Manuscritos estocados sob a rubrica 'Nostalgia'
11 de Maio de 2007

O fim da fita

Nostalgia

Currys, a maior rede de eletro-eletrônicos da Grã-Bretanha, anunciou hoje que vai parar de vender fitas cassettes – medida que soa como tiro de misericórdia para a fita de compilação, usada por toda uma geração de jovens apaixonados para seduzir suas namoradas.
telegraph.co.uk
7 de maio de 2007

Diretamente do arquivo de links da semana:
Cassette Jam – Você já teve uma

Gerador virtual de fita cassette – faça a sua:
Cassette Generator

Ainda:

15 de Abril de 2007

Música de Domingo de Manhã, LADO A

Família, Nostalgia

Quando éramos pequenos nosso pai nos acordava, todos os domingos de manhã, colocando para tocar algum LP de música sacra – com maior freqüência um álbum de capa preta do Coro Ford-Willys, que tem aquele Sanctus Credo de Schubert que todo mundo já ouviu, ou um LP de negro spirituals de selo vermelho cuja última música (e minha favorita) era Let My People Go. Era a convocação dele para saírmos da cama, tomarmos café e nos prepararmos para a Escola Dominical na igreja (que começava as nove da manhã).

Definitivamente não era ruim: havia algo de familiar, algo de bem-aventurança, em ser despertado daquela maneira e apenas naquele dia da semana. Aguardavam-nos o pão caseiro (macio, branquinho e perfumado) da minha mãe, as roupas impecáveis de domingo, as horas de perplexidade na igreja, depois a mais tranqüila das tardes. Se tudo desse certo o pai nos levaria para passear de carro até algum matagal ou ponte de rio antes de voltarmos à noite para a igreja. Algumas vezes ele nos levava para passear de carro, estrada afora e sob as estrelas, depois do culto da noite – e não havia forma mais gentil de aplacar a ameaça iminente da nova semana.

Até hoje, por essa razão, determinadas músicas corais e determinadas estirpes de música instrumental evocam-me irresistivelmente aquelas manhãs e suas promessas de bem-aventurança. Eu e minha irmã Alice ainda falamos em “Música de Domingo de Manhã”.

Mais tarde, quando nos mudamos para Bauru e eu era quase adolescente, meu pai chegou um dia de viagem trazendo um álbum que se tornaria, no que me diz respeito, o mais brilhante ícone da Música de Domingo de Manhã: Der Himmel steht offen, – FROHE BOTSCHAFT IM LIED, uma compilação de hinos evangélicos arranjados por um norueguês, Mons Leidvin Takle, lançada em STEREO (Auch mono abspielar) na Alemanha pela gravadora HSW e reempacotada no Brasil com o título de “PAZ MAIOR” pela RTM Editora (Caixa Postal 18.300, 01000, São Paulo).

Embora se trate de música instrumental, e não de música coral como a MDDDM deveria em princípio ser, esses arranjos (austeros, comedidos, minimalistas) me trazem à memória as mais rigorosas associações da anatomia daqueles dias.

Clique uma vez em qualquer título para ouvir

14 de Abril de 2007

O bloco amarelo

Goiabas Roubadas, Nostalgia

Quando eu tinha vinte anos e escrevia nesses blocos de notas, será que cheguei a pensar que um grisalho fracassado de quase quarenta e cinco anos de idade estaria garatujando sobre as mesmas páginas amarelas no virtualmente fabuloso ano de 1935? 1935… mesmo hoje a data soa irreal, pertencente a um futuro distante. Pode ser verdade que eu esteja vivendo num ano cujo número parece tão extraordinariamente remoto quanto 2000 ou 2500 ou 5000? Onde foram parar todos os períodos de doze meses intervenientes? Mesmo 1910 soa fantástico para alguém cuja existência parece estar curiosamente orientada ao redor de 1903. E será verdade que o mundo de 1910 dará lugar a algo tão diferente quanto 1910 é de 1450?

Ai de mim! Ai de mim! E ainda assim esse suposto calendário acima da minha escrivaninha de fato diz 1935… e aqui está o mesmo bloco amarelo de notas e o mesmo velhinho e as mesmas (ou talvez piores) garatujas indecifráveis.

H. P. Lovecraft,
em carta de 4 de abril de 1935 a James F. Morton

14 de Dezembro de 2006

Партия Ленина

História, Nostalgia

Soyuz nerushimy respublik svobodnykh
Splotila naveki velikaya Rus’!
Da zdravstvuyet sozdanny voley narodov
Yediny, moguchy Sovetsky Soyuz!

Slavsya, Otechestvo nashe svobodnoye,
Druzhby narodov nadyozhny oplot,
Partiya Lenina – sila narodnaya
Nas k torzhestvu kommunizma vedyot!

Skvoz’ grozy siyalo nam solntse svobody,
I Lenin veliky nam put’ ozaril,
Na pravoye delo on podnyal narody,
Na trud i na podvigi nas vdokhnovil!

V pobede bessmertnykh idey kommunizma
My vidim gryadushcheye nashey strany,
I krasnomu znameni slavnoy otchizny
My budem vsegda bezzavetno verny!

