Manuscritos estocados sob a rubrica 'Quase Ciência'
11 de Junho de 2007

O bolicho do Guartelá

Quase Ciência, The Net

A convite do agrônomo e empresário e cantante Alessandro Casagrande (que havia sido por sua vez convidado pelo Tom) passei 48 horas, entre sexta e domingo, acampado na fazenda/reserva Curucaca, nos campos que derramam-se escarpa abaixo no cânion do Guartelá (na estrada entre Castro e Tibagi).

A reserva Curucaca é formidável propriedade do Tom e da Gi (e do Francisco, de três anos), que são biólogos e matutos e pessoas extraordinárias. Os dois receberam-nos com graça e exuberância, mantendo sempre um abraço à mão, uma piada na ponta da língua e muita comida na mesa. Compunham ainda o grupo a Dany (geneticista e líder de torcida), os italianos Enzo e Maria e seus filhos gêmeos Eva e Tiago - sem contar a Cuca, a impassível esfinge canina do Guartelá.

Sou testemunha de que o Tom e a Gi chegam aos mais encantadores (e sensatos) extremos para preservar a fauna, a flora e a cultura local da região. Na fazenda Curucaca a eletricidade vem de uma bateria solar, a água límpida vem do banhado, as cervejas resfriam-se na nascente e a água quente vem da mangueira exposta ao sol do meio do dia (banho quente, cari amici, só entre as onze e as três da tarde). O banheiro é visitado por cobras venenosas que não ocorreria a ninguém expulsar, quanto mais matar, e o pequeno Francisco faz carinho sem qualquer intimidação em pererecas e répteis ápodes (sem patas, que parecem cobras. Um desses, que aparece na minha mão na fotografia, me mordeu, o bandidinho).

Porém a grande paixão do Tom e da Gi (e seu maior interesse do na região e na reserva) é preservar o que resta dos campos gerais, vegetação de estepe que já cobriu a maior parte do interior do Paraná, e de cuja cobertura original resta menos de um por cento. Explicou-me o Tom que um pequeno trecho de campos e banhado com a feição dos campos gerais fixam carbono C4, capturam a luz solar, retém e purificam água e emitem oxigênio na atmosfera de forma muitas vezes mais eficiente do que uma exuberante floresta tropical que ocupe a mesma superíficie. “Não é à toa que os quatro maiores rios do estado nascem nas regiãos dos campos”.

O problema é que existem leis que limitam a exploração de florestas nativas, mas lei alguma regulamenta o uso dos campos no Brasil. As charmosas árvores da mata atlântica têm onde reclinar a cabeça, mas não as gramíneas, flores minúsculas, líquens e lobos-guarás das estepes e cerrados brasileiros. No Paraná, o que resta dos campos gerais dá cada vez mais lugar a pastos, plantações de soja e florestas comerciais de eucalipto e pinus, e o mesmo cenário repete-se no interior do Rio Grande do Sul. Quando o casal de biólogos chegou à região do Guartelá, na virada do milênio, a vegetação ao redor dos limites da Curucaca estava passavelmente preservada. Hoje o horizonte mudou: em virtualmente todas as propriedades vizinhas (com exceção do Parque do Guartelá) o bege-savana dos campos foi substituído pelo verde pasteurizado das plantações de soja e pelo rubro das mudas eucalipto - plantas que, nem de longe, serão capazes de preservar os recursos de água, oxigênio e carbono da forma como faz o delicado ecossistema dos campos gerais.


O novo horizonte do Guartelá:
a soja avançando sobre as estepes

É pela consciência da seriedade dessa situação que 95% da área da fazenda Curucaca é mantida radicalmente intocada. Quando um vizinho perguntou se ele não temia ter nas mãos tanta terra “improdutiva”, o Tom respondeu exuberantemente e com acerto: “Como improdutiva? Eu produzo água! A água que você bebe vem da minha propriedade”. E mostrou-me os canos para comprovar que a água de um único banhado da Curucaca supre de água potável quatro outras propriedades ao redor.

Como preservar algo de que ninguém reconhece a importância? Uma liga de ambientalistas da qual o Tom é militante e porta-voz está lutando para fazer avançar um projeto que regulamenta a exploração dos campos, mas o lobby das indústrias conta com a dura eloqüência do patrocínio. O Tom e a Gi estão praticamente sozinhos nos seus esforços para salvar a Terra, mesmo sabendo que é quase certamente tarde demais.

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23 de Maio de 2007

Mais aprendizado, menos PowerPoint

Ilustração, Quase Ciência

Aquelas apresentações de PowerPoint, que você prepara com tanto empenho para acompanhar a sua palestra, podem estar com os dias contados.

