Manuscritos estocados sob a rubrica 'Nostalgia'
27 de Setembro de 2007

Pasta Jóia, We Dream

Nostalgia

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Ontem pela manhã fui buscar o Corsa na João Hoffmann e enquanto terminavam o serviço fiquei em pé junto da entrada olhando para o dia friozinho e nublado do Bacacheri, pontuado por cinzas pétreos e verdes pungentes e coroado por uma garoa ralíssima. Eu vestia camiseta de manga comprida por baixo da camisa de flanela e uma grossa japona por cima, mas o vento gelado e fragrante tocou-me sem constrangimento o rosto – e percebi, numa epifania, que aquela brisa generosa tinha precisamente a mesma natureza, a mesma carga espiritual e sensorial, do vento da Curitiba de mais de 20 anos atrás. Aquela brisa antiga tinha dado a volta ao mundo e retornava agora carregada de lembranças de outro tempo.

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23 de Setembro de 2007

Piano de letras

Fotografia, Nostalgia



A Olivetti Studio 44 que me ensinou a escrever. Impossível contar as tardes que passei entre 1980 e 1986, no escritório ensolarado do nosso sobrado em Bauru, reescrevendo os capítulos de livros que nunca cheguei a terminar. Clique nas imagens para ampliar.

Deixo-vos, a título de curiosidade e impertinência, o primeiro parágrafo de um desses romances inacabados. De tudo que já escrevi, não há por certo conjunto de palavras que eu tenha reescrito obsessivamente mais do que este.

EU E MATHIAS conduzimos o estranho pelo interior da casa até a presença de Ohimè e Erhard. Mathias mantinha a mão direita apoiada no meu ombro, o arrastar das botas ressoando nas paredes altas e no assoalho de madeira. O empregado de meu pai contava com três vezes os meus dez anos e era proporcionalmente mais alto. A idade do estranho que conduzíamos não excederia, provavelmente, a de Mathias.

02 de Julho de 2007

Hoje é um lugar que não existe

Nostalgia

Passei a manhã de sábado em Curitiba, tirando fotos de Santa Felicidade para mostrar ao meu amigo italiano Paolo, e voltei inteiramente imbuído de uma impressão que sempre esteve comigo mas vai ficando a cada dia mais unânime: o presente não me interessa. Não encontrei o bairro que retinha na minha memória; esse foi substituído por uma paródia grotesca, superpopulosa e arquitetonicamente catastrófica do que antes havia por lá.

 
Harold Lloyd tentando fazer o tempo voltar atrás em Safety Last (1923).

Meu amigo Julian já opinou que sou obcecado pelo passado; dizer assim é recorrer a um understatement e a uma injustiça. Dito dessa forma parece que meu interesse no passado é doentio porque seu objeto é irreal, quando é na verdade o presente que carece de realidade.

O presente, senhoras e senhores, é uma afronta e uma piada. Somos a continuação medíocre, a parte 2 que o bom senso não deveria ter deixado chegar aos cinemas. Somos o capítulo mais fraquinho de uma série de ficção científica que o roteirista não tem mais criatividade ou saco para terminar. O autor deveria ter sabido parar enquanto a coisa estava fluindo, mas daí viemos nós e colocamos tudo a perder. Somos Piratas do Caribe 3: No Fim do Mundo.

Somos ficção.

Deveria ficar evidente que somos ficção, porque a realidade quando era escrita costumava ter personagens verdadeiramente encorpados e extravagantes, não a sopa rala que somos obrigados a engolir hoje. Nem a superpopulação nem a revolução da informação, que deveriam contar em nosso favor, nos ajudaram nesse sentido.

No início do século XX o mundo se arrepiava de um pólo a outro diante das idéias originais e apavorantemente contundentes de gente como Planck, Einstein, Freud e Jung - isso porque, trinta anos antes, havia Darwin e havia Marx. E hoje, que temos a benção onipresente de São Google e processadores de texto e email e iPods e webcams e edição colaborativa e wikipédia e mais livros do que leitores e software de conferências, onde estão as grandes sacadas revolucionárias e seus proponentes? Onde está o profundo conhecedor das questões deste século? Onde estão os protagonistas da história?

Sinto dizer, moçada, mas eu e você somos a terrível prova de que dessa novela não sai mais personagem que preste. O lance é o universo mudar de canal e investir nas rêmoras ou nos marcianos. Os efeitos especiais não são ruins, mas não há reviravolta que salve este último episódio.

Decidi por isso, como medida paliativa nesses últimos estertores da criação, deixar oficializado nesta nota que, no que me diz respeito, apenas o passado tem peso, coerência interna e credibilidade.

