Manuscritos estocados sob a rubrica 'Quase Ciência'
19 de Maio de 2008

O livro dos mártires

História, Quase Ciência

Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da fisiologia humoral conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia em estabelecer qual desses humores encontrava-se em desacordo, e a terapia em tomar-se passos a fim de restaurar o equilíbrio, quer por sangria (por secção da veia, escarificação ou aplicação de sanguessugas) ou sujeitando o paciente a uma série de limpezas intestinais e purgantes. O médico seguia dessa forma uma deprimente rotina de sangrias e purgações, juntamente com a prescrição de emplastros, ungüentos e poções. A urina do paciente era tida como o melhor indicador da sua condição, e havia profissionais que criam que bastava ver a urina sem ver o paciente.

Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos.

Não havia raios-X nem estetoscópios, e os médicos normalmente ignoravam por completo o que se passava no corpo da pessoa enferma. Havia cirurgiões especializados em tumores, úlceras, fraturas e doenças venéreas, mas sua arte era considerada inferior pela classe médica. Além disso, sem anestésicos e sem o conhecimento de antissépticos, havia pouco que esses pudessem fazer. As cirurgias eram em grande parte limitadas a amputações, trepanações do crânio, remoção aberta de pedras urinárias, reposicionamente de ossos e incisão de abcessos. Compreensivelmente, os pacientes viam com terror a perspectiva desse tipo de tortura, e a taxa de mortalidade depois dessas operações era elevada. O Severall Chirurgicall Treatises (1676) de Richard Wiseman era conhecido popularmente como “O Livro dos Mártires de Wiseman”.

Mesmo entre a nobreza, cujas chances eram provavelmente maiores do que as de qualquer outra classe, a expectativa de vida para meninos nascidos no terceiro quarto do século dezessete era de 29,6 anos (hoje seria ao redor de 70). Um terço dessas crianças da aristocracia morria antes de atingir os cinco anos de idade, sendo que o nível de mortalidade dos que chegavam à idade adulta lembrava de perto o da Índia na última década do século dezenove. O primeiro demógrafo inglês, John Graunt, estimava em 1662 que a cada cem crianças nascidas em Londres, trinta e seis morriam nos seus primeiros seis anos, e mais vinte e quatro nos dez anos seguintes.

Quanto a hospitais, o St. Bartholomew e o St. Thomas eram os dois únicos disponíveis para os fisicamente enfermos em Londres no final do século dezessete, e havia pouquíssimos em outros lugares. E eram de qualquer modo direcionados primariamente para os pobres. Nenhuma pessoa com alguma pretensão social sonharia em colocar o pé num hospital como paciente, e se o fizesse estaria certamente aumentando suas chances de contrair alguma infecção fatal.

Certas formas de doença mental eram consideradas casos de melancolia a serem tratados com purgações e sangrias, ou erroneamente diagnosticadas como “histeria” ocasionada por uma determinada condição do útero. A noção da origem uterina de doenças nervosas não foi desafiada com sucesso na Inglaterra até fins do século dezessete, quando Thomas Willis formulou a teoria da origem cerebral da histeria, tornando-se pioneiro da ciência da neurologia.

Na Inglaterra daqueles séculos as pessoas estavam inteiramente habituadas à doença e à baixa expectativa de vida. Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos, sabendo muito bem que podiam perdê-los ainda na infância. Maridos e esposas viviam bem ajustados à idéia de que o cônjuge que sobrevivesse poderia se casar depois da morte do outro. A atitude dos pobres diante de sua sorte parece ter sido freqüentemente de distanciado estoicismo. Ao contrário dos habitantes dos países subdesenvolvidos nos nossos dias, eles não conheciam países estrangeiros em que o padrão de vida fosse consideravelmente mais elevado. Ao invés de lutarem por reforma social, os pobres com freqüência recorriam a métodos mais diretos de liberação.

A cerveja era ingrediente fundamental da dieta de todos, tanto de crianças quanto adultos [. . .]

Keith Thomas, Religion and the Decline of Magic (1971)

04 de Dezembro de 2007

De como as avós inventaram a civilização

Quase Ciência

A linguagem, a confecção de ferramentas e uma sofisticada capacidade cognitiva são características que distinguem os seres humanos de seus ancestrais primatas, porém é possível que nenhum desses traços teria evoluído não fosse o desenvolvimento de outro traço peculiar à raça humana: a menopausa.

De acordo com Lawrence Shaw, diretor do Centro de Fertilidade, Ginecologia e Genética London Bridge, a menopausa gerou as avós, e avós implicam em cuidado diário e nutrição extra para os exigentes bebês humanos.

