Manuscritos estocados sob a rubrica 'Politica'
12 de Maio de 2010

A fissura do mundo: política, polarização e paralisia

História, Politica

Porque ninguém sobrevive impunemente à guerra, muito menos a esta. A guerra é de tal natureza que, não importa quão bem-intencionado tenha sido o vencedor, o bem nunca vence no final.

Os aliados vencedores ocupavam agora a Alemanha, e sua primeira medida foi a denazificação da sociedade. Ter sido nazista passou a ser o grande estigma da vez, e nas cortes temporárias estabelecidas pelos aliados os alemães sob suspeita tinham que comprovar sua pureza ideológica durante o regime de Hitler1. A igreja teria sido a entidade ideal para fornecer esses certificados de isenção, não fosse o fato de que – como não demoraram a apontar os rebeldes da Igreja Confessante – a própria igreja não estava isenta de culpa.

E, numa devastação de proporções tão descomunais, onde colocar a culpa? Onde não colocá-la? Depois de que impensável reparação um oficial nazista poderia voltar a frequentar a igreja que não hesitara em perseguir? Como se poderia esperar que um militante da resistência, trazendo no corpo e na mente as marcas da tortura, admitisse um ex-nazista em sua comunhão? Como poderia uma mãe perdoar-se por ter votado no ditador que despachara o seu filho para uma guerra da qual não tinha voltado? Quem estava pronto para reconhecer sua parcela de culpa? Quem estava pronto a perdoá-la?

Logo ficou claro que, estando todos os ressentimentos em alta, ninguém estava pronto para abraçar o fardo da culpa; não pelos horrores do nazismo. Uma declaração do Conselho da Igreja Evangélica Alemã, publicada em outubro de 1945 (portanto poucos meses depois do final da guerra), causou indignação e controvérsia ao sugerir uma medida de culpa coletiva:

Sabemos que nos encontramos não apenas numa comunidade de sofrimento, mas numa solidariedade de culpa. É com grande angústia que declaramos: através de nós incalculável sofrimento foi causado a diversos povos e terras. O que temos com frequência testemunhado diante de nossas congregações declaramos agora diante de toda a igreja: [...] somos culpados de não ter confessado de forma mais corajosa, de não ter orado de forma mais consciente, de não ter crido de modo mais jubiloso e de não ter amado de modo mais ardente.

A Declaração de Culpa de Stuttgart, como ficou conhecida, foi amplamente rejeitada na Alemanha assim que saiu a público, sendo considerada traição ao povo alemão e rendição às demandas dos ocupantes aliados. Ela, afinal de contas, trazia um doloroso “através de nós”, e ninguém estava disposto a admitir envolvimento direto com a máquina da morte. Cada sobrevivente de uma guerra que havia se mostrado custosa em todas as frentes podia elencar sua própria série de circunstâncias atenuantes: estavam protegendo suas famílias, estavam apenas sendo bons cidadãos, fizeram o que puderam mas estavam respeitando as leis de seu país, os russos também eram culpados de enormes atrocidades, e assim por diante.

Por outro lado os militantes da resistência, que haviam assumido impensáveis riscos pessoais durante o nazismo sem o apoio da igreja institucional, consideraram a Declaração de Culpa vaga e insuficiente. Só para citar um ponto fundamental, o documento não mencionava a fulgurante omissão da igreja na questão da exclusão e do extermínio dos judeus. Se reparações eram para ser feitas, alegavam os sobreviventes da resistência, todas as culpas e culpados deveriam ser trazidos à tona, por mais doloroso que fosse o processo. O sangue de mártires como Bonhoeffer exigia pelo menos essa hombridade tardia.

E, como observa Barnett, o que surgia na Alemanha de pós-guerra não era uma solidariedade de culpa, mas mais propriamente uma solidariedade de silêncio a respeito do passado recente. Os da maioria conservadora achavam que o país só voltaria a avançar se a mancha horrenda do nazismo fosse deixada de lado o mais cedo possível; incomodava-os ouvir a minoria radical, que insistia que não haveria verdadeiro progresso até que o passado fosse trazido publicamente à tona e publicamente tratado.

Nessa discordância inicial sobre a atribuição da culpa estava a semente de uma polarização que nos anos seguintes só iria se acentuar, mesmo entre os membros da Igreja Confessante. Os próprios cristãos que haviam concordado em se opor publicamente a Hitler, crendo que estavam nisso confessando a herança de Jesus, passaram a discordar muito gravemente a respeito de qual rumo a igreja deveria tomar agora que o regime havia caído.

