Manuscritos estocados sob a rubrica 'Sociedade'
23 de Junho de 2008

A falácia do sucesso

Goiabas Roubadas, Sociedade

Tem surgido no nosso tempo uma classe particular de livros e de artigos que penso de forma sincera e solene podem ser chamados dos mais imbecis conhecidos entre os homens. Trata-se de coisa muito mais extravagante do que os mais extravagantes romances de cavalaria e muito mais maçante do que os mais maçantes tratados religiosos. Além disso os romances de cavalaria eram, pelo menos, sobre cavalaria, e os tratados religiosos sobre religião. Essas coisas, no entanto, são sobre coisa alguma; são sobre o que se chama sucesso.

Em cada estante e em cada revista você encontra obras ensinando às pessoas como serem bem sucedidas. São livros que mostram às pessoas como obter sucesso em tudo, e são escritos por gente incapaz de sucesso até mesmo na sua pretensão de escrever livros.

Para começar não existe, naturalmente, essa coisa chamada sucesso. Ou, se você quiser colocar a coisa dessa forma, não há nada que não seja bem-sucedido. Que uma coisa seja bem-sucedida quer dizer apenas que ela é; um milionário é bem sucedido em ser um milionário e um jumento é bem sucedido em ser um jumento. Todo homem vivo tem tido sucesso em manter-se vivo, e qualquer homem morto pode ter tido sucesso em cometer suicídio. Porém, se ignorarmos a má lógica e a má filosofia do conceito, podemos tomá-lo, como fazem esses autores, no sentido usual de sucesso em ganhar dinheiro ou posição social.

Esses autores alegam ensinar ao leitor comum como obter sucesso em seu ofício ou ramo de atividade – como, se ele é construtor, ter sucesso como construtor; como, se é corretor da bolsa, ter sucesso como corretor da bolsa. Afirmam mostrar a ele como, se é dono de mercearia, pode tornar-se um iatista profissional; como, se é um jornalista de décima categoria, pode tornar-se um aristocrata; como, se é um judeu alemão, pode tornar-se anglo-saxão.

Isso eles propõem de forma definida e metódica, e penso que as pessoas que compram esses livros (se é que alguém os compra) tenham o direito moral, se não legal, de exigirem o seu dinheiro de volta. Ninguém ousaria publicar um livro sobre eletricidade que não contivesse literalmente coisa alguma sobre eletricidade; ninguém ousaria publicar um artigo sobre botânica que mostrasse que o autor desconhece qual extremidade da planta cresce dentro da terra. No entanto nosso mundo está repleto de livros sobre sucesso e sobre gente bem sucedida que não contém nenhum tipo de idéia e praticamente nenhum tipo de coerência verbal.

Deveria parecer perfeitamente óbvio que em qualquer ocupação decente (como por exemplo, a construção de muros ou a autoria de livros) há apenas dois modos de ser bem sucedido. O primeiro é fazendo-se um bom trabalho, o segundo é trapaceando. Ambos são simples demais para requererem qualquer explicação literária. Se o seu negócio for salto em altura, ou você salta mais alto do que qualquer outra pessoa ou consegue de alguma forma fingir que conseguiu. Se você quer ter sucesso como jogador de bridge, ou você aprende a ser um bom jogador de bridge ou joga com cartas marcadas. Você pode recorrer a um livro sobre salto em altura, a um livro sobre bridge ou um livro sobre como trapacear no bridge. Mas você não vai querer recorrer a um livro sobre sucesso – especialmente um livro sobre sucesso como os que você encontra espalhados às centenas no mercado editorial. Você pode querer saltar ou jogar cartas, mas não vai querer ficar lendo declarações obtusas do tipo “saltar é saltar”, ou “jogos são vencidos por vencedores”.

Se esses autores fossem, por exemplo, dizer alguma coisa sobre o sucesso no salto em altura, soaria mais ou menos assim: “O competidor de salto deve ter um objetivo claro diante de si. Deve desejar de forma muito definida saltar mais alto do que todos os outros atletas na mesma competição. Não deve deixar que frívolos sentimentos de compaixão o impeçam de dar o melhor de si. Deve ter em mente que uma competição de salto é essencialmente competitiva e que, como demonstrado gloriosamente por Darwin, OS MAIS FRACOS IRÃO PARA O MURO DE FUZILAMENTO”. É esse o tipo de coisa que o livro diria, e muito útil seria, sem dúvida, se lida por uma voz grave e tensa a um jovem logo antes de empreender o seu salto.