O declínio na fertilidade, argumenta Shaw, é a verdadeira vantagem evolucionária da menopausa. Em sociedades primitivas, mulheres que não são mais capazes de ter filhos têm mais tempo para servirem de babá e saírem em busca de comida.

“A avó investe na segunda geração de sua própria linhagem. Nenhum outro primata, e certamente nenhum primata superior, demonstra essa consistência”.

Todos os outros primatas sofrem o que se chama dispêndio somático: são capazes de se reproduzirem até morrerem.

Lydia Fong, Why Do Grandmas Exist?

28 de Agosto de 2007

Pra que servem os homens

Homens e Mulheres, Quase Ciência

Uma pesquisa recente compilou dados sobre os estereótipos que as pessoas desenvolvem a respeito de homens e mulheres, revelando uma tendência que recebeu o nome de efeito MSM (”Mulheres São Maravilhosas”): tanto homens quanto mulheres tem uma visão mais favorável a respeito das mulheres do que a respeito dos homens. Quase todo mundo gosta mais de mulheres do que de homens. Eu sem dúvida sou um desses.

Porém, ao invés de ver a cultura como um patriarcado, isto é, uma conspiração de homens para explorar as mulheres, creio que é mais acurado dizer que uma cultura (por exemplo, um país ou uma religião) é um sistema abstrato que compete contra sistemas rivais – usando tanto homens quanto mulheres para avançar a sua causa.

Quando digo que estou pesquisando sobre as formas como a cultura explora os homens, a primeira reação das pessoas é dizer: “Como você pode dizer que a cultura explora os homens, se os homens estão no controle de tudo? A maior parte dos governantes mundiais e executivos de corporações são homens.” O erro desse modo de pensar é que ele olha apenas para o topo. Se olharmos para a porção inferior da sociedade, veremos que ali também há mais homens do que mulheres. Quem está nas prisões do mundo, seja como criminosos ou prisioneiros políticos? Quem são os sem-teto? Quem a sociedade usa para desempenhar atividades insalubres ou perigosas? Quem é morto nas guerras? Basicamente, homens.

A maior parte das culturas tende a usar homens ao invés de mulheres para tarefas de alto risco e elevado retorno, e quero apresentar razões práticas para que seja assim. A maior parte das culturas protege as mulheres do risco, e por isso não concede a elas grandes recompensas. Não estou dizendo que seja eticamente certo agir assim, mas culturas não são entidades éticas; fazem o que fazem a fim de competir com outros sistemas e outros grupos.

Descendemos de mulheres que não se arriscaram e de homens que assumiram riscos.

Levantou-se uma grande controvérsia quando Larry Summers, na época presidente da universidade de Harvard, opinou que talvez não fosse o preconceito que levasse a haver menos mulheres do que homens em lugares de destaque no cenário científico; talvez, sugeriu ele, a razão fosse simplesmente o fato de haver mais homens inteligentes do que mulheres. Ele teve de pedir desculpas, de se retratar e finalmente de abandonar o cargo, porque hoje em dia a única explicação permitida para a falta de mulheres de destaque no campo da ciência é o patriarcado, a conspiração dos homens contra as mulheres, não a habilidade inata.

Na média os homens são precisamente tão inteligentes quanto as mulheres, mas não foi isso que Sander disse. Ele opinou que há mais homens inteligentes do que mulheres, o que não altera a média se ficar provado – como demonstram também as estatísticas – que há mais homens na porção inferior da escala, ou seja, há mais homens realmente estúpidos do que mulheres. Confirmam todas as evidências que o padrão de retardamento mental é o mesmo da genialidade: há mais homens do que mulheres nesses dois extremos, e creio que a razão para que seja assim é biológica e genética. A natureza arrisca mais com os homens do que com as mulheres, mesmo em coisas como altura. Homens tendem aos extremos mais do que as mulheres.

Você quer pensar que os homens são melhores do que as mulheres? Olhe para o topo, para os heróis, os inventores, os filantropos. Quer pensar que as mulheres são melhores do que os homens? Olhe para baixo, para os criminosos, os drogados, os perdedores. 

As principais teorias sustentadas sobre a diferença entre os sexos são três: [1] os homens são melhores, [2] não existe diferença, e [3] as mulheres são melhores. Quero propor uma teoria alternativa: sustento que a seleção natural preserva diferenças inatas entre homens e mulheres desde que essas características se mostrem benéficas em circunstâncias diferentes ou para diferentes tarefas. Talvez homens e mulheres sejam diferentes, mas cada vantagem pode estar associada a uma desvantagem.

