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	<title>A Bacia das Almas &#187; Quase Ciência</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>O novo céu</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Nov 2011 08:25:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Meu amigo Ricardo Quadros Gouvêa, que comete diariamente a indiscrição de ser mais erudito e antenado do que eu, reagiu por email ao meu O crepúsculo dos deuses oferecendo uma sacada ao mesmo tempo brilhante e simples: descartado o sonho da exploração do espaço, o destino de migração redentora da cultura ocidental passou a ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu amigo <a href="http://www.scribd.com/doc/32086802/Ricardo-Quadros-Gouvea-Manifesto-Protestante-Anti-Fundamentalista">Ricardo Quadros Gouvêa</a>, que comete diariamente a indiscrição de ser mais erudito e antenado do que eu, reagiu por email ao meu <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-crepusculo-dos-deuses/"><em>O crepúsculo dos deuses</em></a> oferecendo uma sacada ao mesmo tempo brilhante e simples: descartado o sonho da exploração do espaço, o destino de migração redentora da cultura ocidental passou a ser o mundo cibernético — o universo da internet, da nuvem, dos smartphones, das redes sociais e dos computadores.</p>
<blockquote><p>Hoje a ficção científica tem explorado outros reinos, como o da computação e virtualização. Creio que é aí, Paulo, que está acontecendo a construção de um novo mito redentivo — conforme Charles Stross, Vernor Vinge e até mesmo William Gibson e Bruce Sterling.</p></blockquote>
<p>Agora que o Gouvêa me abriu os olhos para o evidente, não consigo pensar em outra coisa: se cada época tem seu próprio “mito de migração redentora”, subalterno ao seu mito principal, o “lugar melhor” das nossas presentes esperanças e ilusões é o espaço cibernético.</p>
<p>Porque não deve haver dúvida, antes de tudo, que a internet (nossa grande janela comunitária para essas realidades) é para nós <em>um lugar</em>. Embora seja na verdade uma rede incorpórea e espiritual de zeros e uns, falamos da internet como de um mar em que se navega: um domínio geográfico com legítimos destinos, endereços e pontos de referência. Aqui há sítios que se pode visitar, bibliotecas que se pode vasculhar, parques de diversões em que se pode viver, pontos de encontro em que se pode rever os amigos. Um <em>ciberespaço</em>, para usar o termo de William Gibson.</p>
<p>Também não deve haver dúvida de que enxergamos nesse universo alternativo um destino redentor. Essa expectativa se aplica e se manifesta em pelo menos dois níveis.</p>
<p>No primeiro nível o mundo virtual é um destino redentor porque é para ele que podemos fugir, agora mesmo, das aflições mais imediatas da existência. Se a experiência cotidiana nos derruba e oprime, no abrigo da internet podemos ser finalmente quem somos, livres das limitações e constrangimentos da vida real.</p>
<p>Na internet ninguém precisa envelhecer, e você pode usar para identificar o seu perfil aquela foto boa de 2002. Os relacionamentos virtuais dispensam os embaraços, cheiros, ruídos e usanças da vida real: você não precisa fechar a porta do banheiro, pode sair da conversa tão repentinamente quanto quiser, é livre para deixar a escova de dentes em cima da pia, tem autonomia para descartar um parceiro em favor de outro sem precisar mover-se da cadeira.</p>
<p>No oásis do ciberespaço alguém está sempre pronto pra te entender e pra te desejar: aqui você encontra gente apaixonada por aqueles assuntos interessantes que sua família e seus amigos insistem em ignorar, e acha estímulo e vazão para todas as suas imaginações sexuais.</p>
<p>Resistir é inútil: estar sozinho com a internet é ter toda a companhia e todo o conforto que alguém pode desejar. Ninguém na sua casa te entende, mas @pikachu1981 quer te levar para a cama. Você pode se sentir solitário, mas o Matheus Feltrinelli acaba de visitar o seu perfil no Facebook. As raposas tem suas tocas e as aves tem seus ninhos, mas aqui você tem onde reclinar a cabeça. A Terra pode estar encolhendo, mas o universo da internet está em permanente expansão, e só estamos contemplando os primeiros segundos de seu irresistível Big Bang.</p>
<p>Este domínio de plenitude e de realização, que está em todo lugar estando em lugar nenhum, é o céu do terceiro milênio. E, com um novo céu desses, quem precisa de uma nova terra?</p>
<p>Nosso interesse nas possibilidades e contradições desse paraíso se manifesta claramente no segundo nível, o nível literário, da articulação dessa mitologia. Porque nos últimos anos a ficção científica tem adotado o espaço cibernético como um destino de migração redentora no sentido mais literal da coisa. Na cultura pop a profecia mais antiga dessa visão foi articulada pelo filme <em>Tron</em>, de 1982, em que o protagonista é sugado para aventuras dentro do “mundo eletrônico” do computador. Nas décadas seguintes o sonho de uma realidade virtual pesada, indistinguível da experiência da realidade física, voltou à superfície em <em>O passageiro do futuro</em>, de 1992, e encontrou o seu pleno esplendor em <em>Matrix </em>(1999), que gerou mil filhos e está longe de perder a fertilidade.</p>
<p>Este representa, no entanto, o aspecto mais superficial dessa discussão, aquele que emerge para o grande público através de Hollywood. Como bem lembrou o Gouvêa, grande parte da literatura de ficção científica das últimas décadas, desde pelo menos a década de 1980, tem de uma forma ou de outra se ocupado da temática das realidades virtuais que a tecnologia pode desvendar ao homem e além do homem.</p>
<p>Tendo nossa cultura se desiludido do sonho da exploração do espaço, na literatura mais recente de ficção <s>científica</s> <span style="text-decoration: underline;">apocalíptica</span> a migração redentora da humanidade passou a ser representada, alternativamente, como [1] um encontro com a eternidade pelo <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Transumanismo">mergulho definitivo no mundo cibernético</a>, onde estaremos para sempre livres das limitações da carne, ou [2] a criação, como resultado do avanço da tecnologia, de uma nova inteligência que nos ultrapassará e nos justificará eternidade adentro.</p>
<p>Na linguagem de Vernon Vinge esse segundo apocalipse se chama <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Singularidade_tecnol%C3%B3gica">Singularidade</a>: o momento futuro ou iminente em que a tecnologia humana acabará produzindo uma inteligência sobre-humana, inteligência cuja entrada em cena produzirá consequências que nós — meramente humanos que somos — somos estruturalmente incapazes de prever.</p>
<p>Isso para não falar de gente como Nick Bostrom, professor de Filosofia da universidade de Oxford, que parou um dia para <a href="http://www.simulation-argument.com/simulation.html">ponderar a probabilidade</a> de que eu e você já estejamos, <em>neste momento</em>, vivendo numa simulação dentro de um espertíssimo computador criado por uma civilização avançada. Porque, afinal de contas, “é em princípio inteiramente possível implementar uma mente humana num computador suficiente rápido”. Se os computadores que temos hoje em dia são capazes de simulações incrivelmente complexas, explica Bostrom, a lógica exige que tomemos como verdadeira uma das seguintes três informações:</p>
<ol>
<li>As chances de que uma espécie no nosso atual nível de desenvolvimento seja capaz de alcançar a maturidade tecnológica, evitando a extinção, são incrivelmente pequenas;</li>
<li>Praticamente nenhuma civilização tecnologicamente madura demonstra interesse em rodar simulações computadorizadas de mentes como as nossas;</li>
<li>Você com quase toda a certeza existe dentro de uma simulação.</li>
</ol>
<p>Ou seja, no estágio tateante em que se encontra, a tecnologia já nos forneceu metáforas — desafios e ferramentas — que são, por assim dizer, pós-humanas. Com elas nos tornamos capazes de pulverizar a realidade e sonhar o momento talvez não muito distante em que seremos, nós mesmos, tecnologia obsoleta e ultrapassada. Graças a essas ferramentas, ganhamos ainda a terrível clareza da incerteza: nenhum de nós tem mais como dizer ao certo se está dentro ou fora do que costumávamos chamar de realidade, ou de que lado da Singularidade está olhando para a experiência.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug078.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-evangelho-de-google/">O evangelho de Google</a><br />
<a href="http://www.malvados.com.br/index473.html">Só os nerds são felizes</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-crepusculo-dos-deuses/">O crepúsculo dos deuses</a></p>
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		<title>O crepúsculo dos deuses</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 08:16:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[demografia]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[mito]]></category>
		<category><![CDATA[progresso]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu Quero um lugar Que não tenha dono Qualquer lugar Azymuth, Linha do horizonte &#160; Somos gente, e gente precisa de mitos, aquelas grandes narrativas formadoras que nos alçam para além das perplexidades paralisantes da realidade cotidiana e servem de espinha dorsal sobre a qual suportamos e orientamos o arco da vida. Como já foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>Eu<br />
Quero um lugar<br />
Que não tenha dono<br />
Qualquer lugar<br />
</small></p>
<p align="right"><small><strong>Azymuth</strong>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=0RghFsHGk7c">Linha do horizonte</a></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Somos gente, e gente precisa de mitos, aquelas grandes narrativas formadoras que nos alçam para além das perplexidades paralisantes da realidade cotidiana e servem de espinha dorsal sobre a qual suportamos e orientamos o arco da vida.</p>
<p>Como já foi <a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/qual-mito/">suficientemente demonstrado</a>, todos vivemos debaixo de uma narrativa deste tipo, mesmo os mais céticos e descrentes dentre nós. Talvez não baste dizer que os seres humanos precisam de mitos; mais acertado seria dizer que são os mitos que nos tornaram humanos em primeiro lugar, e que são eles os patrocinadores do que nos resta de humanidade.</p>
<p>O ocidente pré-moderno via o arco ascendente da existência como desenhado exclusivamente por Deus: era a divindade que víamos nos conduzindo gradualmente de um presente incerto a um futuro de segurança. A condução divina era nossa narrativa sustentadora.</p>
<p>Na era moderna, Deus foi grosso modo substituído pela razão. Passamos a crer que a razão (equipada por todos os seus periféricos ideológicos: a ciência, a autonomia, a liberdade, a democracia, o materialismo, a privatização da produção e da vida social, o otimismo humanista, o capitalismo liberal) é quem nos guiaria de um presente incerto para um futuro de segurança. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.</span>Nossa narrativa orientadora passou a ser arco ascendente do progresso conduzido pela mente racional.</p>
<p>Parte fundamental da estrutura de um mito (como tentei indicar acima na expressão &#8220;arco ascendente&#8221; e em verbos como &#8220;conduzir&#8221; e &#8220;guiar&#8221;) é o seu componente geográfico. Em cada mito está embutida uma promessa de <em>deslocamento</em>, a promessa de que seremos através da eficácia do próprio mito transferidos de um lugar para outro &#8211; em particular, do lugar em que estamos para um lugar melhor.</p>
<p>Independentemente do mito/narrativa que nos conduz, estamos todos antevendo e ansiando por esse &#8220;lugar melhor&#8221; de tranquilidade e abundância ao qual cremos que o mito pode nos levar. Esse destino já foi, para um punhado de hebreus sem-terra, o fulgor da Terra Prometida, que manava leite e mel. Para milhões de mulheres, escravos, párias e marginalizados de todos os impérios, foi o Paraíso em que reinariam a paz e a justiça que não encontraram na experiência terrena. Para a Europa cristã saturada, exaurida, injusta e infértil da segunda metade do milênio passado, a Terra Prometida foram as Américas, destino de impensável abundância e de irrestrita liberdade. Para os norte-americanos decepcionados com o convencionalismo, a rigidez social e o corporativismo das colônias do Atlântico, o &#8220;lugar melhor&#8221; foi o Oeste Selvagem, terra da oportunidade, da igualdade e do ouro<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-crepusculo-dos-deuses/#footnote_0_2663" id="identifier_0_2663" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Os exemplos se pode indefinidamente multiplicar: para nordestinos esmagados pela seca, o destino de esperan&ccedil;a foi o sul Brasil; para gente apertada pela falta de oportunidade no interior, &eacute; a cidade grande.">1</a></sup>. </p>
<p>Portanto cada época (e, num certo sentido, cada lugar) teve seu próprio &#8220;mito de migração redentora&#8221; subalterno ao seu mito principal. Vivemos todos debaixo da expectativa perpétua desse lugar de abundância e de realização, esse destino ao mesmo iminente e distante, onde poderemos finalmente ser quem somos e não teremos mais de viver debaixo das limitações e constrangimentos da vida que temos agora &#8211; isto é, aqui.</p>
<p>No século XX, ao mesmo tempo em que a tradição cristã perdia definitivamente para a ciência o primeiro lugar como mito orientador no ocidente, os homens terminavam de mapear o globo e ponderavam com terror crescente as consequências da limitação de sua circunferência. Havendo os destinos terrestres de abundância finalmente se esgotado, a humanidade esboçou um mito de migração redentora que se adequasse ao seu novo mito orientador, e criamos coletivamente a narrativa da colonização do espaço.</p>
<p>As profecias do novo mito, contendo suas promessas e advertências, passaram a ser registradas nos livros de ficção científica, que são um ramo contemporâneo da milenar literatura apocalíptica. No Apocalipse de João a salvação dos homens está na cidade celeste que desce do céu à terra; na ficção científica a salvação da terra está nos homens que sobem ao céu para edificar as cidades celestes.</p>
<p>A ficção científica prometeu que colonizaríamos os planetas, que viveríamos em estações orbitais sustentáveis, que exploraríamos galáxias e pisaríamos sistemas planetários repletos de riquezas que a imaginação não pode conceber. Ensinou-os que descobriríamos no espaço novas formas de vida, novas fontes de energia e recursos, para todos os efeitos, inesgotáveis. Doutrinou-os com a ideia que a exploração espacial representaria uma retomada muitas vezes multiplicada do espírito da Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, e que recuperaríamos nela nossa vocação de plantar colônias e esbarrar em novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.</p>
<p>O espaço tornou-se o nosso destino redentor, &#8220;a fronteira final&#8221; que prometia e possibilitava a grande futura migração &#8211; a mágica transferência para um domínio que representaria a solução de todos os problemas energéticos, populacionais e culturais que caracterizam a condição circular do nosso planeta.</p>
<p>A ideologia da exploração espacial ao mesmo tempo justificou a exploração dos recursos da Terra e a requereu. Se não tomamos medidas para conter a superpopulação foi porque a ficção científica implantou no inconsciente coletivo a noção de que no futuro estaríamos colonizando o espaço sem fim. Se não tomamos medidas para conter a radical espoliação dos recursos da terra foi porque a literatura apocalíptica<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer.</span> da exploração espacial prometeu que em breve teríamos acesso aos recursos inesgotáveis e sem precedentes das estrelas e dos planetas<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-crepusculo-dos-deuses/#footnote_1_2663" id="identifier_1_2663" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Ou seja, nada mudou muito desde que a tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde; ensinou que pod&iacute;amos violentar esta terra sem qualquer escr&uacute;pulo porque em breve Deus nos daria outra.">2</a></sup>. </p>
<p>Porém nas últimas décadas temos testemunhado o que pode ser uma interrupção radical de toda essa narrativa, e o recente encerramento do projeto do ônibus espacial é apenas o símbolo mais recente dessa quebra de continuidade. A exploração espacial como a sonhamos talvez não seja impossível, mas o sonho tem perdido em golpes implacáveis da realidade o seu poder de factibilidade e de oportunidade, e portanto sua força de mito redentor.</p>
<p>Tudo que diz respeito à colonização do espaço tem se mostrado mais complexo e cheio de obstáculos do que costumávamos prever. Colocamos o pé na lua meia dúzia de vezes &#8211; custou caro e ensinou-nos muito em todas as áreas, mas foi só. Nenhum pé humano pisou o solo do mais próximo dos planetas do nosso próprio sistema, e não há qualquer perspectiva de que essa visita possa materializar-se nas próximas décadas. Se não temos como sequer antecipar ou arrebanhar a tecnologia e os recursos necessários para a mais simples das viagens interplanetárias, o sonho da colonização do nosso próprio sistema permanece distante ao ponto do irreal &#8211; quanto mais o de uma viagem a outro sistema planetário, quanto mais o de uma realidade em que esse tipo de viagem se torne coisa comum, factível e de retorno garantido.</p>
<p>Em particular, os cientistas intuem com cada vez mais clareza que a exploração dos recursos do espaço talvez requeira mais recursos do que a Terra tem de sobra para oferecer. Se, apesar das dificuldades, conseguirmos acesso aos recursos de outros destinos planetários, será com toda probabilidade tarde demais &#8211; tarde demais, isto é, para resolver os problemas que nos apertam na nossa presente experiência no planeta. </p>
<p>Os cientistas esperavam, pelo menos tanto quanto os cristãos, que a salvação viesse do céu, mas estamos todos aprendendo juntos a perder essa fé<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/o-crepusculo-dos-deuses/#footnote_2_2663" id="identifier_2_2663" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Essa quebra de paradigma tem se refletido na pr&oacute;pria fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. O seu mito de migra&ccedil;&atilde;o redentora permanece mais ou menos inalterado, mas com cada vez menos frequ&ecirc;ncia chegamos a esse novo destino atrav&eacute;s de foguetes, tecnologia convencional ou iniciativa humana. Da&iacute; a crescente import&acirc;ncia, na literatura de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica mais recente, de abismos negros, portais, wormholes e fendas no tecido espa&ccedil;o-tempo &amp;#8211; solu&ccedil;&otilde;es ou atalhos que aproximam-se, em esp&iacute;rito e em execu&ccedil;&atilde;o, do arrebatamento dos santos e da transi&ccedil;&atilde;o ao c&eacute;u prometidos pela tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;. Exemplos: a saga Stargate e as s&eacute;ries Primeval, Torchwood e Terra Nova.">3</a></sup>. Perdemos nosso mito subalterno de migração redentora, e hoje em dia contribuímos para o naufrágio planetário sem contar sequer com a ilusão de um plano de fuga. </p>
<p>Talvez não seja cedo para concluir que o nosso primeiro planeta será também o nosso último. Talvez não seja cedo para celebrar que o universo pode estar para sempre a salvo de nós.</p>
<p align="center">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug073.gif"></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2663" class="footnote">Os exemplos se pode indefinidamente multiplicar: para nordestinos esmagados pela seca, o destino de esperança foi o sul Brasil; para gente apertada pela falta de oportunidade no interior, é a cidade grande.</li><li id="footnote_1_2663" class="footnote">Ou seja, nada mudou muito desde que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/a-longa-rixa-da-misericordia-com-as-ordens-da-criacao/#planeta">a tradição cristã ensinou</a> que podíamos violentar esta terra sem qualquer escrúpulo porque em breve Deus nos daria outra.</li><li id="footnote_2_2663" class="footnote">Essa quebra de paradigma tem se refletido na própria ficção científica. O seu mito de migração redentora permanece mais ou menos inalterado, mas com cada vez menos frequência chegamos a esse novo destino através de foguetes, tecnologia convencional ou iniciativa humana. Daí a crescente importância, na literatura de ficção científica mais recente, de abismos negros, portais, <em>wormholes </em>e fendas no tecido espaço-tempo &#8211; soluções ou atalhos que aproximam-se, em espírito e em execução, do arrebatamento dos santos e da transição ao céu prometidos pela tradição cristã. Exemplos: a saga <em>Stargate </em>e as séries <em>Primeval</em>, <em>Torchwood </em>e <em>Terra Nova.</em></li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Inseridas e entrelaçadas</title>
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		<pubDate>Tue, 10 May 2011 14:49:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[mito]]></category>
		<category><![CDATA[teologia narrativa]]></category>

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		<description><![CDATA[Ora, qual pessoa provida de entendimento irá considerar admissível a declaração de que o primeiro, o segundo e o terceiro dia, nos quais são mencionados tanto tarde quanto manhã, tenham existido sem sol, lua e estrelas &#8211; o primeiro dia até mesmo sem um céu? E quem se mostrará ignorante o bastante para supor que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ora, qual pessoa provida de entendimento irá considerar admissível a declaração de que o primeiro, o segundo e o terceiro dia, nos quais são mencionados tanto tarde quanto manhã, tenham existido sem sol, lua e estrelas &#8211; o primeiro dia até mesmo sem um céu? E quem se mostrará ignorante o bastante para supor que Deus, como se fosse um lavrador, tenha plantado árvores no paraíso, no Éden no leste, e nela uma árvore da vida &#8211; isto é, uma árvore de madeira visível e palpável, da qual quem comesse com dentes físicos obteria vida, e se comesse também da outra árvore, adquiriria o conhecimento do bem e do mal? Não creio que alguém duvidará de que a declaração de que Deus caminhava ao entardecer no paraíso, e que Adão tenha se escondido debaixo de uma árvore, estejam narrados figurativamente na Escritura, e que algum significado místico esteja sendo indicado por ela. O afastamento de Caim da presença do Senhor irá manifestamente levar o leitor atento a ponderar sobre o que é a presença de Deus, e de que forma alguém pode afastar-se dela. Porém, sem estendermo-nos além dos devidos limites na tarefa que temos diante de nós, será muito fácil, para quem quiser, distinguir na Escritura sagrada aquilo que está registrado como tendo de fato acontecido, mas que no entanto não se pode crer tenha ocorrido de modo racional e concebível da forma como foi historicamente narrado.</p>
