Manuscritos estocados sob a rubrica 'Pense comigo'
06 de Setembro de 2008

As pérolas do Enem e os que usam-nas como colares

Brasil

Recebo pela enésima vez a edição [talvez] mais recente da relação de respostas oficialmente escandalosas coletadas no exame do Enem. A recomendação breve: se você se considera uma pessoa inteligente, ou quer pelo menos dar essa impressão, faça um favor a você mesmo, e não só a mim, e nunca mais encaminhe um email dessa natureza a quem quer que seja. Segue a resposta longa.

Primeiro, se tem acesso à internet e tempo livre para encaminhar mensagens que não escreveu, está imediatamente demonstrado que você respira na rala camada mais privilegiada de um país que tem uma das distribuções de renda mais espetacularmente desiguais do planeta, o que deveria bastar para você ficar muito quietinho no seu canto, e para sempre. Segundo, se você se acha pessoa tão notável, culta e articulada, deveria estar usando os seus recursos para reverter a crise do sistema educacional, ou quem sabe canalizando a sua criatividade para cobrir o espaço da nulidade da nossa produção cultural. Terceiro, se acha realmente engraçado dar risada das mancadas homéricas de quem você acredita ser menos notável do que sua própria pessoa, você é patife muitas vezes mais condenável e perigoso do que os ignorantes de quem está zombando. Conforme adverte a pérola atribuída (talvez ignorantemente) a Diderot, a ignorância está mais perto da verdade do que o preconceito.

Pegue a sua relação de pérolas do Enem e esconda na lixeira da sua consciência, ao invés de ficar usando como colar. A verdadeira demonstração da falência do país não está nos alunos despreparados que deitam respostas absurdas nos exames do Enem, mas nos esclarecidos que remetem-nas uns aos outros na forma de congratulações. Vão à merda. Ou, para ser mais geograficamente preciso, não saiam daí.

05 de Julho de 2008

O Senado está olhando por você

1984

Mais uma sessão do Senado, mais uma profecia dos Irmãos Comédia que se mostra inteiramente acurada. Bem-vindo à má ficção da vida real.

24 de junho

Na última semana, em uma sessão corrida e esvaziada, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o projeto de lei (PLC) 89/03 que define quais serão as condutas criminosas na Internet.

Com base no artigo 22 do PLC 89/03, os provedores de acesso deverão arquivar os dados de “endereçamento eletrônico” de seus usuários. Terão que guardar os endereços de todos os tipos de fluxos, inclusive a voz sobre IP, as imagens e os registros de chats e mensagerias instantâneas, tais como google talk e msn.

O pior. A lei implanta o regime da desconfiança permanente. Exige que todo o provedor seja responsável pelo fluxo de seus usuários. Implanta o “provedor dedo-duro”. No inciso III do mesmo artigo 22, o PLC 89/03 exige que os provedores informem, de maneira sigilosa, à polícia os “indícios da prática de crime sujeito a acionamento penal público”. Ou seja, se o provedor identificar um jovem “baixando” um arquivo em uma rede P2P, imediatamente terá que abrir os pacotes do jovem, pois o arquivo pode ser um MP3 sem licença de copyright. Mas, e se ao observar o pacote de dados reconhecer que o MP3 se tratava de uma música liberada em creative commons? O PLC implanta uma absurda e inconstitucional violação do direito à privacidade. Impõe uma situação de vigilantismo inaceitável.

27 de junho

O PROJETO DO SENADOR AZEREDO VISA FUNDAMENTALMENTE:

1- proibir o compartilhamento de arquivos via BitTorrent (… ” transporta ou fornece dado ou informação obtida nas mesmas circunstâncias”)

2- criminalizar o download, a cópia e o envio de vídeos no Youtube que não estejam com as licenças claramente definidas (… “Se o dado ou informação obtida desautorizadamente é fornecida a terceiros pela rede de computadores…a pena é aumentada de um terço”)

3- impedir o transporte de músicas e arquivos MP3 em i-pod (… “nas mesmas penas incorre quem mantém consigo, transporta ou fornece dado”)

4- definir como crime o arquivamento de filmes que passam na TV (pois a TV digital e o setup box são “os instrumentos de armazenamento de dados eletrônicos ou similares, os instrumentos de captura de dados”)

5- tornar um ato criminoso o fato de copiar e scanear livros e papers para o seu computador, pen-drive, sem autorização do autor, mesmo que seja para uso próprio (…”sem autorização do legítimo titular”)

6- incentivar a prisão de quem baixa games e aplicativos shareware e os utiliza além do prazo definido pelo vendedor (…”desses se utiliza além do prazo definido ou autorizado”)

