Manuscritos estocados sob a rubrica 'Nostalgia'
11 de Agosto de 2006

A bem-aventurança do creme amarelo, ou o padeiro que vinha do céu

Família, Nostalgia

A última das três casas em que moramos em Londrina, na rua Mamoré, era muito simples mas era nossa – nossa primeira casa própria. Eu tinha perto de dez anos, jogava futebol todas as tardes na rua de baixo, beijava a vizinha de cinco anos na boca pela fresta da grade (a Renata, onde quer que esteja, fazendo terapia por minha causa), observava as batalhas aéreas dos que soltavam pipa no campinho e, quando tudo isso faltava, desembainhava um volume aleatório da enciclopédia Conhecer e sentava no sofá que ainda hoje assombra a sala da casa dos meus pais. Era uma vida justa.

Mas tinha seus momentos de especial epifania, quando descia a rua, vinda da Araguaia, uma carroça guiada por um santo, puxada por um Rocinante e seguida por procissões de quebrantados fiéis que éramos nós. O carroceiro segurava as rédeas numa mão e usava a outra para abrir a tampa do baú de madeira atrás de si e nos tentar com as cintilantes moedas do seu tesouro: pilhas douradas de pães arredondados, perfumados, açucarados e macios, coroados com uma espiral grossa de creme amarelo – aquele tipo de pão que já vi chamarem de chineque e brioche, mas que chamávamos com menos controvérsia de pão doce.

Em casa estávamos, como eu ia dizendo, longe de sermos ricos, e a rígida filiação de meus pais à ética protestante impedia que caísse nas mãos de nós, filhos, qualquer dinheiro que pudéssemos gastar “com bobagem”. Na prática isso significava que nunca – jamais, senhoras e senhores – levávamos dinheiro para comprar lanche na escola; que nunca abrilhantávamos a fila do pátio com o mais novo modelo de tênis ou os cadernos da moda; e – no que me diz respeito muito mais sério – que não lembro ter experimentado uma única vez aqueles bem-aventurados pães-doces nos anos em que moramos naquela rua.

A centrada economia de meus pais, por outro lado, permitia que convivêssemos com engenhos com que o pessoal da rua nem sequer sonharia: TV em cores, telejogo, microscópio, máquina fotográfica Minolta, telescópio desmontável, um número obsceno e sempre crescente de enciclopédias e livros. Esse tipo de bobagem.

Não se pode ter tudo. Sempre fui um cara mais ou menos frugal, e meus sonhos de consumo naqueles dias eram um pão doce do tio da carroça e o exemplar seguinte da coleção Os Bichos. Meu pai nunca – jamais, senhoras e senhores – deixou faltar o segundo. Meus amigos da rua tinham os dois ou três pães doces que as mães deles levavam para casa; eu examinava uma movimentada gota d’água no microscópio da Alice. Difícil dizer quem se saciava mais.

Fato é que data daquela época minha fascinação, meu absoluto delírio, por broas e pães doces, especialmente aqueles cuja configuração me remete à rua Mamoré e ao padeiro que vinha do céu. Sei por essa razão, de fonte fidedigna, que o Paraíso é terra que mana creme amarelo – e falo daqueles cremes de um amarelo vivo, absolutamente não-sofisticado, que se alinham com freqüência a farpas de coco e vomitam às vezes os sonhos.

29 de Junho de 2006

Bôa noite

Nostalgia

Quem nunca se demorou no mato talvez não tenha sido exposto ao inesquecível aroma catinga dessas espirais que se usa queimar no sítio para repelir mosquito. Comprei uma caixinha no supermercado Santa Helena aqui em Campina Grande do Sul, absolutamente fascinado pela honestidade singeleza das ilustrações.

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21 de Junho de 2006

O Fim da National Geographic

Nostalgia, Sociedade

Faz meses que tento escrever sobre isso, mas trata-se de assunto para mim tão aterrador que não encontro o jeito de criar o impacto certo.

Quero apenas mencionar, então, um momento concebível do futuro que me apavora: o fim da revista National Geographic.

A revista, carro-chefe das atividades da norte-americana National Geographic Society e também editada em português, circula desde 1888, mas num mundo pós-Google Earth não tem como subsistir indefinidamente dentro dos moldes originais. Quando todos os destinos do planeta se esgotarem, quando todas as culturas e distinções locais forem engolfadas pelo tsunami civilizatório do ocidente, quando não houver mais local que mereça o nome de inóspito, a revista dos bravos exploradores deixará de existir. Então horror será universal, e os homens pedirão que as montanhas desabem sobre as suas cabeças.

E, na eventualidade de continuar a ser publicada nesse mundo esgotado, a revista terá perdido a razão de ser, o que me parece destino ainda pior.

Posso encontrar talvez algum consolo em saber que Tolkien sentia-se como eu já em 1943:

Mas o horror particular do presente mundo jaz em que a porcaria toda está dentro de um saco só. Não há lugar algum para onde fugir. Mesmo os pobres samoiedos [siberianos], suspeito, comem comida em lata e o alto-falante da vila conta histórias pra dormir de Stalin, sobre a democracia ou sobre fascistas que comem bebês e cães-de-trenó.

Pode ser ainda necessário refletir que a porcaria toda estava dentro de um saco só já em 1888, quando a revista foi criada. A diferença em relação aos nossos dias é de intensidade, não de visão de mundo prevalente. As niveladoras tendências de massificação e descaracterização já estavam nitidamente presentes. E alguém poderá até argumentar, com algum fundamento, que iniciativas como as da própria National Geographic Society acabaram contribuindo para o sepultamento final da diversidade nesta terra plana e indiferenciada.

