Manuscritos estocados sob a rubrica 'Nostalgia'
11 de Outubro de 2011

Hoje é um lugar que não existe

Grandes Navegações, Nostalgia

Por que viver o momento, se o passado é menos desafiador e mais interessante? Combata a ressaca do presente com as pílulas do sáite Como ser um retronauta.

31 de Dezembro de 2008

Happy New Year (1980)

Nostalgia

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Nada é mais surreal, mais semelhante a vastas e lentíssimas cócegas cósmicas, do que experimentar a passagem do tempo.

A idéia de dividir o tempo, de forma semelhante ao que fazemos com o espaço, ocasiona toda espécie de dissonância cognitiva. É particularmente difícil apreender nossa relação com o passado. Para o futuro o espaço oferece uma metáfora mais ou menos adequada, já que o futuro é o que nos aguarda adiante, o que está além da próxima curva, no virar da esquina.

O passado, no entanto, é um espaço irretornável, e portanto inconcebível. Podemos levar um filho para conhecer uma paisagem da infância, mas a realidade crua aqueles dias está interditada para todos, inclusive para nós. A bagagem que trazemos do passado é ainda menor e mais imponderável do que a proverbial flor que o sonhador arranca no sonho e consegue trazer para a vigília. Não importa o que façamos: com o tempo ninguém vai acreditar no sonho, nem mesmo (e em primeiro lugar) nós mesmos.

* * *

À meia noite de 31 de dezembro de 1980, no preciso instante que inaugurou a década de 80 – a década do bom-mocismo, e portanto a minha – a tv sueca lançou o videoclipe da canção Happy New Year, do grupo ABBA.

Happy New Year é curiosamente pessimista, quase niilista, para uma canção de final de ano.

Oh yes, man is a fool/Ah, sim, o homem é um tolo
And he thinks he’ll be okay/E pensa que com ele vai dar tudo certo
Dragging on feet of clay/Arrastando pés de argila
Never knowing he’s astray/Sem jamais saber que está longe do caminho
Keeps on going anyway/Vai em frente mesmo assim

O que me fascina irresistivelmente na canção, no entanto, é a terceira e última estrofe, que pergunta – anacronicamente para nós, que vivemos literalmente na outra margem dessas especulações, – “quem sabe o que iremos encontrar [no fim desta nova década], ao final de 1989?”

Ao final de 1989. Não apenas o futuro dos que cantam é o nosso passado, mas nosso presente é um futuro que eles não ousavam sondar. Vivemos deste lado de 2001, da queda do Muro, da inconcebível internet, do encolhimento da terra, da onipresença de computadores pessoais – mas, semelhantes a todos em todo o tempo, acreditamos que conosco vai dar tudo certo.

Lembro com toda a clareza de 1980. Ah, sim, o homem é um tolo.

Clique o triângulo para ouvir o clipe

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A reflexão desconcertante de Happy New Year, ABBA, 1980

In another ten years time/Daqui a mais dez anos
Who can say what we’ll find/Quem sabe o que iremos encontrar
What lies waiting down the line/O que jaz aguardando no fim da linha
In the end of 89/Ao final de 1989

27 de Setembro de 2007

Pasta Jóia, We Dream

Nostalgia

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Ontem pela manhã fui buscar o Corsa na João Hoffmann e enquanto terminavam o serviço fiquei em pé junto da entrada olhando para o dia friozinho e nublado do Bacacheri, pontuado por cinzas pétreos e verdes pungentes e coroado por uma garoa ralíssima. Eu vestia camiseta de manga comprida por baixo da camisa de flanela e uma grossa japona por cima, mas o vento gelado e fragrante tocou-me sem constrangimento o rosto – e percebi, numa epifania, que aquela brisa generosa tinha precisamente a mesma natureza, a mesma carga espiritual e sensorial, do vento da Curitiba de mais de 20 anos atrás. Aquela brisa antiga tinha dado a volta ao mundo e retornava agora carregada de lembranças de outro tempo.

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23 de Setembro de 2007

Piano de letras

Fotografia, Nostalgia



A Olivetti Studio 44 que me ensinou a escrever. Impossível contar as tardes que passei entre 1980 e 1986, no escritório ensolarado do nosso sobrado em Bauru, reescrevendo os capítulos de livros que nunca cheguei a terminar. Clique nas imagens para ampliar.

Deixo-vos, a título de curiosidade e impertinência, o primeiro parágrafo de um desses romances inacabados. De tudo que já escrevi, não há por certo conjunto de palavras que eu tenha reescrito obsessivamente mais do que este.