Supondo que no curso de suas divagações intelectuais o filósofo do sucesso acabasse examinando nosso outro caso, o do jogador de cartas, sua estimulante recomendação seria: “No ato de jogar cartas é inteiramente necessário evitar o erro comum de permitir que seu adversário vença o jogo. Você deve ter garra e coragem, e entrar para ganhar. Os dias de idealismo e de superstição terminaram. Vivemos numa época de ciência e de senso comum, e já foi definitivamente provado que em qualquer jogo onde dois competem, SE UM NÃO VENCER, É O OUTRO QUE VENCE”. Tudo muito empolgante, naturalmente, mas confesso que se fosse jogar cartas daria preferência a um livrinho decente que me ensinasse as regras do jogo. Para além das regras do jogo é tudo uma questão de talento ou desonestidade.

Folheando uma revista muito popular encontro um exemplo ao mesmo tempo estranho e cômico. Trata-se de um artigo intitulado “O instinto que faz as pessoas enriquecerem”, decorado com um retrato formidável de Lord Rothschild. É fato que existem muitos métodos definidos, tanto honestos quanto desonestos, de enriquecer, mas que eu saiba o único “instinto” capaz dessa façanha é o instinto que a teologia cristã descreve grosseiramente como “o pecado da ganância”. Isso, no entanto, não vem ao ponto. Quero citar os impagáveis parágrafos que seguem como exemplo típico do conteúdo dos livros que falam sobre como se alcançar o sucesso. São sempre muito práticos, e deixam pouca dúvida sobre qual deverá ser o passo seguinte:

O nome Vanderbilt é sinônimo de riqueza no mundo empresarial contemporâneo. Cornelius Vanderbilt, fundador da família, foi o primeiro dos grandes magnatas do comércio norte-americano, tendo começado como o filho de um fazendeiro pobre e terminado como multimilionário.

Cornelius possuía o instinto de fazer dinheiro. Ele agarrava suas oportunidades, oportunidades que no seu caso surgiram com aplicação da máquina a vapor no comércio oceânico e com o desenvolvimento do transporte ferroviário num rico mais ainda subdesenvolvido Estados Unidos da América. Conseqüentemente, acumulou uma enorme fortuna.

É evidente que hoje em dia não podemos todos seguir precisamente os mesmos passos tomados por este monarca das ferrovias. As oportunidades muito precisas concedidas a ele não aplicam-se a nós. Porém, embora não seja dessa mesma forma, podemos ainda assim, em nossa própria esfera de circunstâncias, seguir seus métodos gerais. Podemos agarrar as oportunidades que nos são concedidas, dando a nós mesmos uma chance muito real de obtermos riqueza.

É em declarações bizarras como essas que podemos ver com clareza o que está realmente por trás de todos os artigos e livros dessa natureza. Não se trata de mero negócio; não se trata nem mesmo de mero cinismo. Trata-se de misticismo, o horrendo misticismo do dinheiro. O autor dessa passagem não tem na verdade a mínima idéia de como Vanderbilt fazia o seu dinheiro, ou de como qualquer outra pessoa pode fazer o seu. Ele, porém, conclui suas observações defendendo um programa; e é um programa que não tem absolutamente nada a ver com Vanderbilt.

Tudo que o autor tencionava fazer era prostar-se diante do mistério de um multimilionário. Pois, quando queremos prestar verdadeira adoração a alguma coisa, amamos não apenas sua clareza, mas também sua obscuridade. Exultamos na sua invisibilidade. Assim, por exemplo, um homem apaixonado por uma mulher encontra prazer particular no fato de que as mulheres sejam incompreensíveis. Da mesma forma o poeta piedoso, ao celebrar o Criador, encontra prazer em afirmar que Deus age de modos misteriosos.