Além disso, creio que as diferenças entre homens e mulheres digam mais respeito a motivação do que habilidade. Tavez as mulheres sejam capazes de fazer precisamente as mesmas coisas que os homens, mas simplesmente não tenham vontade. Homens e mulheres tem comprovadamente a mesma “habilidade” para o sexo, mas homens são mais obcecados por sexo do que mulheres. Da mesma forma, salários maiores vem para quem trabalha mais horas por semana, e a maior parte dos viciados em trabalho são homens. A criatividade talvez seja outro exemplo de diferença de motivação. Todos os estudos comprovam que mulheres são tão criativas quanto os homens, mas os grandes artistas e criadores são em geral do sexo masculino.

Quais são as diferenças de motivação entre homens e mulheres? Quero enfatizar duas.

Risco e retorno

A primeira diferença diz respeito a uma questão que é raramente levada em conta: que percentagem de nossos ancestrais eram mulheres? Qual a percentagem de gente que já viveu e tem um descendente vivo hoje? A resposta não é 50%. Toda criança tem um pai e uma mãe, mas alguns pais têm mais de um filho.
Dois anos atrás uma pesquisa utilizando análise de DNA revelou que a população humana de hoje descende de duas vezes mais mulheres do que homens. Na história da humanidade cerca de 80% das mulheres, mas apenas 40% dos homens, se reproduziram.

Esse comportamento reprodutivo pode ser explicado pela teoria da evolução. Ao longo da história, as chances de reprodução para as mulheres mantiveram-se definitivamente boas. Por que foi tão raro que cem mulheres se reunissem e construíssem um navio e se lançassem ao mar para explorar regiões desconhecidas, enquanto para os homens foi razoalvemente comum realizarem coisas assim? O fato é que assumir riscos como esses seria estúpido da perspectiva de um organismo biológico buscando se reproduzir. Elas podiam se afogar, ser mortas por selvagens, ou pegar alguma doença. Para uma mulher, a coisa ótima a se fazer é ficar na sua, seguir com a corrente, não arriscar. As chances são boas de que apareçam homens dispostos a fazer sexo e você poderá ter filhos. O que importa é fazer a escolha correta. Descendemos de mulheres que não se arriscaram.

Para os homens, as coisas foram sempre radicalmente diferentes. Se você seguir a corrente e não se arriscar, as chances são que você vai acabar não tendo filhos. A maior parte dos homens que já viveu não tem descendentes vivos hoje em dia. Por essa razão era necessário assumir riscos, tentar coisas novas, ser criativo, explorar novas possibilidades. Navegar para o desconhecido pode ser arriscado, mas se você ficar em casa não vai de qualquer modo se reproduzir. A maior parte de nós descende do tipo de homens que fez a viagem arriscada e voltou rico. Nesse caso ele teria uma chance de passar adiante os seus genes. Descendemos de homens que assumiram riscos (e tiveram sorte).

Coisas como ambição, criatividade e obsessão por sexo provavelmente importavam mais para o sucesso masculino (medido em número de filhos) do que para a mulher.

Quando olho ao redor para homens e mulheres, não tenho como escapar da impressão de que as mulheres são simplesmente mais agradáveis e amáveis do que os homens (isso explica o efeito MSM, mencionado antes). Os homens podem querer ser amáveis, e podem fazer com que mulheres os amem (portanto a habilidade está lá), mas homens tem outras prioridades, outras motivações. Para as mulheres, ser amável era a chave para atrair o melhor parceiro. Para os homens, no entanto, a questão era mais de superar outros homens para chegar a ter a chance de obter uma parceira.

Talvez a natureza tenha projetado as mulheres para buscarem serem amáveis, enquanto os homens foram projetados para correrem (na maioria das vezes sem sucesso) atrás da grandeza. Para os homens, valeu a pena. Estima-se que Genghis Khan, que assumiu grandes riscos e conquistou a maior parte do mundo conhecido, tenha tido mais de mil filhos. Mulher alguma, mesmo que tivesse conquistado o dobro de território de Khan, poderia ter tido mil filhos. Correr atrás da grandeza não oferecia à mulher retorno biológico algum. Por definição são poucos os homens que conseguem se alçar à grandeza, mas para esses os ganhos se mostraram reais.

Sociável com quem

Dez anos atrás um estudo propunha a tese de que as mulheres são mais sociáveis do que os homens, visto que os homens são mais agressivos, e a agressividade coloca em risco os relacionamentos. Escrevi uma resposta argumentando que há duas maneiras de ser sociável. Na psicologia social tendemos a enfatizar relacionamentos próximos, relações íntimas, e talvez nesses as mulheres sejam de fato melhores do que os homens. Mas os homens podem também ser considerados sociáveis em termos de terem grandes redes de relacionamentos superficiais; talvez nesse campo os homens sejam mais sociáveis do que as mulheres.

