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Nada é mais surreal, mais semelhante a vastas e lentíssimas cócegas cósmicas, do que experimentar a passagem do tempo.
A idéia de dividir o tempo, de forma semelhante ao que fazemos com o espaço, ocasiona toda espécie de dissonância cognitiva. É particularmente difícil apreender nossa relação com o passado. Para o futuro o espaço oferece uma metáfora mais ou menos adequada, já que o futuro é o que nos aguarda adiante, o que está além da próxima curva, no virar da esquina.
O passado, no entanto, é um espaço irretornável, e portanto inconcebível. Podemos levar um filho para conhecer uma paisagem da infância, mas a realidade crua aqueles dias está interditada para todos, inclusive para nós. A bagagem que trazemos do passado é ainda menor e mais imponderável do que a proverbial flor que o sonhador arranca no sonho e consegue trazer para a vigília. Não importa o que façamos: com o tempo ninguém vai acreditar no sonho, nem mesmo (e em primeiro lugar) nós mesmos.
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À meia noite de 31 de dezembro de 1980, no preciso instante que inaugurou a década de 80 – a década do bom-mocismo, e portanto a minha – a tv sueca lançou o videoclipe da canção Happy New Year, do grupo ABBA.
Happy New Year é curiosamente pessimista, quase niilista, para uma canção de final de ano.
Oh yes, man is a fool/Ah, sim, o homem é um tolo
And he thinks he’ll be okay/E pensa que com ele vai dar tudo certo
Dragging on feet of clay/Arrastando pés de argila
Never knowing he’s astray/Sem jamais saber que está longe do caminho
Keeps on going anyway/Vai em frente mesmo assim
O que me fascina irresistivelmente na canção, no entanto, é a terceira e última estrofe, que pergunta – anacronicamente para nós, que vivemos literalmente na outra margem dessas especulações, – “quem sabe o que iremos encontrar [no fim desta nova década], ao final de 1989?”
Ao final de 1989. Não apenas o futuro dos que cantam é o nosso passado, mas nosso presente é um futuro que eles não ousavam sondar. Vivemos deste lado de 2001, da queda do Muro, da inconcebível internet, do encolhimento da terra, da onipresença de computadores pessoais – mas, semelhantes a todos em todo o tempo, acreditamos que conosco vai dar tudo certo.
Lembro com toda a clareza de 1980. Ah, sim, o homem é um tolo.
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A reflexão desconcertante de Happy New Year, ABBA, 1980
In another ten years time/Daqui a mais dez anos
Who can say what we’ll find/Quem sabe o que iremos encontrar
What lies waiting down the line/O que jaz aguardando no fim da linha
In the end of 89/Ao final de 1989