Ora, o autor dos parágrafos que citei não parece ter coisa alguma a ver com um deus, e não vejo qualquer evidência (diante da impraticabilidade de suas recomendações) de que já tenha se apaixonado de verdade por uma mulher. Mas a coisa que ele sem dúvida alguma venera – Vanderbilt – ele trata precisamente dessa maneira mística, deleitando-se no fato de que sua divindade Vanderbilt guarde dele algum segredo. E sua alma enche-se de uma espécie de arrebatamento de astúcia, um êxtase de clericalismo, quando ele finge estar revelando à multidão o terrível segredo que ele mesmo desconhece.

Falando do instinto que enriquece as pessoas, o mesmo autor observa:

Na Antiguidade a existência desse instinto era compreendida por completo. Os gregos reverenciavam a história de Midas, o homem que transformava em ouro tudo que tocava. Sua vida era um constante avanço em meio às riquezas: de tudo que aparecia no seu caminho ele criava o metal precioso. “Uma lenda tola”, diziam os sabichões da era vitoriana; “uma verdade”, dizemos hoje em dia.

Todos conhecemos homens como esse. Estamos constantemente encontrando ou lendo sobre gente que transforma em ouro tudo que toca. Cada passo dessas pessoas é marcado por sucesso. Suas vidas são uma trajetória infalível de ascensão. São incapazes de fracassar.

Infelizmente, no entanto, Midas era capaz de fracassar – e fracassou. Sua vida não foi uma trajetória infalível de ascensão. Midas morreu de fome porque quando tocava um biscoito ou um sanduíche de presunto eles se transformavam em ouro. Essa é na verdade a moral da história, embora o autor se veja obrigado a suprimi-lo, delicadamente, por completo – talvez por estar escrevendo tão perto do retrato de Lord Rotschild.

As velhas fábulas da humanidade são, de fato, insondavelmente sábias, mas não devemos ter parte do seu conteúdo expurgado a fim de proteger os interesses do Sr. Vanderbilt. Não devemos engolir o rei Midas sendo representado como exemplo de sucesso, quando foi um fracasso de natureza particularmente dolorosa. E tinha, além disso, orelhas de burro. E conseguia, além disso (e como muitas outras pessoas famosas e abastadas) esconder dos outros essa condição. Se bem recordo era apenas o seu barbeiro que tinha acesso ao conhecimento dessa peculiaridade; e esse barbeiro, ao invés de agir como o tipo de pessoa que persegue o Sucesso-a-todo-custo e chatangear o rei em troca do seu silêncio, foi e sussurrou esse escabroso escândalo da sociedade nas orelhas dos juncos, que deleitaram-se enormemente em sabê-lo. Conta-se que os juncos repassaram-no então aos ventos que os embalavam para frente e para trás.

Olho com reverência para o retrato de Lord Rothschild; leio com reverência sobre as façanhas do Sr. Vanderbilt. Sei que sou incapaz de transformar em ouro tudo em que toco; porém sei também que nunca tentei, tendo uma preferência pessoal por outras substâncias, coisas como grama e um bom vinho. Sei que essas pessoas sem dúvida obtiveram sucesso em alguma coisa; sei que sem dúvida sobrepularam alguém; sei que são reis num sentido em que nenhum rei jamais foi antes deles; sei que criam mercados e cavalgam continentes. Porém parece-me sempre que há algum pequeno fato doméstico que vivem escondendo, e penso por vezes ouvir no vento a gargalhada e o sussurro dos juncos.

Tudo que podemos esperar é viver o bastante para vermos esses absurdos livros sobre sucesso cobertos com o escárnio e o abandono que lhes cabe. Não ensinam as pessoas a serem bem-sucedidas, mas ensinam-nas a serem esnobes; conseguem alastrar uma espécie de poesia maligna de materialismo.

Os puritanos denunciam continuamente livros que inflamam a lascívia. O que deveríamos dizer dos livros que inflamam as paixões (mais vis) da ganância e do orgulho?