De um lado postaram-se os conservadores, que criam que a fim de honrar o sacrifício da resistência a igreja deveria almejar uma completa “restauração” – isto é, um retorno à situação ideal que a nação e a igreja viviam antes da interrupção da guerra. Esses tradicionalistas abraçaram o discurso ocidental de democracia e “liberação”: ao mesmo tempo reassumiram o seu nacionalismo e se tornaram anticomunistas. Do outro lado, os militantes não-conformistas alegaram que havia sido muito claramente a própria posição conservadora da igreja a ter possibilitado impunemente os horrores de Hitler; o único modo da igreja honrar o legado da resistência seria lutar abertamente contra uma restauração nacionalista do status quo, mantendo sua postura de oposição mesmo no novo e confortável regime nacional financiado pelos aliados. Esses oposicionistas viam que a relação entre a guerra e o discurso nazista demonstrara além de qualquer dúvida que um retorno à tradição “pátria e família” era absolutamente impensável; tornaram-se antinacionalistas e pacifistas, e passaram a pender para a esquerda.

Para os conservadores, os não-conformistas estavam usando a igreja como plataforma de objetivos políticos (isto é, não-espirituais); para os não-conformistas, os conservadores estavam se rendendo a uma estrutura de poder que patrocinaria a seu tempo injustiças em tudo indistinguíveis às do nazismo. Agora que os mártires estavam mortos e não podiam advogar sua própria posição, quem podia dizer qual era a verdadeira herança da igreja que se opusera a Hitler? De que lado estavam os heróis2?

Como se não bastasse, a polarização ideológica entre tradicionalistas e radicais ficou logo dolorosamente ilustrada no mundo real. A Grande Guerra chegara ao fim, mas o país foi sequestrado internacionalmente para se tornar o ícone planetário de uma nova estirpe de guerra, a Guerra Fria, sendo fendida segundo os critérios ideológicos de seus ocupantes. Nasciam duas Alemanhas, a República Federal Alemã – ocidental, capitalista e anticomunista – e a República Democrática Alemã – soviética, comunista e anticapitalista. E, rasgada entre as duas, em termos ideológicos e geográficos, quedava a igreja evangélica alemã.

A divisão política da Alemanha garantiu, entre outras coisas, que o discurso interno da igreja, dos dois lados da fronteira (e logo dos dois lados do Muro) passasse a ser vivido e articulado exclusivamente a partir dessa polarização. Nenhuma das facções podia acreditar que o outro lado estava de alguma forma coadunando com o sistema: para os tradicionalistas, uma igreja comunista era uma contradição em termos3; para os não-conformistas, uma organização que se ajustasse confortavelmente a um sistema seletivo e opressor como o capitalismo era em tudo idêntica à igreja sob Hitler. Paralisada pelas limitações inerentes a esses discursos polarizadores, a igreja permaneceu durante décadas patinando entre direita e esquerda, inteiramente incapaz de sair do lugar.

Na narrativa de Barnett não há conversões nem redenção; conservadores morrem conservadores, militantes morrem militantes – cada um inteiramente incapaz de suportar a convivência mútua, cada um crendo que apenas o seu lado está sendo fiel à verdadeira vocação cristã e ao legado de oposição ao nazismo.

Os protagonistas dessa narrativa já abandonaram, em sua maioria, o palco dos acontecimentos e dos discursos, sendo que alguns morreram para pagar o preço de sua coerência interna, na esperança de poderem salvar o que para eles era futuro e que para nós é presente – mas suas conflagrações são também as nossas. De vez em quando sou lembrado, pessoalmente ou por e-mail, que cristão não deve ser de esquerda; eu mesmo, em contrapartida, posso passar horas explicando porque um cristão deveria se opor ao capitalismo. De um lado, os conservadores ainda proclamam aos quatro ventos que o ocidente defende os valores democráticos e portanto “cristãos”; por outro, os não-conformistas ainda intuem sem ruído o que afirmou Hans Iwand, militante da resistência alemã: “uma igreja confessante estará sempre na oposição, em todo partido, em todo sistema, em todo governo”. Os conservadores denunciam a teologia da libertação como lobo socialista em pele de cordeiro cristão, enquanto os esquerdistas condenam o capitalismo como abominação fascista mal ocultada. Quem está certo? Quem está realmente na oposição? Onde está o articulado questionador deste século? Quem é o verdadeiro promotor do reino?