7- inibir e transformar em criminoso quem cede o sinal da TV a cabo de sua sala para o quarto do seu irmão ou vizinho (”…conversores de sinais de rádio ou televisão digital ou qualquer outro meio capaz de processar, armazenar, capturar ou transmitir dados utilizando-se de tecnologias magnéticas, óticas ou qualquer outra tecnologia eletrônica ou digital similar”)

8- transformar milhares de blogueiros que baixam imagens disponíveis na web, com ou sem mudanças em Gimp ou outro software de desenho vetorial, em criminosos. Para Azeredo, quebrar a jenela de um carro para roubar um Toca-CD e copiar uma imagem no Flickr sem consultar o autor deve receber tratamento similar.

Trata-se da implantação de uma sociedade da vigilância e do medo. É um projeto que nasce da mentalidade autoritária que irá igualar o Brasil ao despotismo chinês.

Tem coisas que só o Senado faz por você.

Mais no blog do sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira e na análise sóbria do pessoal da NovaCorja.org.

23 de Junho de 2008

A falácia do sucesso

Goiabas Roubadas, Sociedade

Tem surgido no nosso tempo uma classe particular de livros e de artigos que penso de forma sincera e solene podem ser chamados dos mais imbecis conhecidos entre os homens. Trata-se de coisa muito mais extravagante do que os mais extravagantes romances de cavalaria e muito mais maçante do que os mais maçantes tratados religiosos. Além disso os romances de cavalaria eram, pelo menos, sobre cavalaria, e os tratados religiosos sobre religião. Essas coisas, no entanto, são sobre coisa alguma; são sobre o que se chama sucesso.

Em cada estante e em cada revista você encontra obras ensinando às pessoas como serem bem sucedidas. São livros que mostram às pessoas como obter sucesso em tudo, e são escritos por gente incapaz de sucesso até mesmo na sua pretensão de escrever livros.

Para começar não existe, naturalmente, essa coisa chamada sucesso. Ou, se você quiser colocar a coisa dessa forma, não há nada que não seja bem-sucedido. Que uma coisa seja bem-sucedida quer dizer apenas que ela é; um milionário é bem sucedido em ser um milionário e um jumento é bem sucedido em ser um jumento. Todo homem vivo tem tido sucesso em manter-se vivo, e qualquer homem morto pode ter tido sucesso em cometer suicídio. Porém, se ignorarmos a má lógica e a má filosofia do conceito, podemos tomá-lo, como fazem esses autores, no sentido usual de sucesso em ganhar dinheiro ou posição social.

Esses autores alegam ensinar ao leitor comum como obter sucesso em seu ofício ou ramo de atividade – como, se ele é construtor, ter sucesso como construtor; como, se é corretor da bolsa, ter sucesso como corretor da bolsa. Afirmam mostrar a ele como, se é dono de mercearia, pode tornar-se um iatista profissional; como, se é um jornalista de décima categoria, pode tornar-se um aristocrata; como, se é um judeu alemão, pode tornar-se anglo-saxão.

Isso eles propõem de forma definida e metódica, e penso que as pessoas que compram esses livros (se é que alguém os compra) tenham o direito moral, se não legal, de exigirem o seu dinheiro de volta. Ninguém ousaria publicar um livro sobre eletricidade que não contivesse literalmente coisa alguma sobre eletricidade; ninguém ousaria publicar um artigo sobre botânica que mostrasse que o autor desconhece qual extremidade da planta cresce dentro da terra. No entanto nosso mundo está repleto de livros sobre sucesso e sobre gente bem sucedida que não contém nenhum tipo de idéia e praticamente nenhum tipo de coerência verbal.

Deveria parecer perfeitamente óbvio que em qualquer ocupação decente (como por exemplo, a construção de muros ou a autoria de livros) há apenas dois modos de ser bem sucedido. O primeiro é fazendo-se um bom trabalho, o segundo é trapaceando. Ambos são simples demais para requererem qualquer explicação literária. Se o seu negócio for salto em altura, ou você salta mais alto do que qualquer outra pessoa ou consegue de alguma forma fingir que conseguiu. Se você quer ter sucesso como jogador de bridge, ou você aprende a ser um bom jogador de bridge ou joga com cartas marcadas. Você pode recorrer a um livro sobre salto em altura, a um livro sobre bridge ou um livro sobre como trapacear no bridge. Mas você não vai querer recorrer a um livro sobre sucesso – especialmente um livro sobre sucesso como os que você encontra espalhados às centenas no mercado editorial. Você pode querer saltar ou jogar cartas, mas não vai querer ficar lendo declarações obtusas do tipo “saltar é saltar”, ou “jogos são vencidos por vencedores”.

