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	<title>A Bacia das Almas &#187; Política</title>
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	<description>Onde as ideias não descansam</description>
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		<title>Sobre manipular antônimos</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Dec 2011 16:30:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><small>As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.</small></p>
<p align="right"><small>A narração inicial de <em>Árvore da vida</em>, de <strong>Terrence Malick</strong></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo. </p>
<p>Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. &#8220;Qual é o contrário de [determinada coisa]&#8221; é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.</p>
<p>Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/sobre-manipular-antonimos/#footnote_0_2746" id="identifier_0_2746" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Ou, ainda, qual &eacute; o contr&aacute;rio de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido &amp;#8220;homoafetivo&amp;#8221;, que alia &agrave; baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplifica&ccedil;&atilde;o e da incorre&ccedil;&atilde;o. Porque os heterossexuais, em especial os homens, s&atilde;o em geral grandes homoafetivos &amp;#8211; no sentido de que sentem-se mais &agrave; vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperan&ccedil;as da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.">1</a></sup>? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. &#8220;Qual é o contrário disso?&#8221; pode também significar &#8220;existirá uma alternativa a isso?&#8221;, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.</p>
<p>Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, &#8220;o contrário de capitalismo é socialismo&#8221; é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.</p>
<p>Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência &#8211; aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug004.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-lado-esquerdo-de-hitler/">O lado esquerdo de Hitler</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/sobre-dar-nomes-a-primatas/">Sobre dar nome a primatas</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/sobre-o-costume-de-agrupar-livros/">Sobre o costume de agrupar livros</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2746" class="footnote">Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido &#8220;homoafetivo&#8221;, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos &#8211; no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Ser inteligente</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 08:48:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambiçõesNinguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. de carreira pública ou política. Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ser inteligente não é uma vantagem para quem tem ambições<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado.</span> de carreira pública ou política.</p>
<p>Ninguém iria querer servir-se de um líder que não pudesse ser manipulado. Pessoas inteligentes tendem a influenciar mais os outros e a serem menos influenciáveis. Verdade: quer seja um chefe de uma repartição, o presidente da república, ou o líder de algum pequeno grupo, o que permitiu a ele chegar lá não foi a sua inteligência e sim a sua flexibilidade. Entendeu, <em>flexibilidade?</em></p>
<p align="right"><small>Meu amigo <strong>Ivan Volcov</strong>, em comentário <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/ambush/">a este documento</a></small><br />
<span style="color:#B0B0A0"><small>Da série: Do tempo em que a Bacia era aberta a comentários</small></span></p>
<p align="right">
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		<title>Do berço à sepultura: a nostalgia do comunismo e o capitalismo em sua forma de sempre</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Jul 2011 07:47:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa entrevista para o The New York Herald em 1921, Lenin afirma1: Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa entrevista para o <em>The New York Herald</em> em 1921, Lenin afirma<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2011/do-berco-a-sepultura-a-nostalgia-do-comunismo-e-o-capitalismo-em-sua-forma-de-sempre/#footnote_0_2574" id="identifier_0_2574" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Collected Works, vol. 36, p. 538.">1</a></sup>:</p>
<blockquote><p>Algumas pessoas nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que os bolcheviques são uma panelinha de homens muito malvados que exerce tirania sobre um vasto número de pessoas muito inteligentes que formariam um governo admirável entre eles mesmos no momento em que o regime bolchevique fosse derrubado.</p></blockquote>
<p>O admirável sobre essa propaganda anti-comunista é quão tediosamente similar ela tem se mantido ao longo de quase 90 anos, e quão difundida ela permanece. De qualquer modo, visto que essas panelinhas &#8220;de homens muito malvados&#8221; foram agora derrubadas e substituídas pelos &#8220;governos admiráveis&#8221; de &#8220;pessoas muito inteligentes&#8221;, seria o caso de examinar as condições dos países &#8220;pós-comunistas&#8221; da Europa oriental.</p>
<p>Num comentário em minha postagem anterior, <a href="http://stalinsmoustache.wordpress.com/2011/06/04/marx-the-satanist/#comments">Marx, satanista?</a>, Tamara chamou-me a atenção para uma <a href="http://www.romanianewswatch.com/2010/09/many-in-romania-miss-ceausescu-regime.html">pesquisa recente</a> feita na Romênia:</p>
<blockquote><p>Só 27 por cento dos romenos afirmam que o comunismo era &#8220;errado&#8221;, enquanto 47 por cento responderam que &#8220;era uma boa ideia, mas mal aplicada&#8221; e 14 por cento acham que foi &#8220;uma boa ideia e bem aplicada&#8221;. Impressionantes 78 por cento afirmam que nem eles nem suas famílias jamais sofreram debaixo do comunismo.</p></blockquote>
<p>E tudo isso tomou lugar sob aquele ditador perverso e odiado, Nikolai Ceausescu.</p>
<p>Passemos então para a Bulgária, um lugar que conheço muito bem. Num livro recente, Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life after Communism/<em>Perdido na transição: Etnografias do cotidiano depois do comunismo</em>, Kristen Ghodsee observa uma crescente nostalgia pela era comunista. Mas por quê, especialmente em se tratando de um estado supostamente stalinista? <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«O que diziam do capitalismo era verdade.»</span>Quando o capitalismo foi repentinamente imposto em 1989, uns poucos estrangeiros com boas conexões e uma nova classe de oligarcas e criminosos locais assumiram os ativos que haviam pertencido anteriormente ao estado &#8211; aqueles que chamaríamos de &#8220;empresários&#8221;. A gente comum sentiu-se roubada, e muitos perderam seus empregos justamente no momento em que o sistema previdenciário do estado era desmantelado. E será que isso só ocorre na Bulgária? De forma alguma: é o capitalismo em sua forma de sempre.</p>
<p>Tenha em mente que esses são estados que eram supostamente modelos de uma ditadura insuportavelmente repressiva. Não estamos falando, por exemplo, da Iugoslávia, que era com frequência tomada como exemplo de um comunismo mais humano e viável. E enquanto falamos da Iugoslávia: quatro em cada cinco pessoas com as quais falo sobre &#8220;a antiga I&#8221; me dizem que ela funcionava muito bem.</p>
<p>Prevejo que esta seria a brecha para uma resposta bem lubrificada da direita:</p>
<p>&#8220;Claro, é natural que os mais velhos tenham saudade das ditaduras e autocracias, porque essas lhes forneciam algumas certezas na vida, por mais difícil que fosse a situação. Mas podemos com segurança ignorar essas debéis nostalgias dos mais velhos&#8230;&#8221;</p>
<p>Papo-furado. Conheci russos jovens, nascidos depois ou logo antes de 1989, que erguem copos e brindam à antiga União Soviética. Acrescente-se a isso &#8211; como informa-me um colega de Kiev depois de muita pesquisa &#8211; que apenas um, talvez dois, dos países do bloco oriental chegaram a alcançar o PIB de 1989 &#8211; e isso depois de mais de duas décadas de capitalismo.</p>
<p>Talvez, apenas talvez, as pessoas encontrem de fato valor em coisas como cobertura de saúde e educação universais, desemprego zero, dias de trabalho mais curtos e tempo de sobra para encontrar-se e conversar. Talvez, apenas talvez, economias planejadas sejam de fato melhores. Até mesmo o odiado (na Europa oriental) e ex-anti-comunista Zizek parece concluir que o comunismo era superior. Como ele coloca: tínhamos segurança do berço à sepultura, nunca levávamos nossos governantes a sério e tínhamos o Ocidente mítico com o qual sonhar.</p>
<p>Finalmente, há o que um amigo que morava num desses lugares me disse há algum tempo:</p>
<p>&#8220;Quando nos ensinavam sobre o capitalismo na escola, todos achávamos que ele não tinha como ser tão terrível quanto diziam. Achávamos que nossos professores estavam inventando tudo aquilo. Hoje, vivendo sob o capitalismo, entendo que o que eles diziam era verdade.&#8221;</p>
<p align="right"><small><strong>Roland Boer</strong>, <a href="http://stalinsmoustache.wordpress.com/2011/06/08/was-life-under-communism-better/">Was life under Communism better?</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug034.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/partiya-lenina/">Партия Ленина</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/na-mesma-moeda/">Na mesma moeda</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">Igreja e capitalismo</a></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2574" class="footnote"><em>Collected Works</em>, vol. 36, p. 538.</li></ol>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A sucessora</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2011/a-sucessora/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-sucessora</link>
		<comments>http://www.baciadasalmas.com/2011/a-sucessora/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 03 Jan 2011 08:35:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[socialismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Ma otto son lunghi Adriano Celentano, em O rapaz da via Gluck &#160; Agora que o presidente desceu a rampa, recebi permissão para falar. Como se sabe, meu cinismo essencial não apenas estende-se à política, mas deve-se em grande parte a ela. Sobre democracia não chego a compartilhar todas a descrenças de Lovecraft, mas endosso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="right"><em>Ma otto son lunghi</em><br />
<small><strong>Adriano Celentano</strong>, em <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-rapaz-da-via-gluck/">O rapaz da via Gluck</a></small></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Agora que o presidente desceu a rampa, recebi permissão para falar. </p>
<p>Como se sabe, meu cinismo essencial não apenas estende-se à política, mas deve-se em grande parte a ela. Sobre democracia não chego a compartilhar <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/contra-a-democracia/">todas a descrenças de Lovecraft</a>, mas endosso sem qualquer dúvida <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-que-menos-sao/">a iluminada desilusão de Tolkien</a>.  Como a esta altura também ninguém deve ignorar, não me considero de esquerda, mas pendo periodicamente em direção a ela devido à minha impenitente simpatia para com o cristianismo e sua insensata <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/">ênfase distributiva</a>; pela mesma razão, não sou de direita e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">nem teria como ser</a>.</p>
<p>Meu respeito para com o ideal cristão, no entanto, é grande demais para que eu me contente com a esquerda; como já devo ter dito antes, o problema com o socialismo é ser ao mesmo tempo idealista demais e de menos. Em termos políticos, só me resta afirmar um anarquismo cristão como esboçado no Novo Testamento, que entende a implantação do reino de Deus como <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">o fim de todos os governos</a>: a formidável negação de toda estrutura de poder e de dominação, em todos os níveis, por mais bem-intencionadas que se mostrem. A negação da legitimidade dos poderes, ao contrário do que tememos os fariseus de todas as eras, não é o reinado do caos: é o intransigente reino da liberdade, da ternura e da responsabilidade universais, em que o regime do <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">amor se prova mais severo do que o da justiça</a>. Muito declaradamente, Deus esvaziou-se em Jesus a fim de mostrar que onde não há poderes, há o reino de Deus. Deus é Despoder.</p>
<p>Naturalmente, um regime subversivo dessa natureza só pode ser implantado de baixo para cima. Por definição os anarquistas não devem se organizar, pelo que a do reino, por vocação, é a revolução que não será televisionada.</p>
<p>Enquanto isso os poderes continuam a dançar, e é uma dança de discursos e portanto <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/">de polarização</a>. No que diz respeito à recente ascensão da esquerda no Brasil, interessa-me menos a esperança (quem sabe infundada) que despertou em alguns do que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/">o temor que despertou em outros</a>.</p>
<p>Porém o fascínio de Lula é maior do que o da esquerda; sua importância não se esgota na sua lealdade (ou não) ao ideal socialista. Em grande parte, a singularidade desses oito anos reside no espaço negativo que circundou a figura do ex-presidente &#8211; na natureza daquele vasto tudo-aquilo-que-não-é-Lula. Faz pouca diferença se você enxerga Luis Inácio da Silva como uma estrela cujo brilho ofuscou todas as outras ou como um buraco negro que arrastou para dentro de si as energias que serviriam para iluminar o mundo. São anos que ficarão marcados menos pelo que Lula fez ou deixou de fazer do que pelo que ele gerou (e deixou de gerar) ao redor de si.</p>
<p>Em primeiro lugar, o duplo mandato de Lula deixou claro que a democracia no Brasil basta para permitir que qualquer um chegue efetivamente ao poder; essa mesma revelação mostrou ser motivo de júbilo para uns e de horror para outros. Nesse sentido, foram oito anos de comunitária nudez, a reação que oferecemos à ascensão e à postura de Lula dizendo sempre mais sobre nós mesmos do que sobre ele.</p>
<p>Em segundo lugar, há o fato incontornável (já observado por habitantes dos dois hemisférios da esfera política) de que o governo Lula não teve oposição organizada. Trata-se de feito singular por muitas razões, e a menor delas não está em que  &#8211; depois de duas décadas do seu exemplo &#8211; a direita poderia ter aprendido com o PT como se faz oposição eficaz. </p>
<p>Nesses oito anos a direita teve o lastro da revista VEJA, de Reinaldo Azevedo, de Diogo Mainardi, de Olavo de Carvalho, de um canal de TV ou outro, de articuladíssimo blogueiros, de milhões de dólares em empresários e de setecentos milhões de mensagens de email circularmente encaminhadas. Essas vozes denunciaram o presidente Lula como um analfabeto, um despreparado, um vagabundo, um bêbado e uma vergonha nacional, mas deixaram de produzir a derradeira evidência que seria capaz de comprovar o seu próprio cacife para emitir essas opiniões. Os letrados, os preparados, os trabalhadores, os sóbrios e os notáveis da direita mostraram-se incapazes de espremer de suas fileiras uma única voz &#8211; uma que fosse, minha gente, dentre tanta gente preparada &#8211; capaz de articular publicamente a sua posição e de representar uma alternativa ao governo e oferecer-lhe verdadeira oposição. Durante décadas Lula representou a oposição e falou em nome dela; durante o seu governo não houve um único candidato a candidato a expressar com um pingo de carisma ou autoridade a posição e as ressalvas da direita. </p>
<p>Acho isso grave porque estou também absolutamente convicto que não faz bem a ninguém governar sem oposição &#8211; mesmo que se trate de um governante tão claramente bem-intencionado quanto Lula. Cheguei a cogitar de, por amor à esquerda, fundar um articulado partido de extrema direita, para que Lula pudesse beneficiar-se de uma oposição e do saudável contrapeso de um adversário. Mas o que deixei de fazer por amor à esquerda os direitistas mostraram-se incapazes de fazer por amor à sua própria causa. Lula manteve a sanidade e o equilíbrio mesmo sem um opositor para refreá-lo, coisa que não pode ser dita sobre os governantes que o antecederam.</p>
<p>Finalmente, há o enorme espaço que Lula deixou para trás agora que passou de si a faixa. A lacuna é tão grande que Dilma Roussef, mesmo que tivesse em seu favor alguma visibilidade anterior e algum carisma pessoal, não teria como começar a preencher. Por décadas Lula representou o carisma na oposição e por oito anos no poder; agora que desceu a rampa, deixou-nos sem o conforto de um ou de outro.</p>
<p>Dilma nunca foi minha candidata (muito menos Serra, fique claro) e não a conheço; só sei dela que Lula por alguma razão (talvez bem-intencionada, mas sem dúvida política) impôs sobre ela sua benção. Será injusto esperar que qualquer outro representante da esquerda se mostre tão terno e equilibrado quanto Lula; será inocente esperar que qualquer representante da esquerda sem o seu carisma seja tolerado por tanto tempo por uma direita que representa os que têm tanto a perder. </p>
<p>Deste posto, do terceiro dia de quatro anos dos quais nada sei, só posso prever que Dilma, se sobreviver até o final de seu mandato, será inevitavelmente seguida por um candidato de direita.</p>
<p>Há, porém, uma esperança: talvez Lula, o despreparado filho do Brasil, se levante para preencher a lacuna que seus adversários se mostraram impotentes para oferecer. Se quiser, Lula pode muito bem representar a oposição capaz de manter o equilíbrio de Dilma. Quem sabe Lula seja grande o bastante para fazer aquilo de que nenhuma esquerda do mundo foi capaz: assegurar simultaneamente a perpetuação e a singeleza do seu ideal.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug015.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/capitalismo-socialismo-alienacao-e-o-capeta/">Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta</a><br />
<a href="http://www.garimpoeditorial.com.br/livro+anarquia+cristianismo.html">Anarquia e cristianismo</a></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Sobre manifestações populares e medidas de proteção a minorias</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/sobre-manifestacoes-populares-e-medidas-de-protecao-a-minorias/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=sobre-manifestacoes-populares-e-medidas-de-protecao-a-minorias</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Dec 2010 08:11:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[lovecraft]]></category>

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		<description><![CDATA[É desconcertantemente difícil para um leigo ter qualquer opinião inteligente sobre o assunto. Eu me encontro às vezes de um lado, às vezes do outro. Pode ser que a promulgação de uma medida dessa natureza sob pressão popular se prove um valioso precedente na necessária tarefa futura de derrubar a resistência conservadora a programas federais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É desconcertantemente difícil para um leigo ter qualquer opinião inteligente sobre o assunto. Eu me encontro às vezes de um lado, às vezes do outro. Pode ser que a promulgação de uma medida dessa natureza sob pressão popular se prove um valioso precedente na necessária tarefa futura de derrubar a resistência conservadora a programas federais de assistência em geral. Por outro lado, pode provar-se sinal para outros apelos mais irracionais por privilégios especiais por parte de diversos grupos e interesses [...]. Apenas historiadores mais tardios saberão apresentar um veredito genuinamente imparcial.</p>
<p>Enquanto isso, qualquer legislação que seja capaz de relaxar a miópica e complacente supremacia das grandes indústrias deve ser encorajada. Seria provavelmente impossível e impraticável tentar-se fragmentar essas indústrias em unidades menores, visto que a tendência geral de operação efetiva é no sentido de uma unificação; porém é de fato praticável e aconselhável combater o quanto for possível o irresponsável abuso de poder e controle dos processos governamentais por parte desses conglomerados.</p>
<p align="right"><small><strong>H. P. Lovecraft</strong>, em carta a Robert E. Howard<br />
16 de agosto de 1932</small></p>
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		<title>(¬_¬)</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Oct 2010 06:23:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>

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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6153536"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/6153536_67b160f10611e00667b3044489e82753_standard.jpg" height="460" width="306" /><br />
</a></p>
<p align="center"><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6156471"><img src="http://www.23hq.com/23666/6156471_79ce5a77e31dee0282dac1646e058e4c_mblog.jpg" height="135" width="96" /></a> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6072252"><img src="http://www.23hq.com/23666/6072252_2942dbb8833be874448669f5c78acae2_mblog.jpg" height="135" width="96" /> </a><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6070163"><img src="http://www.23hq.com/23666/6070163_60d84e84ec122ac514d19471d212355a_mblog.jpg" height="135" width="96" /> </a><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6066840"><img src="http://www.23hq.com/23666/6066840_cd33fc9015d808aaf6c803a88ef6009a_mblog.jpg" height="135" width="96" /></a> <br /><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6057956"><img src="http://www.23hq.com/23666/6057956_e22ab19b6f4533e76cb293a3f1a04854_mblog.jpg" height="135" width="96"></a> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6055513"><img src="http://www.23hq.com/23666/6055513_33588ba8b8f8a9dc747ac17d210d24bf_mblog.jpg" height="135" width="96" /> </a> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6052236"> <img src="http://www.23hq.com/23666/6052236_db64c46c52caa5516a25622be59df6cd_mblog.jpg" height="135" width="96" /> <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6050553"> <img src="http://www.23hq.com/23666/6050553_afb4f3c4ac9987cd132b4f8218acc828_mblog.jpg" height="135" width="96" /></a><br />
</a> </p>
