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	<title>A Bacia das Almas &#187; Sociedade</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>O triunfo do simulacro</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 07:55:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[1984]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[poser or prophet]]></category>

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		<description><![CDATA[Daniel Oudshoorn, escrevendo sobre porque não tenho uma conta do Facebook, ou explicando de que modo posso um dia voltar a ter (já tive como ele uma conta secreta, por dois ou três anos: dois amigos, deve ter sido uma espécie de recorde): Outro dia uma velha amiga &#8211; que já foi minha companheira de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Daniel Oudshoorn, <a href="http://poserorprophet.wordpress.com/2011/11/28/an-aside/">escrevendo sobre porque</a> não tenho uma conta do Facebook, ou explicando de que modo posso um dia voltar a ter (já tive como ele uma conta secreta, por dois ou três anos: dois amigos, deve ter sido uma espécie de recorde):</p>
<blockquote><p>Outro dia uma velha amiga &#8211; que já foi minha companheira de quarto e colega de trabalho, e uma das poucas mulheres do mundo com as quais eu concordaria em caminhar pelos becos da porção leste do centro de Vancouver à uma da manhã &#8211; veio me visitar e descobriu que tenho uma &#8220;secreta&#8221; e minúscula conta no Facebook. Ela ficou chocadíssima que eu não a tivesse &#8220;adicionado como amiga&#8221;, e concluiu que isso quer dizer que não somos amigos &#8220;de verdade&#8221; &#8211; apesar do fato de fazermos coisas como sair juntos e conversar sobre praticamente tudo, de nossas vidas sexuais a nossos conflitos mais íntimos. Já livramos um ao outro de enrascadas mais de uma vez (incluindo duas ocasiões em que havia gente com risco iminente de morrer), mas o que realmente importava pra ela é que não éramos &#8220;amigos&#8221; no Facebook &#8211; isto é, uma comunidade virtual em que imagens institucionais de pessoas se relacionam com imagens institucionais de outras pessoas (isto é, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Second_Life">Second Life</a> com outro nome).</p>
<p>É o tipo de coisa que confere substância às alegações de Baudrillard sobre <a href="http://www.filosofia.net/materiales/articulos/a_baudrillard_vasquez.html">o triunfo do simulacro</a> (ou às observações de Zizek de que a ascensão da internet representa a ascensão de uma nova forma de desencarnação gnóstica).</p></blockquote>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug082.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-novo-ceu/">O novo céu</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ready for that day [2]</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Sep 2011 09:15:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Are you prepared to run this Christian race? [Visite a Bacia para ouvir o áudio] Welcome Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#B0B0A0"><small><em>Are you prepared to run this Christian race?</em></small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Welcome</small></span></p>
<p>Para uma congregação degenerar-se em seita basta um único ingrediente: um líder. Nem todas as congregações tem um líder e nem todas as congregações são seitas, mas todas as seitas tem um líder. Destemperados todos somos; nosso problema é que alguns de nós chegam ao poder. Nota para mim mesmo: Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.</p>
<p>O líder bem intencionado só quer a perpetuação da instituição, e isso com o objetivo de proteger você.</p>
<p>O líder mal intencionado só quer o seu dinheiro, e afirmará que a causa mais sentida das coletas que faz é patrocinar os seus sonhos.</p>
<p>O líder de uma seita lhe estenderá na última ceia um copo com cianeto, irá convidar você e seus filhos a morrer com ele, e você aceitará de bom grado.</p>
<p>E até ser tarde demais você pode não ter como perceber com qual dos três está lidando.</p>
<p>A congregação <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day/">de que estou falando</a> foi fundada na década de 1950 em Indianápolis, como ramo da denominação Discípulos de Cristo, e mudou-se em 1965 para a Califórnia, onde formou uma comunidade vibrante e engajada, comprometida com justiça social e integração racial. Em 1974 essa comunidade decidiu que era hora de abandonar os Estados Unidos, cuja postura fascista, corporativista e racista seus membros tomavam (com acerto) por anticristãs; em 1977 a maior parte do grupo transferiu-se para a Guiana, onde fundaram a colônia rural que ficaria conhecida como Jonestown, um &#8220;paraíso socialista&#8221; modelado para contrastar com a vida alienada e consumista que haviam abandonado nos Estados Unidos.</p>
<p>Porém a essa altura o líder e fundador original já dava há anos indicações de enraizados distúrbios mentais<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day-2/#footnote_0_2646" id="identifier_0_2646" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Famosamente, o l&iacute;der de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser &amp;#8220;o &uacute;nico heterossexual&amp;#8221; do planeta.">1</a></sup>, e lapidara à excelência o dom psicopata de promulgar perversidades sem perder a doçura do tom de voz.</p>
<p>Em 18 de novembro de 1978, horas depois de uma complexa escaramuça envolvendo dissidentes e que resultou no assassinato de um deputado norte-americano que viera visitar a colônia, o líder da congregação reuniu a comunidade e conduziu um suicídio em massa no qual morreram mais de 900 pessoas, entre homens, mulheres e crianças &#8211; inclusive o próprio líder, Jim Jones. Pelo que se sabe, e conforme testemunha uma gravação feita na ocasião, o suicídio em si aconteceu calmamente, entre aleluias e choros de bebês, mas sem grandes manifestações de repúdio, de tristeza ou de horror. &#8220;Não estamos cometendo suicídio&#8221;, explica Jones; &#8220;este é um ato revolucionário&#8221;. E mais tarde: &#8220;Elas [as crianças] não estão chorando de dor; [o veneno] é que é um pouco amargo&#8221;. </p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>As últimas deliberações em Jonestown<br />
Transcrição dos diálogos <a href="http://jonestown.sdsu.edu/AboutJonestown/Tapes/Tapes/DeathTape/Q042.html">aqui</a><br />
</small></span></p>
<p>A congregação chamava-se <em>Peoples Temple</em> e em 1973, ainda na Califórnia, seu coro gravou o disco He&#8217;s Able<em>/Ele é capaz</em>, da qual subtraí a canção Walking With You, Father<em>/Caminhando contigo, Pai</em>, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/ready-for-that-day/">arquivei aqui</a>, bem com as outras canções que ilustram este documento.</p>
<p>***</p>
<p>Acima do altar na casa de reuniões da congregação do <em>Peoples Temple</em> na Guiana havia uma placa com o lema da comunidade: <em>Those who don&#8217;t remember the past are condemned to repeat it</em> &#8211; os que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/bits/jonestown.jpg" alt="" /></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Walking with you, Father</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Set them free</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Walk a mile in my shows</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Hold on, Brother</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Down from his glory</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>He&#8217;s Able</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Something got a hold of me</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Because of Him</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Black baby</small></span></p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Will you</small></span></p>
<p align="right"><small> Album via <a href="http://blog.wfmu.org/freeform/2006/02/he_was_able_mp3.html">wfmu.org</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-que-menos-sao/">Os que menos são</a><br />
<a href="http://jonestown.sdsu.edu/">Jonestown</a> (abundante material primário sobre o assunto, em inglês)</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2646" class="footnote">Famosamente, o líder de Jonestown vangloriava-se (ao que se sabe com pouco fundamento) de ser &#8220;o único heterossexual&#8221; do planeta.</li></ol>]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Notas no caderno da revolução</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Aug 2011 11:45:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[ellul]]></category>
		<category><![CDATA[progresso]]></category>

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		<description><![CDATA[Para trazer a efeito a revolução não basta simplesmente compartilhar as mesmas ideias, é necessário poder viver juntos, numa base diária, se possível em contato direto com a natureza. Embora pareça paradoxal, apenas uma comunidade de homens &#8220;unidos e isolados&#8221; pode garantir a vida interior autêntica negada pela civilização tecnológica. Jacques Ellul É precisamente isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para trazer a efeito a revolução não basta simplesmente compartilhar as mesmas ideias, é necessário poder viver juntos, numa base diária, se possível em contato direto com a natureza. Embora pareça paradoxal, apenas uma comunidade de homens &#8220;unidos e isolados&#8221; pode garantir a vida interior autêntica negada pela civilização tecnológica.</p>
<p align="right"><small><strong>Jacques Ellul</strong></small></p>
<p>É precisamente isso que distinguía Ellul de todos os totalitaristas, panteístas e naturalistas daquele tempo: Minha ideia – embora tenha sido inteiramente mal compreendida pelos ecologistas – é que <em>o progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade</em>.</p>
<p align="right"><small><strong>Bernard Charbonneau</strong></small></p>
<p>Ellul e Chabornneau insistiam constantemente na necessidade de estabelecerem-se, localmente, pequenos grupos auto-governados que seriam federados entre si. Deveriam funcionar como contra-sociedades, esses grupos exemplares, manifestações concretas da ordem a ser construída. Seu propósito não era derrubar o regime mas servir de evidência, aqui e agora, da <em>revolução instantânea.</em> Gradualmente, de forma contagiosa, essa rede fundada nas bases poderia espalhar-se além das fronteiras nacionais, que estavam fadadas a desaparecer de qualquer maneira.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Patrick Troude-Chastenet,</strong><br />sobre os projetos anárquicos de Jacques Ellul </small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug028.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-profeta-e-a-revolucao/">O profeta e a revolução</a></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A pastoral do medo</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 08:56:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
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		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável pode ser manipulada. </p>
<p>O medo só é capaz de dominar quem tem alguma coisa a perder; quem não tem nada a perder não tem a nada temer. Esta é uma equação delicada, especialmente num país como o Brasil, em que a distribuição de renda está entre as dez mais desiguais<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter.</span> do mundo (e é um mundo grande): há sempre o risco de que os que não tem nada a perder se levantem contra os que tem tudo a perder.</p>
<p>Em todo o mundo, mas especialmente num país com a nossa história, a classe média ocupa mais ou menos o espaço que ocupava a nobreza nos tempos medievais e coloniais. E, como sabemos o que aconteceu à nobreza em insurreições como a Revolução Francesa, a classe média adentrou a era moderna imbuída de um medo que lhe é absolutamente característico e essencial: <em>o medo da perturbação social.</em></p>
<p>A classe média sabe desejar o progresso e é capaz de assimilar a mudança, porém (exatamente como a nobreza antes dela) tem absoluto horror à desordem. Seu mundo de shopping centers, de ambientes de ar condicionado e de seguranças na porta (a fim de manter os incompatíveis à distância) deve ser resguardado a todo custo. Passeatas, quebra-quebras, invasões de sem-terra, ladrões que levam o iPad e revoluções de gente faminta devem pertencer ao domínio ilustrativo dos filmes de zumbi. Na verdade, já o constrangimento de ser abordado por uma criança de rua na esquina deve ser aplacado pelo uso preventivo de carros blindados e vidros escuros.</p>
<p>A estabilidade social, entendida como a manutenção de um estado de coisas em que uma minoria administre e se beneficie de recursos que são de todos, é o valor por excelência da classe média. Não há outra verdade eterna que ela esteja disposta a defender.</p>
<p>O medo da perturbação social, no entanto, é genérico demais e precisa encontrar ícones que os encarnem de modo satisfatório. É preciso pulverizar o nosso medo essencial atribuindo-o a culpados e demônios. </p>
<p>E, se quisesse manipular nos nossos dias uma burguesia absolutamente aterrorizada diante da possibilidade de perturbações sociais, que alvos você elegeria? Deixe-me ajudá-lo: elejamos os homossexuais, os que defendem o aborto, os sem-terra, os comunistas<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_0_2381" id="identifier_0_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Na Europa e nos Estados Unidos seria necess&aacute;rio incluir nesta lista os mu&ccedil;ulmanos e os imigrantes.">1</a></sup>. </p>
<p>Cada uma dessas categorias representa, à sua maneira, uma formidável possibilidade de perturbação social; cada uma, à sua maneira, materializa uma ameaça à tranquilidade <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O que a classe média teme são perturbações sociais.</span> sanitizada do indefectível universo burguês, em que nada é sujo, nada é feio, nada é controverso e nada é constrangedor.</p>
<p>E que ameaça maior do que um mundo em que a união civil entre homossexuais denuncie diariamente o caráter relativo e historicamente determinado de soluções de convívio que a sociedade toma por normativas? O que parecerá mais perturbador do que um mundo em que gente do sexo masculino ouse definir a sua relação mútua pela afetividade e não pela agressividade e pela competição? Um mundo em que mulheres ousem prescindir do homem para encontrar a sua satisfação sexual e emocional?</p>
<p>Do mesmo modo, será preciso avaliar a ameaça de um mundo em que o aborto exista sequer como possibilidade. Porque este mundo irá postular como legítimo que a mulher exerça controle sobre seu próprio corpo e sobre seu próprio prazer, e esses domínios pertencem por tradição ao âmbito do seu homem. </p>
<p>E que dizer dos sem-terra e dos comunistas, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">blasfemam do próprio capitalismo</a> e querem virar o mundo do avesso, ignorando os privilégios milenares da propriedade, da classe social e do lucro, e isso em favor de uma ameaça tão declarada quanto a &#8220;igualdade social&#8221;? O que pode ser mais inaceitável do que esse ataque direto à estabilidade &#8211; à própria existência &#8211; do mundo entrincheirado da burguesia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_1_2381" id="identifier_1_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma sociedade justa &eacute; uma em que, por defini&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o existe m&atilde;o de obra barata. Conversei esta semana com um empres&aacute;rio que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pir&acirc;mide pelo sal&aacute;rio que ele costumava oferecer. Diante de seguran&ccedil;as de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Fam&iacute;lia, os desqualificados do sistema est&atilde;o pensando duas vezes antes de se submeter a uma posi&ccedil;&atilde;o desumanizante e pouco promissora. Esse empres&aacute;rio sentia-se pressionado a ou aumentar os seus sal&aacute;rios ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as solu&ccedil;&otilde;es o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturba&ccedil;&atilde;o social. Seu mundo de enriquecimento r&aacute;pido baseado na submiss&atilde;o volunt&aacute;ria dos mais fracos estava sendo amea&ccedil;ado, e seu patrim&ocirc;nio corre o risco de n&atilde;o dobrar n&oacute;s pr&oacute;ximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.">2</a></sup>?</p>