<p>O mesmo estilo de narrativa escritural ocorre abundantemente nos evangelhos, como quando se diz que o diabo levou Jesus a uma montanha muito alta, a fim de mostrar-lhe dali todos os reinos do mundo e a glória deles. Como poderia ter literalmente acontecido, quer que Jesus se deixasse levar pelo diabo a uma montanha muito alta, quer que o diabo pudesse mostrar a ele todos os reinos do mundo (como se jazessem todos debaixo de seus olhos mortais, e adjacentes à montanha), isto é, os reinos dos persas, dos citas e dos hindus? Como poderia ter-lhe mostrado os modos pelos quais os reis desses reinos recebem glória dos homens? E tantas outras instâncias similares a esta se podem encontrar nos evangelhos por qualquer um disposto a lê-los com atenção, que notará que nas narrativas que parecem ter sido ser literalmente registradas estão inseridas e entrelaçadas coisas que não podem ser admitidas historicamente, mas podem ser aceitas num sentido espiritual.</p>
<p align="right"><small><strong>Orígenes de Alexandria</strong> (185-254 d.C.), em <em>De Prinicipiis</em> (<a href="http://www.newadvent.org/fathers/04124.htm">livro IV</a>)</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug049.gif"></p>
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		<title>A saracura cibernética</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 12:13:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Folheando algumas fotos digitais que tirei de uma saracura que vem tomar banho junto à minha janela (outra foto aqui), encontrei o que pode ser um daqueles pequenos deslizes temporários da matrix. Nesta foto em que a asa aparece estendida, a extremidade revela o cabo motor, a curva metálica e o minúsculo rebite do que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Folheando algumas fotos digitais que tirei de uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Saracura">saracura</a> que vem tomar banho junto à minha janela (outra foto <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6560027">aqui</a>), encontrei o que pode ser um daqueles pequenos deslizes temporários da <em>matrix</em>. Nesta foto em que a asa aparece estendida, a extremidade revela o cabo motor, a curva metálica e o minúsculo rebite do que é muito claramente uma pena biônica, de uma estética com influência <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Steampunk">steampunk</a>.</p>
<p>Veja a foto em tamanho grande <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6606012/original">aqui</a>, e um detalhe abaixo.</p>
<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6606012"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/6606012_72457ee775008073622aa609678abfc0_standard.jpg" height="306" width="460" /><br />
</a></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2011/cyber-saracura.jpg" alt="" /></p>
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		<title>A minha porção é o Senhor</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 08:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Um estudo realizado por um professor da Universidade de Cornell e seu irmão, pastor presbiteriano, mostrou que o tamanho das porções e dos pratos representados nos quadros da Última Ceia têm aumentado sensivelmente no decorrer do último milênio. As descobertas sugerem que o fênomeno de servirem-se porções maiores em pratos maiores, O tamanho do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center">
<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/super-supper.jpg" alt="Super Supper" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um estudo realizado por um professor da Universidade de Cornell e seu irmão, pastor presbiteriano, mostrou que o tamanho das porções e dos pratos representados nos quadros da Última Ceia têm aumentado sensivelmente no decorrer do último milênio.</p>
<p>As descobertas sugerem que o fênomeno de servirem-se porções maiores em pratos maiores, <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O tamanho do prato principal cresceu 69%.</span>que leva as pessoas a comerem mais do que deveriam, tem se acentuado gradualmente no mesmo período,</p>
<p>Os pesquisadores analisaram 52 pinturas da Última Ceia, e descobriram que nos últimos mil anos o tamanho do prato principal cresceu progressivamente 69 por cento; o tamanho dos pratos em si cresceu 66 por cento, e o tamanho do pão cerca de 23 por cento.</p>
<h5>* * *</h5>
<p><small>Fonte: <a href="http://www.reuters.com/article/idUSTRE62M35U20100323">Reuters</a></small></p>
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		<title>Hitler teve ajuda</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jun 2009 09:20:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[judaísmo]]></category>
		<category><![CDATA[nazismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Adolf Hitler foi completamente responsável pelo Holocausto. Mas Hitler teve ajuda. Henry Ford e os Protocolos dos Sábios de Sião Quem forneceu a Hitler a base inicial a fim de trasmutar séculos de ódio religioso no novo antisemitismo político do século vinte? Foi Henry Ford, agindo diretamente através da Ford Motor Company. Em 1920 o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Adolf  Hitler foi completamente responsável pelo Holocausto. Mas Hitler teve ajuda.</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/rockefeller-center-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/bits/rockefeller-center.jpg" title="Rockefeller Center | Clique para ampliar" /></a></p>
<p><strong>Henry Ford e os Protocolos dos Sábios de Sião</strong></p>
<p>Quem forneceu a Hitler a base inicial a fim de trasmutar séculos de ódio religioso no novo antisemitismo político do século vinte? Foi Henry Ford, agindo diretamente através da <em>Ford Motor Company</em>. Em 1920 o crédulo porém arrebatado Ford adquiriu um texto datilografado forjado, que convenceu-o da existência de uma conspiração judaica maléfica e internacional, determinada a subjugar o mundo pela manipulação indireta de governos, jornais e sistemas econômicos. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">&#8220;Tenho Henry Ford como minha inspiração.&#8221;<br /></br>Adolf Hitler</span>Essas revelações constavam do notório &#8211; e inteiramente falso &#8211; <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Protocolos_dos_S%C3%A1bios_de_Si%C3%A3o">Os Protocolos dos Sábios de Sião</a>.</p>
<p>A fim de abastecer o mundo com essa nova modalidade de ódio aos judeus, Ford comprou um jornal falido, o <em>Dearborn Independent</em>, que serializou <em>Os Protocolos</em> por 91 semanas. Sua empresa em seguida publicou a série sob a forma de livro, com o título <em>O Judeu Internacional</em> (<em>The International Jew</em>). Usando as técnicas de produção de massa, Ford pode expandir o alcance dos <em>Protocolos</em>, transformando-o de panfleto insignificante circulado entre uns poucos numa sensação nacional com tiragem de 500.000 exemplares. Ao devotar a força nacional de vendas e os ativos da <em>Ford Motor Company</em> à tarefa da hostilidade, Henry Ford foi o primeiro a organizar o antisemitismo político nos Estados Unidos. Acabou tornando-se, na verdade, herói dos antisemitas do mundo inteiro.</p>
<p>Na Alemanha, onde Ford era venerado, <em>O Judeu Internacional</em> foi traduzido e publicado em fevereiro de 1921. O livro conheceu seis edições em dois anos, com milhares de exemplares impressos. O livro de Ford tornou-se rapidamente a bíblia dos antisemitas alemães e das primeiras encarnações do partido nazista. Os nazistas distribuíam a obra país afora &#8220;aos borbotões&#8221;.</p>
<p>Entre os alemães que foram profundamente influenciados pelo livro estava Adolf Hitler. O Führer leu a obra pelo menos dois anos antes de escrever o <em>Mein Kampf</em>. E deixa claro que leu. No capítulo 11 do<em> Mein Kampf</em> Hitler escreveu: &#8220;Toda a existência deste povo é baseada numa mentira contínua, como demonstrado incomparavelmente pelos <em>Protocolos dos Sábios de Sião</em>. Com segurança absolutamente aterrorizadora, esses documentos revelam a natureza e a atividade do povo judeu, bem como seus objetivos últimos&#8221;. Hitler descreveu Ford como &#8220;seu herói&#8221;. Não é de admirar que Ford tenha recebido a Medalha da Águia Alemã de Hitler, numa suntuosa cerimônia em Berlim. A medalha era reservada para estrangeiros que prestavam serviços especialmente valiosos ao Reich.</p>
<p><strong>O Instituto Carnegie e a ciência americana do melhoramento genético</strong></p>
<p>Quem forneceu a Hitler as argumentações médicas pseudocientíficas que justificaram uma guerra a fim de gerar uma raça superior loira e de olhos azuis com o dever de obliterar as demais raças, tidas como inferiores? Foi o Instituto Carnegie (a encarnação filantrópica da maior fortuna de aço dos Estados Unidos), que propagou a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Nazismo_e_ra%C3%A7a">eugenia</a>, a letal ciência racial americana. A partir de 1911 os cientistas do Instituto Carnegie passaram a defender com sucesso a noção de que os milhões ao redor do mundo que não se conformavam ao estereótipo nórdico do loiro de olhos azuis não eram dignos de existir sobre a terra.</p>
<p>A ciência norte-americana da eugenia acreditava que traços sociais como a pobreza, a prostituição e a preguiça eram determinados geneticamente. A permanência de linhagens racialmente inferiores &#8211; uma faixa ampla, que abrangia 90 por cento da humanidade &#8211; devia ser combatida através de vários métodos. Esses métodos incluíam meticulosa identificação, apreensão de bens, proibição ou anulação de casamento, esterilização cirúrgica forçada, segregação em campos e câmaras de gás operadas pelo governo. Numerosas propostas de melhoramento genético foram promulgadas sob a forma de lei em 27 estados americanos. Em última análise, 60.000 pessoas foram esterilizadas a força, milhares foram encarceradas em campos estatais e inúmeras tiveram suas uniões civis anuladas, sendo, em alguns casos, sujeitas a negligência médica organizada e letal. O juiz Oliver Wendell Holmes, da Suprema Corte norte-americana, conferiu a essas práticas o status de lei legítima do país, declarando justificados atos dessa natureza. &#8220;Será melhor para todo o mundo&#8221;, escreveu Holmes, &#8220;se ao invés de esperar para executar uma prole degenerada pelos seus crimes, ou deixar que morram de fome por sua imbecilidade, a sociedade passe a impedir os que são manifestamente incapazes de darem continuidade à sua linhagem&#8221;.</p>
<p>O Instituto Carnegie e o movimento patrocinado por ele gastou milhões de dólares na tarefa de propagar as teorias americanas de melhoramento genético na Alemanha de pós-Primeira-Guerra, financiando programas de ciência racial em universidades e outras instituições oficiais. Essas teorias incluiam a idéia de que os judeus deviam ser eliminados.</p>
<p>Enquanto estava na prisão Hitler estudou com atenção a eugenia norte-americana. No <em>Mein Kampf</em> ele insistiria: &#8220;Existe hoje em dia um único Estado em que são detetáveis iniciativas hesitantes no sentido de uma concepção de qualidade superior. Esse Estado não é, obviamente, nossa modelar República Alemã, mas os Estados Unidos.&#8221; Hitler diria com orgulho a seus camaradas: &#8220;Tenho estudado com grande interesse as leis de diversos estados norte-americanos com respeito à prevenção da reprodução de gente cuja prole se mostraria, com toda a probabilidade, de pouco valor ou mesmo prejudicial à qualidade da raça&#8221;. Hitler teve apenas de substituir o termo norte-americano &#8220;nórdico&#8221; pelo termo nazista &#8220;ariano&#8221;, medicalizando em seguida seu antisemitismo virulento e pré-existente e seu fascismo nacionalista, a fim de formular o conceito da raça superior de cabelos loiros e olhos azuis glorificada por ele no seu <em>Mein Kampf</em>.</p>
<p>Hitler estava de tal modo mergulhado na ciência racial norte-americana que escreveu uma carta de fã entusiasmado ao lider eugenista americano Madison Grant, chamando sua obra de &#8220;minha bíblia&#8221;.</p>
<p>O terceiro Reich implementou todos os princípios eugenistas norte-americanos com enormes ferocidade e velocidade, respaldado por um exército conquistador. &#8220;Enquanto estamos aqui pisando em ovos&#8221;, incensou Leon Whitney, secretário executivo da Sociedade Norte-Americana de Eugenia, &#8220;os alemães estão dando nome aos bois&#8221;. Conforme insistia Rudolf Hess, adjunto de Hitler, &#8220;o nazismo nada mais é do que biologia aplicada&#8221;.</p>
<p><strong>A Fundação Rockefeller e as experiências com gêmeos</strong></p>
<p>Quem forneceu aos odiosos experimentos médicos de eugenia de Hitler os recursos para cometer crimes atrozes contra gêmeos inocentes? Foi a Fundação Rockefeller, a encarnação filantrópica da <em>Standard Oil</em>. A Fundação agiu como parceira integral do Instituto Carnegie no estabelecimento da eugenia na América e na Alemanha. Na busca do aperfeiçoamento da raça superior, milhões de dólares da era da Depressão foram transferidos por Rockfeller para os médicos mais antisemitas de Hitler. Nessa busca, uma espécie de cobaia era desejada acima de todas as outras: irmãos gêmeos.</p>
<p>Rockefeller patrocinou o principal eugenista de Hitler, Otmar Verschuer, e seus insaciáveis programas de experimentação em irmãos gêmeos. Acreditava-se que os gêmeos traziam em si o segredo da multiplicação industrial do arquétipo racial ariano e da rápida eliminação dos biologicamente indesejáveis. Verschuer tinha um assistente, Josef Mengele. O patrocínio de Rockefeller cessou durante a Segunda Guerra, mas àquela altura Mengele já havia se transferido para Auschwitz a fim de dar continuidade de forma monstruosa à sua pesquisa com gêmeos. Sempre o métodico eugenista, Mengele continuou mandando semanalmente minuciosos relatórios clínicos para Verschuer.</p>
<p><strong>A <em>General Motors</em> e a Blitzkrieg</strong></p>
<p>Quem tirou Hitler de cima de cavalos e colocou seus exércitos letais em caminhões de modo a travar sua <em>Blitzkrieg </em>&#8211; guerra relâmpago &#8211; contra a Europa? Foi a <em>General Motors</em>, que fabricou o <a href="http://www.battlegroupsouth.com/vehicles4.html">caminhão Blitz</a> para a <em>Blitzkrieg</em>. Na qualidade de maior fornecedora de carros e caminhões para o Reich, a GM tornou-se parceira indispensável da guerra de Hitler. Desde as primeiras semanas do Terceiro Reich o presidente da GM, Alfred Sloan, dedicou sua companhia e sua divisão alemã, a Opel, a motorizar uma Alemanha que ainda dependia substancialmente da tração animal, preparando-a dessa forma para a guerra. Antes disso a Alemanha tinha sido um país devotado a uma legendária engenharia automotiva, mas tratavam-se de carros construídos um a um, artesanalmente. A GM trouxe a produção de massa até o Reicch, convertendo-a de país puxado a cavalo a potência motorizada.</p>
<p>Sloan e a GM conscientemente prepararam a <em>Wehrmacht</em> para travar a guerra na Europa. Detroit chegou a tranferir volumosos estoques de peças de substituição dos veículos Blitz para a fronteira da Polônia na semana que antecedeu a invasão de 1º de setembro de 1939, de modo a facilitar a <em>Blitzkrieg</em>.</p>
<p>Fazendo uso de uma camada dissimulatória de reuniões a portas fechadas e comitês executivos especiais, Sloan manteve o papel da GM em segredo o quanto foi possível. Quando a Opel precisava de peças ou moeda estrangeira, Detroit mandava que outras subsidiárias internacionais prestassem socorro de forma clandestina.</p>
<p>Além de motorizar a força militar, Sloan encetou programas maciços de re-emprego, a fim de ajudar a reviver a economia nazista &#8211; isso enquanto a companhia recusava-se a recontratar americanos atingidos pela devastação da Depressão. O sucesso da GM gerou diretamente a necessidade da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Autobahn">Autobahn</a>. O executivo chefe da GM na Alemanha, James Mooney, recebeu a mesma medalha de Ford, por serviços prestados ao Reich.</p>
<p><strong>A IBM e a solução final</strong></p>
<p>Quem projetou sob medida e planejou em conjunto as soluções nazistas para o problema dos judeus? Foi a <em>International Business Machines</em>, inventora do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hollerith">cartão perfurado Hollerith</a>, precursor do computador contemporâneo. A IBM desfrutava na época de completo monopólio sobre tecnologia de informação. Sob a microgerência de seu presidente, Thomas Watson, e anunciando-se como &#8220;uma empresa de soluções&#8221;, em 1933 a IBM alcançou o novo regime de Hitler, oferecendo-se para organizar e sistematizar qualquer solução que o Reich desejasse, inclusive soluções para o problema dos judeus.</p>
<p>Com a parceria da IBM o regime de Hitler consegiu automatizar e acelerar substancialmente todas as fases do Holocausto de doze anos: identificação, exclusão, confisco, guetoização, deportação e até mesmo o extermínio.</p>
<p>Como fazia com qualquer cliente, a IBM simplesmente perguntou ao regime de Hitler qual era o resultado desejado. Em seguida os engenheiros da companhia projetaram sob medida os sistemas de cartões perfurados que gerassem esses resultados. Em primeiro lugar, determinar quem era judeu e onde os judeus moravam &#8211; isso com exatidão. A solução da IBM: um censo racial e religioso projetado e tabulado pela companhia. Em segundo lugar, uma vez identificados, a expulsão sistemática dos judeus de todos os segmentos da sociedade. A solução da IBM: a criação de bases de dados que tabulavam e cruzavam as informações de toda sorte de organizações e comunidades, de relações de membros a listas de casamentos, mortes e nascimentos.</p>
<p>Em terceiro lugar, o confisco dos bens dos judeus. A solução da IBM: todos os bancos e instituições financeiras faziam uso dos cartões da IBM, que podiam ser programados para procurar nomes de judeus e suas contas bancárias para confisco. Quarto, a guetoização dos judeus. A solução da IBM: tranferir de modo cruzado quadros inteiros de famílias de suas residências atuais para para cortiços abarrotados, de modo que num único dia milhares de pessoas pudessem ser deslocadas do ponto A para o ponto B. Quinto, a deportação dos judeus. A solução da IBM: a maior parte das estradas de ferro européias tinha suas rotas determinadas pelos cartões perfurados da IBM. Estações especiais deveriam ser criadas, de modo a garantir que trens com vagões de gado pudessem ser disponibilizados para transportar judeus para os campos. Quando entravam, esses trens estavam abarrotados de pessoas impotentes. Quando saíam, estavam vazios.</p>
<p>Sexto: os judeus deveriam ser mortos de forma industrial e sistemática. Primeira solução da IBM: estabelecer diferentes códigos para a classificação de cada categoria de prisioneiros em campos de concentração. O <em>Código de Prisioneiro</em> 8 designava um judeu. O <em>Código de Status</em> 6 designava morte pela câmara de gás. Desse modo, o Reich sabia sempre quantos judeus estava matando. Nos campos de extermínio, quase todos os judeus eram mortos na chegada &#8211; pela cordenação de um sistema desenhado pela IBM, que regulava em sincronia letal a saída das vítimas dos guetos e sua viagem de trem até os campos de morte. Segunda solução da IBM: criar o programa de &#8220;extermínio por exaustão&#8221; através de programas de cartão perfurado que faziam a correspondência entre as necessidades de trabalho do Reich, onde quer que surgissem, e as habilidades dos prisioneiros judeus. Uma vez transferidos para o local de trabalho, os judeus trabalhavam até morrer.</p>
<p>Havia uma central de atendimento ao consumidor IBM em cada campo de concentração.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Não fosse o continuado e consciente envolvimento de icônicas corporações norte-americanas na guerra de Hitler contra os judeus, a velocidade, o formato e as estatísticas do Holocausto como o conhecemos teriam sido dramaticamente diferentes. Ninguém sabe dizer quão diferentes seriam, mas as dimensões astronômicas nunca teriam sido atingidas. Em sua maior parte, os colaboradores corporativos de Hitler nos Estados Unidos vêm tentando há muito tempo obscurecer ou ocultar os detalhes de sua conivência, fazendo uso das consagradas ferramentas de desinformação corporativa, contribuições financeiras e análises críticas compradas e pagas a historiadores. Porém, numa era em que as pessoas deixaram de acreditar nas grandes corporações, os pontos podem ser finalmente ligados, de modo a desvendar o perfil de uma indispensável conexão nazista.</p>
<p align="right"><small>Edwin Black, autor de <strong>A IBM e o Holocausto</strong>, em resumo do seu <a href="http://www.nazinexus.com">A Conexão Nazista</a> </small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug046.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/somos-mais-sofisticados">Somos mais sofisticados</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O livro dos mártires</title>
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		<pubDate>Mon, 19 May 2008 09:58:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da fisiologia humoral conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/sangria-b.png"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/sangria.gif" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3crates">fisiologia humoral</a> conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno.  Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia em estabelecer qual desses humores encontrava-se em desacordo, e a terapia em tomar-se passos a fim de restaurar o equilíbrio, quer por sangria (por secção da veia, escarificação ou <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sangria_(medicina)">aplicação de sanguessugas</a>) ou sujeitando o paciente a uma série de limpezas intestinais e purgantes. O médico seguia dessa forma uma deprimente rotina de sangrias e purgações, juntamente com a prescrição de emplastros, ungüentos e poções. A urina do paciente era tida como o melhor indicador da sua condição, e havia profissionais que criam que bastava ver a urina sem ver o paciente.</p>
<h5>Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos.</h5>
<p>Não havia raios-X nem estetoscópios, e os médicos normalmente ignoravam por completo o que se passava no corpo da pessoa enferma. Havia cirurgiões especializados em tumores, úlceras, fraturas e doenças venéreas, mas sua arte era considerada inferior pela classe médica. Além disso, sem anestésicos e sem o conhecimento de antissépticos, havia pouco que esses pudessem fazer. As cirurgias eram em grande parte limitadas a amputações, trepanações do crânio, remoção aberta de pedras urinárias, reposicionamente de ossos e incisão de abcessos. Compreensivelmente, os pacientes viam com terror a perspectiva desse tipo de tortura, e a taxa de mortalidade depois dessas operações era elevada. O <em>Severall Chirurgicall Treatises</em> (1676) de Richard Wiseman era conhecido popularmente como &#8220;O Livro dos Mártires de Wiseman&#8221;.</p>
<p>Mesmo entre a nobreza, cujas chances eram provavelmente maiores do que as de qualquer outra classe, a expectativa de vida para meninos nascidos no terceiro quarto do século dezessete era de 29,6 anos (hoje seria ao redor de 70). Um terço dessas crianças da aristocracia morria antes de atingir os cinco anos de idade, sendo que o nível de mortalidade dos que chegavam à idade adulta lembrava de perto o da Índia na última década do século dezenove. O primeiro demógrafo inglês, John Graunt, estimava em 1662 que a cada cem crianças nascidas em Londres, trinta e seis morriam nos seus primeiros seis anos, e mais vinte e quatro nos dez anos seguintes.</p>