Se esses autores fossem, por exemplo, dizer alguma coisa sobre o sucesso no salto em altura, soaria mais ou menos assim: “O competidor de salto deve ter um objetivo claro diante de si. Deve desejar de forma muito definida saltar mais alto do que todos os outros atletas na mesma competição. Não deve deixar que frívolos sentimentos de compaixão o impeçam de dar o melhor de si. Deve ter em mente que uma competição de salto é essencialmente competitiva e que, como demonstrado gloriosamente por Darwin, OS MAIS FRACOS IRÃO PARA O MURO DE FUZILAMENTO”. É esse o tipo de coisa que o livro diria, e muito útil seria, sem dúvida, se lida por uma voz grave e tensa a um jovem logo antes de empreender o seu salto.

Supondo que no curso de suas divagações intelectuais o filósofo do sucesso acabasse examinando nosso outro caso, o do jogador de cartas, sua estimulante recomendação seria: “No ato de jogar cartas é inteiramente necessário evitar o erro comum de permitir que seu adversário vença o jogo. Você deve ter garra e coragem, e entrar para ganhar. Os dias de idealismo e de superstição terminaram. Vivemos numa época de ciência e de senso comum, e já foi definitivamente provado que em qualquer jogo onde dois competem, SE UM NÃO VENCER, É O OUTRO QUE VENCE”. Tudo muito empolgante, naturalmente, mas confesso que se fosse jogar cartas daria preferência a um livrinho decente que me ensinasse as regras do jogo. Para além das regras do jogo é tudo uma questão de talento ou desonestidade.

Folheando uma revista muito popular encontro um exemplo ao mesmo tempo estranho e cômico. Trata-se de um artigo intitulado “O instinto que faz as pessoas enriquecerem”, decorado com um retrato formidável de Lord Rothschild. É fato que existem muitos métodos definidos, tanto honestos quanto desonestos, de enriquecer, mas que eu saiba o único “instinto” capaz dessa façanha é o instinto que a teologia cristã descreve grosseiramente como “o pecado da ganância”. Isso, no entanto, não vem ao ponto. Quero citar os impagáveis parágrafos que seguem como exemplo típico do conteúdo dos livros que falam sobre como se alcançar o sucesso. São sempre muito práticos, e deixam pouca dúvida sobre qual deverá ser o passo seguinte:

O nome Vanderbilt é sinônimo de riqueza no mundo empresarial contemporâneo. Cornelius Vanderbilt, fundador da família, foi o primeiro dos grandes magnatas do comércio norte-americano, tendo começado como o filho de um fazendeiro pobre e terminado como multimilionário.

Cornelius possuía o instinto de fazer dinheiro. Ele agarrava suas oportunidades, oportunidades que no seu caso surgiram com aplicação da máquina a vapor no comércio oceânico e com o desenvolvimento do transporte ferroviário num rico mais ainda subdesenvolvido Estados Unidos da América. Conseqüentemente, acumulou uma enorme fortuna.

É evidente que hoje em dia não podemos todos seguir precisamente os mesmos passos tomados por este monarca das ferrovias. As oportunidades muito precisas concedidas a ele não aplicam-se a nós. Porém, embora não seja dessa mesma forma, podemos ainda assim, em nossa própria esfera de circunstâncias, seguir seus métodos gerais. Podemos agarrar as oportunidades que nos são concedidas, dando a nós mesmos uma chance muito real de obtermos riqueza.

É em declarações bizarras como essas que podemos ver com clareza o que está realmente por trás de todos os artigos e livros dessa natureza. Não se trata de mero negócio; não se trata nem mesmo de mero cinismo. Trata-se de misticismo, o horrendo misticismo do dinheiro. O autor dessa passagem não tem na verdade a mínima idéia de como Vanderbilt fazia o seu dinheiro, ou de como qualquer outra pessoa pode fazer o seu. Ele, porém, conclui suas observações defendendo um programa; e é um programa que não tem absolutamente nada a ver com Vanderbilt.

Tudo que o autor tencionava fazer era prostar-se diante do mistério de um multimilionário. Pois, quando queremos prestar verdadeira adoração a alguma coisa, amamos não apenas sua clareza, mas também sua obscuridade. Exultamos na sua invisibilidade. Assim, por exemplo, um homem apaixonado por uma mulher encontra prazer particular no fato de que as mulheres sejam incompreensíveis. Da mesma forma o poeta piedoso, ao celebrar o Criador, encontra prazer em afirmar que Deus age de modos misteriosos.