<p>Se é para preservar o presente mundo das perturbações sociais, será necessário negar qualquer igualdade de direitos civis aos homossexuais, chamando sua demanda de ditadura gay; será preciso abominar o aborto acenando com a bandeira pró-vida, ao mesmo tempo em que escondemos atrás dela os recursos que financiam a morte nas guerras e o horror das crianças vivas que passam fome patrocinada pelo capitalismo; será preciso rejeitar qualquer iniciativa que altere desfavoravelmente (para nós) a distância de segurança entre as castas, tachando-as de paternalismo, assistencialismo, compra de votos e introdução gradual da doutrina comunista<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_2_2381" id="identifier_2_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Pode ser necess&aacute;rio lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de solu&ccedil;&otilde;es legislativas ou pol&iacute;ticas para quaisquer dessas quest&otilde;es. Na verdade rejeito a supremacia de qualquer solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O que reconhe&ccedil;o &eacute; que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de C&eacute;sar um rei primeiro descal&ccedil;o, depois invis&iacute;vel, e maquinava a implanta&ccedil;&atilde;o nesta terra de um reino que n&atilde;o &eacute; deste mundo) pressup&otilde;e e instaura o fim de todos os governos.">3</a></sup>.</p>
<p>Pelo menos desde a Idade Média o papel da igreja foi fundamental na definição e na propagação de medos expiatórios como esses. Num sentido muito profundo, a igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter. Coube tradicionalmente a ela fornecer os demônios cuja execração garanta a continuidade do estado de coisas &#8211; e resguarde, no mesmo pacote, a influência que a própria igreja exerce sobre as pessoas.</p>
<p>Aqui está Jean Delumeau, notável mapeador de medos, falando da cidade sitiada que era a sociedade medieval:</p>
<blockquote><p>Os homens da igreja levantaram os males que [Satã] é capaz de provocar e a lista de seus agentes: os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres (especialmente as feiticeiras). Operaram uma triagem entre os perigos e assinalaram as ameaças essenciais, isto é, aquelas que lhes pareceram tais, levados em conta sua formação religiosa e seu poder na sociedade. Uma ameaça de morte viu-se assim segmentada em medos, seguramente temíveis, mas &#8220;nomeados&#8221; e explicados, porque refletidos e aclarados pelos homens da igreja. Essa enunciação designava perigos e adversários contra os quais o combate era, se não fácil, ao menos possível, com a ajuda da graça de Deus. Desmascarar Satã e seus agentes e lutar contra o pecado era, além disso, diminuir sobre a terra a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa. Essa denúncia se pretendia, pois, liberação, a despeito &#8211; ou melhor por causa &#8211; de todas as ameaças que fazia pesar sobre os inimigos de Deus desentocados de seus esconderijos. </p></blockquote>
<p>Basta que se troquem os rótulos &#8211; saem turcos, judeus, heréticos e feiticeiras e entram comunistas, homossexuais, feministas e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">muçulmanos</a> &#8211; para que se veja que a igreja permanece elegendo &#8220;ameaças essenciais&#8221; de modo a beneficiar-se do pavor que a sociedade tem de perder os privilégios da familiaridade.</p>
<p>A igreja formal contemporânea dispõe de uma parcela de poder infinitamente menor do que a medieval, mas isso não torna os seus esforços menos enfáticos. Ao contrário, para resguardar o pouco poder que lhe resta, os homens da igreja se entregarão com paixão inquisitorial à tarefa de elencar demônios e exercer sua faculdade autoimposta de polícia social. E, como observado por Delumeau, parte essencial dessa estratégia é manter os cristãos com uma certa dose de <em>medo de si mesmos</em> &#8211; medo de serem contados entre o inimigo, medo de não defenderem com suficiente ardor uma pureza nominal, medo da rejeição institucional e de seus preços.</p>
<p>O problema de uma comunidade dominada pelo medo é que ela pode ser manipulada a ceder a gravíssimas injustiças em nome da preservação de sua tranquilidade idealizada. Dessa forma a Alemanha abraçou de bom grado o discurso nazista, por medo das perturbações sociais encarnadas na ameaça do comunismo e numa suposta dominação judaica mundial. Dessa forma a Itália dobrou-se servilmente ao fascismo e o Brasil à ditadura militar, porque esses autoritarismos berravam ameaças de uma impensável sublevação e de uma horrendo nivelamento societário. E, como era de se esperar, esses movimentos de terror contaram com o apoio aberto &#8211; e, em alguns casos, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">o constrangido silêncio</a> &#8211; da igreja.</p>
<p>Em que somos menos manipuláveis do que a Alemanha nazista, se tememos as mesmas coisas? Os nazistas temiam que os judeus imprimissem no mundo seus valores, sua supremacia e sua estética, e nós tememos que os homossexuais implantem nele a sua agenda; os nazistas temiam que os comunistas aplainassem as classes ao ponto de uma completa descaracterização nacional, e nós tememos a mesma coisa. Somos nós a cidade sitiada, e o que nos conforta são os gritos do clero explicando o que devemos temer &#8211; e assim o que devemos odiar.</p>
<p>A ironia da participação da igreja na disseminação desses terrores está em que o movimento cristão nasceu e se desenvolveu num ambiente caracterizado por formidáveis perturbações sociais. Jesus ganhou fama de rei numa Palestina ocupada em que vinham periodicamente à tona levantes e guerrilhas dirigidas contra os romanos e sua opressão imperialista. O Templo dos judeus não sobreviveu ao sangrento confronto do ano 70 desta era, e poucas décadas mais tarde os próprios cristãos viram levantar-se contra o seu mundo uma longa e implacável perseguição.</p>
<p>Ainda mais paradoxal é reconhecer que, se devemos dar crédito ao Novo Testamento, a maior e mais radical fonte de perturbação social naqueles anos foi o próprio movimento cristão. Dos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">apelos de João Batista por justiça social</a> até <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">as mesas comunitárias do livro de Atos</a>, passando pelos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">confrontos de Jesus com todas as elites do seu tempo</a>, o movimento do reino representou uma intransigente e contínua sublevação societária. </p>
<p>Em conformidade com a herança de seu mestre (e causando o mesmo tipo de constrangimento), os colonos do reino levavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao">por onde passavam</a> as demandas por justiça, por fraternidade universal e pelo amor incondicional entre os homens. Quando a boa nova chegou a Tessalônica, na pessoa de Paulo e Silas, seus adversários não poderiam ter escolhido melhor as palavras para descrever a ameaça de perturbação social que representavam: &#8220;esses que estão virando o mundo de cabeça para baixo chegaram também aqui&#8221;.</p>
<p>Quando adotamos o discurso do medo, portanto, estamos tentando imprimir sobre a proposta impoluta e subversiva do reino marcas que são incompatíveis com a sua essência e com a sua herança. Porque o Novo Testamento não deixa espaço para dúvida: igreja não é quem teme a perturbação social, mas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">quem a provoca</a>. Igreja não é quem promove o medo, mas quem o aplaca e o anula <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/">pela inclusão e pelo amor</a>. &#8220;O amor lança fora todo o medo&#8221;, ousou proclamar a provisão imprudente do Espírito.</p>
<p>E nós, o que fazemos? Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos aprendia, passo a passo, a incluir o diferente e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/">o tido previamente como inaceitável</a> (a mulher, o aleijado, o eunuco, o gentio), nós demonizamos como inaceitável o homossexual. Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos adotava todo o tipo de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/">medidas distributivas</a> e postulava um reino definido pela equidade, nós condenamos como comunismo e como Satanás a mínima provisão que vise apenas desbastar os abismos da distribuição de renda.</p>
<p>E nisso, que fique muito claro, vamos escolhendo aqueles medos que nos mantenham a salvo da nossa vocação.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">Ainda sobre a ameaça muçulmana</a><br />
<a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/maria-rita-kehl-dois-pesos.html">Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2381" class="footnote">Na Europa e nos Estados Unidos seria necessário incluir nesta lista os muçulmanos e os imigrantes.</li><li id="footnote_1_2381" class="footnote">Uma sociedade justa é uma em que, por definição, não existe mão de obra barata. Conversei esta semana com um empresário que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pirâmide pelo salário que ele costumava oferecer. Diante de seguranças de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Família, os desqualificados do sistema estão pensando duas vezes antes de se submeter a uma posição desumanizante e pouco promissora. Esse empresário sentia-se pressionado a ou aumentar os seus salários ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as soluções o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturbação social. Seu mundo de enriquecimento rápido baseado na submissão voluntária dos mais fracos estava sendo ameaçado, e seu patrimônio corre o risco de não dobrar nós próximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.</li><li id="footnote_2_2381" class="footnote">Pode ser necessário lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de soluções legislativas ou políticas para quaisquer dessas questões. Na verdade rejeito a supremacia de <em>qualquer</em> solução política. O que reconheço é que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de César um rei primeiro descalço, depois invisível, e maquinava a implantação nesta terra de um reino que não é deste mundo) pressupõe e instaura <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos">o fim de todos os governos</a>.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>A dessacralização do banal</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Oct 2010 08:07:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dizem-me que o que há de mau nas grandes redes sociais da internet é o esvaziamento da privacidade, a glorificação do instantâneo, a alienação da realidade e a pulverização da atenção que deveria ser dedicada a questões e a gente de carne e osso. A esses costumo lembrar que nenhuma dessas tendências foi gerada pelas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dizem-me que o que há de mau nas grandes redes sociais da internet é o esvaziamento da privacidade, a glorificação do instantâneo, a alienação da realidade e a pulverização da atenção que deveria ser dedicada a questões e a gente de carne e osso. A esses costumo lembrar que nenhuma dessas tendências foi gerada pelas redes sociais, e nenhuma é de posse exclusiva delas.</p>
<p>De minha parte, não tenho ilusões de privacidade, como não deveria ter nenhum temerário colonizador da internet. Também não me escandaliza ver exposto publicamente aquilo que se convencionou chamar de &#8220;pessoal&#8221; &#8211; já que tudo que houver digno de ser apreciado, de qualquer autor e em qualquer meio, será invariavelmente de natureza confessional.</p>
<p>O que me incomoda em abominações como o twitter e infelicidades como o orkut não é a glorificação da banalidade, mas precisamente o oposto: a dessacralização do banal.</p>
<p>Há algo de sagrado no banal, em se contar como foi a noite de sono e observar que alguma coisa não desceu bem no café da manhã. Sou antiquado o bastante para crer que o banal pertence a esse âmbito sagrado e interdito, e que dividi-lo com todos (ou seja, com ninguém) equivale a despi-lo de sua precária beleza. É coisa justa e boa que o conferencista apresente as convicções do seu coração, aquilo que toma por absolutamente vital e verdadeiro, diante de uma multidão cambiante e anônima; já a pequena confissão, a dor nas costas, o preço do remédio e o desconforto com os sapatos, justamente por sua sacra banalidade, devem permanecer reservados para algum círculo mais interno &#8211;  o cônjuge, o amigo, os filhos, o ascensorista. O estadista deve reclamar da vida com o porteiro e o açougueiro  que nunca ri deve brincar com o filho diante do besouro vira-bosta, mas essas são liturgias a serem desempenhadas em pequeno, no um a um. Esse recato não se destina, bem entendido, a preservar imaculada alguma imagem ilusória, mas precisamente o contrário: porque só se escapa da ilusão da máscara pública (e na internet somos todos figuras públicas) mantendo sagrado e interdito o diminuto círculo de controle da vida real, em que o que existe somos só nós mesmos, o outro e as pequenas coisas.</p>
<p>Releio esta nota e me ocorre o inevitável: que se trata de reflexão tão banal que deveria ter ficado só para mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/everyone-retarded.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/everyone-retarded-s.jpg" title="Porque ninguém nunca acredita em viajantes do tempo" /></a></p>
<p><small>Imagem via <a href="http://blastr.com/2010/10/image-of-the-day-why.php">blastr</a></small></p>
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		<title>O direito ao desemprego criador</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2010 04:25:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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		<description><![CDATA[A partir daí tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são centros de consumo, enquanto as de nossas avós e bisavós eram centros de produção. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo que a família precisava estava ao alcance das mãos &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A partir daí tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são <em>centros de consumo</em>, enquanto as de nossas avós e bisavós eram <em>centros de produção</em>. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo que a família precisava estava ao alcance das mãos &#8211; de habilidosas mãos &#8211; que não só produziam, mas também consertavam, mantinham e adaptavam a novos usos quando algo se tornava definitivamente irrecuperável.</p>
<p>[...]</p>
<p>Veja bem: tudo que entra em casa gera embalagem e sai na forma de poluição. Nada fica, nada é aproveitado, tudo é jogado fora, como se “fora” existisse. Para tantos que falam de jogar algo fora, deve existir uma mágica no universo, uma vez que “fora” significaria uma espécie de buraco negro onde tudo sumiria, <span style="float:right;text-align:right;width:35%;font-family:georgia, times new roman, serif;font-variant:small-caps;font-size:1.3em;color:#5b211a;line-height:1.3em;margin:20px 0 20px 20px;">Emprego polui.</span>quando de fato o que ocorre é que nosso “fora” significa que algo que não queremos deva ser lançado na cabeça de outra pessoa, de outro sistema ou de outra vizinhança. Transformamos o <em>ciclo da vida</em> em <em>cadeia de geração de lixo</em>. E nos prendemos nessas correntes intermináveis que acabam por nos envenenar corpos e mentes.</p>
<p>Para termos acesso a essa cadeia, buscamos dinheiro, e para obtê-lo nos submetemos a mais emprego. Nos coisificamos – reificamos segundo Marx – viramos peça de engrenagem e para manejar a situação buscamos ter mais e melhores empregos e com isso criamos muita poluição. Além de transformar a cadeia em algemas para a vida toda.</p>
<p>Para empregarmo-nos temos dois carros por família, ou usamos muito transporte de massa. Comemos comida pronta para ganhar tempo, inflamos as praças de alimentação de cada Shopping Center, onde produz-se em média dois contêineres por dia de restos de alimento que irão apodrecer em um aterro sanitário. A cada refeição geramos saquinhos plásticos, colheres plásticas, copos plásticos, facas plásticas e muito papel, energia e barulho que acompanham cada empregado, ou executivo, enquanto usufrui de sua ração diária. Nossos filhos vão a escolas e geram mais engarrafamento e stress, mais transportes, mais lanchinhos, embalagens e mais embalagens. Como a comida deve ser fácil e rápida, snacks entram no lugar de frutas ou pães, e com isso mais embalagens. Máquinas e mais máquinas, roupas compradas em lojas, e tudo que nos auxilia a consumir mais, ter melhor aparência e adequarmos nossa vida ao emprego, polui e acelera o sistema. E como pagamento por nosso esforço, ganhamos dinheiro, para comprar mais, gastar mais e poluir mais.</p>
<p>Emprego polui. E só nos empregamos por que não sabemos fazer outra coisa a não ser gerar dinheiro, para comprar mais e fazer menos. E no meio disso, para obtermos a impressão de descanso, nos entretemos diante de alguma bobagem, para que o consumo nos tenha entre tempos. Nos divertimos, para que nossa mente divirja daquilo que é importante. Saímos em grupos, para não sermos importunados pela família. Ligamos a TV para desligarmos a mente daquilo que nos oprime.</p>
<p>Uma boa medida para combater a extrema poluição que assola nosso planeta seria a busca do <em>direito ao desemprego criador.</em></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif"></p>
<p align="right"><small>O impenitente <strong>Claudio Oliver</strong>,<br />
que não se cansa de me atormentar<br />