Como enxergo a coisa, a história da igreja sob Hitler, bem como seus desdobramentos históricos, é capaz de acrescentar o que devem ser considerados novos fatores a essa discussão. Primeiro, deve ser capaz de estabelecer de uma vez por todas que a polarização entre esquerda e direita, na forma como a herdamos, é inteiramente condicionada; não apenas é um discurso que foi injetado externamente na tradição cristã, mas foi (e permanece sendo) utilizada por ambos os lados do espectro político como ferramenta de legitimação ideológica.

Segundo, é uma história que ilustra como o discurso político conduz invariavelmente à polarização – e a polarização, por sua vez, à paralisia (isto é, a omissão, e portanto o controle). O mal que o nazismo ocasionou não se restringe aos horrores literais do Reich, mas à divisão não menos literal a que o mundo foi submetido na mão dos vencedores. Esses venderam-nos a ideia de que um estava certo e o outro errado e, tendo gerado cada um o seu antagonista, garantiram a perpetuação de seus próprios sistemas. Com a queda do bloco soviético, o sistema sobrevivente procura incessantemente antagonistas que o legitimem – e faz isso porque absolutamente sabe que é só a polarização que pode salvar um discurso político. É vital que haja inimigos, por isso algumas vezes será necessário criá-los: Hitler sabia-o melhor do que ninguém. Enquanto permanecer politicamente útil, a polarização entre esquerda e direita continuará nos nossos lábios.

Finalmente, enxergo nessa narrativa um contraste trágico, inexcusável, entre as desventuras da igreja histórica e a posição apolítica de Jesus e dos primeiros cristãos – que, por sustentarem um modo de vida que ignorava faceiramente as soluções institucionais para “o problema da sociedade”, tornaram-se imediatamente ameaça aos discursos do sistema e a seus proponentes. Os primeiros cristãos sustentavam uma justiça que é intermediada através de indivíduos, não de instituições – e nessa postura estabeleciam um desconcertante reino que não é deste mundo.

E enquanto passamos a vida tentando determinar a posição de nossos antagonistas nos extremos do espectro político, mantemo-nos a salvo de assumir nós mesmos os riscos da verdadeira subversão cristã.

Porque, muito claramente, todas as culpas são coletivas, e uma consequência paradoxal disso é que só são concebíveis as bravuras individuais. Não existem soluções políticas, porque todas as soluções políticas são polarizadoras, e portanto paralisantes. O cristianismo que anuncia o fim de todos os governos faz isso demonstrando singelamente, na sua prática inargumentável, que qualquer discurso de redenção institucional é ilusório, servindo apenas de ferramenta aos poderes e potestades para nos manter sob o seu domínio. Como ensina o homem pregado na cruz e o sangue de todos os mártires, todas as bravuras são individuais. Arrepender-se é mudar o mundo a começar do nosso, e pecar é omitir-se.

A igreja e o Poder

  1. Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais
  2. A fissura do mundo: política, polarização e paralisia
NOTAS
  1. Como neste mundo nenhuma ironia se perde, mesmo oficiais nazistas de alto escalão esforçaram-se para obter o seu Persilscheine – certificado de isenção, – em alguns casos das próprias pessoas que haviam perseguido. []
  2. Barnett: “Membros de igreja que haviam criticado mais abertamente o regime nazista se mostraram posteriormente mais dispostos a criticar os governos de pós-guerra; aqueles que haviam se ajustado ao sistema durante o Terceiro Reich continuaram a fazê-lo depois de 1945″. []
  3. Num primeiro momento a igreja na Alemanha oriental não viu verdadeira incompatibilidade entre cristianismo e socialismo; ao contrário, enxergou no discurso coletivista uma possível alternativa à visão nacionalista de mundo que possibilitara a aberração nazista. Nas décadas que se seguiram, cerceada por um Estado cada vez mais totalitário, a igreja na Alemanha socialista manteve a vocação de oposição inaugurada pela Igreja Confessante, tornando-se catalisadora de protesto, resistência e desobediência civil até a capitulação do sistema. []
10 de Maio de 2010