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		<title>10 dias para o fim do mundo</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Oct 2010 02:01:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[bacia]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Faltam agora para a eleição de 31 de outubro, ocasião em que ficará decidido se será o fascismo brasileiro ou o nosso comunismo que contribuirá para o agendado fim do mundo em 2012.Vista o seu candidato nA Bacia das Almas. Aqui no Monastério de São Brabo acreditamos que a anarquia é a única forma de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Faltam agora  para a eleição de 31 de outubro, ocasião em que ficará decidido se será o fascismo brasileiro ou o nosso comunismo que contribuirá para o agendado fim do mundo em 2012.<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">Vista o seu candidato nA Bacia das Almas.</span> Aqui no Monastério de São Brabo acreditamos que a anarquia é a única forma de governo, e que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/partido-nao-se-toma-3/">a liberdade de expressão termina onde começa a liberdade de pensamento</a>. Em conformidade com essa convicção e com a admoestação profética do Ivan (&#8220;vocês anarquistas precisam se organizar&#8221;) o Monastério está lançando a campanha de conscientização <em>Vista o seu candidato nA Bacia das Almas</em> &#8211; <em>10 dias para o fim do mundo</em>.</p>
<p>(para vestir o Serra agora mesmo, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra">clique aqui</a>. Para vestir a Dilma, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef">clique aqui</a>)</p>
<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4106/5098321704_bc62b4079d_b.jpg" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas" /></a>
</p>
<p>O que você pode fazer para participar?</p>
<p><strong>1. Divulgue a campanha</strong> no seu sáite ou blog (o código para os banners está logo abaixo), por email, powerpoint ou qualquer outro meio ainda mais irritante. Como esta é uma guerra justa, vale até mesmo o uso de meios de divulgação moralmente dúbios como o twitter. </p>
<p><strong>2. Imprima, recorte e monte o seu candidato ideológico. </strong>Vale canonizar e demonizar sem medo, visto que pastores, periódicos e blogueiros supostamente isentos fazem a mesma coisa (para vestir o Serra agora mesmo, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra">clique aqui</a>. Para vestir a Dilma, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef">clique aqui</a>).</p>
<p><strong>3. Atormente seus amigos com a sua interpretação</strong> do candidato deles. Demonstre além de qualquer dúvida que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/partido-nao-se-toma-3">nada é mais tendencioso do que uma opinião</a>!</p>
<p><strong>4. Tire uma foto de sua dupla ideológica de candidatos</strong> numa situação engraçada, criativa, impertinente ou ultrajante e mande para o Paulo Brabo no e-mail baciadasalmas@gmail.com até a meia-noite do dia 31. Todos os participantes (e não-participantes!) ganharão, sem sorteio, um país dividido. E algumas das fotos posso resolver mostrar aqui.</p>
<p><strong>5. Divirta-se com seus candidatos sem nutrir a ilusão de estar fazendo qualquer diferença,</strong> precisamente como vai ser quando você votar no dia das eleições!</p>
<h5> * * * </h5>
<p><small>Para divulgar a campanha você pode apontar para a página principal da Bacia:<br />http://www.baciadasalmas.com<br />
Ou para a página da campanha:<br />http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo<br />
Ou diretamente para as páginas dos candidatos:<br />http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra<br />http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef</p>
<p>Segue ainda o código html dos banners para você recortar e colar na barra lateral do seu blogue ou onde quiser no seu sáite:</small></p>
<p><strong>CÓDIGO PARA O BANNER DA CAMPANHA:</strong><br />
<code>&lt;a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo"&gt;&lt;img src="http://web.newsguy.com/carpen/10dias-promo.png" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</code></p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/10-dias-para-o-fim-do-mundo"><img src="http://web.newsguy.com/carpen/10dias-promo.png" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas" /></a></p>
<p><strong>CÓDIGO PARA O BANNER &#8220;VISTA O SERRA&#8221;:</strong><br />
<code>&lt;a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra"&gt;&lt;img src="http://farm5.static.flickr.com/4017/5097606692_32aa8962e6.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: José Serra"/&gt;&lt;/a&gt;</code></p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4017/5097606692_32aa8962e6.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: José Serra"/></a></p>
<p><strong>CÓDIGO PARA O BANNER &#8220;VISTA A DILMA&#8221;:</strong><br />
<code>&lt;a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef"&gt;&lt;img src="http://farm5.static.flickr.com/4153/5097010531_d34b31954f.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: Dilma Roussef"/&gt;&lt;/a&gt;</code></p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef"><img src="http://farm5.static.flickr.com/4153/5097010531_d34b31954f.jpg" border=0 title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: Dilma Roussef"/></a></p>
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		<title>Vista o candidato: José Serra</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Oct 2010 10:25:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[coreldraw]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Clique na imagem para ampliar. Versão PARA IMPRIMIR AQUI. &#160; * * * &#160; Vista também a Dilma:]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://farm5.static.flickr.com/4111/5096466762_4d07821e23_b.jpg"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/5976489/6124403_f072ede4426ba7817aad69d398938495_large.jpg" height="756" width="534" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: José Serra" /><br />
</a></p>
<p>Clique na imagem para ampliar. Versão <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6124403/original"><strong>PARA IMPRIMIR AQUI</strong></a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h5>* * *</h5>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vista também a Dilma:</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef/"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/vista-dilma.png" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: Dilma Roussef" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Vista o candidato: Dilma Roussef</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-dilma-roussef/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=vista-o-candidato-dilma-roussef</link>
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		<pubDate>Sat, 16 Oct 2010 14:31:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[coreldraw]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Clique na imagem para ampliar. Versão PARA IMPRIMIR AQUI. &#160; * * * &#160; Vista também o Serra:]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://farm5.static.flickr.com/4152/5085961205_b595771d14_b.jpg"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/6117083_17e2d92996362c0d889870a2739bd959_large.jpg" height="756" width="534" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: Dilma Roussef" /><br />
</a></p>
<p>Clique na imagem para ampliar. Versão <a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6117083/original"><strong>PARA IMPRIMIR AQUI</strong></a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h5>* * *</h5>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vista também o Serra:</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/vista-o-candidato-jose-serra/"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/vista-serra.png" title="Vista o seu candidato nA Bacia das Almas: José Serra" /></a></p>
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		</item>
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		<title>A pastoral do medo</title>
		<link>http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=a-pastoral-do-medo</link>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 08:56:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divino preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[pacifismo]]></category>
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		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há um bom motivo pelo qual o alarmismo é contagioso e irresistível, e se espalha como a peste pelas veias da internet; há um motivo pelo qual os pregadores invariavelmente demonizam seus adversários, e afirmam haver gigantes insaciáveis onde ficará demonstrado haver moinhos de vento: semear o medo torna as pessoas vulneráveis, e gente vulnerável pode ser manipulada. </p>
<p>O medo só é capaz de dominar quem tem alguma coisa a perder; quem não tem nada a perder não tem a nada temer. Esta é uma equação delicada, especialmente num país como o Brasil, em que a distribuição de renda está entre as dez mais desiguais<span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">A igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter.</span> do mundo (e é um mundo grande): há sempre o risco de que os que não tem nada a perder se levantem contra os que tem tudo a perder.</p>
<p>Em todo o mundo, mas especialmente num país com a nossa história, a classe média ocupa mais ou menos o espaço que ocupava a nobreza nos tempos medievais e coloniais. E, como sabemos o que aconteceu à nobreza em insurreições como a Revolução Francesa, a classe média adentrou a era moderna imbuída de um medo que lhe é absolutamente característico e essencial: <em>o medo da perturbação social.</em></p>
<p>A classe média sabe desejar o progresso e é capaz de assimilar a mudança, porém (exatamente como a nobreza antes dela) tem absoluto horror à desordem. Seu mundo de shopping centers, de ambientes de ar condicionado e de seguranças na porta (a fim de manter os incompatíveis à distância) deve ser resguardado a todo custo. Passeatas, quebra-quebras, invasões de sem-terra, ladrões que levam o iPad e revoluções de gente faminta devem pertencer ao domínio ilustrativo dos filmes de zumbi. Na verdade, já o constrangimento de ser abordado por uma criança de rua na esquina deve ser aplacado pelo uso preventivo de carros blindados e vidros escuros.</p>
<p>A estabilidade social, entendida como a manutenção de um estado de coisas em que uma minoria administre e se beneficie de recursos que são de todos, é o valor por excelência da classe média. Não há outra verdade eterna que ela esteja disposta a defender.</p>
<p>O medo da perturbação social, no entanto, é genérico demais e precisa encontrar ícones que os encarnem de modo satisfatório. É preciso pulverizar o nosso medo essencial atribuindo-o a culpados e demônios. </p>
<p>E, se quisesse manipular nos nossos dias uma burguesia absolutamente aterrorizada diante da possibilidade de perturbações sociais, que alvos você elegeria? Deixe-me ajudá-lo: elejamos os homossexuais, os que defendem o aborto, os sem-terra, os comunistas<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_0_2381" id="identifier_0_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Na Europa e nos Estados Unidos seria necess&aacute;rio incluir nesta lista os mu&ccedil;ulmanos e os imigrantes.">1</a></sup>. </p>
<p>Cada uma dessas categorias representa, à sua maneira, uma formidável possibilidade de perturbação social; cada uma, à sua maneira, materializa uma ameaça à tranquilidade <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">O que a classe média teme são perturbações sociais.</span> sanitizada do indefectível universo burguês, em que nada é sujo, nada é feio, nada é controverso e nada é constrangedor.</p>
<p>E que ameaça maior do que um mundo em que a união civil entre homossexuais denuncie diariamente o caráter relativo e historicamente determinado de soluções de convívio que a sociedade toma por normativas? O que parecerá mais perturbador do que um mundo em que gente do sexo masculino ouse definir a sua relação mútua pela afetividade e não pela agressividade e pela competição? Um mundo em que mulheres ousem prescindir do homem para encontrar a sua satisfação sexual e emocional?</p>
<p>Do mesmo modo, será preciso avaliar a ameaça de um mundo em que o aborto exista sequer como possibilidade. Porque este mundo irá postular como legítimo que a mulher exerça controle sobre seu próprio corpo e sobre seu próprio prazer, e esses domínios pertencem por tradição ao âmbito do seu homem. </p>
<p>E que dizer dos sem-terra e dos comunistas, que <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/porque-nao-sou-de-direita/">blasfemam do próprio capitalismo</a> e querem virar o mundo do avesso, ignorando os privilégios milenares da propriedade, da classe social e do lucro, e isso em favor de uma ameaça tão declarada quanto a &#8220;igualdade social&#8221;? O que pode ser mais inaceitável do que esse ataque direto à estabilidade &#8211; à própria existência &#8211; do mundo entrincheirado da burguesia<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_1_2381" id="identifier_1_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Uma sociedade justa &eacute; uma em que, por defini&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o existe m&atilde;o de obra barata. Conversei esta semana com um empres&aacute;rio que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pir&acirc;mide pelo sal&aacute;rio que ele costumava oferecer. Diante de seguran&ccedil;as de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Fam&iacute;lia, os desqualificados do sistema est&atilde;o pensando duas vezes antes de se submeter a uma posi&ccedil;&atilde;o desumanizante e pouco promissora. Esse empres&aacute;rio sentia-se pressionado a ou aumentar os seus sal&aacute;rios ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as solu&ccedil;&otilde;es o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturba&ccedil;&atilde;o social. Seu mundo de enriquecimento r&aacute;pido baseado na submiss&atilde;o volunt&aacute;ria dos mais fracos estava sendo amea&ccedil;ado, e seu patrim&ocirc;nio corre o risco de n&atilde;o dobrar n&oacute;s pr&oacute;ximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.">2</a></sup>?</p>
<p>Se é para preservar o presente mundo das perturbações sociais, será necessário negar qualquer igualdade de direitos civis aos homossexuais, chamando sua demanda de ditadura gay; será preciso abominar o aborto acenando com a bandeira pró-vida, ao mesmo tempo em que escondemos atrás dela os recursos que financiam a morte nas guerras e o horror das crianças vivas que passam fome patrocinada pelo capitalismo; será preciso rejeitar qualquer iniciativa que altere desfavoravelmente (para nós) a distância de segurança entre as castas, tachando-as de paternalismo, assistencialismo, compra de votos e introdução gradual da doutrina comunista<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-pastoral-do-medo/#footnote_2_2381" id="identifier_2_2381" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Pode ser necess&aacute;rio lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de solu&ccedil;&otilde;es legislativas ou pol&iacute;ticas para quaisquer dessas quest&otilde;es. Na verdade rejeito a supremacia de qualquer solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O que reconhe&ccedil;o &eacute; que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de C&eacute;sar um rei primeiro descal&ccedil;o, depois invis&iacute;vel, e maquinava a implanta&ccedil;&atilde;o nesta terra de um reino que n&atilde;o &eacute; deste mundo) pressup&otilde;e e instaura o fim de todos os governos.">3</a></sup>.</p>
<p>Pelo menos desde a Idade Média o papel da igreja foi fundamental na definição e na propagação de medos expiatórios como esses. Num sentido muito profundo, a igreja vive de elencar os medos que a sociedade deve ter. Coube tradicionalmente a ela fornecer os demônios cuja execração garanta a continuidade do estado de coisas &#8211; e resguarde, no mesmo pacote, a influência que a própria igreja exerce sobre as pessoas.</p>
<p>Aqui está Jean Delumeau, notável mapeador de medos, falando da cidade sitiada que era a sociedade medieval:</p>
<blockquote><p>Os homens da igreja levantaram os males que [Satã] é capaz de provocar e a lista de seus agentes: os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres (especialmente as feiticeiras). Operaram uma triagem entre os perigos e assinalaram as ameaças essenciais, isto é, aquelas que lhes pareceram tais, levados em conta sua formação religiosa e seu poder na sociedade. Uma ameaça de morte viu-se assim segmentada em medos, seguramente temíveis, mas &#8220;nomeados&#8221; e explicados, porque refletidos e aclarados pelos homens da igreja. Essa enunciação designava perigos e adversários contra os quais o combate era, se não fácil, ao menos possível, com a ajuda da graça de Deus. Desmascarar Satã e seus agentes e lutar contra o pecado era, além disso, diminuir sobre a terra a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa. Essa denúncia se pretendia, pois, liberação, a despeito &#8211; ou melhor por causa &#8211; de todas as ameaças que fazia pesar sobre os inimigos de Deus desentocados de seus esconderijos. </p></blockquote>
<p>Basta que se troquem os rótulos &#8211; saem turcos, judeus, heréticos e feiticeiras e entram comunistas, homossexuais, feministas e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">muçulmanos</a> &#8211; para que se veja que a igreja permanece elegendo &#8220;ameaças essenciais&#8221; de modo a beneficiar-se do pavor que a sociedade tem de perder os privilégios da familiaridade.</p>
<p>A igreja formal contemporânea dispõe de uma parcela de poder infinitamente menor do que a medieval, mas isso não torna os seus esforços menos enfáticos. Ao contrário, para resguardar o pouco poder que lhe resta, os homens da igreja se entregarão com paixão inquisitorial à tarefa de elencar demônios e exercer sua faculdade autoimposta de polícia social. E, como observado por Delumeau, parte essencial dessa estratégia é manter os cristãos com uma certa dose de <em>medo de si mesmos</em> &#8211; medo de serem contados entre o inimigo, medo de não defenderem com suficiente ardor uma pureza nominal, medo da rejeição institucional e de seus preços.</p>
<p>O problema de uma comunidade dominada pelo medo é que ela pode ser manipulada a ceder a gravíssimas injustiças em nome da preservação de sua tranquilidade idealizada. Dessa forma a Alemanha abraçou de bom grado o discurso nazista, por medo das perturbações sociais encarnadas na ameaça do comunismo e numa suposta dominação judaica mundial. Dessa forma a Itália dobrou-se servilmente ao fascismo e o Brasil à ditadura militar, porque esses autoritarismos berravam ameaças de uma impensável sublevação e de uma horrendo nivelamento societário. E, como era de se esperar, esses movimentos de terror contaram com o apoio aberto &#8211; e, em alguns casos, <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">o constrangido silêncio</a> &#8211; da igreja.</p>
<p>Em que somos menos manipuláveis do que a Alemanha nazista, se tememos as mesmas coisas? Os nazistas temiam que os judeus imprimissem no mundo seus valores, sua supremacia e sua estética, e nós tememos que os homossexuais implantem nele a sua agenda; os nazistas temiam que os comunistas aplainassem as classes ao ponto de uma completa descaracterização nacional, e nós tememos a mesma coisa. Somos nós a cidade sitiada, e o que nos conforta são os gritos do clero explicando o que devemos temer &#8211; e assim o que devemos odiar.</p>
<p>A ironia da participação da igreja na disseminação desses terrores está em que o movimento cristão nasceu e se desenvolveu num ambiente caracterizado por formidáveis perturbações sociais. Jesus ganhou fama de rei numa Palestina ocupada em que vinham periodicamente à tona levantes e guerrilhas dirigidas contra os romanos e sua opressão imperialista. O Templo dos judeus não sobreviveu ao sangrento confronto do ano 70 desta era, e poucas décadas mais tarde os próprios cristãos viram levantar-se contra o seu mundo uma longa e implacável perseguição.</p>
<p>Ainda mais paradoxal é reconhecer que, se devemos dar crédito ao Novo Testamento, a maior e mais radical fonte de perturbação social naqueles anos foi o próprio movimento cristão. Dos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">apelos de João Batista por justiça social</a> até <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/">as mesas comunitárias do livro de Atos</a>, passando pelos <a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/o-amor-e-mais-severo-que-a-justica/">confrontos de Jesus com todas as elites do seu tempo</a>, o movimento do reino representou uma intransigente e contínua sublevação societária. </p>
<p>Em conformidade com a herança de seu mestre (e causando o mesmo tipo de constrangimento), os colonos do reino levavam <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao">por onde passavam</a> as demandas por justiça, por fraternidade universal e pelo amor incondicional entre os homens. Quando a boa nova chegou a Tessalônica, na pessoa de Paulo e Silas, seus adversários não poderiam ter escolhido melhor as palavras para descrever a ameaça de perturbação social que representavam: &#8220;esses que estão virando o mundo de cabeça para baixo chegaram também aqui&#8221;.</p>
<p>Quando adotamos o discurso do medo, portanto, estamos tentando imprimir sobre a proposta impoluta e subversiva do reino marcas que são incompatíveis com a sua essência e com a sua herança. Porque o Novo Testamento não deixa espaço para dúvida: igreja não é quem teme a perturbação social, mas <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">quem a provoca</a>. Igreja não é quem promove o medo, mas quem o aplaca e o anula <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/">pela inclusão e pelo amor</a>. &#8220;O amor lança fora todo o medo&#8221;, ousou proclamar a provisão imprudente do Espírito.</p>
<p>E nós, o que fazemos? Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos aprendia, passo a passo, a incluir o diferente e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/">o tido previamente como inaceitável</a> (a mulher, o aleijado, o eunuco, o gentio), nós demonizamos como inaceitável o homossexual. Enquanto a igreja exemplar do livro de Atos adotava todo o tipo de <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/as-contradicoes-da-prosperidade/">medidas distributivas</a> e postulava um reino definido pela equidade, nós condenamos como comunismo e como Satanás a mínima provisão que vise apenas desbastar os abismos da distribuição de renda.</p>
<p>E nisso, que fique muito claro, vamos escolhendo aqueles medos que nos mantenham a salvo da nossa vocação.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug000.png"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/ainda-sobre-a-ameaca-muculmana/">Ainda sobre a ameaça muçulmana</a><br />