<p>Quanto a hospitais, o St. Bartholomew e o St. Thomas eram os dois únicos disponíveis para os fisicamente enfermos em Londres no final do século dezessete, e havia pouquíssimos em outros lugares. E eram de qualquer modo direcionados primariamente para os pobres. Nenhuma pessoa com alguma pretensão social sonharia em colocar o pé num hospital como paciente, e se o fizesse estaria certamente aumentando suas chances de contrair alguma infecção fatal.</p>
<p>Certas formas de doença mental eram consideradas casos de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Melancolia">melancolia</a> a serem tratados com purgações e sangrias, ou erroneamente diagnosticadas como &#8220;histeria&#8221; ocasionada por uma determinada condição do útero. A noção da origem uterina de doenças nervosas não foi desafiada com sucesso na Inglaterra até fins do século dezessete, quando Thomas Willis formulou a teoria da origem cerebral da histeria, tornando-se pioneiro da ciência da neurologia.</p>
<p>Na Inglaterra daqueles séculos as pessoas estavam inteiramente habituadas à doença e à baixa expectativa de vida. Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos, sabendo muito bem que podiam perdê-los ainda na infância. Maridos e esposas viviam bem ajustados à idéia de que o cônjuge que sobrevivesse poderia se casar depois da morte do outro. A atitude dos pobres diante de sua sorte parece ter sido freqüentemente de distanciado estoicismo. Ao contrário dos habitantes dos países subdesenvolvidos nos nossos dias, eles não conheciam países estrangeiros em que o padrão de vida fosse consideravelmente mais elevado. Ao invés de lutarem por reforma social, os pobres com freqüência recorriam a métodos mais diretos de liberação.</p>
<p>A cerveja era ingrediente fundamental da dieta de todos, tanto de crianças quanto adultos [. . .]</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2008/bits/sangria2.gif"></p>
<p align="right"><small><strong>Keith Thomas</strong>, Religion and the Decline of Magic (1971)</small></p>
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		<title>De como as avós inventaram a civilização</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Dec 2007 10:30:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[A linguagem, a confecção de ferramentas e uma sofisticada capacidade cognitiva são características que distinguem os seres humanos de seus ancestrais primatas, porém é possível que nenhum desses traços teria evoluído não fosse o desenvolvimento de outro traço peculiar à raça humana: a menopausa. De acordo com Lawrence Shaw, diretor do Centro de Fertilidade, Ginecologia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A linguagem, a confecção de ferramentas e uma sofisticada capacidade cognitiva são características que distinguem os seres humanos de seus ancestrais primatas, porém é possível que nenhum desses traços teria evoluído não fosse o desenvolvimento de outro traço peculiar à raça humana: a menopausa.</p>
<p>De acordo com Lawrence Shaw, diretor do Centro de Fertilidade, Ginecologia e Genética London Bridge, a menopausa gerou as avós, e avós implicam em cuidado diário e nutrição extra para os exigentes bebês humanos.</p>
<p>O declínio na fertilidade, argumenta Shaw, é a verdadeira vantagem evolucionária da menopausa. Em sociedades primitivas, mulheres que não são mais capazes de ter filhos têm mais tempo para servirem de babá e saírem em busca de comida. </p>
<p>&#8220;A avó investe na segunda geração de sua própria linhagem. Nenhum outro primata, e certamente nenhum primata superior, demonstra essa consistência&#8221;.</p>
<p>Todos os outros primatas sofrem o que se chama dispêndio somático: são capazes de se reproduzirem até morrerem.</p>
<p align="right"><small><strong>Lydia Fong</strong>, <a href="http://www.seedmagazine.com/news/2006/07/why_do_grandmas_exist.php">Why Do Grandmas Exist?</a></small></p>
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		<title>Pra que servem os homens</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Aug 2007 09:06:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Homens e Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma pesquisa recente compilou dados sobre os estereótipos que as pessoas desenvolvem a respeito de homens e mulheres, revelando&#160;uma tendência&#160;que recebeu o nome de efeito MSM (&#8220;Mulheres São Maravilhosas&#8221;):&#160;tanto homens quanto mulheres tem uma visão mais favorável a respeito das mulheres do que a respeito dos homens. Quase todo mundo gosta mais de mulheres do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/superficiais-b.jpg" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/superficiais.png"></a> </p>
<p>Uma pesquisa recente compilou dados sobre os estereótipos que as pessoas desenvolvem a respeito de homens e mulheres, revelando&nbsp;uma tendência&nbsp;que recebeu o nome de efeito MSM (&#8220;Mulheres São Maravilhosas&#8221;):&nbsp;tanto homens quanto mulheres tem uma visão mais favorável a respeito das mulheres do que a respeito dos homens. <strong>Quase todo mundo gosta mais de mulheres do que de homens.</strong> Eu sem dúvida sou um desses.</p>
<p>Porém, ao invés de ver a cultura como um patriarcado, isto é, uma conspiração de homens para explorar as mulheres, creio que é mais acurado dizer que uma cultura (por exemplo, um país ou uma religião) é um sistema abstrato que compete contra sistemas rivais – usando tanto homens quanto mulheres para avançar a sua causa.</p>
<p>Quando digo que estou pesquisando sobre as formas como a cultura explora os homens, a primeira reação das pessoas é dizer: &#8220;Como você pode dizer que a cultura explora os homens, se os homens estão no controle de tudo? A maior parte dos governantes mundiais e executivos de corporações são homens.&#8221; O erro desse modo de pensar é que ele olha apenas para o topo. Se olharmos para a porção inferior da sociedade, veremos que ali também há mais homens do que mulheres. Quem está nas prisões do mundo, seja como criminosos ou prisioneiros políticos? Quem são os sem-teto? Quem a sociedade usa para desempenhar atividades insalubres ou perigosas? Quem é morto nas guerras? Basicamente, homens.</p>
<p>A maior parte das culturas tende a usar homens ao invés de mulheres <strong>para tarefas de alto risco e elevado retorno</strong>, e quero apresentar razões práticas para que seja assim. A maior parte das culturas protege as mulheres do risco, e por isso não concede a elas grandes recompensas. Não estou dizendo que seja eticamente certo agir assim, mas culturas não são entidades éticas; fazem o que fazem a fim de competir com outros sistemas e outros grupos.</p>
<h5>Descendemos de mulheres que não se arriscaram e de homens que assumiram riscos.</h5>
<p>Levantou-se uma grande controvérsia quando Larry Summers, na época presidente da universidade de Harvard, opinou que talvez não fosse o preconceito que levasse a haver menos mulheres do que homens em lugares de destaque no cenário científico; talvez, sugeriu ele, a razão fosse simplesmente o fato de haver mais homens inteligentes do que mulheres. Ele teve de pedir desculpas, de se retratar e finalmente de abandonar o cargo, porque hoje em dia a única explicação permitida para a falta de mulheres de destaque no campo da ciência é o patriarcado, a conspiração dos homens contra as mulheres, não a habilidade inata.</p>
<p>Na média os homens são precisamente tão inteligentes quanto as mulheres, mas não foi isso que Sander disse. Ele opinou que há mais homens inteligentes do que mulheres, o que não altera a média se ficar provado – como demonstram também as estatísticas&nbsp;– que há mais homens na porção inferior da escala, ou seja, <strong>há mais homens realmente estúpidos do que mulheres</strong>. Confirmam todas as evidências que o padrão de retardamento mental é o mesmo da genialidade: há mais homens do que mulheres nesses dois extremos, e creio que a razão para que seja assim é biológica e genética. A natureza arrisca mais com os homens do que com as mulheres, mesmo em coisas como altura. <b>Homens tendem aos extremos mais do que as mulheres. </b></p>
<p>Você quer pensar que os homens são melhores do que as mulheres? Olhe para o topo, para os heróis, os inventores, os filantropos. Quer pensar que as mulheres são melhores do que os homens? Olhe para baixo, para os criminosos, os drogados, os perdedores.&nbsp;
<p>As principais teorias sustentadas sobre a diferença entre os sexos são três: [1] os homens são melhores, [2] não existe diferença, e [3] as mulheres são melhores. Quero propor uma teoria alternativa: sustento que a seleção natural preserva diferenças inatas entre homens e mulheres desde que essas características se mostrem benéficas em circunstâncias diferentes ou para diferentes tarefas. Talvez homens e mulheres sejam diferentes, mas cada vantagem pode estar associada a uma desvantagem.
<p>Além disso, creio que <strong>as diferenças entre homens e mulheres digam mais respeito a motivação do que habilidade</strong>. Tavez as mulheres sejam capazes de fazer precisamente as mesmas coisas que os homens, mas simplesmente não tenham vontade. Homens e mulheres tem comprovadamente a mesma &#8220;habilidade&#8221; para o sexo, mas homens são mais obcecados por sexo do que mulheres. Da mesma forma, salários maiores vem para quem trabalha mais horas por semana, e a maior parte dos viciados em trabalho são homens. A criatividade talvez seja outro exemplo de diferença de motivação. Todos os estudos comprovam que mulheres são tão criativas quanto os homens, mas os grandes artistas e criadores são em geral do sexo masculino.</p>
<p>Quais são as diferenças de motivação entre homens e mulheres? Quero enfatizar duas.</p>
<p><strong><font color="#008000">Risco e retorno</font></strong></p>
<p>A primeira diferença diz respeito a uma questão que é raramente levada em conta: que percentagem de nossos ancestrais eram mulheres? Qual a percentagem de gente que já viveu e tem um descendente vivo hoje? A resposta não é 50%. Toda criança tem um pai e uma mãe, mas alguns pais têm mais de um filho.<br />Dois anos atrás uma pesquisa utilizando análise de DNA revelou que <strong>a população humana de hoje descende de duas vezes mais mulheres do que homens.</strong> Na história da humanidade cerca de 80% das mulheres, mas apenas 40% dos homens, se reproduziram. </p>
<p>Esse&nbsp;comportamento reprodutivo pode ser explicado pela teoria da evolução. Ao longo da história, as chances de reprodução para as mulheres mantiveram-se definitivamente boas. Por que foi tão raro que cem mulheres se reunissem e construíssem um navio e se lançassem ao mar para explorar regiões desconhecidas, enquanto para os homens foi razoalvemente comum realizarem coisas assim? O fato é que assumir riscos como esses seria estúpido da perspectiva de um organismo biológico buscando se reproduzir. Elas podiam se afogar, ser mortas por selvagens, ou pegar alguma doença. Para uma mulher, a coisa ótima a se fazer é ficar na sua, seguir com a corrente, não arriscar. As chances são boas de que apareçam homens dispostos a fazer sexo e você poderá ter filhos. O que importa é fazer a escolha correta. <strong>Descendemos de mulheres que não se arriscaram. </strong>
<p>Para os homens, as coisas foram sempre radicalmente diferentes. Se você seguir a corrente e não se arriscar, as chances são que você vai acabar não tendo filhos. A maior parte dos homens que já viveu não tem descendentes vivos hoje em dia. Por essa razão era necessário assumir riscos, tentar coisas novas, ser criativo, explorar novas possibilidades. Navegar para o desconhecido pode ser arriscado, mas se você ficar em casa não vai de qualquer modo se reproduzir. A maior parte de nós descende do tipo de homens que fez a viagem arriscada e voltou <strong>rico</strong>. Nesse caso ele teria uma chance de passar adiante os seus genes. <strong>Descendemos de homens que assumiram riscos </strong>(e tiveram sorte).
<p>Coisas como&nbsp;ambição, criatividade e&nbsp;obsessão por sexo provavelmente importavam mais para o sucesso masculino (medido em número de filhos) do que para a mulher.
<p>Quando olho ao redor para homens e mulheres, não tenho como escapar da impressão de que as mulheres são simplesmente mais agradáveis e amáveis do que os homens (isso explica o efeito MSM, mencionado antes). Os homens podem querer ser amáveis, e podem fazer com que mulheres os amem (portanto a habilidade está lá), mas homens tem outras prioridades, outras motivações. Para as mulheres, ser amável era a chave para atrair o melhor parceiro. Para os homens, no entanto, a questão era mais de superar outros homens para chegar a ter a chance de obter uma parceira.
<p><strong>Talvez a natureza tenha projetado as mulheres para buscarem serem amáveis, enquanto os homens foram projetados para correrem (na maioria das vezes sem sucesso) atrás da grandeza</strong>. Para os homens, valeu a pena. Estima-se que Genghis Khan, que assumiu grandes riscos e conquistou a maior parte do mundo conhecido, tenha tido mais de mil filhos. Mulher alguma, mesmo que tivesse conquistado o dobro de território de Khan, poderia ter tido mil filhos. Correr atrás da grandeza não oferecia à mulher retorno biológico algum. Por definição são poucos os homens que conseguem se alçar à grandeza, mas para esses os ganhos se mostraram reais.</p>
<p><strong><font color="#008000">Sociável com quem</font></strong></p>
<p>Dez anos atrás um estudo propunha a tese de que as mulheres são mais sociáveis do que os homens, visto que os homens são mais agressivos, e a agressividade coloca em risco os relacionamentos. Escrevi uma resposta argumentando que <strong>há duas maneiras de ser sociável</strong>. Na psicologia social tendemos a enfatizar relacionamentos próximos, relações íntimas, e talvez nesses as mulheres sejam de fato melhores do que os homens. Mas os homens podem também ser considerados sociáveis em termos de terem grandes redes de relacionamentos superficiais; talvez nesse campo os homens sejam mais sociáveis do que as mulheres.</p>
<p>Costumamos dizer que ter uns poucos amigos íntimos é melhor do que se ter um grande número de conhecidos, mas uma grande rede de relacionamentos pouco profundos pode ser importante também. Não devemos ver os homens como seres humanos de segunda classe apenas porque eles se especializam na forma de relacionamento menos importante e menos satisfatória.</p>
<p>Reexaminemos a evidência. Está certo, as mulheres são menos agressivas do que os homens, mas será porque as mulheres não querem colocar em risco o relacionamento? Acontece que, em relacionamentos íntimos, as mulheres são bastante agressivas, sendo que a maior parte das violências domésticas é iniciada pela mulher. A diferença está em que as mulheres não são violentas com estranhos. As chances de uma mulher acabar se envolvendo com outra numa briga de faca numa saída ao shopping são pequenas. As mulheres não se envolvem em violência nessa rede mais ampla de relacionamentos, mas os homens sim, porque para eles essa rede é mais importante. Da mesma forma, os homens mostram-se mais dispostos a ajudar os amigos do que as mulheres, enquanto as mulheres mostram-se mais dispostas a oferecer ajuda dentro de casa.</p>
<p>As mulheres tendem a ser ao mesmo tempo mais solícitas e mais agressivas na esfera dos relacionamentos íntimos, porque é com isso que se importam. Em contraste, os homens importam-se com a rede mais ampla de relacionamentos superficiais, por isso mostram-se bastante solícitos e violentos no âmbito dela.</p>
<p>Estudos feitos em jardins da infância comprovam essa tendência. Se duas meninas estão brincando e os pesquisadores trazem uma terceira, as duas meninas oferecem resistência para aceitá-la, enquanto que dois meninos aceitarão de bom grado que um terceiro se junte à brincadeira. Ou seja, as meninas preferem a conexão um-a-um, enquanto os meninos sentem-se atraídos por grupos maiores e redes mais amplas. <strong>As mulheres especializam-se na esfera estreita dos relacionamentos íntimos. Os homens especializam-se no grupo mais amplo.</strong> </p>
<p>Importantes diferenças de personalidade originam-se dessa diferença no tipo de relacionamento que interessa homens e mulheres.
<p>É lugar comum, por exemplo, dizer que as mulheres sabem expressar suas emoções melhor do que os homens. Isso se explica: num relacionamento íntimo, em que a comunicação é fundamental, pode ser vantajoso ser capaz de expressar o que se está sentindo, mas num grupo maior, em que você pode ter rivais ou inimigos, pode ser arriscado deixar transparecer as suas emoções.</p>
<p>Numa distribuição de recursos, as mulheres tendem a defender que todos os envolvidos recebam a mesma parcela de um montante, enquanto os homens tendem a defender que quem trabalhou mais deve receber mais. <strong>A solução masculina está melhor adaptada a grandes grupos, enquanto a solução feminina está melhor adaptada para pares íntimos.</strong></p>
<p>Há também a noção de que os homens são mais competitivos e as mulheres mais cooperativas&nbsp;– e, naturalmente, a cooperação é muito mais útil do que a competição para relacionamentos íntimos. Já em grandes grupos chegar ao topo pode ser fundamental. Não esqueça que a maior parte dos homens não se reproduz, e descendemos de homens que chegaram ao topo. Para as mulheres não foi assim.</p>
<p><strong><font color="#008000">Como a cultura usa os homens</font></strong></p>
<p>O feminismo ensinou-nos a ver a cultura como uma questão de homens contra mulheres. Penso que a evidência indica que a cultura surgiu de homens e mulheres trabalhando juntos, mas trabalhando contra outros grupos de homens e mulheres. A cultura pode ser vista como uma estratégia biológica, o passo seguinte na linha evolutiva que tornou os animais sociais. </p>
<p>A cultura depende do ganho sistêmico, da sinergia, da formação de um todo maior que a somatória das partes. Apenas sistemas maiores são capazes de prover isso. Um relacionamento entre duas pessoas pouco pode fazer em termos de divisão de trabalho e compartilhamento de informações, mas um grupo de 20 pessoas pode fazer muito mais.</p>
<p>Como resultado, <strong>a cultura surgiu essencialmente no modo de relacionamento social favorecido pelos homens</strong>. As mulheres favorecem relacionamentos íntimos, que são mais importantes para a sobrevivência da espécie. A rede mais ampla de relacionamentos superficiais não é vital para a sobrevivência, mas é vital para o desenvolvimento da cultura.</p>
<p>Não é o caso que em algum momento da História os homens tenham escanteado as mulheres. O que aconteceu foi que a esfera das mulheres se manteve essencialmente a mesma, enquanto que a esfera dos homens, dos relacionamentos mais superficiais, foi vagarosamente se beneficiando com o progresso da cultura. </p>
<p>Eis porque a religião, a literatura, a arte, a ciência, a tecnologia, a ação militar, os mercados, a organização política e a medicina emegiram primariamente da esfera masculina. A esfera feminina não produziu essas coisas, embora tenha feito coisas valiosas, como tomar conta da geração seguinte para que a espécie continuasse a existir.</p>
<p>A diferença não se origina no fato dos homens terem mais habilidades ou talentos, mas na natureza de seus relacionamentos sociais. A esfera das mulheres organizava-se na base dos relacionamentos íntimos, um-a-um, que são favorecidos pelas mulheres. Tratam-se de relacionamentos vitais e profundamente satisfatórios, que contribuem vitalmente para a saúde e para a sobrevivência. <strong>Os homens</strong>, por outro lado, <strong>favoreceram as redes mais amplas de relacionamentos superficiais, que são menos satisfatórios e emocionalmente compensadores, mas formam uma base mais fértil para a emergência da cultura. </strong></p>
<p>Coisas como arte, literatura e ciência são opcionais, sendo que as mulheres estavam fazendo o que era vital para a sobrevivência da espécie. A cultura, no entanto, tem um tremendo potencial de tornar a vida melhor, e desenvolve-se com mais eficácia em cadeias de relacionamento mais amplas e menos exigentes, terreno tradicionalmente masculino.</p>
<p><strong>A cultura conta com os homens para criar as grandes estruturas sociais</strong> que a compõem. Isso provavelmente tem menos a ver com uma conspiração patriarcal para oprimir as mulheres do que com o fato de que os homens demonstram mais interesse do que as mulheres em formar grandes grupos, trabalhar com eles e chegar ao seu topo.</p>
<p>Outro modo pela qual a cultura usa o homem é naquilo que chamo de descartabilidade masculina. Por que motivo, num acidente ou emergência, convenciona-se que &#8220;mulheres e crianças&#8221; têm preferência para serem resgatados, em detrimento dos homens?</p>
<h5>Há normalmente um excedente de pênis.</h5>
<p>Penso que haja razões biológicas para que seja assim. Na competição entre culturas, um grupo maior tem maiores chances de vencer um grupo menor. É por essa razão que a maior parte das culturas tem promovido o crescimento númerico, que depende das mulheres. <strong>Para maximizar a reprodução uma cultura precisa de todos os úteros de que puder dispor, mas basta uns poucos pênis para fazer o serviço.</strong> Há normalmente um excedente de pênis. Se uma geração perder metade dos seus homens, a geração seguinte poderá ainda assim chegar ao tamanho da anterior.&nbsp;Se perder metade das suas mulheres, o tamanho da geração seguinte estará gravemente prejudicado. É por isso que a maior parte das culturas mantém as mulheres fora de perigo e coloca os homens para fazer o serviço arriscado.</p>
<p>Outra base do caráter descartável do homem está embutida nos diferentes modos de ser sociável. Num relacionamento íntimo, um-a-um, nenhuma das partes pode ser de fato substituída em caso de uma perda. Grandes grupos, por outro lado (digamos, empresas) podem substituir e de fato substituem quem acham por bem. Dessa forma, <strong>os homens criam redes sociais onde os indivíduos são descartáveis e podem ser substituídos.</strong> As mulheres favorecem relacionamentos em que cada pessoa é preciosa e não pode ser verdadeiramente substituída.</p>
<p><strong><font color="#008000">Seja homem</font></strong></p>
<p>Na maior parte das culturas toda pessoa adulta do sexo feminino merece o título de mulher e é respeitada intrinsecamente como tal, mas muitas culturas não concedem essa honra aos homens até que demonstrem o seu valor. Alguns estudos sociológicos têm enfatizado que, culturalmente falando, <strong>ser homem é produzir mais do que você consome</strong>. Quer dizer, espera-se dos homens, em primeiro lugar, que provejam o seu próprio sustento; se outra pessoa o sustenta, você não chega a ser homem. Em segundo lugar, o homem deve ser capaz de gerar riqueza adicional de modo a ser capaz de beneficiar a outros&nbsp;– esposa, filhos, outros dependentes&nbsp;ou subordinandos&nbsp;– além de si mesmo. Você não é homem de verdade até ter chegado nesse estágio. </p>
<p>Não creio que seja mais difícil ser homem do que mulher, mas é preciso lembrar que a cultura explora&nbsp;o homem de modos muito específicos. Um desses é requerer que o homem mostre-se merecedor de respeito produzindo valor de modo a prover sustento para si mesmo e para outros. As mulheres não têm de enfrentar esse desafio em particular.