Ora, o autor dos parágrafos que citei não parece ter coisa alguma a ver com um deus, e não vejo qualquer evidência (diante da impraticabilidade de suas recomendações) de que já tenha se apaixonado de verdade por uma mulher. Mas a coisa que ele sem dúvida alguma venera – Vanderbilt – ele trata precisamente dessa maneira mística, deleitando-se no fato de que sua divindade Vanderbilt guarde dele algum segredo. E sua alma enche-se de uma espécie de arrebatamento de astúcia, um êxtase de clericalismo, quando ele finge estar revelando à multidão o terrível segredo que ele mesmo desconhece.

Falando do instinto que enriquece as pessoas, o mesmo autor observa:

Na Antiguidade a existência desse instinto era compreendida por completo. Os gregos reverenciavam a história de Midas, o homem que transformava em ouro tudo que tocava. Sua vida era um constante avanço em meio às riquezas: de tudo que aparecia no seu caminho ele criava o metal precioso. “Uma lenda tola”, diziam os sabichões da era vitoriana; “uma verdade”, dizemos hoje em dia.

Todos conhecemos homens como esse. Estamos constantemente encontrando ou lendo sobre gente que transforma em ouro tudo que toca. Cada passo dessas pessoas é marcado por sucesso. Suas vidas são uma trajetória infalível de ascensão. São incapazes de fracassar.

Infelizmente, no entanto, Midas era capaz de fracassar – e fracassou. Sua vida não foi uma trajetória infalível de ascensão. Midas morreu de fome porque quando tocava um biscoito ou um sanduíche de presunto eles se transformavam em ouro. Essa é na verdade a moral da história, embora o autor se veja obrigado a suprimi-lo, delicadamente, por completo – talvez por estar escrevendo tão perto do retrato de Lord Rotschild.

As velhas fábulas da humanidade são, de fato, insondavelmente sábias, mas não devemos ter parte do seu conteúdo expurgado a fim de proteger os interesses do Sr. Vanderbilt. Não devemos engolir o rei Midas sendo representado como exemplo de sucesso, quando foi um fracasso de natureza particularmente dolorosa. E tinha, além disso, orelhas de burro. E conseguia, além disso (e como muitas outras pessoas famosas e abastadas) esconder dos outros essa condição. Se bem recordo era apenas o seu barbeiro que tinha acesso ao conhecimento dessa peculiaridade; e esse barbeiro, ao invés de agir como o tipo de pessoa que persegue o Sucesso-a-todo-custo e chatangear o rei em troca do seu silêncio, foi e sussurrou esse escabroso escândalo da sociedade nas orelhas dos juncos, que deleitaram-se enormemente em sabê-lo. Conta-se que os juncos repassaram-no então aos ventos que os embalavam para frente e para trás.

Olho com reverência para o retrato de Lord Rothschild; leio com reverência sobre as façanhas do Sr. Vanderbilt. Sei que sou incapaz de transformar em ouro tudo em que toco; porém sei também que nunca tentei, tendo uma preferência pessoal por outras substâncias, coisas como grama e um bom vinho. Sei que essas pessoas sem dúvida obtiveram sucesso em alguma coisa; sei que sem dúvida sobrepularam alguém; sei que são reis num sentido em que nenhum rei jamais foi antes deles; sei que criam mercados e cavalgam continentes. Porém parece-me sempre que há algum pequeno fato doméstico que vivem escondendo, e penso por vezes ouvir no vento a gargalhada e o sussurro dos juncos.

Tudo que podemos esperar é viver o bastante para vermos esses absurdos livros sobre sucesso cobertos com o escárnio e o abandono que lhes cabe. Não ensinam as pessoas a serem bem-sucedidas, mas ensinam-nas a serem esnobes; conseguem alastrar uma espécie de poesia maligna de materialismo.

Os puritanos denunciam continuamente livros que inflamam a lascívia. O que deveríamos dizer dos livros que inflamam as paixões (mais vis) da ganância e do orgulho?

Há cem anos tínhamos o ideal do Aprendiz Esforçado. Dizia-se aos meninos que com frugalidade e empreendedorismo podiam chegar todos a Senhores da Nobreza. Era mentira, mas era uma mentira viril, e possuía um mínimo de verdade moral. Em nossa sociedade a temperança não irá ajudar um pobre a enriquecer, mas poderá ajudá-lo a olhar para si mesmo com respeito. Um bom trabalho não fará dele um homem rico, mas um bom trabalho fará dele um bom trabalhador. O Aprendiz Esforçado surgiu de virtudes que eram escassas e estreitas, mas ainda assim virtudes. Mas o que dizer do evangelho pregado ao novo Aprendiz Esforçado – o aprendiz que não ascende por meio de suas virtudes, mas declaradamente através de seus vícios?