A monarquia de Deus

História, Politica

E por certo quando trago à lembrança que nosso vitorioso imperador presta ele mesmo louvores a este Poderoso Soberano, faço bem em seguir o seu exemplo, sabendo como sei que somente a Ele devemos o poder imperial sob o qual vivemos. Os piedosos Césares, instruídos pela sabedoria de seu pai, reconhecem-No como a fonte de toda benção; o corpo militar, a entidade coletiva do povo, tanto no campo quanto nas cidades do império, juntamente com os governantes das diversas províncias, reunidos de acordo com o preceito de seu grande Salvador e Mestre, prestam-Lhe adoração. Em suma, toda a família da humanidade, de toda nação, tribo e língua, tanto coletivamente quanto em separado, por mais diversas que sejam suas opiniões a respeito de outras questões, são unânimes com respeito a essa única confissão; e, em obediência à razão implantada neles e ao impulso espontâneo e voluntário de suas próprias mentes, unem-se em invocar o único e Uno Deus.

E dessa forma o Todo-Poderoso Soberano confere um acréscimo tanto de anos quanto de filhos a nosso piedosíssimo imperador, e mantém ainda vigoroso e próspero seu domínio sobre as nações, como se estivesse agora mesmo brotando em seu vigor inicial. É Ele quem o nomeia para o presente festival, em que foi Ele quem o fez vitorioso sobre todo inimigo que perturbou a sua paz; é Ele quem o exibe à raça humana como genuíno exemplo de integridade.

E assim nosso imperador, como o radiante sol, ilumina os mais remotos súditos de seu império através da presença dos Césares, que agem como os distantes e penetrantes raios de seu próprio esplendor. Tendo ainda como que atado sob o mesmo jugo os quatro mais nobres dos Césares para servirem de corcéis da carruagem imperial, ele mesmo assenta-se exaltado e conduz o seu curso com as rédeas da sagrada harmonia e da concórdia; e, estando ele mesmo em todo o lugar e observando cada acontecimento, percorre dessa forma cada região do mundo.

Finalmente, investido como que com uma semelhança da soberania celeste, dirige para o alto o seu olhar, e modela seu governo terreno em conformidade com o padrão do original divino, sentindo solidez em sua conformidade à monarquia de Deus. «A democracia, que é o oposto da monarquia, pode ser descrita como anarquia e desordem.»E dentre todas as criaturas da terra essa conformidade é conferida pelo Soberano universal apenas ao homem; pois apenas Ele é o autor do poder soberano, que decreta que todos devem sujeitar-se ao governo de apenas um.

E sem dúvida a monarquia ultrapassa em muito a toda outra constituição e forma de governo; pois a igualdade de poder da democracia, que é seu oposto, pode ser mais exatamente descrita como anarquia e desordem. Por conseguinte há um único Deus, e não dois, três ou mais: pois afirmar uma pluralidade de deuses é negar por completo o ser de Deus. Há um único Soberano, e são uma sua Palavra e sua régia Lei.

E o próprio Deus, como penhor da recompensa futura, confere hoje [ao imperador] coroas tricenais compostas de prósperos períodos de tempo; e agora, transcorridas as revoluções de três ciclos de dez anos, concede a toda humanidade permissão de celebrar este festival global – mais do que isso, universal.

E enquanto regozijam-se estes na terra, como que coroados com as flores do conhecimento divino, não deve ser exagero supor que os coros celestiais, atraídos por simpatia natural, unam seu próprio júbilo ao júbilo destes na terra; não apenas isso, que o próprio Supremo Soberano, na qualidade de gracioso pai, deleite-se na adoração de filhos obedientes, e ache assim por bem honrar com um período estendido de tempo o autor e causa dessa sua obediência; e, longe de limitar seu reinado a três ciclos decenais, estenda-o ao período mais remoto, até mesmo à distante eternidade.

 

Eusébio de Cesaréia (239-339), trechos do Discurso em louvor de Constantino (336), proferido no trigésimo aniversário de seu reinado. Constantino morreu no ano seguinte.

Leia também:
Dê-me um monoteísmo e moverei o mundo
Pela alma do povo: Omissões coletivas e bravuras individuais


Imagem: peacay

28 de Abril de 2010

O fim de todos os governos

Manuscritos, Politica

O despojamento radical dos romeiros de Pentecostes deve ser encarado, finalmente, como a desconcertante manifestação política que é. O fim da política – isto é, o fim da fé na política – tem consequências políticas muito graves, e é precisamente esta profissão coletiva de independência que estamos presenciando aqui.