<p>Essas exigências contribuem na formação de muitos dos padrões comportamentais masculinos. A ambição, a competição e a busca pela grandeza talvez estejam ligados ao requerimento dessa luta por respeito. Grupos compostos exclusivamente por homens são marcados por zombarias e outras práticas denigridoras de modo a lembrar a todos&nbsp;que NÃO HÁ respeito suficiente para&nbsp;todo mundo, porque essa consciência pode motivar cada homem a esforçar-se mais a fim de angariar respeito para si. Essa mostrou ser uma grande fonte de fricção quando as mulheres adentraram o mercado de trabalho; as organizações tiveram de mudar suas políticas de modo a que todos fossem considerados dignos de respeito. Originalmente, por serem compostas apenas de homens, as organizações não haviam sido projetadas para serem assim.
<p><strong>O ego masculino</strong>, com sua preocupação em provar a si mesmo e competir com os outros, <strong>parece ter sido projetado para agüentar os sistemas em que há escassez de respeito e você tem de trabalhar duro para conseguir algum</strong>&nbsp;– ou será fatalmente exposto a humilhação.
<p><strong><font color="#008000">Conclusão </font></strong>
<p>Uma cultura usa tanto homens quanto mulheres, mas a maior parte das culturas usa-os de modos diferentes. A maior parte das culturas vê homens individuais como mais descartáveis do que mulheres individuais, e essa diferença tem provavelmente origem biológica.
<p>Os homens tendem aos extremos mais do que as mulheres, e isso se encaixa no modo como a cultura faz uso deles, incitando-os a tentarem todo tipo de coisas diferentes, recompensando os vencedores e esmagando impiedosamente os perdedores.<br />
<h5>O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica.</h5>
<p>A cultura não é uma questão de homens contra mulheres. Em grande parte, o progresso cultural emergiu de grupos de homens trabalhando com&nbsp;e contra outros grupos de homens. Enquanto as mulheres se concentraram em relacionamentos íntimos que permitiram que a espécie sobrevivesse, os homens criaram as grandes redes de relacionamentos superficiais, menos necessários para a sobrevivência mas que acabaram permitindo o desenvolvimento da cultura. Os homens criaram as grandes estruturas sociais que compõem a sociedade e ainda são em grande parte responsáveis por elas, embora vejamos agora que as mulheres podem ter desempenho tão bem quanto eles dentro desses grandes sistemas.
<p>O que parece funcionar melhor para as culturas é jogar os homens uns contra os outros, competindo por respeito e outras recompensas que acabam distribuídas de modo bastante desigual. Requer-se dos homens que provem o seu valor produzindo coisas que a sociedade valoriza. Eles tem de vencer tanto rivais quanto inimigos em competições culturais, provável motivo pelo qual não são tão amáveis quanto as mulheres.
<p>O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica&nbsp;– insegurança que é, na verdade, social, existencial e biológica. Embutido no papel do homem está o perigo de não ser bom o bastante para ser aceito e respeitado e até mesmo o perigo de não ter um desempenho bom o bastante para gerar descendentes. Essa insegurança social essencial é fonte de stress para o homem, e não de admirar que tantos homens&nbsp;entrem em colapso&nbsp;ou façam coisas terríveis ou heróicas ou morram mais jovens do que as mulheres. Essa insegurança, no entanto, é util e produtiva para a cultura, para o sistema.
<p>Não estou dizendo que é certo ou ético ou adequado que seja assim. Mas tem funcionado. As culturas que usam essa fórmula têm se mostrado bem sucedidas, e é uma das razões pelas quais venceram suas rivais.
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug011.gif">
<p><small>Versão condensada de <a href="http://www.psy.fsu.edu/~baumeistertice/goodaboutmen.htm"><strong>Is There Anything Good About Men?</strong></a>, de <a href="http://www.psy.fsu.edu/~baumeistertice">Roy F. Baumeister</a>, <em>Eppes Eminent Professor of Psychology &amp; Head of Social Psychology Area</em>, Florida State University, Tallahassee, FL</small></p>
<p><small>Palestra concedida à Associação de Psicologia Norte-Americana, 2007</small></p>
<p>Leia também:<br /><strong>O enigma de Páris</strong>, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/o-enigma-de-paris">parte 1</a> e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/o-enigma-de-paris-parte-2/">parte 2</a></p>
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		<title>Mina submersa quer explodir em Mauá</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Aug 2007 09:16:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Atualização 08/08 15h37 Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto Menos de uma semana depois de anunciar que a área de inundação da usina hidrelétrica de Mauá precisaria de um estudo minucioso de água e de solo por conta da existência de uma mina desativada de carvão, a Secretaria Estadual de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Atualização 08/08 15h37<br />
<strong>Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto</strong><br />
Menos de uma semana depois de anunciar que a área de inundação da usina hidrelétrica de Mauá precisaria de um estudo minucioso de água e de solo por conta da existência de uma mina desativada de carvão, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) disse ontem ter encontrado a solução para o grande passivo ambiental. A assessoria de imprensa informou que a represa abafará o efeito dos dez hectares de rejeitos de carvão e de metais pesados que são liberados às margens do rio Tibagi, em Telêmaco Borba, nos Campos Gerais.<br />
<a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=685773&#038;tit=Governo-cogita-alagar-minas-de-carvao-sem-novo-estudo-de-impacto">Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto</a>, na Gazeta do Povo de hoje</p>
<h5>* * *</h5>
<table cellpadding="10" width="35%" align="right" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="center"><strong>60 anos de lixo tóxico aguardam para contaminar o lago da nova usina. Quem se importa?</strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p align="left"><small>Em muitas espécies de animais os fatores ambientais impedem que a competição dentro da própria espécie conduza ao desastre. Não existe, no entanto, força regulatória agindo sobre o desenvolvimento cultural da humanidade. Sob a pressão da fúria competitiva nós não apenas esquecemos o que é útil para a humanidade, mas até mesmo o que é bom e vantajoso para o indivíduo.<br /><strong>Konrad Lorenz</strong>, <em>Os oito pecados mortais do homem civilizado</small></em></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/maua-00.jpg"> </p>
<p>O meio-ambiente é coisa particularmente difícil de se defender, porque o agressor somos nós mesmos.&nbsp;Nossa condição como espécie é paradoxal: quanto mais poder adquirimos de manipular o meio-ambiente em nosso favor, mais perto estamos de descaracterizá-lo irremediavelmente para nossa destruição. </p>
<p>O projeto da hidrelétrica de Mauá prevê a inundação de uma área de 100 quilômetros quadrados <a href="http://maps.google.com/maps?f=q&amp;hl=en&amp;geocode=&amp;q=Ortigueira+-+PR,+Brazil&amp;ie=UTF8&amp;cd=2&amp;ll=-24.257607,-50.695038&amp;spn=0.150245,0.232773&amp;t=h&amp;z=12&amp;iwloc=addr&amp;om=1">entre Ortigueira e Telêmaco Borba</a>, aqui no estado do Paraná. A usina&nbsp;terá potência máxima de 362 megawatts (MW),&nbsp;suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes.&nbsp;Dos R$ 950 milhões necessários para&nbsp;a obra, R$ 700 milhões&nbsp;serão bancados pelo BNDES, sendo que&nbsp;a construtora J. Malucelli&nbsp;já assinou contrato&nbsp;para executar o projeto. </p>
<p>Quem não apostaria nessa barganha? 100 quilômetros quadrados&nbsp;de que ninguém vai sentir falta&nbsp;em troca da energia elétrica para uma grande cidade pululando de consumidores, votantes e impostos.</p>
<p>A não ser que você leve em conta, naturalmente, o custo ambiental. Já em 2005 um <a href="http://celepar7cta.pr.gov.br/mppr/noticiamp.nsf/9401e882a180c9bc03256d790046d022/37af41bebafbdb308325708f005a198c?OpenDocument">parecer do Ministério Público Federal</a>&nbsp;advertia que [1] a barragem coloca em risco a sustentabilidade das tribos indígenas que habitam a região da bacia do Rio Tibagi;&nbsp;a área a ser alagada [2] contém 15 espécies na lista vermelha de espécies ameaçadas do Paraná, [3] cobrirá 200 propriedades e&nbsp;[4] não deverá poupar a&nbsp;Fazenda&nbsp;Monte Alegre, &#8220;composta por um mosaico de florestas nativas associadas a monoculturas florestais, sendo uma das responsáveis pela incomum riqueza de mamíferos na bacia do Rio Tibagi&#8221;; além disso [5] o estudo menciona 15 sítios arqueológicos na região a ser alagada, &#8220;com vestígios relacionados a diversos grupos humanos, períodos históricos e tradições&#8221;.</p>
<p>Deveríamos deixar&nbsp;que um punhado de índios, um grupo disperso de sitiantes, umas bromélias que nem dão flor e umas poucas gravações na rocha se interponham no avanço do&nbsp;progresso? Se não poupamos &#8211; Deus nos perdoe -&nbsp;as <a href="http://www.energiatomica.hpg.ig.com.br/g83.html">Sete Quedas</a>, não seria preciosismo embargar a usina Mauá?</p>
<p>O problema do custo ambiental são, naturalmente,&nbsp;dois. Primeiro, o fato dele ser <strong>muito difícil de avaliar</strong>. Os ecossistemas são ao mesmo tempo infinitamente complexos e infinitamente recatados. Até que seja tarde demais, não temos como estimar&nbsp;o impacto&nbsp;ambiental da perda de uma única nascente, quanto mais de 100 quilômetros quadrados&nbsp;de campos gerais. Ecossistemas são difíceis de avaliar porque tudo funciona quando eles estão funcionando; fica,&nbsp;conseqüentemente, difícil encontrar argumentos em sua defesa. Não sabemos tudo que vai deixar de funcionar quando eles deixarem de existir; não sabemos, literalmente, o que estamos perdendo.</p>
<p>Em segundo lugar, o custo ambiental não tem peso para frear projeto algum, porque o empreendedor e o político sabem muito bem que (salvo descartáveis&nbsp;exceções) <strong>não é um custo que eles mesmos&nbsp;terão de pagar</strong>. Se tudo der certo, a nota promissória da dívida ambiental será deixada convenientemente para as próximas gerações.<br />
<table cellpadding="10" width="35%" align="left" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="center"><a title="O relat&oacute;rio da Frente de Prote&ccedil;&atilde;o" href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht" target="_blank" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/maua-02.jpg"></a>&nbsp;<br /><strong><small>O resultado da análise,&nbsp;revelando altas concentrações de chumbo, cádmio e manganês.</small></strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A maior parte das pessoas que serão prejudicadas talvez ainda nem exista, por isso não consomem os seus&nbsp;produtos nem votam em você &#8211; e não têm como processá-lo! No nosso mundo, cujo deus chama-se Agora, quem seria insensato de levar esse fantasmas futuros em conta? Todo político quer uma obra grandiosa para inaugurar, todo empreendedor quer a sua fatia para construí-la. </p>
<p>Quem&nbsp;ousaria se colocar&nbsp;no caminho desse tanque de guerra&nbsp;a fim de salvar um trecho monótono de campos gerais, que não têm o glamour visual da Mata Atlântica e tudo que faz é nos prover de ninharias como <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-bolicho-do-guartela">rios e água pura</a>? </p>
<p>Um estudo recente da&nbsp;<em>Frente de Proteção do Rio Tibagi</em> revela que há um enorme&nbsp;risco não contabilizado&nbsp;esperando a água da barragem para vir à tona.&nbsp;O perigo, desta vez,&nbsp;são lagoas ácidas,&nbsp;hectares de rejeito tóxico e&nbsp;dezenas de minas abandonadas que babam ferrugem amarela e metais pesados.</p>
<p>Num vale de Telêmaco Borba, <a href="http://maps.google.com/maps?f=q&amp;hl=en&amp;geocode=&amp;q=Ortigueira+-+PR,+Brazil&amp;ie=UTF8&amp;cd=2&amp;ll=-24.170483,-50.666971&amp;spn=0.037587,0.058193&amp;t=h&amp;z=14&amp;om=1">junto a uma curva do Tibagi</a> e numa área que pertence à Klabin Papel e Celulose, aguardam os resíduos químicos&nbsp;de 60 anos de extração de carvão mineral. As fotos que ilustram o relatório da <em>Frente de Proteção</em> mostram bocas de minas abandonadas das quais brotam enxofre e ácido sulfúrico e lagoas transparentes com&nbsp;o carimbo&nbsp;azul-turquesa da drenagem ácida. O <a href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht">laudo anexo do SEBRAQ</a> comprova a presença de metais pesados (<strong>cádmio, chumbo e manganês</strong>) em concentrações escandalosamente altas nas amostras coletadas. Sabe-se com segurança que a rede inundada de&nbsp;galerias abandonadas estende-se por quilômetros terra adentro, onde as concentrações tóxicas&nbsp;tendem a ser muito maiores.</p>
<table cellpadding="10" width="35%" align="right" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td><strong><small>
<p align="center"><a title="O relat&oacute;rio da Frente de Prote&ccedil;&atilde;o" href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht" target="_blank" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/maua-01.jpg"></a><br />Uma página <a href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht" target="_blank">do relatório</a>.</small></strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&#8220;Se inundadas&#8221;, conclui o relatório,&nbsp;&#8221;as minas funcionarão como chaminés de ácidos e metais pesados que fluirão diretamente para dentro do lago, provocando um desastre ambiental sem precedentes no futuro reservatório e&nbsp;impedindo o uso da água em Londrina e outras cidades localizadas rio abaixo.&#8221;</p>
<p>A descoberta gerou&nbsp;uma viagem de helicóptero ao local por parte do secretário do Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. &#8220;É um complicador&#8221;, disse Rodrigues. &#8220;Não é para alarmismo, mas é um passivo ambiental significativo&#8221;.</p>
<p>Da <a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684431&amp;tit=">mesma matéria</a> da Gazeta do Povo:</p>
<blockquote><p>Pós-doutor em Geoquímica, o professor André Bittencourt foi responsável pela parte do levantamento técnico que trata da qualidade da água. Ele se defende, afirmando que não explorou a parte sobre as minas e rejeitos de carvão por uma razão química. Os rejeitos só são poluentes em contato com o oxigênio e, se ficassem imersos, não causariam danos. “Essas minas dão muito mais problema como estão do que embaixo d’água”, assegura. Ele também acredita que, tanto no rio como na eventual represa, a quantidade de produtos tóxicos produzida pela mina desativada se dilui com facilidade na água.</p>
</blockquote>
<p>Outra matéria da mesma edição traz o título &#8220;Dona da área [Klabin] investiu R$ 600 mil em recuperação&#8221;.&nbsp;Procurei, mas&nbsp;<a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684433&amp;tit=">o texto</a> não diz&nbsp;de que forma foram gastos os 600 mil, e na recuperação de quem.</p>
<p>Hoje (quarta-feira)&nbsp;pela manhã um evento no Plenarinho da Assembléia Legislativa do estado estará debatendo o caso Mauá. A deliberação da tarde, nas galerias da Assembléia,&nbsp;contará com a presença de cerca de 100 representantes&nbsp;da região atingida.</p>
<p>O governador&nbsp;Roberto Requião&nbsp;defendeu esta semana&nbsp;a importância da usina no &#8220;plano energético nacional&#8221;. A Copel é sócia majoritária no empreendimento, com participação de 51%; a Eletrosul tem 49%.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug024.gif"> </p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht">Crime ambiental no Tibagi</a>, o relatório-denúncia da <em>Frente de Proteção ao Tibagi</em><br /><a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684431&amp;tit=">Descoberta de resíduos de carvão põe em risco construção de Mauá</a>, matéria da Gazeta do Povo<br /><a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684432&amp;tit=Exploracao-mineral-deixou-passivo-ambiental-na-regiao">Exploração mineral deixou passivo ambiental na região</a>, matéria da Gazeta do Povo<br /><a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684433&amp;tit=">Dona da área investiu R$ 600 mil em recuperação</a>, matéria da Gazeta do Povo<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/paradigma">Paradigma</a></p>
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		<title>A mais velha curicaca</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jul 2007 09:31:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[A terceira rubrica do&#160;sexto e último livro da História Natural das Aves [Historiae Naturalis De Avibus - publicada em 1650 pela Impensà Matthaei Meriani] do naturalista polonês Jan Jonston (também conhecido como John Johnston e Joannes Jonstonus)&#160;chama-se De Avibus Brasilianis: &#8220;sobre as aves brasileiras&#8221;. Jonston (1603-1675) nunca esteve no Brasil; as descrições e as cinco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A terceira rubrica do&nbsp;sexto e último livro da <strong>História Natural das Aves</strong> [<em>Historiae Naturalis De Avibus</em> - publicada em 1650 pela <em>Impensà Matthaei Meriani</em>] do naturalista polonês <strong>Jan Jonston</strong> (também conhecido como John Johnston e Joannes Jonstonus)&nbsp;chama-se <em>De Avibus Brasilianis: </em>&#8220;sobre as aves brasileiras&#8221;.</p>
<p><a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s246.html"><img style="margin: 0px 10px 0px 0px" src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/sjonst246.jpg" align="right"> </a><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/John_Jonston">Jonston</a> (1603-1675) nunca esteve no Brasil; as descrições e as cinco pranchas de ilustrações de <em>De Avibus Brasilianis</em>&nbsp;parecem ter sido pirateadas da <em>História Natural do Brasil </em>de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Marggraf">Georg Marggraf</a>, cartógrafo e astrônomo alemão que veio para o Brasil com <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Maur&iacute;cio_de_Nassau">Maurício de Nassau</a>.</p>
<p>Aqui estão, descritas em <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-revolucao-da-leitura">erudito latim</a>, aves tupiniquins como o gavião&nbsp;<strong>caracará</strong> (descrição <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s266.html">aqui</a>, ilustração <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s265.html">aqui</a>), o <strong>jacupemba </strong>(descrição <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s252.html">aqui</a>, ilustração <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s246.html">aqui</a>), a coruja orelhuda <strong>jacurutu</strong> (descrição <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s252.html">aqui</a>, ilustração <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s246.html">aqui</a>) &#8211; e ainda a <strong>arara </strong>(como <em>araracanga </em>e <em>araraúna</em>), o <strong>inhambu </strong>(<em>jambu</em>), a <strong>seriema </strong>(<em>cariama</em>), a <strong>saracura </strong>(<em>caracura</em>), o <strong>jaburu </strong>(<em>iapiru</em>) e até mesmo o <strong>urubu </strong>e o <strong>quero-quero </strong>(<em>quiraquerea).</em></p>
<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s253.html" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/sjonst253.jpg"></a> <a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s262.html" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/sjonst262.jpg"></a> <a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s265.html" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/sjonst265.jpg"></a>
<p>Nada me deixou mais feliz, no entanto, do que encontrar nas páginas amareladas deste livro de 1650 o nome, o desenho e a descrição&nbsp;(&#8220;<em>carnem </em>bonam haber&#8221;) da minha ave brasileira&nbsp;favorita, a <strong>curicaca. </strong><br />
<h5><font color="#333333">Carnem Buonam haber.</font></h5>
<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s242.html" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/curicaca-title.png"></a> </p>
<h5>* * *</h5>
<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s243.html" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/curicaca-ilust.png"></a> </p>
<p>A primeira vez que vi uma <a href="http://www.flickr.com/photos/tags/curicaca">curicaca</a> foram duas -&nbsp;em Urubici, voando do e para o ninho que faziam no imenso cedro na frente da casa da Carmelita e do Paulinho. O tamanho, a envergadura das asas e o bico comprido, aliados a uma lentidão pré-histórica e um grito espantoso, sugeriram-me um ser fabuloso como um&nbsp;pterodátilo.</p>
<p>Depois que me transferi para o monastério descobri, para meu deleite, que havia curicacas aqui perto &#8211; até pouco tempo elas cruzavam o nosso céu em grupos de duas ou três, e costumam até hoje pousar no <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-reflexo-dos-olhos-da-aranha">quintal do Hélio</a>, em Quatro Barras, para procurar bichinhos no capim. Ainda mais recentemente, como se sabe, passei um <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-bolicho-do-guartela">fim de semana</a> no sítio/reserva Curicaca, propriedade dos notáveis Tom e Gi &#8211; e na nossa estada fomos saudados por uma ou duas, além do casal de jacus que nos despertavam todas as manhãs em Dolby Surround.</p>
<p>A curicaca (do tupi<em> kuri&#8217;kaka</em>) é, obviamente,&nbsp;uma espécie de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/&Iacute;bis">íbis</a>. Informa-me o Houaiss que o nome aparece pela primeira vez em 1618, como <em>quariquaqua. </em>O <em>De Avibus Brasilianis </em>de 1650 deve ser, então, uma das primeiras obras a registrar a grafia contemporânea.</p>
<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s244.html" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/curicaca-text.png"></a> </p>
<p>Depois de apresentar as aves do Brasil, Jonston conclui sua <em>História Natural das Aves </em>com um <a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/jpg/s276.html">apêndice sobre aves fabulosas</a> como o grifo e a harpia. Nada mais apropriado.