e pode ser encontrado <a href="http://naruacomdeus.blogspot.com/">na rua com Deus</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-ansiedade-das-coisas/">A ansiedade das coisas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-capitalismo-como-fascismo/">O capitalismo como fascismo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-ciclo-pendente-das-coisas/">O ciclo pendente das coisas</a></p>
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		<title>11 de setembro</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Sep 2010 14:39:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).</p>
<p>Em qualquer dia marcado como santo &#8211; ou designado como momento de se recordar um evento passado &#8211; vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.</p>
<p>Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?</p>
<p>A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou &#8220;desapareceram&#8221;,  dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram &#8220;situações de trauma extremo&#8221;.</p>
<p>Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Salvador_Allende#A_hist.C3.B3ria_do_golpe_militar">o apoio da CIA</a>, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).</p>
<p>Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos &#8211; aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários &#8211; tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem). </p>
<p>Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente &#8211; uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald&#8217;s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.</p>
<p>O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao &#8220;11 de setembro&#8221; ou a &#8220;11/9&#8243;; não se fala em &#8220;11 de setembro de 2001&#8243; ou &#8220;11/09/2001&#8243;. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.</p>
<p>O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana.  Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 &#8211; em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão &#8220;super-Guatamano&#8221; de Obama na base da Força Aérea em Bagram.</p>
<p>O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.</p>
<p>Portanto, hoje seremos lembrados a &#8220;nunca esquecer&#8221; os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.</p>
<p align="right"><small><strong>Daniel Oudshoorn</strong><br />
 <a href="http://poserorprophet.wordpress.com">Poser or Prophet</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif"></p>
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		<title>Esse imenso poder</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Sep 2010 03:01:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo mundo está virando [super-herói]. No passado tentei dizer, &#8220;olha, somos todos super-heróis medíocres&#8221;, porque computadores pessoais e telefones portáteis eram coisas que só o Batman e o Sr. Fantástico podiam possuir nos anos sessenta. Temos todos esse imenso poder e ainda estamos sentados em casa assistindo pornografia e comprando bilhetes de loteria instantânea. Somos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo mundo está virando [super-herói]. No passado tentei dizer, &#8220;olha, somos todos super-heróis medíocres&#8221;, porque computadores pessoais e telefones portáteis eram coisas que só o Batman e o Sr. Fantástico podiam possuir nos anos sessenta. Temos todos esse imenso poder e ainda estamos sentados em casa assistindo pornografia e comprando bilhetes de loteria instantânea. Somos uma porcaria, muito embora sejamos deuses.</p>
<p align="right"><small><strong>Allan Moore</strong>, autor de <em>Watchmen</em></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug073.gif"></p>
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		<title>A voz de um cara</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 11:20:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; &#8220;Privilégio come direito.&#8221; Via Evandro Melo, por e-mail Leia também: A criminalidade útil: o sistema penal como instrumento de manipulação]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<p align="center"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube-nocookie.com/v/YmxNx2UT5Dk&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999&#038;start=45""></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube-nocookie.com/v/YmxNx2UT5Dk&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999&#038;start=45"" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
</td>
</tr>
</table>
<p>&nbsp;</p>
<p>&#8220;Privilégio come direito.&#8221;</p>
<p align="right"><small>Via Evandro Melo, por e-mail</small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://recantodasletras.uol.com.br/textosjuridicos/510047">A criminalidade útil: o sistema penal como instrumento de manipulação</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O ciclo pendente das coisas</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Mar 2010 12:35:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia o vídeo abaixo vai ser considerado parte do Novo Testamento &#8211; ou daquilo que no futuro, se houver, será considerado o Novo Testamento. Trata-se de The Story Of Stuff/A história das coisas, no qual Annie Leonard expõe grande parte da má nova e, se você tem fé, parte da boa. Só a exposição [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia o vídeo abaixo vai ser considerado parte do Novo Testamento &#8211; ou daquilo que no futuro, se houver, será considerado o Novo Testamento. Trata-se de <strong>The Story Of Stuff</strong><em>/A história das coisas,</em> no qual Annie Leonard expõe grande parte da má nova e, se você tem fé, parte da boa.</p>
<p>Só a exposição dos conceitos de obsolescência progamada e obsolescência percebida valem o preço do ingresso. O vídeo é em inglês, mas escolha no botão CC a opção <em>Portuguese-Português</em> antes de começar para ver as legendas na sua língua.</p>
<p>Para assistir <a href="http://www.storyofstuff.org/movies-all/story-of-stuff/"><strong>clique aqui</strong></a> ou na imagem abaixo. É lucidez garantida ou a sua ignorância de volta.</p>
<p align="center"><a href="http://www.storyofstuff.org/movies-all/story-of-stuff/"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/the-story-of-stuff.png" title="Clique para assistir" /></a></p>
<p><small>via <strong>db</strong>, por email</small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tudo que os seus professores fizeram para matar a sua criatividade</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 07:55:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[FOI COM A MELHOR DAS INTENÇÕES. Parte 1: &#8220;Se você não estiver preparado para estar errado, nunca vai ter uma idéia original&#8221; Parte 2: &#8220;De repente, um diploma não vale mais nada&#8221;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>FOI COM A MELHOR DAS INTENÇÕES.</p>
<p><strong>Parte 1: </strong>&#8220;Se você não estiver preparado para estar errado, nunca vai ter uma idéia original&#8221;</p>
<table border="0" height="400" width="425" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube-nocookie.com/v/yFi1mKnvs2w&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube-nocookie.com/v/yFi1mKnvs2w&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
</td>
</tr>
</table>
<p><strong>Parte 2: </strong>&#8220;De repente, um diploma não vale mais nada&#8221;</p>
<table border="0" height="400" width="425" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube-nocookie.com/v/0pn_oTIwy4g&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube-nocookie.com/v/0pn_oTIwy4g&#038;hl=en_US&#038;fs=1&#038;rel=0&#038;color1=0x3a3a3a&#038;color2=0x999999" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
</td>
</tr>
</table>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug003.gif"></p>
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		<item>
		<title>Você acaba de perder o Jogo</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/voce-acaba-de-perder-o-jogo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=voce-acaba-de-perder-o-jogo</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2010/voce-acaba-de-perder-o-jogo/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 19:46:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[O Jogo tem duas regras: 1. Quando você pensa no Jogo, você perde o Jogo; 2. Quando perde o Jogo você deve anunciar que perdeu àqueles ao seu redor. Todos que sabem sobre o Jogo estão jogando. Tecnicamente ninguém pode ganhar o Jogo; o máximo que se pode fazer é não perder o Jogo (isto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/5330789/view-large"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/5330789_fe7fcb4a4df8cac168370828fe099bc4_standard.jpg" height="460" width="306" title="Clique para ampliar"/><br />
</a></p>
<p>O Jogo tem duas regras:</p>
<p>1. Quando você pensa no Jogo, você perde o Jogo;<br />
2. Quando perde o Jogo você deve anunciar que perdeu àqueles ao seu redor.</p>
<p>Todos que sabem sobre o Jogo estão jogando. Tecnicamente ninguém pode ganhar o Jogo; o máximo que se pode fazer é não perder o Jogo (isto é, enquanto não se pensa no Jogo), ou levar outras pessoas a perderem (levando-as a pensar no Jogo).</p>
<p>Você acaba de perder o Jogo.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Mais sobre <em><strong>O Jogo</strong></em> (em inglês) <a href="http://ilostthegame.org/rules">aqui</a> e <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Game_%28mind_game%29">aqui</a>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug016.gif"></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>O não-banquete: a internet e a aparência do diálogo</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/o-nao-banquete-a-internet-e-a-aparencia-do-dialogo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=o-nao-banquete-a-internet-e-a-aparencia-do-dialogo</link>
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		<pubDate>Wed, 06 Jan 2010 08:07:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[pessimismo]]></category>

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		<description><![CDATA[É sabido que Platão nutria grande desprezo pela palavra escrita e escrevia em forma de diálogo &#8211; discussões simuladas entre dois ou mais personagens &#8211; na tentativa de corrigir pelo menos parcialmente aquela que considerava ser a grande falha conceitual do livro, sua incapacidade de dialogar com o leitor. Um livro argumenta, mas não contra-argumenta; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É sabido que Platão nutria grande desprezo pela palavra escrita e escrevia em forma de diálogo &#8211; discussões simuladas entre dois ou mais personagens &#8211; na tentativa de corrigir pelo menos parcialmente aquela que considerava ser a grande falha conceitual do livro, sua incapacidade de dialogar com o leitor.</p>
<p>Um livro argumenta, mas não contra-argumenta; fala, mas não responde as mais simples perguntas; discorre, mas não está preparado para vencer as objeções que seu autor não tenha antecipado. </p>
<p>Apesar das tabulações de Platão, até recentemente a palavra escrita era particularmente avessa ao diálogo. Você podia publicar livros e artigos, e se alguém discordasse das suas idéias teria de escrever e publicar livros e artigos ele mesmo; se quisesse apresentar sua resposta ao contra-argumento do seu oponente você teria de publicar uma nova leva de livros e artigos, e assim por diante. Havia diálogo, que fique muito claro: livros e autores discordavam com paixão, mas era um processo pouco ágil; por conta dos próprios custos e intervalos envolvidos, uma rarefeita elite tinha acesso a essas facilidades.</p>
<p>Isso, desnecessário lembrar, foi antes da internet; hoje em dia vivemos na outra margem de um rio mítico que Platão não sonhava existir. Os <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/publicar-depois-escolher/">custos de publicação</a> e o intervalo de resposta, que até recentemente se interpunham eloquentemente na conversa, foram reduzidos a virtualmente zero. Na internet qualquer um pode publicar de imediato o que escreveu, e qualquer um pode de imediato responder, discordar, argumentar, contribuir, reformular, corrigir, opinar, construir e desconstruir, escrever e reescrever. É a era da comunicação instantânea, e suas palavras de ordem são interatividade e colaboração.</p>
<p>Conceitualmente, a internet provou ter potencial para corrigir de forma definitiva e eficaz aquela antiga deficiência da palavra escrita que os diálogos de Platão tinham sido inventados para corrigir de modo paliativo. Porque na internet, pasme-se, o diálogo é real. Graças à magia de grupos de discussão, tuíteres, mensagens de email, comentários em blogues, wikipédias, janelas de chat e redes de relacionamento, a palavra escrita foi liberta de seus grilhões. O diálogo é permanente. A internet é um livro aberto, e qualquer um pode escrever no miolo e rabiscar nas margens. Qualquer um é livre para adicionar sem intervalo e sem custo novas páginas que corrijam, expliquem, mencionem, satirizem ou anulem as anteriores; qualquer um pode contribuir para deixar o conteúdo mais claro, mais correto, mais atualizado, mais original, mais pessoal ou menos pessoal, mais profundo ou mais simples, mais austero ou mais engraçado.</p>
<p>Mais do que na Biblioteca de Babel de Borges, vivemos no Paraíso de Platão, e tudo que existe é o diálogo. Trata-se de um milagre em muitos sentidos, e de uma maldição em outros. Permita-me falar sobre a parte da maldição.</p>
<p>O problema é que nós seres humanos somos animais estranhos, e o diálogo não é uma arte que saibamos verdadeiramente dominar. Mesmo os mais capazes dentre nós encontram dificuldade na tarefa, e com muito mais frequência do que gostaríamos de admitir temos problemas para entender o que estamos dizendo uns aos outros, ou ainda com que intenção ou com que ênfase. </p>
<p>Para Platão, o lugar para se dialogar, por excelência, era entre amigos reunidos ao redor de uma mesa &#8211; de preferência um banquete lubrificado por muito vinho e música ao vivo. As vantagens do banquete cordial são muitas e muito evidentes: amigos se conhecem e saberão entender as provocações mútuas e as alusões a lembranças compartilhadas; amigos conhecem as entonações, os ritmos, os temas, as pausas e as mitologias pessoais uns dos outros. Por estarem juntos na mesma sala, um olhar compassivo pode corrigir uma frase brusca, um meio sorriso pode colorir uma ironia e uma sobrancelha erguida inverter uma idéia. A comida compartilhada os pacificará, a bebida compartilhada os tornará irmãos.</p>
<p>Mesmo diante de todas essas felicidades, haverá invariavelmente discordância, por um lado, e por outro a comunicação não estará isenta de ruído. Mesmo no banquete, onde tudo é favorável, a interação pode ser falha e o diálogo pode ser interrompido a qualquer momento.</p>
<p>Se a comunicação é irredutivelmente tortuosa entre amigos que metem a mão no mesmo prato, quanto mais ruído e quantos maiores riscos não haverá no diálogo da internet, que transcorre entre perfeitos estranhos de modo algum calibrados pelos confortos do vinho, da companhia, da cordialidade, da história prévia e dos interesses comuns? </p>
<p>Existe verdadeiro diálogo na internet, mas é uma misericordiosa e rara exceção; bem-aventurados são os que o encontram, santificado seja o nome dos que o proporcionam. O que há, de modo geral, é superficialidade, narcisismo (acredite, posso dizê-lo de primeira mão) e, em especial, animosidade gratuita.</p>
<p>A superficialidade e o narcisismo sempre fizeram parte da história da literatura e da palavra escrita; a verdadeira contribuição da internet está em ter universalizado a agressividade arbitrária e o rancor pré-estabelecido. Na internet não basta discordar, o que é considerado insuficiente e de baixo calado; a verdadeira norma, se você quer ser levado a sério, é pisotear, ridicularizar e agredir. A onipresente caixa de comentários, que ameaça em blogues e fóruns de discussão e poderia ter transformado todos em colaboradores, transforma todos em antagonistas. Não basta contra-argumentar, é preciso destilar veneno. Não basta apontar <em>discordo inteiramente de você</em>, é preciso deixar bem claro <em>eu te desprezo</em>. Não basta vencer, é preciso tripudiar. Não basta opinar, é preciso <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Godwin%27s_law">comparar a Hitler</a>. Abolimos até mesmo os recursos de estilo que temperavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/historia-universal-do-sarcasmo-de-lutero/">o sarcasmo de gente enfezada como Lutero</a>; abolimos as <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/38-maneiras/">38 maneiras de se vencer uma argumentação</a>. O que resta, de modo geral, é a perversidade mais crua não diminuída por complicações de lógica ou de estilo. Não importa que seu próprio argumento seja inexistente; você não vai deixar de condenar seu oponente como <em>simplista</em>. Não importa que você não tenha entendido; você não perderá a oportunidade de dizer <em>odiei</em>.</p>
<p>Tolkien lamentava profeticamente as arbitrariedades e nivelamentos da democracia tecnológica, mas não tinha como antecipar a extensão desta sombra de Mordor, a onipresença do diálogo em que todos falam em perfeito isolamento consigo mesmos e sustentam ao mesmo tempo a ilusão de que todos estão sendo ouvidos.</p>