Há cem anos tínhamos o ideal do Aprendiz Esforçado. Dizia-se aos meninos que com frugalidade e empreendedorismo podiam chegar todos a Senhores da Nobreza. Era mentira, mas era uma mentira viril, e possuía um mínimo de verdade moral. Em nossa sociedade a temperança não irá ajudar um pobre a enriquecer, mas poderá ajudá-lo a olhar para si mesmo com respeito. Um bom trabalho não fará dele um homem rico, mas um bom trabalho fará dele um bom trabalhador. O Aprendiz Esforçado surgiu de virtudes que eram escassas e estreitas, mas ainda assim virtudes. Mas o que dizer do evangelho pregado ao novo Aprendiz Esforçado – o aprendiz que não ascende por meio de suas virtudes, mas declaradamente através de seus vícios?

G. K. Chesterton
All Things Considered (1909)

Leia também:
O culto da performance

26 de Dezembro de 2007

A aquisição da boa vontade

História, Sociedade

Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade e classe social. Durante a temporada do Natal aqueles próximos à base da pirâmide social agiam com desfaçatez e presunção. Homens podiam vestir-se de mulheres e mulheres podiam vestir-se (e agir) como homens. Gente jovem podia imitar e zombar dos mais velhos (por exemplo, um menino podia ser escolhido como “bispo” e assumir por um breve período a autoridade de um bispo de verdade). Um camponês ou aprendiz podia tornar-se “Barão da Desordem”e imitar a autoridade dos verdadeiros “nobres”.

Com lucidez de antropólogo, Increase Mather explicou quais cria serem as origens da prática: “Nos dias da Saturnália os senhores serviam seus escravos [...] Os gentios chamavam os dias de Saturno a Idade de Ouro, porque nela não havia servidão, em Comemoração pelo que no seu Festival os Servos deviam ser os Senhores”. Essa prática, como muitas outras, foi apenas tomada e transposta para o Natal, em que os de baixa posição social tornavam-se “Barões da Desordem”. Ainda hoje, no exército britânico, no dia 25 de dezembro os oficiais são obrigados a servir os soldados nas refeições.

A forma mais comum de inversão social ocorrida durante a temporada do Natal envolvia algo que ainda associamos ao Natal nos nossos dias, e chamamos de caridade. Esperava-se que gente próspera e poderosa oferecesse os frutos da abundância de sua colheita aos vizinhos mais pobres e dependentes. A a noção contemporânea de caridade, no entanto, não transmite um quadro adequado de como esse intercâmbio ocorria – pois eram normalmente os próprios pobres que davam início a transação, que era encenada face a face, em rituais que nos pareceriam hoje uma intolerável invasão de privacidade.

No restante do ano eram os pobres que deviam bens, trabalho e respeito aos ricos, mas nessa ocasião eles viravam a mesa – literalmente. Grupos de pobres – em sua maioria meninos e rapazes – invocavam o direito de marchar até as casas dos abastados, adentrar seus salões e receber presentes sob a forma de comida, bebida e por vezes dinheiro. E os ricos tinham de deixá-los entrar.

O senhor da terra podia sempre usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças.

O Natal era ocasião em que os camponeses, servos e aprendizes exercitavam o direito de exigir de seus vizinhos mais ricos e benfeitores que os tratassem como se eles fossem ricos e poderosos. O senhor da casa grande deixava entrarem os camponeses e oferecia-lhes um banquete. Em troca os camponeses ofereciam algo de verdadeiro valor numa sociedade paternalista: sua boa vontade. Essa troca de presentes por boa vontade incluia com freqüência a execução de canções, frequentemente canções relacionadas à bebida (desta transação ritualizada foi apenas a promessa de boa vontade a sobreviver nas canções contemporâneas de Natal).

Viemos exigir nosso direito
Se não abrires tua porta
Derrubaremos-te no chão
[...]
Mais uma vez nos reunimos, para um feliz Ano Novo
Desejar a cada um desta família
Que haja abundância de batatas e arenques
De manteiga e de queijo, e toda sorte de guloseima
[...]
Deus mande ao senhor da casa um copo de cerveja de qualidade
Deus mande à senhora da casa uma boa torta de Natal
[...]
Vem, mordomo, traz-nos um garrafão da melhor [cerveja]
Assim rezaremos para que tua alma no céu descanse;
Mas se vierdes com um garrafão da menor [qualidade],
Abaixo virão mordomo, garrafão e tudo mais.