<a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/maria-rita-kehl-dois-pesos.html">Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2381" class="footnote">Na Europa e nos Estados Unidos seria necessário incluir nesta lista os muçulmanos e os imigrantes.</li><li id="footnote_1_2381" class="footnote">Uma sociedade justa é uma em que, por definição, não existe mão de obra barata. Conversei esta semana com um empresário que estava estarrecido diante da sua dificuldade de encontrar gente disposta a trabalhar na base da pirâmide pelo salário que ele costumava oferecer. Diante de seguranças de fundo como Seguro-Desemprego e Bolsa Família, os desqualificados do sistema estão pensando duas vezes antes de se submeter a uma posição desumanizante e pouco promissora. Esse empresário sentia-se pressionado a ou aumentar os seus salários ou diminuir a sua margem de lucro, e ambas as soluções o apavoravam, porque emblemavam e estavam fundamentadas numa perturbação social. Seu mundo de enriquecimento rápido baseado na submissão voluntária dos mais fracos estava sendo ameaçado, e seu patrimônio corre o risco de não dobrar nós próximos anos. Nada o deixava mais desconcertado e temeroso.</li><li id="footnote_2_2381" class="footnote">Pode ser necessário lembrar que o anarquista que existe em mim recusa-se a reconhecer a legitimidade de soluções legislativas ou políticas para quaisquer dessas questões. Na verdade rejeito a supremacia de <em>qualquer</em> solução política. O que reconheço é que o movimento colocado em movimento por Jesus e por suas testemunhas (movimento que aclamava contra o senhorio de César um rei primeiro descalço, depois invisível, e maquinava a implantação nesta terra de um reino que não é deste mundo) pressupõe e instaura <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos">o fim de todos os governos</a>.</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Quanto mais</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Sep 2010 13:01:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet. &#160; [Visite a Bacia para ouvir o áudio] Quebrando o cabresto, Falcão Veja também: Apartai-vos de mim Política, polarização e paralisia Devemos ser mais sutis]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p><a href="http://www.23hq.com/paulobrabo/photo/6049149"><br />
   <img src="http://www.23hq.com/23666/6049149_342afe5dafdf0b0443e1c0aabf35d1e5_large.jpg" height="529" title="Clique para ampliar" width="756" /><br />
</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><center>[Visite a Bacia para ouvir o áudio]</center></p>
<p><span style="color:#B0B0A0"><small>Quebrando o cabresto, <b>Falcão</b></small></span></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug008.gif"></p>
<p>Veja também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2008/apartai-vos-de-mim/">Apartai-vos de mim</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/">Política, polarização e paralisia</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/devemos-ser-mais-sutis/">Devemos ser mais sutis</a></p>
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		<title>11 de setembro</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Sep 2010 14:39:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).</p>
<p>Em qualquer dia marcado como santo &#8211; ou designado como momento de se recordar um evento passado &#8211; vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.</p>
<p>Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?</p>
<p>A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou &#8220;desapareceram&#8221;,  dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram &#8220;situações de trauma extremo&#8221;.</p>
<p>Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Salvador_Allende#A_hist.C3.B3ria_do_golpe_militar">o apoio da CIA</a>, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).</p>
<p>Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos &#8211; aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários &#8211; tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem). </p>
<p>Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente &#8211; uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald&#8217;s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.</p>
<p>O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao &#8220;11 de setembro&#8221; ou a &#8220;11/9&#8243;; não se fala em &#8220;11 de setembro de 2001&#8243; ou &#8220;11/09/2001&#8243;. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.</p>
<p>O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana.  Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 &#8211; em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão &#8220;super-Guatamano&#8221; de Obama na base da Força Aérea em Bagram.</p>
<p>O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.</p>
<p>Portanto, hoje seremos lembrados a &#8220;nunca esquecer&#8221; os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.</p>
<p align="right"><small><strong>Daniel Oudshoorn</strong><br />
 <a href="http://poserorprophet.wordpress.com">Poser or Prophet</a></small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif"></p>
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		<title>A fissura do mundo: política, polarização e paralisia</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 10:36:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final. Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final.</p>
<p>Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande estigma da vez, e nas cortes temporárias estabelecidas pelos aliados os alemães sob suspeita tinham que comprovar sua pureza ideológica durante o regime de Hitler<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/#footnote_0_2255" id="identifier_0_2255" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Como neste mundo nenhuma ironia se perde, mesmo oficiais nazistas de alto escal&atilde;o esfor&ccedil;aram-se para obter o seu Persilscheine &amp;#8211; certificado de isen&ccedil;&atilde;o, &amp;#8211; em alguns casos das pr&oacute;prias pessoas que haviam perseguido.">1</a></sup>. A igreja teria sido a entidade ideal para fornecer esses certificados de isenção, não fosse o fato de que &#8211; como não demoraram a apontar os rebeldes da Igreja Confessante &#8211; a própria igreja não estava isenta de culpa.</p>
<p>E, numa devastação de proporções tão descomunais, onde colocar a culpa? Onde não colocá-la? Depois de que impensável reparação um oficial nazista poderia voltar a frequentar a igreja que não hesitara em perseguir? Como se poderia esperar que um militante da resistência, trazendo no corpo e na mente as marcas da tortura, admitisse um ex-nazista em sua comunhão? Como poderia uma mãe perdoar-se por ter votado no ditador que despachara o seu filho para uma guerra da qual não tinha voltado? Quem estava pronto para reconhecer sua parcela de culpa? Quem estava pronto a perdoá-la? </p>
<p>Logo ficou claro que, estando todos os ressentimentos em alta, ninguém estava pronto para abraçar o fardo da culpa; não pelos horrores do nazismo. Uma declaração do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, publicada em outubro de 1945 (portanto poucos meses depois do final da guerra), causou indignação e controvérsia ao sugerir uma medida de culpa coletiva:</p>
<blockquote><p>Sabemos que nos encontramos não apenas numa comunidade de sofrimento, mas numa solidariedade de culpa. É com grande angústia que declaramos: através de nós incalculável sofrimento foi causado a diversos povos e terras. O que temos com frequência testemunhado diante de nossas congregações declaramos agora diante de toda a igreja: [...] somos culpados de não ter confessado de forma mais corajosa, de não ter orado de forma mais consciente, de não ter crido de modo mais jubiloso e de não ter amado de modo mais ardente. </p></blockquote>
<p>A Declaração de Culpa de Stuttgart, como ficou conhecida, foi amplamente rejeitada na Alemanha assim que saiu a público, sendo considerada traição ao povo alemão e rendição às demandas dos ocupantes aliados. Ela, afinal de contas, trazia um doloroso &#8220;através de nós&#8221;, e ninguém estava disposto a admitir envolvimento direto com a máquina da morte. Cada sobrevivente de uma guerra que havia se mostrado custosa em todas as frentes podia elencar sua própria série de circunstâncias atenuantes: estavam protegendo suas famílias, estavam apenas sendo bons cidadãos, fizeram o que puderam mas estavam respeitando as leis de seu país, os russos também eram culpados de enormes atrocidades, e assim por diante.</p>
<p>Por outro lado os militantes da resistência, que haviam assumido impensáveis riscos pessoais durante o nazismo sem o apoio da igreja institucional, consideraram a Declaração de Culpa vaga e insuficiente. Só para citar um ponto fundamental, o documento não mencionava a fulgurante omissão da igreja na questão da exclusão e do extermínio dos judeus. Se reparações eram para ser feitas, alegavam os sobreviventes da resistência, todas as culpas e culpados deveriam ser trazidos à tona, por mais doloroso que fosse o processo. O sangue de mártires como Bonhoeffer exigia pelo menos essa hombridade tardia.</p>
<p>E, como observa Barnett, o que surgia na Alemanha de pós-guerra não era uma solidariedade de culpa, mas mais propriamente uma solidariedade de silêncio a respeito do passado recente. Os da maioria conservadora achavam que o país só voltaria a avançar se a mancha horrenda do nazismo fosse deixada de lado o mais cedo possível; incomodava-os ouvir a minoria radical, que insistia que não haveria verdadeiro progresso até que o passado fosse trazido publicamente à tona e publicamente tratado.</p>
<p>Nessa discordância inicial sobre a atribuição da culpa estava a semente de uma polarização que nos anos seguintes só iria se acentuar, mesmo entre os membros da Igreja Confessante. Os próprios cristãos que haviam concordado em se opor publicamente a Hitler, crendo que estavam nisso confessando a herança de Jesus, passaram a discordar muito gravemente a respeito de qual rumo a igreja deveria tomar agora que o regime havia caído. </p>
<p>De um lado postaram-se os conservadores, que criam que a fim de honrar o sacrifício da resistência a igreja deveria almejar uma completa &#8220;restauração&#8221; &#8211; isto é, um retorno à situação ideal que a nação e a igreja viviam antes da interrupção da guerra. Esses tradicionalistas abraçaram o discurso ocidental de democracia e &#8220;liberação&#8221;: ao mesmo tempo reassumiram o seu nacionalismo e se tornaram anticomunistas. Do outro lado, os militantes não-conformistas alegaram que havia sido muito claramente a própria posição conservadora da igreja a ter possibilitado impunemente os horrores de Hitler; o único modo da igreja honrar o legado da resistência seria lutar abertamente contra uma restauração nacionalista do status quo, mantendo sua postura de oposição mesmo no novo e confortável regime nacional financiado pelos aliados. Esses oposicionistas viam que a relação entre a guerra e o discurso nazista demonstrara além de qualquer dúvida que um retorno à tradição &#8220;pátria e família&#8221; era absolutamente impensável; tornaram-se antinacionalistas e pacifistas, e passaram a pender para a esquerda.</p>
<p>Para os conservadores, os não-conformistas estavam usando a igreja como plataforma de objetivos políticos (isto é, não-espirituais); para os não-conformistas, os conservadores estavam se rendendo a uma estrutura de poder que patrocinaria a seu tempo injustiças em tudo indistinguíveis às do nazismo. Agora que os mártires estavam mortos e não podiam advogar sua própria posição, quem podia dizer qual era a verdadeira herança da igreja que se opusera a Hitler? De que lado estavam os heróis<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/#footnote_1_2255" id="identifier_1_2255" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Barnett: &amp;#8220;Membros de igreja que haviam criticado mais abertamente o regime nazista se mostraram posteriormente mais dispostos a criticar os governos de p&oacute;s-guerra; aqueles que haviam se ajustado ao sistema durante o Terceiro Reich continuaram a faz&ecirc;-lo depois de 1945&amp;#8243;.">2</a></sup>?</p>
<p>Como se não bastasse, a polarização ideológica entre tradicionalistas e radicais ficou logo dolorosamente ilustrada no mundo real. A Grande Guerra chegara ao fim, mas o país foi sequestrado internacionalmente para se tornar o ícone planetário de uma nova estirpe de guerra, a Guerra Fria, sendo fendida segundo os critérios ideológicos de seus ocupantes. Nasciam duas Alemanhas, a República Federal Alemã &#8211; ocidental, capitalista e anticomunista &#8211; e a República Democrática Alemã &#8211; soviética, comunista e anticapitalista. E, rasgada entre as duas, em termos ideológicos e geográficos, quedava a igreja evangélica alemã.</p>
<p>A divisão política da Alemanha garantiu, entre outras coisas, que o discurso interno da igreja, dos dois lados da fronteira (e logo dos dois lados do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Muro_de_berlim">Muro</a>) passasse a ser vivido e articulado exclusivamente a partir dessa polarização. Nenhuma das facções podia acreditar que o outro lado estava de alguma forma coadunando com o sistema: para os tradicionalistas, uma igreja comunista era uma contradição em termos<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/a-fissura-do-mundo-politica-polarizacao-e-paralisia/#footnote_2_2255" id="identifier_2_2255" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Num primeiro momento a igreja na Alemanha oriental n&atilde;o viu verdadeira incompatibilidade entre cristianismo e socialismo; ao contr&aacute;rio, enxergou no discurso coletivista uma poss&iacute;vel alternativa &agrave; vis&atilde;o nacionalista de mundo que possibilitara a aberra&ccedil;&atilde;o nazista. Nas d&eacute;cadas que se seguiram, cerceada por um Estado cada vez mais totalit&aacute;rio, a igreja na Alemanha socialista manteve a voca&ccedil;&atilde;o de oposi&ccedil;&atilde;o inaugurada pela Igreja Confessante, tornando-se catalisadora de protesto, resist&ecirc;ncia e desobedi&ecirc;ncia civil at&eacute; a capitula&ccedil;&atilde;o do sistema.">3</a></sup>; para os não-conformistas, uma organização que se ajustasse confortavelmente a um sistema seletivo e opressor como o capitalismo era em tudo idêntica à igreja sob Hitler. Paralisada pelas limitações inerentes a esses discursos polarizadores, a igreja permaneceu durante décadas patinando entre direita e esquerda, inteiramente incapaz de sair do lugar.</p>
<p>Na narrativa de Barnett não há conversões nem redenção; conservadores morrem conservadores, militantes morrem militantes &#8211; cada um inteiramente incapaz de suportar a convivência mútua, cada um crendo que apenas o seu lado está sendo fiel à verdadeira vocação cristã e ao legado de oposição ao nazismo.</p>
<p>Os protagonistas dessa narrativa já abandonaram, em sua maioria, o palco dos acontecimentos e dos discursos, sendo que alguns morreram para pagar o preço de sua coerência interna, na esperança de poderem salvar o que para eles era futuro e que para nós é presente &#8211; mas suas conflagrações são também as nossas. De vez em quando sou lembrado, pessoalmente ou por e-mail, que cristão não deve ser de esquerda; eu mesmo, em contrapartida, posso passar horas explicando porque um cristão deveria se opor ao capitalismo. De um lado, os conservadores ainda proclamam aos quatro ventos que o ocidente defende os valores democráticos e portanto &#8220;cristãos&#8221;; por outro, os não-conformistas ainda intuem sem ruído o que afirmou Hans Iwand, militante da resistência alemã: &#8220;uma igreja confessante estará sempre na oposição, em todo partido, em todo sistema, em todo governo&#8221;. Os conservadores denunciam a teologia da libertação como lobo socialista em pele de cordeiro cristão, enquanto os esquerdistas condenam o capitalismo como abominação fascista mal ocultada. Quem está certo? Quem está realmente na oposição? Onde está o articulado questionador deste século? Quem é o verdadeiro promotor do reino?</p>
<p>Como enxergo a coisa, a história da igreja sob Hitler, bem como seus desdobramentos históricos, é capaz de acrescentar o que devem ser considerados novos fatores a essa discussão. Primeiro, deve ser capaz de estabelecer de uma vez por todas que a polarização entre esquerda e direita, na forma como a herdamos, é inteiramente condicionada; não apenas é um discurso que foi injetado externamente na tradição cristã, mas foi (e permanece sendo) utilizada por ambos os lados do espectro político como ferramenta de legitimação ideológica.  </p>
<p>Segundo, é uma história que ilustra como o discurso político conduz invariavelmente à polarização &#8211; e a polarização, por sua vez, à paralisia (isto é, a omissão, e portanto o controle). O mal que o nazismo ocasionou não se restringe aos horrores literais do Reich, mas à divisão não menos literal a que o mundo foi submetido na mão dos vencedores. Esses venderam-nos a ideia de que um estava certo e o outro errado e, tendo gerado cada um o seu antagonista, garantiram a perpetuação de seus próprios sistemas. Com a queda do bloco soviético, o sistema sobrevivente procura incessantemente antagonistas que o legitimem &#8211; e faz isso porque absolutamente <em>sabe </em>que é só a polarização que pode salvar um discurso político. É vital que haja inimigos, por isso algumas vezes será necessário criá-los: Hitler sabia-o melhor do que ninguém. Enquanto permanecer politicamente útil, a polarização entre esquerda e direita continuará nos nossos lábios.</p>
<p>Finalmente, enxergo nessa narrativa um contraste trágico, inexcusável, entre as desventuras da igreja histórica e a posição apolítica de Jesus e dos primeiros cristãos &#8211; que, por sustentarem um modo de vida que ignorava faceiramente as soluções institucionais para &#8220;o problema da sociedade&#8221;, tornaram-se imediatamente ameaça aos discursos do sistema e a seus proponentes. Os primeiros cristãos sustentavam uma justiça que é <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">intermediada através de indivíduos</a>, não de instituições &#8211; e nessa postura estabeleciam um desconcertante reino que não é deste mundo.</p>
<p>E enquanto passamos a vida tentando determinar a posição de nossos antagonistas nos extremos do espectro político, mantemo-nos a salvo de assumir nós mesmos os riscos da verdadeira subversão cristã.</p>
<p>Porque, muito claramente, todas as culpas são coletivas, e uma consequência paradoxal disso é que só são concebíveis as bravuras individuais. Não existem soluções políticas, porque todas as soluções políticas são polarizadoras, e portanto paralisantes. O cristianismo que anuncia <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-de-todos-os-governos/">o fim de todos os governos</a> faz isso demonstrando singelamente, na sua prática inargumentável, que qualquer discurso de redenção institucional é ilusório, servindo apenas de ferramenta aos poderes e potestades para nos manter sob o seu domínio. Como ensina o homem pregado na cruz e o sangue de todos os mártires, todas as bravuras são individuais. Arrepender-se é mudar o mundo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/">a começar do nosso</a>, e <a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/">pecar é omitir-se</a>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug053.gif"></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_2255" class="footnote">Como neste mundo nenhuma ironia se perde, mesmo oficiais nazistas de alto escalão esforçaram-se para obter o seu <em>Persilscheine </em>&#8211; certificado de isenção, &#8211; em alguns casos das próprias pessoas que haviam perseguido.</li><li id="footnote_1_2255" class="footnote">Barnett: &#8220;Membros de igreja que haviam criticado mais abertamente o regime nazista se mostraram posteriormente mais dispostos a criticar os governos de pós-guerra; aqueles que haviam se ajustado ao sistema durante o Terceiro Reich continuaram a fazê-lo depois de 1945&#8243;.</li><li id="footnote_2_2255" class="footnote">Num primeiro momento a igreja na Alemanha oriental não viu verdadeira incompatibilidade entre cristianismo e socialismo; ao contrário, enxergou no discurso coletivista uma possível alternativa à visão nacionalista de mundo que possibilitara a aberração nazista. Nas décadas que se seguiram, cerceada por um Estado cada vez mais totalitário, a igreja na Alemanha socialista manteve a vocação de oposição inaugurada pela Igreja Confessante, tornando-se catalisadora de protesto, resistência e desobediência civil até a capitulação do sistema.</li></ol><div class='series_toc'><h3>A igreja e o Poder</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/' title='Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais'>Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais</a></li><li>A fissura do mundo: política, polarização e paralisia</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/capitalismo-socialismo-alienacao-e-o-capeta/' title='Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta'>Capitalismo, socialismo, alienação e o capeta</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>A monarquia de Deus</title>
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		<pubDate>Mon, 10 May 2010 10:39:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/morte-de-constantino-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2010/bits/morte-de-constantino.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<p>E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de toda benção; o corpo militar, a entidade coletiva do povo, tanto no campo quanto nas cidades do império, juntamente com os governantes das diversas províncias, reunidos de acordo com o preceito de seu grande Salvador e Mestre, prestam-Lhe adoração. Em suma, toda a família da humanidade, de toda nação, tribo e língua, tanto coletivamente quanto em separado, por mais diversas que sejam suas opiniões a respeito de outras questões, são unânimes com respeito a essa única confissão; e, em obediência à razão implantada neles e ao impulso espontâneo e voluntário de suas próprias mentes, unem-se em invocar o único e Uno Deus.</p>
<p>E dessa forma o Todo-Poderoso Soberano confere um acréscimo tanto de anos quanto de filhos a nosso piedosíssimo imperador, e mantém ainda vigoroso e próspero seu domínio sobre as nações, como se estivesse agora mesmo brotando em seu vigor inicial. É Ele quem o nomeia para o presente festival, em que foi Ele quem o fez vitorioso sobre todo inimigo que perturbou a sua paz; é Ele quem o exibe à raça humana como genuíno exemplo de integridade.</p>
<p>E assim nosso imperador, como o radiante sol, ilumina os mais remotos súditos de seu império através da presença dos Césares, que agem como os distantes e penetrantes raios de seu próprio esplendor. Tendo ainda como que atado sob o mesmo jugo os quatro mais nobres dos Césares para servirem de corcéis da carruagem imperial, ele mesmo assenta-se exaltado e conduz o seu curso com as rédeas da sagrada harmonia e da concórdia; e, estando ele mesmo em todo o lugar e observando cada acontecimento, percorre dessa forma cada região do mundo.</p>