<p>Uma verdade antiga é que mesmo entre amigos os argumentos não convencem ninguém; creia-me portanto quando digo que na internet a conversa não está avançando. Os argumentos não estão abrindo os olhos de quem quer que seja, e a verdade não está sendo eficazmente defendida. Não aqui.</p>
<p>Em meio a esse vozerio inescapável, tenho por verdadeiro conforto encontrar volta e meia uma página da internet que tenha algo a dizer e não seja maculada pela aparência do diálogo e pela tentação da caixa de comentários. Considero-me feliz quando piso o silêncio de uma dessas catedrais, e celebro com o autor, num banquete mínimo, a bem-aventurança de poder ouvir uma única voz.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sem-excecao/">Sem exceção</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/da-universalidade-das-generalizacoes/">Da universalidade das generalizações</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Avatar nenhum</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/avatar-nenhum/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=avatar-nenhum</link>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2010 17:41:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[pacifismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Se você ainda não assistiu Avatar, o primeiro filme do diretor James Cameron depois de Titanic, provavelmente não vai querer ler esta nota. &#160; O protagonista de Avatar ousou adentrar e abraçar um novo mundo; ousou dar um passo além da carne e do sangue e adotar como seus um povo outro e uma outra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><small>Se você ainda não assistiu <em>Avatar</em>, o primeiro filme do diretor James Cameron depois de <em>Titanic</em>, provavelmente não vai querer ler esta nota.</small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O protagonista de <em>Avatar </em>ousou adentrar e abraçar um novo mundo; ousou dar um passo além da carne e do sangue e adotar como seus um povo outro e uma outra cultura. <em>Avatar</em>, o filme, apesar da pirotecnia das paisagens impossíveis, da invenção de idiomas e espécies e do descortinar de imensos abismos em 3D, ousou muito menos.</p>
<p>Trata-se, para começar, de um filme com uma mensagem, o que – anote o que estou dizendo – nunca é bom sinal. Na maior parte do tempo o ruído dessa intenção evangelística passa despercebido diante de ofertas mais imediatas e interessantes, mas na meia hora final, quando o diretor/autor se mostra inteiramente incapaz de amarrar a sua mensagem sem maculá-la com contradições, o castelo desmorona por completo. E em 3D.</p>
<p>Apesar do apelo de aventura, apesar de ser a história de um mocinho que contorna perigos e subjuga espécies exóticas, <em>Avatar </em>se considera um filme muito sério, e seu grande conflito fundamental desenrola-se entre capitalistas e populações nativas. De um lado está um modo de vida predatório e desumanizante, de outro uma vida natural e sustentável; de um lado estão burocratas e corporações, de outro xamãs e pés descalços; de um lado exércitos, do outro crianças.</p>
<p>Nada tenho contra esse conflito, que, entre outras coisas e infelizmente, é baseado em fatos reais. Apenas não devemos  absolutamente acreditar quando <em>Avatar </em>dá entender que pode ter encontrado para ele um desfecho satisfatório.</p>
<p>Há, por exemplo, o tremendo desconforto de ver o grande herói branco transformando-se em deus cavalgador de dragões e salvador de civilizações devido à sua mera capacidade de, em poucos meses, aprender a manejar seu avatar melhor do que os nativos adultos de Pandora aprenderam a manejar seus próprios corpos desde que nasceram. É a sobrevivência no nosso tempo da terrível sombra do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Play_the_white_man">Mighty White</a>, o grande salvador branco das narrativas colonialistas e imperialistas, cujos avatares são Tarzan e Jim das Selvas e Daktari e George, o rei da floresta.</p>
<p>Depois há o constrangimento de ver trazido seriamente à tona, e em pleno terceiro milênio, o mais desgastado e incompetente dos encantamentos naturebas, &#8220;não agrida a natureza ou ela irá voltar-se contra você&#8221;. A fórmula inspirou bons filmes de terror entre as décadas de 1950 e 1970 (&#8220;cuidado ao fazer testes nucleares no deserto ou derramar produtos químicos no pântano mais próximo, do contrário os <-inserir aqui qualquer espécie animal arbitrária-> gigantes irão invadir a sua cidade&#8221;), mas a nossa própria era, que enfrenta dilemas maiores e mais urgentes, requer solução menos infantilizante.</p>
<p>Porque <em>Avatar </em>pretende que o conflito em Pandora seja uma metáfora apta para os conflitos ambientais da nossa própria terra e do nosso própria tempo, e o que sabemos da nossa experiência é que <em>não, a natureza não irá voltar-se contra você</em> não importa o que você faça – pelo menos não a tempo, não de uma forma que o faça reconsiderar sua intenção de destruir e descaracterizar. Não importa o júbilo incandescente que promovam as vitórias de <em>Avatar </em>(e de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=1ezRx3J9Ivk">filmes semelhantes</a>), os rinocerontes não irão atacar as lojas do Wallmart e as baleias não vão derrubar as plataformas de petróleo. O mais perto que a natureza chegará de revidar será atendendo nosso pedido de um futuro isento de complicações como rinocerontes e baleias, mas então será tarde demais, e esta é a única moral da história e também sua contradição. Em termos ambientais, só se aprende a noção de sustentabilidade quando é cedo demais, na dura bem-aventurança das populações nativas, ou tarde demais, entre nós que já consumimos o planeta e vendemos o futuro.</p>
<p>Na verdade, as populações nativas acompanham invariavelmente a natureza em sua intransigente sujeição à destruição. Não devemos acreditar em mitos tardios de bons selvagens, mas é preciso reconhecer que uma coisa índios e culturas nativas têm em comum com a natureza: seu cavalheirismo de submeter-se ao apagamento sem luta. Entregam-se invariavelmente com docilidade, como quem cede a um abraço, ao toque que irá cancelá-los da realidade.</p>
<p>Esta é a contradição e a falha final de <em>Avatar</em>, o fato de que no filme a solução que os nativos destilam para vencer a violência dos exércitos financiados pelas corporações é engendrar sua própria estirpe de violência. Avatar não conhece outra solução para a guerra que não seja a guerra, e esta é uma tremenda derrota para narrativa tão bem-intencionada. O que acontece em <em>Avatar </em>é um caso homérico da rivalidade mimética <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/">denunciada por René Girard</a>: a fim de vencer o inimigo sem alma os nativos imitam-no em tudo, deixando para trás até mesmo sua característica mais essencial e mais celebrada, seu respeito à vida, na ânsia de empreender justiça e salvar algum terreno. Desnecessário lembrar que na vida real, como provavelmente no universo do filme, as corporações estarão inteiramente prontas para revidar qualquer iniciativa violenta dos nativos, e quando voltarem estarão armados da justificativa inteiramente à prova de balas da vingança. <em>Avatar </em>é nisso indistinguível de<em> Tropa de Elite</em>.</p>
<p>Na vida real os frágeis não fazem guerra e ninguém fala em nome da natureza. Tudo que o meio-ambiente faz diante da violência (e entenda-se meio-ambiente como paisagens, espécies, tradições e culturas) é recolher-se e calar. Sua violência é apagar-se, e só o futuro será capaz de revelar por completo, pelo clamor impensável da ausência, a extensão desse horror.</p>
<p>E não importa o que sugira a ficção, não teremos outro planeta belíssimo para destruir. Não terás avatar nenhum.</p>
<h5>* * *</h5>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/severa-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/severa.jpg" alt="Brabo das selvas e a mais severa das advertências" title="Clique para ampliar"></a></p>
<p align="center"><small>Brabo das selvas e a mais severa das advertências</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug024.gif"></p>
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		<title>A Reforma e a psicotização da experiência: materialistas, graças a Deus</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 09:17:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
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		<category><![CDATA[catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[psicanálise]]></category>
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		<description><![CDATA[Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de psicose é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de <em>psicose </em>é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua experiência, é rigorosamente concreto e literalista. Um neurótico &#8211; isto é, uma pessoa normal &#8211; enxerga uma palavra cercada por uma aura sempre cambiante de sentidos, interpretações, alusões, metáforas e ambivalências. Para o psicótico, não existe dúvida nem ambivalência: significante e significado são uma mesma e implacável coisa. Para o psicótico, um domínio da experiência não é refletido ou mapeado por outro. Nada remete:<span style="float:right; text-align:right; width:37%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">É graças à Reforma que somos todos materialistas.</span> a representação é ela mesma a coisa, e tudo que existe é o literal.</p>
<p>As peculiaridades dessa condição tornam o psicótico em grande parte impermeável à psicanálise &#8211; que requer, por definição, a resignificação de elementos simbólicos e a reelaboração de mitos e metáforas. Como para o psicótico não existem mitos nem metáforas, tudo tudo é duramente pé-da-letra, seu espírito está condenado a vagar em regime perene pela concretude, sem ser jamais capaz de enxergar a luz e adentrá-la.</p>
<p>Neurótico como sou, não pude deixar de encontrar espreitando nessa noção sua própria e necessária metáfora. Bastará voltar, como devemos sempre fazer, àquele que talvez seja o documento mais importante jamais armazenado nesta Bacia: <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma/">O holocausto da alma</a>, que consiste essenciamente na tradução que fiz de um artigo de Peter Harrisson.</p>
<p>Ali está escrito que a Reforma Protestante, com sua ênfase no sentido literal da Escritura (&#8220;literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não&#8221;), não apenas trabalhou no sentido de expurgar da experiência cristã qualquer manifestação simbólica, de poesia, metáfora ou transversalidade (coisas que ainda permeiam, por exemplo, a vivência do catolicismo); esse modo &#8220;concreto&#8221; e &#8220;literalista&#8221; de enxergar a existência acabou contaminando ainda toda a cosmovisão ocidental, mesmo para os que vivem fora do alcance dos telhados eclesiásticos.</p>
<p>Os reformadores apostaram todas as suas cartas na suficiência do literal; isso implicava em atestar a supremacia de uma leitura científica &#8220;realista&#8221; em detrimento de abordagens mais simbólicas, alegóricas e literárias do texto. A Bíblia era para ser entendida como testemunho literal de uma realidade &#8220;concreta&#8221;, e nisso deveria confirmar os crivos empíricos da ciência e ser confirmada por eles. Com o arrastar dos séculos, no entanto, a ênfase no literal acabou voltando-se contra  a própria Bíblia: a ciência finamente desvalidou a própria literalidade da Bíblia &#8211; via Darwin, por exemplo.</p>
<p>A ciência vencera e hoje reina suprema. Os elementos da natureza foram esvaziados de seu valor simbólico e a Bíblia de sua essência metafórica e mítica. Depois de insistirem por séculos que o cerne vital da Bíblia jazia na sua literalidade, os herdeiros do protestantismo ficaram sem graça de mudar o seu discurso e apontar que sua verdadeira e transformadora relevância é metafórica. Ridicularizamos por tanto tempo as parábolas que perdemos a capacidade de levá-las a sério &#8211; isto é, de lê-las como parábolas. E, quando, começamos, já era tarde demais: é graças à Reforma que somos todos materialistas.</p>
<p>Somos hoje em dia todos psicóticos funcionais, sem verdadeiro acesso à poesia e à metáfora. E os cristãos sequer se contentaram em limitar sua obra a seus próprios arraiais. Psicotizamos a própria experiência.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug036.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma/">O holocausto da alma</a><br />
<a href="http://elienaijr.wordpress.com/2009/07/30/por-que-os-evangelicos-sao-tao-crentes-mas-tao-feios">Porque os evangélicos são tão crentes mas tão feios</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-segunda-encarnacao-do-verbo/">A segunda encarnação do Verbo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/pequenas-narrativas-parciais/">Pequenas narrativas parciais</a></p>
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		<title>Anotações para um romance político</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Jul 2009 11:17:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[1984]]></category>
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[– Todos os sistemas com mais de um ou dois indivíduos – disse o homem de sobretudo – são auto-organizatórios. – Isso quer dizer que todos os sistemas tendem a proteger o grupo em detrimento do indivíduo. Coloque cinqüenta desconhecidos num lugar confinado e em dois dias você terá facções, líderes, simpatias, lealdades, distribuição de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Todos os sistemas com mais de um ou dois indivíduos – disse o homem de sobretudo – são auto-organizatórios.</p>
<p>– Isso quer dizer que todos os sistemas tendem a proteger o grupo em detrimento do indivíduo. Coloque cinqüenta desconhecidos num lugar confinado e em dois dias você terá facções, líderes, simpatias, lealdades, distribuição de tarefas, alvos, legislações e sistemas de governo: auto-organização. Em alguma medida o mesmo acontece com galinhas, macacos e paramécios. Os organismos se ordenam espontaneamente em superorganismos: rebanhos ou multidões.</p>
<p>– O problema com as multidões é que são forças da natureza. Ninguém pode controlá-las. Com uma pessoa você pode conversar, como estamos fazendo. Uma multidão você só pode aplacar. </p>
<p>– A presente ilusão requer que a democracia representa a vitória final dos direitos do indivíduo e do livre-arbítrio. O que ninguém parece ser capaz de enxergar é que a aplicação da democracia, mesmo na mais inocente das formas, conduz necessariamente à tirania do coletivo. Vivemos na ilusão de que ouvimos e louvamos a liberdade individual, mas somos conduzidos pelos caprichos da multidão.</p>
<p>– E quem foi mesmo que disse que a loucura é a exceção no indivíduo mas a regra na multidão? Nietzsche?</p>
<p>– Fato é que de nada serve a sobriedade individual, porque o tirano coletivo é guiado pelo inconsciente. A democracia é o governo de loucos, está vendo?</p>
<p>– A monarquia e o totalitarismo são arriscados, mas na democracia não resta nem ao menos a possibilidade de um rei sensato.</p>
<p>– Um exemplo da insensatez da multidão: se o capricho coletivo vigente é a segurança, o que acontece é que todos submetem-se voluntariamente à vigilância. Você não vê? A vigilância é tida como inaceitável num governo totalitário, na linha do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1984_%28livro%29"><em>1984</em></a> de Orwell, mas as pessoas se sujeitam como cordeirinhos (como um rebanho!) a toda e qualquer invasão de privacidade quando se trata de obedecer aos caprichos do ditador coletivo.</p>
<p>– Todas as salas deste edifício são monitoradas por câmeras. Você vê? As pessoas pensam que são livres, mas são instrumentos da burrice coletiva.</p>
<p>– Não interessa quem está monitorando, e é essa a questão. Basta ser monitorado para ser diminuído. Monitorar é invadir. Vigilância é agressão.</p>
<p>– E essa entidade cega vai passando a exigir de nós concessões cada vez maiores, até que tenhamos aberto mão de cada um de nossos direitos. Até que as decisões coletivas sejam precisamente tão arbitrárias quanto as do mais caprichoso ditador.</p>
<p>– Em sua forma mais crua o roubo pode ser uma forma de se obter aquilo <em>de que se precisa</em>, mas para a inteligência coletiva roubar é errado, sem exceção. Porém a mesma multidão se deleita em que as imagens e palavras da televisão ofereçam continuamente às pessoas aquilo <em>de que não precisam</em>. O mundo já conheceu contradição maior? É evidente que essa obsessão aberta com o desnecessário é que sustenta o império de ladrões de ambos os lados da justiça.</p>
<p>– Freud foi capaz de prover um mito abrangente o bastante para controlar o indivíduo, mas com o trágico passamento de Deus deixou de existir um mito capaz de controlar os impulsos da multidão.</p>
