ser levado a sério, é pisotear, ridicularizar e agredir. A onipresente caixa de comentários, que ameaça em blogues e fóruns de discussão e poderia ter transformado todos em colaboradores, transforma todos em antagonistas. Não basta contra-argumentar, é preciso destilar veneno. Não basta apontar discordo inteiramente de você, é preciso deixar bem claro eu te desprezo. Não basta vencer, é preciso tripudiar. Não basta opinar, é preciso comparar a Hitler. Abolimos até mesmo os recursos de estilo que temperavam o sarcasmo de gente enfezada como Lutero; abolimos as 38 maneiras de se vencer uma argumentação. O que resta, de modo geral, é a perversidade mais crua não diminuída por complicações de lógica ou de estilo. Não importa que seu próprio argumento seja inexistente; você não vai deixar de condenar seu oponente como simplista. Não importa que você não tenha entendido; você não perderá a oportunidade de dizer odiei.
Tolkien lamentava profeticamente as arbitrariedades e nivelamentos da democracia tecnológica, mas não tinha como antecipar a extensão desta sombra de Mordor, a onipresença do diálogo em que todos falam em perfeito isolamento consigo mesmos e sustentam ao mesmo tempo a ilusão de que todos estão sendo ouvidos.
Uma verdade antiga é que mesmo entre amigos os argumentos não convencem ninguém; creia-me portanto quando digo que na internet a conversa não está avançando. Os argumentos não estão abrindo os olhos de quem quer que seja, e a verdade não está sendo eficazmente defendida. Não aqui.
Em meio a esse vozerio inescapável, tenho por verdadeiro conforto encontrar volta e meia uma página da internet que tenha algo a dizer e não seja maculada pela aparência do diálogo e pela tentação da caixa de comentários. Considero-me feliz quando piso o silêncio de uma dessas catedrais, e celebro com o autor, num banquete mínimo, a bem-aventurança de poder ouvir uma única voz.

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Sem exceção
Da universalidade das generalizações
01 de Janeiro de 2010
Se você ainda não assistiu Avatar, o primeiro filme do diretor James Cameron depois de Titanic, provavelmente não vai querer ler esta nota.
O protagonista de Avatar ousou adentrar e abraçar um novo mundo; ousou dar um passo além da carne e do sangue e adotar como seus um povo outro e uma outra cultura. Avatar, o filme, apesar da pirotecnia das paisagens impossíveis, da invenção de idiomas e espécies e do descortinar de imensos abismos em 3D, ousou muito menos.
Trata-se, para começar, de um filme com uma mensagem, o que – anote o que estou dizendo – nunca é bom sinal. Na maior parte do tempo o ruído dessa intenção evangelística passa despercebido diante de ofertas mais imediatas e interessantes, mas na meia hora final, quando o diretor/autor se mostra inteiramente incapaz de amarrar a sua mensagem sem maculá-la com contradições, o castelo desmorona por completo. E em 3D.
Apesar do apelo de aventura, apesar de ser a história de um mocinho que contorna perigos e subjuga espécies exóticas, Avatar se considera um filme muito sério, e seu grande conflito fundamental desenrola-se entre capitalistas e populações nativas. De um lado está um modo de vida predatório e desumanizante, de outro uma vida natural e sustentável; de um lado estão burocratas e corporações, de outro xamãs e pés descalços; de um lado exércitos, do outro crianças.
Nada tenho contra esse conflito, que, entre outras coisas e infelizmente, é baseado em fatos reais. Apenas não devemos absolutamente acreditar quando Avatar dá entender que pode ter encontrado para ele um desfecho satisfatório.
Há, por exemplo, o tremendo desconforto de ver o grande herói branco transformando-se em deus cavalgador de dragões e salvador de civilizações devido à sua mera capacidade de, em poucos meses, aprender a manejar seu avatar melhor do que os nativos adultos de Pandora aprenderam a manejar seus próprios corpos desde que nasceram. É a sobrevivência no nosso tempo da terrível sombra do Mighty White, o grande salvador branco das narrativas colonialistas e imperialistas, cujos avatares são Tarzan e Jim das Selvas e Daktari e George, o rei da floresta.
Depois há o constrangimento de ver trazido seriamente à tona, e em pleno terceiro milênio, o mais desgastado e incompetente dos encantamentos naturebas, “não agrida a natureza ou ela irá voltar-se contra você”. A fórmula inspirou bons filmes de terror entre as décadas de 1950 e 1970 (“cuidado ao fazer testes nucleares no deserto ou derramar produtos químicos no pântano mais próximo, do contrário os <-inserir aqui qualquer espécie animal arbitrária-> gigantes irão invadir a sua cidade”), mas a nossa própria era, que enfrenta dilemas maiores e mais urgentes, requer solução menos infantilizante.
Porque Avatar pretende que o conflito em Pandora seja uma metáfora apta para os conflitos ambientais da nossa própria terra e do nosso própria tempo, e o que sabemos da nossa experiência é que não, a natureza não irá voltar-se contra você não importa o que você faça – pelo menos não a tempo, não de uma forma que o faça reconsiderar sua intenção de destruir e descaracterizar. Não importa o júbilo incandescente que promovam as vitórias de Avatar (e de filmes semelhantes), os rinocerontes não irão atacar as lojas do Wallmart e as baleias não vão derrubar as plataformas de petróleo. O mais perto que a natureza chegará de revidar será atendendo nosso pedido de um futuro isento de complicações como rinocerontes e baleias, mas então será tarde demais, e esta é a única moral da história e também sua contradição. Em termos ambientais, só se aprende a noção de sustentabilidade quando é cedo demais, na dura bem-aventurança das populações nativas, ou tarde demais, entre nós que já consumimos o planeta e vendemos o futuro.
Na verdade, as populações nativas acompanham invariavelmente a natureza em sua intransigente sujeição à destruição. Não devemos acreditar em mitos tardios de bons selvagens, mas é preciso reconhecer que uma coisa índios e culturas nativas têm em comum com a natureza: seu cavalheirismo de submeter-se ao apagamento sem luta. Entregam-se invariavelmente com docilidade, como quem cede a um abraço, ao toque que irá cancelá-los da realidade.
Esta é a contradição e a falha final de Avatar, o fato de que no filme a solução que os nativos destilam para vencer a violência dos exércitos financiados pelas corporações é engendrar sua própria estirpe de violência. Avatar não conhece outra solução para a guerra que não seja a guerra, e esta é uma tremenda derrota para narrativa tão bem-intencionada. O que acontece em Avatar é um caso homérico da rivalidade mimética denunciada por René Girard: a fim de vencer o inimigo sem alma os nativos imitam-no em tudo, deixando para trás até mesmo sua característica mais essencial e mais celebrada, seu respeito à vida, na ânsia de empreender justiça e salvar algum terreno. Desnecessário lembrar que na vida real, como provavelmente no universo do filme, as corporações estarão inteiramente prontas para revidar qualquer iniciativa violenta dos nativos, e quando voltarem estarão armados da justificativa inteiramente à prova de balas da vingança. Avatar é nisso indistinguível de Tropa de Elite.
Na vida real os frágeis não fazem guerra e ninguém fala em nome da natureza. Tudo que o meio-ambiente faz diante da violência (e entenda-se meio-ambiente como paisagens, espécies, tradições e culturas) é recolher-se e calar. Sua violência é apagar-se, e só o futuro será capaz de revelar por completo, pelo clamor impensável da ausência, a extensão desse horror.
E não importa o que sugira a ficção, não teremos outro planeta belíssimo para destruir. Não terás avatar nenhum.
* * *