<p>Finalmente, investido como que com uma semelhança da soberania celeste, dirige para o alto o seu olhar, e modela seu governo terreno em conformidade com o padrão do original divino, sentindo solidez em sua conformidade à monarquia de Deus. <span style="float:right; text-align:right; width:35%; color:#7c836d; margin:12px 0 12px 12px; font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant:small-caps; font-size:1.4em; line-height: 1.3em">«A democracia, que é o oposto da monarquia, pode ser descrita como anarquia e desordem.»</span>E dentre todas as criaturas da terra essa conformidade é conferida pelo Soberano universal apenas ao homem; pois apenas Ele é o autor do poder soberano, que decreta que todos devem sujeitar-se ao governo de apenas um.</p>
<p>E sem dúvida a monarquia ultrapassa em muito a toda outra constituição e forma de governo; pois a igualdade de poder da democracia, que é seu oposto, pode ser mais exatamente descrita como anarquia e desordem. Por conseguinte há um único Deus, e não dois, três ou mais: pois afirmar uma pluralidade de deuses é negar por completo o ser de Deus. Há um único Soberano, e são uma sua Palavra e sua régia Lei.</p>
<p>E o próprio Deus, como penhor da recompensa futura, confere hoje [ao imperador] coroas tricenais compostas de prósperos períodos de tempo; e agora, transcorridas as revoluções de três ciclos de dez anos, concede a toda humanidade permissão de celebrar este festival global &#8211; mais do que isso, universal.</p>
<p>E enquanto regozijam-se estes na terra, como que coroados com as flores do conhecimento divino, não deve ser exagero supor que os coros celestiais, atraídos por simpatia natural, unam seu próprio júbilo ao júbilo destes na terra; não apenas isso, que o próprio Supremo Soberano, na qualidade de gracioso pai, deleite-se na adoração de filhos obedientes, e ache assim por bem honrar com um período estendido de tempo o autor e causa dessa sua obediência; e, longe de limitar seu reinado a três ciclos decenais, estenda-o ao período mais remoto, até mesmo à distante eternidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><small><strong>Eusébio de Cesaréia</strong> (239-339), trechos do <em> Discurso em louvor de Constantino</em> (336), proferido no trigésimo aniversário de seu reinado. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Constantino_I">Constantino</a> morreu no ano seguinte.</small></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug073.gif"></p>
<p>Leia também:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/de-me-um-monoteismo-e-moverei-o-mundo/">Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo</a><br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2010/pela-alma-do-povo-omissoes-coletivas-e-bravuras-individuais/">Pela alma do povo: Omissões coletivas e bravuras individuais</a></p>
<p><small><br />
Imagem: <a href="http://www.flickr.com/photos/bibliodyssey/4501669379/">peacay</a><br />
</small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O fim de todos os governos</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Apr 2010 09:50:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[reino de deus]]></category>

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		<description><![CDATA[O despojamento radical dos romeiros de Pentecostes deve ser encarado, finalmente, como a desconcertante manifestação política que é. O fim da política &#8211; isto é, o fim da fé na política &#8211; tem consequências políticas muito graves, e é precisamente esta profissão coletiva de independência que estamos presenciando aqui. É lugar absolutamente comum mencionar-se este [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O despojamento radical dos romeiros de Pentecostes deve ser encarado, finalmente, como a desconcertante manifestação política que é. O fim da política &#8211; isto é, o fim da fé na política &#8211; tem consequências políticas muito graves, e é precisamente esta profissão coletiva de independência que estamos presenciando aqui. </p>
<p>É lugar absolutamente comum mencionar-se este episódio como evidência de um precedente bíblico (e portanto cristão) para o socialismo, e é pelo menos tão comum refutá-lo. O argumento mais frequentemente levantado contra a factualidade dessa aliança explica que, ao contrário do que acontece no socialismo, na comunidade de Jerusalém os discípulos se desfaziam voluntariamente dos seus bens. Como se vê, trata-se do mais fraco e desleal dos argumentos, porque resolve ignorar que o despojamento de Pentecostes estabelece um projeto ainda mais idealista e exigente (e portanto, mais admirável) do que o projeto comunista. Parece, na verdade, sustentar blasfemamente que uma manifestação voluntária e irrestrita de coletivismo seria de alguma forma menos notável ou digna de imitação do que um coletivismo oferecido paliativamente através da instituição política. E resolve ignorar, de forma ainda mais cafajeste, a distância irreconciliável entre a postura coletivista dos discípulos de Pentecostes e o individualismo inextinguível requerido pela alternativa oficial ao socialismo, o capitalismo.</p>
<p>O despojamento de Pentecostes não deve ser considerado, de fato, precedente para o socialismo, mas não pela razão apontada pelos que não são de esquerda, de que há verdadeira incompatibilidade entre as duas posturas. A verdade é que a renúncia coletiva dos discípulos em Atos 2 é plataforma para um projeto político (ou talvez seja mais correto dizer <em>apolítico</em>) muito maior e mais ambicioso, sem precedentes e sem verdadeiros herdeiros ideológicos.</p>
<p>Diante desse projeto o socialismo permanece alternativa muito racional, muito cautelosa &#8211; muito política &#8211; e, portanto, insuficiente. Ao contrário do que sugerem incessantemente os seus antagonistas, nenhuma teoria importante do socialismo (e talvez um número ainda menor de aplicações práticas dessas teorias) pressupõe um coletivismo puro, em que tudo pertence a todos e a propriedade privada simplesmente não existe. Em termos estritos, a única propriedade não-privada postulada por um regime socialista é a dos meios de produção. O sonho socialista é de um mundo em que indústrias, máquinas e matéria-prima não sejam sequestradas por um ciclo seletivo de enriquecimento que é eternamente sustentado pelo trabalho de quem está abaixo de nós no organograma. Nesse mundo em que os meios de produção foram tornados coletivos, aquilo que antes eram lucros desfrutados por uns poucos torna-se magicamente poder de compra de que todos os envolvidos se beneficiam. As pessoas passam a trabalhar menos e ganhar mais, porque sustentam apenas a si mesmas e não o ocioso do andar de cima, e o que ganham pode ser usado para comprar mais e melhores produtos.  </p>
<p>Trata-se, como se vê, de um plano simples e bem-intencionado, mas que os defensores do capitalismo tomam por especialmente injusto, visto que não premia com o mesmo deleite a iniciativa, o empreendedorismo e a criatividade. O capitalismo defende sem trégua a liberdade, e entende que liberdade é o indivíduo poder beneficiar-se impunemente da arbitrariedade da diferenciação. Toma por inerentemente verdadeiro que quem é mais inteligente, mais forte, mais batalhador e mais criativo deve ser premiado por essa sua condição, e o prêmio estabelecido pelo sistema é o direito de trabalhar menos e comprar mais. Os incompetentes, os ociosos, os idealistas e os sem instrução, esses a pedra de moer do capitalismo tratará automaticamente de eliminar e punir, atribuindo-lhes pouco ou nenhum poder de compra &#8211; isto é, valor nenhum. Segundo esse inabalável artigo de fé, liberdade é liberdade para angariar os benefícios de se encontrar em posição mais vantajosa; consequentemente, quem não tem vantagens para oferecer não terá liberdade de que desfrutar.</p>
<p>O curioso, como denunciado recentemente por insubmissos como Zizek, é que capitalismo e socialismo são doutrinas político-econômicas bem menos distintas entre si do que seus defensores gostam de pensar. O socialismo é em essência um capitalismo elevado ao patamar de utopia, um mundo de produtividade pura e excelsa não perturbada pelo embaraço do capital. A própria definição de socialismo, fundamentada no valor último dos &#8220;meios de produção&#8221;, acaba denunciando a obsessão (eminentemente capitalista) do socialismo com o consumo. Tanto para um quanto para outro a questão fundamental é produzir e consumir sem impedimento; só diferem quanto ao caminho para se atingir esse nirvana.</p>
<p>Quando se analisam dessa forma as distinções e semelhanças entre os dois sistemas, deve ficar claro que um sistema político (e portanto econômico) é invariavelmente um sistema de intermediação de justiça. Toda fé política sustenta, muito sensatamente, que o único modo de se garantir e exercer a justiça é pela mediação de uma instituição; discordam entre si apenas a respeito de qual é a receita institucional correta. Para o socialista, o sistema é justo porque ninguém pode ficar rico; para o capitalista, o sistema é justo porque qualquer um pode enriquecer. Ambos os projetos, portanto, estão fundamentados no medo coletivo da injustiça (medo da injustiça social, para o socialismo, e medo da injustiça pessoal, para o capitalismo) e no desejo condicionado pelo que o sistema toma como admirável (em ambos os casos, a produção e o consumo).</p>
<p>Não é apenas anacrônico, portanto, afirmar que as generosidades de Atos 2 e 3 prefiguram o socialismo, ou apontar que não necessariamente anulam o capitalismo. O despojamento coletivo dos discípulos de Pentecostes não confirma um sistema político ou econômico, mas faz precisamente o contrário: anula o mérito de toda solução política e alça o desafio da convivência a um nível embaraçosamente mais exigente, elevado ao ponto de uma rigorosa insensatez. Numa palavra, inaugura o Reino de Deus, em que a justiça não é intermediada por uma instituição, mas por pessoas.</p>
<p>Jesus já havia demonstrado, em sua aventura na terra, um saudável desrespeito pelas soluções institucionais &#8211; mas agora seu projeto alcança, pela primeira vez, uma face verdadeiramente coletiva. Seus novos discípulos são suas testemunhas porque afirmam na vida real o que o rabi de Nazaré sempre sustentou e sempre fez. </p>
<p>Quando se despojam do que os afastava uns dos outros, os membros-fundadores da comunidade do Reino estão anunciando aos quatro ventos que não se deixarão conduzir pelo medo da injustiça (que os levava a acumular) e pelo desejo condicionado (que os levava a adquirir). Anunciam, a quem estiver ali para ver, a notícia de que no reino revelado por Jesus a justiça deve ser, e na verdade <em>só pode ser</em>, administrada de uma pessoa a outra, e não por intermédio de uma instituição. Proclamam na vida real o que Jesus sempre assegurou, que no reino da generosidade divina não é preciso temer coisa alguma. Se Deus sustenta o menor dos pardais, o homem não deixará de sustentar o homem.</p>
<p>O Reino de Deus representa o fim de todos os governos porque descerra um domínio em que não é preciso temer a injustiça &#8211; não porque o sistema conta com mecanismos artificiais e soluções corretivas para garanti-la, mas porque ninguém está sozinho. Neste reino, marginais leigos levantam e curam os caídos que rejeitaram os bondosos de plantão, e um menino sem nome blasfema ao sugerir que seu lanche poderá fazer diferença para alimentar uma multidão; seus habitantes vendem o que possuem a fim de suprir o que falta ao mais desconhecido dos necessitados &#8211; e cada um desses faz soprar, a seu modo e em sua imprudência, o vento inédito de um mundo possível em que ninguém será deixado para trás.</p>
<p>O reino dele não é deste mundo, mas arrepender-se é transformar este mundo no dele. É minerar riqueza espiritual no reino de Deus que está dentro de nós e tirá-la para fora na forma de evidência da ação de Deus no mundo real. No processo tornam-se obsoletas tanto a política quanto a religião &#8211; mas nem uma nem a outra, ficará logo claro, entregará os pontos sem resistir.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug057.gif"></p>
<div class='series_toc'><h3>Rastros dos apóstolos</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/como-perder-jesus-de-vista-no-livro-de-atos/' title='Como perder Jesus de vista no livro de Atos'>Como perder Jesus de vista no livro de Atos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2007/ascensao-sem-tregua-das-testemunhas/' title='Ascensão sem trégua das testemunhas'>Ascensão sem trégua das testemunhas</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-escassez-seletiva-selecionar-e-interpretar/' title='A escassez seletiva: selecionar é interpretar'>A escassez seletiva: selecionar é interpretar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-jesus-terreno-e-o-cristo-extraterrestre/' title='O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre'>O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/com-as-mulheres/' title='Com as mulheres'>Com as mulheres</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/como-reconhecer-entre-dois-discipulos-um-apostolo/' title='Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo'>Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-plenitude-dos-tempos/' title='A plenitude dos tempos'>A plenitude dos tempos</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/a-verdadeira-mensagem/' title='A verdadeira mensagem'>A verdadeira mensagem</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-lucidez-profetica/' title='A lucidez profética'>A lucidez profética</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-vexacao-de-satanas/' title='A vexação de Satanás'>A vexação de Satanás</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-volta-ao-que-poderia-ter-sido/' title='A volta ao que poderia ter sido'>A volta ao que poderia ter sido</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-fermentacao-da-morte/' title='A fermentação da morte'>A fermentação da morte</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-incubacao-do-espirito/' title='A incubação do espírito'>A incubação do espírito</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/formato-minimo/' title='Formato mínimo'>Formato mínimo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/o-que-se-diz-e-o-que-nao-se-diz/' title='O que se diz é o que não se diz'>O que se diz é o que não se diz</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-linhagem-do-batismo/' title='A linhagem do batismo'>A linhagem do batismo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/as-transgressoes-do-ceu/' title='As transgressões do céu'>As transgressões do céu</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/um-mundo-alem-do-perdao/' title='Um mundo além do perdão'>Um mundo além do perdão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/breve-historia-do-arrependimento/' title='Breve história do arrependimento'>Breve história do arrependimento</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/arrepender-se-e-mudar-o-mundo/' title='Arrepender-se é mudar o mundo'>Arrepender-se é mudar o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/as-possibilidades-do-futuro/' title='As possibilidades do futuro'>As possibilidades do futuro</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/pecar-e-omitir-se/' title='Pecar é omitir-se'>Pecar é omitir-se</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-escandalo-da-hospitalidade/' title='O escândalo da hospitalidade'>O escândalo da hospitalidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-do-nao-condicionado/' title='A invenção do não-condicionado'>A invenção do não-condicionado</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-fim-do-mundo/' title='O fim do mundo'>O fim do mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-recursos-necessarios/' title='Os recursos necessários'>Os recursos necessários</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-que-havia-sido-usurpado/' title='O que havia sido usurpado'>O que havia sido usurpado</a></li><li>O fim de todos os governos</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-mesa-universal-e-as-redentoras-transgressoes/' title='A mesa universal e as redentoras transgressões'>A mesa universal e as redentoras transgressões</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-ceu-e-inferno/' title='Os discursos ausentes: céu e inferno'>Os discursos ausentes: céu e inferno</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em-seu-lugar-1/' title='Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]'>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em-seu-lugar-2/' title='Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]'>Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-vai-voltar/' title='Os discursos ausentes: Jesus vai voltar'>Os discursos ausentes: Jesus vai voltar</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-prosperidade/' title='Os discursos ausentes: prosperidade'>Os discursos ausentes: prosperidade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/os-discursos-ausentes-jesus-te-ama/' title='Os discursos ausentes: Jesus te ama'>Os discursos ausentes: Jesus te ama</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-palavra-presente/' title='A Palavra presente'>A Palavra presente</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-disciplina-da-inclusao/' title='A disciplina da inclusão'>A disciplina da inclusão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/o-acaso-e-o-heroi/' title='O acaso e o herói'>O acaso e o herói</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-divina-soltura/' title='A divina soltura'>A divina soltura</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-graca-dos-vasos-comunicantes/' title='A graça dos vasos comunicantes'>A graça dos vasos comunicantes</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2010/a-invencao-da-gentileza/' title='A invenção da gentileza'>A invenção da gentileza</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Anotações para um romance político</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Jul 2009 11:17:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[1984]]></category>
		<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[– Todos os sistemas com mais de um ou dois indivíduos – disse o homem de sobretudo – são auto-organizatórios. – Isso quer dizer que todos os sistemas tendem a proteger o grupo em detrimento do indivíduo. Coloque cinqüenta desconhecidos num lugar confinado e em dois dias você terá facções, líderes, simpatias, lealdades, distribuição de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Todos os sistemas com mais de um ou dois indivíduos – disse o homem de sobretudo – são auto-organizatórios.</p>
<p>– Isso quer dizer que todos os sistemas tendem a proteger o grupo em detrimento do indivíduo. Coloque cinqüenta desconhecidos num lugar confinado e em dois dias você terá facções, líderes, simpatias, lealdades, distribuição de tarefas, alvos, legislações e sistemas de governo: auto-organização. Em alguma medida o mesmo acontece com galinhas, macacos e paramécios. Os organismos se ordenam espontaneamente em superorganismos: rebanhos ou multidões.</p>
<p>– O problema com as multidões é que são forças da natureza. Ninguém pode controlá-las. Com uma pessoa você pode conversar, como estamos fazendo. Uma multidão você só pode aplacar. </p>
<p>– A presente ilusão requer que a democracia representa a vitória final dos direitos do indivíduo e do livre-arbítrio. O que ninguém parece ser capaz de enxergar é que a aplicação da democracia, mesmo na mais inocente das formas, conduz necessariamente à tirania do coletivo. Vivemos na ilusão de que ouvimos e louvamos a liberdade individual, mas somos conduzidos pelos caprichos da multidão.</p>
<p>– E quem foi mesmo que disse que a loucura é a exceção no indivíduo mas a regra na multidão? Nietzsche?</p>
<p>– Fato é que de nada serve a sobriedade individual, porque o tirano coletivo é guiado pelo inconsciente. A democracia é o governo de loucos, está vendo?</p>
<p>– A monarquia e o totalitarismo são arriscados, mas na democracia não resta nem ao menos a possibilidade de um rei sensato.</p>
<p>– Um exemplo da insensatez da multidão: se o capricho coletivo vigente é a segurança, o que acontece é que todos submetem-se voluntariamente à vigilância. Você não vê? A vigilância é tida como inaceitável num governo totalitário, na linha do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1984_%28livro%29"><em>1984</em></a> de Orwell, mas as pessoas se sujeitam como cordeirinhos (como um rebanho!) a toda e qualquer invasão de privacidade quando se trata de obedecer aos caprichos do ditador coletivo.</p>
<p>– Todas as salas deste edifício são monitoradas por câmeras. Você vê? As pessoas pensam que são livres, mas são instrumentos da burrice coletiva.</p>
<p>– Não interessa quem está monitorando, e é essa a questão. Basta ser monitorado para ser diminuído. Monitorar é invadir. Vigilância é agressão.</p>
<p>– E essa entidade cega vai passando a exigir de nós concessões cada vez maiores, até que tenhamos aberto mão de cada um de nossos direitos. Até que as decisões coletivas sejam precisamente tão arbitrárias quanto as do mais caprichoso ditador.</p>
<p>– Em sua forma mais crua o roubo pode ser uma forma de se obter aquilo <em>de que se precisa</em>, mas para a inteligência coletiva roubar é errado, sem exceção. Porém a mesma multidão se deleita em que as imagens e palavras da televisão ofereçam continuamente às pessoas aquilo <em>de que não precisam</em>. O mundo já conheceu contradição maior? É evidente que essa obsessão aberta com o desnecessário é que sustenta o império de ladrões de ambos os lados da justiça.</p>
<p>– Freud foi capaz de prover um mito abrangente o bastante para controlar o indivíduo, mas com o trágico passamento de Deus deixou de existir um mito capaz de controlar os impulsos da multidão.</p>
<p>– E mesmo a herança de Freud, que associamos a uma valorização definitiva do indivíduo, serviu apenas para satisfazer as mais antigas vontades do superorganismo. Na maior parte do tempo, na história da civilização, os loucos andaram à solta, nas ruas e nas casas, promovendo a idéia subversiva de que a loucura pode ser uma forma de lucidez ou uma estranha alternativa à ela. O que fez a psicoterapia? Por um lado, confinou os loucos em recintos isolados, onde não podem encenar a sua subversão. Por outro, o que acontece àqueles dentro da massa coletiva que sentem-se hoje mais sutilmente desviados da norma? Esses buscam <em>voluntariamente</em> a intervenção de terapeutas, de modo a <em>serem capazes de se conformar</em>. Ou seja: os loucos são mantidos fora de cena e os candidatos a loucos estão sendo constantemente monitorados. Os desvios à norma permanecem onde a multidão, que abomina a dissensão e anseia apenas por conformidade, pode controlá-los e anulá-los por completo.</p>