Numa economia agrícola o tipo de “desordem” que estou descrevendo não representava de fato uma ameaça à autoridade da nobreza. O historiador E. P. Thompson observou que o senhor da terra podia sempre tentar usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças, readquirindo no processo a boa vontade de seus inquilinos.

Na verdade, episódios de desordem eram amplamente tolerados pela elite. Alguns historiadores argumentam que a inversão de valores funcionava na verdade como uma válvula de segurança que continha os ressentimentos de classe dentro de limites claramente definidos, e que ao inverter a hierarquia estabelecida (ao invés de simplesmente ignorá-la), tais inversões serviam na verdade como reafirmação da ordem social existente.

Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas

 

Este documento faz parte da série

A burlesca história da comemoração do Natal

  1. A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112
  2. A transição de São Nicolau
  3. Os desgovernos do Natal
  4. Uma concessão
  5. A aquisição da boa vontade
11 de Dezembro de 2007

Os desgovernos do Natal

História, Sociedade

Na Nova Inglaterra, durante os dois primeiros séculos de colonização branca a maior parte das pessoas não comemorava o Natal. Na verdade, o feriado foi sistematicamente suprimido pelos puritanos durante o período colonial e amplamente ignorado pelos seus descendentes. Foi na verdade ilegal celebrar o Natal em Massachusetts entre 1659 e 1681 (a multa era de cinco shillings). Foi só em meados do século dezenove que o Natal ganhou reconhecimento legal como feriado público oficial na Nova Inglaterra. Escrevendo perto do final daquele século, um natural da Nova Inglaterra, nascido em 1822, recordava ir à escola quando criança no dia de Natal, acrescentando que mesmo em 1850, em Worcester, Massachusetts, “os tribunais deliberavam no Natal, os mercados abriam, e duvido que houvesse qualquer serviço religioso na cidade, a não ser que fosse domingo”. Mesmo em 1952, um escritor lembrava ter ouvido de seus avós que na Nova Inglaterra um trabalhador corria o risco de perder o emprego se chegasse tarde ao trabalho no dia 25 de dezembro, e que por vezes “os proprietários das fábricas mudavam os horários de chegada para as cinco da manhã no dia de Natal, para que os que quisessem assistir a uma celebração na igreja tivessem de abrir mão ou ser dispensados por chegarem tarde ao trabalho”.

Dezembro era a única época de carne fresca.

[...] Na Europa pré-Moderna, mais ou menos entre 1500 e 1800, a estação natalina era época para dar vazão aos apetites – e refestelar-se. Hoje em dia é difícil entender o que era essa celebração sazonal. Para a maior parte dos leitores deste livro, comida de qualidade está disponível em quantidade suficiente ao longo do ano inteiro. Mas a Europa pré-moderna era acima de tudo um mundo de escassez. Pouca gente comia comida de qualidade, e para todos a disponibilidade de comida era determinada pelas estações. Final de verão e começo do outono era a época dos vegetais frescos, mas dezembro era a época – a única época – de carne fresca. Os animais não podiam ser mortos até que o clima estivesse suficientemente frio para garantir que a carne não estragaria; e qualquer carne reservada para o restante do ano teria de ser preservada (e tornada portanto menos saborosa) pela conservação no sal. Dezembro era também o mês quando o suprimento anual de cerveja ou vinho estava pronto para beber. E para os fazendeiros, além disso, a época marcava o início do período de ócio. Não é de se admirar, portanto, que fosse a ocasião de excesso celebratório.