Costumamos dizer que ter uns poucos amigos íntimos é melhor do que se ter um grande número de conhecidos, mas uma grande rede de relacionamentos pouco profundos pode ser importante também. Não devemos ver os homens como seres humanos de segunda classe apenas porque eles se especializam na forma de relacionamento menos importante e menos satisfatória.

Reexaminemos a evidência. Está certo, as mulheres são menos agressivas do que os homens, mas será porque as mulheres não querem colocar em risco o relacionamento? Acontece que, em relacionamentos íntimos, as mulheres são bastante agressivas, sendo que a maior parte das violências domésticas é iniciada pela mulher. A diferença está em que as mulheres não são violentas com estranhos. As chances de uma mulher acabar se envolvendo com outra numa briga de faca numa saída ao shopping são pequenas. As mulheres não se envolvem em violência nessa rede mais ampla de relacionamentos, mas os homens sim, porque para eles essa rede é mais importante. Da mesma forma, os homens mostram-se mais dispostos a ajudar os amigos do que as mulheres, enquanto as mulheres mostram-se mais dispostas a oferecer ajuda dentro de casa.

As mulheres tendem a ser ao mesmo tempo mais solícitas e mais agressivas na esfera dos relacionamentos íntimos, porque é com isso que se importam. Em contraste, os homens importam-se com a rede mais ampla de relacionamentos superficiais, por isso mostram-se bastante solícitos e violentos no âmbito dela.

Estudos feitos em jardins da infância comprovam essa tendência. Se duas meninas estão brincando e os pesquisadores trazem uma terceira, as duas meninas oferecem resistência para aceitá-la, enquanto que dois meninos aceitarão de bom grado que um terceiro se junte à brincadeira. Ou seja, as meninas preferem a conexão um-a-um, enquanto os meninos sentem-se atraídos por grupos maiores e redes mais amplas. As mulheres especializam-se na esfera estreita dos relacionamentos íntimos. Os homens especializam-se no grupo mais amplo.

Importantes diferenças de personalidade originam-se dessa diferença no tipo de relacionamento que interessa homens e mulheres.

É lugar comum, por exemplo, dizer que as mulheres sabem expressar suas emoções melhor do que os homens. Isso se explica: num relacionamento íntimo, em que a comunicação é fundamental, pode ser vantajoso ser capaz de expressar o que se está sentindo, mas num grupo maior, em que você pode ter rivais ou inimigos, pode ser arriscado deixar transparecer as suas emoções.

Numa distribuição de recursos, as mulheres tendem a defender que todos os envolvidos recebam a mesma parcela de um montante, enquanto os homens tendem a defender que quem trabalhou mais deve receber mais. A solução masculina está melhor adaptada a grandes grupos, enquanto a solução feminina está melhor adaptada para pares íntimos.

Há também a noção de que os homens são mais competitivos e as mulheres mais cooperativas – e, naturalmente, a cooperação é muito mais útil do que a competição para relacionamentos íntimos. Já em grandes grupos chegar ao topo pode ser fundamental. Não esqueça que a maior parte dos homens não se reproduz, e descendemos de homens que chegaram ao topo. Para as mulheres não foi assim.

Como a cultura usa os homens

O feminismo ensinou-nos a ver a cultura como uma questão de homens contra mulheres. Penso que a evidência indica que a cultura surgiu de homens e mulheres trabalhando juntos, mas trabalhando contra outros grupos de homens e mulheres. A cultura pode ser vista como uma estratégia biológica, o passo seguinte na linha evolutiva que tornou os animais sociais.

A cultura depende do ganho sistêmico, da sinergia, da formação de um todo maior que a somatória das partes. Apenas sistemas maiores são capazes de prover isso. Um relacionamento entre duas pessoas pouco pode fazer em termos de divisão de trabalho e compartilhamento de informações, mas um grupo de 20 pessoas pode fazer muito mais.

Como resultado, a cultura surgiu essencialmente no modo de relacionamento social favorecido pelos homens. As mulheres favorecem relacionamentos íntimos, que são mais importantes para a sobrevivência da espécie. A rede mais ampla de relacionamentos superficiais não é vital para a sobrevivência, mas é vital para o desenvolvimento da cultura.

Não é o caso que em algum momento da História os homens tenham escanteado as mulheres. O que aconteceu foi que a esfera das mulheres se manteve essencialmente a mesma, enquanto que a esfera dos homens, dos relacionamentos mais superficiais, foi vagarosamente se beneficiando com o progresso da cultura.