<p>– Enquanto isso as pessoas distraem-se com a ilusão de que discordam sobre assuntos importantes &#8211; coisas como o aborto, a natureza do casamento, a guerra ou a pena de morte &#8211; e estão cegas para o fato de que concordam em absolutamente tudo. Vão todos para casa nos mesmos carros e trabalham todos para o mesmo fim; são ao mesmo tempo servos fidelíssimos e completos ignorantes daquele a quem estão servindo.</p>
<h5>* * *</h5>
<p>Acrescentar ainda:<br />
<a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/devemos-ser-mais-sutis/">Devemos ser mais sutis</a></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug002.gif"></p>
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		<title>Devemos ser mais sutis</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Jun 2009 09:32:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manuscritos]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[– Minha idéia – disse o roteirista – é explorar uma espécie de diferente de totalitarismo. Algo insidioso e sutil, que evite por inteiro aqueles discursos dramáticos de ditador diante de uma multidão cega. A idéia na verdade é ocultar até o final a identidade do ditador. – O problema é que todas as histórias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Minha idéia – disse o roteirista – é explorar uma espécie de diferente de totalitarismo. Algo insidioso e sutil, que evite por inteiro aqueles discursos dramáticos de ditador diante de uma multidão cega. A idéia na verdade é ocultar até o final a identidade do ditador.</p>
<p>– O problema é que todas as histórias de totalitarismo já foram contadas – observou o diretor, com cautela. – Nos nosso dias, depois da morte das ideologias, o público do ocidente desenvolveu um faro apuradíssimo para populistas e cafajestes. Quando o seu ditador começar a abrir as asinhas qualquer espectador será capaz de farejá-lo a quilômetros de distância.</p>
<p>– Hitler começou com alguma sutileza. Ele não aboliu as instituições imediatamente, mas criou organizações paralelas aparentemente inofensivas que acabaram engolindo as entidades oficiais.</p>
<p>– Hitler começou incendiando o edifício do Parlamento e anulando os direitos civis. Não há muito de sutil nisso.</p>
<p>– Devemos então ser mais sutis.</p>
<p>– Isso sem dúvida – o diretor puxou do bolso o maço de cigarros.</p>
<p>– Na Alemanha de Weimar a postura geral em relação à República era de desconfiança e ressentimento – disse o roteirista, inclinando-se para a frente. – As pessoas sentiam falta da segurança da monarquia e da autoridade unânime do Kaiser, e desconfiavam com a mesma intensidade da democracia que os vencedores lhes haviam aplicado goela abaixo. Eram gente acostumada a obedecer e venerar uma única figura carismática, e puderam assim sem qualquer trâmite abraçar a retórica de Hitler.</p>
<p>– Precisamente – o diretor puxou um cigarro, segurou entre os dedos e passou a batê-lo gentilmente na superfície da mesa. – Hoje em dia vivemos no extremo oposto do espectro. O que os alemães de Weimar desconfiavam da democracia, nós desconfiamos do totalitarismo.</p>
<p>– A não ser que, como na Alemanha de entre as guerras, as circunstâncias encontrem o ditador certo.</p>
<p>– Não, não. Tarimbados como estamos, nem mesmo a crise atual bastará para cairmos na armadilha de um Mussolini. Os direitos civis são agora religião, a única coisa sagrada que resta. O sujeito que quiser aboli-los será o primeiro a ser abolido. Fale uma palavra contra a democracia nesse seu roteiro, e você vai ver.</p>
<p>– E faz sentido que tenhamos criado esses mecanismos, porque historicamente foram as ações populares que restauraram periodicamente o equilíbrio de sistemas e governos doentios. Pense na Revolução Francesa, nas revoltas pela abolição…</p>
<p>– A própria Resistência – o diretor acendeu o cigarro e puxou uma tragada solene.</p>
<p>– Exato. As ações populares servem para equilibrar os governos, mas este é um processo cujos extremos não conhecemos. Imagine um mundo em que a participação dos cidadãos torne-se tão pulverizada que passe a reverter os pratos da balança.</p>
<p>– Não estou entendendo – o diretor reclinou-se para trás, equilibrando no encosto da cadeira o braço do qual pendia o cigarro. – De que mundo estamos falando?</p>
<p>– Imagine um mundo – prosseguiu o roteirista – em que o cidadão espere que o respeito que lhe prestam não seja um bem a ser adquirido pela sua postura pessoal, mas um serviço dos outros que cabe ao governo fazer cumprir. Um mundo em que a proliferação de direitos individuais acabe cerceando o bem comum, ao invés de promovê-lo.</p>
<p>Uma ruga de compreensão e assombro formou-se na testa do diretor.</p>
<p>– Num mundo assim – ele disse, – os pais processam a polícia pelos delitos dos filhos.</p>
<p>– Isso mesmo – celebrou o roteirista. – Uma sociedade litigiosa. Numa sociedade dessa natureza todos se tornam delatores potenciais de todos, precisamente como, digamos, no totalitarismo soviético. A diferença é que o que motivava um delator soviético era o fato de que todos os direitos haviam sido subtraídos de todos; numa sociedade litigiosa o que motiva o delator é que todos os direitos foram outorgados a todos. O negativo é agora positivo.</p>
<p>– E portanto mais atraente.</p>
<p>– E portanto irresistível. A vigilância é onipresente, não porque o governo está em todo lugar, mas porque o povo está. </p>
<p>– Se o meu direito termina onde começa o direito do outro – o diretor apagou o cigarro no canto da mesa, – onde há apenas direitos todos são plenamente cerceados por eles. Nada acontece.</p>
<p>– Nada acontece que não seja potencialmente litigioso – corrigiu o roteirista. – Ou seja, todos apelam continuamente para que o governo garanta os seus direitos.</p>
<p>– E o papel do povo numa democracia, que era policiar os excessos do governo, é revertido. O governo se vê obrigado a julgar os excessos do povo. </p>
<p>O roteirista recusou-se a acrescentar alguma coisa.</p>
<p>– Meu Deus – disse o diretor, puxando novamente o maço de cigarros do bolso.</p>
<p>– Precisamente – disse o roteirista.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug028.gif"></p>
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		<title>Eu sou contra</title>
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		<pubDate>Sat, 09 May 2009 09:10:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>
		<category><![CDATA[marx brothers]]></category>
		<category><![CDATA[vídeos]]></category>

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		<description><![CDATA[Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet. Paulo Brabo não é deus, e Groucho Marx é seu profeta. É 1932 e Quincy Adams Wagstaff, recém-empossado reitor da Universidade de Huxley, profere prescientemente aqueles que se tornariam, respectivamente, meu credos político e pessoal. [Visite a Bacia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><span style="color:#B0B0A0"><small>Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser<br />
visualizados na <a href="http://www.baciadasalmas.com">página da Bacia</a> na internet.</small></span></p>
<p>Paulo Brabo não é deus, e Groucho Marx é seu profeta.</p>
<p>É 1932 e Quincy Adams Wagstaff, recém-empossado reitor da Universidade de Huxley, profere prescientemente aqueles que se tornariam, respectivamente, meu credos político e pessoal.</p>
<table border="0" height="640" width="570" align="center" bordercolorlight="White" bordercolordark="White" bgcolor="Black" bordercolor="Black" >
<tr>
<td>
[Visite a Bacia para ver o filme]
</td>
</tr>
</table>
<p><span style="color: #b0b0a0;"><small>Se a imagem estiver incompleta <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/eu-sou-contra/">tente aqui</a>.</span></small></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Câmara dos Deputados</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 09:10:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ilustração]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[expression]]></category>

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		<description><![CDATA[* * * Bem junto ao paço encontra-se a seu turno a Câmara dos Deputados, uma das raridades mais dignas de se ver nesta original capital imperial. A tolice rude, a protérvia ignorante com que esses representantes da nação brasileira sustentam seus presumidos direitos e muitas vezes abdicam do essencial, para conquistarem ninharias sem importância; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/porcos-b.jpg"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2009/porcos.jpg" title="Clique para ampliar" /></a></p>
<h5>* * *</h5>
<p>Bem junto ao paço encontra-se a seu turno a Câmara dos Deputados, uma das raridades mais dignas de se ver nesta original capital imperial.</p>
<p>A tolice rude, a protérvia ignorante com que esses representantes da nação brasileira sustentam seus presumidos direitos e muitas vezes abdicam do essencial, para conquistarem ninharias sem importância; a arrogância ridícula com que se equiparam às nações européias, até em certos sentidos presumem ultrapassá-las mil vezes; os desaforos verdadeiramente bárbaros com que mutuamente se honram em seus discursos, pondo adequado arremate ao carnaval; tudo se ajunta para oferecer uma das mais degradantes cenas da vida pública do Brasil e do espírito coletivo, para o estrangeiro atônito que a princípio se julgava diante duma assembléia dos homens mais notáveis de uma grande nação.</p>
<p>A língua portuguesa já de si possui quantidade considerável de tão enérgicas, características galanterias do rancor e do vexame, mas os senhores deputados em seu zeloso ardor funcional não se contentam com isso, e ainda muitas vezes sublinham as palavras altamente escabrosas com uma mímica demasiado compreensível, indecente, para que nada se perca da sua grosseira produção<sup><a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/#footnote_0_1872" id="identifier_0_1872" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="A l&iacute;ngua alem&atilde;, como se sabe, tamb&eacute;m n&atilde;o se pode dizer pobre de tais palavras e ditos tonitroantes (sic); mas a espanhola como a portuguesa excedem-na em cem por cento. Frases como &amp;#8220;filho de uma . . .&amp;#8221; ou &amp;#8220;. . . que te pariu&amp;#8221;, que me envergonho de traduzir, certamente jamais ser&atilde;o pronunciadas numa assembl&eacute;ia alem&atilde;, nem mesmo sob outra forma (Nota do Autor).">1</a></sup>.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug040.gif"></p>
<p><small>O alemão <strong>Carl Seidler</strong>, no mesmo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao">Dez anos no Brasil</a> (1835).<br />
Seidler foi evidentemente um dos primeiros <a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/os-agentes-da-ana">agentes da ANA</a>.</small></p>
<b><small>NOTAS</small></b><ol class="footnotes"><li id="footnote_0_1872" class="footnote">A língua alemã, como se sabe, também não se pode dizer pobre de tais palavras e ditos tonitroantes (sic); mas a espanhola como a portuguesa excedem-na em cem por cento. Frases como &#8220;filho de uma . . .&#8221; ou &#8220;. . . que te pariu&#8221;, que me envergonho de traduzir, certamente jamais serão pronunciadas numa assembléia alemã, nem mesmo sob outra forma (Nota do Autor).</li></ol><div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/prodigiosa/' title='Prodigiosa'>Prodigiosa</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li>A Câmara dos Deputados</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Prodigiosa</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Feb 2009 09:06:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[O Brasil é de tão prodigiosa extensão que seria impossível para o país alcançar um estado sequer mediano de perfeição sob o domínio de um só governo. James Henderson, A HISTORY OF THE BRAZIL Londres, 1821]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Brasil é de tão prodigiosa extensão que seria impossível para o país alcançar um estado sequer mediano de perfeição sob o domínio de um só governo.</p>
<p align="right"><small>James Henderson, <strong>A HISTORY OF THE BRAZIL</strong><br />
Londres, 1821</small></p>
<div class='series_toc'><h3>O Brasil e os brasileiros</h3><ol><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2008/o-brasil-e-os-brasileiros/' title='O Brasil e os brasileiros'>O Brasil e os brasileiros</a></li><li>Prodigiosa</li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/dois-dolares/' title='Dois dólares'>Dois dólares</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/vara-de-condao/' title='Vara de condão'>Vara de condão</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-camara-dos-deputados/' title='A Câmara dos Deputados'>A Câmara dos Deputados</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/essa-pobreza/' title='Essa pobreza'>Essa pobreza</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/uma-especie-de-luxo/' title='&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;'>&#8220;Uma espécie de luxo&#8230;&#8221;</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/e-provavelmente-verdade/' title='É provavelmente verdade'>É provavelmente verdade</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-casa-da-supplicacao/' title='A casa da supplicação'>A casa da supplicação</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/perdidos-para-o-mundo/' title='Perdidos para o mundo'>Perdidos para o mundo</a></li><li><a href='http://www.baciadasalmas.com/2009/a-arvore-que-chora/' title='A árvore que chora'>A árvore que chora</a></li></ol></div>]]></content:encoded>
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		<title>Os estrangeiros que são todos</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jan 2009 10:42:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[judaísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Certo de estar a ponto de ferir a sensibilidade de alguns, quero deixar clara minha posição sobre determinado assunto: o Estado de Israel não representa qualquer continuidade, mesmo que honorária, com a tradição religiosa judaico-cristã registrada nas duas metades desiguais da Bíblia. Historicamente e espiritualmente falando o Estado de Israel não representa a religião que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certo de estar a ponto de ferir a sensibilidade de alguns, quero deixar clara minha posição sobre determinado assunto: o Estado de Israel não representa qualquer continuidade, mesmo que honorária, com a tradição religiosa judaico-cristã registrada nas duas metades desiguais da Bíblia. Historicamente e espiritualmente falando o Estado de Israel não representa a religião que se convencionou chamar de judaísmo, e creio que pelo menos lá todos sabem disso. Há muitos judeus devotos ao redor do mundo, muitos desses em Israel, mas não cabe identificar israelitas com israelenses ou o associar o Estado de Israel à Terra Prometida (e muito menos ao reino de Davi); qualquer tentativa em contrário é engano ou esforço de marketing e de relações públicas, sendo esses últimos patrocinados em grande parte pelos Estados Unidos, com o consentimento embaraçado de Israel.</p>
<p>Tenho amigos em Israel e estou muito longe de ser anti-semita; tenho também queridos amigos muçulmanos, e não sou ingênuo o bastante para crer que a tensão entre Israel e o mundo árabe seja simples de recapitular, de equacionar, de assimilar ou de solucionar. Também não tenho qualquer antipatia pelos israelenses que não são judeus, e tampouco creio haver qualquer diferença de mérito entre as categorias igualmente arbitrárias que acabo de mencionar. </p>
<h5>Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.</h5>
</p>
<p>Tenho ainda a dizer que apenas as guerras me enfurecem mais do que Estados e nações; apenas as guerras soam-me mais atrozes e arbitrárias do que rótulos.</p>
<p>Mas a guerra é um demônio que não pára: seu emblema é o símbolo alquímico das duas salamandras devorando incessantemente uma a cauda da outra. O terrorista de um lado é o herói da resistência do outro. Cada ataque confirma as piores suspeitas que um adversário tem do seu antagonista; cada ofensiva é redimida com novos recrutamentos, que garantem a perpetuação do conflito. Os Estados Unidos permanecem liberando indiscriminadamente o Iraque, fomentando indignação igualmente justificada entre muçulmanos letrados e chãos. Israel, sentindo-se ameaçado como nunca pelo Hezbollah (que é por sua vez patrocinado por implacáveis rancores iranianos e sírios), está atacando de formas sujas e limpas palestinos e libaneses &#8211; que estão longe de ser inocentes, mas que morrem com a facilidade atroz de qualquer um &#8211; enquanto na América cristãos <a href="http://www.talk2action.org/story/2006/7/21/03721/0674/Front_Page/Making_Jesus_Real_Burning_the_Koran_and_Honoring_a_Touring_Fetus">queimam cópias do Corão</a> em austera homenagem ao Príncipe da Paz. Morrem quase quatrocentos libaneses num único dia da semana passada, ao mesmo tempo em que os israelenses abandonam em massa o norte do país temendo velhos ataques e novas retaliações.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>É comum associar o cristianismo e a mensagem de Jesus a uma compreensão nova, inclusiva e compassiva sobre a natureza do &#8220;outro&#8221;. Isso é em grande parte muito acertado, mas é bom lembrar por exemplo que &#8220;amai o próximo como a ti mesmo&#8221; é injunção da Bíblia hebraica &#8211; curiosa exigência que precede a Jesus e da qual o judaísmo não prescinde. </p>
<h5>Se Deus não faz acepção de pessoas, todos os genocídios são o mesmo.</h5>
</p>
<p>Na verdade, são inúmeros os mandamentos da Lei de Moisés explicitamente desenhados para proteger o desavisado outro &#8211; o estrangeiro &#8211; que se encontrasse em terras de Israel. E o motor dessa tolerância, o declarado motivo para essa misericórdia, deveria ser segundo o texto a recorrente lembrança do passado de Israel como povo estrangeiro e oprimido no Egito, antes do Êxodo e da independência e da Lei: &#8220;amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito&#8221;. </p>
<p>O israelita é dessa forma desafiado constantemente pela sua Lei a recordar a abjeção da sua condição anterior, bem como a dispensar ao estrangeiro a misericórdia que no passado não obteve:</p>
<p><small></p>
<p>
<ul>
<li>Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.</li>
<p>
<li>Quando segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e para o estrangeiro as deixareis. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.</li>
<p>
<li>Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis.</li>
<p>
<li>Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus.<br />(Levítico 19:10, 23:22, 19:33-34) </small></ul>
</p>
<p>Outras passagens sustentam que o verdadeiro patrocinador desse amor tolerante pelo estrangeiro/outro é o caráter singular de Deus, que não aceita suborno e não faz distinção entre as pessoas:</p>
<p><small></p>
<p>
<ul>
<li>Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno;</li>
<p>
<li>que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes.</li>
<p>
<li>Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.</li>
<p>
<li>Não aborrecerás o edomita, pois é teu irmão; nem aborrecerás o egípcio, pois estrangeiro foste na sua terra.</li>
<p>
<li>Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva.</li>
<p>
<li>Quando acabares de separar todos os dízimos da tua messe no ano terceiro, que é o dos dízimos, então, os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam dentro das tuas cidades e se fartem.<br />(Deuteronômio 10:17-19, 23:7, 24:17, 26:12) </small></ul>
</p>
<p>Porém o mundo dá voltas, e os palestinos são hoje hóspedes impossivelmente incômodos dos israelenses, da mesma forma que Israel é refém do mundo árabe, embora conte com a proteção dos americanos, graças aos quais os iraquianos são também estrangeiros em sua própria terra. Só me resta pedir que Deus proteja os estrangeiros que são todos, porque não posso esperar que judeus e cristãos e muçulmanos honrem suas Escrituras ou neguem sua história.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Ninguém me venha, finalmente, acusar de anti-semitismo: se Deus não faz acepção de pessoas, todos os genocídios são o mesmo. Quanto a judeus e cristãos e muçulmanos que derramam sangue ao mesmo tempo em que alegam possuir alguma intimidade com a Misericórdia, façam-me um favor: vão para o inferno.</p>
<h5>Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém!<br /><small> (Deuteronômio 27:19) </small></h5>
</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug062.gif"></p>
<p align="right"><small><strong>Publicado originalmente em 25 de julho de 2006</strong></small></p>
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		<title>A moral camaleônica</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Sep 2008 13:28:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[A população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos dos que vêm a se mostrar bons governantes.Editorial da Folha de São Paulo, (5/1/1996) Guilherme Scalzilli Os governos Lula suscitaram extensas discussões sobre a compatibilidade entre discurso ético e pragmatismo político-eleitoral. Talvez para dissociar-se dos defensores do presidente e estigmatizar seu constrangimento relativista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos dos que vêm a se mostrar bons governantes.</em><br /><span style="font-family: georgia, times new roman, serif; font-variant: small-caps">Editorial da Folha de São Paulo, (5/1/1996)</span></p>
<p align="right"><strong><small><a title="No Le Monde Diplomatique" href="http://diplo.uol.com.br/2008-09,a2592">Guilherme Scalzilli</a></strong></small></p>
<p>Os governos Lula suscitaram extensas discussões sobre a compatibilidade entre discurso ético e pragmatismo político-eleitoral. Talvez para dissociar-se dos defensores do presidente e estigmatizar seu constrangimento relativista sobre o assunto, a imprensa oposicionista lançou-se numa cruzada de ultralegalismo cívico, que logo receberia colorações partidárias.</p>
<table bordercolor="black" bordercolordark="white" cellpadding="10" width="40%" align="right" bordercolorlight="white" border="0">
<tbody>
<tr>
<td><em><strong>
<p align="right">É delicioso resgatar os argumentos lançados pela mídia em 1997, em favor da reeleição de FHC. Comparados com a grita contra um terceiro mandato de Lula, eles revelam a tendência a adaptar-se às circunstâncias, típica do camaleão.</p>
<p></strong></em></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Um dos aspectos negativos dessa vertente “cidadã” de tolerância zero é, paradoxalmente, sua permissividade conceitual. A abrangência normativa permite a assimilação de uma grande variedade de preceitos, entre os quais aqueles que aspiram a certa superioridade moral, mas não passam de enunciados discutíveis, contraditórios ou apenas tolos, que a ortodoxia acrítica transforma em dogmas sobrenaturais.