<p>– E mesmo a herança de Freud, que associamos a uma valorização definitiva do indivíduo, serviu apenas para satisfazer as mais antigas vontades do superorganismo. Na maior parte do tempo, na história da civilização, os loucos andaram à solta, nas ruas e nas casas, promovendo a idéia subversiva de que a loucura pode ser uma forma de lucidez ou uma estranha alternativa à ela. O que fez a psicoterapia? Por um lado, confinou os loucos em recintos isolados, onde não podem encenar a sua subversão. Por outro, o que acontece àqueles dentro da massa coletiva que sentem-se hoje mais sutilmente desviados da norma? Esses buscam <em>voluntariamente</em> a intervenção de terapeutas, de modo a <em>serem capazes de se conformar</em>. Ou seja: os loucos são mantidos fora de cena e os candidatos a loucos estão sendo constantemente monitorados. Os desvios à norma permanecem onde a multidão, que abomina a dissensão e anseia apenas por conformidade, pode controlá-los e anulá-los por completo.</p>
<p>– Enquanto isso as pessoas distraem-se com a ilusão de que discordam sobre assuntos importantes &#8211; coisas como o aborto, a natureza do casamento, a guerra ou a pena de morte &#8211; e estão cegas para o fato de que concordam em absolutamente tudo. Vão todos para casa nos mesmos carros e trabalham todos para o mesmo fim; são ao mesmo tempo servos fidelíssimos e completos ignorantes daquele a quem estão servindo.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Acrescentar ainda:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/devemos-ser-mais-sutis/">Devemos ser mais sutis</a></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug002.gif"></p>
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		<title>Pequenas narrativas parciais</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jul 2009 09:48:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[pós-modernidade]]></category>

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		<description><![CDATA[A modernidade dos tempos recentes é inquieta, desordenada. De fato, alguém poderia argumentar que &#8220;pós-modernismo&#8221; é apenas o nome que damos a essa perturbação. Como observa Lyotard, o pós-moderno é &#8220;aquilo que, dentro do moderno… nega a si mesmo o conforto de formas positivas [good forms]; que busca novas formas de apresentação, não a fim [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A modernidade dos tempos recentes é inquieta, desordenada. De fato, alguém poderia argumentar que &#8220;pós-modernismo&#8221; é apenas o nome que damos a essa perturbação. Como observa Lyotard, o pós-moderno é &#8220;aquilo que, <em>dentro do moderno</em>… nega a si mesmo o conforto de formas positivas [<em>good forms</em>]; que busca novas formas de apresentação, não a fim de <em>desfrutá-las</em>, mas a fim de comunicar um senso mais acentuado <em>do que não tem como ser apresentado</em>&#8220;. Apesar da (e devido à) hegemonia do capitalismo global, o mundo contemporâneo é fragmentado pelo multiculturalismo, pelo pós-colonialismo e pelo fundamentalismo. Embora um império capitalista cada vez mais monolítico domine nosso mundo, múltiplas realidades culturais e psicológicas <span style="float:right; text-align:right; width:40%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O pós-modernismo busca a parábola ao invés do mito</span>e tentativas desesperadas e polêmicas de defender determinada ideologia em detrimento de todas as outras vão fraturando-o cada vez mais. A pós-modernidade pertence a esse mundo, embora questione a verdade de qualquer totalização dele. Na verdade, o pós-modernismo deleita-se nessa multiplicidade e no estado instável da modernidade. Por essa razão, muitos teóricos descrevem a pós-modernidade usando vários termos com o prefixo grego <em><strong>para</strong> </em>(junto, ao lado de). <em>Parasita</em> é um dos mais reveladores desses termos porque expressa muito bem a posição do pós-modernismo dentro do moderno. O pós-modernismo é a estática (em francês, <em>parasite</em>) inerente à mensagem modernista, o convidado indesejado que serve-se da comida do anfitrião.</p>
<p>Dessa forma, o pós-modernismo não é algo &#8220;outro&#8221; que o modernismo, como se se tratassem de dois movimentos filosóficos e eras históricas distintos. O pós-modernismo não existe fora do modernismo. Apesar disso, o pós-modernismo não aceita acriticamente o mito moderno com suas inclusões e exclusões. Como mencionado anteriormente, a postura básica do pós-modernismo é a suspeita, e isso inclui, e na verdade enfatiza, uma auto-suspeita crítica. Ele resiste ao anseio por uma metanarrativas míticas, dando preferência ao invés disso a uma multiplicidade de pequenas narrativas parciais. O pós-modernismo desafia as fronteiras do moderno, brinca com esses limites e demonstra finalmente seu caráter fictício e arbitrário. Ele desafia todas as oposições binárias –<span style="float:right; text-align:right; width:40%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A postura básica da pós-modernidade é a da suspeita</span> coisas como história e mito, mito e verdade e até mesmo moderno e pós-moderno, – tornando o suprimido manitesto e recuperando o marginalizado. </p>
<p>Seguindo uma distinção feita por Crossan nos anos 1970, podemos usar outro dos termos <em><strong>para</strong></em> e dizer que o pós-modernismo busca a parábola ao invés do mito. Segundo Crossan, o mito é uma narrativa que fornece suporte ao <em>status quo</em> cultural (o dominante), enquanto a parábola é uma narrativa que desafia a presunção definitiva do <em>status quo</em> sem endossar qualquer narrativa alternativa ou contramito. A párabola é uma &#8220;pequena narrativa&#8221; que existe parasiticamente ao lado da metanarrativa dominante. A insubordinada presença da párabola torna impossível a totalização mítica e ajuda portanto a gerar um conscientização do status fictício do mito. A parábola reside no mito dominante, mas também expõe suas lacunas e incoerências; dessa forma ela aponta para o mito como narrativa, levando as pessoas a hesitarem em sua fidelidade ao mito.</p>
<p><small><strong>An Elephant in the Room:<br />
Historical-Critical and Postmodern Interpretations of the Bible</strong><br />
George Aichele, Peter Miscal, Richard Walsh<br />
<em>Journal of Biblical Literature</em>, 128, no 2 (2009)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug007.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-holocausto-da-alma">O holocausto da Alma</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/pucca-e-os-contadores-de-historias">Pucca e os contadores de histórias</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/sobre-dar-nomes-a-primatas">Sobre dar nomes a primatas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-que-e-pos-moderno-e-o-que-nao-e">O que é pós-moderno e o que não é</a></p>
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		<title>O pop não poupa ninguém</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Jun 2009 09:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[fama]]></category>
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		<description><![CDATA[A fama é o pecado de se tornar importante para alguém que você não conhece e que não conhece você. Diz-se da pornografia que ela é degradante para os homens e mulheres que se despem e se rebaixam ao sexo explícito em benefício do espectador. Porém o segredo da pornografia, a verdadeira chave de sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A fama é o pecado de se tornar importante para alguém que você não conhece e que não conhece você.</p>
<p>Diz-se da pornografia que ela é degradante para os homens e mulheres que se despem e se rebaixam ao sexo explícito em benefício do espectador. Porém o segredo da pornografia, a verdadeira chave de sua atração e de sua consagração, está em que ela é tão degradante para o espectador quanto para o envolvido na sua produção. Nada há de inerentemente humilhante ou atraente no sexo, mas a pornografia oferece um pacto mútuo de desumanização, e nisso reside o seu apelo.</p>
<p>A fama e a pornografia são indistinguíveis nisso, no que fornecem um mesmo acordo de desumanização entre produtor e consumidor, entre artista e espectador, entre famosos e fãs.</p>
<p>Absolutamente ninguém encarnou melhor essa potência do que Michael Jackson, o homem mais irresistível do mundo, o rapaz bonito que se desfigurou publicamente porque, muito evidentemente, nós o desfiguramos. Agora que a Fera está morta podemos reconhecer, como numa reviravolta muito rasa de Shyamalan, que os desfigurados somos nós, porque adoramos um homem que não conhecíamos e o destruímos no processo. A fama não cria deuses, só cria bodes expiatórios.</p>
<p>Um homem derramou a sua beleza por nós, e nós o consumimos. </p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug019.gif"></p>
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		<title>Ninguém está olhando para a rua</title>
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		<pubDate>Sat, 23 May 2009 03:01:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet. O arquiteto Marc Boutin, no instigante Radiant City. [Visite a Bacia para ver o filme] Se a imagem estiver incompleta tente aqui. Leia também: A cidade invisível sobre o monte]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>O arquiteto Marc Boutin, no instigante <a href="http://www.youtube.com/watch?v=pFNdQDBy2rY&#038;fmt=18">Radiant City</a>.</p>
<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
[Visite a Bacia para ver o filme]
</td>
</tr>
</table>
<p><span style="color: #b0b0a0;"><small>Se a imagem estiver incompleta <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ninguem-esta-olhando-para-a-rua">tente aqui</a>.</span></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-cidade-invisivel-sobre-o-monte">A cidade invisível sobre o monte</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Dois dólares</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Mar 2009 09:11:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[A condição moral do povo [brasileiro] até a chegada do Príncipe Regente de Portugal era deploravelmente corrupta e degradada, e suas circunstâncias políticas destituídas e desfavoráveis. Tudo que é sublime na natureza inanimada, em contraste com tudo que é repugnante na natureza humana, estava abrangido no aspecto e no caráter desta porção do Novo Mundo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A condição moral do povo [brasileiro] até a chegada do Príncipe Regente de Portugal era deploravelmente corrupta e degradada, e suas circunstâncias políticas destituídas e desfavoráveis. Tudo que é sublime na natureza inanimada, em contraste com tudo que é repugnante na natureza humana, estava abrangido no aspecto e no caráter desta porção do Novo Mundo. </p>
<h5>&#8220;Não retinham nem ao menos aquela sombra da virtude, a hipocrisia.&#8221;</h5>
<p>&#8220;As cidades pelas quais Abraão intercedeu, Chipre, Cartago, Creta e Esparta, somavam-se&#8221;, afirma um viajante contemporâneo, &#8220;no período em que comecei a conhecer o país, na formação da ordem social do Rio de Janeiro&#8221;. Tampouco os costumes da capital ultrapassavam muito em torpeza os das demais cidades. &#8220;A devassidão&#8221;, acrescenta ele, &#8220;não era ali redimida por nenhuma qualidade nacional de natureza sólida, ou sequer pavonesca. De modo geral, não era tido como necessário reter nem ao menos aquela sombra da virtude, a hipocrisia. Os vícios que em outros lugares os homens procuram diligentemente ocultar eram vistos avançando a passos largos de um modo tão público e desavergonhado que satisfaria o anseio do maior dos devassos. Não eram apenas os negros e o populacho a contemplá-los com apatia; o sentimento e o gosto moral dos de estirpe mais elevada partilhavam de tal modo da mácula comum que, quando mencionávamos com horror o mais condenável dos crimes, o qual éramos obrigados a testemunhar, eles frequentemente apresentavam alguma coisa em sua defesa, além de parecerem muitos surpresos diante de nosso modo de pensar, como se tivéssemos proposto uma nova religião ou introduzido nas antigas algum escrupuloso capricho. A vida de um cidadão comum não valia dois dólares; por menos do que isso qualquer covarde podia contratar um valentão para eliminá-lo&#8221;.</p>
<p>A mais profunda ignorância e a mais extrema falta de higiene completavam o quadro. As cerimônias da religião católica eram enquanto isso pontualmente celebradas e, como nas cidades européias, à superstição mesclava-se a mais flagrante licenciosidade. Os monges, &#8220;corja ignorante e depravada&#8221;, ao mesmo tempo preguiçosos e libertinos, abarrotavam cada rua.</p>
<p>Tal era e, até certo ponto ainda é, o Brasil &#8211; terra de maravilhas, cujos rios fluem sobre leitos de ouro, onde as rochas brilham com topázios e a areia cintila com diamantes.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug047.gif"></p>
<p align="right"><small><strong>The Modern Traveller, volume 1 &#8211; Brazil and Buenos Aires</strong>,<br />
Londres, James Duncan, 1825</small></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li>Dois dólares</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Os pratos da balança</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jan 2009 11:38:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Todos no mundo haviam, aparentemente, decidido se tornar escritores. É preciso encarar, restam pouquíssimos leitores de verdade. E há, infelizmente, escritores demais. O que acontecerá quando os pratos da balança finalmente se inverterem? Serão os escritores forçados a pagar seus leitores pelo privilégio de terem seus livros lidos? Serei eu, e outros leitores como eu, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todos no mundo haviam, aparentemente, decidido se tornar escritores. É preciso encarar, restam pouquíssimos leitores de verdade. E há, infelizmente, escritores demais. O que acontecerá quando os pratos da balança finalmente se inverterem? Serão os escritores forçados a pagar seus leitores pelo privilégio de terem seus livros lidos? Serei eu, e outros leitores como eu, cortejado por autores ansiosos por serem lidos por alguém capaz de compreender a sua obra?</p>
<p align="right"><small>Robert Boyczuk, no excelente <strong>Query</strong>,<br />
a primeira história do seu <a href="http://www.chizine.com/chizinepub/books/horror-story.php">recém lançado livro</a> de contos de terror<br />
(publicado em papel, mas também disponível para download gratuito &#8211;<br />
benvindo ao terceiro milênio) </small></p>
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		<title>A máscara secular</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jan 2009 14:54:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nossa sociedade é mais preocupada com as vítimas do que qualquer outra. Mesmo quando insincero, quando não passa de um grande espetáculo, o fenômeno não tem precedentes. Nenhum período histórico, nenhuma sociedade que conhecemos, jamais falou sobre as vítimas do modo como falamos. Podemos detetar no passado recente as primeiras manifestações desta atitude contemporânea, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nossa sociedade é mais preocupada com as vítimas do que qualquer outra. Mesmo quando insincero, quando não passa de um grande espetáculo, o fenômeno não tem precedentes. Nenhum período histórico, nenhuma sociedade que conhecemos, jamais falou sobre as vítimas do modo como falamos. Podemos detetar no passado recente as primeiras manifestações desta atitude contemporânea, mas a cada dia novos recordes são quebrados.</p>
<p>Examine fontes antigas, pergunte em qualquer lugar, vasculhe os cantos do planeta e não irá encontrar em lugar algum coisa alguma que lembre mesmo que remotamente nossa preocupação contemporânea pelas vítimas. A China dos mandarins, o Japão dos samurais, os hindus, as sociedades pré-colombianas, Atenas, Roma republicana ou imperial &#8211; nenhuma dessas sociedades demonstrava qualquer preocupação por suas vítimas, que sacrificavam sem número aos seus deuses, à honra da pátria, à ambição dos conquistadores, grandes ou pequenos.</p>
<p>Nossa sociedade aboliu a escravidão e a servidão. Mais tarde vieram a proteção às crianças, às mulheres, aos idosos, aos estrangeiros de fora e de dentro. Há ainda a batalha contra a pobreza e o subdesenvolvimento. Mais recentemente tornamos universal a assistência médica e a proteção aos deficientes.</p>
<p>A cada dia cruzamos novos limiares. Quando uma catástrofe ocorre em algum lugar do globo, as nações mais priviliegiadas sentem-se obrigadas a enviar auxílio ou participar nas operações de resgate. Alguém pode afirmar que esses são gestos mais simbólicos do que reais, e refletem apenas uma preocupação com prestígio. Sem dúvida, mas em qual período antes da nosso e debaixo de qual céu a assistência mútua internacional representou uma fonte de prestígio para as nações?</p>
<p>Uma única rubrica engloba tudo que estou sumarizando agora em nenhuma ordem particular e sem nenhuma intenção de ser completo: a preocupação com as vítimas. Essa preocupação é às vezes exagerada e tão caricata que presta-se ao riso, mas deveríamos nos guardar contra a tentação de vê-la como mais um item, como nada além de tagarelice ineficaz. Trata-se mais do que uma comédia de hipocrisia. Ela criou ao longo dos séculos uma sociedade como nenhuma outra, e está unificando o mundo pela primeira vez na história.</p>