É lugar absolutamente comum mencionar-se este episódio como evidência de um precedente bíblico (e portanto cristão) para o socialismo, e é pelo menos tão comum refutá-lo. O argumento mais frequentemente levantado contra a factualidade dessa aliança explica que, ao contrário do que acontece no socialismo, na comunidade de Jerusalém os discípulos se desfaziam voluntariamente dos seus bens. Como se vê, trata-se do mais fraco e desleal dos argumentos, porque resolve ignorar que o despojamento de Pentecostes estabelece um projeto ainda mais idealista e exigente (e portanto, mais admirável) do que o projeto comunista. Parece, na verdade, sustentar blasfemamente que uma manifestação voluntária e irrestrita de coletivismo seria de alguma forma menos notável ou digna de imitação do que um coletivismo oferecido paliativamente através da instituição política. E resolve ignorar, de forma ainda mais cafajeste, a distância irreconciliável entre a postura coletivista dos discípulos de Pentecostes e o individualismo inextinguível requerido pela alternativa oficial ao socialismo, o capitalismo.

O despojamento de Pentecostes não deve ser considerado, de fato, precedente para o socialismo, mas não pela razão apontada pelos que não são de esquerda, de que há verdadeira incompatibilidade entre as duas posturas. A verdade é que a renúncia coletiva dos discípulos em Atos 2 é plataforma para um projeto político (ou talvez seja mais correto dizer apolítico) muito maior e mais ambicioso, sem precedentes e sem verdadeiros herdeiros ideológicos.

Diante desse projeto o socialismo permanece alternativa muito racional, muito cautelosa – muito política – e, portanto, insuficiente. Ao contrário do que sugerem incessantemente os seus antagonistas, nenhuma teoria importante do socialismo (e talvez um número ainda menor de aplicações práticas dessas teorias) pressupõe um coletivismo puro, em que tudo pertence a todos e a propriedade privada simplesmente não existe. Em termos estritos, a única propriedade não-privada postulada por um regime socialista é a dos meios de produção. O sonho socialista é de um mundo em que indústrias, máquinas e matéria-prima não sejam sequestradas por um ciclo seletivo de enriquecimento que é eternamente sustentado pelo trabalho de quem está abaixo de nós no organograma. Nesse mundo em que os meios de produção foram tornados coletivos, aquilo que antes eram lucros desfrutados por uns poucos torna-se magicamente poder de compra de que todos os envolvidos se beneficiam. As pessoas passam a trabalhar menos e ganhar mais, porque sustentam apenas a si mesmas e não o ocioso do andar de cima, e o que ganham pode ser usado para comprar mais e melhores produtos.

Trata-se, como se vê, de um plano simples e bem-intencionado, mas que os defensores do capitalismo tomam por especialmente injusto, visto que não premia com o mesmo deleite a iniciativa, o empreendedorismo e a criatividade. O capitalismo defende sem trégua a liberdade, e entende que liberdade é o indivíduo poder beneficiar-se impunemente da arbitrariedade da diferenciação. Toma por inerentemente verdadeiro que quem é mais inteligente, mais forte, mais batalhador e mais criativo deve ser premiado por essa sua condição, e o prêmio estabelecido pelo sistema é o direito de trabalhar menos e comprar mais. Os incompetentes, os ociosos, os idealistas e os sem instrução, esses a pedra de moer do capitalismo tratará automaticamente de eliminar e punir, atribuindo-lhes pouco ou nenhum poder de compra – isto é, valor nenhum. Segundo esse inabalável artigo de fé, liberdade é liberdade para angariar os benefícios de se encontrar em posição mais vantajosa; consequentemente, quem não tem vantagens para oferecer não terá liberdade de que desfrutar.

O curioso, como denunciado recentemente por insubmissos como Zizek, é que capitalismo e socialismo são doutrinas político-econômicas bem menos distintas entre si do que seus defensores gostam de pensar. O socialismo é em essência um capitalismo elevado ao patamar de utopia, um mundo de produtividade pura e excelsa não perturbada pelo embaraço do capital. A própria definição de socialismo, fundamentada no valor último dos “meios de produção”, acaba denunciando a obsessão (eminentemente capitalista) do socialismo com o consumo. Tanto para um quanto para outro a questão fundamental é produzir e consumir sem impedimento; só diferem quanto ao caminho para se atingir esse nirvana.