Uma série de pesquisas efetuadas pela Universidade de New South Wales, de Sydney, vem dando suporte a uma teoria de que sempre suspeitei: é mais difícil processar informação que chega até você em forma escrita e falada ao mesmo tempo.

Apontam essas descobertas que, no que diz respeito ao aprendizado, a redundância é nociva. O cérebro humano processa e retém mais informação se ela chega até ele nas formas verbal ou escrita, mas não nas duas ao mesmo tempo.

Quem já foi a uma igreja evangélica deve ter testemunhado o costume: o preletor invariavelmente convida sua audiência a acompanhar nas suas próprias Bíblias a leitura de alguma passagem enquanto ele lê em voz alta lá na frente. À luz dos experimentos realizados pela UNSW, a prática não teria como ser mais contraproducente. O teor das passagens seria melhor compreendido e melhor assimilado se fossem ouvidas ou lidas separadamente. Ler e ouvir ao mesmo tempo um determinado conteúdo apenas induz a uma atenção dividida (e portanto à distração) e aumenta o valor da carga cognitiva.

É mais difícil processar informação que chega até você em forma escrita e falada ao mesmo tempo.

Carga cognitiva, conceito desenvolvido na UNSW pelo professor John Sweller, é a quantidade total de atividade mental imposta sobre a memória útil em determinado momento de tempo. Decorar uma série de dois números (digamos 32) corresponde a uma carga cognitiva de 2; decorar uma série de 16 números (digamos, 8372658497146372) tem uma carga cognitiva de 16.

“O uso de apresentações de PowerPoint tem sido um desastre,” afirma o professor Sweller. “Ela deveria ser abandonada por completo”.

“É prática eficaz falar com o auxílio de um gráfico ou de um diagrama, porque esses apresentam a informação sob uma forma diferente. Porém não é eficaz falar as mesmas palavras que estão escritas, porque isso aumenta a carga cognitiva sobre a mente e diminui a capacidade dos ouvintes de entender o que está sendo apresentado”.

Pela mesma razão, sugerem as descobertas, pode ser mais eficaz examinar com seus alunos problemas já resolvidos do que convidá-los a resolverem problemas por si mesmos. Examinar um problema já resolvido reduziria a carga sobre a memória útil e aumentaria a eficácia do aprendizado.

Não quero ter de repetir.

Research points the finger at PowerPoint
Professor John Sweller

03 de Maio de 2007

We are not alone

Quase Ciência

Terá sido uns seis anos atrás, e o Ivan estava dirigindo. Era de madrugada (digamos 4 da manhã) e estávamos a meio caminho de São Paulo (digamos, logo ao norte de Juquiá) por uma deserta Régis Bittencourt. O céu talvez estivesse encoberto, mas nenhum vento perturbava a mata fechada nos dois lados da estrada. Estávamos ambos acordados, quem sabe ouvindo um CD.

Aconteceu singelamente e sem aviso: um balão de aniversário no meio da estrada; cem metros adiante, uma multidão deles. Balões de aniversário espalhados uniformemente sobre as duas mãos da rodovia. Vejo-os agora mesmo com o olho da memória, eram balões azuis e brancos, pousados docilmente ao longo de uns cem metros de asfalto, como um rebanho.

Não havia nenhum automóvel por perto, nenhuma casa por perto, nenhuma saída secundária visível e nenhuma luz além das estrelas e dos faróis do Corsa. Não havia balões no acostamento ou no trecho de capim que beirava a mata dos dois lados da pista. Apenas balões de ar brancos e azuis, soltos, apenas sobre o asfalto e num grupo mais ou menos compacto.

O Ivan diminuiu a velocidade e, na rodovia deserta, fez o carro dançar de um lado para o outro de modo a explodir com a nossa passagem o maior número possível de balões. Chegamos a cogitar em parar e recolher alguns, mas não fizemos. Partimos sem interrupção noite adentro, deixando um rastro de destruição na população sobre o asfalto e uma marca curiosa na memória.

Devidamente treinado pelo meu treinamento com histórias de detetive e agentes do FBI (“Scully”, implora Mulder no celular, “saia daí agora mesmo!”), encontrei-me durante o restante da viagem e muito, muito tempo depois, matutando na tentativa de encontrar uma explicação racional para o nosso avistamento.

O Ivan crê que tenho vocação ao exagero; quando estou dizendo a alguém que determinado lugar é muito bonito ou que determinado filme é muito bom, ele faz questão de intervir em benefício do meu interlocutor. “Leve em conta que é o Paulo que está dizendo,” ele observa, ou algo parecido.

