Manuscritos estocados sob a rubrica 'Brasil'
02 de Outubro de 2006

E isso acontece durante todo o ano nessa terra do Brasil

Brasil, Documentos

TIVEMOS DESDE ENTÃO vento de oeste que nos foi propício e permaneceu tão constante que a 26 de fevereiro de 1557, pelas oito horas da manhã, avistamos a Índia Ocidental ou terra do Brasil, quarta parte do mundo, desconhecida dos antigos e também chamada América, do nome daquele que em 1497 primeiro a descobriu. Não é preciso dizer que muito nos alegramos e rendemos graças a Deus por estarmos tão perto do lugar que demandávamos. Com efeito há cerca de quatro meses não víamos porto e flutávamos no mar não raro com a idéia de que nos encontrávamos num exílio sem solução. Por isso logo que verificamos ser o continente que víamos, pois muitas vezes nos enganaram as nuvens, velejamos para a terra e no mesmo dia, com nosso almirante à frente fomos ancorar a meia légua de um lugar montanhoso chamado Huuassú (Iguaçu) pelos selvagens. Botamos nágua o escaler e depois de ter disparado alguns tiros de peça para avisar os habitantes, conforme o costume de quem chega a esse país, vimos reunirem-se na praia homens e mulheres em grande número. Nenhum de nossos marinheiros, já viajados, reconheceu bem o sítio; entretanto os selvagens eram da nação Margaiá, aliada dos portugueses e por conseqüência tão inimiga dos franceses que se nos apanhassem em condições favoráveis, não só não nos teriam pago resgate algum mas ainda nos teriam trucidado e devorado. E logo pudemos admirar as florestas, árvores e ervas desse país que, mesmo em fevereiro, mês em que o gelo oculta ainda no seio da terra todas essas coisas em quase toda a Europa, são tão verdes quanto na França em maio e junho. E isso acontece durante todo o ano nessa terra do Brasil.

Seis homens e uma mulher não hesitaram em vir visitar-nos no navio.

Não obstante a inimizade entre margaiás e franceses, muito bem dissimulada de parte a parte, nosso mestre, que lhes conhecia um pouco a língua, meteu-se num escaler com alguns marujos e dirigiu-se à praia cheia de selvagens. Não se fiando nestes entretanto, e temerosos de serem agarrados e moqueados, mantiveram-se fora do alcance de suas flechas acenando-lhes de longe com facas, espelhos, pentes e outras bugigangas. Ouvindo as nossas vozes apressaram-se os índios mais próximos em vir ao encontro dos nossos, com alguns companheiros. Desse modo obteve o nosso contramestre farinha fabricada de certa raiz, usada pelos da terra em vez de pão, e ainda carne de javali, frutas e mais coisas que a terra produz em abundância. Seis homens e uma mulher não hesitaram em vir visitar-nos no navio para vê-lo e dar-nos boas-vindas. Como eram os primeiros selvagens que eu via de perto, é natural que os observasse atentamente e embora os descreva minuciosamente noutro lugar, quero desde já dizer alguma coisa a seu respeito. Tanto os homens quanto as mulheres estavam tão nus como ao saírem do ventre materno mas para parecer mais garridos tinham o corpo todo pintado e manchado de preto.

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Depois que os margaiás admiraram as nossas peças e tudo mais que desejaram no navio, pensando em outros franceses que por acaso lhes caíssem nas mãos, não os quisemos molestar nem reter; e pedindo eles regresso à terra tratamos de pagar-lhes os víveres que nos haviam trazido. Mas como desconhecessem o pagamento em moeda, foi o mesmo feito com camisas, facas, anzóis, espelhos e outras mercadorias usadas no comércio com os índios. Essa boa gente que não fôra avara, ao chegar, de mostrar-nos tudo quando trazia no corpo, do mesmo modo procedeu ao partir, embora já vestisse camisa. Ao sentarem-se no escaler os índios arregaçaram-se até o umbigo a fim de não estragar as vestes e descobriram tudo que convinha ocultar, querendo, ao despedir-se, que lhes víssemos ainda as nádegas e o traseiro. Agiram sem dúvida como honestos cavalheiros e embaixadores corteses. Contrariando o provérbio comum entre nós que a carne é mais cara do que a roupa revelaram a magnificência de sua hospedagem mostrando-nos as nádegas, na opinião de que valem mais as camisas do que a pele.

Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil (1577),
Capítulo V – DO DESCOBRIMENTO E PRIMEIRA VISTA QUE TIVEMOS DA ÍNDIA OCIDENTAL OU TERRA DO BRASIL, BEM COMO DE SEUS HABITANTES SELVAGENS E DO MAIS QUE NOS ACONTECEU ATÉ O TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO

28 de Julho de 2006

O culto do ócio

Brasil, Sociedade

Antes de encerrar esta série sobre o papel do espírito protestante na formação e na glorificação do capitalismo (a despeito do choque muito evidente com a pregação de Jesus a respeito da acumulação de riquezas), não tenho como não enfatizar que tudo que discutimos até aqui aplica-se diretamente apenas às nações ocidentais do hemisfério norte.