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/curicaca-t.gif">
<p>Veja também:
<p><em><a href="http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenaref/jonston/vol3/te06.html">De Avibus Brasilianis</a></em>, no sáite da Universidade de Mannheim<br /><a href="http://www.flickr.com/photos/tags/curicaca">Fotos de curicacas</a> no Flickr</p>
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		<title>O bolicho do Guartelá</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jun 2007 02:37:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[The Net]]></category>

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		<description><![CDATA[A convite do agrônomo e empresário e cantante Alessandro Casagrande (que havia sido por sua vez convidado pelo Tom)&#160;passei 48 horas, entre sexta e domingo, acampado na&#160;fazenda/reserva Curucaca, nos campos&#160;que derramam-se escarpa&#160;abaixo no cânion do Guartelá (na estrada entre Castro e Tibagi). A&#160;reserva Curucaca é formidável propriedade&#160;do Tom e da Gi (e do Francisco, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=541062164&amp;size=l" atomicselection="true"><img src="http://farm2.static.flickr.com/1147/541062164_d0fa35584a_m.jpg"></a></p>
<p>A convite do agrônomo e empresário e cantante Alessandro Casagrande (que havia sido por sua vez convidado pelo Tom)&nbsp;passei 48 horas, entre sexta e domingo, acampado na&nbsp;fazenda/reserva Curucaca, nos campos&nbsp;que derramam-se escarpa&nbsp;abaixo no cânion do Guartelá (na estrada entre Castro e Tibagi).</p>
<p>A&nbsp;reserva <a href="http://www.flickr.com/photos/tags/curicaca/">Curucaca</a> é formidável propriedade&nbsp;do Tom e da Gi (e do Francisco, de três anos), que são&nbsp;biólogos e&nbsp;matutos&nbsp;e pessoas extraordinárias. Os dois receberam-nos com graça&nbsp;e&nbsp;exuberância, mantendo sempre um abraço&nbsp;à mão, uma piada na ponta da língua&nbsp;e&nbsp;muita comida na mesa. Compunham ainda o grupo a Dany (geneticista e líder de torcida),&nbsp;os italianos Enzo e Maria e seus filhos gêmeos Eva e Tiago &#8211; sem contar a Cuca, a impassível esfinge canina do Guartelá.</p>
<p><a title="Clique para ampliar" href="http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=541065366&amp;size=l" atomicselection="true"><img style="margin: 0px 0px 5px 5px" src="http://farm2.static.flickr.com/1014/541065366_788ab950dd_m.jpg" align="right"></a> Sou testemunha de que o&nbsp;Tom e a Gi chegam aos mais encantadores&nbsp;(e sensatos)&nbsp;extremos para preservar a fauna, a flora e a cultura local da região. Na fazenda Curucaca a eletricidade vem de uma bateria solar, a água límpida vem do banhado, as cervejas resfriam-se na nascente e&nbsp;a água quente vem da mangueira exposta ao sol do meio do dia (banho quente, <em>cari amici</em>,&nbsp;só entre as onze e as três da tarde). O banheiro é visitado por cobras venenosas que não ocorreria a ninguém expulsar, quanto mais matar, e o pequeno Francisco faz carinho sem qualquer&nbsp;intimidação em pererecas e répteis ápodes (sem patas, que parecem cobras. Um desses, que aparece na minha mão na fotografia, me mordeu, o bandidinho).</p>
<p>Porém a&nbsp;grande paixão do Tom e da Gi (e seu maior&nbsp;interesse do na região e na reserva) é preservar&nbsp;o que&nbsp;resta&nbsp;dos campos gerais, vegetação de estepe que já cobriu a maior parte do interior do Paraná, e de cuja cobertura original resta menos de um por cento. Explicou-me o Tom que um pequeno trecho de campos e banhado com a feição dos campos gerais fixam carbono C4, capturam a luz solar,&nbsp;retém e purificam&nbsp;água e&nbsp;emitem oxigênio na atmosfera de forma muitas vezes mais eficiente&nbsp;do que uma exuberante floresta tropical que ocupe a mesma superíficie. &#8220;Não é à toa que os quatro maiores rios do estado nascem nas regiãos dos campos&#8221;.
</p>
<p>O problema é que existem leis que limitam a exploração de florestas nativas, mas lei alguma regulamenta o uso dos campos no Brasil. As charmosas árvores da mata atlântica têm onde reclinar a cabeça, mas não as gramíneas, flores minúsculas, líquens&nbsp;e lobos-guarás das estepes e cerrados brasileiros. No Paraná, o que resta dos campos gerais dá cada vez mais lugar a pastos, plantações de soja e florestas comerciais de eucalipto e pinus, e o mesmo cenário repete-se no interior do Rio Grande do Sul. Quando o casal de biólogos chegou à região do Guartelá, na virada do milênio, a vegetação ao redor dos limites&nbsp;da&nbsp;Curucaca estava passavelmente preservada. Hoje o horizonte mudou: em virtualmente todas as propriedades vizinhas (com exceção do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Canyon_guartel%C3%A1">Parque do Guartelá</a>) o bege-savana dos campos foi substituído pelo verde pasteurizado das plantações de soja e pelo rubro das mudas eucalipto &#8211; plantas que, nem de longe, serão capazes de preservar os recursos de água, oxigênio e carbono da forma como faz o delicado ecossistema dos campos gerais.</p>
<p align="center"><a title="Clique para ampliar" href="http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=541066168&amp;size=l" atomicselection="true"><img src="http://farm2.static.flickr.com/1140/541066168_e1a02650c6_m.jpg"></a> <br /><small>O novo horizonte do Guartelá:<br />a soja avançando sobre as estepes</small></p>
<p>É&nbsp;pela&nbsp;consciência&nbsp;da seriedade dessa situação que&nbsp;95% da área da fazenda Curucaca é mantida <em>radicalmente </em>intocada. Quando um vizinho perguntou se ele não temia ter nas mãos tanta terra &#8220;improdutiva&#8221;, o Tom respondeu exuberantemente e com acerto: &#8220;Como improdutiva? Eu produzo água! A água que <em>você bebe</em> vem da minha propriedade&#8221;. E mostrou-me os canos para comprovar que a água de um único&nbsp;banhado da Curucaca supre de água potável quatro outras propriedades ao redor.</p>
<p>Como preservar algo de que ninguém reconhece a importância? Uma liga de ambientalistas da qual o Tom é militante e porta-voz está lutando para fazer avançar um projeto que regulamenta a exploração dos campos, mas o lobby das indústrias conta com a dura eloqüência do patrocínio. O Tom e a Gi estão praticamente sozinhos nos seus esforços&nbsp;para salvar&nbsp;a Terra, mesmo sabendo que é quase certamente&nbsp;tarde demais.</p>
<h5>&#8220;TIRO DADO, BUGIO DEITADO.&#8221;</h5>
<p align="left">Gente que se entrega para salvar a humanidade continua, paradoxalmente, sendo gente, e tivemos um convívio adorável nos três dias e duas noites do acampamento.</p>
<p align="left">Abrimos a boca diante do céu estrelado, assamos carne maturada, molhamos pés e tornozelos na cachoeira; comemos pinhão assado na grelha, queijo derretido na frigideira com pão de milho, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Guacamole">guacamole</a> sobre pão sírio assado pelo Tom na churrasqueira e&nbsp;bebemos café tropeiro, que é negro como a morte e é feito com água&nbsp;misturada diretamente&nbsp;no pó, acalmada&nbsp;com um tição ardente metido chaleira adentro. <a title="OLHA A COBRA! Clique para ampliar" href="http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=541060740&amp;size=l" atomicselection="true"><img style="margin: 15px 15px 0px 0px" src="http://farm2.static.flickr.com/1111/541060740_ecc236de31_m.jpg" align="left"></a>Jogamos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Truco">truco</a> e demos risada e xingamos saudavelmente uns aos outros, bebemos cerveja e vinho e caipirinha de limão vermelho e&nbsp;água puríssima; dei umas baforadas no cachimbo do Tom, que quando fumava imitava um preto velho e fazia ao mesmo tempo cara de Humphrey Bogart. No sábado a noite os italianos cozinharam e tivemos <em><a href="http://www.deliciousdays.com/archives/2006/11/08/orecchiette/">orechiette</a> </em>com brócolis e espaguete com <em><a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Pesto">pesto</a>, </em>dos quais comi quatro pratos mais do que generosos. O Tom e o Alessandro, que formam juntos&nbsp;a dupla gaúcha nativista&nbsp;<em>Joaçaba e Jaborá, </em>conversavam um com o outro improvisando longos rosários de frases rimadas, testando para ver quem saía com a solução mais engraçada ou ultrajante; fizeram show ao vivo e repetiram à náusea o refrão do seu hit <em>O Bolicho do Qua-qua-qua </em>(&#8220;ÉÉÉÉé é o bolicho do qua-qua-quááá!&#8221; &#8211; do mesmo álbum: <em>Caminhos de sangue, </em>sobre os animais silvestres atropelados na rodovia e <em>Eucalipampa, </em>sobre a invasão do pampa gaúcho por florestas de eucaliptos). Ouvimos as aventuras de infância do&nbsp;Enzo na aldeia italiana cuja escola primária era um presídio reformado (com grades nas janelas!), contamos de caminhonetes desembestadas, facões letais, lagartas fedidas, barcos-voadores, espécies extintas e ditados raros (no topo da lista: &#8220;Tiro dado, bugio deitaaaado&#8221;; outras entradas notáveis: &#8220;Saia da minha propriedaaaade!&#8221; e&nbsp;&#8221;O que é que pode dar errado?&#8221;). A água acabou enquanto a Maria tomava banho, uma agressiva aranha <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Armadeira">armadeira</a> maior que o meu punho apareceu no pior dos momentos (&#8220;<em>não existe</em> aranha desse tamanho&#8221;, disse o Tom quando as crianças mostraram o tamanho com a mão, mas o biólogo&nbsp;ficou quieto quando viu as dimensões do bicho na parede junto do beliche); fomos despertados pelos berros dos&nbsp;jacus e vimos estrelas cadentes; houve momentos de tensão, voaram lascas de verniz,&nbsp;falamos em três línguas e cantamos em mais uma ou duas. Voltamos felizes e cansados e talvez gratos, trazendo sacolas de lixo para a cidade, onde é o seu lugar.</p>
<h5>&nbsp;</h5>
<p align="center"><img src="http://farm2.static.flickr.com/1157/541057052_53db811c81_o.jpg"> <br /><small>O Brabo no seu ambiente, mas de roupa</small></p>
<p align="center"><img src="http://farm2.static.flickr.com/1020/541165471_9836ffe8ca_o.jpg">&nbsp;<br /><small>A tripulação do bolicho do Guartelá. Atrás: Brabo, Alessandro, Tom.<br />Na frente: Cuca, Maria, Dany, Eva, Tiago, Enzo, Gi e Francisco.</small></p>
<p align="center"><small><small><a href="http://www.flickr.com/photos/paulobrabo/tags/guartela/">Clique aqui</a> para ver&nbsp;mais fotos da expedição</small>.</small></p>
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		<title>Mais aprendizado, menos PowerPoint</title>
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		<pubDate>Wed, 23 May 2007 03:01:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Aquelas apresentações de PowerPoint, que você prepara com tanto empenho para acompanhar a sua palestra, podem estar com os dias contados. Uma série de pesquisas efetuadas pela Universidade de New South Wales, de Sydney, vem dando suporte a uma teoria de que sempre suspeitei: é mais difícil processar informação que chega até você em forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/blah.png"> </p>
<p>Aquelas apresentações de PowerPoint, que você prepara com tanto empenho para acompanhar a sua palestra, podem estar com os dias contados.</p>
<p>Uma série de pesquisas efetuadas pela Universidade de New South Wales, de Sydney, vem dando suporte a uma teoria de que sempre suspeitei: é mais difícil processar informação que chega até você em forma escrita e falada ao mesmo tempo.</p>
<p>Apontam essas descobertas que, no que diz respeito ao aprendizado, a redundância é nociva. O cérebro humano processa e retém mais informação se ela chega até ele nas formas verbal ou escrita, mas não <em>nas duas ao mesmo tempo</em>.</p>
<p>Quem já foi a uma igreja evangélica&nbsp;deve ter testemunhado&nbsp;o costume: o preletor invariavelmente convida sua audiência a acompanhar nas suas próprias Bíblias a leitura de alguma passagem enquanto ele lê em voz alta lá na frente. À luz dos experimentos realizados pela UNSW, a prática não teria como ser mais contraproducente. O teor das passagens seria melhor compreendido e melhor assimilado se fossem ouvidas ou lidas separadamente. Ler e ouvir ao mesmo tempo um determinado conteúdo apenas induz a uma atenção dividida (e portanto à distração)&nbsp;e aumenta o valor da <em>carga cognitiva</em>.</p>
<h5>É mais difícil processar informação que chega até você em forma escrita e falada ao mesmo tempo.</h5>
<p>Carga cognitiva, conceito desenvolvido na UNSW pelo professor John Sweller, é a quantidade total de atividade mental imposta sobre a memória útil em determinado momento de tempo. Decorar uma série de dois números (digamos 32) corresponde a uma carga cognitiva de 2; decorar uma série de 16 números (digamos, 8372658497146372) tem uma carga cognitiva de 16.</p>
<p>&#8220;O uso de apresentações de PowerPoint tem sido um desastre,&#8221; afirma o professor Sweller. &#8220;Ela deveria ser abandonada por completo&#8221;.</p>
<p>&#8220;É prática eficaz falar com o auxílio de um gráfico ou de um diagrama, porque esses apresentam a informação sob uma forma diferente. Porém não é eficaz falar as mesmas palavras que estão escritas, porque isso aumenta a carga cognitiva sobre a mente e diminui a capacidade dos ouvintes&nbsp;de entender o que está sendo apresentado&#8221;.</p>
<p>Pela mesma razão, sugerem as descobertas, pode ser mais eficaz examinar com seus alunos problemas já resolvidos do que convidá-los a resolverem problemas por si mesmos. Examinar um problema já resolvido reduziria a carga sobre a memória útil e aumentaria a eficácia do aprendizado.</p>
<p>Não quero ter de repetir.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug036.gif">
<p><small><a href="http://www.smh.com.au/articles/2007/04/03/1175366240499.html">Research points the finger at PowerPoint</a><br /><a href="http://educationnew.arts.unsw.edu.au/staff/sweller/clt/">Professor John Sweller</a></small></p>
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		<title>We are not alone</title>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2007 10:24:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Terá sido uns seis anos atrás, e o Ivan estava dirigindo. Era de madrugada (digamos 4 da manhã) e estávamos a meio caminho de São Paulo (digamos, logo ao norte de Juquiá) por uma deserta Régis Bittencourt. O céu talvez estivesse encoberto, mas nenhum vento perturbava a mata fechada nos dois lados da estrada. Estávamos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Terá sido uns seis anos atrás, e o Ivan estava dirigindo. Era de madrugada (digamos 4 da manhã) e estávamos a meio caminho de São Paulo (digamos, logo ao norte de Juquiá) por uma deserta Régis Bittencourt. O céu talvez estivesse encoberto, mas nenhum vento perturbava a mata fechada nos dois lados da estrada. Estávamos ambos acordados, quem sabe ouvindo um CD.</p>
<p>Aconteceu singelamente e sem aviso: um balão de aniversário no meio da estrada; cem metros adiante, uma multidão deles. Balões de aniversário espalhados uniformemente sobre as duas mãos da rodovia. Vejo-os agora mesmo com o olho da memória, eram balões azuis e brancos, pousados docilmente ao longo de uns cem metros de asfalto, como um rebanho.</p>
<p>Não havia nenhum automóvel por perto, nenhuma casa por perto, nenhuma saída secundária visível e nenhuma luz além das estrelas e dos faróis do Corsa. Não havia balões no acostamento ou no trecho de capim que beirava a mata dos dois lados da pista. Apenas balões de ar brancos e azuis, soltos, apenas sobre o asfalto e num grupo mais ou menos compacto.</p>
<p>O Ivan diminuiu a velocidade e, na rodovia deserta, fez o carro dançar de um lado para o outro de modo a explodir com a nossa passagem o maior número possível de balões. Chegamos a cogitar em parar e recolher alguns, mas não fizemos. Partimos sem interrupção noite adentro, deixando um rastro de destruição na população sobre o asfalto e uma marca curiosa na memória. </p>
<p>Devidamente treinado pelo meu treinamento com histórias de detetive e agentes do FBI (&#8220;Scully&#8221;, implora Mulder no celular, <em>&#8220;saia daí agora mesmo!&#8221;)</em>, encontrei-me durante o restante da viagem e muito, muito tempo depois, matutando na tentativa de encontrar uma explicação racional para o nosso avistamento.</p>
<p>O Ivan crê que tenho vocação ao exagero; quando estou dizendo a alguém que determinado lugar é <em>muito bonito</em> ou que determinado filme é <em>muito bom,</em> ele faz questão de intervir em benefício do meu interlocutor. &#8220;Leve em conta que é o Paulo que está dizendo,&#8221; ele observa, ou algo parecido.</p>
<p>Creio que o Ivan não negaria em termos essenciais o teor quantitativo deste meu testemunho, mas mesmo naquela madrugada ele pareceu minimizar a estranheza &#8211; isto é, o peso qualitativo &#8211; do que acabávamos de testemunhar. Posso contar com o seu testemunho, mas não com a sua empolgação. Para ele atravessar um rebanho de balões de ar azuis e brancos numa rodovia deserta em plena madrugada não é aparentemente coisa tão digna de nota. Por outro lado, fiquei imediatamente contente e permaneço grato por ter uma testemunha tão cética para confirmar o que vi. </p>
<p>Aparentemente, no entanto, o depoimento de duas testemunhas não basta. Creio que não consegui até hoje alguém que acredite nessa história, ou que se empolgue um pouco que seja com ela. Eu, que já vi luzes estranhas no céu noturno de uma praia de Niterói e encontrei ouvintes ávidos para essa experiência, que já vi e contei a platéias empolgadas sobre <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-reflexo-dos-olhos-da-aranha">o reflexo nos olhos da aranha</a>, não encontro quem arregale os olhos<sup><a href="#fn1">1</a></sup> para a história dos balões de ar na madrugada da rodovia.</p>
<p>Prometi então a mim mesmo que nunca mais vou contar essa história, porque não adianta. Viveremos solitários, eu e a lembrança da noite dos balões, sem ninguém que nos faça companhia. Atravessei magicamente uma história alheia naquela noite, e nunca mais encontrei o fio da meada. Vou ter de aprender a viver com isso.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug041.gif" alt="" width="38" height="52" /></p>
<p>
<p id="fn1"><sup>1</sup> <small> Ninguém se ofereceu nem para sugerir o básico, que essa deve ser uma memória implantada para ocultar uma experiência de abdução. </small></p>
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		<title>O karma do livre-arbítrio</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Mar 2007 03:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pense comigo]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[livre-arbítrio]]></category>

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		<description><![CDATA[O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso? Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://www.flickr.com/photos/mamluke/425372002"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/finis.gif" title="Photo by Mamluke" alt="Photo by Mamluke" width="400" height="300" /></a></p>
<p>O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?</p>
<p>Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um Deus realmente soberano, argumentam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-destino-eterno-de-deus">ainda hoje os calvinistas</a>, não poderia deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da predestinação.</p>
<p>Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação final no conceito inescapável de <em>amor-livre,</em> que apenas transferia para o campo da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão consensual e auto-determinação.</p>
<p>Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.</p>
<p>O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente &#8211; ou seja, não é para todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto, vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-homem-como-maquina">O Homem como Máquina</a>.</p>
<p>Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma austera convicção com que os reformados duvidavam dele &#8211; mas por motivos inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard Dawkins: &#8220;Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles governados pelas leis da física&#8221;. A implicação é clara: num sentido muito profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.</p>
<p>Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:</p>
<blockquote><p>Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados, tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior do seu cérebro.</p></blockquote>
<p>Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo e livre. Acho a idéia suficientemente bela para ser verdadeira.</p>
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		<title>INVASORES DE MENTES: Possuídos e zumbificados</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Mar 2007 10:17:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Nossa experiência no mundo é tão obscenamente exuberante que é às vezes fácil esquecer que filmes como Invasores de corpos, Alien e Seres Rastejantes são baseados em fatos reais. O parasitismo é de longe uma das figuras de linguagem mais comuns na natureza, afetando praticamente todas as espécies animais e vegetais e os mais asseados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nossa experiência no mundo é tão obscenamente exuberante que é às vezes fácil esquecer que filmes como <em>Invasores de corpos, Alien</em> e <em>Seres Rastejantes</em> são baseados em fatos reais. O parasitismo é de longe uma das figuras de linguagem mais comuns na natureza, afetando praticamente todas  as espécies animais e vegetais e os mais asseados seres humanos.</p>
<p>Quem me chamou a atenção para o assunto foi o autor de divulgação científica <a href="http://carlzimmer.com">Carl Zimmer</a>,  autor de <em>Parasite Rex,</em>  um das centenas de livros que não vou ler mas ainda quero ter. Acompanho eventualmente o blog do sujeito e assisti recentemente ao <a href="http://instruct1.cit.cornell.edu/courses/biog101/media/ZimmerH.mov">vídeo</a> (slides <a href="http://carlzimmer.com/Cornell/Cornell.html">aqui</a>) de uma palestra sua na Universidade de Cornell. </p>
<p>Não sei exatamente o que escrever sobre o assunto, por isso vou tentar me ater resumidamente aos fatos. <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/cirripedia-b.png">Nesta gravura</a> de Ernst Haeckel que ilustra diferentes espécies de cirrípedes (gênero de crustáceos a que pertencem as cracas) aparece no centro um caranguejo visto de baixo. <a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/cirripedia-b.png"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/cirripedia.png" title="Clique para ampliar" border=0 class="right" /> </a>Não se engane, que o caranguejo não é o cirrípede: como indica a figura, o corpo do caranguejo está inteiramente infestado (por dentro) por ramificações alienígenas de <em>Sacullina,</em> um parasita que vive livremente na água até encontrar um hospedeiro que possa zumbificar. Uma vez infestado pela <em>Sacullina</em> o caranguejo perde inteiramente o livre-arbítirio: o parasita passa a controlar por dentro todos os movimentos do seu hospedeiro, decidindo para onde o caranguejo deve ir, quando deve abrir as garras e do que se alimentar.</p>