<p>A porção essencial do que circula agora como direitos humanos está no reconhecimento indireto do fato de que cada indivíduo ou cada grupo de indivíduos pode tornar-se &#8220;bode expiatório&#8221;  dentro de sua própria comunidade. Enfatizar os direitos humanos equivale a uma tentativa (anteriormente impensável) de controlar o incontrolável processo de contágio mimético/imitativo violento.</p>
<p>O que temos é o reconhecimento vago da possibilidade de que qualquer comunidade pode acabar perseguindo seus próprios membros. Isso acontece sempre que uma multidão se mobiliza de repente contra qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer modo, qualquer que seja o pretexto. Também acontece, mais frequentemente, quando uma sociedade torna-se permanentemente organizada na base dos privilégios de poucos às custas de muitos, quando formas de injustiça social perpetuam-se por séculos, às vezes por milênios. A preocupação com as vítimas busca proteger-nos contra as incontáveis variedades do mecanismo de vitimização.</p>
<p>Ninguém teve sucesso em tornar a preocupação pelas vítimas algo &#8220;ultrapassado&#8221;, e isso porque ela é a única coisa no nosso mundo que não é resultado de uma moda recente (embora muitas modas surjam a partir dela). A ascensão do &#8220;poder das vítimas&#8221; coincide, e não por acidente, com a chegada da primeira cultura planetária. Os antigos absolutos ruíram &#8211; humanismo, racionalismo, revolução, até mesmo a ciência. Ainda assim não vivemos num vácuo niilista, porque resta a preocupação com as vítimas, e é esse valor que domina a cultura planetária em que vivemos. Ela é nosso absoluto.</p>
<p>A preocupação com as vítimas leva-nos a opinar que nosso progresso rumo ao humanitarismo tem sido demasiado lento, e que não devemos de forma alguma glorificá-lo, a fim de não torná-lo mais lento ainda. A preocupação moderna com as vítimas obriga-nos a nos condenarmos perpetuamente. Característicamente, nossa preocupação com as vítimas nunca se mostra satisfeita com sucessos passados. Ela jamais louva a si mesma, nem tolera seu próprio louvor. Tenta desviar continuamente a atenção de si mesma, porque devemos estar atentos apenas para as vítimas. Nossa preocupação denuncia sua própria negligência, seu próprio farisaísmo. Nossa preocupação com as vítimas é a máscara secular do amor cristão.</p>
<p>Em resumo, o que nos impede de examinar nossa preocupação pelas vítimas é essa própria preocupação. Quer seja fingida, quer seja sincera, ela é compulsória em nosso mundo, e sem qualquer dúvida originou-se no cristianismo. A preocupação pelas vítimas não opera na base das estatísticas; opera segundo o princípio dos evangelhos, da ovelha perdida pela qual o pastor, se necessário, abandonará o rebanho inteiro.</p>
<p align="right"><small><strong>René Girard</strong>, I See Satan Fall Like Lightning</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug059.gif"></p>
<p>Uma severa ressalva que devo levantar com relação a esta sacada de Girard está em que, quando se lê o capítulo inteiro do qual estas reflexões foram extraídas, fica manifesto que o autor <em>se ressente</em> de que a preocupação com as vítimas exista no mundo sob uma máscara secular. O sonho de Girard era que a igreja e o cristianismo fossem celebrados planeta afora como a verdadeira fonte deste admirável mundo novo. De minha parte, vejo como motivo de veemente celebração e glória <em>que não seja assim</em>.</p>
<p>Mais sobre o assunto na série de artigos que ainda não escrevi, sobre o desnorteante brilhantismo e os esperados atoleiros do pensamento de Girard.</p>
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		<title>O fracasso não é uma opção</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Dec 2008 05:04:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
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		<category><![CDATA[cinema]]></category>
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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet. Visite a Bacia para ver o vídeo var s1 = new SWFObject('/flash/player.swf','ply','480','400','9','#'); s1.addParam('allowscriptaccess','always'); s1.addParam('allowfullscreen','true'); s1.addParam('flashvars','file=http://baciadasalmas.s3.amazonaws.com/movies/2008-12-13-not-an-option.flv&#038;captions=http://www.baciadasalmas.com/flash/2008-12-13-not-an-option.xml&#038;plugins=accessibility&#038;controlbar=over'); s1.write('mediaspace3'); Se a imagem estiver incompleta, tente aqui. &#160; Mixagem de Mathew Belinkie, do blog de cinema Overthinkingit * * * Veja também: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color: #b0b0a0;"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<table border="0"  height="580" width="480" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
<center></p>
<p><script type="text/javascript" src="/flash/swfobject.js"></script></p>
<div id="mediaspace3">Visite a Bacia para ver o vídeo</div>
<p><script type="text/javascript">
var s1 = new SWFObject('/flash/player.swf','ply','480','400','9','#');
 s1.addParam('allowscriptaccess','always');
 s1.addParam('allowfullscreen','true');
 s1.addParam('flashvars','file=http://baciadasalmas.s3.amazonaws.com/movies/2008-12-13-not-an-option.flv&#038;captions=http://www.baciadasalmas.com/flash/2008-12-13-not-an-option.xml&#038;plugins=accessibility&#038;controlbar=over');
s1.write('mediaspace3');
</script></p>
<p></center>
</td>
</tr>
</table>
<p><small>Se a imagem estiver incompleta, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-fracasso-nao-e-uma-opcao">tente aqui</a>.</small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="right"><small>Mixagem de <strong>Mathew Belinkie</strong>,<br />
do blog de cinema <a href="http://www.overthinkingit.com/2008/12/10/40-inspirational-speeches-in-2-minutes/">Overthinkingit</a></small></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/hung-up-a-nova-cultura-da-remixagem">Hung Up: A nova cultura da remixagem</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/trailer-remix">Trailer remix</a></p>
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		<title>Seus altares</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Oct 2008 12:41:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Em O Capital, Marx comparava o capitalismo a uma religião. As mercadorias são percebidas como ídolos, que têm vida própria e decidem o destino dos homens. Esse argumento foi utilizado pelos teólogos da libertação, como Hugo Assmann, Franz Hinkelammert, Jung Mo Sung, para desenvolver uma crítica radical do capitalismo como religião idólatra. A teologia do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em <em>O Capital</em>, Marx comparava o capitalismo a uma religião. As mercadorias são percebidas como ídolos, que têm vida própria e decidem o destino dos homens. Esse argumento foi utilizado pelos teólogos da libertação, como Hugo Assmann, Franz Hinkelammert, Jung Mo Sung, para desenvolver uma crítica radical do capitalismo como religião idólatra. A teologia do mercado, de Thomas Malthus ao último documento do Banco Mundial, é ferozmente sacrificial: exige que os pobres ofereçam suas vidas no altar dos ídolos econômicos. Walter Benjamin, ao escrever sobre isso em 1921, não havia lido <em>O Capital</em>. Ele se inspira no sociólogo Max Weber para analisar o caráter cultual do sistema. Na religião capitalista, a cada dia se vê a mobilização do sagrado, seja nos rituais na Bolsa, seja nas empresas, enquanto os adoradores seguem com angústia e extrema tensão a subida ou a descida das cotações. As práticas capitalistas não conhecem pausa, dominam a vida dos indivíduos da manhã à noite, da primavera ao inverno, do berço ao túmulo.<br />
<small><strong>Michael Löwy</strong>, em <a href="http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&#038;Itemid=18&#038;task=detalhe&#038;id=11663">entrevista</a> publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida por Notícias: IHU On-Line de 13/01/2008</small></p>
<p>[Hugo Assmann] fundou o Departamento Ecuménico de Investigaciones (DEI), onde, juntamente com o seu amigo Franz Hinkelammert, desenvolveu uma sólida linha de pesquisa sobre a relação teologia e economia. Um dos principais resultados de linha de pesquisa é o livro <em>A idolatria do mercado</em> (em co-autoria com F. Hinkelammert, 1989, Vozes), um livro fundamental que merece ser mais estudado e aprofundado. Nesse livro, Assmann desenvolveu uma crítica poderosa aos pressupostos teológicos do sistema de mercado capitalista e das teorias econômicas liberais e neoliberais. Ele desmascarou o que ele chamou de “seqüestro do mandamento do amor” e revelou o processo econômico e teórico que culmina, no capitalismo, com a absolutização do mercado que acaba por exigir e justificar sacrifícios de vidas humanas. Ele chamou esse processo de “idolatria do mercado”. O objeto da sua crítica não era o mercado como tal &#8211; que ele reconhecia como algo necessário na vida econômica de uma sociedade ampla e complexa &#8211;, mas a sua absolutização&#8230;<br />
<small><a href="http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&#038;Itemid=18&#038;task=detalhe&#038;id=12299">Hugo Assmann: teologia com paixão e coragem</a>, de <strong>Jung Mo Sung</strong>, em Notícias: IHU On-Line: 25/02/2008</small></p>
<p><small>Via Airton do inquieto <a href="http://www.airtonjo.com/blog/">Observatório Bíblico</a></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista">As variedades da experiência capitalista</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-rico-e-seu-camelo">O rico e seu camelo</a></p>
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		<title>Apartai-vos de mim</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Oct 2008 11:31:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais um espetáculo eleitoral requer dez minutos da minha paciência e, para completar, meu pai (que certamente o é) me encaminha um e-mail de um sujeito que confessa incessantemente ser &#8220;reacionário&#8221; &#8211; porque, exige ele, não gosta dos sem-terra nem de outros &#8220;sem&#8221;; não gosta dos congressistas que aprovam a demarcação de áreas indígenas; não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais um espetáculo eleitoral requer dez minutos da minha paciência e, para completar, meu pai (que certamente o é) me encaminha um e-mail de um sujeito que confessa incessantemente ser &#8220;reacionário&#8221; &#8211; porque, exige ele, não gosta dos sem-terra nem de outros &#8220;sem&#8221;; não gosta dos congressistas que aprovam a demarcação de áreas indígenas; não gosta de índios que querem deter a construção de usinas hidrelétricas; não gosta da intervenção de esquerdistas estrangeiros nos negócios nacionais; não gosta de governantes semi-analfabetos; não gosta da distribuição de bolsas-família, vale-gás e outros bônus semelhantes.</p>
<p>O que posso dizer em favor do autor desse texto é que seu diagnóstico está correto: ele é de fato reacionário, e escreve como um. Eu gostaria de poder discutir com você, anônimo autor dessa reflexão, mas quando o máximo que você tem a dizer contra determinada postura é este rasíssimo &#8220;não gosto&#8221;, devo tomá-lo como criança e tratá-lo como tal. Eu, de minha parte, não gosto de peixe nem de reacionários, mas não vejo mal no livre consumo de um ou de outros. Conversaremos quando você tiver algo a dizer.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>O que temem os reacionários, evidentemente, é que o mundo seja finalmente engolido pelo comunismo.</p>
<p>Ai de nós! Embora eu simpatize de coração com os ideais do socialismo, considero-me lúcido o suficiente para ter me tornado finalmente anarquista &#8211; entendido como alguém que não espera absolutamente nada de bom de qualquer iniciativa institucional. O governo, senhoras e senhores, é uma ilusão &#8211; só estamos aqui eu e você, e cada dilema moral e cada embaraço social cabe a nós dois resolver.</p>
<p>O que governos muito suavemente esquerdistas (como o nosso) tentam fazer é suavizar de modo artificial (isto é, instititucional) as brutais diferenças de distribuição de renda geradas pelo capitalismo tecnológico nu &#8211; diferenças que acabam patrocinando todas as formas de marginalidade, tráfico e exclusão. </p>
<p>Por um lado, não vejo como condenar o governo por estar empreendendo algo que deveríamos nós mesmos estar fazendo (e condená-lo por isso é a missão de vida dos reacionários); por outro, não nutro qualquer ilusão de que uma iniciativa institucional possa ser bem-sucedida nessa tarefa. Se eu, Brabo, não fizer (se você, possivelmente reacionário leitor, não fizer), absolutamente nada  será feito. Disso não tenha dúvida.</p>
<p>Afinal de contas, muitos dirão naquele dia: &#8220;&#8216;Vossa excelência, Vossa excelência, não fizemos justiça em nome dos impostos que te pagamos? Em teu nome  não expulsamos o demônio da fome? Em teu nome não fizemos muitos milagres sociais?&#8217; Então ele lhes dirá claramente: &#8216;Nunca vos conheci, e certamente não vos convidaria para um coquetel; apartai-vos de mim, vós que acreditastes no sistema&#8217;&#8221;.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Estou condenado a repetir Tolkien:</p>
<blockquote><p>A tarefa mais imprópria para qualquer homem, até mesmo para santos (que seriam de qualquer forma os menos dispostos a assumi-la) é mandar em outros homens. Nem mesmo um em um milhão está capacitado para ela, e os que menos são são os que buscam a oportunidade.</p></blockquote>
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		<item>
		<title>A falácia do sucesso</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jun 2008 09:56:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem surgido no nosso tempo uma classe particular de livros e de artigos que penso de forma sincera e solene podem ser chamados dos mais imbecis conhecidos entre os homens. Trata-se de coisa muito mais extravagante do que os mais extravagantes romances de cavalaria e muito mais maçante do que os mais maçantes tratados religiosos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem surgido no nosso tempo uma classe particular de livros e de artigos que penso de forma sincera e solene podem ser chamados dos mais imbecis conhecidos entre os homens. Trata-se de coisa muito mais extravagante do que os mais extravagantes romances de cavalaria e muito mais maçante do que os mais maçantes tratados religiosos. Além disso os romances de cavalaria eram, pelo menos, sobre cavalaria, e os tratados religiosos sobre religião. Essas coisas, no entanto, são sobre coisa alguma; são sobre o que se chama sucesso.</p>
<p>Em cada estante e em cada revista você encontra obras ensinando às pessoas como serem bem sucedidas. São livros que mostram às pessoas como obter sucesso em tudo, e são escritos por gente incapaz de sucesso até mesmo na sua pretensão de escrever livros.</p>
<p>Para começar não existe, naturalmente, essa coisa chamada sucesso. Ou, se você quiser colocar a coisa dessa forma, não há nada que não seja bem-sucedido. Que uma coisa seja bem-sucedida quer dizer apenas que ela é; um milionário é bem sucedido em ser um milionário e um jumento é bem sucedido em ser um jumento. Todo homem vivo tem tido sucesso em manter-se vivo, e qualquer homem morto pode ter tido sucesso em cometer suicídio. Porém, se ignorarmos a má lógica e a má filosofia do conceito, podemos tomá-lo, como fazem esses autores, no sentido usual de sucesso em ganhar dinheiro ou posição social.</p>
<p>Esses autores alegam ensinar ao leitor comum como obter sucesso em seu ofício ou ramo de atividade &#8211; como, se ele é construtor, ter sucesso como construtor; como, se é corretor da bolsa, ter sucesso como corretor da bolsa. Afirmam mostrar a ele como, se é dono de mercearia, pode tornar-se um iatista profissional; como, se é um jornalista de décima categoria, pode tornar-se um aristocrata; como, se é um judeu alemão, pode tornar-se anglo-saxão.</p>
<p>Isso eles propõem de forma definida e metódica, e penso que as pessoas que compram esses livros (se é que alguém os compra) tenham o direito moral, se não legal, de exigirem o seu dinheiro de volta. Ninguém ousaria publicar um livro sobre eletricidade que não contivesse literalmente coisa alguma sobre eletricidade; ninguém ousaria publicar um artigo sobre botânica que mostrasse que o autor desconhece qual extremidade da planta cresce dentro da terra. No entanto nosso mundo está repleto de livros sobre sucesso e sobre gente bem sucedida que não contém nenhum tipo de idéia e praticamente nenhum tipo de coerência verbal.</p>