Michael Crichton estava bem certo quando profetizou, numas [das poucas] linhas memoráveis do seu A Linha do Tempo, que num mundo saturado e superlotado como o nosso o único destino concebível é o passado.

O que explica em parte toda a remixagem.

14 de Maio de 2006

Geografia cinematográfica curitibana

Nostalgia

Finalmente aconteceu, e até que demorou.

Estou finalmente na exata condição do meu pai, e todos os cinemas de Curitiba que lembro da infância e da adolescência estão fechados. O Cine Plaza, o último cinema de rua da cidade ainda em funcionamento, e que vinha capengando admiravelmente há anos diante da concorrência implacável de shoppings e home theaters, fechou nesta quinta-feira por por falta de pagamento – de energia elétrica, de funcionários, de distribuidoras.

* * *

Eu tinha onze anos quando, em 1979, nos mudamos de Londrina para Bauru – cidade no exato centro do estado se São Paulo e em que, para meu horror e eterno escândalo, não havia na época nenhuma sala de cinema. Tive que restringir minhas idas ao cinema às nossas eventuais viagens de férias e finais de semana a Curitiba, para onde vieram estudar a Isa e depois a Alice. Tinha de ser portanto coisa muito bem planejada, e estamos falando de um tempo antes de recursos como o 139 e do Bom Programa – para não falar da inimaginável internet.

Embora seja [e permaneça!] minha cidade natal, eu havia me mudado de Curitiba para Londrina com menos de dois anos de idade, e nada sabia sobre a geografia da cidade.

Uma das coisas que define e entrelaça meu amor por filmes e por Curitiba é, portanto, o fato de ter aprendido a geografia do centro através dos mapas que minha irmã Isa fazia ilustrando o caminho que eu devia tomar para chegar da ponto final do Cajuru na Praça Carlos Gomes até o cinema que eu desejava. Eu seguia à risca aqueles mapas, não me desviando nem para a direita nem para a esquerda.

O centro de Curitiba é por essa razão necessariamente mapeado, para mim, por cinemas – e cinemas que não existem mais. O nobre Vitória, onde vi O Império Contra-Ataca e Krull. O Itália, onde vi Gremlins com a Isa na noite de um dia de Natal. O Lido II, onde assisti a Indiana Jones e o Templo da Perdição. O arquetípico Condor, onde vi Cortina de Fogo e, pelo menos onze vezes, E.T. o Extra-Terrestre. O Rivoli, onde assisti ao atroz O Abismo Negro dos estúdios Disney. O Plaza, onde vi A Mosca e Predador. O mais recente Astor, onde vi [sozinho!] uma infinidade de comédias românticas. Até mesmo o São João, onde eu e pulgas assistimos ao Predador II.

Minha cabeça está cheia dos detalhes dessas salas e de suas bilheterias e escadarias e bomboniéres e banheiros e ante-salas. Vejo com clareza o rosto cansado mas bondoso da bilheteira do Condor – em cujo saguão acarpetado e cheirando a pipoca multidões agasalhadas acotovelavam-se civilizadamente aguardando o término da sessão para dobrar à direita escadaria acima, rumo ao auditório. A sala de projeção do Condor era tão grande que meia-dúzia de helicópteros por certo manobrariam por ali sem maiores incidentes; recordo em particular o padrão das luminárias vermelhas nas paredes altíssimas, seis figuras geométricas alinhadas em grupos de dois, formando um desenho que às vezes me lembrava o robô de O Abismo Negro ou os cilônios de Galactica.

Posso evocar com a mesma facilidade o corredor da galeria que separava o Lido I do II e o estacionamento que ficava do lado; as escadarias opostas que levavam ao auditório do Astor a partir de sua estéril sala de espera; a ambiciosa arquitetura da entrada do Vitória; o carrinho de pipoca do saguão do Plaza, que ficava à direita de quem entra, separado da bomboniére no topo da escadaria; o ângulo da escada na sala de espera do Itália onde eu e a Isa aguardamos sentados a sessão anterior de Gremlins terminar, enquanto eu ficava tentando conceber que criaturas horríveis [e interessantíssimas] poderiam se esconder por trás dos sons que vinham lá de dentro.

O nome dessas salas perdidas no tempo me dizem infinitamente mais do que Barão do Rio Branco, Dr. Muricy, Ébano Pereira, Cruz Machado, Ermelino de Leão – ruas que estou fadado a nunca saber ao certo onde estão.

Mas me fale da esquina do Condor, e terá um ouvinte.

05 de Fevereiro de 2006

61 versões de Tico-tico no fubá

Brasil, Nostalgia

Num momento de lucidez os loucos do blog da rádio WFMU compilaram e disponibilizaram online 61 gravações (em mp3) da música Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu.

Nem eu me dispus a ouvir todas, mas posso recomendar pelo exotismo esta versão em inglês das adoráveis Andrews Sisters, esta versão viajandona da Banda Black Rio, este tango da Família Lima e a grandiloqüente gravação da Orquestra do Hollywood Bowl. Marcam presença ainda Henry Mancini (do tema de A Pantera Cor-de-rosa), o piano esvoaçante de Liberace, o violão másculo de Paco de Lucia, as cordas da pausterizada 101 Cordas e até mesmo o indomável saxofone de Charlie “Bird” Parker (para não mencionar a versão Bando da Lua/Disney do desenho animado Saludos Amigos).

Se você acha muito, convém notar que o sáite allmusic.com dá testemunho de 269 gravações diferentes da música. Deixo você por enquanto com meras

61 versões de Tico-Tico no Fubá