Nosso aquário ideológico aqui no Brasil é outro, e é apenas recentemente (digamos, sessenta anos) que a pregação americana do culto da perfomance tem alcançado verdadeira penetração entre nós – especialmente na metade meridional do país e nas capitais em geral – e, mesmo assim, com assimilação e resultados mistos.

Eu não ganho pra isso.

Graças a uma colonização diferente, o que professamos e praticamos aqui é uma postura virtualmente oposta a de americanos e europeus: eles têm o culto da performance, nós temos o culto do ócio.

Fomos colonizados por senhores católicos e portanto latinos; o espírito protestante não deixou mais do que uma marca de dente nos anos da nossa história colonial. Nossos colonizadores criam de todo o coração em desfrutar das riquezas deste mundo, mas desconfiavam com a mesma convicção do mérito do trabalho. Sujar as mãos era coisa de escravo, e trocar a nossa roupa e dar-nos banho trabalho de criado. A agenda do senhor colonial era bocejar entediado, fazer o filho de cada dia, olhar pela janela e ver o espetáculo dos que davam o sangue para acumulhar riquezas em seu nome.

O culto do ócio é a crença de que feliz mesmo é quem é rico sem ter de trabalhar. Pela sua onipresente influência, vivemos todos no Brasil a eterna expectativa de ganhar na loteria, de arranjar algum emprego público, de granjear um cargo de confiança, de encontrar o padrinho perfeito, de descansar numa aposentadoria precoce. Eu não ganho pra isso – é sua rancorosa profissão de fé.

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Este documento faz parte da série

O rico e seu camelo

  1. O Rico e seu Camelo
  2. A teologia do Capital
  3. O culto da performance
  4. O culto do ócio
21 de Julho de 2006

Morretes

Brasil, Fotografia

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Tenho fascínio irrestrito por cidades que se espraiam à margem de rios, especialmente as que tem a decência de manterem-se pequenas e subdesenvolvidas.

Passei em Morretes, que fica a meio caminho das praias para quem desce a Serra do Mar pela Estrada da Graciosa, parte do dia e a noite de quarta para quinta-feira desta semana. Anoitecia e a energia elétrica da cidade inteira começou a falhar ocasionalmente, como se Deus brincasse irrefletidamente com um imenso interruptor. Em determinado momento, enquanto eu caminhava pela rua principal, a luz acabou de vez e quedei perplexo diante do espetáculo da escuridão completa e surreal que engoliu as calçadas de pedra, as casas velhas que nascem sem quintal diretamente na rua, os pedestres voltando para casa e as banquinhas de xis-salada. Debaixo de um canteiro obscenamente belo de estrelas, começamos a assobiar para não atropelarmos uns aos outros, pois éramos cegados periodicamente pela luz eventual dos faróis dos carros. De vez em quando perolava um vagalume, um satélite cruzava o céu, ardia o cigarro de uma bicicleta que passava.

Nessa treva acolhedora, passando por um botequim ou outro iluminado por vela, caminhei de volta para o Hotel Nhundiaquara, onde aguardava um quarto com pé direito impossivelmente alto, como se falasse de uma época em que a terra era habitada por gigantes.

A queda da noite, vista da janela do quarto do hotel
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Os morros de Morretes na manhã de quinta-feira
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O quarto do Hotel Nhundiaquara,
com pé direito de quatro metros de altura

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14 de Julho de 2006

O balé dos retornos

Brasil

Estive este final de semana no estado de São Paulo (Nova Odessa!) e pude verificar que minha memória não me enganava: motoristas paulistas e paranaenses fazem retorno de forma diferente.

O cenário é uma avenida de mão dupla com um canteiro entre as pistas. A ilustração [A] mostra como se faz o retorno em São Paulo – foi assim que aprendi na auto-escola em Bauru. A ilustração [B] mostra como se faz o retorno no Paraná.

Embora eu seja e permaneça paranaense de vocação e estado de espírito, a solução de São Paulo me parece esteticamente mais elegante; se não me engano fornece também espaço marginalmente maior para a manobra.

Outra curiosidade: em Sumaré (junto a Nova Odessa), ao contrário de qualquer lugar de que eu me lembre, a preferência é de quem está entrando numa rotatória.

09 de Julho de 2006

Inútil

Brasil, Goiabas Roubadas

A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar o dente
Tem gringo pensando que nós é indigente
Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil
A gente faz carro e não sabe guiar
A gente faz trilho e não tem trem pra botar
A gente faz filho e não consegue criar
A gente pede grana e não consegue pagar
Inútil
A gente somos inútil
Inútil
A gente somos inútil
A gente faz música e não consegue gravar
A gente escreve livro e não consegue publicar
A gente escreve peça e não consegue encenar
A gente joga bola e não consegue ganhar
Inútil

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Ultraje a Rigor