Os excessos tomavam inúmeras formas. Os festejos tornavam-se com facilidade desvario; lubrificada pelo álcool, as comemorações acabavam mesclando-se com desordem. O Natal era uma época de “desgoverno”, ocasião em que os freios comportamentais usuais podiam ser violados com impunidade. Era parte do que um historiador chamou de “mundo do carnaval” (o termo carnaval tem suas raízes nas palavras latinas carne e vale – “adeus à carne”. E carne aqui refere-se não apenas à comida mas também ao sexo – carnal bem como carnívoro). O “desgoverno” do Natal significava que não apenas a fome, mas também a ira e a luxúria podiam ser expressas em público (Não foi por acidente que [o reverendo] Increase Mather chamou dezembro de Mensis Genialis, “o mês da voluptuosidade”). As pessoas costumavam passar tinta negra nos rostos ou fantasiar-se de animais ou vestiar roupas típicas do sexo oposto, operando assim sob o manto da anonimidade. O historiador John Ashton, do século dezenove, conta um episódio acontecido em Lincolnshire em 1637, em que o homem escolhido pela multidão de foliões como “Barão do Desgoverno” recebeu uma “esposa” numa cerimônia conduzida por um homem vestido de sacerdote. Em seguida, conta Ashton em linguagem contidamente vitoriana, “o negócio foi levado até as últimas conseqüências”.

Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas

 

Este documento faz parte da série

A burlesca história da comemoração do Natal

  1. A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112
  2. A transição de São Nicolau
  3. Os desgovernos do Natal
  4. Uma concessão
  5. A aquisição da boa vontade
02 de Dezembro de 2007

Estagnados no dia seguinte

Sociedade

Não vivam ansiosos quanto ao futuro. Não vivam inquietos pelo dia de amanhã, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

O código-fonte da revolução que não haverá

O que você só vai entender tarde demais é que Jesus não disse que não vivessemos ansiosos com o futuro porque deveríamos crer que tudo acabaria dando certo no sentido de paz e prosperidade (não deu para ele e para nenhum dos seus seguidores), mas porque enquanto vivemos obcecados pelo futuro não nos forçamos a viver o único momento singular e portanto santo, o presente. Seu “o amanhã cuidará de si mesmo” corresponde ao seu “deixe que os mortos enterrem os seus mortos”.

Hoje dizemos que não se preocupar com o futuro é postura infantil e uma irresponsabilidade, porém o rabi de Nazaré queria o oposto. Viver em função do futuro, explica ele, é idiotizante e infantilizante, e nossa única chance de pisarmos o chão da realidade é nos desprogramarmos desse eloqüente mundo de ilusão.

A sociedade de consumo glorificou a obsessão pelo futuro, transformando-a num modo de vida e num incessante estado mental. Somos idiotas por pré-progamação. Não desfrutamos daquilo que temos, porque nossos olhos estão continuamente postos naquilo que se tudo der certo iremos um dia consumir. Não encaramos de frente o mal de cada dia, porque estamos sempre trabalhando para contornar a obsolescência que virá. Não desfrutamos da segurança presente, porque estamos perpetuamente preocupados com a segurança que devemos adquirir para o amanhã.

Em conseqüência somos obsoletos por padrão, imprestáveis do momento em que saímos da fábrica. Esta geração nada fez e a geração seguinte nada fará, porque nunca estamos aqui. Vivemos estagnados no dia seguinte. Nascemos mortos.

27 de Novembro de 2007

A cidade invisível sobre o monte

Fé e Crença, Sociedade

O mundo pode ser salvo e quero explicar como, mas preste atenção porque só vou dizer uma vez.

É necessário em primeiro lugar que você entenda que (e porque) a situação está mais desesperadora do que já esteve. O mundo está duas vezes mais difícil de salvar do que, digamos, no tempo de Jesus, e não apenas porque há mais gente para ser salva. Tanto a salvação do mundo quanto a específica dificuldade presente estão ligados à qualidade das relações entre as pessoas.

Falando em termos gerais, há dois tipos de associações de pessoas, as instituições e as camaradagens. O que caracteriza as instituições é que elas promovem respostas condicionadas. Num sentido muito essencial, o que fazem as instituições é cercear a liberdade e inibir a criatividade, pelo que servem basicamente como instrumentos de controle social. Prisões, igrejas, empresas, escolas, religiões e formas de governo são instituições, e guardam por essa razão, apesar das diferenças superficiais, grande familiaridade entre si.