Quando se analisam dessa forma as distinções e semelhanças entre os dois sistemas, deve ficar claro que um sistema político (e portanto econômico) é invariavelmente um sistema de intermediação de justiça. Toda fé política sustenta, muito sensatamente, que o único modo de se garantir e exercer a justiça é pela mediação de uma instituição; discordam entre si apenas a respeito de qual é a receita institucional correta. Para o socialista, o sistema é justo porque ninguém pode ficar rico; para o capitalista, o sistema é justo porque qualquer um pode enriquecer. Ambos os projetos, portanto, estão fundamentados no medo coletivo da injustiça (medo da injustiça social, para o socialismo, e medo da injustiça pessoal, para o capitalismo) e no desejo condicionado pelo que o sistema toma como admirável (em ambos os casos, a produção e o consumo).

Não é apenas anacrônico, portanto, afirmar que as generosidades de Atos 2 e 3 prefiguram o socialismo, ou apontar que não necessariamente anulam o capitalismo. O despojamento coletivo dos discípulos de Pentecostes não confirma um sistema político ou econômico, mas faz precisamente o contrário: anula o mérito de toda solução política e alça o desafio da convivência a um nível embaraçosamente mais exigente, elevado ao ponto de uma rigorosa insensatez. Numa palavra, inaugura o Reino de Deus, em que a justiça não é intermediada por uma instituição, mas por pessoas.

Jesus já havia demonstrado, em sua aventura na terra, um saudável desrespeito pelas soluções institucionais – mas agora seu projeto alcança, pela primeira vez, uma face verdadeiramente coletiva. Seus novos discípulos são suas testemunhas porque afirmam na vida real o que o rabi de Nazaré sempre sustentou e sempre fez.

Quando se despojam do que os afastava uns dos outros, os membros-fundadores da comunidade do Reino estão anunciando aos quatro ventos que não se deixarão conduzir pelo medo da injustiça (que os levava a acumular) e pelo desejo condicionado (que os levava a adquirir). Anunciam, a quem estiver ali para ver, a notícia de que no reino revelado por Jesus a justiça deve ser, e na verdade só pode ser, administrada de uma pessoa a outra, e não por intermédio de uma instituição. Proclamam na vida real o que Jesus sempre assegurou, que no reino da generosidade divina não é preciso temer coisa alguma. Se Deus sustenta o menor dos pardais, o homem não deixará de sustentar o homem.

O Reino de Deus representa o fim de todos os governos porque descerra um domínio em que não é preciso temer a injustiça – não porque o sistema conta com mecanismos artificiais e soluções corretivas para garanti-la, mas porque ninguém está sozinho. Neste reino, marginais leigos levantam e curam os caídos que rejeitaram os bondosos de plantão, e um menino sem nome blasfema ao sugerir que seu lanche poderá fazer diferença para alimentar uma multidão; seus habitantes vendem o que possuem a fim de suprir o que falta ao mais desconhecido dos necessitados – e cada um desses faz soprar, a seu modo e em sua imprudência, o vento inédito de um mundo possível em que ninguém será deixado para trás.

O reino dele não é deste mundo, mas arrepender-se é transformar este mundo no dele. É minerar riqueza espiritual no reino de Deus que está dentro de nós e tirá-la para fora na forma de evidência da ação de Deus no mundo real. No processo tornam-se obsoletas tanto a política quanto a religião – mas nem uma nem a outra, ficará logo claro, entregará os pontos sem resistir.

29 de Julho de 2009

Anotações para um romance político

1984, Manuscritos, Politica, Sociedade

– Todos os sistemas com mais de um ou dois indivíduos – disse o homem de sobretudo – são auto-organizatórios.

– Isso quer dizer que todos os sistemas tendem a proteger o grupo em detrimento do indivíduo. Coloque cinqüenta desconhecidos num lugar confinado e em dois dias você terá facções, líderes, simpatias, lealdades, distribuição de tarefas, alvos, legislações e sistemas de governo: auto-organização. Em alguma medida o mesmo acontece com galinhas, macacos e paramécios. Os organismos se ordenam espontaneamente em superorganismos: rebanhos ou multidões.

– O problema com as multidões é que são forças da natureza. Ninguém pode controlá-las. Com uma pessoa você pode conversar, como estamos fazendo. Uma multidão você só pode aplacar.