G. K. Chesterton
All Things Considered (1909)

Leia também:
O culto da performance

01 de Junho de 2008

Em cores

The Net

Ricardo Oliveira, jornalista de cultura e Irmão Comédia, em sua passagem pelo Monastério semana passada.

 

19 de Maio de 2008

O livro dos mártires

História, Quase Ciência

Do século dezesseis até meados do século dezessete os médicos com formação universitária recebiam treinamento puramente teórico nos princípios da fisiologia humoral conforme delineada nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Eram ensinados que a doença era resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O diagnóstico consistia em estabelecer qual desses humores encontrava-se em desacordo, e a terapia em tomar-se passos a fim de restaurar o equilíbrio, quer por sangria (por secção da veia, escarificação ou aplicação de sanguessugas) ou sujeitando o paciente a uma série de limpezas intestinais e purgantes. O médico seguia dessa forma uma deprimente rotina de sangrias e purgações, juntamente com a prescrição de emplastros, ungüentos e poções. A urina do paciente era tida como o melhor indicador da sua condição, e havia profissionais que criam que bastava ver a urina sem ver o paciente.

Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos.

Não havia raios-X nem estetoscópios, e os médicos normalmente ignoravam por completo o que se passava no corpo da pessoa enferma. Havia cirurgiões especializados em tumores, úlceras, fraturas e doenças venéreas, mas sua arte era considerada inferior pela classe médica. Além disso, sem anestésicos e sem o conhecimento de antissépticos, havia pouco que esses pudessem fazer. As cirurgias eram em grande parte limitadas a amputações, trepanações do crânio, remoção aberta de pedras urinárias, reposicionamente de ossos e incisão de abcessos. Compreensivelmente, os pacientes viam com terror a perspectiva desse tipo de tortura, e a taxa de mortalidade depois dessas operações era elevada. O Severall Chirurgicall Treatises (1676) de Richard Wiseman era conhecido popularmente como “O Livro dos Mártires de Wiseman”.

Mesmo entre a nobreza, cujas chances eram provavelmente maiores do que as de qualquer outra classe, a expectativa de vida para meninos nascidos no terceiro quarto do século dezessete era de 29,6 anos (hoje seria ao redor de 70). Um terço dessas crianças da aristocracia morria antes de atingir os cinco anos de idade, sendo que o nível de mortalidade dos que chegavam à idade adulta lembrava de perto o da Índia na última década do século dezenove. O primeiro demógrafo inglês, John Graunt, estimava em 1662 que a cada cem crianças nascidas em Londres, trinta e seis morriam nos seus primeiros seis anos, e mais vinte e quatro nos dez anos seguintes.

Quanto a hospitais, o St. Bartholomew e o St. Thomas eram os dois únicos disponíveis para os fisicamente enfermos em Londres no final do século dezessete, e havia pouquíssimos em outros lugares. E eram de qualquer modo direcionados primariamente para os pobres. Nenhuma pessoa com alguma pretensão social sonharia em colocar o pé num hospital como paciente, e se o fizesse estaria certamente aumentando suas chances de contrair alguma infecção fatal.

Certas formas de doença mental eram consideradas casos de melancolia a serem tratados com purgações e sangrias, ou erroneamente diagnosticadas como “histeria” ocasionada por uma determinada condição do útero. A noção da origem uterina de doenças nervosas não foi desafiada com sucesso na Inglaterra até fins do século dezessete, quando Thomas Willis formulou a teoria da origem cerebral da histeria, tornando-se pioneiro da ciência da neurologia.

Na Inglaterra daqueles séculos as pessoas estavam inteiramente habituadas à doença e à baixa expectativa de vida. Os pais demoravam-se para reconhecer a individualidade dos filhos, sabendo muito bem que podiam perdê-los ainda na infância. Maridos e esposas viviam bem ajustados à idéia de que o cônjuge que sobrevivesse poderia se casar depois da morte do outro. A atitude dos pobres diante de sua sorte parece ter sido freqüentemente de distanciado estoicismo. Ao contrário dos habitantes dos países subdesenvolvidos nos nossos dias, eles não conheciam países estrangeiros em que o padrão de vida fosse consideravelmente mais elevado. Ao invés de lutarem por reforma social, os pobres com freqüência recorriam a métodos mais diretos de liberação.

A cerveja era ingrediente fundamental da dieta de todos, tanto de crianças quanto adultos [. . .]

Keith Thomas, Religion and the Decline of Magic (1971)