Eis porque a religião, a literatura, a arte, a ciência, a tecnologia, a ação militar, os mercados, a organização política e a medicina emegiram primariamente da esfera masculina. A esfera feminina não produziu essas coisas, embora tenha feito coisas valiosas, como tomar conta da geração seguinte para que a espécie continuasse a existir.

A diferença não se origina no fato dos homens terem mais habilidades ou talentos, mas na natureza de seus relacionamentos sociais. A esfera das mulheres organizava-se na base dos relacionamentos íntimos, um-a-um, que são favorecidos pelas mulheres. Tratam-se de relacionamentos vitais e profundamente satisfatórios, que contribuem vitalmente para a saúde e para a sobrevivência. Os homens, por outro lado, favoreceram as redes mais amplas de relacionamentos superficiais, que são menos satisfatórios e emocionalmente compensadores, mas formam uma base mais fértil para a emergência da cultura.

Coisas como arte, literatura e ciência são opcionais, sendo que as mulheres estavam fazendo o que era vital para a sobrevivência da espécie. A cultura, no entanto, tem um tremendo potencial de tornar a vida melhor, e desenvolve-se com mais eficácia em cadeias de relacionamento mais amplas e menos exigentes, terreno tradicionalmente masculino.

A cultura conta com os homens para criar as grandes estruturas sociais que a compõem. Isso provavelmente tem menos a ver com uma conspiração patriarcal para oprimir as mulheres do que com o fato de que os homens demonstram mais interesse do que as mulheres em formar grandes grupos, trabalhar com eles e chegar ao seu topo.

Outro modo pela qual a cultura usa o homem é naquilo que chamo de descartabilidade masculina. Por que motivo, num acidente ou emergência, convenciona-se que “mulheres e crianças” têm preferência para serem resgatados, em detrimento dos homens?

Há normalmente um excedente de pênis.

Penso que haja razões biológicas para que seja assim. Na competição entre culturas, um grupo maior tem maiores chances de vencer um grupo menor. É por essa razão que a maior parte das culturas tem promovido o crescimento númerico, que depende das mulheres. Para maximizar a reprodução uma cultura precisa de todos os úteros de que puder dispor, mas basta uns poucos pênis para fazer o serviço. Há normalmente um excedente de pênis. Se uma geração perder metade dos seus homens, a geração seguinte poderá ainda assim chegar ao tamanho da anterior. Se perder metade das suas mulheres, o tamanho da geração seguinte estará gravemente prejudicado. É por isso que a maior parte das culturas mantém as mulheres fora de perigo e coloca os homens para fazer o serviço arriscado.

Outra base do caráter descartável do homem está embutida nos diferentes modos de ser sociável. Num relacionamento íntimo, um-a-um, nenhuma das partes pode ser de fato substituída em caso de uma perda. Grandes grupos, por outro lado (digamos, empresas) podem substituir e de fato substituem quem acham por bem. Dessa forma, os homens criam redes sociais onde os indivíduos são descartáveis e podem ser substituídos. As mulheres favorecem relacionamentos em que cada pessoa é preciosa e não pode ser verdadeiramente substituída.

Seja homem

Na maior parte das culturas toda pessoa adulta do sexo feminino merece o título de mulher e é respeitada intrinsecamente como tal, mas muitas culturas não concedem essa honra aos homens até que demonstrem o seu valor. Alguns estudos sociológicos têm enfatizado que, culturalmente falando, ser homem é produzir mais do que você consome. Quer dizer, espera-se dos homens, em primeiro lugar, que provejam o seu próprio sustento; se outra pessoa o sustenta, você não chega a ser homem. Em segundo lugar, o homem deve ser capaz de gerar riqueza adicional de modo a ser capaz de beneficiar a outros – esposa, filhos, outros dependentes ou subordinandos – além de si mesmo. Você não é homem de verdade até ter chegado nesse estágio.

Não creio que seja mais difícil ser homem do que mulher, mas é preciso lembrar que a cultura explora o homem de modos muito específicos. Um desses é requerer que o homem mostre-se merecedor de respeito produzindo valor de modo a prover sustento para si mesmo e para outros. As mulheres não têm de enfrentar esse desafio em particular.

Essas exigências contribuem na formação de muitos dos padrões comportamentais masculinos. A ambição, a competição e a busca pela grandeza talvez estejam ligados ao requerimento dessa luta por respeito. Grupos compostos exclusivamente por homens são marcados por zombarias e outras práticas denigridoras de modo a lembrar a todos que NÃO HÁ respeito suficiente para todo mundo, porque essa consciência pode motivar cada homem a esforçar-se mais a fim de angariar respeito para si. Essa mostrou ser uma grande fonte de fricção quando as mulheres adentraram o mercado de trabalho; as organizações tiveram de mudar suas políticas de modo a que todos fossem considerados dignos de respeito. Originalmente, por serem compostas apenas de homens, as organizações não haviam sido projetadas para serem assim.