– A presente ilusão requer que a democracia representa a vitória final dos direitos do indivíduo e do livre-arbítrio. O que ninguém parece ser capaz de enxergar é que a aplicação da democracia, mesmo na mais inocente das formas, conduz necessariamente à tirania do coletivo. Vivemos na ilusão de que ouvimos e louvamos a liberdade individual, mas somos conduzidos pelos caprichos da multidão.

– E quem foi mesmo que disse que a loucura é a exceção no indivíduo mas a regra na multidão? Nietzsche?

– Fato é que de nada serve a sobriedade individual, porque o tirano coletivo é guiado pelo inconsciente. A democracia é o governo de loucos, está vendo?

– A monarquia e o totalitarismo são arriscados, mas na democracia não resta nem ao menos a possibilidade de um rei sensato.

– Um exemplo da insensatez da multidão: se o capricho coletivo vigente é a segurança, o que acontece é que todos submetem-se voluntariamente à vigilância. Você não vê? A vigilância é tida como inaceitável num governo totalitário, na linha do 1984 de Orwell, mas as pessoas se sujeitam como cordeirinhos (como um rebanho!) a toda e qualquer invasão de privacidade quando se trata de obedecer aos caprichos do ditador coletivo.

– Todas as salas deste edifício são monitoradas por câmeras. Você vê? As pessoas pensam que são livres, mas são instrumentos da burrice coletiva.

– Não interessa quem está monitorando, e é essa a questão. Basta ser monitorado para ser diminuído. Monitorar é invadir. Vigilância é agressão.

– E essa entidade cega vai passando a exigir de nós concessões cada vez maiores, até que tenhamos aberto mão de cada um de nossos direitos. Até que as decisões coletivas sejam precisamente tão arbitrárias quanto as do mais caprichoso ditador.

– Em sua forma mais crua o roubo pode ser uma forma de se obter aquilo de que se precisa, mas para a inteligência coletiva roubar é errado, sem exceção. Porém a mesma multidão se deleita em que as imagens e palavras da televisão ofereçam continuamente às pessoas aquilo de que não precisam. O mundo já conheceu contradição maior? É evidente que essa obsessão aberta com o desnecessário é que sustenta o império de ladrões de ambos os lados da justiça.

– Freud foi capaz de prover um mito abrangente o bastante para controlar o indivíduo, mas com o trágico passamento de Deus deixou de existir um mito capaz de controlar os impulsos da multidão.

– E mesmo a herança de Freud, que associamos a uma valorização definitiva do indivíduo, serviu apenas para satisfazer as mais antigas vontades do superorganismo. Na maior parte do tempo, na história da civilização, os loucos andaram à solta, nas ruas e nas casas, promovendo a idéia subversiva de que a loucura pode ser uma forma de lucidez ou uma estranha alternativa à ela. O que fez a psicoterapia? Por um lado, confinou os loucos em recintos isolados, onde não podem encenar a sua subversão. Por outro, o que acontece àqueles dentro da massa coletiva que sentem-se hoje mais sutilmente desviados da norma? Esses buscam voluntariamente a intervenção de terapeutas, de modo a serem capazes de se conformar. Ou seja: os loucos são mantidos fora de cena e os candidatos a loucos estão sendo constantemente monitorados. Os desvios à norma permanecem onde a multidão, que abomina a dissensão e anseia apenas por conformidade, pode controlá-los e anulá-los por completo.

– Enquanto isso as pessoas distraem-se com a ilusão de que discordam sobre assuntos importantes – coisas como o aborto, a natureza do casamento, a guerra ou a pena de morte – e estão cegas para o fato de que concordam em absolutamente tudo. Vão todos para casa nos mesmos carros e trabalham todos para o mesmo fim; são ao mesmo tempo servos fidelíssimos e completos ignorantes daquele a quem estão servindo.

* * *

Acrescentar ainda:
Devemos ser mais sutis

03 de Junho de 2009

Devemos ser mais sutis

Manuscritos, Politica

– Minha idéia – disse o roteirista – é explorar uma espécie de diferente de totalitarismo. Algo insidioso e sutil, que evite por inteiro aqueles discursos dramáticos de ditador diante de uma multidão cega. A idéia na verdade é ocultar até o final a identidade do ditador.