<p>Deveria parecer perfeitamente óbvio que em qualquer ocupação decente (como por exemplo, a construção de muros ou a autoria de livros) há apenas dois modos de ser bem sucedido. O primeiro é fazendo-se um bom trabalho, o segundo é trapaceando. Ambos são simples demais para requererem qualquer explicação literária. Se o seu negócio for salto em altura, ou você salta mais alto do que qualquer outra pessoa ou consegue de alguma forma fingir que conseguiu. Se você quer ter sucesso como jogador de bridge, ou você aprende a ser um bom jogador de bridge ou joga com cartas marcadas. Você pode recorrer a um livro sobre salto em altura, a um livro sobre bridge ou um livro sobre como trapacear no bridge. Mas você não vai querer recorrer a um livro sobre sucesso &#8211; especialmente um livro sobre sucesso como os que você encontra espalhados às centenas no mercado editorial. Você pode querer saltar ou jogar cartas, mas não vai querer ficar lendo declarações obtusas do tipo &#8220;saltar é saltar&#8221;, ou &#8220;jogos são vencidos por vencedores&#8221;.</p>
<p>Se esses autores fossem, por exemplo, dizer alguma coisa sobre o sucesso no salto em altura, soaria mais ou menos assim: &#8220;O competidor de salto deve ter um objetivo claro diante de si. Deve desejar de forma muito definida saltar mais alto do que todos os outros atletas na mesma competição. Não deve deixar que frívolos sentimentos de compaixão o impeçam de dar o melhor de si. Deve ter em mente que uma competição de salto é essencialmente competitiva e que, como demonstrado gloriosamente por Darwin, OS MAIS FRACOS IRÃO PARA O MURO DE FUZILAMENTO&#8221;. É esse o tipo de coisa que o livro diria, e muito útil seria, sem dúvida, se lida por uma voz grave e tensa a um jovem logo antes de empreender o seu salto.</p>
<p>Supondo que no curso de suas divagações intelectuais o filósofo do sucesso acabasse examinando nosso outro caso, o do jogador de cartas, sua estimulante recomendação seria: &#8220;No ato de jogar cartas é inteiramente necessário evitar o erro comum de permitir que seu adversário vença o jogo. Você deve ter garra e coragem, e entrar para ganhar. Os dias de idealismo e de superstição terminaram. Vivemos numa época de ciência e de senso comum, e já foi definitivamente provado que em qualquer jogo onde dois competem, SE UM NÃO VENCER, É O OUTRO QUE VENCE&#8221;. Tudo muito empolgante, naturalmente, mas confesso que se fosse jogar cartas daria preferência a um livrinho decente que me ensinasse as regras do jogo. Para além das regras do jogo é tudo uma questão de talento ou desonestidade.</p>
<p>Folheando uma revista muito popular encontro um exemplo ao mesmo tempo estranho e cômico. Trata-se de um artigo intitulado &#8220;O instinto que faz as pessoas enriquecerem&#8221;, decorado com um retrato formidável de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Walter_Rothschild,_2nd_Baron_Rothschild">Lord Rothschild</a>. É fato que existem muitos métodos definidos, tanto honestos quanto desonestos, de enriquecer, mas que eu saiba o único &#8220;instinto&#8221; capaz dessa façanha é o instinto que a teologia cristã descreve grosseiramente como &#8220;o pecado da ganância&#8221;. Isso, no entanto, não vem ao ponto. Quero citar os impagáveis parágrafos que seguem como exemplo típico do conteúdo dos livros que falam sobre como se alcançar o sucesso. São sempre muito práticos, e deixam pouca dúvida sobre qual deverá ser o passo seguinte:</p>
<blockquote><p>O nome Vanderbilt é sinônimo de riqueza no mundo empresarial contemporâneo. <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Cornelius_Vanderbilt">Cornelius Vanderbilt</a>, fundador da família, foi o primeiro dos grandes magnatas do comércio norte-americano, tendo começado como o filho de um fazendeiro pobre e terminado como multimilionário.</p>
<p>Cornelius possuía o instinto de fazer dinheiro. Ele agarrava suas oportunidades, oportunidades que no seu caso surgiram com aplicação da máquina a vapor no comércio oceânico e com o desenvolvimento do transporte ferroviário num rico mais ainda subdesenvolvido Estados Unidos da América. Conseqüentemente, acumulou uma enorme fortuna.</p>
<p>É evidente que hoje em dia não podemos todos seguir precisamente os mesmos passos tomados por este monarca das ferrovias. As oportunidades muito precisas concedidas a ele não aplicam-se a nós. Porém, embora não seja dessa mesma forma, podemos ainda assim, em nossa própria esfera de circunstâncias, seguir seus métodos gerais. Podemos agarrar as oportunidades que nos são concedidas, dando a nós mesmos uma chance muito real de obtermos riqueza.</p></blockquote>
<p>É em declarações bizarras como essas que podemos ver com clareza o que está realmente por trás de todos os artigos e livros dessa natureza. Não se trata de mero negócio; não se trata nem mesmo de mero cinismo. Trata-se de misticismo, o horrendo misticismo do dinheiro. O autor dessa passagem não tem na verdade a mínima idéia de como Vanderbilt fazia o seu dinheiro, ou de como qualquer outra pessoa pode fazer o seu. Ele, porém, conclui suas observações defendendo um programa; e é um programa que não tem absolutamente nada a ver com Vanderbilt.</p>
<p>Tudo que o autor tencionava fazer era prostar-se diante do mistério de um multimilionário. Pois, quando queremos prestar verdadeira adoração a alguma coisa, amamos não apenas sua clareza, mas também sua obscuridade. Exultamos na sua invisibilidade. Assim, por exemplo, um homem apaixonado por uma mulher encontra prazer particular no fato de que as mulheres sejam incompreensíveis. Da mesma forma o poeta piedoso, ao celebrar o Criador, encontra prazer em afirmar que Deus age de modos misteriosos.</p>
<p>Ora, o autor dos parágrafos que citei não parece ter coisa alguma a ver com um deus, e não vejo qualquer evidência (diante da impraticabilidade de suas recomendações) de que já tenha se apaixonado de verdade por uma mulher. Mas a coisa que ele sem dúvida alguma venera &#8211; Vanderbilt &#8211; ele trata precisamente dessa maneira mística, deleitando-se no fato de que sua divindade Vanderbilt guarde dele algum segredo. E sua alma enche-se de uma espécie de arrebatamento de astúcia, um êxtase de clericalismo, quando ele finge estar revelando à multidão o terrível segredo que ele mesmo desconhece.</p>
<p>Falando do instinto que enriquece as pessoas, o mesmo autor observa:</p>
<blockquote><p>Na Antiguidade a existência desse instinto era compreendida por completo. Os gregos reverenciavam a história de Midas, o homem que transformava em ouro tudo que tocava. Sua vida era um constante avanço em meio às riquezas: de tudo que aparecia no seu caminho ele criava o metal precioso. &#8220;Uma lenda tola&#8221;, diziam os sabichões da era vitoriana; &#8220;uma verdade&#8221;, dizemos hoje em dia.</p>
<p>Todos conhecemos homens como esse. Estamos constantemente encontrando ou lendo sobre gente que transforma em ouro tudo que toca. Cada passo dessas pessoas é marcado por sucesso. Suas vidas são uma trajetória infalível de ascensão. São incapazes de fracassar.</p></blockquote>
<p>Infelizmente, no entanto, Midas era capaz de fracassar &#8211; e fracassou. Sua vida não foi uma trajetória infalível de ascensão. Midas morreu de fome porque quando tocava um biscoito ou um sanduíche de presunto eles se transformavam em ouro. Essa é na verdade a moral da história, embora o autor se veja obrigado a suprimi-lo, delicadamente, por completo &#8211; talvez por estar escrevendo tão perto do retrato de Lord Rotschild.</p>
<p>As velhas fábulas da humanidade são, de fato, insondavelmente sábias, mas não devemos ter parte do seu conteúdo expurgado a fim de proteger os interesses do Sr. Vanderbilt. Não devemos engolir o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Midas">rei Midas</a> sendo representado como exemplo de sucesso, quando foi um fracasso de natureza particularmente dolorosa. E tinha, além disso, orelhas de burro. E conseguia, além disso (e como muitas outras pessoas famosas e abastadas) esconder dos outros essa condição. Se bem recordo era apenas o seu barbeiro que tinha acesso ao conhecimento dessa peculiaridade; e esse barbeiro, ao invés de agir como o tipo de pessoa que persegue o Sucesso-a-todo-custo e chatangear o rei em troca do seu silêncio, foi e sussurrou esse escabroso escândalo da sociedade nas orelhas dos juncos, que deleitaram-se enormemente em sabê-lo. Conta-se que os juncos repassaram-no então aos ventos que os embalavam para frente e para trás.</p>
<p>Olho com reverência para o retrato de Lord Rothschild; leio com reverência sobre as façanhas do Sr. Vanderbilt. Sei que sou incapaz de transformar em ouro tudo em que toco; porém sei também que nunca tentei, tendo uma preferência pessoal por outras substâncias, coisas como grama e um bom vinho. Sei que essas pessoas sem dúvida obtiveram sucesso em alguma coisa; sei que sem dúvida sobrepularam alguém; sei que são reis num sentido em que nenhum rei jamais foi antes deles; sei que criam mercados e cavalgam continentes. Porém parece-me sempre que há algum pequeno fato doméstico que vivem escondendo, e penso por vezes ouvir no vento a gargalhada e o sussurro dos juncos.</p>
<p>Tudo que podemos esperar é viver o bastante para vermos esses absurdos livros sobre sucesso cobertos com o escárnio e o abandono que lhes cabe. Não ensinam as pessoas a serem bem-sucedidas, mas ensinam-nas a serem esnobes; conseguem alastrar uma espécie de poesia maligna de materialismo.</p>
<p>Os puritanos denunciam continuamente livros que inflamam a lascívia. O que deveríamos dizer dos livros que inflamam as paixões (mais vis) da ganância e do orgulho?</p>
<p>Há cem anos tínhamos o ideal do Aprendiz Esforçado. Dizia-se aos meninos que com frugalidade e empreendedorismo podiam chegar todos a Senhores da Nobreza. Era mentira, mas era uma mentira viril, e possuía um mínimo de verdade moral. Em nossa sociedade a temperança não irá ajudar um pobre a enriquecer, mas poderá ajudá-lo a olhar para si mesmo com respeito. Um bom trabalho não fará dele um homem rico, mas um bom trabalho fará dele um bom trabalhador. O Aprendiz Esforçado surgiu de virtudes que eram escassas e estreitas, mas ainda assim virtudes. Mas o que dizer do evangelho pregado ao novo Aprendiz Esforçado &#8211; o aprendiz que não ascende por meio de suas virtudes, mas declaradamente através de seus vícios? </p>
<p><small>
<p align="right"><strong>G. K. Chesterton</strong><br />
All Things Considered (1909)</p>
<p></small></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-culto-da-performance">O culto da performance</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A aquisição da boa vontade</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Dec 2007 12:58:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade e classe social. Durante a temporada do Natal aqueles próximos à base da pirâmide social agiam com desfaçatez e presunção. Homens podiam vestir-se de mulheres e mulheres podiam vestir-se (e agir) como homens. Gente jovem podia imitar e zombar dos mais velhos (por exemplo, um menino podia ser escolhido como &#8220;bispo&#8221; e assumir por um breve período a autoridade de um bispo de verdade). Um camponês ou aprendiz podia tornar-se &#8220;Barão da Desordem&#8221;e imitar a autoridade dos verdadeiros &#8220;nobres&#8221;.</p>
<p>Com lucidez de antropólogo, Increase Mather explicou quais cria serem as origens da prática: &#8220;Nos dias da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Saturnália">Saturnália</a> os senhores serviam seus escravos [...] Os gentios chamavam os dias de Saturno a Idade de Ouro, porque nela não havia servidão, em Comemoração pelo que no seu Festival os Servos deviam ser os Senhores&#8221;. Essa prática, como muitas outras, foi apenas tomada e transposta para o Natal, em que os de baixa posição social tornavam-se &#8220;Barões da Desordem&#8221;. Ainda hoje, no exército britânico, no dia 25 de dezembro os oficiais são obrigados a servir os soldados nas refeições.</p>
<p>A forma mais comum de inversão social ocorrida durante a temporada do Natal envolvia algo que ainda associamos ao Natal nos nossos dias, e chamamos de caridade. Esperava-se que gente próspera e poderosa oferecesse os frutos da abundância de sua colheita aos vizinhos mais pobres e dependentes. A a noção contemporânea de caridade, no entanto, não transmite um quadro adequado de como esse intercâmbio ocorria – pois eram normalmente os próprios pobres que davam início a transação, que era encenada face a face, em rituais que nos pareceriam hoje uma intolerável invasão de privacidade.</p>
<p>No restante do ano eram os pobres que deviam bens, trabalho e respeito aos ricos, mas nessa ocasião eles viravam a mesa – literalmente. Grupos de pobres – em sua maioria meninos e rapazes – invocavam o direito de marchar até as casas dos abastados, adentrar seus salões e receber presentes sob a forma de comida, bebida e por vezes dinheiro. E os ricos tinham de deixá-los entrar.</p>
<h5>O senhor da terra podia sempre usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças.</h5>
<p>O Natal era ocasião em que os camponeses, servos e aprendizes exercitavam o direito de exigir de seus vizinhos mais ricos e benfeitores que os tratassem como se <em>eles</em> fossem ricos e poderosos. O senhor da casa grande deixava entrarem os camponeses e oferecia-lhes um banquete. Em troca os camponeses ofereciam algo de verdadeiro valor numa sociedade paternalista: sua <em>boa vontade</em>. Essa troca de presentes por boa vontade incluia com freqüência a execução de canções, frequentemente canções relacionadas à bebida (desta transação ritualizada foi apenas a promessa de boa vontade a sobreviver nas canções contemporâneas de Natal).</p>
<blockquote><p>
Viemos exigir nosso direito<br />
Se não abrires tua porta<br />
Derrubaremos-te no chão<br />
[...]<br />
Mais uma vez nos reunimos, para um feliz Ano Novo<br />
Desejar a cada um desta família<br />
Que haja abundância de batatas e arenques<br />
De manteiga e de queijo, e toda sorte de guloseima<br />
[...]<br />
Deus mande ao senhor da casa um copo de cerveja de qualidade<br />
Deus mande à senhora da casa uma boa torta de Natal<br />
[...]<br />
Vem, mordomo, traz-nos um garrafão da melhor [cerveja]<br />
Assim rezaremos para que tua alma no céu descanse;<br />
Mas se vierdes com um garrafão da menor [qualidade],<br />
Abaixo virão mordomo, garrafão e tudo mais.</p></blockquote>
<p>Numa economia agrícola o tipo de &#8220;desordem&#8221; que estou descrevendo não representava de fato uma ameaça à autoridade da nobreza. O historiador E. P. Thompson observou que o senhor da terra podia sempre tentar usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças, readquirindo no processo a boa vontade de seus inquilinos.</p>
<p>Na verdade, episódios de desordem eram amplamente tolerados pela elite. Alguns historiadores argumentam que a inversão de valores funcionava na verdade como uma válvula de segurança que continha os ressentimentos de classe dentro de limites claramente definidos, e que ao inverter a hierarquia estabelecida (ao invés de simplesmente ignorá-la), tais inversões serviam na verdade como reafirmação da ordem social existente.</p>
<p align="right"><small>Stephen Nissenbaum, <strong>The Battle For Christmas</strong></small></p>
<div class='series_toc'><h3>A burlesca história da comemoração do Natal</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/a-burlesca-historia-da-comemoracao-do-natal-parte-112/' title='A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112'>A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-transicao-de-sao-nicolau/' title='A transição de São Nicolau'>A transição de São Nicolau</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/os-desgovernos-do-natal/' title='Os desgovernos do Natal'>Os desgovernos do Natal</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/uma-concessao/' title='Uma concessão'>Uma concessão</a></li><li>A aquisição da boa vontade</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Os desgovernos do Natal</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Dec 2007 11:42:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na Nova Inglaterra, durante os dois primeiros séculos de colonização branca a maior parte das pessoas não comemorava o Natal. Na verdade, o feriado foi sistematicamente suprimido pelos puritanos durante o período colonial e amplamente ignorado pelos seus descendentes. Foi na verdade ilegal celebrar o Natal em Massachusetts entre 1659 e 1681 (a multa era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na Nova Inglaterra, durante os dois primeiros séculos de colonização branca a maior parte das pessoas não comemorava o Natal. Na verdade, o feriado foi sistematicamente suprimido pelos puritanos durante o período colonial e amplamente ignorado pelos seus descendentes. Foi na verdade <em>ilegal</em> celebrar o Natal em Massachusetts entre 1659 e 1681 (a multa era de cinco shillings). Foi só em meados do século dezenove que o Natal ganhou reconhecimento legal como feriado público oficial na Nova Inglaterra. Escrevendo perto do final daquele século, um natural da Nova Inglaterra, nascido em 1822, recordava ir à escola quando criança no dia de Natal, acrescentando que mesmo em 1850, em Worcester, Massachusetts, &#8220;os tribunais deliberavam no Natal, os mercados abriam, e duvido que houvesse qualquer serviço religioso na cidade, a não ser que fosse domingo&#8221;. Mesmo em 1952, um escritor lembrava ter ouvido de seus avós que na Nova Inglaterra um trabalhador corria o risco de perder o emprego se chegasse tarde ao trabalho no dia 25 de dezembro, e que por vezes &#8220;os proprietários das fábricas mudavam os horários de chegada para as cinco da manhã no dia de Natal, para que os que quisessem assistir a uma celebração na igreja tivessem de abrir mão ou ser dispensados por chegarem tarde ao trabalho&#8221;.</p>
