Manuscritos estocados sob a rubrica 'Nostalgia'
14 de Abril de 2007

O bloco amarelo

Goiabas Roubadas, Nostalgia

Quando eu tinha vinte anos e escrevia nesses blocos de notas, será que cheguei a pensar que um grisalho fracassado de quase quarenta e cinco anos de idade estaria garatujando sobre as mesmas páginas amarelas no virtualmente fabuloso ano de 1935? 1935… mesmo hoje a data soa irreal, pertencente a um futuro distante. Pode ser verdade que eu esteja vivendo num ano cujo número parece tão extraordinariamente remoto quanto 2000 ou 2500 ou 5000? Onde foram parar todos os períodos de doze meses intervenientes? Mesmo 1910 soa fantástico para alguém cuja existência parece estar curiosamente orientada ao redor de 1903. E será verdade que o mundo de 1910 dará lugar a algo tão diferente quanto 1910 é de 1450?

Ai de mim! Ai de mim! E ainda assim esse suposto calendário acima da minha escrivaninha de fato diz 1935… e aqui está o mesmo bloco amarelo de notas e o mesmo velhinho e as mesmas (ou talvez piores) garatujas indecifráveis.

H. P. Lovecraft,
em carta de 4 de abril de 1935 a James F. Morton

 

Este documento faz parte da série

Lovecraft contra o tempo

  1. O bloco amarelo
  2. Benjamin Franklin em 1935
14 de Dezembro de 2006

Партия Ленина

História, Nostalgia

Soyuz nerushimy respublik svobodnykh
Splotila naveki velikaya Rus’!
Da zdravstvuyet sozdanny voley narodov
Yediny, moguchy Sovetsky Soyuz!

Slavsya, Otechestvo nashe svobodnoye,
Druzhby narodov nadyozhny oplot,
Partiya Lenina — sila narodnaya
Nas k torzhestvu kommunizma vedyot!

Skvoz’ grozy siyalo nam solntse svobody,
I Lenin veliky nam put’ ozaril,
Na pravoye delo on podnyal narody,
Na trud i na podvigi nas vdokhnovil!

V pobede bessmertnykh idey kommunizma
My vidim gryadushcheye nashey strany,
I krasnomu znameni slavnoy otchizny
My budem vsegda bezzavetno verny!

* * *

A mais notável experiência humana do século XX foi, sem sombra de dúvida, a União Soviética. Estamos condicionados a descartar a experiência toda em vista do seu fracasso final, relegando o regime soviético ao mesmo balaio indistinto de impérios do mal que alberga a Alemanha de Hitler.

Essa nossa sentença é desleal em mais de um sentido. O discurso de Hitler sustentou a Alemanha nazista por meros 12 anos, enquanto que o idealismo proletariado definiu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas por quase 70 anos, de 1922 a 1991. Os nazistas nunca chegaram a conquistar a Europa inteira; a URSS cobriu mais de 22 milhões de quilômetros quadrados, compreendendo 16 repúblicas, 150 grupos étnicos e um número vertiginoso de fusos horários. Como experiência cultural, a União Soviética manteve suas singularidades e idiossincrasias diante do contrabando incessante de Elvis Presley, dos Beatles, de Woodstock, do grupo Abba, de Michael Jackson.

Ao longo de décadas a defasagem no desenvolvimento técnico em relação ao ocidente manteve a União Soviética como uma imensa ilha de pitoresco anacronismo na face do mapa-mundi. A URSS era um improvável mundo à parte, um misto de país de conto de fadas e reino do mal, uma larguíssima terra-de-ninguém entre o ocidente e o oriente, uma estranha sentinela entre o sono e a vigília.

Jamais houve experiência maior e mais ambiciosa em idealismo; continente algum jamais decidira antes definir-se por uma única idéia. Enquanto o restante do mundo perdia a fé, a União Soviética mantinha teimosamente a sua.

Participei como todo mundo da coreografada celebração diante da queda do muro e da implosão do regime. Sapateei e chorei de alegria. Hoje creio que o que matou a União Soviética não foi a falência interna de um sonho, mas o proselitismo insidioso do capitalismo ocidental, que encontra farisaico prazer em esmagar manifestações culturais que vê como incompatíveis e julga portanto inferiores. Sou culpado de preconceito, e creio hoje que é tremenda simplificação dizer que o bem venceu no final.

Para algumas coisas é naturalmente tarde demais. Com o recuo do idealismo soviético o mundo ganhou um mercado; por outro lado, tivemos de arcar com vasto prejuízo no campo imponderável e irrecuperável da “biodiversidade” cultural. Com a anulação de mais um idealismo, o mundo caminha a passos largos para tornar-se a massa cultural informe cuja mera possibilidade aterrorizava Tolkien.

Em 1991, para festejar sua recém-adquirida liberdade, um grupo de músicos e cantores da falecida União gravou uma versão bem-humorada do seu antigo hino nacional, num videoclipe com ecos muito evidentes de We Are The World. A intenção declarada desses artistas era fazer uma “paródia”, mas as imagens de arquivo utilizadas na edição acabam emprestando à celebração um clima pungente de “o sonho acabou”.

O pessoal do excelente blog da rádio WFMU, de onde roubei o clipe, fez ainda questão de salientar a semelhança entre esta versão do hino e a canção Go West do grupo Village People.

Ouça a versão original do Hino Nacional da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Visite também o saboroso blog englishrussia.com – “Porque todo dia acontece algo interessante em 1/6 da terra”.