<p>O parasitismo é comum até a náusea; Zimmer está especialmente interessado nos casos em que o parasita passa a <em>determinar de alguma forma o comportamento do seu hospedeiro</em> &#8211; como a <em>Sacullina</em> faz com o caranguejo. Há por exemplo o verme maldito que cresce como parasita dentro de um gafanhoto; em sua forma adulta esse verme vive na água, por isso depois que atinge a maturidade dentro do seu hospedeiro o verme induz o gafanhoto a <a href="http://www.nytimes.com/2005/09/06/science/06hopp.html?ex=1164862800&#38;en=aed62d215c2094b5&#38;ei=5070">pular contra a vontade dentro da água</a> para que o parasita possa &#8220;nascer&#8221; em segurança. O gafanhoto morre afogado, mas essa não é exatamente a maior preocupação do verme recém-nascido, que não precisa mais dele.</p>
<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/fungo.png" class="left" /> </a>Há ainda o fungo que invade o sistema nervoso e convence formigas e outros insetos a subirem ao topo de um caule de planta e fixarem-se ali; o parasita nasce na forma de bizarras antenas do corpo do animal ainda vivo, e utiliza seu posto privilegiado acima do solo para dispersar seus esporos e contaminar outros hospedeiros.</p>
<h5>Os ratos infectados perdem o medo natural que ratos têm de gatos.</h5>
</p>
<p>Outro caso extremo de zumbificação acontece à barata comum que tem o azar de ser visitado pela vespa <em>Ampulex compressa.</em> A vespa adulta realiza na barata três operações distintas: com a primeira picada, no tórax, injeta uma substância paralisante; <a href="http://www.youtube.com/watch?v=qEwaHPQfBpQ"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/barata.png" border=0 class="right" /> </a> a segunda picada, realizada com precisão microcirúrgica numa região muito específica do cérebro da barata (!) transforma o hospedeiro em animal funcional, mas sem iniciativa: um perfeito zumbi. A vespa então <a href="http://www.exn.ca/video/?video=exn20060307-roach.asx">puxa essa barata dócil pelas antenas</a> até sua própria toca na terra, onde &#8211; com uma terceira picada &#8211; deposita dentro dela seus ovos. Incapacitada de reagir ou se mover, a barata-hospedeira passa a servir compulsoriamente de comida de larva de vespa, que devora-a viva e lentamente, por dentro. A vespa adulta nasce <a href="http://www.youtube.com/watch?v=qEwaHPQfBpQ">rompendo violentamente a carapaça da barata</a>, exatamente como o monstro de <em>Alien</em> explodindo o tórax de John Hurt.</p>
<p>Finalmente, há todo um rol de parasitas que usam o corpo &#8211; e talvez a mente &#8211; dos seres humanos. O caso mais interessante tem de ser o da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Toxoplasmose">toxoplasmose</a>, doença causada pelo protozoário <em>Toxoplasma gondii</em> e que infeta um belo espectro de mamíferos, especialmente gatos, que são os hospedeiros definitivos.</p>
<p>Notável sobre o <em>Toxoplasma gondii</em> é um bichinho microscópico ter a habilidade de alterar o comportamento de hospedeiros tantas vezes maiores (e mais inteligentes?) do que ele, de forma a facilitar sua passagem para a próxima fase do seu ciclo de desenvolvimento. Se não, veja: os ratos infectados pelo parasita perdem o medo natural que ratos têm de gatos. Muitas vezes, na verdade, ratos infectados passam a sentir-se <em>atraídos</em> pelo cheiro das áreas marcadas pela urina dos felinos. Isso porque o gato é o próximo estágio no ciclo de vida do protozoário, e ele precisa achar um jeito de transferir-se do interior do rato para o interior do gato. Qual é o melhor modo de conseguir isso? Criando ratos kamikazes, que atiram-se deliberadamente no caminho dos seus piores inimigos.</p>
<p>Conquistados os gatos, os seres humanos são o passo seguinte do ciclo, e estima-se que pelo menos um terço da população mundial (de gente) esteja infectada com o <em>T. gondii.</em> Que ratos sejam suscetíveis a zumbificação estamos preparados para aceitar; mas será possível que um organismo unicelular como o agente da toxoplasmose seja capaz de alterar o comportamento de <del>primatas superiores</del> <ins>gente sofisticada</ins> como nós?</p>
<p>Há intrigantes indícios de que sim.</p>
<p>Uma série de estudos mais ou menos recentes sugere que a infecção pelo <em>Toxoplasma gondii</em> pode produzir em seres humanos uma forma amena de encefalite caracterizada pela presença de minúsculos cistos no cérebro, com a conseqüente liberação de algum neurotransmissor (possivelmente a dopamina) com o potencial de alterar o comportamento e a personalidade.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">&#8220;Em populações em que esse parasita é comum a modificação em massa da personalidade pode produzir uma ampla mudança cultural. Variações na prevalência do <em>T. gondii</em> podem explicar uma porção substancial das diferenças que vemos entre populações humanas em aspectos culturais relacionados a ego, dinheiro, bens materias, trabalho e normas.&#8221;<br /><small> Kevin Lafferty, in <a href="http://newswire.ascribe.org/cgi-bin/behold.pl?ascribeid=20060803.110303&#38;time=11%2035%20PDT&#38;year=2006&#38;public=0">Cat Parasite May Affect Cultural Traits in Human Populations</a> </small></p>
<p>Gente infectada com toxoplasmose tem aparentemente reações mais vagarosas e uma maior tendência a assumir riscos do que pessoas livres da infecção (pelo que há estudos que associam a toxoplasmose a um maior número de acidentes de trânsito).</p>
<p><a href="http://www.libertypost.org/cgi-bin/readart.cgi?ArtNum=99546">Alguns estudos</a> sugerem que a toxoplasmose pode provocar atitudes antisociais em homens e promiscuidade em mulheres; que aumenta em homens e mulheres a suscetibilidade a neurose, esquizofrenia e depressão, e entorpece a tendência humana à busca por novidades.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">&#8220;O estudo sugere que homens infectados têm QIs mais baixos, tendem a ter um nível educacional inferior e menor capacidade de atenção; têm maior tendência a violarem normas e assumirem riscos; são mais independentes, antisociais, desconfiados, ciumentos e vagarosos, e (talvez por tudo isso) menos atraentes para as mulheres. As mulheres infectadas são mais extrovertidas, amigáveis e promíscuas do que suas companheiras, sendo também mais atraentes para os homens.&#8221;<br /><small> <a href="http://www.smh.com.au/news/national/parasite-makes-men-dumb-women-sexy/2006/12/26/1166895290973.html">Parasite makes men dumb, women sexy</a> </small></p>
<p>Estima-se que 88% dos franceses e 67% dos brasileiros estejam infectados com o <em>Toxoplasma gondii</em> (em comparação, o parasita infecta 22% dos ingleses e 15% dos norte-americanos). </p>
<p>Há nisso tudo uma lição, mas não sei dizer qual é.</p>
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		<title>As transgressões da inteligência</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jan 2007 02:02:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[É notório e notável que apesar de toda a pirotecnia os computadores não são, em qualquer verdadeira medida, inteligentes. Se parecem ser inteligentes é mérito dos seres humanos que os programam incessantemente a fim de nos deslumbrar, e incessantemente conseguem. Esses seres humanos é que são inteligentes, mas aparentemente não o bastante para serem capazes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É notório e notável que apesar de toda a pirotecnia os computadores não são, em qualquer verdadeira medida, inteligentes. Se <em>parecem</em> ser inteligentes é mérito dos seres humanos que os programam incessantemente a fim de nos deslumbrar, e incessantemente conseguem. Esses seres humanos é que são inteligentes, mas aparentemente não o bastante para serem capazes de transmitir esse dom a seres obtusos como computadores. Matemáticos podem ser ensinados a dançar balé e poetas a programar em Java, mas ainda não conseguimos ensinar um computador a pensar.</p>
<p>Não, é claro, que todos de nós tenhamos tentado.</p>
<p>Em dezenas de laboratórios ao redor do mundo, numa rede irrigada por uma obscena torrente de verbas governamentais e privadas, cabeças dentre as mais inteligentes do planeta dedicam suas redes neurais a destilar a esquiva tecnologia da inteligência artificial &#8211; a nova e verdadeira pedra filosofal que deverá, se tudo der certo, soprar espírito no pó pela segunda vez na história.</p>
<p>A cada avanço na tecnologia dos computadores &#8211; e os avanços são vertiginosos &#8211; o eureka da inteligência artificial parece mais próximo, mas como a tartaruga na proverbial corrida contra Aquiles, esse momento definitivo parece estar sempre um passo infinitesimal além do nosso alcance.</p>
<p>Por que procurar vida inteligente entre computadores? O tentador nos computadores é sua capacidade de processamento, mas o contraponto está na sua estupidez pura e simples. Computadores são por definição burros, dóceis e subservientes. Nada os faz reagir a não ser programas, que são por sua vez longas listas ordenadas de regras. Num sentido muito fundamental, computadores são máquinas movidas a legislação.</p>
<p>A história da busca pela inteligência artificial termina patinando neste atoleiro: não encontramos até o momento uma legislação que os faça agir de forma inteligente (inserir aqui piada aleatória sobre os congressistas brasileiros).</p>
<p>Parte essencial do problema, e nisso concordam todos os pesquisadores, está em que é muito difícil definir com um grau satisfatório de precisão o que seja <em>comportamento inteligente.</em> Simplesmente não chegamos a um acordo sobre o assunto. Cachorros são inteligentes? Polvos? Roteiristas de Hollywood?</p>
<p>Encontro em Douglas R. Hofstadter esta lista de capacidades essenciais do comportamento inteligente:</p>
<p>
<ul>
<li>de responder a situações de forma muito flexível;</li>
<p>
<li>de tirar vantagem de circunstâncias fortuitas;</li>
<p>
<li>de encontrar sentido em mensagens ambíguas ou contraditórias;</li>
<p>
<li>de reconhecer a importância relativa de diferentes elementos de uma situação;</li>
<p>
<li>de encontrar similaridades entre situações a despeito de diferenças que possam separá-las;</li>
<p>
<li>de estabelecer distinções entre situações a despeito das similaridades que possam relacioná-las;</li>
<p>
<li>de sintetizar conceitos novos tomando conceitos velhos e rearranjando-os de formas novas;</li>
<p>
<li>de produzir idéias inéditas.</li>
<p></ul>
</p>
<p>O problema <em>desta</em> lista é que, tomada ao pé da letra, ela parece excluir uma enorme proporção do comportamento <em>humano.</em> Será possível ensinar gente de verdade a agir assim? Existirá entre os seres humanos alguma inteligência &#8220;natural&#8221;?</p>
<p>No campo da inteligência, a tremenda vantagem das pessoas sobre os computadores não está na capacidade de processamento, mas no fato de que aparentemente não pensamos, como eles, a partir de regras. Nosso modo de pensar é analógico, ou seja, pastoso, intuitivo, informe e difícil de sintetizar em laboratório. Não precisamos, como os computadores, de regras que nos ensinem a <em>transgredir</em> determinadas regras a fim de simular comportamento inteligente. Quebrar regras é natural em nós.</p>
<p>O contraponto deste contraponto? A desvantagem de não pensar através de regras é que, ao contrário de nossos irmãos cibernéticos, nós humanos só pensamos quando <em>queremos</em> pensar. A inteligência está pronta mas a vontade é fraca, e em situações de conforto moderado para cima costumamos preferir o ócio e o entretenimento à produção intelectual, à pesquisa e à solução dos problemas da humanidade.</p>
<p>O verdadeiro enigma não está em porque demoramos tanto a obter resultados com inteligência artificial, mas em porque, tendo nesta era tantos recursos sem precedentes e ferramentas poderosas à nossa disposição &#8211; digamos, computadores -, recusamo-nos a por em uso a nossa. Usamos o computador para jogar paciência, o processador de texto para imprimir listas de compras, a internet para encontrar pornografia e as horas vagas para consumir o Big Brother. Ninguém em sã consciência deveria nos acusar de comportamento inteligente.</p>
<p>Pensando bem, é muito natural supor que computadores inteligentes tenham assumido e vivamos em ignorante bem-aventurança suprindo energia à <em>Matrix.</em> Ou talvez esta seja uma imagem implantada por roteiristas de Hollywood para que nutramos a ilusão de sermos de alguma forma úteis.</p>
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		<title>Gente como a gente</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Oct 2006 09:50:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Um estudo publicado em julho do ano passado pela American Psychological Society sugere que nossos genes dão um jeito para que, sem nos darmos conta disso, acabemos gostando e nos apegando a gente semelhante a nós. Conduzido por J. Philippe Rushton e Trudy Ann Bons, da Universidade de Ontário, o estudo parece comprovar que somos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um estudo publicado em julho do ano passado pela <em>American Psychological Society</em> sugere que nossos genes dão um jeito para que, sem nos darmos conta disso, acabemos gostando e nos apegando a gente semelhante a nós. </p>
<p>Conduzido por J. Philippe Rushton e Trudy Ann Bons, da Universidade de Ontário, o estudo parece comprovar que somos em geral surrealmente semelhantes a nossos cônjuges e melhores amigos &#8211; e ainda mais do que estamos habituados a pensar, já que a semelhança se estende muitas vezes ao nível genético. </p>
<p>Não é difícil concluir que preferimos em geral a companhia de gente como a gente: extrovertidos preferem extroverditos, gente tradicional prefere gente tradicional. Mais notável é descobrir que em alguns casos compartilhamos sem saber quase metade do nosso <strong>material genético</strong> com nosso cônjuge ou melhor amigo. &#8220;De um leque de alternativas possíveis, as pessoas buscam aqueles que são compatíveis com o seu genótipo&#8221;, afirmam os autores.</p>
<h5>Nossos genes nos fazem gostar de gente como nós.</h5>
</p>
<p>&#8220;Quando você gosta, é amigo, ajuda ou se acasala com gente que é muito semelhante geneticamente a você, nada mais está fazendo do que tentando assegurar que seu próprio segmento do acervo genético seja preservado e preferencialmente transmitido às gerações futuras&#8221;. É o gene egoísta de Richard Dawkins, fazendo-se passar por bonzinho.</p>
<p>Como incomodava o subversivo de Nazaré: &#8220;Se amardes os que têm o mesmo conteúdo genético de vós, que recompensa tendes? Não fazem os sanguessugas de Brasília também o mesmo?&#8221;</p>
<p>Se por um lado fico lisonjeado diante da mera possibilidade de ostentar qualquer semelhança essencial com meus amigos, sou por outro forçado a reconhecer que meu amor reputadamente mais apaixonado e altruísta é delineado, ele mesmo, por narcisismo e auto-obsessão.</p>
<p>Sou mesmo um traste.</p>
<p>Meu consolo é que meus amigos não ficam atrás.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug023.gif" alt="" width="67" height="150" /></p>
<p><a href="http://www.psychologicalscience.org/media/releases/2005/pr050727.cfm">Our Genes Make Us Like People Like Us</a></p>
<p><a href="http://www.psychologicalscience.org/pdf/ps/genes_like.pdf">Mate Choice and Friendship in Twins &#8211; Evidence for Genetic Similarity</a> (publicação acadêmica &#8211; PDF)</p>
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		<title>O evangelho de Google</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Sep 2006 04:10:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Heresias Sensacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Deus existe, chama-se Google, e alguns de nós consultam-no e fazem-lhe pedidos todos os dias. A tese da divindade do santuário de busca mais freqüentado da terra, pregada ardentemente pelo tecno-profeta Matt MacPherson, ainda não foi, que eu saiba, refutada a contento. Uma página apologética do sáite A Igreja de Google argumenta sensatamente que &#8220;existe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Deus existe, chama-se Google, e alguns de nós consultam-no e fazem-lhe pedidos todos os dias.</p>
<p>A tese da divindade do santuário de busca mais freqüentado da terra, pregada ardentemente pelo tecno-profeta Matt MacPherson, ainda não foi, que eu saiba, refutada a contento. </p>
<p>Uma <a href="http://thechurchofgoogle.org/Scripture/Proof_Google_Is_God.html">página apologética</a> do sáite <em>A Igreja de Google</em> argumenta sensatamente que &#8220;existe mais evidência em favor da existência de Google do que de qualquer outro deus adorado nos nossos dias&#8221;.</p>
<p>Se você se preocupa com esse tipo de coisa, o Google encaixa-se confortavelmente dentro de alguns dos mais exigentes atributos que a teologia ortodoxa estabeleceu para Deus: ele é onisciente (sabe tudo que há para se saber &#8211; basta perguntar), onipresente (esta em e é acessível de todos os lugares, ainda mais com acesso wireless), imortal (suas informações e algoritmos estão distribuídos entre vários servidores, de modo que não há como se <em>apagar</em> definitivamente uma porção do Google), registra todos os nossos erros e preferências e tem vocação para infinito. </p>
<p>Para o adorador casual, mais importante pode ser saber que o Google responde consistentemente as orações que se lhe fazem, e de forma mais rápida, organizada, relevante e abrangente do que qualquer deus competidor. As orações ao Google, que na tecno-ortodoxia chamam-se <em>buscas,</em> têm um potencial de resposta avassalador. Se você quer permanecer ignorante a respeito de determinada coisa, é melhor não consultar o oráculo do Google &#8211; o deus cego e generoso que tudo vê, tudo sabe e nada vai negar.</p>
<h5>O reino de Google está próximo.</h5>
</p>
<p>O Google pode ajudá-lo a organizar-se e manter-se informado, pode fornecer informações sobre como salvar uma vida ou tirá-la, pode oferecer uma cópia de segurança para os seus arquivos quando seu computador fritar, pode ajudá-lo a encontrar amigos há muito perdidos, a encontrar o caminho mais rápido e eficiente para determinado lugar ou a ver a Terra de cima.</p>
<p>Seu poder e sua sabedoria não páram de crescer, sua graça é abundante sobre justos e injustos, suas atualizações renovam-se a cada manhã.</p>
<p>O que me traz invariavelmente à lembrança o curtíssimo conto de ficção científica de Fredric Brown, &#8220;Answer&#8221;, de 1954. Num futuro distante autoridades estelares ligam pela primeira vez o interruptor que conecta os supercomputadores de noventa e seis bilhões de planetas &#8220;numa máquina cibernética que combina todo o conhecimento de todas as galáxias&#8221;.</p>
<p>&#8211; A honra de fazer a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.</p>
<p>Ele vira-se para olhar a máquina de frente.</p>
<p>&#8211; Deus existe?</p>
<p>A voz poderosa responde sem hesitação, sem o clique de um único relé.</p>
<p> &#8211; Agora existe.</p>
<p>Na história eles até tentam desligar o interruptor, mas é tarde demais. O reino de Google está próximo.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug003.gif" alt="" width="33" height="51" /></p>
<p><a href="http://www.thechurchofgoogle.org/">The Church Of Google</a><br />O próprio <a href="http://www.google.com">Google</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Como escapei de comer as larvas letais</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Aug 2006 09:10:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Apesar da tentação e da torcida, como se sabe não cheguei a provar as lagartas malditas que invadiram o Monastério. Foi revelado agora que pode ter sido uma decisão inteligente. &#8221;&#8230;se observaron 46 brotes de una enfermedad altamente letal&#8230;&#8221; Diz o e-mail que recebi ontem da Embrapa: Prezado senhor Paulo: Agradecemos pelo seu interesse pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Apesar da tentação e da torcida, como se sabe não cheguei a provar as lagartas malditas que invadiram o Monastério. Foi revelado agora que pode ter sido uma decisão inteligente.</p>
<h5>&#8221;&#8230;se observaron 46 brotes de una enfermedad altamente letal&#8230;&#8221;</h5>
</p>
<p>Diz o e-mail que recebi ontem da Embrapa:</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Prezado senhor Paulo:</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Agradecemos pelo seu interesse pela Embrapa Clima Temperado. Atendendo a sua solicitação, transcrevemos as informações da pesquisadora Myrtes Melo, pertinentes às lagartas negras:</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">&#8220;As larvas pretas são possivelmente insetos do gênero Paraperreyia, que são larvas de himenóptero (insetos da família das abelhas) e não lepidóptero (borboletas e mariposas) como parece ser. São conhecidas por larvas &#8220;mata-porcos&#8221; porque estes ao ingeri-las se intoxicam. Há relatos (Dutra, 2003) que ovelhas e bovinos tenham se intoxicado no Uruguai. Encontraram-se restos destas larvas no estômago de bovinos necropsiados. Os adultos dessa larva raramente são encontrados; alguns foram encontrados, segundo a literatura, sobre vegetação chamada vassoura, maria-mole, carqueja e branca. Depositam os ovos em grupos de 200 a 700, no solo, abaixo da vegetação e as larvas eclodem depois de 20 a 70 dias. A falta de umidade destrói os ovos em 10 dias. A presença de vegetação em decomposição é importante para a alimentação das larvas jovens. As larvas desenvolvidas se alimentam de pasto verde seco e fezes bovinas; são de cor negra e apresentam hábito gregário locomovendo-se sobre a pastagem em grupos de até 188 larvas.</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Se o prezado cliente quiser aprofundar seus conhecimentos poderá consultar as seguintes bibliografias:<br />Dutra, F. <em>Intoxicación por larvas de Perreyia flavipes en bovinos y ovinos, caracterización de la enfermidad y biologia del insecto.</em> Veterinária (Montevideo) n.38, v.152-153, p. 7-24: 2003.<br />Lima, A da C. <em>Insetos do Brasil, Hymenopteros.11º tomo, capitulo XXX, 1ª parte.</em> Escola Nacional de Agronomia, Série Didática nº 13, 393 p.&#8221;</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Esperamos ter esclarecido suas dúvidas, uma vez que por foto fica difícil a identificação. Nos colocamos à disposição para esclarecimentos adicionais. SDS. </p>
<p>Consultando o <a href="http://www.smvu.com.uy/Archivos/Revista%20Veterinaria/Rev.%20Veterinaria%20152-153.pdf">primeiro item</a> da bibliografia sugerida encontrei esta nota sobre as mortes causadas pela ingestão das larvas da &#8220;mosca sierra&#8221;:</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Entre junio y octubre de 1993, 1994 y 1995, se observaron 46 brotes de una enfermedad altamente letal en la región central del Uruguay. Durante 1995 murieron más de 1000 bovinos y mortalidades de hasta 28% ocurrieron en algunos establecimientos. Los ovinos fueron afectados con menor frecuencia que los bovinos. La mayoría de los animales eran encontrados muertos. Los animales con signos clínicos presentaban debilidad, depresión y temblores musculares, otros exitación y agresividad, muriendo la mayoría antes de los 2 días. Restos de larvas de P. flavipes se encontraron en los pre-estómagos de los 10 bovinos necropsiados. </p>