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* * *

A mais notável experiência humana do século XX foi sem sombra de dúvida a União Soviética. Estamos condicionados a descartar a experiência toda em vista do seu fracasso final, relegando o regime soviético ao mesmo balaio indistinto de impérios do mal que alberga a Alemanha de Hitler.

Essa nossa sentença é desleal em mais de um sentido. O discurso de Hitler sustentou a Alemanha nazista por meros 12 anos, enquanto que o idealismo proletariado definiu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas por quase 70 anos, de 1922 a 1991. Os nazistas nunca chegaram a conquistar a Europa inteira; a URSS cobriu mais de 22 milhões de quilômetros quadrados, compreendendo 16 repúblicas, 150 grupos étnicos e um número vertiginoso de fusos horários. Como experiência cultural, a União Soviética manteve suas singularidades e idiossincrasias diante do contrabando incessante de Elvis Presley, dos Beatles, de Woodstock, do grupo Abba, de Michael Jackson.

Ao longo de décadas a defasagem no desenvolvimento técnico em relação ao ocidente manteve a União Soviética como uma imensa ilha de pitoresco anacronismo na face do mapa-mundi. A URSS era um improvável mundo à parte, um misto de país de conto de fadas e reino do mal, uma larguíssima terra-de-ninguém entre o ocidente e o oriente, uma estranha sentinela entre o sono e a vigília.

Jamais houve experiência maior e mais ambiciosa em idealismo; continente algum jamais decidira antes definir-se por uma única idéia. Enquanto o restante do mundo perdia a fé, a União Soviética mantinha teimosamente a sua.

Participei como todo mundo da coreografada celebração diante da queda do muro e da implosão do regime. Sapateei e chorei de alegria. Hoje creio que o que matou a União Soviética não foi a falência interna de um sonho, mas o proselitismo insidioso do capitalismo ocidental, que encontra farisaico prazer em esmagar manifestações culturais que vê como incompatíveis e julga portanto inferiores. Sou culpado de preconceito, e creio hoje que é tremenda simplificação dizer que o bem venceu no final.

Para algumas coisas é naturalmente tarde demais. Com o recuo do idealismo soviético o mundo ganhou um mercado; por outro lado, tivemos de arcar com vasto prejuízo no campo imponderável e irrecuperável da “biodiversidade” cultural. Com a anulação de mais um idealismo, o mundo caminha a passos largos para tornar-se a massa cultural informe cuja mera possibilidade aterrorizava Tolkien.

Em 1991, para festejar sua recém-adquirida liberdade, um grupo de músicos e cantores da falecida União gravou uma versão bem-humorada do seu antigo hino nacional, num videoclipe com ecos muito evidentes de We Are The World. A intenção declarada desses artistas era fazer uma “paródia”, mas as imagens de arquivo utilizadas na edição acabam emprestando à celebração um clima pungente de “o sonho acabou”.

O pessoal do excelente blog da rádio WFMU, de onde roubei o clipe, fez ainda questão de salientar a semelhança entre esta versão do hino e a canção Go West do grupo Village People.

Para assistir em tela inteira clique o botão apropriado (  ) na barra de reprodução.

Visite também o saboroso blog englishrussia.com – “Porque todo dia acontece algo interessante em 1/6 da terra”.

23 de Setembro de 2006

Sonhos esquecidos: Leroy Anderson

Nostalgia, Recomendações

Permita-me reapresentá-lo a Leroy Anderson (1908-1975), ilustre desconhecido, compositor norte-americano cuja especialidade era música clássica ligeira – aquela facção pop da música de concerto caracterizada por ritmos imediatamente cativantes e melodias fáceis de digerir, e que existe a um perigoso passo da música de elevador.

Digo reapresentar porque você já conhece a música do sujeito se viu Jerry Lewis tocando seu concerto para máquina de escrever em Errado pra Cachorro (Who’s Minding the Store?, 1963).

Sem contar essa consagração universal de The Typewriter, você certamente não escapou ou não vai escapar de ouvir, em algum momento e alguma versão, outras manjadíssimas composições de Leroy – coisas como O Relógio Sincopado e a natalina Sleigh Ride.

Em sua inequívoca americanidade, Leroy Anderson é uma espécie de versão musical do pintor Norman Rockwell. Os filmes de Hollywood, embalados pelo visual idealista de Rockwell e por trilhas açucaradas como as de Leroy, ajudaram a dar forma ao irresistível mito americano. A música de Leroy já era nostálgica na época em que foi produzida, exatamente como as pinturas de Rockwell e, naturalmente, os filmes de Jerry Lewis. Juntas, essas iniciativas artísticas ajudaram a inventar uma tradição – e criaram retroativamente uma inegociável América da idade do ouro, com suas cidades pequenas, corações puros e valores imortais.

Minha composição favorita de Leroy Anderson é a singela Forgotten Dreams (“Sonhos esquecidos”, 1954), cuja melodia, nostálgica até a náusea, evoca precisamente essa era ao mesmo tempo perdida e inexistente em que ainda se sonhava com finais felizes.

Da série Música que você não ouviria se não fosse aqui:

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Clipe de áudio: Forgotten Dreams, Leroy Anderson

Sáite oficial (em inglês), com biografia e outros clipes de música:
Leroy Anderson Official Website