<p>O fetichismo da conduta ideal do administrador revela então seu caráter artificial e ideológico, permitindo a deterioração da moralidade (sistema pessoal de valores) em moralismo oportunista, alimentado para enquadrar adversários e isentar aliados em tempos pré-eleitorais. A manipulação da subjetividade “transcendental” dos princípios morais confere imanência atemporal e incontestável a repertórios de condutas engendrados circunstancialmente, sujeitos às conveniências de seus formuladores.
<p>Analisemos, como exemplo, as reações ao suposto terceiro mandato de Lula.
<p>Hoje parece consensual que mudar as regras eleitorais para favorecer governantes em exercício significa uma afronta aos princípios que regem (ou deveriam reger) a conduta do homem público. A simples hipótese de permitir a Lula candidatar-se em 2010 suscitou indignação uníssona. Os precedentes plebiscitários utilizados por Hugo Chávez e Evo Morales rondam as redações como fantasmas hostis arrastando picaretas. Editoriais e colunas horrorizados defendem a alternância de poder e vociferam que nada justifica a perpetuação de governantes.
<p>Mas não foi sempre assim.
<p>Lembremos a fatídica noite de 28 de janeiro de 1997: por volta das nove horas, o presidente da Câmara dos Deputados, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), decretou a primeira vitória da emenda que permitia a reeleição para cargos executivos. Gritos de “Uh, tererê!” soaram no plenário. Luís Eduardo foi abraçado pelo pai, o senador Antônio Carlos Magalhães, em prantos. Meia hora depois, através do porta-voz Sérgio Amaral, o presidente Fernando Henrique Cardoso rejubilava-se por saber que o Congresso votara “em sintonia com a opinião pública”.
<p>Ressalte-se que a decisão dos deputados, depois confirmada pelos senadores, era juridicamente problemática. Segundo certas interpretações, a reeleição de mandatários em pleitos subseqüentes significava alteração de cláusula pétrea da Constituição de 1988 (Direitos e Garantias Fundamentais), que teoricamente só poderia ser realizada por Assembléia Constituinte. Também o artigo 5º da Carta (Isonomia) teria sido aviltado.
<p>Desde a proposição da mudança, dois anos antes, a imprensa debatia quase diariamente o tema. Alheios à controvérsia legal, todos os grandes veículos defenderam a reeleição, com destaque para o jornal Folha de São Paulo. Editorial de 8 de novembro de 1985 já afirmava “não haver maiores inconvenientes em defender a reeleição.” Depois (5/1/1996), o editorial “Reeleição popular” comemorou pesquisa de opinião sobre o tema: “a população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos dos que vêm a se mostrar bons governantes. (&#8230;) Entre a candidatura e a renovação do mandato estará sempre o democrático e o inquestionável veredicto das urnas.”
<p>O Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro Ilmar Galvão, atestou que os ocupantes de cargos executivos não precisariam se desincompatibilizar para disputar suas reeleições. Diversos juristas renomados, como Miguel Reali Júnior, apoiaram a decisão. Os analistas concordaram: “Não é o caso de defender que o presidente também se desincompatibilize”, escreveu Valdo Cruz, entre muitos, na Folha (3/2/97).
<p>Mas será que aqueles argumentos não corroborariam a tese do terceiro mandato de Lula? No parecer que permitiu aos mandatários continuarem em seus cargos, os ministros do TSE entenderam que a emenda da reeleição pressupunha o direito do eleitor optar pela continuidade administrativa (daí a desincompatibilização ser desnecessária). Ora, seguindo rigorosamente essa abordagem doutrinária, o número de reeleições jamais poderia ser limitado.
<p>A mesma preferência popular pela manutenção do administrador, soberana e legítima, poderia ser estendida para novos mandatos, além do segundo. O eleitor, que possui prerrogativas para instituir (e eventualmente depor) governantes, também é capaz de decidir por quanto tempo ficarão no poder. Seria antidemocrático frustrar o “inquestionável veredicto das urnas” também quanto ao terceiro mandato.
<p>Para dirimir possíveis questionamentos sobre a vontade popular, a Constituição Federal prevê o instrumento do plebiscito, um dos pilares da democracia participativa. Aliás, foi justamente a consulta popular que a Folha e outros veículos defenderam em 97, para evitar o fisiologismo nas decisões do Congresso.
<p>Se há algum vestígio de golpismo ou manobra casuística nesses argumentos, devemos então creditá-los ao egrégio TSE, à Carta Magna e aos apologistas da reeleição. Acontece que, há onze anos, o governo FHC desfrutava de amplo apoio midiático. A execução de seu programa reformista e a sobrevivência do Plano Real pareciam depender da continuidade reeleitoral, ostensivamente defendida por editoriais e colunas políticas. A popularidade do presidente bastava para legitimar uma discutível intervenção legislativa e até o recurso extremo do referendo – expedientes que, naquele momento, soavam “democráticos”.
<p>Mudaram os fundamentos do Estado de Direito ou mudou a imprensa? Pergunta retórica. A permanência dos primeiros independe das conveniências dos grupos momentaneamente hegemônicos. Quanto à flagrante incoerência jornalística, ela apenas evidencia um padrão de comportamento: adaptar-se às circunstâncias define a própria natureza do camaleão. Mesmo que ele, confirmando sua essência, finja ser outro animal.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug065.gif"></p>
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		<title>Mina submersa quer explodir em Mauá</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Aug 2007 09:16:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Quase Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[biologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Atualização 08/08 15h37 Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto Menos de uma semana depois de anunciar que a área de inundação da usina hidrelétrica de Mauá precisaria de um estudo minucioso de água e de solo por conta da existência de uma mina desativada de carvão, a Secretaria Estadual de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Atualização 08/08 15h37<br />
<strong>Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto</strong><br />
Menos de uma semana depois de anunciar que a área de inundação da usina hidrelétrica de Mauá precisaria de um estudo minucioso de água e de solo por conta da existência de uma mina desativada de carvão, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) disse ontem ter encontrado a solução para o grande passivo ambiental. A assessoria de imprensa informou que a represa abafará o efeito dos dez hectares de rejeitos de carvão e de metais pesados que são liberados às margens do rio Tibagi, em Telêmaco Borba, nos Campos Gerais.<br />
<a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=685773&#038;tit=Governo-cogita-alagar-minas-de-carvao-sem-novo-estudo-de-impacto">Governo cogita alagar minas de carvão sem novo estudo de impacto</a>, na Gazeta do Povo de hoje</p>
<h5>* * *</h5>
<table cellpadding="10" width="35%" align="right" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="center"><strong>60 anos de lixo tóxico aguardam para contaminar o lago da nova usina. Quem se importa?</strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p align="left"><small>Em muitas espécies de animais os fatores ambientais impedem que a competição dentro da própria espécie conduza ao desastre. Não existe, no entanto, força regulatória agindo sobre o desenvolvimento cultural da humanidade. Sob a pressão da fúria competitiva nós não apenas esquecemos o que é útil para a humanidade, mas até mesmo o que é bom e vantajoso para o indivíduo.<br /><strong>Konrad Lorenz</strong>, <em>Os oito pecados mortais do homem civilizado</small></em></p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/maua-00.jpg"> </p>
<p>O meio-ambiente é coisa particularmente difícil de se defender, porque o agressor somos nós mesmos.&nbsp;Nossa condição como espécie é paradoxal: quanto mais poder adquirimos de manipular o meio-ambiente em nosso favor, mais perto estamos de descaracterizá-lo irremediavelmente para nossa destruição. </p>
<p>O projeto da hidrelétrica de Mauá prevê a inundação de uma área de 100 quilômetros quadrados <a href="http://maps.google.com/maps?f=q&amp;hl=en&amp;geocode=&amp;q=Ortigueira+-+PR,+Brazil&amp;ie=UTF8&amp;cd=2&amp;ll=-24.257607,-50.695038&amp;spn=0.150245,0.232773&amp;t=h&amp;z=12&amp;iwloc=addr&amp;om=1">entre Ortigueira e Telêmaco Borba</a>, aqui no estado do Paraná. A usina&nbsp;terá potência máxima de 362 megawatts (MW),&nbsp;suficiente para abastecer uma cidade de 1,1 milhão de habitantes.&nbsp;Dos R$ 950 milhões necessários para&nbsp;a obra, R$ 700 milhões&nbsp;serão bancados pelo BNDES, sendo que&nbsp;a construtora J. Malucelli&nbsp;já assinou contrato&nbsp;para executar o projeto. </p>
<p>Quem não apostaria nessa barganha? 100 quilômetros quadrados&nbsp;de que ninguém vai sentir falta&nbsp;em troca da energia elétrica para uma grande cidade pululando de consumidores, votantes e impostos.</p>
<p>A não ser que você leve em conta, naturalmente, o custo ambiental. Já em 2005 um <a href="http://celepar7cta.pr.gov.br/mppr/noticiamp.nsf/9401e882a180c9bc03256d790046d022/37af41bebafbdb308325708f005a198c?OpenDocument">parecer do Ministério Público Federal</a>&nbsp;advertia que [1] a barragem coloca em risco a sustentabilidade das tribos indígenas que habitam a região da bacia do Rio Tibagi;&nbsp;a área a ser alagada [2] contém 15 espécies na lista vermelha de espécies ameaçadas do Paraná, [3] cobrirá 200 propriedades e&nbsp;[4] não deverá poupar a&nbsp;Fazenda&nbsp;Monte Alegre, &#8220;composta por um mosaico de florestas nativas associadas a monoculturas florestais, sendo uma das responsáveis pela incomum riqueza de mamíferos na bacia do Rio Tibagi&#8221;; além disso [5] o estudo menciona 15 sítios arqueológicos na região a ser alagada, &#8220;com vestígios relacionados a diversos grupos humanos, períodos históricos e tradições&#8221;.</p>
<p>Deveríamos deixar&nbsp;que um punhado de índios, um grupo disperso de sitiantes, umas bromélias que nem dão flor e umas poucas gravações na rocha se interponham no avanço do&nbsp;progresso? Se não poupamos &#8211; Deus nos perdoe -&nbsp;as <a href="http://www.energiatomica.hpg.ig.com.br/g83.html">Sete Quedas</a>, não seria preciosismo embargar a usina Mauá?</p>
<p>O problema do custo ambiental são, naturalmente,&nbsp;dois. Primeiro, o fato dele ser <strong>muito difícil de avaliar</strong>. Os ecossistemas são ao mesmo tempo infinitamente complexos e infinitamente recatados. Até que seja tarde demais, não temos como estimar&nbsp;o impacto&nbsp;ambiental da perda de uma única nascente, quanto mais de 100 quilômetros quadrados&nbsp;de campos gerais. Ecossistemas são difíceis de avaliar porque tudo funciona quando eles estão funcionando; fica,&nbsp;conseqüentemente, difícil encontrar argumentos em sua defesa. Não sabemos tudo que vai deixar de funcionar quando eles deixarem de existir; não sabemos, literalmente, o que estamos perdendo.</p>
<p>Em segundo lugar, o custo ambiental não tem peso para frear projeto algum, porque o empreendedor e o político sabem muito bem que (salvo descartáveis&nbsp;exceções) <strong>não é um custo que eles mesmos&nbsp;terão de pagar</strong>. Se tudo der certo, a nota promissória da dívida ambiental será deixada convenientemente para as próximas gerações.<br />
<table cellpadding="10" width="35%" align="left" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td>
<p align="center"><a title="O relat&oacute;rio da Frente de Prote&ccedil;&atilde;o" href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht" target="_blank" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/maua-02.jpg"></a>&nbsp;<br /><strong><small>O resultado da análise,&nbsp;revelando altas concentrações de chumbo, cádmio e manganês.</small></strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A maior parte das pessoas que serão prejudicadas talvez ainda nem exista, por isso não consomem os seus&nbsp;produtos nem votam em você &#8211; e não têm como processá-lo! No nosso mundo, cujo deus chama-se Agora, quem seria insensato de levar esse fantasmas futuros em conta? Todo político quer uma obra grandiosa para inaugurar, todo empreendedor quer a sua fatia para construí-la. </p>
<p>Quem&nbsp;ousaria se colocar&nbsp;no caminho desse tanque de guerra&nbsp;a fim de salvar um trecho monótono de campos gerais, que não têm o glamour visual da Mata Atlântica e tudo que faz é nos prover de ninharias como <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/o-bolicho-do-guartela">rios e água pura</a>? </p>
<p>Um estudo recente da&nbsp;<em>Frente de Proteção do Rio Tibagi</em> revela que há um enorme&nbsp;risco não contabilizado&nbsp;esperando a água da barragem para vir à tona.&nbsp;O perigo, desta vez,&nbsp;são lagoas ácidas,&nbsp;hectares de rejeito tóxico e&nbsp;dezenas de minas abandonadas que babam ferrugem amarela e metais pesados.</p>
<p>Num vale de Telêmaco Borba, <a href="http://maps.google.com/maps?f=q&amp;hl=en&amp;geocode=&amp;q=Ortigueira+-+PR,+Brazil&amp;ie=UTF8&amp;cd=2&amp;ll=-24.170483,-50.666971&amp;spn=0.037587,0.058193&amp;t=h&amp;z=14&amp;om=1">junto a uma curva do Tibagi</a> e numa área que pertence à Klabin Papel e Celulose, aguardam os resíduos químicos&nbsp;de 60 anos de extração de carvão mineral. As fotos que ilustram o relatório da <em>Frente de Proteção</em> mostram bocas de minas abandonadas das quais brotam enxofre e ácido sulfúrico e lagoas transparentes com&nbsp;o carimbo&nbsp;azul-turquesa da drenagem ácida. O <a href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht">laudo anexo do SEBRAQ</a> comprova a presença de metais pesados (<strong>cádmio, chumbo e manganês</strong>) em concentrações escandalosamente altas nas amostras coletadas. Sabe-se com segurança que a rede inundada de&nbsp;galerias abandonadas estende-se por quilômetros terra adentro, onde as concentrações tóxicas&nbsp;tendem a ser muito maiores.</p>
<table cellpadding="10" width="35%" align="right" border="0" unselectable="on">
<tbody>
<tr>
<td><strong><small>
<p align="center"><a title="O relat&oacute;rio da Frente de Prote&ccedil;&atilde;o" href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht" target="_blank" atomicselection="true"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/2007/bits/maua-01.jpg"></a><br />Uma página <a href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht" target="_blank">do relatório</a>.</small></strong></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&#8220;Se inundadas&#8221;, conclui o relatório,&nbsp;&#8221;as minas funcionarão como chaminés de ácidos e metais pesados que fluirão diretamente para dentro do lago, provocando um desastre ambiental sem precedentes no futuro reservatório e&nbsp;impedindo o uso da água em Londrina e outras cidades localizadas rio abaixo.&#8221;</p>
<p>A descoberta gerou&nbsp;uma viagem de helicóptero ao local por parte do secretário do Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. &#8220;É um complicador&#8221;, disse Rodrigues. &#8220;Não é para alarmismo, mas é um passivo ambiental significativo&#8221;.</p>
<p>Da <a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684431&amp;tit=">mesma matéria</a> da Gazeta do Povo:</p>
<blockquote><p>Pós-doutor em Geoquímica, o professor André Bittencourt foi responsável pela parte do levantamento técnico que trata da qualidade da água. Ele se defende, afirmando que não explorou a parte sobre as minas e rejeitos de carvão por uma razão química. Os rejeitos só são poluentes em contato com o oxigênio e, se ficassem imersos, não causariam danos. “Essas minas dão muito mais problema como estão do que embaixo d’água”, assegura. Ele também acredita que, tanto no rio como na eventual represa, a quantidade de produtos tóxicos produzida pela mina desativada se dilui com facilidade na água.</p>
</blockquote>
<p>Outra matéria da mesma edição traz o título &#8220;Dona da área [Klabin] investiu R$ 600 mil em recuperação&#8221;.&nbsp;Procurei, mas&nbsp;<a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684433&amp;tit=">o texto</a> não diz&nbsp;de que forma foram gastos os 600 mil, e na recuperação de quem.</p>
<p>Hoje (quarta-feira)&nbsp;pela manhã um evento no Plenarinho da Assembléia Legislativa do estado estará debatendo o caso Mauá. A deliberação da tarde, nas galerias da Assembléia,&nbsp;contará com a presença de cerca de 100 representantes&nbsp;da região atingida.</p>
<p>O governador&nbsp;Roberto Requião&nbsp;defendeu esta semana&nbsp;a importância da usina no &#8220;plano energético nacional&#8221;. A Copel é sócia majoritária no empreendimento, com participação de 51%; a Eletrosul tem 49%.</p>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug024.gif"> </p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.scribd.com/word/full/238879?access_key=d50cfsqsbwbht">Crime ambiental no Tibagi</a>, o relatório-denúncia da <em>Frente de Proteção ao Tibagi</em><br /><a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684431&amp;tit=">Descoberta de resíduos de carvão põe em risco construção de Mauá</a>, matéria da Gazeta do Povo<br /><a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684432&amp;tit=Exploracao-mineral-deixou-passivo-ambiental-na-regiao">Exploração mineral deixou passivo ambiental na região</a>, matéria da Gazeta do Povo<br /><a href="http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/economia/conteudo.phtml?id=684433&amp;tit=">Dona da área investiu R$ 600 mil em recuperação</a>, matéria da Gazeta do Povo<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/paradigma">Paradigma</a></p>
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		<title>Qualquer que seja o elemento estrangeiro</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Jul 2007 12:18:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A esmagadora vitória de novembro passado deixou o inimigo para trás de tal forma que não creio que o sanguinário ponto de vista do Partido Republicano volte algum dia a ser levado sério nos Estados Unidos. Até 1940 os alvos civilizados serão admitidos como coisa tão natural que a grande massa da população nunca mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A esmagadora vitória de novembro passado deixou o inimigo para trás de tal forma que não creio que o sanguinário ponto de vista do Partido Republicano volte algum dia a ser levado sério nos Estados Unidos. Até 1940 os alvos civilizados serão admitidos como coisa tão natural que a grande massa da população nunca mais será engabelada a votar pela injustiça, pela fome e pela miséria.</p>
<p>O único modo pelo qual o punhado derrotado de adoradores da ganância poderia voltar a chegar ao poder seria através de um ardilosamente engendrado movimento fascista fundamentado em apelos primitivos do tipo religioso-histérico (agitar a bandeira, inflamar cristãos nominais contra &#8220;o intelectualismo dos judeus&#8221;, incitar americanos nativos contra os católicos-irlandeses-judeus [ou qualquer que seja o elemento estrangeiro predominante naquela região], incitar católicos contra &#8220;o materialismo comunista&#8221;, inflamar o orgulho provincial contra &#8220;as decadentes inovações européias&#8221;, etc, etc).</p>