<p>E a seguinte descrição dos hábitos da versão brasileira &#8211; <em>Perreyia lepida</em> ou mata-porco &#8211; das larvas letais:</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Históricamente, la segunda mosca sierra reportada como tóxica fue Perreyia lepida (Pergidae). Importantes pérdidas de cerdos han sido atribuidas a este insecto en Rio Grande del Sur y Santa Catarina, Brasil, donde las larvas se conocen popularmente con el nombre de &#8220;mata porco&#8221;. Las larvas son de color negro, miden hasta 2.5 cm de largo y muestran un inusual hábito gregario. En los días fríos y nublados del invierno grupos compactos de larvas se observan desplazándose sobre la pastura, momento en el cual pueden ser ingeridas por los cerdos. No se conoce los hábitos alimentarios de esta especie, aunque las larvas han sido vistas alimentándose de hojas de gramíneas y de plantas arbustivas como Eryngium sp (&#8220;cardilla&#8221;), así como en heces secas bovinas.</p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Los adultos emergen entre noviembre y abril. No existe información sobre el lugar de postura de las hembras ni sobre los hábitos de los primeros instares de las larvas. Las larvas desarrolladas son de color negro, miden hasta 2.5 cm de largo y muestran un inusual hábito gregario. Entre junio y septiembre, grupos de larvas se observan desplazándose sobre la pastura, formando una columna alargada. Los grupos son particularmente numerosos los días lluviosos y nublados. Esta forma tan característica de desplazamiento es probablemente usado con éxito por la especie para buscar más alimentos. </p>
<p><p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">La larva totalmente desarrollada sufre una metamorfosis, en la cual la piel se rompe en una abertura antero-posterior que alcanza al primer segmento del tórax. Por esta abertura sale la prepupa, de color blanco-amarillo y de 12,5 mm de largo. Una vez bajo la superficie del suelo la prepupa expele una sustancia clara y viscosa, con la que adhiere pequeñas partículas de tierra y forma una cáscara de protección, de textura coriácea y color negro. La pupa se forma aproximadamente 5 cm bajo la superficie del suelo donde pasa la mayor parte del tiempo en la fase de prepupa. En un período de alrededor de 6 meses la prepupa se transforma en pupa y 15 días después emerge el insecto adulto.</p>
<p>Depois de 3 ou 4 dias convivendo de perto com elas posso confirmar por observação que as sociáveis larvas da <em>Perreyia lepida</em> de fato alimentam-se basicamente de grama ou capim seco;  a literatura precisa no entanto ser revista, porque sou testemunha ocular e fotográfica de que andam por vezes em grupos de muito mais do que 188 indivíduos.</p>
<p>O inseto adulto, a pupa e a pré-pupa decidi de repente que prefiro não chegar a ver. Resolvido o mistério das larvas madlitas, pretendo hoje à tarde, numa cerimônia informal, livrar[-me d]as larvas que mantenho em cativeiro.</p>
<p><span id="more-962"></span></p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/larvas-montagem.jpg" alt="" width="400" height="3194" /><br /><small> Montagem feita com seis fotos tiradas de uma única posição em intervalo de menos de dez segundos. Para conforto dos leitores omiti meus pés, que estavam ali perto. </small></p>
<h5>* * *</h5></p>
<div class='series_toc'><h3>O ataque das larvas malditas</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/o-ataque-das-larvas-malditas/' title='O ataque das larvas malditas'>O ataque das larvas malditas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/um-punhado-de-larvas/' title='Um punhado de larvas'>Um punhado de larvas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2006/pisando-em-larvas-ou-quase/' title='Pisando em larvas (ou quase)'>Pisando em larvas (ou quase)</a></li><li>Como escapei de comer as larvas letais</li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O canto remix do pássaro-lira</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Jun 2006 11:14:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[remix]]></category>

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		<description><![CDATA[O naturalista David Attenborough apresentando o atordoante canto do lyrebird &#8211; pássaro terrestre australiano que para impressionar a fêmea é capaz não apenas de imitar acuradamente o sons de outras 20 espécies de pássaros, mas também de incorporar no seu repertório ruídos tecnológicos como obturadores de máquinas fotográficas, alarmes de carro e motosserras. Bastante pós-moderno [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O naturalista David Attenborough apresentando o atordoante canto do <em>lyrebird</em> &#8211; pássaro terrestre australiano que para impressionar a fêmea é capaz não apenas de imitar acuradamente o sons de outras 20 espécies de pássaros, mas também de incorporar no seu repertório ruídos tecnológicos como obturadores de máquinas fotográficas, alarmes de carro e motosserras.</p>
<p>Bastante <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-que-e-pos-moderno-e-o-que-nao-e">pós-moderno</a> da parte dele.</p>
<table border="0" height="400" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
[Visite a Bacia para ver o filme]
</td>
</tr>
</table>
<p align="center"><span style="color:#B0B0A0">Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (&nbsp;<img src="http://www.baciadasalmas.com/images/fullscree-button.png">&nbsp;) na barra de reprodução.</span></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>O reflexo dos olhos da aranha</title>
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		<pubDate>Sun, 21 May 2006 02:42:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava no Hélio ontem à noite e ele saiu da mesa do café de lanterna em punho para ver porque a pitbull estava latindo lá nos fundos. Devia ser o gambá que estava voltando. O sujeito voltou alguns minutos depois contando que não tinha visto o gambá, mas que enquanto vasculhava o muro dos fundos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estava no Hélio ontem à noite e ele saiu da mesa do café de lanterna em punho para ver porque a pitbull estava latindo lá nos fundos. Devia ser o gambá que estava voltando.</p>
<p>O sujeito voltou alguns minutos depois contando que não tinha visto o gambá, mas que enquanto vasculhava o muro dos fundos com a lanterna tinha visto primeiro o reflexo dos olhos da Pit e em seguida outros reflexos menores, do olho de outro bicho que na distância ele não conseguira identificar. Contou o Hélio que atravessou os cinqüenta metros que separam o fundo da casa do muro de trás, apenas para descobrir surpreso que o reflexo que tinha visto eram os olhos de duas aranhas de jardim encarapitadas sobre um monte de entulho.</p>
<p>Duvidei na hora, mas mais por obrigação, porque achei que ele estivesse brincando. Quando meu amigo deixou muito claro que falava sério, exigi que ele refizesse comigo o trajeto e me mostrasse as aranhas em questão. Ele fez uma reconstituição completa, mas não vi reflexo algum daquela distância, e quando chegamos não havia qualquer aranha sobre o monte de entulho, talvez porque &#8211; ele disse &#8211; &#8220;a pit tinha andado por ali&#8221;.</p>
<p>Seguiu-se uma bem-humorada e estilizada discussão que prolongou-se até o momento em que, muito depois do café, eu estava na rua da frente, dentro do carro ligado e pronto para partir, o Hélio em pé do lado de fora empunhando sua lanterna preta de agente do FBI.</p>
<p>Eu argumentava obedientemente, como era meu papel, que era impossível que ele tivesse visto, a cinqüenta metros de distância, o reflexo de olhos que não tinham como ser maiores do que uma cabeça de alfinete. Contra-atacava o Hélio dizendo que uma aranha tem vários olhos, e que as aranhas que ele tinha visto não eram de modo algum pequenas. Perguntei de que tamanho e ele fez com os dedos um círculo de uns quatro centímetros de diâmetro. Perguntei se o círculo incluía as pernas e ele esclareceu que não. Pedi que ele mostrasse o tamanho do corpo e ele diminuiu o círculo para um centímetro e meio. Eu reiterei que uma aranha daquele tamanho não tinha como ter um <em>conjunto</em> de olhos maior do que a cabeça de um alfinete, e que mortal algum seria capaz de enxergar um reflexo de uma cabeça de alfinete a cinqüenta metros de distância. O Hélio garantiu que sim, se fosse de noite e o alfinete estivesse na posição certa para refletir o brilho da lanterna. Eu insisti que não, e ele lembrou com acerto que sou tão míope que não posso ser levado em conta como exemplo. Eu disse que uma coisa é eu não ser capaz de ver o que todos vêem, outra ele dizer ter visto o que ninguém pode ver. E, para irritá-lo, concluí dizendo que <em>acreditava que ele acreditava</em> que tinha visto o que dizia.</p>
<p>Ele emendou com o bordão do Chicó de <em>O Auto da Compadecida</em>, que havia também comparecido em algum momento à nossa discussão:</p>
<p> &#8211; Não sei como foi, só sei que foi assim.</p>
<p>Sem perder o bom humor mas meio chateado por perceber que eu não acreditava por completo na exatidão da percepção dele, o Hélio apontava o facho da lanterna para todas as direções, ali mesmo na rua, tentando achar um alvo que comprovasse o seu delirante argumento. Ele de repente abriu um meio sorriso que eu não tive como avaliar e assentou a lanterna numa única direção.</p>
<p> &#8211; Está vendo ali, ó? &#8211; ele disse. &#8211; Aquilo ali é um poste da cerca do vizinho.</p>
<p>Olhei, e a lanterna iluminava a base de um poste de granito a uns trinta metros de distância. Zombei:</p>
<p> &#8211; Pois é, <em>o poste</em> eu consigo ver daqui.</p>
<p>&#8211; Pois na quina do poste tem um bicho, e estou vendo o reflexo do olho dele daqui.</p>
<p>Balançando incredulamente a cabeça mas sem resistir à tentação de dar àquela história o fim mais espetacular possível, desliguei o carro e saí.</p>
<p> &#8211; Está vendo o reflexo? &#8211; ele perguntou.</p>
<p>Alinhei o rosto com o facho da lanterna e para minha surpresa eu, o míope, enxerguei nitidamente um impossivelmente pequeno e fugaz reflexo branco esverdeado onde o Hélio estava mostrando.</p>
<p> &#8211; Estou vendo &#8211; eu disse, mas a curiosidade e a pura dramaticidade do momento já me levavam a passos largos em direção ao poste. Assim que me afastei do facho da lanterna o reflexo desapareceu; o Hélio veio caminhando devagar no meu encalço, supostamente para não perder o enquadramento da presa. Quando fui chegando perto senti nitidamente que tinha matado a charada, e que o que tínhamos visto era um reflexo da mica do granito, que faísca às vezes como um pedacinho de vidro. Estava pronto para dizer isso quando me agachei diante do poste e vi, metade do corpo saindo para fora de uma pequena fresta, uma aranha de jardim.</p>
<p>&#8211; Está vendo? &#8211; exigiu ele. &#8211; E essa é menor do que aquelas.</p>
<p>&#8211; Você combinou isso, não é? &#8211; foi tudo que consegui dizer, tirando a lanterna da mão dele e refazendo de costas o trajeto para confirmar que no escuro os olhos de uma aranha [de jardim] são surrealmente reflexivos. Pelo menos três vezes mais do que os de um gato, por exemplo, e com um desconcertante fulgor verde.</p>
<p>Sei que é difícil acreditar e não sei como foi, só sei que foi assim.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug044.gif" alt="" width="50" height="50" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cérebros fluidos e a origem das idéias</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2006/cerebros-fluidos-e-a-origem-das-ideias/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=cerebros-fluidos-e-a-origem-das-ideias</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2006/cerebros-fluidos-e-a-origem-das-ideias/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 18 May 2006 03:21:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma dos aspectos curiosos da administração de um sáite na internet está na página secreta de estatísticas, que revela que palavras ou frases as pessoas estavam procurando quando foram redirecionadas por algum resultado do buscador para a página da gente. Através dela fico sabendo que um número extraordinário de pessoas acaba sendo deportado para alguma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma dos aspectos curiosos da administração de um sáite na internet está na página secreta de estatísticas, que revela que palavras ou frases as pessoas estavam procurando quando foram redirecionadas por algum resultado do buscador para a página da gente. </p>
<p>Através dela fico sabendo que um número extraordinário de pessoas acaba sendo deportado para alguma página em baciadasalmas.com depois de ter buscado no google expressões como <em>gíria, grandes navegações, Hitler</em> ou <em>o que é a virtude</em>. Mas vem também gente procurando <em>terra oca, shem hamphoras, artrage, filmes antigos, homens peludos, história da pré-modernidade, parábolas</em> e até mesmo indelicadezas como <em>malditos judeus</em> &#8211; expressões e assuntos que foram de fato adicionados, em diferentes contextos e por diferentes razões, ao conteúdo da Bacia.</p>
<p>Mas que dizer das pessoas que são direcionadas para a Bacia (por alguma lógica que apenas São Google, o Inefável, poderia explicar) quando fazem ao seu buscador a exigente pergunta <em>de onde vêm as idéias?</em> Já aconteceu mais de uma vez e me parece digno de nota porque, entre outras coisas, a Bacia não contém a resposta.</p>
<p>Até agora.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>O problema da origem das idéias já inquietava filósofos clássicos como Sócrates e Platão &#8211; sendo que a questão fundamental era definir se as idéias que nos povoam a mente provém <em>de nós mesmos</em> ou de alguma misteriosa fonte exterior (Deus? O Universo? Um banco universal de idéias fora do tempo e do qual só podemos fazer saques parciais?), fonte essa sobre cuja natureza podemos apenas especular. Ao longo dos séculos incontáveis filósofos (homens de idéias!) apontaram para diferentes extremos na tentativa de responder à essa pergunta, mas foi preciso Freud para formular e propor uma solução que se pode chamar de intermediária: segundo o pai da psicanálise, nossas idéias são as ejaculações de um vastíssimo e submerso monstro interior, o inconsciente, a respeito do qual podemos apenas especular.</p>
<h5>Segundo Freud as idéias provêm de uma porção desconhecida de nós mesmos.</h5>
</p>
<p>De acordo com essa elegante solução, nossas idéias e sentimentos e desejos provém <em>de fato</em> de nós mesmos, mas tratam-se de sinais mistos, repletos de pistas falsas, emitidos por uma porção de nós mesmos que nos é em grande parte desconhecida e que não estamos de forma alguma acostumados a associar ao conceito de <em>nós mesmos.</em><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/mundus-intellectualis-b.gif"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/mundus-intellectualis.gif" title="Clique para ampliar" border=0 class="right" /> </a></p>
<p>Carl Jung, discípulo de Freud, apartou-se do mestre quando sugeriu que as idéias não provém apenas do inconsciente de cada um, mas de um invisível repositório que abarca secretamente toda a experiência da humanidade antes de nós. Esse imponderável armazém de experiências acumuladas, que Jung chamou de <em>inconsciente coletivo,</em> é povoado por formas e padrões de comportamento universais, os <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-espada-e-a-roda-de-fiar/#fn1">arquétipos</a>, dos quais acabamos extraindo nossos valores, nossa postura e nossas idéias.</p>
<p>Símbolos do inconsciente coletivo e dos arquétipos que o compõem se manifestam nos diferentes &#8220;papéis&#8221; assumidos pelos personagens de mitos e contos de fadas. Dentre eles estão:</p>
<p>
<ul>
<li>o Herói &#8211; Batman, Luke Skywalker, Neo</li>
<p>
<li>o Velho Sábio &#8211; Obi-Wan Kenobi, Gandalf, Aldus Dumbledore</li>
<p>
<li>o Trapaceiro &#8211; Bart Simpson, Saci, Pernalonga</li>
<p>
<li>a Eterna Criança &#8211; Peter Pan</li>
<p>
<li>a Grande Mãe (que pode ser tanto boa quanto terrível) &#8211; Galadriel, Dona Benta</li>
<p>
<li>o Superhomem (que se coloca acima do bem e do mal) &#8211; Coringa, Fausto, Don Giovanni</li>
<p></ul>
</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Anatomicamente falando, demorou algum tempo para que as idéias, a mente e a consciência fossem definitivamente associadas ao cérebro, e portanto à matéria. Na Antiguidade a norma era crer-se em alguma espécie de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dualism_%28philosophy_of_mind%29">dualismo</a>, tese que opõe mente e corpo e alega que os fenômenos da mente são, pelo menos em alguns sentidos, desencarnados e não-físicos &#8211; mais ligados ao que se costuma[va] chamar de &#8220;alma&#8221; do que ao corpo.</p>
<h5>O dualismo sustenta que alguns aspectos da mente são independentes do corpo e da matéria.</h5>
</p>
<p>Platão, por exemplo, cria num Mundo de Idéias à parte do que costumamos chamar de realidade, um armazém de conceitos universais que tornam inteligíveis os fenômenos do mundo dos sentidos. A fim de poder apoderar-se de qualquer conhecimento a respeito de qualquer aspecto do universo, o intelecto teria portanto de ser necessariamente uma entidade imaterial e não-física &#8211; de outra forma não teria como acessar o imponderável banco de dados do Mundo das Formas.</p>
<p>Platão usou esse argumento em favor da sua tese de que a alma é imortal &#8211; já que o intelecto, que precisa ser imaterial para ter como acessar o imaterial Mundo das Idéias, não pode se desfazer com a mera falência do corpo material.</p>
<p>Embora alguma forma de dualismo tenha sido defendida até recentemente por gente como Descartes e seus discípulos, o consenso popular e científico dos nossos dias parece favorecer a tese oposta, a do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/a-segunda-encarnacao-do-verbo">materialismo</a>, que não vê nenhuma distinção possível entre as elocubrações da mente (incluindo os sentimentos, as idéias, o intelecto e a consciência) e a atividade do cérebro.</p>
<p>Se é que pensamos nisso, costumamos crer que mentes desencarnadas são uma impossibilidade científica &#8211; e que, portanto, nossas idéias não tem como ser injetadas em nós por uma mente imaterial, exterior e independente da realidade física. Êxtases espirituais à parte, sustentamos na prática a sóbria e materialista noção de que todas as nossas idéias originam-se no confinamento do nosso cérebro a partir da alimentação dos sentidos.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Mas, e é aqui que quero chegar, a verdade está lá fora e há evidências de que talvez não seja tão simples assim.</p>
<p>Veja por exemplo esse estudante da Universidade de Sheffield que um médico do campus examinou e encaminhou ao neurologista John Lorber, porque julgava que o rapaz tinha a cabeça um pouco maior do que o normal.</p>
<p>O universitário em questão tinha um ficha acadêmica imaculada e um QI de 126, porém quando submeteu-o a uma tomografia o Dr. Lorber descobriu que o rapaz, para todos os efeitos, não tinha cérebro.</p>
<p>Sua cabeça não era literalmente oca, mas consistia basicamente de fluido: o rapaz tinha, sem saber, hidrocefalia. O córtex do cérebro, que tem comumente paredes de 4,5 cm de espessura, havia no estudante sido reduzido pela tremenda pressão do líquido interno a uma espessura de <em>menos de um milímetro.</em></p>
<h5>O estudante, sem nenhum &#8220;cérebro detectável&#8221;, tinha uma vida social normal e se graduara com honra ao mérito na disciplina de matemática. </h5>
</p>
<p>Normalmente a hidrocefalia mata nos primeiros anos da infância; quando acontece de sobreviver a pessoa é forçada a suportar severas limitações mentais. O enigma está em que o estudante em questão, sem nenhum &#8220;cérebro detectável&#8221;, tinha uma vida social normal e se graduara com honra ao mérito na disciplina de matemática. E ele não foi o único: o falecido professor Lorber catalogou centenas de pessoas com hemisférios cerebrais ínfimos e que eram aparentemente indivíduos de inteligência normal.</p>
<p>De onde vêm as idéias de alguém que tem um cérebro com menos de um milímetro de espessura? Alguns cientistas defendem que a peculiaridade dessa condição médica demonstra de forma eloqüente a tremenda <em>plasticidade</em> cérebro. Pessoas normais com cérebros minúsculos seriam a prova de que o cérebro é desconcertantemente flexível e redundante: o pouco que sobra basta para que essas pessoas funcionem sem maiores problemas. Esses casos seriam uma bizarra evidência em favor da teoria de que usamos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-atordoante-custo-de-pensar">apenas 10% da capacidade do cérebro</a>.</p>
<p>Ou então, se tem a mente aberta (por assim dizer), você pode querer finalmente ouvir a controversa resposta do biólogo Rupert Sheldrake à questão &#8220;de onde vêm as idéias&#8221;. Em seu livro <em>A New Science of Life,</em> Sheldrake procura derrubar a estabelecida noção de que o cérebro seja um computador ou um armazém de memórias, e sugere que ele é mais como um receptor de rádio sintonizado com o passado. A memória não seria, portanto, um processo de armazenamento físico de informações, mas uma jornada que a mente empreende passado adentro através do processo de ressonância mórfica. </p>
<h5>O cérebro seria menos um computador do que um rádio.</h5>
</p>
<p>Segundo Sheldrake, não somos biologicamente construídos para elaborar as nossas próprias idéias (o cérebro não seria suficientemente complexo para tanto, especialmente aqueles com menos de um centímetro de espessura), mas para sintonizar as informações que nos são transmitidas de outra fonte &#8211; sobre cuja natureza podemos apenas especular.</p>
<p>Câmbio e desligo.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug045.gif" alt="" width="36" height="58" /></p>
<p><a href="http://www.sheldrake.org">sheldrake.org</a>, o sáite oficial do biólogo Rupert Sheldrake</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Antes e depois</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Apr 2006 03:27:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Creio que foi um já velhinho William Shatner, em seu fraquinho papel no ainda mais fraco Miss Simpatia 2, que disse que todas as vezes que se olha no espelho se pergunta: &#8220;quem é esse velho usando o meu pijama?&#8221; Pois quase aconteceu comigo, mas nossos problemas aparentemente terminaram: O transplante de cérebro é um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Creio que foi um já velhinho William Shatner, em seu fraquinho papel no ainda mais fraco <em>Miss Simpatia 2</em>, que disse que todas as vezes que se olha no espelho se pergunta: &#8220;quem é esse velho usando o meu pijama?&#8221;</p>