<h5>Dezembro era a única época de carne fresca.</h5>
<p>[...] Na Europa pré-Moderna, mais ou menos entre 1500 e 1800, a estação natalina era época para dar vazão aos apetites – e refestelar-se. Hoje em dia é difícil entender o que era essa celebração sazonal. Para a maior parte dos leitores deste livro, comida de qualidade está disponível em quantidade suficiente ao longo do ano inteiro. Mas a Europa pré-moderna era acima de tudo um mundo de escassez. Pouca gente comia comida de qualidade, e para todos a disponibilidade de comida era determinada pelas estações. Final de verão e começo do outono era a época dos vegetais frescos, mas dezembro era a época – a única época – de carne fresca. Os animais não podiam ser mortos até que o clima estivesse suficientemente frio para garantir que a carne não estragaria; e qualquer carne reservada para o restante do ano teria de ser preservada (e tornada portanto menos saborosa) pela conservação no sal. Dezembro era também o mês quando o suprimento anual de cerveja ou vinho estava pronto para beber. E para os fazendeiros, além disso, a época marcava o início do período de ócio. Não é de se admirar, portanto, que fosse a ocasião de excesso celebratório.</p>
<p>Os excessos tomavam inúmeras formas. Os festejos tornavam-se com facilidade desvario; lubrificada pelo álcool, as comemorações acabavam mesclando-se com desordem. O Natal era uma época de &#8220;desgoverno&#8221;, ocasião em que os freios comportamentais usuais podiam ser violados com impunidade. Era parte do que um historiador chamou de &#8220;mundo do carnaval&#8221; (o termo carnaval tem suas raízes nas palavras latinas <em>carne</em> e <em>vale</em> – &#8220;adeus à carne&#8221;. E carne aqui refere-se não apenas à comida mas também ao sexo – <em>carnal</em> bem como <em>carnívoro</em>). O &#8220;desgoverno&#8221; do Natal significava que não apenas a fome, mas também a ira e a luxúria podiam ser expressas em público (Não foi por acidente que [o reverendo] Increase Mather chamou dezembro de <em>Mensis Genialis</em>, &#8220;o mês da voluptuosidade&#8221;). As pessoas costumavam passar tinta negra nos rostos ou fantasiar-se de animais ou vestiar roupas típicas do sexo oposto, operando assim sob o manto da anonimidade. O historiador John Ashton, do século dezenove, conta um episódio acontecido em Lincolnshire em 1637, em que o homem escolhido pela multidão de foliões como &#8220;Barão do Desgoverno&#8221; recebeu uma &#8220;esposa&#8221; numa cerimônia conduzida por um homem vestido de sacerdote. Em seguida, conta Ashton em linguagem contidamente vitoriana, &#8220;o negócio foi levado até as últimas conseqüências&#8221;.</p>
<p align="right"><small>Stephen Nissenbaum, <strong>The Battle For Christmas</strong></small></p>
<div class='series_toc'><h3>A burlesca história da comemoração do Natal</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2005/a-burlesca-historia-da-comemoracao-do-natal-parte-112/' title='A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112'>A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/a-transicao-de-sao-nicolau/' title='A transição de São Nicolau'>A transição de São Nicolau</a></li><li>Os desgovernos do Natal</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/uma-concessao/' title='Uma concessão'>Uma concessão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/a-aquisicao-da-boa-vontade/' title='A aquisição da boa vontade'>A aquisição da boa vontade</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Estagnados no dia seguinte</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Dec 2007 08:32:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>

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		<description><![CDATA[Não vivam ansiosos quanto ao futuro. Não vivam inquietos pelo dia de amanhã, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. O código-fonte da revolução que não haverá O que você só vai entender tarde demais é que Jesus não disse que não vivessemos ansiosos com o futuro porque [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/2698328/view-large"><img src="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/2698328/standard" Title="Un alla volta" /></a></p>
<table cellpadding="10" width="35%" align="right" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="right"><small>Não vivam ansiosos quanto ao futuro. Não vivam inquietos pelo dia de amanhã, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.</p>
<p align="right"><strong>O código-fonte da revolução que não haverá</strong></small></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>O que você só vai entender tarde demais é que Jesus não disse que não vivessemos ansiosos com o futuro porque deveríamos crer que tudo acabaria dando certo no sentido de paz e prosperidade (não deu para ele e para nenhum dos seus seguidores), mas porque enquanto vivemos obcecados pelo futuro não nos forçamos a viver o único momento singular e portanto santo, o presente. Seu &#8220;o amanhã cuidará de si mesmo&#8221; corresponde ao seu &#8220;deixe que os mortos enterrem os seus mortos&#8221;.</p>
<p>Hoje dizemos que não se preocupar com o futuro é postura infantil e uma irresponsabilidade, porém o rabi de Nazaré <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/quinto-passo-permaneca-disponivel-para-o-momento">queria o oposto</a>. Viver em função do futuro, explica ele, é idiotizante e infantilizante, e nossa única chance de pisarmos o chão da realidade é nos desprogramarmos desse eloqüente mundo de ilusão. </p>
<p>A sociedade de consumo glorificou a obsessão pelo futuro, transformando-a num modo de vida e num incessante estado mental. Somos idiotas por pré-progamação. Não desfrutamos daquilo que temos, porque nossos olhos estão continuamente postos naquilo que se tudo der certo iremos um dia consumir. Não encaramos de frente o mal de cada dia, porque estamos sempre trabalhando para contornar a obsolescência que virá. Não desfrutamos da segurança presente, porque estamos perpetuamente preocupados com a segurança que devemos adquirir para o amanhã.</p>
<p>Em conseqüência somos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/a-ansiedade-das-coisas">obsoletos por padrão</a>, imprestáveis do momento em que saímos da fábrica. Esta geração nada fez e a geração seguinte nada fará, porque nunca estamos aqui. Vivemos estagnados no dia seguinte. Nascemos mortos.</p>
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		<title>A cidade invisível sobre o monte</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Nov 2007 10:18:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O mundo pode ser salvo e quero explicar como, mas preste atenção porque só vou dizer uma vez. </p>
<p>É necessário em primeiro lugar que você entenda que (e porque) a situação está mais desesperadora do que já esteve. O mundo está duas vezes mais difícil de salvar do que, digamos, no tempo de Jesus, e não apenas porque há mais gente para ser salva. Tanto a salvação do mundo quanto a específica dificuldade presente estão ligados à qualidade das relações entre as pessoas.</p>
<p>Falando em termos gerais, há dois tipos de associações de pessoas, as instituições e as camaradagens. O que caracteriza <strong>as instituições</strong> é que elas <strong>promovem respostas condicionadas</strong>. Num sentido muito essencial, o que fazem as instituições é cercear a liberdade e inibir a criatividade, pelo que servem basicamente como instrumentos de controle social. Prisões, igrejas, empresas, escolas, religiões e formas de governo são instituições, e guardam por essa razão, apesar das diferenças superficiais, grande familiaridade entre si.</p>
<p>As camaradagens, em constraste, são relações autônomas e criativas entre pessoas, e por isso têm sempre algo de informal e algo de provisório. Rodas de samba, caronas, equipes de gincana e parceiros de truco são exemplos úteis, mas também insuficientes, visto que há um enorme leque possível e efetivo de camaradagens na vida real – subsistindo nos mais diversos níveis e construídas sobre as mais diversas bases. A maior parte das camaradagens não tem nome. O que as caracteriza é que, ao contrário das instituições, <strong>as camaradagens promovem respostas não-condicionadas ao problema da relação das pessoas com o seu ambiente</strong> (incluindo o seu meio-ambiente). Ao invés de instrumentos de controle, as camaradagens servem como ferramentas de convivência.</p>
<h5>Não se pode esconder uma boa nova que inclui a todos e qualquer um.</h5>
<p>A tentação que assombra as camaradagens, especialmente as mais compensadoras e bem-sucedidas, é, naturalmente, a de tornarem-se instituições. Se digo que o mundo de hoje está mais difícil de salvar é porque há dois mil anos as pessoas viviam em geral mais mergulhadas nas camaradagens do que nas instituições, e na nossa realidade a regra é oposta. Para usar as palavras de Illich, de quem roubei boa parte desta terminologia, a sociedade industrial reduziu a convivência a um patamar mínimo e tornou-nos, em todos os níveis, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/meros-consumidores">meros consumidores</a>. Nossa vida é, de cima a baixo, da infância à velhice, da manhã à noite, do trabalho ao lazer, mera <strong>resposta condicionada</strong> às exigências feitas sobre nós pelos outros e por um meio-ambiente criado pelo homem. Não resta espaço para as interações verdadeiramente criativas nem para a verdadeira autodeterminação, que é simultanemente autonomia e a fraternidade; não nos resta a liberdade de nos submetermos a uma interdependência voluntária, já que vivemos sob o peso de uma interdependência imposta. Numa palavra, não resta espaço para a convivência.</p>
<p>Há dois mil anos, para salvar o mundo, bastava convidar as pessoas para abraçarem uma estirpe radical e revolucionário de convivência. Hoje em dia é preciso lembrá-las, em primeiro lugar, <em>do que é convivência</em>; que há um mundo possível determinado pelas relações autônomas e criativas entre as pessoas, um mundo louquíssimo impulsionado pela graça fragilíssima da camaradagem e não pela sociedade de consumo, pela internet, pelos times de futebol, pela marca da roupa, pelo modelo do carro, pelo peso onipresente das pressões familiares, religiosas, sexuais, econômicas, raciais e políticas.</p>
<p>A boa nova cristã explica que apenas a graça, e portanto a camaradagem, pode salvar um mundo que teima em colocar sua confiança e seus investimentos nas instituições. Deus é amizade, e a linguagem da amizade é perpetuamente livre, provisória e gratuita; depende de sujeições voluntárias e de autonomias ininterruptamente soberanas.</p>
<p>O radical na mensagem de Jesus não está em ele esclarecer o mais ou menos óbvio, que as camaradagens são vida e as instituições morte; o revolucionário está em que ele propõe o passo seguinte, definitivo e louco e definitivamente redentor. Em suas palavras e em seu exemplo o nazareno explica que até as mais belas camaradagens podem tornar-se morte, a não ser que se disponham a manter-se perpetuamente abertas – isto é, dispostas [1] a celebrar a própria precariedade e [2] a aceitar a inclusão de quem quer que seja no seu círculo de convivência.</p>
<p>Mesmo a mais cordial camaradagem é definida por alguma resposta condicionada, e Jesus desafiava continuamente esses limites convencionais. O Filho do Homem, como representante do Deus Não-condicionado, recusava-se a oferecer qualquer resposta condicionada, não importando a situação social em que se encontrasse. Fosse diante de um rei, de um sacerdote ou de uma prostituta, o que Jesus oferecia não era a resposta convencional, estratégica, socialmente adequada e politicamente correta. O que ele oferecia, revolucionariamente, era a oferta de uma vontade livre que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-luta-de-jesus-pela-independencia-a-sua">não esperava outra coisa</a> da pessoa com quem estava se relacionando. Como resultado sua postura é consistentemente inclusiva, a não ser quando se trata dos que querem perpetuar a instituição e sua resposta condicionada e, através delas, os muros de separação entre as pessoas.</p>
<p>Jesus não apenas vivia entre camaradas, mas propunha um modo de vida em que a camaradagem – a aceitação gratuita e a interação livre, autônoma e criativa – fosse a norma e não a exceção. Sua mensagem e seu ministério resumem-se na demonstração de que a camaradagem divina, e portanto a camaradagem do Filho do Homem (ou, &#8220;o ser humano como todos devem ser&#8221;), estão continuamente à disposição de quem quer que seja – um político corrupto, um sacerdote mesquinho, um adúltero esmagado pela culpa, uma criança que não vai ter nada inteligente para dizer. O poder dessa boa nova é um poder fragílissimo, uma semente minúscula que pode tornar-se uma grande árvore mas também uma chama que pode ser apagada por quem quer que seja e a qualquer momento.</p>
<p>Jesus pediu que fosse dito a João Batista na prisão que o poder do evangelho era visível porque &#8220;a boa nova estava sendo proclamada aos pobres&#8221;, isto é, a boa notícia da convivência chegara aos que normalmente não são incluídos em camaradagem alguma. Para Jesus, &#8220;não se pode esconder uma cidade construída sobre o monte&#8221; significa, basicamente, &#8220;não há como se esconder uma boa nova que inclui a todos e qualquer um&#8221;. Quando deixa de incluir a todos de forma criativa e indiscriminada, a cidade desaparece de sobre o monte: Deus não existe, a convivência perece, e as mesmas palavras do mesmo Jesus passam de boa nova a farsa e engodo.</p>
<p>Em tempos recentes, a manifestação mais espetacular e sacrossanta que conheço do poder da graça inclusiva não está portanto (e nem poderia estar) em qualquer iniciativa institucional, mas na fragilíssima e despretensiosa iniciativa de Juan Mann (&#8220;one man&#8221;, isto é, &#8220;um [Filho do] homem&#8221;) em sair pela rua oferecendo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/abracos-gratuitos">abraços gratuitos</a>. Enquanto esse sujeito avançava cidade adentro erguendo seu rídiculo cartaz os arcanjos cantavam, as hostes celestias aplaudiam, os serafins se dobravam em solene reverência e os demônios se dissolviam em vergonhoso estertor, porque depois de anos a boa nova estava sendo pregada aos pobres. Um único homem convidava o mundo paupérrimo de convivência a uma resposta não-condicionada, e fazia-o oferecendo a forma mais absurda e precária e indiscriminada de camaradagem. A cidade, senhoras e senhores, refulgia inequivocamente sobre o monte.</p>
<p>O que há de mais absolutamente fulgurante <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Free_hugs">na sua iniciativa</a> está em que, ao oferecer abraços gratuitos, Juan Mann está – e preste atenção agora, porque nisso está a salvação do mundo – <strong>oferecendo de graça o que qualquer um pode oferecer de graça</strong>. Ele não apenas promove a convivência, mas comprova brilhantemente no mesmo gesto que a convivência é dom que qualquer um pode conceder a qualquer momento, em qualquer lugar, a qualquer um. Não é de se admirar que os anjos aplaudam e façam fréneticas ôlas e brindem com suas taças e atirem para cima os seus chápeus. Nós, da instituição, temos um plano de salvação do mundo em que é parte essencial recolhermos ofertas, juntarmos doações, pedirmos dinheiro; ou seja, estamos exigindo, e com a melhor das boas intenções, <em>o que nem todos podem dar </em>– quando a boa nova consiste justamente em desafiar o homem a oferecer a todos o que todos podem oferecer.</p>
<p>É por isso que os grandes luminares da boa nova não são jamais projetos ou campanhas, mas pessoas singulares e despretensiosas, gente que pela sua conduta e pelas suas escolhas facilitam que se criem ao seu redor círculos singulares de convivência e camaradagem, e portanto de transformação social – ciclos de redenção. Gente como Gandhi, que convidava seus seguidores a estenderem a tenda da camaradagem até o terreno dos seus antagonistas; como Madre Teresa, que gentilmente transformou Calcutá numa cidade sobre o monte, brilhando para a eternidade além da dor e do preconceito e da imundície; como Zeca Pagodinho, que cometeu a insanidade de permanecer freqüentando os mesmos bares e os mesmos amigos mesmo depois de ser atingido pela fama. Gente que ousa oferecer de graça o que todos podem oferecer de graça, e assim transforma sua vida em fulcros de camaradagem e de convivência.</p>
<p>Não se iluda. Qualquer um pode trazer luz ao mundo, mas na maior parte do tempo Deus não existe e o evangelho é uma farsa. Não se pode esconder uma boa nova que se aplica a qualquer um, por isso quando não atinge indiscriminadamente a todos a cidade não está sobre o monte, e pode ser facilmente escondida.</p>
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