Brabo das selvas e a mais severa das advertências

30 de Novembro de 2009
Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de psicose é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua experiência, é rigorosamente concreto e literalista. Um neurótico – isto é, uma pessoa normal – enxerga uma palavra cercada por uma aura sempre cambiante de sentidos, interpretações, alusões, metáforas e ambivalências. Para o psicótico, não existe dúvida nem ambivalência: significante e significado são uma mesma e implacável coisa. Para o psicótico, um domínio da experiência não é refletido ou mapeado por outro. Nada remete:É graças à Reforma que somos todos materialistas. a representação é ela mesma a coisa, e tudo que existe é o literal.
As peculiaridades dessa condição tornam o psicótico em grande parte impermeável à psicanálise – que requer, por definição, a resignificação de elementos simbólicos e a reelaboração de mitos e metáforas. Como para o psicótico não existem mitos nem metáforas, tudo tudo é duramente pé-da-letra, seu espírito está condenado a vagar em regime perene pela concretude, sem ser jamais capaz de enxergar a luz e adentrá-la.
Neurótico como sou, não pude deixar de encontrar espreitando nessa noção sua própria e necessária metáfora. Bastará voltar, como devemos sempre fazer, àquele que talvez seja o documento mais importante jamais armazenado nesta Bacia: O holocausto da alma, que consiste essenciamente na tradução que fiz de um artigo de Peter Harrisson.
Ali está escrito que a Reforma Protestante, com sua ênfase no sentido literal da Escritura (“literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não”), não apenas trabalhou no sentido de expurgar da experiência cristã qualquer manifestação simbólica, de poesia, metáfora ou transversalidade (coisas que ainda permeiam, por exemplo, a vivência do catolicismo); esse modo “concreto” e “literalista” de enxergar a existência acabou contaminando ainda toda a cosmovisão ocidental, mesmo para os que vivem fora do alcance dos telhados eclesiásticos.
Os reformadores apostaram todas as suas cartas na suficiência do literal; isso implicava em atestar a supremacia de uma leitura científica “realista” em detrimento de abordagens mais simbólicas, alegóricas e literárias do texto. A Bíblia era para ser entendida como testemunho literal de uma realidade “concreta”, e nisso deveria confirmar os crivos empíricos da ciência e ser confirmada por eles. Com o arrastar dos séculos, no entanto, a ênfase no literal acabou voltando-se contra a própria Bíblia: a ciência finamente desvalidou a própria literalidade da Bíblia – via Darwin, por exemplo.
A ciência vencera e hoje reina suprema. Os elementos da natureza foram esvaziados de seu valor simbólico e a Bíblia de sua essência metafórica e mítica. Depois de insistirem por séculos que o cerne vital da Bíblia jazia na sua literalidade, os herdeiros do protestantismo ficaram sem graça de mudar o seu discurso e apontar que sua verdadeira e transformadora relevância é metafórica. Ridicularizamos por tanto tempo as parábolas que perdemos a capacidade de levá-las a sério – isto é, de lê-las como parábolas. E, quando, começamos, já era tarde demais: é graças à Reforma que somos todos materialistas.
Somos hoje em dia todos psicóticos funcionais, sem verdadeiro acesso à poesia e à metáfora. E os cristãos sequer se contentaram em limitar sua obra a seus próprios arraiais. Psicotizamos a própria experiência.

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