– O problema é que todas as histórias de totalitarismo já foram contadas – observou o diretor, com cautela. – Nos nosso dias, depois da morte das ideologias, o público do ocidente desenvolveu um faro apuradíssimo para populistas e cafajestes. Quando o seu ditador começar a abrir as asinhas qualquer espectador será capaz de farejá-lo a quilômetros de distância.

– Hitler começou com alguma sutileza. Ele não aboliu as instituições imediatamente, mas criou organizações paralelas aparentemente inofensivas que acabaram engolindo as entidades oficiais.

– Hitler começou incendiando o edifício do Parlamento e anulando os direitos civis. Não há muito de sutil nisso.

– Devemos então ser mais sutis.

– Isso sem dúvida – o diretor puxou do bolso o maço de cigarros.

– Na Alemanha de Weimar a postura geral em relação à República era de desconfiança e ressentimento – disse o roteirista, inclinando-se para a frente. – As pessoas sentiam falta da segurança da monarquia e da autoridade unânime do Kaiser, e desconfiavam com a mesma intensidade da democracia que os vencedores lhes haviam aplicado goela abaixo. Eram gente acostumada a obedecer e venerar uma única figura carismática, e puderam assim sem qualquer trâmite abraçar a retórica de Hitler.

– Precisamente – o diretor puxou um cigarro, segurou entre os dedos e passou a batê-lo gentilmente na superfície da mesa. – Hoje em dia vivemos no extremo oposto do espectro. O que os alemães de Weimar desconfiavam da democracia, nós desconfiamos do totalitarismo.

– A não ser que, como na Alemanha de entre as guerras, as circunstâncias encontrem o ditador certo.

– Não, não. Tarimbados como estamos, nem mesmo a crise atual bastará para cairmos na armadilha de um Mussolini. Os direitos civis são agora religião, a única coisa sagrada que resta. O sujeito que quiser aboli-los será o primeiro a ser abolido. Fale uma palavra contra a democracia nesse seu roteiro, e você vai ver.

– E faz sentido que tenhamos criado esses mecanismos, porque historicamente foram as ações populares que restauraram periodicamente o equilíbrio de sistemas e governos doentios. Pense na Revolução Francesa, nas revoltas pela abolição…

– A própria Resistência – o diretor acendeu o cigarro e puxou uma tragada solene.

– Exato. As ações populares servem para equilibrar os governos, mas este é um processo cujos extremos não conhecemos. Imagine um mundo em que a participação dos cidadãos torne-se tão pulverizada que passe a reverter os pratos da balança.

– Não estou entendendo – o diretor reclinou-se para trás, equilibrando no encosto da cadeira o braço do qual pendia o cigarro. – De que mundo estamos falando?

– Imagine um mundo – prosseguiu o roteirista – em que o cidadão espere que o respeito que lhe prestam não seja um bem a ser adquirido pela sua postura pessoal, mas um serviço dos outros que cabe ao governo fazer cumprir. Um mundo em que a proliferação de direitos individuais acabe cerceando o bem comum, ao invés de promovê-lo.

Uma ruga de compreensão e assombro formou-se na testa do diretor.

– Num mundo assim – ele disse, – os pais processam a polícia pelos delitos dos filhos.

– Isso mesmo – celebrou o roteirista. – Uma sociedade litigiosa. Numa sociedade dessa natureza todos se tornam delatores potenciais de todos, precisamente como, digamos, no totalitarismo soviético. A diferença é que o que motivava um delator soviético era o fato de que todos os direitos haviam sido subtraídos de todos; numa sociedade litigiosa o que motiva o delator é que todos os direitos foram outorgados a todos. O negativo é agora positivo.

– E portanto mais atraente.

– E portanto irresistível. A vigilância é onipresente, não porque o governo está em todo lugar, mas porque o povo está.

– Se o meu direito termina onde começa o direito do outro – o diretor apagou o cigarro no canto da mesa, – onde há apenas direitos todos são plenamente cerceados por eles. Nada acontece.

– Nada acontece que não seja potencialmente litigioso – corrigiu o roteirista. – Ou seja, todos apelam continuamente para que o governo garanta os seus direitos.

– E o papel do povo numa democracia, que era policiar os excessos do governo, é revertido. O governo se vê obrigado a julgar os excessos do povo.

O roteirista recusou-se a acrescentar alguma coisa.

– Meu Deus – disse o diretor, puxando novamente o maço de cigarros do bolso.

– Precisamente – disse o roteirista.