O ego masculino, com sua preocupação em provar a si mesmo e competir com os outros, parece ter sido projetado para agüentar os sistemas em que há escassez de respeito e você tem de trabalhar duro para conseguir algum – ou será fatalmente exposto a humilhação.

Conclusão

Uma cultura usa tanto homens quanto mulheres, mas a maior parte das culturas usa-os de modos diferentes. A maior parte das culturas vê homens individuais como mais descartáveis do que mulheres individuais, e essa diferença tem provavelmente origem biológica.

Os homens tendem aos extremos mais do que as mulheres, e isso se encaixa no modo como a cultura faz uso deles, incitando-os a tentarem todo tipo de coisas diferentes, recompensando os vencedores e esmagando impiedosamente os perdedores.

O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica.

A cultura não é uma questão de homens contra mulheres. Em grande parte, o progresso cultural emergiu de grupos de homens trabalhando com e contra outros grupos de homens. Enquanto as mulheres se concentraram em relacionamentos íntimos que permitiram que a espécie sobrevivesse, os homens criaram as grandes redes de relacionamentos superficiais, menos necessários para a sobrevivência mas que acabaram permitindo o desenvolvimento da cultura. Os homens criaram as grandes estruturas sociais que compõem a sociedade e ainda são em grande parte responsáveis por elas, embora vejamos agora que as mulheres podem ter desempenho tão bem quanto eles dentro desses grandes sistemas.

O que parece funcionar melhor para as culturas é jogar os homens uns contra os outros, competindo por respeito e outras recompensas que acabam distribuídas de modo bastante desigual. Requer-se dos homens que provem o seu valor produzindo coisas que a sociedade valoriza. Eles tem de vencer tanto rivais quanto inimigos em competições culturais, provável motivo pelo qual não são tão amáveis quanto as mulheres.

O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica – insegurança que é, na verdade, social, existencial e biológica. Embutido no papel do homem está o perigo de não ser bom o bastante para ser aceito e respeitado e até mesmo o perigo de não ter um desempenho bom o bastante para gerar descendentes. Essa insegurança social essencial é fonte de stress para o homem, e não de admirar que tantos homens entrem em colapso ou façam coisas terríveis ou heróicas ou morram mais jovens do que as mulheres. Essa insegurança, no entanto, é util e produtiva para a cultura, para o sistema.

Não estou dizendo que é certo ou ético ou adequado que seja assim. Mas tem funcionado. As culturas que usam essa fórmula têm se mostrado bem sucedidas, e é uma das razões pelas quais venceram suas rivais.

Versão condensada de Is There Anything Good About Men?, de Roy F. Baumeister, Eppes Eminent Professor of Psychology & Head of Social Psychology Area, Florida State University, Tallahassee, FL

Palestra concedida à Associação de Psicologia Norte-Americana, 2007

Leia também:
O enigma de Páris, parte 1 e parte 2

08 de Agosto de 2007

Mina submersa quer explodir em Mauá

Politica, Quase Ciência

Atualização 08/08 15h37
Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto
Menos de uma semana depois de anunciar que a área de inundação da usina hidrelétrica de Mauá precisaria de um estudo minucioso de água e de solo por conta da existência de uma mina desativada de carvão, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) disse ontem ter encontrado a solução para o grande passivo ambiental. A assessoria de imprensa informou que a represa abafará o efeito dos dez hectares de rejeitos de carvão e de metais pesados que são liberados às margens do rio Tibagi, em Telêmaco Borba, nos Campos Gerais.
Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto, na Gazeta do Povo de hoje

* * *

60 anos de lixo tóxico aguardam para contaminar o lago da nova usina. Quem se importa?

Em muitas espécies de animais os fatores ambientais impedem que a competição dentro da própria espécie conduza ao desastre. Não existe, no entanto, força regulatória agindo sobre o desenvolvimento cultural da humanidade. Sob a pressão da fúria competitiva nós não apenas esquecemos o que é útil para a humanidade, mas até mesmo o que é bom e vantajoso para o indivíduo.
Konrad Lorenz, Os oito pecados mortais do homem civilizado

O meio-ambiente é coisa particularmente difícil de se defender, porque o agressor somos nós mesmos. Nossa condição como espécie é paradoxal: quanto mais poder adquirimos de manipular o meio-ambiente em nosso favor, mais perto estamos de descaracterizá-lo irremediavelmente para nossa destruição.