As camaradagens, em constraste, são relações autônomas e criativas entre pessoas, e por isso têm sempre algo de informal e algo de provisório. Rodas de samba, caronas, equipes de gincana e parceiros de truco são exemplos úteis, mas também insuficientes, visto que há um enorme leque possível e efetivo de camaradagens na vida real – subsistindo nos mais diversos níveis e construídas sobre as mais diversas bases. A maior parte das camaradagens não tem nome. O que as caracteriza é que, ao contrário das instituições, as camaradagens promovem respostas não-condicionadas ao problema da relação das pessoas com o seu ambiente (incluindo o seu meio-ambiente). Ao invés de instrumentos de controle, as camaradagens servem como ferramentas de convivência.

Não se pode esconder uma boa nova que inclui a todos e qualquer um.

A tentação que assombra as camaradagens, especialmente as mais compensadoras e bem-sucedidas, é, naturalmente, a de tornarem-se instituições. Se digo que o mundo de hoje está mais difícil de salvar é porque há dois mil anos as pessoas viviam em geral mais mergulhadas nas camaradagens do que nas instituições, e na nossa realidade a regra é oposta. Para usar as palavras de Illich, de quem roubei boa parte desta terminologia, a sociedade industrial reduziu a convivência a um patamar mínimo e tornou-nos, em todos os níveis, meros consumidores. Nossa vida é, de cima a baixo, da infância à velhice, da manhã à noite, do trabalho ao lazer, mera resposta condicionada às exigências feitas sobre nós pelos outros e por um meio-ambiente criado pelo homem. Não resta espaço para as interações verdadeiramente criativas nem para a verdadeira autodeterminação, que é simultanemente autonomia e a fraternidade; não nos resta a liberdade de nos submetermos a uma interdependência voluntária, já que vivemos sob o peso de uma interdependência imposta. Numa palavra, não resta espaço para a convivência.

Há dois mil anos, para salvar o mundo, bastava convidar as pessoas para abraçarem uma estirpe radical e revolucionário de convivência. Hoje em dia é preciso lembrá-las, em primeiro lugar, do que é convivência; que há um mundo possível determinado pelas relações autônomas e criativas entre as pessoas, um mundo louquíssimo impulsionado pela graça fragilíssima da camaradagem e não pela sociedade de consumo, pela internet, pelos times de futebol, pela marca da roupa, pelo modelo do carro, pelo peso onipresente das pressões familiares, religiosas, sexuais, econômicas, raciais e políticas.

A boa nova cristã explica que apenas a graça, e portanto a camaradagem, pode salvar um mundo que teima em colocar sua confiança e seus investimentos nas instituições. Deus é amizade, e a linguagem da amizade é perpetuamente livre, provisória e gratuita; depende de sujeições voluntárias e de autonomias ininterruptamente soberanas.

O radical na mensagem de Jesus não está em ele esclarecer o mais ou menos óbvio, que as camaradagens são vida e as instituições morte; o revolucionário está em que ele propõe o passo seguinte, definitivo e louco e definitivamente redentor. Em suas palavras e em seu exemplo o nazareno explica que até as mais belas camaradagens podem tornar-se morte, a não ser que se disponham a manter-se perpetuamente abertas – isto é, dispostas [1] a celebrar a própria precariedade e [2] a aceitar a inclusão de quem quer que seja no seu círculo de convivência.

Mesmo a mais cordial camaradagem é definida por alguma resposta condicionada, e Jesus desafiava continuamente esses limites convencionais. O Filho do Homem, como representante do Deus Não-condicionado, recusava-se a oferecer qualquer resposta condicionada, não importando a situação social em que se encontrasse. Fosse diante de um rei, de um sacerdote ou de uma prostituta, o que Jesus oferecia não era a resposta convencional, estratégica, socialmente adequada e politicamente correta. O que ele oferecia, revolucionariamente, era a oferta de uma vontade livre que não esperava outra coisa da pessoa com quem estava se relacionando. Como resultado sua postura é consistentemente inclusiva, a não ser quando se trata dos que querem perpetuar a instituição e sua resposta condicionada e, através delas, os muros de separação entre as pessoas.