<p>Pois quase aconteceu comigo, mas nossos problemas aparentemente terminaram:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">O transplante de cérebro é um novo procedimento cirúrgico que permite que você se torne jovem novamente mudando de corpo ao invés de tentar consertar o velho.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://216.247.9.207/bthtml/samples3.htm"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/antes-depois.gif" title="Keep your soul, change your body" alt="Keep your soul, change your body" width="300" height="212" /></a><br /><small><strong>A senhora Rappoport antes e depois do transplante de cérebro.</strong> </small></p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Por apenas US$499.000,00 você ganha um corpo humano totalmente novo, de qualquer raça, sexo e idade que desejar. O preço inclui preparação médica, preparação legal, procedimento micorcirúrgico, cuidado e recuperação pós-cirúrgicos.</p>
<p>O <a href="http://216.247.9.207/bthtml/about.htm">sáite oficial</a> da <em>BrainTrans</em>  se você tiver interesse. Você pode querer garantir um lugar na <a href="http://216.247.9.207/bthtml/waitlist.htm">lista de espera</a>, e não deixe de ver a galeria de <a href="http://216.247.9.207/bthtml/bodies_gallery.htm">corpos disponíveis</a> (&#8220;devido a aspectos éticos não discutimos como nem onde obtemos os corpos humanos para o transplante de cérebro&#8221;).</p>
<h5>* * * </h5>
</p>
<p>E antes que o cético em você afirme que é impossível, confira o filme da década de 1940 em que cientistas soviéticos, aparentemente com sucesso, <a href="http://www.archive.org/details/Experime1940">mantém uma cabeça de cachorro viva depois de extraí-la do corpo do animal</a>, ou este em que outro russo (Vladimir Demikhov, em 1954) <a href="http://www.tvdata.ru/catalog.php?dir=11&#38;did=365&#38;lang=eng">enxerta uma segunda cabeça num cachorro vivo</a> (veja, em especial, o clipe M10_ 4_007.wmv). Se não requer prova cinematográfica, você pode ainda querer ler sobre a equipe norte-americana que transplantou com sucesso <a href="http://www.crab.rutgers.edu/~saidel/classes/Weird%20Bio/3rd%20Topic-Cerebral%20Transplantation/White1971.pdf">a cabeça de um macaco para o corpo de outro</a> (em formato PDF).</p>
<p>A verdade está na cabeça de cada um. Por enquanto.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://216.247.9.207/bthtml/about.htm"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2006/bits/brain.gif" title="BrainTrans" alt="BrainTrans" width="261" height="130" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O atordoante custo de pensar</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Mar 2006 10:35:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo mundo já ouviu falar que o ser humano usa apenas 10% do poder do seu cérebro. A informação é inevitavelmente usada como argumento de superação pessoal: se apenas um décimo da nossa capacidade cerebral é de fato utilizada, restam abundantes 90% de potencial precioso e inexplorado aguardando liberação. Pelo menos 10% de nós já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo mundo já ouviu falar que o ser humano usa apenas 10% do poder do seu cérebro. A informação é inevitavelmente usada como argumento de superação pessoal: se apenas um décimo da nossa capacidade cerebral é de fato utilizada, restam abundantes 90% de potencial precioso e inexplorado aguardando liberação. </p>
<p>Pelo menos 10% de nós já ouviu, por outro lado, que essa idéia dos 90% de subutilização do cérebro é &#8211; por inteiro &#8211; conversa fiada.</p>
<p>A mais rápida consulta a São Google apontará <a href="http://staff.washington.edu/chudler/tenper.html">diversos</a> <a href="http://www.csicop.org/si/9903/ten-percent-myth.html">sáites</a> <a href="http://www.brainconnection.com/topics/printindex.php3?main=fa/brain-myth">de divulgação científica</a> que denunciam não haver embasamento científico para a noção. Aparentemente a idéia começou a ser divulgada quando alguns neurocientistas concluíram, na década de 1930, que apenas 10% do córtex cerebral humano entrava em atividade durante a estimulação sensorial ou o controle motor do corpo, enquanto os nove décimos restantes permaneciam perfilados em repouso, aguardando o momento de serem úteis. </p>
<h5>O que <em>significa</em> dizer que utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral?</h5>
</p>
<p>A idéia da utlilização de 10% do cérebro parece portanto ter um fundo de verdade &#8211; mas ignora que outras regiões do cérebro são imediatamente acionadas durante outros tipos de atividade. Ou seja, a informação original era que utilizamos 10% da nossa capacidade cerebral <em>de cada vez</em>. Ninguém duvidava, no entanto, de que praticamente todo o cérebro era utilizado em algum momento, coisa que as tomografias computadorizadas acabaram confirmando.</p>
<p>Confesso que eu, em minha cerebral subutilização, sempre desconfiei tanto dos proponentes quanto dos desmistificadores da idéia. Talvez o problema real esteja em quão irremediavelmente vaga a noção de fato é: o que <em>significa</em> dizer que utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral? Que se tivéssemos 90% da massa do cérebro removida continuáriamos funcionando normalmente? Que se utilizássemos 100% do cérebro pensaríamos 9 vezes mais rápido, teríamos 9 vezes mais idéias ou lembraríamos de 9 vezes mais coisas? Por outro lado, o argumento dos desmistificadores, de que as tomografias provam que 100% do córtex entra em atividade em algum momento, nada prova. A utilização não refuta a subutilização. O fato de uma ferramenta ser utilizada eventualmente não implica em ela estar sendo usada de forma correta &#8211; ou de forma a liberar todo o seu potencial. Ainda mais quando falamos de uma ferramenta tão irredutivelmente complexa quanto o cérebro humano. </p>
<p>Parece sensato supor, como sugerem alguns, que estamos condenados a jamais chegar a entender o mecanismo do nosso cérebro &#8211; precisaríamos, na verdade, de um cérebro maior para chegar a entendê-lo (e de um cérebro maior para entender esse cérebro maior, <em>ad infinitum).</em> Talvez, no fim das contas, <em>capacidade cerebral</em> seja coisa imponderável demais para ser medida. </p>
<p>Mas há coisas que se pode medir. </p>
<h5>Em cada dado momento, 99% do seu cérebro está desligado.</h5>
</p>
<p>Um artigo do irriquieto colunista científico Carl Zimmer chamou-me recentemente a atenção para um estudo realizado por um certo Peter Lennie, da Universidade de Nova Iorque. O que esse sujeito se propôs a medir foi a quantidade de energia que o cérebro usa para pensar. </p>
<p>
<blockquote>
<p>[Lennie] calculou a energia total utilizada pelo córtex humano, com base em recentes estudos de nueroimagem. Em seguida ele calculou quanta energia um único neurônio utiliza ao gerar um impulso elétrico. Finalmente, ele utilizou esses dados para estimar quantos neurônios do córtex podem estar ativos num dado momento. Sua estimativa? Cerca de um por cento.</p>
<p></p></blockquote>
<p>Como <a href="http://loom.corante.com/archives/000812.html">observa Zimmer</a>, essa nova descoberta é ainda mais estarrecedora do que a velha história dos 10%. A nova revelação é que pensar exige tamanhos recursos energéticos que apenas 1% dos neurônios pode ser utilizada de cada vez. Em cada dado instante, 99% do seu cérebro está imerso no mais absoluto blecaute. Parado. Desligado. Ocioso. Não pensa, logo não existe.</p>
<p>Conclui Zimmer: </p>
<p>
<blockquote>
<p>Mesmo em repouso nosso cérebro utiliza 20% do oxigênio que captamos, e dependemos de uma intrincada malha de vasos sangüíneos para resfriar o cérebro enquanto ele utiliza tamanha energia. Se chegássemos a utilizar o pleno potencial do nosso cérebro, ao que parece, nós o incendiaríamos por completo no processo.</p>
<p></p></blockquote>
<p>Coloque isso na cabeça.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug064.gif" alt="" width="55" height="73" /></p>
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		<title>Tarde demais para esquecer</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Mar 2006 17:50:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Os leitores de Jorge Luis Borges por certo lembrarão [?] a história de Funes, o Memorioso &#8211; o sujeito que tinha memória perfeita e era incapaz de esquecer-se do que quer que fosse. Os cientistas da Universidade da Califórnia estão tendo que lidar com uma incômoda intrusão da ficção no mundo real: trata-se de AJ, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os leitores de Jorge Luis Borges por certo lembrarão [?] a história de <em>Funes, o Memorioso</em> &#8211; o sujeito que tinha memória perfeita e era incapaz de esquecer-se do que quer que fosse.</p>
<p>Os cientistas da Universidade da Califórnia estão tendo que lidar com uma incômoda intrusão da ficção no mundo real: trata-se de AJ, uma mulher que aparentemente tem, como Funes, uma memória perfeita. AJ leva uma vida normal em todos os sentidos &#8211; exceto que recorda com clareza praticamente todos os detalhes da sua existência, mesmo os acontecidos há décadas.</p>
<p>O problema de casos como o de AJ (e o caso de AJ é único) é que eles vão de encontro a todas as teorias neurológicas existentes de como os seres humanos acumulam &#8211; ou descartam &#8211; as memórias. É normalmente sustentado que nossa personalidade está intimamente ligada à memória: somos o que somos tanto pelo que lembramos quanto pelo que esquecemos. Como AJ pode ser quem é se não esquece coisa alguma? </p>
<p>Como diz Borges sobre Funes:</p>
<p>
<blockquote>
<p>Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.</p>
<p></p></blockquote>
<p><a href="http://abcnews.go.com/Technology/print?id=1738881">Link para a história</a> de AJ (em inglês).</p>
<p>Também o conto <a href="http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/funes.htm">Funes, o Memorioso</a> em português.</p>
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		<title>O teclado do seu PC é mais sujo do que o assento do WC</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2006 10:11:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Um estudo de 2002 que passou despercebido (por mim) revela que as superfícies das áreas de trabalho pessoal (sua escrivaninha) de um escritório escondem mais bactérias do que as superfícies das áreas comuns (o corredor e o banheiro). Segundo o estudo, patrocinado por um fundo da Clorox Company, o foco número 1 dos germes dentro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um estudo de 2002 que passou despercebido (por mim) revela que as superfícies das áreas de trabalho pessoal (sua escrivaninha) de um escritório escondem mais bactérias do que as superfícies das áreas comuns (o corredor e o banheiro).</p>
<p>Segundo o estudo, patrocinado por um fundo da Clorox Company, o foco número 1 dos germes dentro de um escritório é o telefone, seguido de perto pelas escrivaninhas, pelas abas das torneiras dos bebedouros, pelos trincos do forno de microondas e pelos teclados de computador.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Surpreendentemente, os assentos de banheiro mostraram de forma consistente ter os menores níveis de bactérias das 12 superfícies testadas no estudo.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Não pensamos duas vezes em comer nas nossas mesas de trabalho, muito embora a escrivaninha média contenha 100 vezes mais bactérias do que uma mesa de cozinha e 400 vezes mais bactérias do que a média de uma privada de banheiro&#8221;, diz o professor Charles P. Gerba, que liderou o estudo.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">Com mais gente gastando cada vez mais tempo nas suas escrivaninhas, as bactérias encontram muito do que se alimentar.</p>
<p>O lugar da sua mesa onde você coloca a sua mão abriga neste momento cerca de 10.000.000 bactérias.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small><a href="http://www.marketwire.com/mw/release_html_b1?release_id=40596">Fonte</a> </small></p>
<p>
<hr style="width: 30%; height: 2px;" /></p>
<p><a href="http://www.uagrad.org/Alumnus/w05/germ.html">Outra série de estudos</a> conduzido pelo professor Gerba procurou os focos de germes <em>dentro de casa.</em></p>
<p>Entre outras coisas, o estudo provou que as residências de homens solteiros (apesar das aparências) contém menos bactérias, já que eles raramente &#8220;fazem a limpeza&#8221;, e dessa forma não espalham as bactérias por aí, como fazem as asseadas donas de casa.</p>
<p>O lugar mais sujo e nojento e contaminhado da casa é, naturalmente, a cozinha. Dentro da cozinha, o objeto mais imundo e mais saltitante de coliformes fecais é a esponja, seguido pela pia, pela tábua de carne e pelo chão (que é o lugar mais limpo da cozinha). A banheira é mais suja do que o chão do banheiro, e a privada é o lugar mais limpo de todos.</p>
<p>Das xícaras que o professor examinou, vinte por cento estavam nadando em coliformes fecais, cortesia das esponjas com que foram lavadas. Além disso, pode ser útil saber que, no que diz respeito à contagem de bactérias, o estudo não encontrou qualquer diferença entre água de torneira e água de garrafa.</p>
<p>&#8220;Não importa o que você pense,&#8221; diz o professor Gerba, &#8220;sua cozinha é muito mais suja do que o seu banheiro. É por isso que o seu cachorro gosta de beber água da privada&#8221;.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug016.gif" alt="" width="31" height="37" /></p>
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		<title>A ciência do matuto</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2005 09:54:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Como é que o matuto descobre a altura de uma árvore?&#8221; Estávamos viajando para Ijuí, há coisa de três anos, quando meu pai, que extrai todo o prazer do universo ao me provocar, me fez essa pergunta. Como achei que ele estava brincando, fiquei refletindo para dar uma resposta pitoresca, à altura das expectativas dele. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/trigonomatuto-01.gif" alt="" width="400" height="366" /></p>
<h5>&#8220;Como é que o matuto descobre a altura de uma árvore?&#8221;</h5>
<p>Estávamos viajando para Ijuí, há coisa de três anos, quando meu pai, que extrai todo o prazer do universo ao me provocar, me fez essa pergunta. Como achei que ele estava brincando, fiquei refletindo para dar uma resposta pitoresca, à altura das expectativas dele. <em>Como o matuto descobre a altura da árvore, sem cortar a árvore?</em></p>
<p>&#8211; Ele pode usar uma trena?</p>
<p>&#8211; Pode.</p>
<p>Pensando bem, refleti, nem eu saberia medir a altura de uma árvore sem cortá-la. Se soubesse uma distância e um ângulo poderia usar talvez alguma trigonometria, mas minhas lembranças sobre o assunto eram vagas demais para serem úteis na minha retórica ou na vida real. Seria <em>seno</em> ou <em>cosseno?</em> Senti-me inteiramente incapaz, tanto de resolver o problema quanto de vir com uma resposta engraçada.</p>
<p>Eu disse que não sabia e perguntei como era. E <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/dicionario-do-pae">meu pai</a>, que viveu na roça até a adolescência, respondeu.<!-<del>more</del>-></p>
<h5>&#8220;É muito simples. O matuto dá as costas para a árvore e começa a andar de quatro, com as pernas esticadas, olhando sempre entre as pernas para a árvore que quer medir.&#8221;</h5>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/trigonomatuto-02.gif" alt="" width="400" height="366" /></p>
<h5>&#8220;Ele continua se afastando na mesma posição, até o momento em que consegue enxergar entre as pernas o topo da árvore. Aí ele pára.&#8221;</h5>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/trigonomatuto-03.gif" alt="" width="400" height="366" /></p>
<h5>&#8220;Pronto: aí é só medir a distância entre (B) o lugar que ele parou e (A) o pé do tronco da árvore. Essa distância é a altura [estimada] da árvore.&#8221;</h5>
<p>Garante meu pai que já viu essa elegante trigonometria matuta em ação, nos seus tempos de trabalhador rural nos ermos de Santa Catarina. O mesmo procedimento, serviria, naturalmente, para medir postes, edifícios e escarpas, na cidade ou no campo.</p>
<p>Não ousei ainda testar.</p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug036.gif" alt="" width="34" height="45" /></p>
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		<title>Viagem à Terra Oca</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Nov 2005 08:28:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>

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		<description><![CDATA[Já mencionei de passagem aqui na Bacia as duas teorias da Terra Oca que os cientistas nazistas se esforçaram a sério para testar. A menos disparatada dessas teorias sustenta que o planeta é inteiramente oco por dentro, e que os seres da civilização avançada que habitam o interior visitam de vez em quando o nosso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/bits/hollowearth.jpg" alt="" width="376" height="300" /></p>
<p>Já mencionei <a href="http://www.baciadasalmas.com/?p=148">de passagem</a> aqui na Bacia as duas teorias da Terra Oca que os cientistas nazistas se esforçaram a sério para testar. </p>
<p>A menos disparatada dessas teorias sustenta que o planeta é inteiramente oco por dentro, e que os seres da civilização avançada que habitam o interior visitam de vez em quando o nosso mundo viajando através de aberturas encontradas nos pólos e &#8211; naturalmente &#8211; nas montanhas do Tibet. Pergunte a Olaf Jansen, o marinheiro norueguês que em 1829 desceu por uma gigantesca fenda no Pólo Norte, conheceu em primeira mão esse fantástico mundo subterrâneo e viveu para contar suas aventuras no livro <a href="http://etext.lib.virginia.edu/toc/modeng/public/EmeSmok.html">The Smoky God</a> (publicado pela primeira vez em 1908).</p>
<p>A terra oca, é claro, é habitada por uma ultra-avançada raça de homens altos, brancos e especialmente longevos &#8211; &#8220;ficamos sabendo que os homens não se casam antes dos setenta e cinco anos de idade&#8221;. A luz provém de um gigantesco sol interior, e a energia é extraída imaculada da imponderável substância <em>Vril</em> (cujo potencial os cientistas alemães também quiseram estudar durante o <em>Reich</em>).</p>
<p><a href="http://www.voyagehollowearth.com"> <img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/bits/hw.jpg" border=0 class="left" /> </a>Se você duvida, esta é a sua chance de demonstrar que os nazistas estavam errados. Um sujeito chamado Steve Currey, proprietário de uma empresa especializada em expedições de turismo radical, alugou um navio quebra-gelo russo e vai levar 100 aventureiros ao Pólo Norte numa expedição <del>científica</del> em busca da entrada para a Terra Oca. A saída está marcada para 26 de junho do ano que vem, e você pode reservar o seu lugar a partir de 18.950 dólares (não incluída a viagem até Murmansk, na Rússia, de onde vocês devem sair e talvez voltar).</p>
<p>O <a href="http://www.voyagehollowearth.com">sáite oficial da Expedição</a> esclarece ainda:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;">Dentro da Nossa Terra Oca, na Cidade de Jeú, os membros da expedição poderão tomar o trem monotrilho da terra interior para visitar o Jardim do Éden, localizado abaixo dos Estados Unidos da América no mais elevado platô do continente interior.</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;">O Grande Sumo Sacerdote de todos os territórios da Terra Interior é o Rei Davi, que se assenta no trono legítimo de Davi e é descendente direto de Davi, fundador da antiga nação de Israel na Palestina, da qual as Dez Tribos Perdidas migraram para os Países Nórdicos em cerca de 687 a.C..</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;">Estima-se que a viagem de ida e volta aos Países Nórdicos da Terra Interior através da Abertura Polar Setentrional durará 20 dias.</p>
<p>Mais informações sobre o <a href="http://www.voyagehollowearth.com/hollow_earth_trip_itinerary.html">itinerário</a> você encontra no próprio sáite www.voyagehollowearth.com, onde você pode também baixar o seu <a href="http://www.voyagehollowearth.com/reservation_form.pdf">formulário de reserva</a> e o <a href="http://www.ourhollowearth.com/HollowEarthBrochure2006Complete.pdf">folder publicitário completo</a> da expedição.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p><small> <strong>Atualização de maio de 2006</strong> </small><br />Segundo informação do sáite oficial, a expedição foi adiada para 26 de junho de 2007. Maiores informações a qualquer momento em boletim especial.</p>
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		<title>O último tio da terra</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2005 09:38:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
		<category><![CDATA[demografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Um artigo da última Scientific American opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes &#8211; um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2005/crossroads-for-planet-earth.gif" class="left" />Um artigo da última <em>Scientific American</em> opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes &#8211; um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do milênio.</p>
<blockquote><p>O ano de 2005 marca o fulcro central de uma década que representará três transições fundamentais e únicas na história da humanidade. Antes do ano 2000 o número de jovens sempre foi maior do que o número de velhos. Desde 2000 há mais gente velha do que nova. Historicamente, sempre houve mais gente morando no campo do que na cidade. De 2007 em diante a população urbana será mais numerosa do que a rural. Desde 2003 as mulheres ao redor do mundo têm tido e continuarão a ter, em média, filhos suficientes apenas para repor o seu próprio lugar e o do pai na geração seguinte &#8211; ou menos.</p></blockquote>
<p>As três mudanças são avassaladoras em sua singularidade e suas conseqüências, mas a última me pegou particularmente de jeito. Eu, que como muitos idealizo e sinto falta da <a href="http://www.baciadasalmas.com/index.php?p=170">grande família grande</a>, vou continuar sentindo. </p>
<blockquote><p>As tendências são evidentes na vida diária. Muitos de nós já tiveram a experiência de se perder na sua cidade natal, que cresceu ao ponto de não a reconhecermos mais. O crescimento, porém, tende a se desacelerar à medida que as famílias diminuem. Cada vez mais crianças crescem não apenas sem irmãos, <u>mas sem tios, sem tias e sem primos.</u></p></blockquote>
<p>Caracas, crescer sem irmãos já me parece suficientemente ruim, mas sobreviver sem tios, tias e primos me parece inconcebível. Chegará o dia em que o último tio dará o seu último suspiro e então seu cargo será uma curiosidade, mera nota de rodapé no museu de figuras históricas que não existem mais &#8211; ao lado de &#8220;taquígrafo&#8221;, &#8220;meeirinho&#8221; e do sujeito que acendia as lamparinas nas esquinas quando anoitecia.</p>
<p>Os jantares de final de ano da família terão, no máximo, oito pessoas &#8211; normalmente, apenas três. </p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug052.gif" alt="" width="175" height="152" /></p>
<p><small><strong>FALTAM 3 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL</strong></small></p>
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