EU E MATHIAS conduzimos o estranho pelo interior da casa até a presença de Ohimè e Erhard. Mathias mantinha a mão direita apoiada no meu ombro, o arrastar das botas ressoando nas paredes altas e no assoalho de madeira. O empregado de meu pai contava com três vezes os meus dez anos e era proporcionalmente mais alto. A idade do estranho que conduzíamos não excederia, provavelmente, a de Mathias.

02 de Julho de 2007

Hoje é um lugar que não existe

Nostalgia

Passei a manhã de sábado em Curitiba, tirando fotos de Santa Felicidade para mostrar ao meu amigo italiano Paolo, e voltei inteiramente imbuído de uma impressão que sempre esteve comigo mas vai ficando a cada dia mais unânime: o presente não me interessa. Não encontrei o bairro que retinha na minha memória; esse foi substituído por uma paródia grotesca, superpopulosa e arquitetonicamente catastrófica do que antes havia por lá.

 
Harold Lloyd tentando fazer o tempo voltar atrás em Safety Last (1923).

Meu amigo Julian já opinou que sou obcecado pelo passado; dizer assim é recorrer a um understatement e a uma injustiça. Dito dessa forma parece que meu interesse no passado é doentio porque seu objeto é irreal, quando é na verdade o presente que carece de realidade.

O presente, senhoras e senhores, é uma afronta e uma piada. Somos a continuação medíocre, a parte 2 que o bom senso não deveria ter deixado chegar aos cinemas. Somos o capítulo mais fraquinho de uma série de ficção científica que o roteirista não tem mais criatividade ou saco para terminar. O autor deveria ter sabido parar enquanto a coisa estava fluindo, mas daí viemos nós e colocamos tudo a perder. Somos Piratas do Caribe 3: No Fim do Mundo.

Somos ficção.

Deveria ficar evidente que somos ficção, porque a realidade quando era escrita costumava ter personagens verdadeiramente encorpados e extravagantes, não a sopa rala que somos obrigados a engolir hoje. Nem a superpopulação nem a revolução da informação, que deveriam contar em nosso favor, nos ajudaram nesse sentido.

No início do século XX o mundo se arrepiava de um pólo a outro diante das idéias originais e apavorantemente contundentes de gente como Planck, Einstein, Freud e Jung - isso porque, trinta anos antes, havia Darwin e havia Marx. E hoje, que temos a benção onipresente de São Google e processadores de texto e email e iPods e webcams e edição colaborativa e wikipédia e mais livros do que leitores e software de conferências, onde estão as grandes sacadas revolucionárias e seus proponentes? Onde está o profundo conhecedor das questões deste século? Onde estão os protagonistas da história?

Sinto dizer, moçada, mas eu e você somos a terrível prova de que dessa novela não sai mais personagem que preste. O lance é o universo mudar de canal e investir nas rêmoras ou nos marcianos. Os efeitos especiais não são ruins, mas não há reviravolta que salve este último episódio.

Decidi por isso, como medida paliativa nesses últimos estertores da criação, deixar oficializado nesta nota que, no que me diz respeito, apenas o passado tem peso, coerência interna e credibilidade.

Fica então decidido que:

  1. Nada que aconteceu depois de 1950 sobrevive ao mínimo critério da verossimilhança, e será devidamente ignorado (e/ou talvez ridicularizado) como história e como narrativa por mim e pelos meus seguidores;
  2. Se você tem 40 anos é uma criança no sentido mais literal do termo, e receberá de mim tratamento condigno – ou seja, não me encha o saco. Volte quando tiver mais de 65, menos deslumbrado e mais na sua, e quem sabe a gente encontre do que conversar.
  3. [Embora seja evidente,] registre-se que nenhuma página com menos de cinqüenta anos merece ser lida, muito menos página digital, muito menos minha.
  4. Se você tem iPod, cale a boca.
  5. Se você tem endereço de email, cale a boca.
  6. Se você tem acesso a internet, cale a boca.
  7. Se você tem iPhone ou Nintendo Wii, cale muito a boca.
  8. Se você nunca leu as obras completas de Shakespeare, cale a boca.
  9. Se você lê blogs, cale a boca.
  10. Se você escreve blogs – putz.
  11. Que os últimos 70 anos não constem nas atas.
  12. Substituam-se por uma errata formal com a seguinte inscrição: “Foi mal”.
  13. Revogam-se todas as disposições contemporâneas.

Quando declarou o fim da História, Francis Fukuyama cria que havíamos no capitalismo e na democracia alcançado a Jerusalém celeste e a glória. Ignora ele que a história de fato acabou, mas pela via da mediocridade, da irrealidade e da estagnação. Atingimos nosso nível de incompetência. Somos o bloqueio do autor. Hoje é um lugar que não existe.