29 de Novembro de 2006

ABBA National - À frente do seu tempo

Nostalgia, Sociedade

Você não faz idéia.

Just slightly ahead of our time

* * *

Mais aqui.

23 de Setembro de 2006

Sonhos esquecidos: Leroy Anderson

Nostalgia, Recomendações

Permita-me reapresentá-lo a Leroy Anderson (1908-1975), ilustre desconhecido, compositor norte-americano cuja especialidade era música clássica ligeira – aquela facção pop da música de concerto caracterizada por ritmos imediatamente cativantes e melodias fáceis de digerir, e que existe a um perigoso passo da música de elevador.

Digo reapresentar porque você já conhece a música do sujeito se viu Jerry Lewis tocando seu concerto para máquina de escrever em Errado pra Cachorro (Who’s Minding the Store?, 1963).

Sem contar essa consagração universal de The Typewriter, você certamente não escapou ou não vai escapar de ouvir, em algum momento e alguma versão, outras manjadíssimas composições de Leroy – coisas como O Relógio Sincopado e a natalina Sleigh Ride.

Em sua inequívoca americanidade, Leroy Anderson é uma espécie de versão musical do pintor Norman Rockwell. Os filmes de Hollywood, embalados pelo visual idealista de Rockwell e por trilhas açucaradas como as de Leroy, ajudaram a dar forma ao irresistível mito americano. A música de Leroy já era nostálgica na época em que foi produzida, exatamente como as pinturas de Rockwell e, naturalmente, os filmes de Jerry Lewis. Juntas, essas iniciativas artísticas ajudaram a inventar uma tradição – e criaram retroativamente uma inegociável América da idade do ouro, com suas cidades pequenas, corações puros e valores imortais.

Minha composição favorita de Leroy Anderson é a singela Forgotten Dreams (“Sonhos esquecidos”, 1954), cuja melodia, nostálgica até a náusea, evoca precisamente essa era ao mesmo tempo perdida e inexistente em que ainda se sonhava com finais felizes.

Da série Música que você não ouviria se não fosse aqui:

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Clipe de áudio: Forgotten Dreams, Leroy Anderson

Sáite oficial (em inglês), com biografia e outros clipes de música:
Leroy Anderson Official Website

11 de Agosto de 2006

A bem-aventurança do creme amarelo, ou o padeiro que vinha do céu

Família, Nostalgia

A última das três casas em que moramos em Londrina, na rua Mamoré, era muito simples mas era nossa – nossa primeira casa própria. Eu tinha perto de dez anos, jogava futebol todas as tardes na rua de baixo, beijava a vizinha de cinco anos na boca pela fresta da grade (a Renata, onde quer que esteja, fazendo terapia por minha causa), observava as batalhas aéreas dos que soltavam pipa no campinho e, quando tudo isso faltava, desembainhava um volume aleatório da enciclopédia Conhecer e sentava no sofá que ainda hoje assombra a sala da casa dos meus pais. Era uma vida justa.

Mas tinha seus momentos de especial epifania, quando descia a rua, vinda da Araguaia, uma carroça guiada por um santo, puxada por um Rocinante e seguida por procissões de quebrantados fiéis que éramos nós. O carroceiro segurava as rédeas numa mão e usava a outra para abrir a tampa do baú de madeira atrás de si e nos tentar com as cintilantes moedas do seu tesouro: pilhas douradas de pães arredondados, perfumados, açucarados e macios, coroados com uma espiral grossa de creme amarelo – aquele tipo de pão que já vi chamarem de chineque e brioche, mas que chamávamos com menos controvérsia de pão doce.

Em casa estávamos, como eu ia dizendo, longe de sermos ricos, e a rígida filiação de meus pais à ética protestante impedia que caísse nas mãos de nós, filhos, qualquer dinheiro que pudéssemos gastar “com bobagem”. Na prática isso significava que nunca – jamais, senhoras e senhores – levávamos dinheiro para comprar lanche na escola; que nunca abrilhantávamos a fila do pátio com o mais novo modelo de tênis ou os cadernos da moda; e – no que me diz respeito muito mais sério – que não lembro ter experimentado uma única vez aqueles bem-aventurados pães-doces nos anos em que moramos naquela rua.

A centrada economia de meus pais, por outro lado, permitia que convivêssemos com engenhos com que o pessoal da rua nem sequer sonharia: TV em cores, telejogo, microscópio, máquina fotográfica Minolta, telescópio desmontável, um número obsceno e sempre crescente de enciclopédias e livros. Esse tipo de bobagem.

Não se pode ter tudo. Sempre fui um cara mais ou menos frugal, e meus sonhos de consumo naqueles dias eram um pão doce do tio da carroça e o exemplar seguinte da coleção Os Bichos. Meu pai nunca – jamais, senhoras e senhores – deixou faltar o segundo. Meus amigos da rua tinham os dois ou três pães doces que as mães deles levavam para casa; eu examinava uma movimentada gota d’água no microscópio da Alice. Difícil dizer quem se saciava mais.

Fato é que data daquela época minha fascinação, meu absoluto delírio, por broas e pães doces, especialmente aqueles cuja configuração me remete à rua Mamoré e ao padeiro que vinha do céu. Sei por essa razão, de fonte fidedigna, que o Paraíso é terra que mana creme amarelo – e falo daqueles cremes de um amarelo vivo, absolutamente não-sofisticado, que se alinham com freqüência a farpas de coco e vomitam às vezes os sonhos.