Fica então decidido que:

  1. Nada que aconteceu depois de 1950 sobrevive ao mínimo critério da verossimilhança, e será devidamente ignorado (e/ou talvez ridicularizado) como história e como narrativa por mim e pelos meus seguidores;
  2. Se você tem 40 anos é uma criança no sentido mais literal do termo, e receberá de mim tratamento condigno - ou seja, não me encha o saco. Volte quando tiver mais de 65, menos deslumbrado e mais na sua, e quem sabe a gente encontre do que conversar.
  3. [Embora seja evidente,] registre-se que nenhuma página com menos de cinqüenta anos merece ser lida, muito menos página digital, muito menos minha.
  4. Se você tem iPod, cale a boca.
  5. Se você tem endereço de email, cale a boca.
  6. Se você tem acesso a internet, cale a boca.
  7. Se você tem iPhone ou Nintendo Wii, cale muito a boca.
  8. Se você nunca leu as obras completas de Shakespeare, cale a boca.
  9. Se você lê blogs, cale a boca.
  10. Se você escreve blogs - putz.
  11. Que os últimos 70 anos não constem nas atas.
  12. Substituam-se por uma errata formal com a seguinte inscrição: “Foi mal”.
  13. Revogam-se todas as disposições contemporâneas.

Quando declarou o fim da História, Francis Fukuyama cria que havíamos no capitalismo e na democracia alcançado a Jerusalém celeste e a glória. Ignora ele que a história de fato acabou, mas pela via da mediocridade, da irrealidade e da estagnação. Atingimos nosso nível de incompetência. Somos o bloqueio do autor. Hoje é um lugar que não existe.

11 de Maio de 2007

O fim da fita

Nostalgia

Currys, a maior rede de eletro-eletrônicos da Grã-Bretanha, anunciou hoje que vai parar de vender fitas cassettes – medida que soa como tiro de misericórdia para a fita de compilação, usada por toda uma geração de jovens apaixonados para seduzir suas namoradas.
telegraph.co.uk
7 de maio de 2007

Diretamente do arquivo de links da semana:
Cassette Jam - Você já teve uma

Gerador virtual de fita cassette - faça a sua:
Cassette Generator

Ainda:

15 de Abril de 2007

Música de Domingo de Manhã, LADO A

Família, Nostalgia

Quando éramos pequenos nosso pai nos acordava, todos os domingos de manhã, colocando para tocar algum LP de música sacra – com maior freqüência um álbum de capa preta do Coro Ford-Willys, que tem aquele Sanctus Credo de Schubert que todo mundo já ouviu, ou um LP de negro spirituals de selo vermelho cuja última música (e minha favorita) era Let My People Go. Era a convocação dele para saírmos da cama, tomarmos café e nos prepararmos para a Escola Dominical na igreja (que começava as nove da manhã).

Definitivamente não era ruim: havia algo de familiar, algo de bem-aventurança, em ser despertado daquela maneira e apenas naquele dia da semana. Aguardavam-nos o pão caseiro (macio, branquinho e perfumado) da minha mãe, as roupas impecáveis de domingo, as horas de perplexidade na igreja, depois a mais tranqüila das tardes. Se tudo desse certo o pai nos levaria para passear de carro até algum matagal ou ponte de rio antes de voltarmos à noite para a igreja. Algumas vezes ele nos levava para passear de carro, estrada afora e sob as estrelas, depois do culto da noite – e não havia forma mais gentil de aplacar a ameaça iminente da nova semana.

Até hoje, por essa razão, determinadas músicas corais e determinadas estirpes de música instrumental evocam-me irresistivelmente aquelas manhãs e suas promessas de bem-aventurança. Eu e minha irmã Alice ainda falamos em “Música de Domingo de Manhã”.

Mais tarde, quando nos mudamos para Bauru e eu era quase adolescente, meu pai chegou um dia de viagem trazendo um álbum que se tornaria, no que me diz respeito, o mais brilhante ícone da Música de Domingo de Manhã: Der Himmel steht offen, – FROHE BOTSCHAFT IM LIED, uma compilação de hinos evangélicos arranjados por um norueguês, Mons Leidvin Takle, lançada em STEREO (Auch mono abspielar) na Alemanha pela gravadora HSW e reempacotada no Brasil com o título de “PAZ MAIOR” pela RTM Editora (Caixa Postal 18.300, 01000, São Paulo).

Embora se trate de música instrumental, e não de música coral como a MDDDM deveria em princípio ser, esses arranjos (austeros, comedidos, minimalistas) me trazem à memória as mais rigorosas associações da anatomia daqueles dias.

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