<p align="right"><small>H. P. Lovecraft, numa carta de 7 de fevereiro de 1937 a Catherine L. Moore. <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/post-mortem">Lovecraft</a> morreu no dia 15 do mês seguinte.</small> </p>
<h5>* * *</h5>
<p>The smashing victory of last November has so routed the enemy that I do not believe the barbaric Republican point of view will ever be seriously regarded in the United States. Civilized goals will become so thoroughly taken for granted by 1940 that the bulk of the people will never again be bamboozled into voting for injustice, famine &amp; misery. </p>
<p>The only way the handful of defeated greed-worshippers could ever regain power would be through a shrewdly orgazined fascist movement based on primitive appeals of the religio-hysteric type (waving the flag, rousing nominal Christians against &#8220;Jewish intellectualism&#8221;, exciting native-Americans against &#8220;Catholic-Irish-Jewish [or whatever the foreign element predominates in any particular section], exciting Catholics against &#8220;materialistic communism&#8221;, exciting provincial pride against &#8220;decadent European innovations&#8221;, &amp;c. &amp;c.</p>
<p><small>
<p align="right">H.P. Lovecraft, in a letter to Catherine L. Moore, dated February 7, 1937. Lovecraft died on the 15th of the following month.</p>
<p></small>
<p align="center"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug023.gif"> </p>
<p>Leia também:<br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/2005/arrasto">Arrasto</a></p>
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		<title>Nenhuma</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jun 2007 09:49:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Que diferença faz para os mortos, os orfãos e os sem-teto, se essa louca destruição é lavrada em nome do totalitarismo ou no nome sagrado da liberdade e da democracia? Mahatma Gandhi]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que diferença faz para os mortos, os orfãos e os sem-teto, se essa louca destruição é lavrada em nome do totalitarismo ou no nome sagrado da liberdade e da democracia?</p>
<p align="right"><strong><small>Mahatma Gandhi</small></strong></p>
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		<title>Em busca da revolução instantânea</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Apr 2007 10:53:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[ellul]]></category>

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		<description><![CDATA[Ellul e Chabornneau insistiam constantemente na necessidade de estabelecerem-se, localmente, pequenos grupos auto-governados que seriam federados entre si. Deveriam funcionar como contra-sociedades, esses grupos exemplares, manifestações concretas da ordem a ser construída. Seu propósito não era derrubar o regime mas servir de evidência, aqui e agora, da revolução instantânea. Gradualmente, de forma contagiosa, essa rede [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ellul e Chabornneau insistiam constantemente na necessidade de estabelecerem-se, localmente, pequenos grupos auto-governados que seriam federados entre si. Deveriam funcionar como contra-sociedades, esses grupos exemplares, manifestações concretas da ordem a ser construída. Seu propósito não era derrubar o regime mas servir de evidência, aqui e agora, da <em>revolução instantânea.</em> Gradualmente, de forma contagiosa, essa rede fundada nas bases poderia espalhar-se além das fronteiras nacionais, que estavam fadadas a desaparecer de qualquer maneira.</p>
<p>
<p style="text-align:right;"><small> <strong>Patrick Troude-Chastenet,</strong><br />sobre os projetos anárquicos de Jacques Ellul </small></p>
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		<title>Em câmera lenta</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Feb 2007 00:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[consumo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Na sociedade do espetáculo a ética, como tudo mais, é coreografada pela mídia e obedientemente dançada pela sociedade. São os meios de comunicação que selecionam, embalam e entregam em domicílio o que deve propriamente nos chocar, motivar e comover. Num mundo inteiramente esvaziado de absolutos, é apenas pelos olhos seletivos da mídia que sentimo-nos de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na sociedade do espetáculo a ética, como tudo mais, é coreografada pela mídia e obedientemente dançada pela sociedade. São os meios de comunicação que selecionam, embalam e entregam em domicílio o que deve propriamente nos chocar, motivar e comover. Num mundo inteiramente esvaziado de absolutos, é apenas pelos olhos seletivos da mídia que sentimo-nos de alguma forma capazes de enxergar o que é certo e errado.</p>
<p>Estou falando, naturalmente, das recentes e espetaculares violências divulgadas pela televisão e do rastro de indignação <del>extraoficial</del> oficial que se seguiu. </p>
<p>Pode-se dizer que estou indignado com essa indignação &#8211; tão ou mais do que com a violência que dizem-me tê-la inspirado.</p>
<p>Pretendo ser bem entendido pelo menos numa coisa: não tenho prazer em ouvir de crianças sendo torturadas e de balas perdidas que encontram seus destinos, seja no Rio de Janeiro ou no Iraque, que é menos violento; não creio, com a mesma intensidade, que a onipresença da violência deva ser de alguma forma maquiada, omitida ou censurada. Deem-me a vida como ela é &#8211; não tenho escolha a não ser encará-la de frente, e prefiro não ter.</p>
<p>O que me incomoda na recente onda de indignação é que ela toma invariavelmente o caminho testado e aprovado da demonização do outro &#8211; o caminho que sancionou todos os derramamentos de sangue da história, inclusive aqueles que estamos agora condenando. E não é, sabemos disso, menos que derramamento de sangue o que estamos pedindo. Somos personagens da vigília circular prevista e denunciada por René Girard. O que queremos, o que estamos <em>exigindo,</em> é um bode expiatório no qual possamos afogar espetacularmente o nosso furor. Deem-nos um rei do crime, um magnífico Al Capone para crucificar; deem-nos a pena de morte, um maldito cujo sangue nos forneça a indelével impressão de purificação comunitária. Deem-nos uma punição exemplar, algo que corresponda em riqueza visual à pirotecnia da violência a que fomos submetidos pelas imagens da televisão.</p>
<p>Sou, devo confessar aos que ainda não perceberam, um idealista e um anarquista. Não sou porém idealista o bastante para crer que não há culpados, ou anarquista o bastante para crer que culpados não devam ser punidos. Apenas estou convicto de que há culpados em mais arenas do que gostaríamos de admitir, e violências cuja magnitude simplesmente não comportam os dois ou três palmos da tela azul.</p>
<p>Não é preciso mais do que meia hora para se fazer pelas ruas da cidade um desenho com o sangue e a carne de uma criança viva. Não é preciso mais do que minutos para abrir com o estilete uma garganta, para violentar uma garotinha, derrubar o fósforo aceso sobre um corpo vivo fedendo a gasolina ou apertar um cano fumegante contra uma têmpora.</p>
<p>A maior parte de nós, seres humanos, optaria por só fazer essas coisas em último caso. Preferimos em geral não ter de recorrer à violência. Preferimos que ninguém morra na nossa frente. Preferimos não ter de matar ninguém. Se matar for finalmente necessário, preferimos que não seja doloroso para quem morre.</p>
<p>Nós humanos somos assim. Não inerentemente bons, mas inerentemente cheios de melindres e nove horas. </p>
<p>As atrocidades espetaculares com que temos nos ocupado são jogo rápido e produzem resultados brutais, feitos sob medida para a nota de primeira página do jornal. São vistosas em sua abominação, e cabem justinho entre um comercial e outro do noticiário.</p>
<h5>A tela é azul.</h5>
</p>
<p>Essas violências são especialmente convenientes para o nosso consumo porque deixam claro, pelo seu próprio caráter de aberração, que não dizem respeito a gente do nosso convívio e da nossa estirpe. Ficamos chocados com elas e exigimos restituição na exata proporção em que cremos não ter nenhuma culpa no cartório. </p>
<p>A culpa, no entanto, é coisa insidiosa e comum. A violência é rápida, mas o processo de desumanização que a possibilita, que torna a violência concebível e até desejável para quem a pratica, é lento e complexo. É preciso muita coisa para fazer de um homem menos que um homem, mas temos conseguido &#8211; e tenho feito obedientemente a minha parte na criação desse admirável mundo novo.</p>
<p>É minha convicção de que somos todos &#8211; individualmente, já que coletivamente nada acontece &#8211; culpados dessa violência secreta que desconstrói eficientemente a humanidade de crianças, mulheres e homens. </p>
<p>Desconhecemos ou esquecemos o que é passar consistentemente fome, o que é ser barrado consistentemente no shopping, o que é constatar consistentemente que trabalho honesto gera menos sobrevivência do que fornecer entorpecentes malfeitos a distraídos ricos e classe-medianos. Não sabemos ou esquecemos o que é dormir na rua, o que é ver a mãe apanhando do pai, o que é ter a ordem de despejo no nariz, o cuspe no rosto, o chute no lado. Não sabemos ou esquecemos o que é ver o dia como ameaça, a noite como dia e a lata de cola por companheiro. Essas e outras violências secretas trabalham em perfeita coordenação para desfazer gente em menos do que gente, mas são coisa por demais comum e rasteira para merecer espaço na televisão. Não fazem e nunca farão, portanto, parte da nossa ética. Não têm qualquer relação com a verdadeira violência que estamos lamentando nos e-mails que repassamos.</p>
<p>Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian na Paraíba, no calçadão da perfumada Campina Grande, tomando suco e maravilhando da chuva e do friozinho que fazia ali tão na beira do sertão nordestino. Anoitecia e adiávamos, comentando sobre a extraordinário abundância de farmácias e garotas bonitas na cidade, a hora de voltar para o Hotel Gandhi. Espalhada pelo calçadão desfilava sem pressa uma procissão sem fim de crianças de rua e catadores de papel: meninos descalços, maltratados, vestidos de pano de chão, pedindo sem stress um centavo, um pedaço de comida, muitos empurrando ou puxando, como mulas, carrinhos de madeira dez vezes maiores do que eles mesmos.</p>
<p>O Julian já tinha visto cena semelhante em outras de nossas capitais, mas ali em Campina Grande, naquela noite e no meio daquelas crianças que o cercavam como a um loiro redentor, o inglês desembuchou.</p>
<p> &#8211; Por que vocês não fazem nada a respeito dessas crianças? &#8211; perguntou ele ternamente, serenamente, e falava em nome e a respeito das crianças de rua de todo o Brasil.</p>
<p>Nesse momento, senhoras e senhores, o Brabo desfiou um discurso que faria a delícia ou a vergonha de qualquer candidato em qualquer comício. Expliquei com toda a diligência que a solução não era simples, que o problema era congênito, que o governo não fazia nada, que a sociedade se omitia, que a maldição tinha raízes históricas que garantiam a sua perpetuação; falei sobre desvios de recursos, sobre reforma agrária, sobre prostituição infantil, sobre tráfico de drogas e de influências e sobre crime organizado. Falei sobre a história do Rio do Janeiro, sobre evasão rural, sobre nordestinos em São Paulo; expliquei sobre favelas e morros e falanges vermelhas e escadinhas, e quanto mais eu falava mais percebia que estava longe, cada vez mais longe, de responder a pergunta que meu amigo havia feito.</p>
<p>Meu amigo não me pedira estatísticas ou respostas prontas. Ele me perguntava por que eu &#8211; por que alguém &#8211; não fazia nada para humanizar a vida daquelas crianças e crianças como elas. Eu não soube o que responder. Não tinha o que responder, e finalmente confessei isso a ele.</p>
<p> &#8211; Pergunto &#8211; ele disse, apontando para um menino de uns seis anos absolutamente loiro, absolutamente lindo e absolutamente miserável que nos observava maravilhado conversando em inglês, como se testemunhasse anjos &#8211; por que esse menino poderia ser o meu filho.</p>
<p>A desumanização é uma violência muda que depende da contribuição de todos para funcionar. Basta um de nós virar a casaca para colocar tudo a perder. Eu mesmo tive meus momentos de fraqueza, mas o Julian voltou graças a Deus para sua Londres perfeita e não representa mais risco para a minha consciência. Minha eficiente omissão tem feito com que crianças sejam arrastadas pelas ruas, uma de cada vez, com a mesma inclemência impensável que os bandidos dispensaram a um menino que não conheci e cuja foto apareceu na televisão. Esse trajeto desumanizante é, no entanto, lentíssimo; acontece em câmera lenta demais para caber nos limites do noticiário de televisão. É devagar como um filme francês, e da mesma forma impotente para angariar pontuação no IBOPE. No final, no entanto, haverá um rastro de sangue e um ser humano a menos sobre a terra.</p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Deixamos o filho de Julian dormindo na rua e fomos para o quarto do hotel, caindo no sono sob a benção azul da novela Bang-Bang. Na manhã seguinte partimos para Recife.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug022.gif" alt="" width="77" height="161" /></p>
<p>Leia também:</p>
<p><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/big-brother">Big Brother &#8211; A vigilância sem trégua do espetáculo</a><br /><a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/o-problema-com-a-virtude">O problema com a virtude</a></p>
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		<title>Algo de bom ele deve ter</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jan 2007 09:37:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava em determinada capital do país, hospedado na casa de um amigo, quando ele anunciou que viria almoçar conosco naquele dia um camarada que queria me conhecer, um vereador daquela cidade. &#8211; Ele também é pastor &#8211; esclareceu meu amigo. &#8211; Mas ele não tem nenhuma virtude? &#8211; não resisti.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estava em determinada capital do país, hospedado na casa de um amigo, quando ele anunciou que viria almoçar conosco naquele dia um camarada que queria me conhecer, um vereador daquela cidade.</p>
<p> &#8211; Ele também é pastor &#8211; esclareceu meu amigo.</p>
<p>&#8211; Mas ele não tem <em>nenhuma virtude?</em> &#8211; não resisti.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug056.gif" alt="" width="44" height="67" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>38 maneiras de se vencer uma argumentação</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Dec 2006 02:22:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Goiabas Roubadas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[da Arte da Controvérsia de Arthur Schopenhauer Nº 1. Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a. Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela. Quanto mais restritas as suas próprias proposições permanecem, mais fáceis elas são de defender. Nº 2. Use [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:right;">da <em>Arte da Controvérsia</em> de <strong>Arthur Schopenhauer</strong></p>
<p><strong>Nº 1.</strong> Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a.</p>
<p>Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela. Quanto mais restritas as suas próprias proposições permanecem, mais fáceis elas são de defender.</p>
<p><strong>Nº 2.</strong> Use significados diferentes das palavras do seu oponente para refutar a argumentação dele.</p>
<p>Exemplo: a pessoa A diz: &#8220;Você não entende os mistérios da filosofia de Kant&#8221;.</p>
<p>A pessoa B replica: &#8220;Ah, se é de mistérios que estamos falando, não tenho como participar dessa conversa&#8221;.</p>
<p><strong>Nº 3.</strong> Ignore a proposição do seu oponente, destinada a referir-se a alguma coisa em particular. Ao invés disso, compreenda-a num sentido muito diverso, e em seguida refute-a. Ataque algo diferente do que foi dito.</p>
<p><strong>Nº 4.</strong> Oculte a sua conclusão do seu oponente até o último momento.</p>
<p>Semeie suas premissas aqui e ali durante a conversa. Faça com que o seu oponente concorde com elas em nenhuma ordem definida.</p>
<p>Por essa rota oblíqua você oculta o seu objetivo até que tenha obtido do oponente todas as admissões necessárias para atingir o seu objetivo.</p>
<p><strong>Nº 5.</strong> Use as crenças do seu oponente contra ele. </p>
<p>Se o seu oponente recusa-se a aceitar as suas premissas, use as próprias premissas dele em seu favor.</p>
<p>Por exemplo, se o seu oponente é membro de uma organização ou seita religiosa a que você não pertence, você pode empregar as opiniões declaradas desse grupo contra o oponente.</p>
<h5>A arte da controvérsia &#8211; os meios aos quais os disputantes recorrem para fazer bonito do seu pensamento individual um diante do outro, e demonstrar que ele é de natureza pura e objetiva.</h5>
</p>
<p><strong>Nº 6.</strong> Deixe a questão confusa mudando as palavras do seu oponente ou aquilo que ele está procurando provar.</p>
<p>Chame uma coisa por um nome diferente: diga &#8220;boa reputação&#8221; ao invés de &#8220;honra&#8221;, &#8220;virtude&#8221; ao invés de &#8220;virgindade&#8221;, &#8220;animais de sangue quente&#8221; ao invés de &#8220;vertebrados&#8221;.</p>
<p><strong>Nº 7.</strong> Declare a sua proposição e demonstre a verdade dela fazendo ao oponente uma longa lista de perguntas.</p>
<p>Fazendo muitas perguntas abrangentes ao mesmo tempo, você pode ocultar aquilo que está tentando fazer com que o seu oponente admita. Você em seguida avança o argumento a partir de uma admissão do oponente.</p>
<p><strong>Nº 8.</strong> Deixe o seu oponente furioso. Uma pessoa enfurecida é menos capaz de usar o seu julgamento ou de perceber onde residem as suas vantagens.</p>
<p><strong>Nº 9.</strong>  Use as respostas que o seu oponente dá à sua pergunta de modo a alcançar conclusões diferentes ou opostas.</p>
<p><strong>Nº 10.</strong> Se o seu oponente responde a todas as suas perguntas negativamente e recusa-se a ceder em qualquer ponto, peça que ele concorde com a versão oposta das suas premissas.<br />Isso pode confundir o seu oponente quanto ao ponto em particular a respeito do qual você está tentando fazer com que ele ceda.</p>
<h5>Pois a natureza humana é tal que, se &#8220;A&#8221; e &#8220;B&#8221; estão refletindo em conjunto, e comunicando as suas opiniões um ao outro a respeito de qualquer assunto, e &#8220;A&#8221; percebe que os pensamentos de &#8220;B&#8221; sobre o mesmo assunto não são os mesmos que os seus, ele não começa revisando o seu próprio processo de raciocínio, a fim de descobrir qualquer erro que possa ter cometido, mas pressupõe que o erro tenha ocorrido no raciocínio de &#8220;B&#8221;.</h5>
</p>
<p><strong>Nº 11.</strong> Se o seu oponente admite a verdade de algumas de suas premissas, abstenha-se de pedir que ele concorde com a sua conclusão. Mais tarde introduza suas conclusões na conversa como coisa resolvida ou admitida por ele.</p>