O projeto da hidrelétrica de Mauá prevê a inundação de uma área de 100 quilômetros quadrados entre Ortigueira e Telêmaco Borba, aqui no estado do Paraná. A usina terá potência máxima de 362 megawatts (MW), suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes. Dos R$ 950 milhões necessários para a obra, R$ 700 milhões serão bancados pelo BNDES, sendo que a construtora J. Malucelli já assinou contrato para executar o projeto.

Quem não apostaria nessa barganha? 100 quilômetros quadrados de que ninguém vai sentir falta em troca da energia elétrica para uma grande cidade pululando de consumidores, votantes e impostos.

A não ser que você leve em conta, naturalmente, o custo ambiental. Já em 2005 um parecer do Ministério Público Federal advertia que [1] a barragem coloca em risco a sustentabilidade das tribos indígenas que habitam a região da bacia do Rio Tibagi; a área a ser alagada [2] contém 15 espécies na lista vermelha de espécies ameaçadas do Paraná, [3] cobrirá 200 propriedades e [4] não deverá poupar a Fazenda Monte Alegre, “composta por um mosaico de florestas nativas associadas a monoculturas florestais, sendo uma das responsáveis pela incomum riqueza de mamíferos na bacia do Rio Tibagi”; além disso [5] o estudo menciona 15 sítios arqueológicos na região a ser alagada, “com vestígios relacionados a diversos grupos humanos, períodos históricos e tradições”.

Deveríamos deixar que um punhado de índios, um grupo disperso de sitiantes, umas bromélias que nem dão flor e umas poucas gravações na rocha se interponham no avanço do progresso? Se não poupamos - Deus nos perdoe - as Sete Quedas, não seria preciosismo embargar a usina Mauá?

O problema do custo ambiental são, naturalmente, dois. Primeiro, o fato dele ser muito difícil de avaliar. Os ecossistemas são ao mesmo tempo infinitamente complexos e infinitamente recatados. Até que seja tarde demais, não temos como estimar o impacto ambiental da perda de uma única nascente, quanto mais de 100 quilômetros quadrados de campos gerais. Ecossistemas são difíceis de avaliar porque tudo funciona quando eles estão funcionando; fica, conseqüentemente, difícil encontrar argumentos em sua defesa. Não sabemos tudo que vai deixar de funcionar quando eles deixarem de existir; não sabemos, literalmente, o que estamos perdendo.

Em segundo lugar, o custo ambiental não tem peso para frear projeto algum, porque o empreendedor e o político sabem muito bem que (salvo descartáveis exceções) não é um custo que eles mesmos terão de pagar. Se tudo der certo, a nota promissória da dívida ambiental será deixada convenientemente para as próximas gerações.

 
O resultado da análise, revelando altas concentrações de chumbo, cádmio e manganês.

A maior parte das pessoas que serão prejudicadas talvez ainda nem exista, por isso não consomem os seus produtos nem votam em você - e não têm como processá-lo! No nosso mundo, cujo deus chama-se Agora, quem seria insensato de levar esse fantasmas futuros em conta? Todo político quer uma obra grandiosa para inaugurar, todo empreendedor quer a sua fatia para construí-la.

Quem ousaria se colocar no caminho desse tanque de guerra a fim de salvar um trecho monótono de campos gerais, que não têm o glamour visual da Mata Atlântica e tudo que faz é nos prover de ninharias como rios e água pura?

Um estudo recente da Frente de Proteção do Rio Tibagi revela que há um enorme risco não contabilizado esperando a água da barragem para vir à tona. O perigo, desta vez, são lagoas ácidas, hectares de rejeito tóxico e dezenas de minas abandonadas que babam ferrugem amarela e metais pesados.

Num vale de Telêmaco Borba, junto a uma curva do Tibagi e numa área que pertence à Klabin Papel e Celulose, aguardam os resíduos químicos de 60 anos de extração de carvão mineral. As fotos que ilustram o relatório da Frente de Proteção mostram bocas de minas abandonadas das quais brotam enxofre e ácido sulfúrico e lagoas transparentes com o carimbo azul-turquesa da drenagem ácida. O laudo anexo do SEBRAQ (arquivo PDF) comprova a presença de metais pesados (cádmio, chumbo e manganês) em concentrações escandalosamente altas nas amostras coletadas. Sabe-se com segurança que a rede inundada de galerias abandonadas estende-se por quilômetros terra adentro, onde as concentrações tóxicas tendem a ser muito maiores.


Uma página do relatório (arquivo PDF).