Creio que o Ivan não negaria em termos essenciais o teor quantitativo deste meu testemunho, mas mesmo naquela madrugada ele pareceu minimizar a estranheza – isto é, o peso qualitativo – do que acabávamos de testemunhar. Posso contar com o seu testemunho, mas não com a sua empolgação. Para ele atravessar um rebanho de balões de ar azuis e brancos numa rodovia deserta em plena madrugada não é aparentemente coisa tão digna de nota. Por outro lado, fiquei imediatamente contente e permaneço grato por ter uma testemunha tão cética para confirmar o que vi.

Aparentemente, no entanto, o depoimento de duas testemunhas não basta. Creio que não consegui até hoje alguém que acredite nessa história, ou que se empolgue um pouco que seja com ela. Eu, que já vi luzes estranhas no céu noturno de uma praia de Niterói e encontrei ouvintes ávidos para essa experiência, que já vi e contei a platéias empolgadas sobre o reflexo nos olhos da aranha, não encontro quem arregale os olhos1 para a história dos balões de ar na madrugada da rodovia.

Prometi então a mim mesmo que nunca mais vou contar essa história, porque não adianta. Viveremos solitários, eu e a lembrança da noite dos balões, sem ninguém que nos faça companhia. Atravessei magicamente uma história alheia naquela noite, e nunca mais encontrei o fio da meada. Vou ter de aprender a viver com isso.

1 Ninguém se ofereceu nem para sugerir o básico, que essa deve ser uma memória implantada para ocultar uma experiência de abdução.

28 de Março de 2007

O karma do livre-arbítrio

Pense comigo, Quase Ciência

Photo by Mamluke

O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?

Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um Deus realmente soberano, argumentam ainda hoje os calvinistas, não poderia deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da predestinação.

Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação final no conceito inescapável de amor-livre, que apenas transferia para o campo da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão consensual e auto-determinação.

Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.

O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente – ou seja, não é para todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto, vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em O Homem como Máquina.

Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma austera convicção com que os reformados duvidavam dele – mas por motivos inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard Dawkins: “Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles governados pelas leis da física”. A implicação é clara: num sentido muito profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.

Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:

Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados, tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior do seu cérebro.

Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo e livre. Acho a idéia suficientemente bela para ser verdadeira.

01 de Março de 2007

INVASORES DE MENTES: Possuídos e zumbificados

Quase Ciência

Nossa experiência no mundo é tão obscenamente exuberante que é às vezes fácil esquecer que filmes como Invasores de corpos, Alien e Seres Rastejantes são baseados em fatos reais. O parasitismo é de longe uma das figuras de linguagem mais comuns na natureza, afetando praticamente todas as espécies animais e vegetais e os mais asseados seres humanos.

Quem me chamou a atenção para o assunto foi o autor de divulgação científica Carl Zimmer, autor de Parasite Rex, um das centenas de livros que não vou ler mas ainda quero ter. Acompanho eventualmente o blog do sujeito e assisti recentemente ao vídeo (slides aqui) de uma palestra sua na Universidade de Cornell.

Não sei exatamente o que escrever sobre o assunto, por isso vou tentar me ater resumidamente aos fatos. Nesta gravura de Ernst Haeckel que ilustra diferentes espécies de cirrípedes (gênero de crustáceos a que pertencem as cracas) aparece no centro um caranguejo visto de baixo. Não se engane, que o caranguejo não é o cirrípede: como indica a figura, o corpo do caranguejo está inteiramente infestado (por dentro) por ramificações alienígenas de Sacullina, um parasita que vive livremente na água até encontrar um hospedeiro que possa zumbificar. Uma vez infestado pela Sacullina o caranguejo perde inteiramente o livre-arbítirio: o parasita passa a controlar por dentro todos os movimentos do seu hospedeiro, decidindo para onde o caranguejo deve ir, quando deve abrir as garras e do que se alimentar.

O parasitismo é comum até a náusea; Zimmer está especialmente interessado nos casos em que o parasita passa a determinar de alguma forma o comportamento do seu hospedeiro – como a Sacullina faz com o caranguejo. Há por exemplo o verme maldito que cresce como parasita dentro de um gafanhoto; em sua forma adulta esse verme vive na água, por isso depois que atinge a maturidade dentro do seu hospedeiro o verme induz o gafanhoto a pular contra a vontade dentro da água para que o parasita possa “nascer” em segurança. O gafanhoto morre afogado, mas essa não é exatamente a maior preocupação do verme recém-nascido, que não precisa mais dele.

Há ainda o fungo que invade o sistema nervoso e convence formigas e outros insetos a subirem ao topo de um caule de planta e fixarem-se ali; o parasita nasce na forma de bizarras antenas do corpo do animal ainda vivo, e utiliza seu posto privilegiado acima do solo para dispersar seus esporos e contaminar outros hospedeiros.