<p>O seu oponente e outros na assistência poderão ser levados a acreditar que foi de fato com a sua conclusão que ele concordou.</p>
<p><strong>Nº 12.</strong> Se o argumento move-se para o terreno de idéias gerais que não têm nomes particulares, você deve usar uma linguagem ou metáfora que seja favorável à sua proposição.</p>
<p>Exemplo: O que uma pessoa imparcial chamaria de &#8220;fé pessoal&#8221; ou &#8220;opção religiosa&#8221; é descrito pelo seu partidário como &#8220;santidade&#8221; ou &#8220;devoção&#8221;, e pelo seu oponente como &#8220;preconceito&#8221; ou &#8220;superstição&#8221;.</p>
<p><strong>Nº 13.</strong> A fim de fazer com que o seu oponente aceite a sua proposição, apresente também uma contra-proposição oposta.</p>
<p>Se o contraste for acentuado, seu oponente acabará aceitando a sua proposição para evitar parecer controverso.</p>
<p>Exemplo: Se você quer que ele admita que um rapaz deve fazer absolutamente qualquer coisa que o seu pai manda que ele faça, pergunte se o seu adversário acredita que &#8220;devemos em tudo desobedecer aos nossos pais&#8221;. É como colocar o cinza ao lado do preto e chamá-lo de branco, ou colocar o cinza perto do branco e chamá-lo de preto.</p>
<p><strong>Nº 14.</strong> Tente lograr o seu oponente.</p>
<p>Se ele respondeu diversas de suas perguntas sem que as respostas inclinem-se em favor da sua conclusão, avance a sua conclusão triunfantemente, mesmo se não procede.</p>
<p>Se o seu oponente for tímido ou estúpido, e se você possuir uma grande dose de descaramento e uma boa voz, essa técnica pode funcionar.</p>
<p><strong>Nº 15.</strong> Se você quer apresentar uma proposição que é difícil de provar, coloque-a de lado por um momento. Ao invés disso, peça que o seu oponente aceite ou rejeite alguma proposição verdadeira, como se fosse através disso que você fosse extrair a sua prova.</p>
<p>Se o seu oponente rejeitá-la suspeitando de alguma armadilha, você obtem o seu triunfo demonstrando o quão absurdo é o seu oponente rejeitar uma proposição que é obviamente verdadeira.</p>
<p>Se o seu oponente aceitá-la, a razão permanece com você pelo momento.</p>
<p>Você pode então ou tentar demonstrar a sua proposição original ou, como no <strong>Nº 14,</strong> agir como se a sua proposição original tivesse sido provada pelo que o seu oponente admitiu.</p>
<p>Essa técnica requer um grau extremo de descaramento para que funcione, mas a experiência já comprovou inúmeras vezes a sua eficácia.</p>
<h5>A Controvérsia Dialética é a arte de debater, e debater de modo a sair por cima, quer você esteja certo ou não.</h5>
</p>
<p><strong>Nº 16.</strong> Quando o seu oponente apresenta uma proposição, considere-a inconsistente com as declarações, crenças, ações ou omissões do oponente.</p>
<p>Exemplo: Se o seu oponente defende o suicídio, pergunte imediatamente: &#8220;Então porque você não se enforca?&#8221;</p>
<p>Se ele observar que a sua cidade não é um lugar bom para se viver, pergunte: &#8220;Então por que você não parte no primeiro avião?&#8221;</p>
<p><strong>Nº 17.</strong> Se o seu oponente pressioná-lo com uma evidência contrária, você pode com freqüência safar-se defendendo alguma distinção sutil.</p>
<p>Tente encontrar algum significado subjacente ou ambiguidade na idéia do seu oponente. </p>
<p><strong>Nº 18.</strong> Se o seu oponente abriu uma linha de argumentação que acabará levando inevitavelmente à sua derrota, não permita que ele a leve até a sua conclusão.</p>
<p>Interrompa o debate, retire-se imediatamente ou leve o seu oponente a mudar de assunto.</p>
<p><strong>Nº 19.</strong> Se o seu oponente desafiá-lo expressamente a apresentar uma objeção a algum ponto definido da sua argumentação e você não tem mais nada a dizer, tente fazer o argumento dele menos específico. </p>
<p>Exemplo: Se ele pedir algum motivo pelo qual determinada hipótese não deva ser aceita, fale da falibilidade do conhecimento humano e ilustre com vários exemplos.</p>
<p><strong>Nº 20.</strong> Se o seu oponente aceitou todas ou a maior parte das suas premissas, não peça que ele concorde diretamente com a sua conclusão.</p>
<p>Ao contrário, exponha a conclusão você mesmo como se ela também tivesse sido admitida.</p>
<h5>Uma pessoa pode estar objetivamente com a razão, e mesmo assim sair por baixo na opinião dos observadores (e algumas vezes na sua própria opinião). Por exemplo, suponha que eu apresente uma prova para demonstrar uma afirmação minha. Se o meu adversário refutar a prova, dará a impressão de estar refutando também a afirmação &#8211; para a qual podem, no entanto, haver outras provas. Nesse caso, é claro, meu adversário e eu trocamos de posição: ele sai por cima quando, na verdade, está errado.</h5>
</p>
<p><strong>Nº 21.</strong> Quando o seu oponente utilizar um argumento superficial e você enxergar essa falsidade, refute-o estabelecendo a natureza superficial desse argumento.</p>
<p>Melhor ainda é rebater o oponente com um contra-argumento tão superficial quanto o dele, só para vencê-lo &#8211; afinal de contas é em ganhar que você está interessado, não na verdade.</p>
<p>Exemplo: Se o seu oponente apelar para o preconceito, para a emoção ou para ataques pessoais, devolva o ataque na mesma moeda.</p>
<p><strong>Nº 22.</strong> Se o seu oponente pedir que você admita alguma coisa a partir da qual o ponto em discussão pode ser concluído, recuse-se a fazê-lo, declarando que ele incorre em petição de princípio.</p>
<p><strong>Nº 23.</strong> Contradição e contenciosidade irritam a pessoa de modo a fazê-la exagerar suas declarações. Contradizer o seu oponente pode levá-lo a estender a sua declaração além dos limites, e quando você contradiz essa manifestação exagerada parece estar refutando a declaração original.</p>
<p>Do modo correspondente, se o seu oponente tentar estender a sua própria  declaração mais do que você tencionou, redefina os limites da sua declaração e afirme: &#8220;foi isso que eu disse, e não mais do que isso&#8221;.</p>
<p><strong>Nº 24.</strong> Recorra a um falso silogismo.</p>
<p>Seu oponente faz uma declaração, e você por falsa inferência e distorção das idéias dele extrai à força proposições não-tencionadas e absurdas da afirmação original.</p>
<p>Fica parecendo assim que a proposição do seu oponente trouxe à luz essas inconsistências, restando a impressão de que ela mesma foi indiretamente refutada.</p>
<p><strong>Nº 25.</strong> Se o seu oponente está fazendo uma generalização, encontre uma instância que demonstre o contrário. Basta uma contradição válida para derrubar a proposição do seu oponente.</p>
<p>Exemplo: &#8220;Todos os ruminantes tem chifres&#8221; é generalização que pode ser subvertida pela instância única do camelo.</p>
<h5>Se a natureza humana não fosse vil, mas honrosa, não teríamos em qualquer debate outra intenção que não descobrir a verdade. Mas na maioria das pessoas a vaidade inata é acompanhada de loquacidade e inata desonestidade. </h5>
</p>
<p><strong>Nº 26.</strong> Uma manobra brilhante é virar a mesa e utilizar os argumentos do seu oponente contra ele mesmo.</p>
<p>Exemplo: Seu oponente declara: &#8220;fulano é ainda uma criança, você deve fazer-lhe uma concessão&#8221;. Você retruca: &#8220;justamente porque ele é criança devo corrigi-lo, caso contrário ele persistirá em seus maus hábitos&#8221;.</p>
<p><strong>Nº 27.</strong> Se o seu oponente surpreender você ficando particularmente indignado diante de um argumento seu, insista nesse argumento com ainda maior zelo.</p>
<p>Isso não apenas deixará o seu oponente furioso, mas vai deixar a impressão de que você tocou um ponto frágil na argumentação dele, e de que seu oponente está mais suscetível a um ataque no que diz respeito a esse ponto do que você esperava.</p>
<p><strong>Nº 28.</strong> Quando a audiência consistir de indivíduos (ou uma pessoa) que não sejam autoridade no assunto, você pode levantar uma objeção inválida e o seu oponente parecerá ter sido derrotado aos olhos da sua audiência.</p>
<p>Esta estratégia é particularmente efetiva quando a sua objeção faz o seu oponente parecer ridículo, ou quando a audiência ri. Se o seu oponente tiver de fazer uma longa, prolixa e complicada explicação para corrigi-lo, a audiência não estará disposta a ouvi-lo.</p>
<p><strong>Nº 29.</strong> Se você perceber que está sendo vencido na argumentação, crie uma diversão &#8211; isto é, comece de repente a falar sobre outra coisa, como se isso tivesse importância na matéria em questão.</p>
<p>Isso pode ser feito sem medo se a diversão mostrar ter alguma relação mesmo que genérica com a questão.</p>
<p><strong>Nº 30.</strong> Apele para a autoridade ao invés de para a razão.</p>
<p>Se o seu oponente respeita determinada autoridade ou especialista, cite essa autoridade para avançar o seu argumento. </p>
<p>Se necessário, cite o que essa autoridade disse em outro sentido ou circunstância.</p>
<p>Autoridades que o seu oponente não chegou a entender são em geral as que ele admira mais.</p>
<p>Você pode, se necessário, não apenas distorcer as autoridades citadas em seu favor, mas também falsificá-las, citando algo inteiramente inventado por você.</p>
<h5>Falam sem pensar, e mesmo que depois percebam que estão errados, querem parecer o contrário. O interesse da verdade dá lugar aos interesses da vaidade: assim, por causa da vaidade, o que verdadeiro deve parecer falso, e o falso verdadeiro.</h5>
</p>
<p><strong>Nº 31.</strong> </p>
<p>Se sabe não ter uma resposta para os argumentos apresentados pelo seu oponente, você pode num golpe de ironia declarar-se um juiz incompetente.</p>
<p>Exemplo: &#8220;O que você diz ultrapassa os meus pobres poderes de compreensão. Pode muito bem ser verdade, mas não sou capaz de entender, por isso abstenho-me de expressar qualquer opinião sobre o assunto&#8221;.</p>
<p>Desta maneira você insinua à sua audiência, diante da qual permanece com uma boa imagem, de que o que seu oponente está dizendo é um contra-senso.</p>
<p><strong>Nº 32.</strong></p>
<p>Um método rápido de livrar-se da declaração de um oponente, ou de colocá-la sob suspeita, é classificá-la debaixo de uma categoria odiosa.</p>
<p>Exemplo: Você pode dizer: &#8220;Isso é fascismo&#8221;, ou &#8220;ateísmo&#8221;, ou &#8220;nazismo&#8221;, ou &#8220;superstição&#8221;.</p>
<p>Fazendo essa objeção você está pressupondo tacitamente que (1) a declaração em questão é idêntica à categoria mencionada, ou está pelo menos contida nela; e (2) o sistema mencionado foi inteiramente rejeitado pela presente audiência.</p>
<p><strong>Nº 33.</strong></p>
<p>Admita as premissas do seu oponente mas negue a sua conclusão.</p>
<p>Exemplo: &#8220;Isso é muito bom na teoria, mas na prática não funciona&#8221;.</p>
<p><strong>Nº 34.</strong></p>
<p>Se você apresenta uma pergunta ou um argumento e seu oponente não lhe dá uma resposta direta, contorna-os com outra pergunta ou tenta mudar de assunto, é sinal claro de que você atingiu um ponto fraco, por vezes de forma não intencional.</p>
<p>Você, por assim dizer, reduziu seu oponente ao silêncio.</p>
<p>Insista, portanto, ainda mais no ponto em questão, e não deixe que seu oponente o evite, mesmo quando você não sabe ainda em que consiste a fraqueza que acaba de descobrir.</p>
<h5>Ao seguirmos estas regras com esta finalidade, não devemos nos preocupar em qualquer sentido com a verdade objetiva, porque normalmente não sabemos onde está a verdade.</h5>
</p>
<p><strong>Nº 35.</strong></p>
<p>Ao invés de concentrar-se no intelecto do seu oponente ou no rigor de seus argumentos, concentre-se nos motivos dele.</p>
<p>Se você conseguir fazer com que a opinião do seu oponente, caso se mostre verdadeira, pareça distintamente prejudicial ao seu próprio interesse, ele a abandonará imediatamente.</p>
<p>Exemplo: Um clérigo está defendendo algum dogma filosófico. Demonstre que sua proposição contradiz alguma doutrina fundamental da sua igreja, e ele se verá forçado a abandonar o argumento.</p>
<p><strong>Nº 36.</strong></p>
<p>Você pode também confundir e desconcertar seu oponente através de grandiloqüência pura e simples. </p>
<p>Se seu adversário é fraco ou se não deseja aparentar não ter idéia sobre o que está falando, você pode impor facilmente sobre ele algum argumento que pareça profundo e erudito, ou soe como inquestionável.</p>
<p><strong>Nº 37.</strong></p>
<p>Se seu oponente estiver certo mas, felizmente para você, apresentar uma prova deficiente, você pode com facilidade refutar a prova e em seguida alegar que refutou a posição inteira. É dessa forma que maus advogados perdem boas causas.</p>
<p>Se seu oponente for incapaz de produzir uma prova irrefutável, você ganhou o dia.</p>
<p><strong>Nº 38.</strong></p>
<p>Parta para o ataque pessoal, insultando grosseiramente, tão logo perceba que seu oponente está com a vantagem.</p>
<p>Partindo para o ataque pessoal você abandona o assunto por completo, passando a concentrar o seu ataque na pessoa, fazendo uso de observações ofensivas e malevolentes.</p>
<p>Esta é uma técnica muito popular, porque requer pouca habilidade para ser colocada em prática.</p>
<h5>A dialética não precisa ter, portanto, qualquer relação com a verdade &#8211; da mesma forma que quem levanta uma cerca não precisar levar em conta qual lado está certo numa disputa de terras.</h5>
</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug024.gif" alt="" width="272" height="100" /></p>
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		<title>Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Oct 2006 09:41:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Brabo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fé e Crença]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>

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		<description><![CDATA[A forma da religião de um estadoé moldada a partir de sua forma de governo.Aristóteles Na competição dos deuses estatais com as religiões de mistério no mundo romano de dois mil anos atrás, o cristianismo entrou como contendente tardio e azarão inconteste. Tratava-se, considere, de uma facção impopular de uma religião que já era por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<p style="text-align:right;"><small>A forma da religião de um estado<br />é moldada a partir de sua forma de governo.<br /><strong>Aristóteles</strong> </small></p>
<p></p>
<p>Na competição dos deuses estatais com as religiões de mistério no mundo romano de dois mil anos atrás, o cristianismo entrou como contendente tardio e azarão inconteste. Tratava-se, considere, de uma facção impopular de uma religião que já era por si mesma bastante impopular, o judaísmo. Que esse partido controverso tenha se tornado em pouco mais de 300 anos a religião oficial do mais ambicioso e bem-sucedido império do planeta e da história &#8211; e que duraria depois disso mais mil anos &#8211; é mistério com variáveis demais para se deslindar.</p>
<p>Verdade é que quando pediu a seus discípulos que contra qualquer oposição anunciassem sua boa nova &#8220;até os confins da terra&#8221;, Jesus parecia não estar prevendo que em três séculos essa pregação contaria com patrocínio dos cofres do Império, o aval nominal do Imperador e a proteção dos mesmos exércitos que o pregaram na cruz.</p>
<p>É natural que, como toda religião de estado, o cristianismo (tendo perdido qualquer relação mais do que nominal com o ensino de Jesus) foi abraçado como ferramenta política. Dito de outra forma, a nova doutrina não teria sido abraçada se não se mostrasse de alguma forma vantajosa para os seus patrocinadores.</p>
<p>A questão está em determinar o que no cristianismo fez com que ele parecesse politicamente mais atraente para o Império do que os deuses do Olimpo ou as exuberantes <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-luta-dos-seculos">religiões de mistério</a>.</p>
<p>Parte importante da resposta está na própria noção de império. O Império Romano, instituído meras três décadas antes de Cristo, era ele mesmo uma novidade quando a o cristianismo despontou como opção no mercado espiritual. Por cinco séculos de definição Roma tinha sido a sede de uma enorme e bem-sucedida República parlamentar, governada democraticamente por um senado. A noção de monarquia, embora viesse ganhando adeptos depois da trajetória brilhante de Alexandre, o Grande, era considerada importação indesejável do oriente; os romanos viam a si mesmos como filhos da democracia, e os proponentes do jogo do Império tiveram de recorrer a todo tipo de artifício a fim de legitimizar a sua posição.</p>
<h5>&#8220;A ascensão do império promoveu o crescimento do monoteísmo devido à relação íntima entre a forma de religião e a forma de governo&#8221;.</h5>
</p>
<p>A primeira providência, temporária, foi associar a nova forma de governo à velha religião. &#8220;Em 13 a.C. Augusto assumiu o título de <em>Pontifex Maximus,</em> sumo-pontífice, o que concedeu a ele uma aura de santidade e provou-se tão eficaz que os imperadores subseqüentes, tanto pagãos quanto cristãos, o retiveram&#8221;, conta S. Angus em sua obra sobre as religiões de mistério. </p>
<p>A segunda providência, definitiva, foi abandonar o politeísmo parlamentar dos deuses do Olimpo e escolher uma religião que refletisse adequadamente a nova forma de governo. Embora outras religiões de mistério estivessem fundamentadas no monoteísmo, o cristianismo acabou sendo a escolha da vez, talvez pela vantagem adicional da associação: da mesma forma que um homem, Jesus, representara legitimamente Deus na terra, o mesmo se poderia esperar do <em>Pontifex Maximus.</em> </p>
<p>Estava feita a estercada: o cristianismo acabou dando certo da forma errada. Jesus alcançou a glória que repudiara no seu ensino e a associação política de que fugira por  toda sua vida.</p>
<p>Explica Angus:</p>
<p>
<p style="padding-left:4em;padding-right:4em;">&#8220;A ascensão do império promoveu o crescimento do monoteísmo devido à relação íntima entre a forma de religião e a forma de governo. Um governante supremo sobre a terra tornava natural e inevitável que os homens cressem num único Ser Supremo no universo&#8221;. </p>
<p>Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo &#8211; lição da história que nenhum político posterior deu-se ao luxo de esquecer. </p>
<h5>* * *</h5>
</p>
<p>Pela mesma razão, aprenda comigo, o capitalismo é a <a href="http://www.baciadasalmas.com/2004/as-variedades-da-experiencia-capitalista">incontestada religião estatal</a> dos nossos dias: não teria sido abraçada se não se mostrasse vantajosa para os seus patrocinadores.</p>
<p>Não é injusto, portanto, que o ponto culminante da produção e do consumo anual girem ao redor do aniversário de Cristo. Não é injusto que o capitalismo <a href="http://www.baciadasalmas.com/2006/a-transicao-de-sao-nicolau">se aproprie das ruínas de São Nicolau</a> para erigir sobre elas o altar de Papai Noel. Os símbolos da velha religião são sempre utilizados para legitimar a nova, e é o novo monoteísmo que move o mundo.</p>
<p>Não saia de casa sem ele.</p>
<p>
<p style="text-align:center;"><img src="http://www.baciadasalmas.com/images/bugs/bug069.gif" alt="" width="54" height="77" /></p>
<p>Leia também:<br />
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