Jesus não apenas vivia entre camaradas, mas propunha um modo de vida em que a camaradagem – a aceitação gratuita e a interação livre, autônoma e criativa – fosse a norma e não a exceção. Sua mensagem e seu ministério resumem-se na demonstração de que a camaradagem divina, e portanto a camaradagem do Filho do Homem (ou, “o ser humano como todos devem ser”), estão continuamente à disposição de quem quer que seja – um político corrupto, um sacerdote mesquinho, um adúltero esmagado pela culpa, uma criança que não vai ter nada inteligente para dizer. O poder dessa boa nova é um poder fragílissimo, uma semente minúscula que pode tornar-se uma grande árvore mas também uma chama que pode ser apagada por quem quer que seja e a qualquer momento.

Jesus pediu que fosse dito a João Batista na prisão que o poder do evangelho era visível porque “a boa nova estava sendo proclamada aos pobres”, isto é, a boa notícia da convivência chegara aos que normalmente não são incluídos em camaradagem alguma. Para Jesus, “não se pode esconder uma cidade construída sobre o monte” significa, basicamente, “não há como se esconder uma boa nova que inclui a todos e qualquer um”. Quando deixa de incluir a todos de forma criativa e indiscriminada, a cidade desaparece de sobre o monte: Deus não existe, a convivência perece, e as mesmas palavras do mesmo Jesus passam de boa nova a farsa e engodo.

Em tempos recentes, a manifestação mais espetacular e sacrossanta que conheço do poder da graça inclusiva não está portanto (e nem poderia estar) em qualquer iniciativa institucional, mas na fragilíssima e despretensiosa iniciativa de Juan Mann (”one man”, isto é, “um [Filho do] homem”) em sair pela rua oferecendo abraços gratuitos. Enquanto esse sujeito avançava cidade adentro erguendo seu rídiculo cartaz os arcanjos cantavam, as hostes celestias aplaudiam, os serafins se dobravam em solene reverência e os demônios se dissolviam em vergonhoso estertor, porque depois de anos a boa nova estava sendo pregada aos pobres. Um único homem convidava o mundo paupérrimo de convivência a uma resposta não-condicionada, e fazia-o oferecendo a forma mais absurda e precária e indiscriminada de camaradagem. A cidade, senhoras e senhores, refulgia inequivocamente sobre o monte.

O que há de mais absolutamente fulgurante na sua iniciativa está em que, ao oferecer abraços gratuitos, Juan Mann está – e preste atenção agora, porque nisso está a salvação do mundo – oferecendo de graça o que qualquer um pode oferecer de graça. Ele não apenas promove a convivência, mas comprova brilhantemente no mesmo gesto que a convivência é dom que qualquer um pode conceder a qualquer momento, em qualquer lugar, a qualquer um. Não é de se admirar que os anjos aplaudam e façam fréneticas ôlas e brindem com suas taças e atirem para cima os seus chápeus. Nós, da instituição, temos um plano de salvação do mundo em que é parte essencial recolhermos ofertas, juntarmos doações, pedirmos dinheiro; ou seja, estamos exigindo, e com a melhor das boas intenções, o que nem todos podem dar – quando a boa nova consiste justamente em desafiar o homem a oferecer a todos o que todos podem oferecer.

É por isso que os grandes luminares da boa nova não são jamais projetos ou campanhas, mas pessoas singulares e despretensiosas, gente que pela sua conduta e pelas suas escolhas facilitam que se criem ao seu redor círculos singulares de convivência e camaradagem, e portanto de transformação social – ciclos de redenção. Gente como Gandhi, que convidava seus seguidores a estenderem a tenda da camaradagem até o terreno dos seus antagonistas; como Madre Teresa, que gentilmente transformou Calcutá numa cidade sobre o monte, brilhando para a eternidade além da dor e do preconceito e da imundície; como Zeca Pagodinho, que cometeu a insanidade de permanecer freqüentando os mesmos bares e os mesmos amigos mesmo depois de ser atingido pela fama. Gente que ousa oferecer de graça o que todos podem oferecer de graça, e assim transforma sua vida em fulcros de camaradagem e de convivência.

Não se iluda. Qualquer um pode trazer luz ao mundo, mas na maior parte do tempo Deus não existe e o evangelho é uma farsa. Não se pode esconder uma boa nova que se aplica a qualquer um, por isso quando não atinge indiscriminadamente a todos a cidade não está sobre o monte, e pode ser facilmente escondida.