“Se inundadas”, conclui o relatório, ”as minas funcionarão como chaminés de ácidos e metais pesados que fluirão diretamente para dentro do lago, provocando um desastre ambiental sem precedentes no futuro reservatório e impedindo o uso da água em Londrina e outras cidades localizadas rio abaixo.”

A descoberta gerou uma viagem de helicóptero ao local por parte do secretário do Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. “É um complicador”, disse Rodrigues. “Não é para alarmismo, mas é um passivo ambiental significativo”.

Da mesma matéria da Gazeta do Povo:

Pós-doutor em Geoquímica, o professor André Bittencourt foi responsável pela parte do levantamento técnico que trata da qualidade da água. Ele se defende, afirmando que não explorou a parte sobre as minas e rejeitos de carvão por uma razão química. Os rejeitos só são poluentes em contato com o oxigênio e, se ficassem imersos, não causariam danos. “Essas minas dão muito mais problema como estão do que embaixo d’água”, assegura. Ele também acredita que, tanto no rio como na eventual represa, a quantidade de produtos tóxicos produzida pela mina desativada se dilui com facilidade na água.

Outra matéria da mesma edição traz o título “Dona da área [Klabin] investiu R$ 600 mil em recuperação”. Procurei, mas o texto não diz de que forma foram gastos os 600 mil, e na recuperação de quem.

Hoje (quarta-feira) pela manhã um evento no Plenarinho da Assembléia Legislativa do estado estará debatendo o caso Mauá. A deliberação da tarde, nas galerias da Assembléia, contará com a presença de cerca de 100 representantes da região atingida.

O governador Roberto Requião defendeu esta semana a importância da usina no “plano energético nacional”. A Copel é sócia majoritária no empreendimento, com participação de 51%; a Eletrosul tem 49%.

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Paradigma

12 de Julho de 2007

A mais velha curicaca

História, Quase Ciência

A terceira rubrica do sexto e último livro da História Natural das Aves [Historiae Naturalis De Avibus - publicada em 1650 pela Impensà Matthaei Meriani] do naturalista polonês Jan Jonston (também conhecido como John Johnston e Joannes Jonstonus) chama-se De Avibus Brasilianis: “sobre as aves brasileiras”.

Jonston (1603-1675) nunca esteve no Brasil; as descrições e as cinco pranchas de ilustrações de De Avibus Brasilianis parecem ter sido pirateadas da História Natural do Brasil de Georg Marggraf, cartógrafo e astrônomo alemão que veio para o Brasil com Maurício de Nassau.

Aqui estão, descritas em erudito latim, aves tupiniquins como o gavião caracará (descrição aqui, ilustração aqui), o jacupemba (descrição aqui, ilustração aqui), a coruja orelhuda jacurutu (descrição aqui, ilustração aqui) - e ainda a arara (como araracanga e araraúna), o inhambu (jambu), a seriema (cariama), a saracura (caracura), o jaburu (iapiru) e até mesmo o urubu e o quero-quero (quiraquerea).

Nada me deixou mais feliz, no entanto, do que encontrar nas páginas amareladas deste livro de 1650 o nome, o desenho e a descrição (”carnem bonam haber”) da minha ave brasileira favorita, a curicaca.

Carnem Buonam haber.

* * *

A primeira vez que vi uma curicaca foram duas - em Urubici, voando do e para o ninho que faziam no imenso cedro na frente da casa da Carmelita e do Paulinho. O tamanho, a envergadura das asas e o bico comprido, aliados a uma lentidão pré-histórica e um grito espantoso, sugeriram-me um ser fabuloso como um pterodátilo.

Depois que me transferi para o monastério descobri, para meu deleite, que havia curicacas aqui perto - até pouco tempo elas cruzavam o nosso céu em grupos de duas ou três, e costumam até hoje pousar no quintal do Hélio, em Quatro Barras, para procurar bichinhos no capim. Ainda mais recentemente, como se sabe, passei um fim de semana no sítio/reserva Curicaca, propriedade dos notáveis Tom e Gi - e na nossa estada fomos saudados por uma ou duas, além do casal de jacus que nos despertavam todas as manhãs em Dolby Surround.

A curicaca (do tupi kuri’kaka) é, obviamente, uma espécie de íbis. Informa-me o Houaiss que o nome aparece pela primeira vez em 1618, como quariquaqua. O De Avibus Brasilianis de 1650 deve ser, então, uma das primeiras obras a registrar a grafia contemporânea.

Depois de apresentar as aves do Brasil, Jonston conclui sua História Natural das Aves com um apêndice sobre aves fabulosas como o grifo e a harpia. Nada mais apropriado.

Veja também:

De Avibus Brasilianis, no sáite da Universidade de Mannheim
Fotos de curicacas no Flickr