Os ratos infectados perdem o medo natural que ratos têm de gatos.

Outro caso extremo de zumbificação acontece à barata comum que tem o azar de ser visitado pela vespa Ampulex compressa. A vespa adulta realiza na barata três operações distintas: com a primeira picada, no tórax, injeta uma substância paralisante; a segunda picada, realizada com precisão microcirúrgica numa região muito específica do cérebro da barata (!) transforma o hospedeiro em animal funcional, mas sem iniciativa: um perfeito zumbi. A vespa então puxa essa barata dócil pelas antenas até sua própria toca na terra, onde – com uma terceira picada – deposita dentro dela seus ovos. Incapacitada de reagir ou se mover, a barata-hospedeira passa a servir compulsoriamente de comida de larva de vespa, que devora-a viva e lentamente, por dentro. A vespa adulta nasce rompendo violentamente a carapaça da barata, exatamente como o monstro de Alien explodindo o tórax de John Hurt.

Finalmente, há todo um rol de parasitas que usam o corpo – e talvez a mente – dos seres humanos. O caso mais interessante tem de ser o da toxoplasmose, doença causada pelo protozoário Toxoplasma gondii e que infeta um belo espectro de mamíferos, especialmente gatos, que são os hospedeiros definitivos.

Notável sobre o Toxoplasma gondii é um bichinho microscópico ter a habilidade de alterar o comportamento de hospedeiros tantas vezes maiores (e mais inteligentes?) do que ele, de forma a facilitar sua passagem para a próxima fase do seu ciclo de desenvolvimento. Se não, veja: os ratos infectados pelo parasita perdem o medo natural que ratos têm de gatos. Muitas vezes, na verdade, ratos infectados passam a sentir-se atraídos pelo cheiro das áreas marcadas pela urina dos felinos. Isso porque o gato é o próximo estágio no ciclo de vida do protozoário, e ele precisa achar um jeito de transferir-se do interior do rato para o interior do gato. Qual é o melhor modo de conseguir isso? Criando ratos kamikazes, que atiram-se deliberadamente no caminho dos seus piores inimigos.

Conquistados os gatos, os seres humanos são o passo seguinte do ciclo, e estima-se que pelo menos um terço da população mundial (de gente) esteja infectada com o T. gondii. Que ratos sejam suscetíveis a zumbificação estamos preparados para aceitar; mas será possível que um organismo unicelular como o agente da toxoplasmose seja capaz de alterar o comportamento de primatas superiores gente sofisticada como nós?

Há intrigantes indícios de que sim.

Uma série de estudos mais ou menos recentes sugere que a infecção pelo Toxoplasma gondii pode produzir em seres humanos uma forma amena de encefalite caracterizada pela presença de minúsculos cistos no cérebro, com a conseqüente liberação de algum neurotransmissor (possivelmente a dopamina) com o potencial de alterar o comportamento e a personalidade.

“Em populações em que esse parasita é comum a modificação em massa da personalidade pode produzir uma ampla mudança cultural. Variações na prevalência do T. gondii podem explicar uma porção substancial das diferenças que vemos entre populações humanas em aspectos culturais relacionados a ego, dinheiro, bens materias, trabalho e normas.”
Kevin Lafferty, in Cat Parasite May Affect Cultural Traits in Human Populations

Gente infectada com toxoplasmose tem aparentemente reações mais vagarosas e uma maior tendência a assumir riscos do que pessoas livres da infecção (pelo que há estudos que associam a toxoplasmose a um maior número de acidentes de trânsito).

Alguns estudos sugerem que a toxoplasmose pode provocar atitudes antisociais em homens e promiscuidade em mulheres; que aumenta em homens e mulheres a suscetibilidade a neurose, esquizofrenia e depressão, e entorpece a tendência humana à busca por novidades.

“O estudo sugere que homens infectados têm QIs mais baixos, tendem a ter um nível educacional inferior e menor capacidade de atenção; têm maior tendência a violarem normas e assumirem riscos; são mais independentes, antisociais, desconfiados, ciumentos e vagarosos, e (talvez por tudo isso) menos atraentes para as mulheres. As mulheres infectadas são mais extrovertidas, amigáveis e promíscuas do que suas companheiras, sendo também mais atraentes para os homens.”
Parasite makes men dumb, women sexy

Estima-se que 88% dos franceses e 67% dos brasileiros estejam infectados com o Toxoplasma gondii (em comparação, o parasita infecta 22% dos ingleses e 15% dos norte-americanos).

Há nisso tudo uma lição, mas não sei dizer qual é.